PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Oratura: Ocisungo cimwe cutundasonde, cateliwa okuyevalisiwa vo la njimbi Filipe Mukenga (Umbundu): "Uma canção do folclore Umbundu, também internacionalizada pelo músico Filipe Mukenga (Português)"


Ocisungo cimwe cutundasonde kUmbundu, cateliwa okuyevalisiwa vo la njimbi Filipe Mukenga

Humbi-humbi

Humbi-humbi yange
Yelela, twende
Kakele ka Cimbamba
Osala posi

Vakuene vayelela
Yelela, twende
Kakele ka Cimbamba
Osala posi
Elombolwilo: o humbi-humbi (olonoño viokutanga vayitukula vati Cicornia Abdimi) onjila yasiata vovisitu vyofeka yoNgola. Kesapulo lyutunda sonde, onjila eyi yakulihiwa longavelo yokuyevalisa ondaka yiwa, kwenda vo oyo yikwete ocimaho cokupalanla kupanla vilu, kumosi lokukonga olonjila vyalwavo oco vipalalenle kumwe. Esapulo lyo Taag.

Sekulu yumwe wasapela vulandu wetu, Ombembwa Angola (Umbundu), wacitiwa ko Cikomba, vo civanja co Huila, walombolola okuti Kacimbamba onjila yimwe yasoka nda ndonende. Haimolumwe, nda ño kayipalanla cenda oko loko, kacalelukile okuyiyeva, omo akuti yanyanga.
Humbi-humbi
TRADUÇÃO: Uma canção do folclore Umbundu, também internacionalizada pelo músico Filipe Mukenga


Humbi-humbi

Humbi-humbi meu
Voa, vamos embora
Coitado do Kacimbamba
Que não sai do chão

Os outros estão a voar
Voa tu também
Coitado do Kacimbamba

O HUMBI-HUMBI (Cicornia Abdimi) é um pássaro muito comum na fauna angolana que segundo a história tradicional anuncia as boas novas, que aspira voar mais alto e que chama os outros pássaros para voarem consigo, segundo a Taag.

Segundo fonte oral do Blog Ombembwa, oriunda de Cikomba, Huíla, Kacimbamba é ave, de tamanho menor que uma perdiz, com quem tem semelhanças. Entretanto, o facto de não ir além de esvoaçar não torna aquela ave vulnerável à caça, de tão hábil que é.

Gociante Patissa, Benguela 29/08/2011
Ociluvyaluvya casangiwa - fotografia de http://ibc.lynxeds.com/photo/abdim039s-stork-ciconia-abdimii/bird-walking-ground

Alguém aconselharia comerciantes chineses a terem clemência comigo?

Nos Estados Unidos, cidade de Portland-Oregon, em 2010, fomos visitar jardim chinês e aproveitamos saborear a gastronomia daquela nação oriental. O menu vinha em chinês, que não entendo a ponta de um corno, e em Inglês, em nomes com que ando muito pouco familiarizado. O comerciante resolveu o impasse indo aos berros. Hoje, em Angola, cidade de Benguela, deu-se a mesma coisa na oficina de um comerciante chinês, onde fui encomendar janela de alumínio para a obra. Desta vez, a "língua franca" foi o português.  Alguém aconselharia comerciantes chineses a terem clemência comigo? É que nem sempre se consegue ser "fast learner".

domingo, 28 de agosto de 2011

Angola fica com o segundo lugar no Afrobasket, eu diria, e não é pouco.

A selecção da Tunísia foi superior e conquistou a edição 2011 do Afrobasket, ao derrotar os campeões em título por 56-67. Angola adia assim a possibilidade de angariar onze taças. Em função do desempenho, claramente inferior ao que vem sendo habitual, a safra de Angola é bastante positiva.

Viva o desporto, viva o desportivismo.

Gociante Patissa, 28 Agosto 2011

Um excelente instrumentista. Até parece que o violão tem fôlego.





sábado, 27 de agosto de 2011

Crónica: O volátil pregão de um «quase poeta»

São 21h13 horas, quando dou por mim a abrir a tampa do depósito, após umas quantas hesitações. Nas bombas da Sé Catedral, a única viatura, justo em noite de sexta-feira. Via-se mesmo que era daqueles dias dignos de riscar do calendário, por nada terem de especial.

Vinte litros, pedi, sem me preocupar com quantos tostões haveria de poupar para o matabicho da manhã seguinte, como há semanas não ocorria. Era tão bom que o fim do mês fosse mais de uma vez por mês… era, era!

