sexta-feira, 30 de novembro de 2018

[Oficina literária 28] QUE COMECEM AS CALIFÓRNIAS – crónica de Kelson Kaputo

Vocês já sabem como é a cidade de Benguela. Uma amiga minha costumava dizer que Benguela era uma província burra. Ela não sabia explicar a razão dos insultos, mas sei que acusava a cidade de não saber dar valor aos seus produtos internos brutos, e sei com toda a certeza que a acusava também de ter dificuldades de gestão em época chuvosa.

“Benguela nos castiga muito!”, dizia a mulher. Se calhar a pobrezinha tem razão, mas não era preciso ofender de tal maneira a nossa mãe. Até porque ela se esforça em tentar gerir bem as coisas, eu sei que aquelas chuvas do mês de Março não são por mal, aquele sol de Fevereiro, Março e Abril que deixa pobres estudantes peões da recta da paciência confundidos ao tentar saber se era pelo sol das doze e quarenta (que fazia doer a cabeça), ou era por causa dos conteúdos de lá da escola (que para começar não são bem facilitados, facilitando aquele desgosto e desconsideração pelos estudos). Mas enfim.

Eu ponho-me a pensar em torno disso porque é dura a realidade de viver em bairros esburacados sem saneamento. Quando chove não se deseja nada mais senão saber voar. Mas é na terra das acácias que se encontram todas as cordas que (cada uma delas e em conjunto) libertam sons em melodias de cantar e encantar até aos confins do corpo de viola da nossa mboa Angola. E houve já quem dissesse uma vez que se Benguela não repousasse dentro do território angolano, este com certeza seria um deficiente cultural. Aqui vivem pessoas de todo tipo; belas donzelas, vozes de rouxinóis e saem até presidentes. Pelo menos é o que eu tenho visto.

Uma vez eu sentado, passava por mim um homem. Percebi ter o nome de Joaquim Sanga, na sua actividade laboral, com um semblante que trazia todo o tipo  de mensagem não verbal que comunicavam pobreza, luta e morte da alma. Sentindo-se derrotado pelo cansaço, decidiu calmamente render-se ao suposto conforto dos bancos assentados no jardim sintéticos do tal aclamado Largo d’África.

Aquele estava a ser um dia bastante violento e não era só do sol mas da cidade em si. Um pobre vendedor ambulante que não via em sol nenhum a esperança de um novo dia, quanto mais a lua e as estrelinhas? E como se não bastasse um polícia decide forçá-lo a abandonar um dos assentos públicos, que de facto era público, por ser um vendedor ambulante. “Desculpa senhor, o senhor deve-se levantar porque este lugar é público.” Pareceu até uma guerra de esfomeados. Todos ouviram a pergunta dirigida ao agente: “Desculpa ainda, chefe, público não quer dizer para todos?” “Sim, senhor, é sim”. Vês? Nem se percebe quem tem razão ou quem não sabe do que fala ou do que faz.

Mesmo depois de ter sido a sua pergunta confirmada pelo mesmo polícia de fiscalização pública que um bem público é um bem de toda gente, levantou-se. Era um homem educado, não tinha o objectivo de lá comercializar os seus acessórios de telemóveis, mas isso não o livrou de ser jogado novamente para aquele sol que por sinal estava sob tutela do diabo. Sentiu-se assassinado, considerando o facto de que ser assassinado no final das contas não é nada mais se não tirar de alguém o poder de ter vida na terra, não obstante o pai mandar não haver privilegiados entre os irmãos em casa.

Durante a guerra dos lobos famintos para liderança de Angola, em 2017, João Lourenço encheu de água as nossas bocas ao prometer a transformação da terra das acácias em Califórnia. Promessa muito é dívida.

Então que venham as autarquias! Vamos cozinhar a nossa própria comida, mbora lá fazer a nossa própria cama e pôr lá a dormir aquele grupo social que diz “o país já tem dono” e abre as pernas para aqueles jogos de lançamento dados que diz NÃO TE IRRITES, mesmo que matem as tuas peças. Verdades que me trazem lágrimas aos óculos. E já agora, se a Califórnia que nos prometeram for apenas física, então não adianta. Vamos fazer primeiro uma Califórnia psicológica, pois a alma do homem não pode estar onde ainda lhe possam matar.

