PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

domingo, 31 de julho de 2016

Uma semana de Férias em Windhoek (21) | KATUTURA, PORQUE VIVER É UMA METÁFORA

Uma semana de Férias em Windhoek (20) | KATUTURA, CAMINHAR PARA A MESMA HERANÇA VAZIA

Uma semana de Férias em Windhoek (19) | KATUTURA, PORQUE A POBREZA EXTREMA É VIOLÊNCIA UNIVERSAL

Uma semana de Férias em Windhoek (18) | KATUTURA,O LADO SOMBRIO DAS INDEPENDÊNCIAS AFRICANAS

Uma semana de Férias em Windhoek (17) | VISITA À GALERIA NACIONAL DE ARTE DA NAMÍBIA


A capital da Namíbia, país que tem na indústria do turismo o principal motor da economia, é um pedaço diferente (para melhor) comparado a vários outros do nosso continente. Cidade limpa, segura, preços acessíveis, tem uma arquitectura e ordenação urbanística agradáveis aos olhos e homenageia o sossego (sem as confusões nossas de música alta a vir de tudo quanto é canto). Nem mosquitos nem poeira, mesmo tendo por base o deserto. Por norma, quando há gente com modos que deixam a desejar, tipo falar alto (ao telefone ou nem por isso) em estabelecimentos (incluindo hospitais), já se sabe de onde vêm. São angolanos. Estes mesmos angolanos (aqui generalizando), que por lá acorrem em função da qualidade e consistência que os serviços de saúde e educação formal oferecem (quer sejam estatais, quer sejam privados, tanta qualidade que é de estranhar tão pouca ou quase nenhuma propaganda na imprensa), infelizmente regressam sem beber da educação e conduta cívica dos anfitriões, sobretudo no que respeita ao respeito pelo espaço de outrem, o saber ser e estar, equilibrando direitos e deveres. Os angolanos, especiais que são desde o ventre, possuem dinheiro suficiente para se imporem como quiserem. Os bons modos podem esperar.
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sábado, 30 de julho de 2016

(arquivo) Diário | Os preços que pratica contribuem para a paz dos espíritos?

"Vamos tentar ser objectivos. Venho ter consigo uma conversa de homens..."
"Mas a senhora é uma senhora..."
"Isso não vem ao caso! Estou aqui como entidade. Como deve saber, estamos a ensaiar o modelo de comissões de moradores, já que as autarquias são um bicho de muitas cabeças, né? Pronto. A pessoa que lhe fala é a coordenadora."
"Seja bem-vinda à nossa unidade de produção..."
"Eu lhe chamaria antes unidade de preocupação..."
"Unidade de preocupação?! Peço desculpas, mas aqui a papelada está em dia, os impostos e tudo. Há algum ressentimento da vossa parte?"
"Nem ressentimento nem consentimento..."
"Então qual é o problema?"
"O problema é que o seu papel na diversidade e robustez da economia é questionável. Até as minhas entidades superiores já quase me consideram fonte insegura. Se cada mês que reporto, ou altera o valor ou altera o volume, né?..."
"Mas o mercado é dinâmico..."
"O caro empreendedor acha que os preços que pratica no pão, que até é bíblico, contribuem para a paz dos espíritos?"
"Mas eu não importo..."
"O senhor é mesmo atrevido! Pão, que é a primeira coisa que a pessoa come ao acordar, vai custar 40 kwanzas e ainda dizes que 'não me importo', ó senhor?"
"Eu disse que não importo farinha, a matéria-prima. Logo, tenho de vender de acordo com o mercado. O preço tinha que subir."
"E o tamanho baixar?! Não sei se já reparaste mas com este tamanho, eu meto na boca dois pães de uma vez só e ainda consigo falar à vontade. Tens a coragem de negar?"
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Gociante Patissa. Benguela, 21 Junho 2016

Uma semana de Férias em Windhoek (16) | QUE TAL VIR RELAXAR AO MEU LADO?

Uma semana de Férias em Windhoek (15) | QUALQUER QUEIXA CONTRA O PORCO ESTÁ BEM ENCAMINHADA

Uma semana de Férias em Windhoek (14) | VIGILANTES

Uma semana de Férias em Windhoek (13) | OPOSIÇÃO

sexta-feira, 29 de julho de 2016

(arquivo) Diário | Fico com a tua preocupação

“Bom dia, comadre.”
“Bom dia, compadre.”
“Como é o passado?”
“Ah, mas passamos bem, sem queixas, somente vós.”
“Nós passamos bem, também sem problemas a lamentar”.
“O outro?”
“O outro ainda não lhe deram a promoção de estar em casa em horas de trabalhar. Foi mesmo no serviço.”
“Então calha bem. Queria mesmo uma palavra com a comadre.”
“Aié? Vamos entrar então aí dentro, a casa está um pouco desarrumada, mas na sala mesmo dá”.
“Desarrumada, comadre? É porque nunca mais foste na minha casa! Aquilo até faz chorar…”
“Tá aí cisângwa ainda.”
“Haka! Obrigado.”
“É como o assunto?”
“Comadre, até custa um pouco começar, mas é assim: já há muitos dias que guardo essa palavra. Estou cansado lá em casa. A outra, aquilo até não sei como dizer, por isso é que… sempre que venho aqui e vejo como a comadre me recebe, cuida da casa, conversa, me faz pensar. A comadre é a mulher que me falta, eu te quero, comadre. Nós dois temos futuro”.
“Aié…? É assim, compadre, fico com a tua preocupação. O outro ainda quando voltar do serviço vou-lhe pedir o teu pedido. Se ele achar que sim, depois vai dar a resposta”.
“Não, comadre, faz favor, o compadre não pode saber! Eu até só estava a brincar, a comadre já não me conhece?! Comadre, estou a ir, ya!? Olha, se na próxima semana eu não aparecer, é porque fui visitar família no mato…”
“Se prepara, compadre, o outro vem aí!”

