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quarta-feira, 21 de novembro de 2018

[Oficina literária 16] MARCAS – poema Anjo N'silu


Marcas

Em cada verso dos meus retratos
Uma lágrima sangrada
Uma alma ensanguentada
De vários servos sem contratos

O menino ao colo, a voz do choro
Dizendo basta
Mas a saga não pára
A chaga à procura da cura
Clama só assim, pedindo socorro

Olha aí meu pai
Carregando sua cruz
Chibatado, mas não cai
Sofrendo tanto quanto Jesus

Minha mãe latindo às correntes
Seu espírito fugiu-se do corpo
O coração quase já não bate
Expirando o último fôlego
Encarcerada até aos dentes

O peão é sacrificado pelo rei
A rainha levando xeque-mate
Chora só assim até à morte
Isso não é um jogo de xadrez
Sobreviveu, teve sorte

Ó miséria que nos pariu
Vários séculos se passaram
Os cadeados se romperam
Mas a porta não se abriu

A liberdade jaz no seu cativeiro
Os quinhentos euros de escravatura
A merda do espelho nos traiu
Do livro a escritura sagrada
O cão que o Diogo alimentou
Os meus calcanhares feriu

É difícil ultrapassar
(Os karmas)
É difícil superar
(Os traumas)
É difícil esquecer
(Os problemas)
Se ainda existem marcas na alma


Anjo N'silu | Retratos

SOBRE O AUTOR

Filho de pai mukongo e mãe kamundongo, Anjo N’silu nasceu no município de Rangel, província de Luanda, se bem que o registo oficial mencione, como local de nascimento, o distrito de Ingombota. É um novo talento da literatura angolana, versado em poesia, prosa, crónica, conto, dramaturgia, abordando temas que traduzem a realidade sociocultural angolana e africana.
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domingo, 21 de janeiro de 2018

Em linhas tortas (18)

Circula nas redes sociais uma intervenção repartida em dois áudios da empresária Filomena de Oliveira, da província da Huila, feita no parlamento por ocasião da aprovação do novo Orçamento Geral do Estado. A intervenção é pontuada pela frontalidade com que coloca à mesa assuntos que muitos angolanos abordam em bares e em um ou outro espaço radiofónico ou de TV, mas com aquele velho receio de arcar com as consequências de um possível fechar de portas. Alguém disse a brincar que não sabia mesmo se à sua chegada ao Lubango a empresária não encontraria uma nota de demissão. Claro, não só isso não vai ocorrer (por motivos óbvios), como também a corajosa Filomena de Oliveira (que se a memória não nos trai já apareceu no espaço mediático como historiadora, para além de ter sido por volta do ano de 2003 uma das primeiras representantes da Unitel na Huila) é daquelas vozes com um garantido "alvará dos deuses" para dizer o que pensa. O que sua excelência eu reteve foi uma referência às nossas universidades (cotadas abaixo das do Lesotho em termos de padrão de qualidade) e que, no entender da empresária, são "centros de papagaios" e não "centros de produção do saber". E este papagaio que vos escreve, com quase 40 anos de idade e mais de metro e setenta de altura, considera entender bem o que se quis dizer. Uma das preocupações nos últimos oito anos tem a ver com a proliferação de palestrantes de auto-motivação, assim como de "obras literárias" de auto- ajuda. Parece estranho que nos anos em que o acesso à universidade era complexo (antes de 2006), o auto-didactismo tenha incentivado o hábito do debate, das análises, das pesquisas, das bibliotecas, com uma ajudinha das ONGs e das rádios. Curiosamente, hoje, já num contexto mais favorável, quando cada vez mais gente formada é lançada ao mercado do trabalho, a internet é mais acessível, o que temos a prosperar e a ser imposto pela comunicação social como modelo de sucesso é precisamente a "consagração" do mercado de sábios (de português polido) que usam das suas opiniões, conselhos, frases feitas e lugares-comuns para "formar mentes". Põe-se de parte a análise profunda, o recurso à lógica, paradigma epistemológico e a confrontação/sustentação de ideias. Quando uma sociedade (constituída formalmente por intelectuais) se reúne por horas e horas a aplaudir opiniões de oradores charmosos cuja idade e experiência de vida nem sempre seriam suficientes para lhes conferir a autoridade de assumir o posto de influenciadores de mentalidades e destinos nos ramos que se propõem, a pergunta é mesmo esta: O que andará a universidade a fazer senão reproduzir papagaios? Ainda era só isso. Obrigado. Assina: sua excelência eu (que pensa Angola e não se dirige a ninguém em particular).
www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa, 21 Janeiro 2018
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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Em linhas tortas (12)