Kelson Kaputo

SOBRE O AUTOR


António Quelson Kaputo, residente em Benguela desde 17 de Agosto de 1997, de 21 anos de idade, tem como profissão as actividades ligadas à área da comunicação social (propriamente comunicação e imagem). É Formando na Universidade Katyavala Bwila no curso de Licenciatura em Linguística/Inglês, ama a literatura e alimenta um sonho veemente de ser professor, escritor, interprete e empreendedor. É um homem determinado que acredita no amor e no poder pessoal, e conhece de perto o que é ser um jovem da periferia. 
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[Oficina literária 27] MISTERIOSA FEMINIDADE – poema de Armando Dias de Sousa


Misteriosa feminidade

"Nos teus seios o mistério dos desejos"
Onde se cruzam os caminhos
Com que se fazem os prazeres.

"Nos teus lábios o prazer boémio"
"Onde se alimentam loucuras e esteses"
"Endossada no coração dos poetas"
"E na majestosa arte de pintar quadros"

Oh! Misteriosa feminidade

"Os abraços por detrás dos lençóis"
(Os chouriços por dentro dos rissóis)
"A nudez com que te entregas aos varões"
Vai tudo além disso

É o seu corpo arquitetado
Que resplandece o retrato 
De uma alma vivente
E o seu olhar íntegro 
Que congestiona a insinceridade dos homens
E a razão avessa dos sexos.

Armando Dias de Sousa


SOBRE O AUTOR

Armando Dias de Sousa nasceu em 1991 na província (e município) de Benguela, bairro da Lixeira, actualmente residente no bairro 71. Desde 2010 que se interessa pelo mundo da literatura, apaixonado pela poesia. Um dos primeiros livros lidos o “Consulado do Vazio”, livro que lhe foi ofertado pelo mano Silivondela.
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[Oficina literária 26] – poema de Pedro Kamorroto

mar de loucos afluentes que se me atravessam
adentro o centro nevrálgico do po(fo)der e grito bem alto:

ré nuncio este presente-futuro-futuro-presente embebido
na baunilha de pali ativos actos

o país (político) é risível
não há bisturi que opere as chagas da transparência ou resgate
enquanto que o tecido social é condecorado por fazer travessia no deserto da miséria 


Pedro Kamorroto ou talvez Pedrospectivo

SOBRE O AUTOR

Pedro Kamorroto ou Talvez Pedrospectivo é um dos alter-egos de Pedro Nascimento Francisco, eterno viajante, cidadão do mundo, de nacionalidade angolana. Nasceu no vigésimo segundo dia do décimo mês do ano civil 1988. É licenciado em Engenharia de Telecomunicações pela Universidade de Ciência e Tecnologia de Lanzhou, China, teve também uma passagem curta pela ISCED de Luanda ex unidade orgânica da Universidade Agostinho Neto.
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quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Editorial: E NÓS, QUEM SOMOS? (por José Kaliengue, Jornal O País, 28.11.2018)


Está a decorrer a feira do livro de Guadalajara, no México, em que Portugal é o país convidado. Trata-se da segunda maior do mundo, um palco obrigatório de se estar. Uma das melhores formas de um país se apresentar ao mundo. Quem não escreve, quem não é lido, não é conhecido. Angola tem de aprender isso.

É bom promover as kizombadas e ku-duros, é bom vermos altos dirigentes a dar um pé de dança, mas é demasiado triste não conseguirmos dizer palavras ao mundo. Não há notícias de participação angolana em Guadalajara. Talvez para o nosso estado a literatura não seja importante, aliás, nota-se como estamos.

É preciso incentivar a leitura e a escrita. Não de amigos, mas da alma angolana.

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terça-feira, 27 de novembro de 2018

[Oficina literária 25] E SE EU FOSSE FISCAL? – poema de Henriques Fortuna

E se eu fosse fiscal?

O comboio ainda não chegou
Mas já há empurrões na estação
O Sol nem sequer se espreguiçou
As vendas já estão em acção

O cheiro dos grelhados é obeso
Gordura sobre o carvão aceso
Escorre acelerando a chama
Apressada, a cliente reclama

Por que a demora é tanta?
-- Tem calma, minha santa
O comboio não vem agora
Só daqui a uma hora!