Gociante Patissa, Aeroporto Internacional da Catumbela 29 Julho 2013
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Uma semana de Férias em Windhoek (12) | SÓ BARATO FAZ SENTIDO O SECTOR

Uma semana de Férias em Windhoek (11) | 4x4

Uma semana de Férias em Windhoek (10) | INSTINTO

Uma semana de Férias em Windhoek (9) | TERRITORIALIDADE

Uma semana de Férias em Windhoek (8) | CONHECER A PALANCA FORA DE ANGOLA

Uma semana de Férias em Windhoek (7) | SAFARI MAIS PRÓXIMO

terça-feira, 26 de julho de 2016

Das férias em Windhoek (1) | SIDEWALK

Começa hoje a publicação da série «Uma semana de Férias em Windhoek», de onde regressei ontem depois de mais um investimento ao espírito, ao inglês e à arte da fotografia. Serão no máximo quatro fotos por dia, que é para não cansar a audiência hehehe

Rubrica de homenagem até 26 de Julho | HOMENAGEM DA FAMÍLIA A VÍCTOR MANUEL PATISSA (vídeo 7'52 seg)

Entre 19-21 de Setembro de 2013, a aldeia de Cindumbu [Tshindu:mbu] viveu um misto de tristeza e alegria. Tristeza, porque a morte esteve no centro; alegria, porque, finalmente, chegavam para repouso definitivo na aldeia que os criou e forjou as ossadas do cristão Manuel Patissa (1916-2008), do político e governante Victor Manuel Patissa (1946-2001), e da camponesa Adelina Mbali Manuel Patissa (1941-2007?), pai e filhos que vieram a falecer por doença na cidade do Lobito, que os adoptou no contexto de guerra que a história do país registou. Como bons Bantu, a família sente que a missão foi cumprida.
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segunda-feira, 25 de julho de 2016

Rubrica de homenagem até 26 de Julho | VICTOR MANUEL PATISSA 70 ANOS (10): A MOTO SIMSON QUE SE MOVIA A FARDAMENTO

Há uma febre que se instala a partir da paz de 1991, o advento da democracia e da liberdade de mercado. Esta febre chama-se caçar riqueza. Assim é que muita gente não perde a oportunidade de embarcar em negócios escusos de promessas fabulosas de lucros, o que passava pelo sector do minério, da joalharia, da botânica e afins. Era ver a loucura com que se caçavam camalhões, alegadamente por a natureza lhes agraciar com propriedades milagrosas, já para não falar da danificação de condutas eléctricas de alta tensão… atrás do bronze. E o mercúrio branco ou vermelho que nunca ninguém na verdade viu… muitos destes negócios terminavam num mesmo fim: a burla, a perda do já tão pouco,.

Para ser franco, nunca notei em Victor Manuel Patissa “ViMaPa” (1946-2001) grande entusiasmo para este lado. O garimpo dele era de outra natureza, conforme já antes referido. O que ele gostava mesmo era de angariar beldades. Pois era. Aqueles que com ele privaram e/ou o conheceram, seguramente retêm a memória do perfil poligâmico. Uma homenagem que omitisse esta página seria não só desonesta, mas também injusta para com os “derivados” do homem, embora discutir o mérito da poligamia passe ao lado do escopo do texto.

Como também já referimos, Situada a sudoeste da província de Benguela, Kalahanga dista 113 Km da sede da Baía Farta. Em 1991, aquando da reposição da administração do Estado, fruto dos acordos de Bicesse entre o governo e a Unita, havia pouco menos de 500 habitantes. A sua população é de matriz Vátwa (pré Bantu), dividida entre Va Kwisi e Va Kwandu, cuja vivência se resumia à caça (com armas de guerra), à recolecção de frutos e à pastorícia. Nesta época, para além do carvão, lenha e múcua, o potencial comercial incluía o tráfico de marfim, de peles de zebra e carne seca, permutados com bens alimentares, agasalhos e aguardente.