Estendo dois mil em nota. O atendedor tarda com o troco, clemente, enquanto selecciona quais das cédulas a menos rota. Neste instante, ouve-se berro de um casal (nada sensual, quando até estavam à porta de hospedaria). Ele contorce-se de dores no ombro, onde a rapariga acabava de aplicar uma impiedosa dentada. Ela, em jeito de justificação implícita ante os olhos curiosos, completa: “me larga, merda! Já disse que não gosto dessas brincadeiras”. A lágrima não cai, não devia ser nada de grave.

Ele aproxima-se, deixando-se revelar pelo sorriso fluorescente das bombas. O perfil desmente a noção de casal, sequer conhecia a mordedora. Devia ter uns de vinte e tal anos, médio de estatura, porte físico anónimo, farrusco. Entretanto, causavam-me certa inveja o cabelo desgrenhado e o sentido de liberdade pura, excepto os surtos de demência. “Meu mano, a gente batalha tanto de dia para conseguir um telemóvel desses. Agora quero vender ao meu mano a bom preço”. Não! Não são horas de comprar telefone, digo em tom de censura, presumindo tratar-se de produto roubado… para as drogas.

“Dinheiro também é só papel!”, diz-me, atrevido. Depende de como o ganhas!, devolvo, talvez com orgulho ferido. Por alguns instantes, custa-me reduzir a simples papel o que me chega via salário. O «quase poeta» continua: “Quando morremos, não levas nada, só o coração parado e os teus c…” (refere-se a um par de testículos – os meus –, tratados por aquele nome nada cristão). “É quêêê? Tudo fiicaaa!”, insiste, seria escusado dizer insolente.

Toma conta de mim algo estranho, podia ser raiva, ou vontade apenas de lhe responsabilizar pelas bocas. Chego mesmo a considerar um par de estrondosas galhetas, que seriam, aliás, matematicamente, proporcionais ao citado, oculto onde terminam as pernas e começa o tronco, como diria certo escriba. Ou estaria eu a misturar emoções?

Horas antes, um amigo, jornalista, esteve a azucrinar-me, uma vez mais, por ainda não ter filhos. Foi preciso lembrar-lhe, mais a mim do que a ele que de certeza não sabia, da miséria que marcou minha adolescência. Trabalhar para sustentar os próprios estudos, desde os quinze anos, é maçada que não espero ver repetida por eventuais filhos meus. Portanto, sublinhei, teremos visões diferentes enquanto eu não subscrever a mentalidade atrasada que valoriza a pessoa pelo quanto pro-cria, havendo ou não condições para o sustento.

A vida é para se desfrutar com pressa, parece ser essa a lei do meu amigo jornalista, sublinhada horas depois pelo volátil pregão de um «quase poeta» de rua. É como se agora surgisse uma agência Moody’s, em miniatura, para andar aos rankings com o que fazemos com o nosso salário e, oh tirania, com os nossos próprios testículos.

Gociante Patissa, Benguela 27 Agosto 2011

domingo, 21 de agosto de 2011

Vozes d'Africa, grupo Makoma e o tema "Napesi"

Reflexões literárias: «O Meu Pai» de Avelino Sayango

Contracapa

Avelino Sayango nasceu em 1951, em Kaikela-Kaimbambo. Depois da escola primária, tirou o 5º Ano do Curso Geral dos Liceus. Mais tarde, estudou na Suiça onde frequentou um Curso Comercial e obteve o respectivo diploma. Durante alguns anos, foi administrador do Hospital de Kaluquembe, e depois da IESA (Igreja Evangélica -antes do Sudoeste – Sinodal de Angola). É casado e pai de dois filhos. Através das suas recordações de infância, o autor descreve a forte personalidade do seu pai, que tão profundamente o marcou. É uma história sincera e bela, contada em primeiro lugar a Angolanos por um Angolano. Fiel à verdade dos acontecimentos que refere, mas sem ódio, esta narrativa não deixará de atrair todo o leitor que tenha gosto em ver, através dos olhos do autor, aspectos pouco conhecidos do ambiente angolano.

Nota do Angodebates: Avelino Sayango veio mais tarde a ser transferido para Luanda, onde faleceu por acidente rodoviário há coisa de cinco anos. Deixou um livro no prelo, entretanto em parte incerta, segundo revelou Salomão Ngandu, irmão mais novo. Gociante Patissa, Benguela 21/08/11

Tive acesso ao livro autobiográfico «O Meu Pai» de Avelino Sayango, de quase 200 páginas, editado pela Barquinho – Livraria Evangélica, Luanda, Julho 1997, impresso na capital da Namíbia.

O telegrama: Paulo Viana – Benguela – comunica seu primo Avelino Sayango Administrador do Hospital de Kaluquembe e demais familiares falecimento seu pai António Ventura – ocorrido dia 15/2/84 pelas 17h40 e pede por isso sua comparência (pág. 8).