Ao passar pela viatura dele estacionada à porta de casa, o meu amigo reparou que as calças brancas ficaram manchadas de poeira. Achando aquilo uma indirecta para agendar a ida à estação de serviço (outro gasto fora da agenda numa fase de crise), lá ele olhou para o ligeiro e falou: Sinceramente, ó meu querido carro! Tantos anos juntos, mas tenho de dizer a verdade. No combustível, sou eu. Na manutenção sou eu. Nos pneus idem. No saldo do polícia é comigo. Ter você é uma parceria "leonina e abusiva". Só que depois de desabafar, fica já aliviado, oh coiso, o outro não consegue. O coitado foi para a cama ainda mais preocupado. Como o carro não lhe respondeu nem um nem dois, será que vai pegar na manhã seguinte? Mba Ainda era só isso. Obrigado | www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa
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sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Em linhas tortas (6)

Como bom cidadão, e aproveitando a maré das honestidades e dos apelos à PGR, torno público que sua excelência eu foi tentado pelo mal do nepotismo hoje, razão pela qual estende devidamente à palmatória não apenas uma mas as duas mãos mesmo. O que se passa é que em plenas horas úteis de serviço, que pertencem ao soberano povo angolano, uma vez que cada hora é paga pelo suor dos contribuintes, dediquei os sentidos a pensar na falta que a senhora nossa mãe nos faz e, acto contínuo, ainda na senda das mulheres, deixei-me prender nas memórias da última boca beijada, hipnotizado pelo respectivo brilho nos olhos. Agora vejam lá vocês se isso alguma vez contribuiu para endireitar o país! Pronto, ainda era só isso. Obrigado | www.angodebates.blogspot.com
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Em linhas tortas (5)

A cada dia informativo que nasce, na media tradicional ou nas redes sociais, sua excelência eu começa a ver que terá de acelerar o seu regresso à igreja, cair de pára-quedas em uma das "lojas" de Cristo que brotam quais cogumelos. Porque a ligação directa "da casa para o céu" já vai perdendo rede. É tanta indignação olhando para alguns dossiers oficiais e oficiosos na gestão da coisa pública que até me pergunto: Excelências, assim mesmo ainda olhando só para os prejuízos à moralidade e ética social e nos serviços sociais básicos que derivam do V/ pecado da gula, aquela dose bíblica de perdoar setenta vezes sete... não será pouca? Que tal 70 milhões vezes sete? Será que assim quando a noite cai, Vossas excelências conseguem mesmo "dormir sono" de humanos mortais? Só de pensar que muitos de nós chegamos a depositar os sonhos no beiral, já convencidos de o país não ter fundo para assumir a formação de potenciais talentos nascidos em famílias sem "herança"... Teria sido para isso que os nossos avôs passaram cinco anos em cadeias do regime colonial (São Nicolau 1961-1966) sob a acusação de "terroristas"? Ou teria sido para isso que os nossos pais quase perderam a vida nas frentes de combate de guerrilha enquanto representantes da administração do Estado (Chila, Equimina e Kalahanga)? Localizem só o país da justiça sonhada, faz favor. Ainda era só isso. Obrigado  www.angodebates.blogspot.com
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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Sugestão de filme | THE SESSIONS (AS SESSÕES)