É neste quadro que surge um jovem comerciante a transbordar de charme e conforto financeiro, a julgar pela motorizada de fabrico alemão “Simson Enduro 51”, nova em folha. Caçava marfim, um tipo de negócio que exige tacto, confiança e paciência. O jovem era tudo menos discreto. Vai daí que resolve conquistar uma jovem funcionária auxiliar da Administração Comunal. Só que ela tinha sido já angariada nas hostes poligâmicas do chefe, que fizera questão de pagar o dote à família e tudo. Foi-lhe dito isto mesmo, mas o comerciante insistia nas investidas, que logo chegaram ao conhecimento de ViMaPa

Capturado pela guarda e retido na improvisada cela da unidade adstrita ao palácio por “traição comunal tentada”, o comerciante teve estaleca para arrombar o gradeamento e evadir-se para Bolonguera, o destino mais próximo, entre Catengue e Chongorói. Não sendo burro nenhum, levou consigo os documentos da Simson. Mas passados poucos meses sem sinal do foragido, ViMaPa entende carregar motorizada num camião carvoeiro com destino à sua residência no Lobito, onde de meios rolantes só havia uma Yamaha 50 (décima mão) e a bicicleta bugatti. Engraçada foi a alternativa para contornar a falta de documentos. Andava sempre fardado e de arma Akm atravessada ao peito. Desta forma, a polícia civil não o podia mandar parar (uma vez fardado) nem a polícia militar (tratando-se de motorizada civil).

Só talvez um ano mais tarde, o foragido finalmente conseguiria reunir forças para reaver o que era seu, no que usou a influência de um alto oficial da polícia no Lobito. Este visitou ViMaPa num belo dia em casa, tendo acabado tudo em bons copitos de Whiskey e altas gargalhadas.

Daniel Gociante Patissa www.angodebates.blogspot.com

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HISTÓRICO
Se estivesse em vida, completaria no próximo dia 26 de Julho o 70.º aniversário natalício. É também o mês do 15.º ano desde que faleceu de doença. Decidi homenagear a partir de 15/06 (com fotografias e trechos literários ou não com os quais se relacione directa ou indirectamente) a memória do cidadão Victor Manuel Patissa (1946-2001), o pai que durante os anos difíceis da primeira e segunda repúblicas nos vimos forçados a dividir com as missões de Estado, destacado em zonas de alto risco de ataques de guerrilha, cabendo à mãe a responsabilidade de preencher o vazio. Não me lembro de termos feito no lar festa alguma de aniversário, fosse por ele ou por qualquer outro membro, embora não se possa dizer propriamente que as datas e efemérides lhe fossem indiferentes, se considerarmos até o monte de feriados que o calendário socialista acarretava. Foi um homem com as suas qualidades e os seus defeitos, fez leituras consoante as suas convicções, ingenuidades e cultura. No lugar dele, eu talvez tivesse tomado uma ou outra decisão mais flexível diante de indignações de trajectória, mas ele lá teve as suas razões. Depois da grande homenagem que a família lhe prestou, aquela da transladação das suas ossadas do cemitério do Luongo para o jazigo construído na aldeia de Tchindumbu (como que a devolver o filho à Terra em que despertou na década de 1960 para a actividade política, depois de ver o pai preso, torturado e desterrado para São Nicolau, hoje Bentiaba), a recolha da memória fotográfica é algo complementar. Tomei eu a liberdade de a levar a cabo (sem precisar de pedir autorização a ninguém por mexer neste passado desértico, com o qual não tenho problemas nenhuns, nem ninguém devia ter). Não me move endeusar ViMaPa (acrónimo com que gostava ele de assinar) nem lhe dar uma importância histórica que não merecesse, muito menos cobrar o que quer que seja.

Rubrica de homenagem até 26 de Julho | VICTOR MANUEL PATISSA 70 ANOS (9): A IMPROVÁVEL EMBOSCADA FATAL E A GÉNESE DO DESERTO

Tinha um hábito pouco elegante para um citadino, aquilo de dormir às 19h00, despertar antes da meia-noite e morcegar o resto da noite escrevendo. Nem a tempo de acompanhar o telejornal ia. A explicação era simples: a cobra mata-se pela cabeça. Ora, como chefe de governo em zonas de fácil ataque pelo exército rebelde, dormir de noite era quase lesa-pátria. Se capturado, Victor Manuel Patissa “ViMaPa” (1946-2001, o terceiro militar na foto a contar da esquerda) seria uma enorme victória na propaganda do inimigo. Vivia-se à risca a emanação superior “Vigilância, camaradas!”

Num dia semelhante a outros, tal como tinha ficado combinado, batia-lhe à porta o motorista do camião carvoeiro antes das cinco da manhã. Satisfeito pela disciplinar pontualidade, ViMaPa (viajante de borla e ainda assim de chefe demissão) assegurava: “a partirmos a esta hora, o almoço hoje é lá.” E assim partia o camião para a comuna da Kalahanga com mais uns três ajudantes de carga na carroçaria. Faziam companhia ao motorista o chefe e o guarda-costas. Não se ia à Kalahanga sem guias de marcha, por sua vez dactilografadas na residência fixa do Camarada Administrador Comunal, no Lobito. Daí que os comerciantes acabassem por suprir a inexistência de meios rolantes protocolares (excepto um tractor podre de velho).