Moscas gravitando o fogareiro
Qual exército em desfiladeiro
Não repulsam cativos pelo che'ro
Querendo afogar  desespero

De repente

Soa o som da sinada
E lá vem a maquinada
A gente toda atrapalhada
Começa o caos na parada
Desmanchando toda filada

Entre o chega para cá e p'ra lá
Ninguém impõe ordem ao pessoal
Que aspira alcançar o portal
Partindo p'ra jornada laboral
E se eu fosse fiscal?

Henriques Fortuna                                                                                            Cazenga, 22/11/2018

Feira Internacional de Luanda (FILDA)

SOBRE O AUTOR

Henriques Fortuna, formando em Língua Portuguesa e Literatura pelo ISCED-Luanda, poeta e cronista, autor de textos dispersos, publicados, alguns, no espaço semanal de poesia e sugestão de leitura, no programa “GENTE VIVA” da Rádio Cuanza-Sul, enquanto formando na E.F.P do Cuanza-Sul, 2013-2016. Tem escritos poemas de temas variados, «DE FÉRIAS NO EXÍLIO» denunciando a correria, os infortúnios e a alegria dos angolanos.
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[Oficina literária 24] BIBLIOFILIA… – crónica de Amândio Jamba Favor

Num ambiente sem gosto os meus ranhos ausentaram-se, as fossas nasais ficaram desertas, os meus pés já não queriam andar, mas as ideias choviam incessantemente sem parar no “entre ambos os dois” dum vizinho que afinadamente lançou o seu pretuguês vindo de Portugal dos portugueses sem colono. Os meus pensamentos lembraram-se dos “livros” que já li… Quantos “livros” já li? – Já não me lembro. Enquanto os meus conhecimentos faziam perguntas, a minha cavidade bocal as respondia. Os meus ouvidos ficaram distraidamente atentos ao ouvir a pronúncia ávida de um andante sem destino, ao dizer que já tinha lido tantos “livros” e que ele era o rei da zona quanto às “leituras” e “aberturas” dos próprios “livros”.

Acalmou-me a alma, pois levou-me a lembrar que actualmente todos “abrem os livros”. Uns para os ler e outros para os emprestar a outrem. E quem não tem livro não precisa de se preocupar porque havia quem o emprestasse caridosamente. – Quem diria!!! Mas até aqui nada mal. Porém frustram-se-me os ossos quando vejo os jovens e os velhos a “abrirem livros” infantis. Há gente com cara de pau. “Abrir um livro” infantil e “avançar” para outras paginas?!– Que vergonha hein!!! Mas é mesmo necessário que se leia um livro de jovem, de adulto para que se perceba que os “livros” infantis não servem para jovens nem para adultos e nem para ninguém. Por isso não se deve “abrir um livro” que não atinja as nossas perspectivas e nem sacie o nosso prazer “intelectual”.

Quem “abre” um “livro” infantil rasga todas as suas páginas… Enquanto os meus pensamentos organizavam as ideias para maldizer os falsos leitores, recebi um baptismo repentino vindo do céu que em poucos segundos enlameou o chão e este com raiva queria empurrar-me contra o chão. Dei um oi à vizinha e fui para cama a fim de ter boa noite. Abracei os meus lençóis sem testemunhas…

Amândio Jamba Favor

SOBRE O AUTOR

Amândio Jamba Favor nasceu em 1992. Fez o ensino médio no Seminário Médio do Bom Pastor no curso de Ciências Humanas. É licenciado em Ciência de Educação, opção Ensino de Língua Portuguesa no Instituto Superior de Ciência de Educação (ISCED)-Benguela.  Além do português, domina o inglês e o umbundu. Dedica-se à escrita de contos, fábulas e crónicas. É professor colaborador dos colégios Pitruca e Pim Pam Pum em Benguela.
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segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Obituário | Para onde vão os poetas, ó confrade Frederico Ningi?


O mês de Novembro de 2018 parece conspirar contra a União dos Escritores Angolanos (UEA), pelo menos na dimensão formal da agremiação, que se vê duplamente empobrecida em virtude do falecimento de dois membros. Faleceu hoje (26/11) em Luanda, de causa natural, o poeta e fotógrafo Frederico Ningi, à direita na foto, autor de "Os Címbalos dos Mudos" (1994), "Infindos na Ondas" (1998), "Títulos de Areia (2003) e "Sandumingu" (2011). Nasceu em Benguela a 17 de Fevereiro de 1959. A sua morte acontece pouco menos de uma semana depois do enterro de outro poeta da geração de 80, António Panguila, vítima de AVC. Frederico Ningi, um dos pilares da comunicação institucional da Sonangol, foi dos poucos artistas que se dedicaram à poesia visual, com uma técnica que combinava a fotografia, o texto poético e a pintura digital. 