Foto do site 50 Anos de Filmes
Gostei de ver no Youtube o filme poético “As Sessões”, em inglês “The Sessions”, para maiores de 14 anos. Foi lançado nos EUA no ano de 2012 e debate com humor inteligente a delicada questão da sexualidade em pessoas com deficiência severa e o conflito entre a moral religiosa e a dimensão humana. Os personagens principais são o escritor e jornalista tetraplégico que aos 38 anos não gostaria de morrer sem ter tido a experiência sexual, uma terapeuta que tem um pacote de seis sessões implementadas com o próprio corpo, as moças contratadas para cuidar do artista acamado e um padre desconfortável no papel de confidente num tema tabu, o erótico antes/fora do casamento.

Sabe-se já que nesta era das tecnologias de informação, meter-se a fazer exercícios ensaísticos sobre um filme na óptica de consumidor é escusado, com tanto de resumos e sinopses feitos por especialistas que estão disponíveis na internet, pelo que a abordagem desta sugestão foca nas emoções pessoais e nada de técnico.

Escrito e dirigido por Ben Lewinficciona factos reais. No site adorocinema.com lê-se que “Mark O'Brien (John Hawkes) é um escritor e poeta que, ainda criança, contraiu poliomielite. Devido à doença ele perdeu os movimentos do corpo, com exceção da cabeça, e passa boa parte do dia dentro de um aparelho apelidado de "pulmão de aço". Passa os dias entre o trabalho e as visitas à igreja, onde conversa com o padre Brendan (William H. Macy), amigo pessoal. Sentindo-se incompleto por desconhecer o sexo, Mark contrata os serviços de Cheryl Cohen Greene (Helen Hunt), especialista em exercícios de consciência corporal, que o inicia no sexo.

Os diálogos são ao mesmo tempo simples e ricos, com o personagem principal bem-humorado e num enredo que cuidou de o não retratar como coitado e melancólico. Uma das passagens mais criativas nos diálogos é quando a terapeuta pergunta “Como é ser poeta?” e ele responde “é viver dentro da própria cabeça onde passamos a maior parte do tempo”. Ainda era só isso. Obrigado
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Em linhas tortas (4)

Celebremos, somos homens! A culpa é da mulher, tem de ser. Sempre. Sempre ou quase sempre? Sei lá! Há que evitá-la. Culpa pelo vento que levanta a saia e expõe. Culpa pelo olhar enviesado do banhista, culpa pelo bolsar e coma etílicos do marido, culpa pelo filho confeccionado por ele fora e na vigência do casamento, culpa pela “bexiga” que dói, pelo odor do fluxo justo em dia de altos apetites. Culpa pelas crises de adolescência do agregado. Culpa por verbalizar palavrão, exteriorizar desejo, fazer uso da prodigiosa e mucosa estufa quando, com quem, onde e como aprouver. Culpa por servir no prato algo nada próximo ao do restaurante. Alvenaria armada com o patriarcal e a moral religiosa algumas vezes ultra-conservadora. Ah, e a maior delas: culpa pelo casamento que não der certo. Celebremos, pois somos homens! É o que fazia aquele vizinho do terraço na Zona Comercial. Os demais apadrinhavam por omissão o que para um invejoso podia soar revoltante. Investira os parcos recursos de estivador do Porto do Lobito na aquisição de um meio chamado mulher (não atesto o título de propriedade, culpa minha), a qual alojou, como já referimos, no terraço do edifício que dava a testa à Livraria Magalhães, defunta, por volta de 1998. Alimentava-a com o que podia, dava-lhe de beber também. E o meio cumpria, deduzimos, consoante o estímulo, as suas atribuições, não se sabendo a autoria da ausência de rebentos, se dele ou dela. O ponto mais alto do lazer, que tinha no desentendimento forjado a ignição, coincidia com os ciclos de salário. Invariavelmente depois das oito da noite, a percussão iniciava à porta fechada, acrescente-se, o que afastava a hipótese de se tratar de um improviso. Num primeiro plano os sons que chegavam à plateia eram estaladiços, depois agudos. A vizinha, merecidamente, estaria a apanhar. Tentei no outro dia bater violentamente à porta como meio de demover o vizinho do que me parecia ser agressão. Quase fui expulso do prédio. Não valia a pena se meter. A mulher era dele que, irritado, podia partir a socos para cima de mim que não passava de 55 Kg. O que vinha a seguir era previsível. Imaginava-se uma marido que agarra a mulher pelo braço e corre com ela de uma ponta sala, embatendo violentamente a cabeça dela contra a outra parede. Maldade a dela por ter carapinha frondosa e deste modo amortecer o impacto e aquele símbolo de valentia de macho, o galo da senhora ao amanhecer. E o meio chamado mulher só gritava: “Me bate só, mas não me xota de casa”. E ele, muito generoso, fazia esta vontade. Torturaria mais vezes, mas respeitando o limite. O que diria ela à família caso fosse xotada do lar, né? Ainda era só isso. Obrigado. | www.angodebates.blogspot.com
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segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Em linhas tortas (1)