Situada a sudoeste da província de Benguela, Kalahanga dista 113 Km da sede da Baía Farta. Em 1991, quando se dá a reposição da administração do Estado, fruto dos acordos de Bicesse entre o governo e a Unita, tinha pouco menos de 500 habitantes. A sua população é de matriz Vátwa (pré Bantu), dividida entre Va Kwisi e Va Kwandu, cuja vivência se resumia à caça (com armas de guerra), à recolecção de frutos e à pastorícia. Nesta época, para além do carvão, lenha e múcua, o potencial comercial incluía o tráfico de marfim, de peles de zebra e carne seca, permutados com bens alimentares, agasalhos e aguardente.

Conversa-se de tudo para enganar as horas na tortuosa viagem, não faltando na mochila do tropa bolachas e conservas de peixe ou leite condensado. A faltarem talvez uns 20 Km, mata adentro, só se ouvindo o chiar dos pássaros ou o uivar de hienas, avistam-se homens a pedir socorro. Empunham bidons plásticos. Depreende-se que tenham algures o camião avariado e grande é o risco de morrerem desidratados em mata desértica. O passo a seguir é óbvio: parar e prestar a assistência possível, do logístico ao mecânico, pois quem conhece a história das ligações por estrada sabe que nada vale mais do que a solidariedade. Não podiam estar mais engados!

Bala na câmara. Ninguém se mexe! O ambiente é tenebroso. Seriam guerrilheiros da Unita, mesmo havendo a barreira do “Batalhão Queima Casaco” na Bolonguera, do comandante Mateus, primo do próprio ViMaPa? O saque é voraz em segundos. Mas a fúria sobe de tom quando os meliantes acham a arma Akm que andava escondida debaixo do assento na cabine. Comprovada a inocência do motorista, o camião é mandado seguir. ViMaPa e o respectivo guarda-costas são rendidos aos empurrões. O motorista consegue divisar no retrovisor dois corpos caindo na sequência de disparos à queima-roupa. Acelerador ao fundo, chega horas depois à sede da comuna e anuncia a emboscada e o fuzilamento do chefe.

Mobiliza-se o comando para a varredura de resgate do chefe, ou o que restasse dele, antes que as hienas, leões e outros carnívoros chegassem primeiro. O final é menos trágico, estavam ViMaPa e o guarda-costas ilesos. Os ladrões de gado ficaram-se pelo saque e susto às vítimas. Inevitável é a fama de “anti-bala”. O facto mesmo é que seriam vítimas da imprudência, quando o ditado Umbundu já aconselha: “Okalwi watomba oko kakwambata” (o rio que subestimares é que te arrasta). Tal como na Chila, o mandato da Kalahanga conheceria ordem de recuo face à desproporção bélica diante das forças inimigas.

ViMaPa passa temporariamente a trabalhar no Dombe-Grande, até ser nomeado para a Secção dos Assuntos Comunitários na Baía Farta, o que para ele era um presente envenenado, ainda mais vindo de um Sipapala que já fora Comissário Municipal do Bocoio e como tal conhecia a trajectória e perfil de ViMaPa. Começa ali a semente do deserto com o Administrador Municipal, afrontado pela recusa do cargo e consequente revolta passiva do subordinado. Alegando doença e penhora por dívida de tratamento tradicional, impossível de pagar com a ninharia que recebia de vencimento, ViMaPa passaria cerca de cinco anos sem pisar no serviço. “Não estudei nem dei a vida pela pátria para ser mandado apanhar cães vadios”. Neste período, aposta numa fazenda de duas mil plantas ananás no Monte Belo, acreditando que a paz seria “irreversível”. Em vão. E tudo a guerra levou.

Sendo certo que a administração do Estado é um dever que se sobrepõe aos sacrifícios individuais, gostaria um dia de perceber os critérios de colocação. Não deixa de despertar curiosidade o facto de ao militante ViMaPa ter calhado na rifa três comunas recônditas: a Chila (município do Bocoio entre 1981-1985), a Equimina (1986-1990) e a Kalahanga 1990-1993 (município da Baía Farta), que tinham em comum a vulnerabilidade aos ataques de guerrilha, com uma Chila na 7.ª Região Militar do inimigo. Seria interessante que daqui a umas décadas, já com novas gerações nos aparelhos decisivos (dos movimentos de libertação de ontem), fossem dipostos contributos documentais de modo a melhor perceber, recordar e até cantar a história do partido e do país numa escala que inclua notas menores.

Daniel Gociante Patissa www.angodebates.blogspot.com
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HISTÓRICO

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Rubrica de homenagem até 26 de Julho | VICTOR MANUEL PATISSA 70 ANOS (8): A VIDA MARCADA PELA POLIGAMIA, OS NEGÓCIOS QUE NÃO ANDARAM E A BURLA DO CAMARADA MOHA

ViMaPa (1946-2001)
No princípio tratávamos as outras esposas do pai por “tias”, até que fomos apanhados na teia de uma indagação de retórica (e passiva agressiva de tom): se vocês lhes chamam de “tias”, significa que os filhos que eu tiver com elas são vossos primos?

Aqueles que com ele privaram e/ou o conheceram, seguramente retêm a memória do perfil poligâmico de Victor Manuel Patissa (Julho 1946-Julho 2001). Uma homenagem que omitisse esta página seria não só desonesta, mas também injusta para com os “derivados” do homem, embora discutir o mérito da poligamia passe ao lado do escopo do texto. A poligamia, entre os africanos Bantu um direito respaldado, moralmente está condicionada à capacidade de sustentar o agregado. E é com base na última premissa que olharemos para as implicações na vida de ViMaPa, enquanto um desafio premente para quem deve prover (à parte o afecto) a logística e a escolaridade de mais de 15 filhos e três lares.