Homem de poucas palavras e afável, conheci-o por intermédio da escritora Paula Russa no ano de 2009, aquando do nosso ingresso à confraria da UEA. No ano de 2013, foi-nos incumbida a missão de representar Angola na 26.ª Edição da Feira do Livro de Jerusalém, república de Israel, sob patrocínio da nossa embaixada, da qual as fotos fazem referência, tendo ele liderado a delegação que integrou também o confrade Bonavena. Fica-me gravado na memória um Ningi que jogou um papel relevante (inconfidências à parte) por ter sido um dos mais-velhos que me ampara(ra)m nesta carreira literária, tendo sido ele o responsável nos bastidores pela oportunidade que tive de ser entrevistado no programa FAIRPLAY, da TV Zimbo, no ano de 2014, quando eu me encontrava em Luanda por razões profissionais. Perdemos!!! Onde quer que esteja a tua alma, mais-velho, conterra, confrade, colega, siga brilhando. Até sempre.

Gociante Patissa | Benguela, 26.11.2018 | www.angodebates.blogspot.com
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Opinião | Reconhecer os males da colonização talvez seja pouco


Tenho sido adepto da corrente que faz campanha para que Portugal, à semelhança do que vêm fazem a França e a Inglaterra, tome uma posição política pública no sentido de reconhecer e reparar as atrocidades cometidas durante a sua dominação de países africanos. É o preço da história.

Neste quesito, o país luso, por meio das suas autoridades, tem-se inclinado mais para uma omissão, acoitando-se (tal como ontem, na falácia do ultramar) na ladainha de serem, Angola e Portugal, "países irmãos". É um clichê que o presidente angolano João Lourenço, curiosamente, não subscreveu na sua visita inaugural ao coração do ex-colonizador, preferindo, antes e bem, ficar-se por "países amigos".

Há uma história comum que não pode nem deve ser suavizada nas suas sequelas, o que nada tem que ver necessariamente com xenofobia, neonativismo ou o que valha, contra quem quer que seja. A questão não reside no quanto o indivíduo europeu se sinta/identifique mais ou menos angolano e prefira viver cá, mas, sim, na gestão de passivos históricos por Estados, havendo famílias que ficaram e ficarão para sempre afectadas por conta do expansionismo racista e fascista dos regimes portugueses que reinaram em Angola até 1975.

O presidente Marcelo Rebelo de Sousa teve a feliz saída de tomar uma decisão pública no sentido de assumir os males da presença colonial portuguesa em África, contrariando assim correntes que defendem não mais se tocar no assunto ou simplesmente rasgar as páginas de capítulos perniciosos, volvidas quatro décadas de independência, assim de repente e num toque de mágica, considerando que a geração actual já não tem a ver com a dos combatentes pela liberdade. Contra a corrente, o professor Marcelo sai-se bem na fotografia, justamente numa fase em que a França, por iniciativa do presidente Macron, instituiu uma comissão que visa devolver o espólio imaterial usurpado em África.

Convenhamos, chegados a esta etapa, ganha-se o direito de cobrar o passo seguinte, conhecendo como se conhece a natureza circunstancial do discurso político. O que irá Portugal fazer para melhorar alguns aspectos, de que fazem parte a representação e representatividade das comunidades africanas nas vertentes social, cultural e política?

Não faltarão certamente almas que se sintam melindradas, mas o certo é que há um longo caminho a trilhar para se chegar a uma integração do "não branco" (quanto mais escura a tez, pior) nas sociedades ocidentais. O pior é que a negação deste mal, algumas vezes em apelativo sofisma e/ou relativização na voz de quem nunca o sentiu, não ajuda em nada o salto necessário ao bom-senso e humanidade.