Do que não correu tão bem em 2017, agora sua excelência eu nota que foi com muita consternação e pesar patrióticos — outro sentimento contrário seria aliás impossível — que os angolanos se viram privados do um dos mais importantes símbolos nacionais, o concurso Miss Angola, aquela tradição de fim de ano que em boa hora nos enchia de água a boca (excitar a pontaria posterior na braguilha do empresário também, digamos), apreciando o desfile de esbeltas meninas de 20 e poucos anos em passerele (o momento de tangas ao léu sendo o ponto G da transmissão televisiva), misturado assim com um simulacrozinho de cultura geral. Foi realmente um duro golpe às conquistas científicas e culturais. Que faltasse tudo, menos as misses. Nem a crise merece perdão. Mas, excelências, será que faltou depilador? Ainda era só isso. Obrigado | www.angodebates.blogspot.com
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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Crónica: "Ora colhe as sementes, ora tenta resgatar a utopia das acácias"

Um ano depois, ficamos a saber, já com aquela inofensiva – sem deixar de ser sádica – alegria, que a ministra tinha sido exonerada. As razões à volta do facto eram-nos irrelevantes (mas explico lá mais adiante porquê).

Hoje, pouco antes das 18h00, visitei a residência sede da Rádio Ecclesia, na cidade de Benguela, bem ao lado do Bispado, como não fazia há seis anos. Foi preciso algum esforço para disfarçar os sorrisos de nostalgia, no mínimo, para não ser tomado por um visitante emparvecido, como sempre acontece quando alguém esbanja alegria sem contextualizar os “vizinhos”. Foi como se um balão do tempo me fizesse mergulhar aos bons anos de convivência. Nomes, momentos e jocosidades brotaram. Depois veio a noção da ausência, como que a escorregar entre os dedos. O tempo é assim mesmo, tem das suas: um dia aproxima-nos, outro dia manda-nos para hemisférios desencontrados, desgastando os afectos.

2004. Uma inusitada empatia unia-nos, quando o normal seria, provavelmente, nos vermos como rivais, uma vez concorrentes. Uns mais dotados que outros, havia também os que precisavam mais do emprego que outros, mas nada estragava o bom humor. Éramos cerca de dez jovens, anónimos por assim dizer, durante três meses de triagem para redactores-repórteres-noticiaristas, no contexto da iminente abertura da Ecclesia em Benguela (que acabou por não acontecer, por imperativos legais – no consulado do ministro da Comunicação Social Hendrick Vaal Neto. Até hoje está por sair a licença de emissão).