Com a viragem do país para o multipartidarismo, fruto dos acordos de Bicesse (1991) entre o governo de Angola e o então exército rebelde da Unita, Victor Manuel Patissa aposta no cultivo do abacaxi na comuna do Monte Belo, município do Bocoio, onde mobiliza uma plantação de mais de dois mil pés. Urgia empreender para contornar os efeitos do desmame do estado providência (em vista o capitalismo selvagem). O investimento foi para o ralo em consequência do fracasso eleitoral de 1992 e o retorno à guerra civil e corte das vias de circulação para o interior. Como se já fosse pouco, a economia do país colapsa depois de um desenfreado saque a tudo quanto fosse empresa.

Antigo palácio e Administração Comunal da Kalahanga
Era a segunda tentativa fracassada, depois da Pescaria Nova, na comuna da Equimina (finais da década de 1980), quando os dirigentes estavam impedidos de possuir bens económicos. Tal veto era facilmente contornável, bastando registar a empresa em nome de um primo, quando muito. A Pescaria Nova tinha mais nome do que capital. Duas canoas, três casebres de pau a pique e uma meia dúzia de homens e mulheres chefiados por Matemba, o mestre que ousava mandar e lucrar mais do que o dono, representado pelo primogénito e um primo. “Na capoeira só canta um galo”, esclarecia o mestre Matemba.

Não foram só desgraças. A década de 1990 registou na história mais alargada dos Patissa um capítulo importantíssimo: finalmente o velho Manuel Patissa recebia o reconhecimento formal e passava a beneficiar de uma pensão de antigo combatente (pelos cinco anos de cadeia política em 1961 nas mãos da PIDE, arrolado na “Operação Ovisonde”, que mandou missionários à cadeia de São Nicolau, Moçâmedes). A generosa pensão ia acima de 400 dólares mensais (salário de cinco professores do nível médio)… só pecou por chegar tarde, numa altura em que já poucas ambições o octogenário tinha, onde a acumulação do dinheiro representa mais um desconforto do que fonte de sossego.

Foto de autor desconhecido, usada para ilustração
O processo de inscrição foi muito discreto, pelo que arriscaria em dizer que não beneficiou a todos os confrades do mais velho Manuel Patissa (falecido em 2008). O seu êxito ficou-se a dever ao prestimoso papel do camarada “Moha” (o resto do nome propositadamente ocultado), que se comoveu com a história do pai do camarada ViMaPa, ex-colega na Escola Provincial do Partido (Mpla) entre 1986-1991, que tinha equivalência curricular de 3.º nível (entrava-se com a 6.ª classe e saía-se com a 8.ª).

A opinião do camarada Moha passou a contar muito em ViMaPa, de modo que foi com renovado entusiasmo que, anos mais tarde, veio do influente benfeitor a informação de um plano em marcha para financiar viaturas tendentes a minimizar a carência de antigos governantes. Fazia-se acompanhar de facturas (pró-forma) emitidas em nome “Victor Manuel Patissa/Comité Provincial do Partido” e o catálogo das referidas carrinhas. ViMaPa não cabia em si – e com razão. O único meio rolante a que teve acesso alguma vez foi um tractor velhinho de carroça, ao serviço protocolar da Administração Comunal da Kalahanga. Foi-se ao exagero de já mobilizar o motorista. Dado que nessa fase (1998) o seu salário mal chegava para comprar uma bicicleta, fui mobilizado a emprestar cerca de USD 250 (dois salários meus na Sonamet) para o custo da papelada.

Como mais fácil se apanha um mentiroso do que um coxo, veio-se a descobrir que fora tudo inventado pelo camarada Moha para sacar uns trocos ao seu companheiro. Seria retaliação por não lhe ter sido dada gratificação monetária da pensão de antigo combatente? Restou-me fazer uma série de romarias para reaver os USD 250, com alguma briga à mistura. A restituição contou com o empenho das filhas do camarada Moha, envergonhadas e revoltadas pelo comportamento burlesco do pai.

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(arquiv) E numa lanchonete do centro da cidade…

“Boa noite”
“Boa noite. Faz favor?”
“Desculpe a minha ignorância...” 
“Sim?”
“Qual é a diferença entre composto e bitoque?”
“Hum, eu também não estou a ver bem. Sou novo aqui.”
“Então pergunte ao seu colega.”
“Algum problema?”
“Não. Quer dizer, perguntava a diferença entre composto e bitoque.”
“Não há nenhuma! Composto ou bitoque é a mesma coisa. Quem escreveu escreveu à toa.”
“Mas aqui a ementa diz 1500 o bitoque e 1600 o composto…”
“É pouca diferença.”
“Ok. Eu quero um, então. Neste caso vou pagar como bitoque ou como composto?”
“Como bitoque, claro!”
“Obrigado.”

sábado, 16 de julho de 2016

Diário | Tem mbembita?