O acontecimento acima é o mote do livro, dentro do qual o autor dá a conhecer, a partir da sua vivência familiar, a vivência da sua comunidade e das demais por onde passou, bem como a caminhada para sua maturidade e afirmação profissional. Há também uma preocupação pedagógica com enfoque para a vertente cristã. Para aqui, interessa realçar o contributo que faz na recolha e divulgação da tradição do grupo etnolinguístico Ovimbundu, de origem Bantu, como nos fragmentos que se seguem (pág. 28-36):

«(…) Como acontece com os grandes grupos etnolinguísticos, os Ovimbundu são um conjunto composto de vários elementos, dele fazendo parte os Hanya, Cilenge, Humbi, Cisanji [o C é pronunciado “Tch”], além dos que se chamam simplesmente Ovimbundu. Todos falam a língua Umbundu, mas cada grupo com as suas próprias características regionais que o distinguem dos outros (…)

(…)Há de facto diferenças. Menciono duas para ilustrar. Nas áreas do Huambo, Bié e Kaluquembe, o termo ombelela é usado para designar qualquer tipo de conduto que acompanha o pirão. Assim tanto serve para designar carne de vaca ou de porco, de ave, como feijão, ervilha, ovos preparados de várias maneiras, folhas de mandioqueira, de abóbora, cogumelos etc. Nas mesmas áreas, o número oito diz-se ecelãlã e o número nove ecea. Pelo contrário, nas áreas Hanya, Cisanji e Cilenge, o termo ombelela tem um sentido restrito. Designa a carne servida com pirão. Não se estende aos legumes ou verduras. Carne que se não come, não se desgina por ombelela.

Assim pode-se imaginar a decepção dum convidado cisanji, em casa de um bieno, a quem se anunciou um almoço suculento de ombelela ao encontrar na mesa um prato de pirão com simples folhas de mandioca!

Quanto aos números oito e nove, há troca! Ecea aí significa oito, e ecelãlã nove. Imaginam-se os mal-entendidos advindos desta diferença de designação!

São diferenças importantes, mas por outro lado bem pequenas, em comparação com os inúmeros aspectos comuns que cimentam a unidade e cultura Umbundu.

A riqueza cultural dum povo manifesta-se em todos os aspectos da sua vida tanto a nível social e religioso, como a nível da educação: festas, danças, música, artes e desporto; cultos ligados às fases da vida: como nascimento, a puberdade, casamento, fertilidade, morte; estrutura da família, comportamentos, língua, parábolas e provérbios.

Há tanto de comum nestes aspectos culturais, que ouso afirmar que os Ovimbundu são em toda a sua diversidade, efectivamente, um só corpo(…)

(…) O nome: Escolhe-se o nome do bebé depois do parto, nunca antes. O casal pede conselhos aos pais, tias ou tios ou outros parentes sobre o familiar, vivo ou morto, que poderá ser sando [xará] do recém-nascido, dando-lhe o seu nome para assim manter a perpetuidade desse nome.

É o pai, e não a mãe, que tem a prioridade na escolha de um membro da sua família para ser o sando do primeiro bebé, quer se trate dum menino ou duma menina. Este pormenor é curioso, visto que a herança não se faz de pai para filhos mas sim de tios maternos para sobrinhos.

Para o segundo filho, o nome do bebé será geralmente escolhido pelos membros da família da mãe. Claro que seria errado afirmar que haja, nestes casos, uma regra bem definida na cultura Umbundu. Nós somos 10 irmãos, apenas o quinto e o oitavo têm sando da parte materna. Para um observador menos atento, isto pode parecer injustiça. Mas não é.

Inúmeras vezes, são até os próprios familiares da mulher que protestam quando o marido renuncia o seu direito de prioridade. Há acordo mútuo.

À medida que a influência da “grande família” diminui, o casal tenta ajustar-se, de tal maneira que seja alternadamente um ou outro a dar o nome de sando.

Quanto à oposição de outros nomes, assinalo dois tipos, a saber:

O nome que se recebe primeiro, alguns dias depois do nascimento. A este chamamos em Umbundu onduko yovomola ou yokucitiwa, no me do nascimento, ou de infância. É um nome que fica, não muda, mas pode ser, mais tarde, relegado para segundo plano.

O nome que se acrescenta, por iniciativa própria ou em relação a circunstâncias particulares, em Umbundu okulisapa. O indivíduo pode, ele mesmo, dar-se mais um nome. Muitas vezes tal iniciativa liga-se a algum acontecimento que marcou uma viragem na sua vida, como, por exemplo, um culto. É também o caso de Cikambi de okukamba que significa “faltar”, nome sugerido a alguém que tenha tido um acidente, que lhe deixa um membro defeituoso ou mutilado (…)

Os nomes de okulisapa podem acabar por ser nomes normais por via do sando. Quer dizer, o bebé sando de Kamakangua chamar-se-á sem dúvida [como tal] por toda a vida, embora não sofrido as duras experiências [de queimadura da pele] do seu sando.