Bom, voltando à Ministra… A primeira parte dos testes foi ler, com aquela vaidade que se espera de locutor. Para a nossa pouca sorte, o texto era de uma revista, com aqueles luxos já esperados, muito brilho e excesso de maquilhagem nas fotos e tal, que só atrapalha, mesmo até por causa do reflexo da lâmpada fluorescente. Era só soletrar e engasgar-se que chega, fariamos mais como?!… O Zé Manel e o Padre Samy deviam ser uns bons ardilosos, sabiam que aquilo lá nunca foi texto feliz para rádio. A matéria tinha a ver com a viagem que uma ministra santomense, Maria das Neves, fizera a Portugal, onde aparecia em poses bué, vestes pretas com meias compridas, visivelmente caras. Por acaso achávamos que, se era para inspirar um texto de desgraçar o  teste dos outros, podia muito bem não viajar. Ela estava bem na vida, com formação, cargo e dinheiro, enquanto nós travávamos na jante…

Depois, de azar em azar, a maka veio a estar também numa tal de dicção, não apenas na  complexidade do texto. Afinal já não podíamos dizer /tomé/, tinha que ser /tumé/, e nós que nunca na vida chamamos alguém assim. Ah, porque /f’char/ as vogais. Mas que mal têm elas, as vogais, para agora andarem fe-cha-das?! É só já aceitar, vamos fazer mais como?!… Enfim, cada um que fosse à cabine, voltava aborrecido, com raiva da ministra.

Superada essa etapa, que levou muitos candidatos ao caminho de volta para casa, recordávamos a cena para rirmos das nossas dificuldades iniciais. Foi por isso que, mesmo que não nos tenha feito mal algum de forma objectiva, passamos a nutrir antipatia pela ministra, que mais tarde se ouviu metida em acusações de corrupção. Quando soubemos da sua exoneração… foi mais um pretexto para rir, rir e rir, com aquela sensação de triunfo.

Gociante Patissa, Benguela, 27 Dezembro 2010
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sexta-feira, 3 de abril de 2009

Quem serão os três felizardos? (Governo de Benguela promete financiar obras literárias)

O governo da província de Benguela comprometeu-se a apoiar a publicação de pelo menos três obras literárias de autores locais, ainda este ano. A garantia foi feita pelo porta-voz do "palácio da praia-morena", Alexandre Lucas Tchilumbo, que é também Director Provincial da Comunicação Social.

Tchilumbo, que fez questão de enfatizar que se tratava de uma decisão do governador, general Armando da Cruz Neto, discursava durante a cerimónia de lançamento do livro de contos, "O guardador de memórias", da escritora angolana Isabel Ferreira, na noite de sexta-feira, 03/04.

Sem falar dos critérios de selecção nem da entidade que se encarregará do processo, o representante do governo instou apenas os criadores a aprimorarem as suas obras.
Gociante Patissa
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Janeiro foi fatal - Um morto por dia nas estradas de Benguela

Cento e sessenta e quatro acidentes de viação foram registados na província de Benguela em Janeiro último, de que resultaram 33 mortos, numa cifra de um por dia. O número de feridos anda à volta de duas centenas, estando os danos materiais calculados em cerca de 18 milhões e meio de kwanzas. Já na primeira semana de Fevereiro ocorreram 28 acidentes, provocando três mortos e 36 feridos. O município de Benguela é o que mais casos registou.

Os dados foram revelados recentemente pelo 1º Superintendente Conceição Gomes, quando representava o Comando Provincial da Polícia Nacional na mesa redonda sobre “Perigos no Trânsito”, do programa radiofónico pela cidadania e saúde preventiva, “Viver para Vencer”, produzido pela ONG angolana AJS – Associação Juvenil para a Solidariedade.

«Nós temos como causas destes acidentes a imprudência, fundamentalmente, onde engloba o desrespeito às regras de trânsito, destas, as manobras perigosas, a condução em estado de embriagues, a fadiga, a utilização de instrumentos inapropriados, como sendo os telemóveis», realçou o
1º Superintendente Conceição Gomes.