(I)
"Afinal quando é que vamos apagar a luz como antigamente?"
"Quando estive aí para voce, não me querias. Agora, ah porque 'quando é que vamos, quando é que vamos?..."
"Nunca ouviste que os que um dia se conheceram nunca mais vão se desconhecer?..."
"É assim: eu agora tenho homem, não sou mais a de ontem. Ouviste?!"
"Você quando começa a ficar rabugenta, é porque assim já estás aceitar. Você não conhece saudades?..."
"Pronto. Cala a boca já, estás a me despir com as palavras. Mas é assim: temos que fazer as coisas com jeito. Eu como o meu pequeno negócio é ambiência, você quando é para coiso, tem que ter um código. O meu homem é pescador, não é todos os dias que dorme em casa."
"Aié, né? Ainda fala o código! Até já estou cheio de vontade..."
"De dia, não! Lá p'ras tantas, você bate à porta e pergunta assim: 'Não tem mbembita?' Se eu te responder 'tem', assim estou livre. Se eu te responder 'não tem', assim não vai dar, o meu homem está em casa, ouviste?"

(II)
"Troc, troc, troc"
"É quem é?"
"Tem mbembita?"
"Não, não tem."
"Tem mbembita?"
"Não, já acabou."
"Tem mbembita?"
"Ó senhor, já falei! Hoje não há nada p'ra beber."
"Tem mbembi..."
"CHEGA! MAS QUE PORCARIA É ESSA, Ó MULHER, HÃ?! SÃO 23 HORAS, JÁ FALASTE QUE NEGÓCIO ACABOU, E ELE CONTINUA A BATER À PORTA?! ISSO NÃO É NADA BEBIDA, PÁ, VOCÊS TÊEM OUTRA CONVERSA!..."
"Assim estás a falar lixo porquê?! Uma gaja não está contigo nua na cama? É por isso que eu quando me conquistaste já tinha receio. Meu coração já me avisava que no teu ciúme ninguém passa...'
"VAMOS EMBORA DORMIR, O GAJO TAMBÉM JÁ FOI. ESSE NEGÓCIO DE VENDER BEBIDA A COPO EM CASA SÓ DÁ CONFUSÃO..."
"Eu não trabalho, como vou sustentar os três órfãos que me encontraste com eles?..."

(III)
"Mas ó seu meu estúpido! Já não te falei que ao responder 'não há mbembita', assim o meu homem está em casa?!"
"Ontem estava já com uns copos, e você sabe que eu com copos é fogo!..."
"Estou a te avisar, ouviste?! Se o meu homem me deixar, você vai me arranjar outro, ó burro?!"
Gociante Patissa (adaptação)
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Lubango, 16 Julho 2016

sexta-feira, 15 de julho de 2016

(arquivo) Diário | TIPO RÃ?

Uma: Estás a falar baixo, quê que se passa?
Outra: Tenho brônquio.
Uma: Tens quê?
Outra: Brônquio.
Uma: Brônquio, como assim?
Outra: Quando tens respiração cutânea à noite.
Uma: Tipo rã?
Outra: Não! Quando respiras com dificuldade.
Uma: Ah, ok. Melhoras então.
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quinta-feira, 14 de julho de 2016

(arquivo) Citação

"O meu marido não agradece. Você pode lhe dar mesmo todos os teus prazeres... mesmo assim, ele ainda vai fora."
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quarta-feira, 13 de julho de 2016

Ainda a presença do livro ALMAS DE PORCELANA na imprensa brasileira. Desta vez a resenha é de Daniela Vieira, através do portal Biblioteca Leitora. Obrigado

Almas de porcelana | Gociante Patissa


Oi gente, tudo bem? Primeiramente gostaria de pedir desculpas pela ausência no blog e na página do Facebook rs. Por aqui as coisas estavam um pouco corridas (casamento do meu irmão! Ownn…), e também eu estava sem internet em minha casa. Então, tudo o que eu postava, era com internet “roubada” da minha tia rs Quando eu ia lá para cuidar da minha avó, ou visitá-las, eu pegava um pouquinho da internet para atualizar as coisas por aqui e no Facebook. Mas agora as coisas já se ajeitaram, então vamos voltar à programação normal rsrs Assim espero…

Hoje vim apresentar a vocês um livro de poesias que li recentemente, que chegou até mim por meio da parceria com a editora Penalux. Almas de porcelana (Penalux, 2016, 86 p.) do autor angolano Gociante Patissa é dividido em três partes: Consulado do Vazio (livro de estreia do poeta, publicado pela primeira vez em Benguela); Guardanapo de papel (segundo livro do autor, lançado primeiramente em Portugal); e Poemas dispersos (que contém poemas inéditos e outros que foram publicados em revistas de Moçambique e Portugal).

Gociante é bem envolvido com causas sociais e políticas, e mostra muito disso em suas poesias. Vemos também paisagens da guerra, mas sobretudo mensagens de esperança ditas com palavras muito acariciadoras. A começar pelo título: Almas de porcelana. Almas, por vezes são coisas tão “duras”… mas que devem ser tratadas com cuidado, como porcelanas. Por coisas que o autor provavelmente passou, sentimos, ao ler seus escritos que ele próprio emoldura sua arte, e assim, sua alma.