Os nomes autóctones constituem um aspecto muito importante da cultura. Não é pois de admirar que, sobre tal tradição, a colonização portuguesa, e não só ela, se tenha abatido furiosa e violentamente, proibindo, de maneira velada ou coerciva, o uso da língua e de nomes indígenas. O facto levou muitos angolanos, por seu lado, a desprezarem inconscientemente os nomes ancestrais, recusando-se a serem conhecidos por tais nomes». 
Avelino Sayango e esposa, Sra. Ludia

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

é um passatempo para quem, como eu, saiu um pouco mais impressionado com a - como dizia um falecido vizinho - "distinguição" nos States. Longe da auto-vitimização, creio que é até bom dar na cara da sociedade "de primeira" americana com isso de suas dificuldades em lidar com o passado.





Fica em falta outro lado da questão, a "distinguição" de african-americans sobre os seus próprios "semelhantes" chegados de África.

Foi lançado na tarde de hoje, 19/08/11, no salão auditório da Rádio Benguela, CONVERSAS DE HOMENS NO CONTO ANGOLANO breve antologia (1980 – 2010)

Considerações de ordem crítica-literária foram feitas pelos professores Arjago e Francisco Soares. António Quino, o organizador, e GP, o mais novo entre os autores incluídos, cuidaram dos autógrafos. A imprensa "portou-se" com invejável pontualidade, o mesmo se dando com entidades e público em geral que, não chegando para preencher as cadeiras, encheram o salão com alma e amor à cultura. Está feita a história do livro por terras de Ombaka.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Os livros já estão em Benguela, está para 6ª feira, 19/08/11, 15h00, no salão auditório da Rádio Benguela, o lançamento de CONVERSAS DE HOMENS NO CONTO ANGOLANO breve antologia (1980 – 2010)




FICHA TÉCNICA
ANTÓNIO QUINO (Organizador)
Contos de:
TIMÓTEO ULIKA
EDUARDO BETTENCOURT PINTO
E.BONAVENA
JOSÉ LUÍS MENDONÇA
ANTÓNIO FONSECA
FREDERICO NINGI
JOÃO TALA
ZETHO CUNHA GONÇALVES
JOSÉ EDUARDO AGUALUSA
CARMO NETO
RODERICK NEHONE
ALBINO CARLOS
ONDJAKI
GOCIANTE PATISSA
Edição: união dos escritores angolanos/2011

INTRODUÇÃO

O projecto nasceu duma solicitação do secretário-geral da União dos Escritores Angolanos (UEA), António Francisco Luís do Carmo Neto, para atender a um pacote do seu mandato relativo ao seu ambicioso programa de divulgação da literatura angolana a nível internacional. Portanto, convidou-nos a organizar uma Breve Antologia de contos angolanos com o objectivo de condensar em cadernos (colecção) textos literários em prosa, iniciando com um volume de textos de autores que se tenham revelado, ou publicado inicialmente, entre 1980 e 2010, e cujo teor expresse interesse, contexto, realidade, consciência colectiva, escolhas estéticas e temáticas de Angola e dos angolanos.


domingo, 14 de agosto de 2011

Reflexões literárias: "GOCIANTE PATISSA, A ÚLTIMA OUVINTE", do Blog ANTENA KRÍTICA (UMA BANCA DE APRECIAÇÃO CRÍTICA DE LITERATURA ANGOLANA)

Esse "livrinho" do Patissa caiu-me bem às mãos, encheu-me os sentidos e posso dizer que foi uma leitura prazeirosa. É como encontrar um oásis onde, de início, só há pedras. São contos e o primeiro deles, que dá título à obra seria apenas, por via da dúvida, uma beliscadela às minhas sensações. Então já cheirava água, flores, terra húmida, vestígios de poesia. Seguiram-se outros contos e agora sim, foi como se o primeiro não passasse de mera provocação à certa imaginação literária. Esse jovem, o Patissa, certamente está confiante e vai daí esboçando à rigor uma obra, textualmente de palavras cheias onde a forma e o simbolismo definem a intenção estética. Não preciso dizer mais nada. Aguardemos. Quatro, sim oiçam bem, quatro estrelas. É obra.