KUPAPATAS RESISTENTES AOS REGULAMENTOS, DIZEM QUE A CULPA É DO CAPACETE

É quase impossível falar do trânsito em Benguela sem tocar na figura dialéctica do kupapata, ou mototaxistas. Tão úteis, que surgem no momento da aflição e da emergência. É só passar pelos hospitais para confirmar a sua prontidão. Mas, no melhor pano cai a mancha, tendo em conta os perigos que causam no trânsito com as suas ultrapassagens pela direita e, acima de tudo, generalizado desconhecimento do código de estrada. Este último, por sua vez, consequência do bastante débil mecanismo de atribuição de licenças de condução tutelado pelas administrações municipais. «Quatro em cada dez acidentes envolvem um kupapata», já lembrava, há coisa de um ano, uma alta patente da Polícia de Viação e Trânsito.

A equipa do Viver para Vencer procurou auscultar opiniões de três segmentos da população que mais usa dos transportes colectivos, um kupapata, um estudante e um zungueira.

«Quando estou a andar na minha mota, o que me atrapalhava é só o capacete», referiu o conterrâneo kupapata para adiante justificar que deixou de usar o referido protector por lhe causar subida de tensão arterial. Adepto do argumento segundo o qual o capacete impede o sentido de audição, o nosso interlocutor dramatiza: «muitos que estão a morrer por causa do capacete, porque aquilo mata. Só tem que ser na via longa, daqui ao Huambo, mas aqui na cidade traz acidente. Mesmo eu que estou a falar, escapei de morrer», asseverou.

No entender de Edmundo Francisco, presente à mesa redonda enquanto Coordenador Executivo da AJS e estudante de psicologia, o assunto dos perigos com o kupapata
«é importante e deve ser debatido, porque faz parte das preocupações da sociedade, que está preocupada com a segurança no trânsito».

Por seu turno, o sociólogo Ronaldo Fernandes considera paradoxal a tese da insegurança supostamente provocada pelo uso do capacete, já que «no mundo afora, o uso do capacete é tão normal e todo mundo usa, é diário e não incomoda nada». E para dissipar dúvidas, esclareceu que também já experimentou o uso do capacete.

Outra voz “irredutível” quanto o uso do capacete é a do 1º Superintendente Conceição Gomes, que junta à obrigatoriedade da lei a necessidade moral de protecção de uma das mais essenciais parte do corpo humano, no caso a cabeça. Pelo que, em seu entender, trata-se de irresponsabilidade dos jovens.

Começava a escurecer quando entrevistamos a conterrânea zungueira, justificando-se por isso a aflição em que se encontrava. Logo ela, que até tinha uma preocupação sagrada: «quero ir fazer jantar do meu marido, que essa hora está à espera que a mulher foi vender, e os táxis estão difíceis», revelou. Questionada se gostava (entenda-se tinha o hábito) de andar de mototaxi (kupapata), a cidadã zungueira disse que não,
«porque algumas pessoas não regulam».

Para o jovem estudante, o principal motivo de insegurança quando sai à rua é notar ausência dos agentes reguladores do trânsito. «Gosto de andar de hiace, porque mota é um perigo», disse. De autocarro sim, mas, por serem lentos, «só anda quando falham os táxis. De mota, mesmo já é no último caso», confessou.
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quarta-feira, 5 de março de 2008

Lugar da Mulher é na cozinha? Porquê importar-se com o género? (Arquivo)

Há pouco menos de uma década, “o género” não fazia parte dos debates. A mulher era o foco de políticas ou programas virados à diminuição das desigualdades entre os sexos. Hoje, o paradigma mudou. Termos como “Saúde da mulher” foram substituídos por “saúde familiar”. As quotas para o acesso da mulher na política, no mundo académico e no comércio privado vêm sendo substituídas por políticas regulares de género.
Porquê pular de “mulheres” para “género”? Talvez estejamos a aprender que a desigualdade no género não é apenas um assunto feminino. Apercebemo-nos de que não se pode excluir os homens das oportunidades de micro-crédito sem causar ressentimentos, às vezes até violência, no lar. Os programas de saúde reprodutiva têm menos impacto se apenas metade da população é abrangida, e as mulheres – e não os casais – se encarregarem de tomar de forma isolada as decisões de planeamento familiar. Aumentar o número de mulheres no parlamento pelo critério de percentagens preestabelecidas, sem que haja uma mudança real de atitude, poderia aumentar a sua presença política, mas não o poder político.