E talvez não baste que as antigas potências colonizadoras reconheçam os malefícios da sua presença em África. A diferença estará em reconhecer e valorizar as realizações artística, intelectual, cultural e afins, sem que o critério seja o de se "estar perto daquilo com que o consumidor europeu já se identifique". Foram muitos anos de um sistema paternalista, pelo que resulta sendo natural que no seu olhar sobre as sociedades africanas vigore, ainda que inconsciente, a protecção da comunidade ultramarina e seus descendentes (não a África como tal, mas o nosso ideal de África que civilizamos). Eis a dolorosa percepção que se colhe em contestações de vários movimentos africanos da diáspora.

Para o melhor de todos, urge que, na alteridade intercultural, as lógicas de mercado reabram e alarguem o espaço para as linguagens e sensibilidades do “outro protagonista”… com quem não se partilhe ascendência. Só reconhecer o mal da colonização talvez seja pouco. Ainda era só isso. Obrigado.

Gociante Patissa | Benguela, 26 de Novembro 2018 | www.angodebates.blogspot.com
Foto: Diário de Notícias
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domingo, 25 de novembro de 2018

[Oficina literária 23] ESPERANÇA DEPRAVADA – poema de Manuel Mulula

Esperança Depravada

Minha, tua 
Mas muito minha ainda mais... 
Magra, cansada e vergastada
Vestida à África


Descalça, sem idade
Sozinha vagarosamente vagueia
À procura de nome, de terra
de identidade


Linda feita ferroso fardo
Do tamanho do mundo
Sobre minhas costas indigentes


Uma esperança que nasce 
e desagoa
No mesmo bairro, no mesmo povo
Na mesma voz... 


Uma esperança que não conhece
o cheiro de giz
E penosamente nunca soube 
o que Quadro para Todos diz... 


Manuel Mulula 

SOBRE O AUTOR

Manuel Francisco Mulula nasceu na comuna de Luremo-Cuango, província da Lunda-Norte, Abril de 1992. Vive no Lobito, província de Benguela, desde os seus sete anos de idade. É estudante do 3° ano no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED-Benguela) da Universidade Katyavala Bwila, na especialidade de Ensino da Língua Portuguesa. 

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sábado, 24 de novembro de 2018

[Oficina literária 22] NA ESTRADA DA VIDA… – poema de Júlio Teixeira


Na estrada da vida

Na estrada da vida,
Onde o trânsito é agitado
Onde todo o mundo é apressado
Eu viajo sempre
Como se fosse um aleijado
Ou um deficiente
Extremamente doente.                             

Na estrada da vida 
Cada dia é diferente
Às vezes, quase todos iguais.
A cada mês nasce gente
Como fruto de certos casais
E também de não-casais.

Na estrada da vida
Mulheres servem de atropelos
E as bonitas; grandes acidentes:
Damas lindas dos cabelos
Aos perfeitos brancos dentes.
Através delas o trânsito se agita
E o semáforo perde o seu valor
Porque com qualquer dama bonita
Até o mais nobre choca no amor.

Na estrada da vida
Cada dia tem um atropelado
Que não aguenta a batida
Na enorme estrada da vida
Quase todo o mundo transpira
O calor da apreciada mentira
E poucos são os fiéis da verdade.
Enfim, na estrada da vida
Há sempre muita novidade
 De manhã, de noite e de tarde.

Data: 28/05/2015

SOBRE O AUTOR

Júlio Novady Dimas Teixeira é um jovem benguelense que adora e sempre adorou escrever, pois desde cedo já brincava com as palavras. É filho de um médico contador de histórias e de uma professora de Língua Portuguesa. Seu maior sonho é ser escritor, razão pela qual fez Língua Portuguesa/EMC na EFP-Benguela, e actualmente frequenta o ISCED, especialidade de Linguística/Português.

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[Oficina literária 21] FIGURAS PÚBICAS – poema de Rodino Sapateiro


Figuras públicas

Figuras de papel
Sem papel nenhum
Aliás com único papel
Sujo, podre e nauseabundo
Cuja sanidade! Cuja sanidade!
Hum! Só uma cegueira pode ver
Só persona líquida solidifica


Protegidas em vasos de papelão
Agarradas por unhas carentes
Viralizam e matam
na febre da audienciopatia
e estupram nosso chão

Há figuras púbicas publicadas
Figuras sem forma
Vinho em janta
Num hobby de vidas ocas

Há figuras púbicas publicadas
no altar da media
pontificam a nudez
no desleixo ensaiado
pontes ficam abanadas