Publicado por Lukas Matrindindi, Quinta-feira, 4 de Agosto de 2011

Texto do Blog ANTENA KRÍTICAUMA BANCA DE APRECIAÇÃO CRÍTICA DE LITERATURA ANGOLANA http://antenakritca.blogspot.com

Resta cada vez menos lugar/ para o sentimento exercitar/ excepto na ironia de muito se cantar/ o que a prática cuidou de banalizar - GP

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Reflexões literárias: Apresentando o livro “SEXONÂNCIA – o momento pós-catarse”, poesia de Bangula

Quando me foi solicitada a apresentação formal do livro de Martinho Bangula, despertei para a ingrata missão que me esperava, sobretudo pela proximidade que tenho com o autor. Toda a opinião é uma qualificação; nem mesmo o silêncio pode ser tomado como absolutamente neutro. Se tecer elogios, fica suspeito. Se criticar, fica igualmente suspeito. De qualquer jeito, resolvi aceitar. Para tudo há uma primeira vez, e viver é outro risco.


O nome Bangula deve ser corruptela (por imposição do colonialismo português) de “[ame] mbangula”, em Umbubndu, conjugação do verbo falar/conversar na primeira pessoa do presente do indicativo – qualquer coisa como “[eu] falo/converso”. Não estranhemos, pois, que o rapaz nascido em Benguela, no ano de1985, tenha o bicho da comunicabilidade.

Depois de “SEXORCISMO – poesia para a purificação”, lançado em 2008, Bangula surge agora com “SEXONÂNCIA – o momento pós-catarse”. Dada a aparente insistência, em termos de eixo temático, o que quererá o autor dizer-nos, andando tão perto da raiz “sexo”? O leitor ou a leitora pode legitimamente levantar essa pergunta, já que ambos os títulos são aglutinação do conceito sexo com exorcismo e ressonância. O passo a seguir, de tão imediato que é o juízo humano, levará a deduzir que se trata de poesia de forte pendor erótico. Por exemplo, com isso de “SEXONÂNCIA – o momento pós-catarse” concluiríamos que o autor nos quer reforçar aquela ideia segundo a qual “o amor só se mede depois do prazer”. Mas lá vem a regra de ouro que diz que “não devemos julgar o livro pela capa”.

Quanto à forma, temos outra vez o poeta a desafiar o comum, ao apresentar-nos capa sem ilustração, apenas uma cor homogénea e letras, à excepção da própria foto na contra-capa. Os poemas têm números no lugar do título. Pretende-se, diz ele, dar lugar à criatividade do leitor. Só que como escrever não é apenas criar, mas também trabalhar a palavra, as coisas acabam por se encaixar, às vezes até fora do controlo do criador. No livro “SEXONÂNCIA”, a primeira linha de cada poema pode muito bem funcionar como título. Para mim, palavras são recados, os números uma repetição apenas.

Mais adentro, vemos que sexo é apenas pretexto para o sujeito poético partilhar com o mundo as incongruências do cosmos. “Viver é um luxo, existir basta”, diz na página 39. Com o inconformismo do seu tempo, temos o poeta em ciclos de “cruzar mares, desafiar ventos”. O sujeito social logo se junta à magnanimidade da sua gente, na página 59, como que a dar ao homem oportunidade de recomeço: “Já libertamos tudo/ o opressor/ o oprimido”.

Certos erros ortográficos no livro afectam o sentido uma vez ou outra. As gralhas podem ser indicadores das debilidades que o mercado editorial angolano enfrenta, onde a oferta de serviços é limitada, sobretudo em realidades fora de Luanda. Está-se sempre a correr contra o tempo, o que afecta tudo, inclusive a revisão. E eu sei bem o que é isso!

Queria terminar apresentando dois poemas que estão no livro… sem estarem como tal. Leiamos somente as primeiras linhas de cada poema, e teremos um poema feito. Seguidamente, leiamos apenas as últimas linhas de cada texto, e sairá outro. Como disse, uma vez que escrever não é só criar, mas também trabalhar a palavra, as coisas acabam por se encaixar, às vezes até fora do controlo do criador. Afinal temos mais dois poemas! O leitor que descubra outras surpresas. Muitos êxitos para o escritor Martinho Bangula!

Gociante Patissa, Benguela 10 Agosto 2011.