Ademais, estamos a perceber que os estereótipos no género não são só prejudiciais para as mulheres, mas também aos homens. A noção de “trabalho feminino” restringe os homens de certas profissões. A pressão de ser o motor do “ganha-pão” limita nos homens a oportunidade de gastar mais tempo com os seus filhos. E a atitude de que “um homem nunca chora” força o homem a esconder as suas emoções, o que é um risco à saúde.

Finalmente, a sociedade no geral sofre os efeitos das desigualdades no género. As crianças têm mais saúde quando as mães têm educação formal. As sociedades são mais produtivas quando 50 por cento dos seus recursos humanos dão o máximo do seu potencial.

Com vista à trabalhar em prol de um mundo em que o homens e as mulheres têm oportunidades iguais, devemos identificar os estereótipos, entender como eles afectam as nossas vidas e reflectir sobre as suas origens. O que é desigualdade no género, como afecta as nossas vidas e sociedades, e como podemos minimizá-los?

Estava eu diante de um grupo de 15 mulheres angolanas e pensei: “o que é que estou aqui a fazer?”. Tinha entrado em Angola havia poucas semanas, o meu português era “péssimo”, e sabia muito pouco sobre a cultura. Ainda assim, encontrava-me a dar um workshop a mulheres rurais sobre “os estereótipos no género”.

Será que se importariam com o que eu iria dizer? Sairiam com o poder reforçado ou mais confusas? Para provocar a discussão, mostrei desenhos de um homem lavando a loiça e dando de comer um bebé e uma mulher reparando um carro e dando comícios políticos. Elas deram gargalhadas e disseram que era impossível – que o desenho não correspondia com a realidade. E quando perguntei porquê, houve silêncio na sala. “Quem decidiu que o homem devia fazer isso, e a mulher aquilo?”, perguntei, e de novo, silêncio. Na verdade, ninguém conhece a origem dos estereótipos. Serão biológicos e depois perpetuados pela cultura? Se for assim, até que ponto?

Os estereótipos no género limitam directamente as nossas oportunidades devido à discriminação. Porém, mais importante ainda, limitam as nossas ambições, autoconfiança e habilidade de sonhar um pouco mais sobre o futuro de cada um. Como podemos mudar os preconceitos sobre a relação entre o homem e a mulher se são biológicas, ou tão imbuídos na nossa cultura e perpetuamos por todos nós. Mas será que podem também às vezes ser positivos?

Muitas vezes questiono o meu papel na promoção da igualdade no género. Numa conferência juvenil sobre os estereótipos no Paraguai rural, um jovem rapaz me disse: “o teu sistema aqui não funcionaria. Os homens e as mulheres precisam ter diferentes responsabilidades para que a vida doméstica ande mais amenamente”. Será que os movimentos pró igualdade no género deviam ser mais endógenos (desenvolvidos dentro da cultura)? Caso não, como podem os agentes externos gerar mudança? Até que ponto a cultural pode justificar as desigualdades no género?
........................
(*) Traducão do artigo “Make your voice heard” (de Elizabeth Coombs, EUA, elicoombs@yahoo.com) , publicado no site da ONU para os assuntos sociais. Títulos, Boletim "A Voz do Olho", Projecto informativo, educativo e cultural da AJS e amigos; Foto: (menina do biópio batendo funji) por Gociante Patissa
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A Voz do Olho Podcast, EP1, Temp 2

Gociante Patissa recita poema "Alugam-se velhos" na RTP África

A Voz do Olho Podcast

[áudio]: Académicos Gociante Patissa e Lubuatu discutem Literatura Oral na Rádio Cultura Angola 2022

Puxa Palavra com João Carrascoza e Gociante Patissa (escritores) Brasil e Angola

MAAN - Textualidades com o escritor angolano Gociante Patissa

Gociante Patissa improvisando "Tchiungue", de Joaquim Viola, clássico da língua umbundu

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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