Reconhecidas e autorizadas
invadiram o domicílio da moral
despiram e vestiram a nação
a TV e as rádios
nossa música
Nossas vidas

Essas figuras exaltadas
Ahhh! Excelentes professores!
Ensinam sabedorias
que fama é fim último
aparência é verdade
verdade é mera aparência
quem tem é o maior
melhor língua é mediocridade
melhor cultura é sexismo
que pele negra é tristeza
ser da terra é ser kakuti.
E num esforço arqueológico
abrem buracos
num torto endireitar de veredas

Há figuras púbicas publicadas.
RODINO SAPATEIRO, 23 de NOVEMBRO 2018

SOBRE O AUTOR

Rodino Satelo Ngumbe, natural do Lobito. Professor, licenciado pela UKB, faculdade de Ciências da Educação. Exercita-se, há já alguns anos, escrevendo sobretudo crónicas e poemas
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sexta-feira, 23 de novembro de 2018

[Oficina literária 20] NAS UTOPIAS DE ZUWA – crónica literária de Gonçalves Handyman Malha


Zuwa era um jovem que vivia na casa de renda com seis filhos e a sua esposa, Kunanga de trinta anos, passava o dia a jogar nantérrite e a sua esposa passava o dia a jogar cartas de dinheiro para poderem sustentar os filhos. A necessidade de sustento e de garantir o futuro para a família pesava sobre a consciência do Zuwa. Ele queria ser polícia, por isso lutava por uma vaga naquele órgão pertencente ao Ministério do Intestino Grosso. Para que concretizasse seu desejo, tinha de reunir documentos para se candidatar. Se candidatar? Diga-se de passagem, porque no Intestino Grosso todos eram tão unidos, por essa razão, todos eram da mesma família. Daí que Zuwa não era propriamente um candidato, mas sim um familiar, assim sendo, cada funcionário atendia seu familiar.

Na senda de tratar documentos, dirigiu-se à administração do Intestino Grosso, depois de suportar uma fila, aguardou durante duas horas diante da janela em que supostamente se fazia atendimento, apreciando os trabalhadores que simplesmente riam, sorriam, batiam-se nas costas e atendiam cada um a seu familiar não pela janela, mas de modo mais amigável e discreto possível. Não demorou tanto para que Zuwa encontrasse um familiar. Acenou para que alguém o viesse atender, foi convidado a entrar depois de explicar o seu intento, a senhora perguntou-lhe:
Tens quanté? – Ele não era muito instruído, mas pôde ver que por apenas 350 fezes (moeda nacional do Intestino Grosso), obteria ou trataria o documento.
Você leste bem? Perguntou a senhora se são 350 fezes, intão pede na própria vitrina que te atenda, de outro modo tens que pagar 35.000 fezes. — Concluiu.

Não havia outra hipótese, por isso consentiu. Depois de fecharem o contrato, a senhora dirigiu-se ao seu chefe dizendo que Zuwa era seu irmão, e que precisava do documento com alguma urgência, aliás, como disse, no Intestino Grosso todos eram da mesma família. Não tinha dinheiro suficiente, mas também não era problema. Ele e seus amigos organizaram uma festa, na verdade, uma orgia. O panfleto foi colado nas paredes e a adesão não se deixou esperar. Todos desejavam estar lá, pois o panfleto chamava muita atenção; nele estava uma jovem com o tamanho das ancas de um elefante e seios dilatados do tamanho das vacas. Os jovens do Intestino Grosso eram peritos em realização de festas e as mulheres não pagavam, porque no Intestino Grosso as mulheres eram como cervejas, TV plasma, ou seja, eram móveis, pelo que, não compravam ingressos porque eram objectos, mas podiam ser compradas pela mesma razão. Mas havia uma condição, tinham de ir semi-nuas, estando ou não em período fértil, assim mandava a cultura dessa zona. A festa correu e ocorreu.

Zuwa conseguiu os 35.000 fezes e pôde ter os seus documentos, assim sendo, estava preparado para se candidatar, mas havia um outro problema, estava perplexo porque receava que a formação envolvia escrever e ler, e ele não sabia. Até que no discurso de abertura, o ministro confortou-o quando proferiu as seguintes palavras: a formação visará, sobretudo, a preparação física para que estejam aptos a cumprir suas missões, tais como, perseguição às zungueiras, torturas aos que pensam diferente, intimidação aos que desejam fazer ciência, isto é, produção científica, etc.