Como irmãos (p. 22-23)

“D-me a tua mão
para andarmos de braços dados
torturando a solidão lado a lado
caminhemos sem temer as minas
do sol-posto à nascente
iluminados sem consultar o lusco-fusco
como irmãos.

Vamos derrubar o quintal que nos separa
apanhar pelas traquinices
se for o caso
mas como irmãos
vamos chorar em conjunto
e enxugar as lágrimas com o canto
da minha camisa
vamos rir da dor, reter a lição
sem nada ruminar
como irmãos

Vamos jogar à bola
ou no teu quintal a wela
vamos correr transpirar até cansar
depois da escola
vamos olhar juntos adiante
como irmãos
e a guerra não terá vez.”

O autor mantém ativo o blog Angola, Debates & Ideias. E vejam só, encontrei esta entrevista, de 2014, que ele participou, do programa Fair Play. Assistam até o final, porque em determinado ponto da entrevista ele declama um de seus poemas. E já adianto: é lindo, apaixonante!

Se vocês se sentirem à vontade, leiam esta entrevista. É longa, mas recheada de informações e coisas interessantíssimas (e até vemos características com o Brasil em algumas partes, hein?!).

Título: Almas de porcelana, Autor: Gociante Patissa, Editora: Penalux, Páginas: 86 p.

terça-feira, 12 de julho de 2016

SOS | Sugestões de roteiro

Nesta época em que o quadro socioeconómico angolano é dominado pelo binómio "subiu/fechou" (estando o primeiro para o preço e o segundo para a falência dos privados), qualquer roteiro para férias é complexo. Nem o turismo interno sequer nos sai mais barato, tendo contra o bolso do cidadão o já referido clima do "subiu/fechou". Sem acesso a dólares nem paciência para engrossar filas de embaixadas no diplomático mendigar por um mísero visto de turista (como diz um amigo, porque tenho mais que fazer!), resta solicitar contributos baseados em possíveis experiências de amigos nesta rede, no que se refere à fronteira mais próxima, o destino Namíbia: (1) Algum conhecimento da melhor e mais segura forma de se fazer a ligação Oshikango-Etosha? (2) Em termos de ligação aérea, é fácil conseguir vagas com um dia de antecedência entre Ondangwa ou Oshakati e Windhoek? Se sim, quanto custa o bilhete na equivalência ao Kwanza/Dolar? (3) Será que existem em Oshikango agências com pacotes turísticos eficientes e acessíveis para almas com fraco sentido de auto-orientação? Ainda era só isso. Obrigado

Poemário ALMAS DE PORCELANA volta a ter destaque na imprensa brasileira. Desta vez sai no portal Sopa Cultural a resenha assinada pelo académico Jorge Rodrigues

LIVRO ANGOLANO REVELA A FRAGILIDADE HUMANA
 
A importância da obra é reforçada pelo fato de que no Brasil há pouquíssimas publicações de escritores negros de Angola

Por Jorge Rodrigues - 11 de julho de 2016 in http://www.sopacultural.com/livro-angolano-revela-fragilidade-humana/

Descobrir o mundo exterior a partir de seu interior, essa é a proposta do poeta e jornalista Gociante Patissa em seu novo livro “Almas de Porcelana”. Editado e lançado no Brasil pela Penalux, como o próprio título já diz, a obra apresenta de maneira poética a fragilidade dos seres humanos e suas relações com familiares, com outros e com a própria vida.

A obra trata-se de uma seleção de poemas de dois livros já publicados pelo autor, “Consulado do Vazio” e “Guardanapo de Papel”, catalogados em duas partes. “Almas de Porcelana” ainda reserva uma terceira parte dedicada a poemas diversos.

Em seu trabalho, o autor é sempre muito franco ao expor o mundo e as histórias que o cercam.  No poema “Obras do Tempo”, Patissa mostra a dor causada pelas minas terrestres espalhadas pelo solo africano. Ele apresenta o sofrimento das vítimas em forma de palavras, como, por exemplo, “Quando perdi as pernas; começou o Titanic da minha vida a afundar; (…) quantos mais se amputarão; quantas minas ainda afinam vozes; para a hora da explosão?; até quando as armadilhas?”.

Poesia intimista

Porém, mesmo agarrado à imagem da porcelana, Patissa sabe construir a beleza daquilo que um dia foi apenas mero barro, mas graças ao calor da poesia e ao talento do poeta transfigura-se em algo de inestimável valor. Sua fragilidade reside na apreciação pacífica que emana de seus poemas sensíveis. Há neles belas filigranas de esperança, como num delicado conjunto de fina porcelana, em cujas peças brilha um arremate nostálgico.

Para os editores Tonho França e Wilson Gorj, a poesia de Gociante é intimista e sensível, procurando sempre símbolos que compreendem a relação do “Eu” com o “Mundo” e vice-versa. “As ideias centrais são como se seus contornos desenhassem o externo, e o autoconhecimento viesse através do ‘Outro’, mas o ‘Outro’, também, é uma ideia vinda do ‘Eu’”.