Meia centena

Por mil anos alma e espírito
Serena tempestade
O tempo finalmente se abre
Interrogações atléticas
Os ombakistas contemplam impávidos

Prostrado diante de ti
Sete anéis dourados
Quem assim como Herodes dá o brado
Luzes
Quem me dera ser um poeta lírico
Coração selvagem esviscerado

Quando a madrugada se atrasa
Meus olhos sobre o mar
Sou treva e sonhos pervertidos
Talvez…

Exauridas madrugadas
Das gangrenas seculares
De véu e grinalda branca
Das profundezas daqui
Na sombra do provir
A porta aberta não indica o caminho

Quando o insano pensamento
A garrafa desenhada nas noites
Aqui na terra o tempo se quebra
Cordas suspendem os corpos
Daqui ninguém nos arranca

Há tanta desolação neste lugar
A barca velha se esguelha pelo mar
A praça está cheia de nuvens
A dor voa livre como o tempo

Parti de lá com medo de voltar
De onde venho não existem mais homens
Desço a marginal da esperança
Cansado, cruzo horizontes distantes
Fecham-se as portas dos céus
Que passe já este mundo
Demito-me!

Três noites e três dias
Sobre o dorso encurvado do homem
Agora que podemos, finalmente, falar
Eis que me deito sobre o manto imaculado
De súbito a ampulheta parou
Sou voz rouca amadurecida
Na triangulação dos dias
Agora que se fez manhã
Voei
Nestes dias de fim de tudo e sem sol
Apesar de tudo continuo o mesmo

Uma vida assim desiludida, cresce
O que se vende aqui, compra-se lá.
  
(sequência das primeiras linhas dos poemas de Martinho Bangula, in «SEXONÂNCIA – o momento pós-catarse», edição do autor, Benguela 2011. Compilação e título por Gociante Patissa para a cerimónia do lançamento do livro, em Benguela 12/08/11)

domingo, 7 de agosto de 2011

Não terá resistido à pressão - «Mata Frakuz» abandona o País (In Semanário Angolense, nº 428, 06 de Agosto de 2011) - Actualizado

Um dos promotores da fracassada manifestação de 7 de Março abandonou o país, refugiando-se em Portugal, alegadamente em busca de segurança. Informações chegadas à nossa redacção dão conta que o angolano-português Henriques da Silva Luaty Beirão, conhecido como «Brigadeiro Mata Frakuz», 29 anos de idade, abandonou recentemente o país, refugiando-se em Portugal.

«Mata Frakuz» terá embarcado para Lisboa há cerca de duas semanas, alegando que estava a ser alvo de ameaças de morte, por parte de indivíduos não identificados, mas que presume tratar-se de militantes do MPLA. Com essa atitude, o jovem contestatário deixou à sua sorte todos os seus apoiantes, que, com ele, organizaram marchas de protesto durante a sua permanência em Angola, criando, deste modo, um sentimento de revolta e decepção no seio dos jovens que nele encontraram um homem de coragem e o principal impulsionador da «revolução».

Alguns jovens que participaram da manifestação de Março, ouvidos a propósito, disseram não concordar com o facto de «Mata Frakuz» abandonar o país. «Um indivíduo se que diz angolano de verdade e defender de forma tão acérrima a democracia, reclamar a mudança de regime e, inclusive, a destituição do PR, vem, agora, fugir dessa empreitada», disse um.

A verdade é que o «líder» das manifestações tem dupla nacionalidade, a angolana e a portuguesa, factor que facilitou sua opção por Portugal. Segundo suas declarações antes da partida, ele sofreu, nas imediações da Escola Anangola, em Luanda, agressões físicas, por parte de dois indivíduos desconhecidos, assim como também viu a sua casa invadida por um grupo de elementos, que exigiam o pagamento de uma dívida que, jura a pés juntos que não contraiu e muito menos conhece os indivíduos que clamavam.

A vítima disse, ainda, ter apresentado queixa à Policia Nacional, atribuindo publicamente responsabilidades desses actos, não exclusivamente, aos jovens que os praticaram, pois, na sua óptica, «trata-se de um crime político, ainda que não tenha sido explicitamente ordenado. «Sem dúvida, foram elementos do partido no poder, o MPLA que fizeram tudo isto», acusou.

A Direcção Provincial de Investigação Criminal (DPIC) já reagiu e desmentiu a versão de «Mata Frakuz», afirmando que não é verdade que ele tenha sido ameaçado por militantes do MPLA ou outro partido qualquer. Para os investigadores, «tudo não passou de uma dissimulação para emigrar para Portugal, pois ao longo da investigação, foram ouvidos os supostos jovens envolvidos nas duas ocorrências de que foi vítima o cidadão Henrique da Silva Luaty Beirão, tendo entretanto, nas suas declarações, dito que agiram de livre e espontânea vontade. Desmentiram durante o interrogatório que tenham algum vínculo ao MPLA ou qualquer outro partido político. ■

(In Semanário Angolense, nº 428, 06 de Agosto de 2011)
.................................................................................................... por outro lado...