Completado o período de treino, sentia-se realizado por conseguir um trabalho no Estado, e tinha algumas valências acessórias: era matumbo e sabia conduzir motorizadas, o que era fundamental para qualquer polícia dessa zona, tendo em conta o número de estrangeiros. E quando estes últimos não tivessem a documentação, era só tirar-lhes a motorizada e ameaçar levá-la, que o dinheiro aparecia. Aí o agente não poderia ir até à viatura, nem conversar olho-nos-olhos com o automobilista, tinha de dar-lhe costas e este último tinha de seguir-lhe até que desse alguma coisa que não fosse documento.

Com essas valências, Zuwa não tinha como não ser bem-sucedido, sendo um homem totalmente feliz.


SOBRE O AUTOR
Gonçalves Handyman Malha, Pseudónimo literário de Gonçalo Domingos Salvador Quizela. É Professor, Ensaísta, Poeta, Estudante da Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto e Membro do Movimento Literário Litteragris. Natural de Luanda, participou em várias antologias e revistas literárias internacionais e nacionais. Coordenou a Revista Literária “O Fio da Palavra” em homenagem ao Lopito Feijóo.
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Convocatória aos participantes da 3.ª oficina literária do Blog Angodebates


A quem possa interessar, Sua Excelência Eu convoca os participantes da OFICINA LITERÁRIA que se encontrem a residir na província de Benguela para um breve encontro, tendo na agenda (1) a ideia de organizar um seminário de escrita criativa e (2) preparar o dia seguinte ao encerramento deste nosso enriquecedor fórum de crescimento conjunto por e-mail chamado OFICINAL LITERÁRIA DO BLOG ANGODEBATES. Em termos de datas, sugiro que seja à margem do lançamento do livro de crónicas de Lucas Katimba, agendado para a tarde de sexta-feira, 30 de Novembro, em local a confirmar, onde procederei à apresentação formal da obra. Até lá, empresto-vos a divisa do personagem IC, do conto A Morte da Albina, do meu livro de contos A Última Ouvinte: "Nós aqui só temos um lema, o nosso trabalho é trabalhar!"
Saudações!
Ainda era só isso. Obrigado. 
Gociante Patissa, Benguela, 23 Novembro 2018

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[Oficina literária 19] Adão e Eva e o MUNDO – poema de Madureira Kanambi


Adão e  Eva e o MUNDO

Ouviu-se um estrondo! não como o do Big Bang
Um barulho estranho mas muito alto mesmo
Pela TV vimos que tinha desaparecido um
Continente. Mas afinal não era o primeiro
Minutos antes um outro tinha-se afundado,
as rochas de água que o cercavam descongelaram

Sempre quis que o meu fim do mundo fosse ao lado dela
Com a rapidez com que se vai desmoronando o mundo
É provável que nem chegue a tempo de a encontrar
Corro que nem antílope para o seu endereço e vejo-a
A fazer churrasco no quintal, está sem energia em casa
Há dois dias, ainda bem que ela não vive o mesmo terror que
O resto do mundo. As vezes o melhor mesmo é não saber!

Do outro lado do mundo há choros e ranger de dentes,
Deus prometeu que nos não destruiria com água, mas
Também não disse que seria assim, uma morte sofrida
E dolorida, uma morte com terror e medo e sofrimento
Mas ao meu lado estava ela, alegre e inocente e feliz
Abracei-a e lhe disse Te Amo
A primeira vez que não menti e como mentir é pecado
Eu disse outra verdade, o mundo está a acabar, me abrace!

Esse barulho assusta-me e o silêncio me incomoda
Todo o mundo desmoronou menos nossa casa
Achamos graça ante a natureza e isso aumenta nossa aflição
Este silêncio amedronta-nos e a responsabilidade de voltar
A encher o mundo nos apavora
E precisaremos de ser iguais a Adão e Eva, irresponsáveis e desobedientes
Para conhecermos o bem o mal e a CIÊNCIA, senão não desenvolvemos
Mas com Ela do meu lado Está Tudo Bem...
Este Mundo com Você continua completo e eu Feliz...