Mata Frakuz» desmente notícia de pedido de exílio em Portugal  (In portal Angola24horas)


O rapper Luaty Beirão mais conhecido por Mata Frakuz, desmente em entrevista ao portal Angola24horas a informação saída em alguns jornais do fim-de-semana de ter asilado em Portugal por razões de perseguições em Luanda. Jovem que esteve ausente de Angola assume ter a sua residência fixa no território angolano.

Estrato da entrevista de Luaty Beirão, Ikonoklasta ou Mata Frakuz
Angola24horas: Em que país está nesta altura?
Luaty Beirão: Estou em Portugal a trabalho, mas tenho residência fixa em Angola para onde regresso mal acabe o que me trouxe aqui.
Angola24horas: Com quantos anos está o Luaty?
Luaty Beirão: 29anos de idade. (Acedido a 09/08/11)

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Crónica: «Não há crise nos partidos políticos, o país é que está em crise»

Boletim voto legislativas 1992
O que se passa nos partidos políticos são divergências e sinal da existência de democracia interna. Crise é o que o país vive, insuficiências nos serviços sociais básicos e a fraca cultura do confronto de ideias. Foi a tese com que Martins Domingos iniciou a intervenção no debate “Sociedade Aberta”, emitido ontem pela Open Society via Rádio Morena Comercial. Martins representou a Associação de Jornalistas e Juristas “Mãos Livres”, mais uma das causas que serve.

No seu característico sentido polémico (alguns dirão radical), Martins vai-se impondo na construção da cidadania por via do debate, que é por natureza um campo onde os consensos não se impõem. Conheci-o como mentor de uma organização juvenil emergente engajada na promoção ecológica. Era também até há pouco tempo representante do braço juvenil do partido político PRS. Integra ainda uma plataforma da sociedade civil. Aderiu ao partido Bloco Democrático. Sempre activo.

Enquanto assistia pelo aquário ao ambiente na cabine de emissão, que por sinal conheço bem, veio-me à memória um dos piores debates que alguma vez moderei. Corria o ano de 2006. Eu realizava o programa de mesa-redonda semanal “Viver para Vencer”, produção da AJS (Associação Juvenil para a Solidariedade). Como o espaço de antena era suportado pelo PNUD/Fundo Global e pela Embaixada Americana, os temas alternavam, ora saúde pública ora promoção do exercício da cidadania.

Naquele dia falávamos do contributo dos movimentos políticos juvenis na promoção da cidadania e reconciliação nacional. Cuidamos de trazer os principais partidos com sede em Benguela. Pelo perfil, convidamos também um “mais-velho” com formação académica em ciências humanas e por ser líder cristão – estava ali o equilíbrio, acreditávamos. Contrariamente, veio do kota a maior tensão. Primeiro, chegou uma hora antes à rádio com o subtil interesse de manipular (é este o termo) os demais convidados para se alterar o tema, quando tinha o convite com uma semana de antecedência, onde vinha o assunto, os objectivos e potenciais convidados. Para sua tristeza, os demais chegaram muito pouco antes do arranque do debate, alguns até pouco mais tarde, diga-se.

Depois o ancião, talvez habituado a impor suas posições, naquele dia até subjectivas quanto baste, queria que falássemos apenas das vantagens da paz e nada mais! Para nós, vinha tarde a “ordem”. Uma vez no ar, ele começou por arrasar o título do programa: “Viver para Vencer”, não! Viver é para se entender e não humilhar os outros”, advogava, sobranceiro. Durante hora e meia, foi um ambiente pesado, com pelo menos dois abandonos deliberados de estúdio, ao qual voltava sem convite da produção. No final, disse que o espaço podia ser melhor aproveitado. Também achei.

Voltando ao programa de ontem na Rádio Morena, deixei os bastidores com a feliz convicção que o moderador, Zé Manel, e os diferentes actores sociais em estúdio fizeram com elevação verbal o seu trabalho. Sei que pelo menos estiveram lá representados o MPLA, a UNITA e mais alguns membros da sociedade civil, isso, numa altura em que praticamente está aberta a campanha eleitoral para 2012. O resto é seguir colocando Angola acima de qualquer intenção político-partidária.

Gociante Patissa
Benguela, 04 Agosto 2011

Cartoon: "Esgotamento"

quase
ainda não
já vai tarde
como seria bom

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Para breve lançamento de CONVERSAS DE HOMENS NO CONTO ANGOLANO breve antologia (1980 – 2010)

FICHA TÉCNICA
ANTÓNIO QUINO (Organizador)
Contos de:
TIMÓTEO ULIKA
EDUARDO BETTENCOURT PINTO
E.BONAVENA
JOSÉ LUÍS MENDONÇA
ANTÓNIO FONSECA
FREDERICO NINGI
JOÃO TALA
ZETHO CUNHA GONÇALVES
JOSÉ EDUARDO AGUALUSA
CARMO NETO
RODERICK NEHONE
ALBINO CARLOS
ONDJAKI
GOCIANTE PATISSA
Edição: união dos escritores angolanos/2011