M Kanambi

SOBRE O AUTOR

Madureira Kanambi, natural do Ukuma-Huambo, nascido em Janeiro de 1989, residente em Benguela; descobre o fantástico mundo da literatura em 2008 e por influência de amigos desenvolve o hábito e amor pela leitura. É Membro dos grémios juvenis "Leitores Compulsivos" e "Mais em Comum", onde tem desenvolvido actividades voluntárias no âmbito de educação Literária, Literacia com jovens e infantes e ainda em trabalhos sociais. 
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quinta-feira, 22 de novembro de 2018

[Oficina literária 18] UMA MORTE REVELADORA – conto de Kelson Kaputo


Era um dia quente, eu vi, eu estava lá. Estava a ser um óbito normal com rituais normais, familiares e amigos dos familiares, todos presentes naquele lugar para sentir a grande perda causada pelo pequeno Deonácio, ou Déo, como era tratado em casa como diminutivo. Eu até pensava que era diminuto de Tadeu ou Amadeu mas não, era de facto diminutivo desse nome tão lindo dado pelo pai, pai pelo menos no bilhete, porque para a ciência pai já não é só aquele que põe lá a semente mas também aquele que cumpre todo papel. De contrário eles dizem progenitores. Mas não vou cá me explicar muito para não perder o foco, até porque  não estou a  responder em tribunal.

A verdade é que o pequenino, que Deus o tenha, tinha uma paternidade duvidosa, o mano Ricardo, coitado, tinha a fama de não bumbar, era mbaco. Ficou muito arrasado quando o tratador lhe disse as mais duras verdades, mas o bom homem não viu o fim do seu mundo naquelas palavras. Por sorte ou azar, depois de se ter casado com Magda (que certamente é a mãe do menino), eles mudaram-se para um outro bairro numa casa alugada na expectativa de escapar das maledicências dos familiares intrometidos. Com muita tranquilidade fugiram para um bairro calmo e muito amigável, onde Magda viria a encontrar o ex-namorado numa casa vizinha.

Eu não sei dizer se era nas caladas das noites em que Ricardo ia exercer as suas actividades laborais prestando os serviços nocturnos, os tais chamados piquetes, lá na esquadra de polícia, que Magda abria as portas de casa para o Marcos, o ex-namorado, mas não demorou muito para a pobre mulher dar aquela notícia.
– Ricardo, estou grávida.
– Gravida! – Exclamou o homem quase se engasgando com a colherada de chocapique que ele tinha a descer pela garganta. Coitado.

Não havia dúvidas de que Ricardo era chifrado. Ele não podia direccionar nenhum discurso de descontentamento porque já pressentia a resposta, “pelo menos vamos mostrar um filho”. Ambos concordaram em assumir todo o esquema na maior discrição, até reuniram-se com Marcos e assinaram todos os acordos de paz.  É a partir desse conflito que Deonácio apareceu, a sua passagem pelo mundo foi muito curta, mas foi uma maravilha tê-lo a abrilhantar a vida do casal lá dentro de casa. Mas agora o rapazolas ja desfruta da companhia do Criador e isto era tranquilizante. O que era perturbante, eram as cenas que aconteciam naquele óbito. Ricardo e Mágda e seus familiares até que podiam chorar, mas o aparecimento de Marcos e sua irmã e seus familiares no local é que dava ao óbito o clima de suspense.   

Mas o clímax do conflito foi na hora do enterro. Lá no cemitério Marcos não se continha e chorava amargamente, o que levou o Pai de Ricardo intervir logo depois do elogio fúnebre, e isso levou a tia de Marcos levantar-se e explicar os sentimentos de causa. Uma plenária fora convocada para apuramentos de factos, e foi daí que todos souberam da triste cena protagonizada em volta de um menino inocente.

Kelson Kaputo

SOBRE O AUTOR

António Quelson Kaputo, residente em Benguela desde 17 de Agosto de 1997, de 21 anos de idade, tem como profissão as actividades ligadas à área da comunicação social (propriamente comunicação e imagem). É Formando na Universidade Katyavala Bwila. no curso de Licenciatura em Linguística/Inglês, ama a literatura e alimenta um sonho veemente de ser professor, escritor, interprete e empreendedor. É um homem determinado que acredita no amor e no poder pessoal, e conhece de perto o que é ser um jovem da periferia.
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