INTRODUÇÃO

O projecto nasceu duma solicitação do secretário-geral da União dos Escritores Angolanos (UEA), António Francisco Luís do Carmo Neto, para atender a um pacote do seu mandato relativo ao seu ambicioso programa de divulgação da literatura angolana a nível internacional. Portanto, convidou-nos a organizar uma Breve Antologia de contos angolanos com o objectivo de condensar em cadernos (colecção) textos literários em prosa, iniciando com um volume de textos de autores que se tenham revelado, ou publicado inicialmente, entre 1980 e 2010, e cujo teor expresse interesse, contexto, realidade, consciência colectiva, escolhas estéticas e temáticas de Angola e dos angolanos.

Iniciar um projecto de Organização de várias Antologias, segmentadas por aspectos meramente simbólicos, como os períodos da publicação das obras, que pudesse responder aos anseios dos leitores universais relativamente à literatura angolana, e neste caso do conto angolano, e cujos invariantes não marginalizassem os paradigmas também simbólicos do ser angolano não se afigura fácil. Nem abrangente. Portanto, pretende-se que este volume seja um ponto de partida, ou de recomeço. Num primeiro passo, gizamos sem régua e sem esquadro um tracejado denominado “Conversas de homens no conto angolano” (1980-2010), cuja colecção foi orientada para textos literários em prosa (contos) publicados no período entre 1980 e 2010.

Quando nos referimos à ausência de esquadro e de régua estamos a querer justificar o facto de termos ultrajado as balizas iniciais, que antes iam do período entre 1985 e 2010. Assim, pelo enorme acervo literário nacional, considerámos pertinente segmentar os textos em volumes e, neste primeiro, pretende-se incluir apenas os textos de autores que se tenham revelado, ou publicado inicialmente, entre 1985 e 2010. Os autores do período anterior podem ser incluídos num segundo e terceiro volumes.

Fomos então solicitando a prestimosa colaboração de autores que se tenham revelado no período predeterminado, não sendo objecto deste projecto a publicação de textos publicados fora das novas margens (1980-2010). Tanto para a uea como para nós, organizadores da Antologia, e provavelmente para os catorze contistas que acederam à nossa solicitação, a Breve Antologia será um instrumento valioso para o estudo do conto angolano através dos vinte e três títulos que compõem esta Breve Antologia, pois há um considerável vazio no que diz respeito ao estudo da literatura angolana nas instituições de ensino, dentro e fora de Angola, fundamentalmente aquelas cujo veículo de ensino é a língua portuguesa.

Dessa forma, e pela nossa expectativa, os autores incluídos nesta Breve Antologia poderão ver o seu nome nos projectos de estudo a nível das academias internacionalizando cada vez mais, o seu escrito e, duma forma geral, alargando o leque de autores angolanos estudados pelo mundo. E para aqueles autores já estudados nos referidos países, a inclusão da sua obra será sempre um pretexto para um maior enquadramento do seu texto numa colecção mais homogénea e contextualizada, o que permitirá a criação de analogias, paradigmas e relativismos importantes aos estudos literários.

Pelo rigor do tempo a nós disposto, também propusemos um período excessivamente curto aos autores que quisessem contribuir – E, é claro, a nós próprios –, que foi de Setembro a Novembro de 2010 – inicialmente até Outubro. Outra prova da vacuidade do esquadro e da régua está no incumprimento de alguns itens que exigimos dos contistas, como o de enviarem ou entregarem textos inéditos ou de se referirem aos dados da edição do conto (se publicado em livro, revista, jornal, data de publicação, nome ou título do órgão, página, etc.). Portanto, algumas dessas lacunas poderão ser observadas pelo leitor, pois a relevância maior do texto e o seu valor estético e contextual se sobrepuseram ao rigor exigido na altura em que decidimos gizar o tracejado duma Breve Antologia do conto angolano.
A escala dos contistas foi, propositadamente, disposta numa hierarquia que obedece à data dos seus nascimentos. Assim, iniciamos a Breve Antologia com os contos dos autores mais velhos e terminamos com os dos mais novos, criando uma espécie de pico que tem no cimo memórias mais distanciadas do presente e, na ponta final, um presente menos pretérito, mas cujo epicentro são os invariantes literários globais e locais que permitirão certamente ao leitor construir mentalmente uma Angola com trinta anos de idade através do princípio de representatividade marcado pela presença de elementos simbólicos que reflectem o meio cultural e psicológico do autor e da própria obra.

Esta é, portanto, uma Breve Antologia possível.