A importância do livro é reforçada, segundo os editores, pelo fato de que o mercado editorial no Brasil acolhe poucas obras de escritores negros, principalmente oriundos de outros países, como Angola. Eles dizem que os autores angolanos mais conhecidos no país – como, por exemplo, Ondjaki e Agualusa – traduzem um perfil de escritor um tanto quanto distante da realidade populacional daquela região, na qual os negros são a maioria. “O que deixa o repertório brasileiro fraco e pouco diversificado”.
– Porém, Almas de Porcelana é um livro que tenta quebrar essas barreiras, enriquecendo nossa cultura e visão de mundo – reforça.

Serviço: Editora Penalux, Livro: Almas de Porcelana, Autor: Gociante Patissa
Publicação: 2016, 88 páginas, 14×21 cm, Preço: R$32,00

Link para comprar:

Renomada escritora moçambicana renuncia literatura | “Não volto a escrever. Basta!” - Paulina Chiziane

"Não vou falar da palavra “racismo”. Apenas interessa-me fazer um convite para a descolonização do próprio preto, para ver se acordam um pouco. (...) A raça e o sexo determina o estatuto de quem faz o que quer que seja. Sou mulher e sou preta, então, tudo que faço tem que ter erros. Se não tiver, arranjam.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Divagações | DO ENJÔO CIBERNÉTICO

E lá veio a hipnose chamada resultados do euro, como se a vida parasse ou dívida alguma pagasse. É adorável o sentido de dispersão de foco na cidadania a mwangolê. Arr!
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domingo, 10 de julho de 2016

(arquivo) Divagações | Do linguajar

Entre os vários ângulos da diversidade que é Luanda, recordo aqui a que tem que ver com o fenómeno linguístico. Quem, como eu, teve a sorte de crescer na periferia facilmente recordará aquelas cenas de gente que, depois de passar alguns dias na capital para "se vingar" (entenda-se fazer pequenos negócios, trazer televisor, vídeo, walkman e T-shirts pretas com a cara do Van-Dam ou Commando em ponto grande), voltava com sotaque "retocado" e alguns “neologismos”, tais como: “óle” (para dizer óleo), “dóormir” (aqui um toque francês, talvez pelo convívio com a comunidade da África francófona), “fala com sóieu” (fala comigo), "le coca" (põe o bebé às costas), "saia dé" (saia dela). Certa rapariga, ao ver um ano depois que os rapazes continuavam solteiros, chegou mesmo a dizer que “os homens daqui não mánteum” (onde manter quer dizer viver maritalmente).
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sábado, 9 de julho de 2016

Não sendo propriamente um adepto do cantautor angolano Puto Português, partilho esta música dele que vale por tudo: pertinência no conteúdo, harmonia, ritmo, desenvoltura vocal, instrumentos

Rubrica de homenagem até 26 de Julho | VICTOR MANUEL PATISSA 70 ANOS (7): FERNANDO MANUEL, O IRMÃO SUPER-PROTECTOR - «PRIMEIRO A FAMÍLIA, DEPOIS A RAZÃO»

Fernando Manuel (1948-2015) durante as 
obras de construção dos jazigos na aldeia do 
Cindumbu, Monte Belo, Bocoio, onde repousam
 os irmãos Victor Manuel Patissa, Adelina Mbali 
Tulituke Manuel e o patriarca Victor Manuel 
Patissa em 2015.
Sempre que o adolescente se metesse em sarilhos, não sendo ele por aí bom de luta corpo a corpo, fazia tudo para correr até perto do irmão mais novo. Depois disso, era só esconder-se dentro de casa, que o irmão assumia imediatamente a confusão, com recurso à ameaça com o canhangulo do pai. Não é que não soubesse da função justiceira do castigo físico, do tipo quem provoca apanha, não. Isto só valia enquanto não se aplicasse aos seus. «Vão bater o Victor porquê? Vocês é que lhe pariram?!» Nunca perguntava «que mal é que ele cometeu desta vez?» Primeiro vinha a família, só depois a razão.

Qualquer homenagem à memória de Victor Manuel Patissa (1946-2001) seria incompleta se não incluísse o seu irmão Fernando Manuel (1948-2015). Desde logo na infância e adolescência, FM podia muito bem ser caracterizado como contracorrente, sendo a primeira destas correntes contrariadas o senso comum. Ora, há uma crença generalizada na cultura Umbundu segundo a qual os irmãos que se seguem (cronologia de nascimento) têem uma relação tendencialmente de rivalidade. Acontecia precisamente o contrário entre Victor e Fernando, com o primeiro (dois anos mais velho) a buscar socorro no segundo vezes sem conta.

Tinham entretanto uma diferença enorme de personalidade. FM tendia para o anti-social. Ele não saía de casa para brincar. Quem quisesse brincar que fosse ter com ele. Só que enquanto brincavam, já um monte de pedras estava de sobreaviso para quando as coisas corressem mal e o uso da violência necessário fosse. Ou seja, brincamos mas sob as regras do meu território. Já o Victor era mais sociável, carismático, engatatão e… trocista. Tinha a seu favor a extensão limitada das aldeias (aqui não estou certo se ainda em Cindyandya, onde nasceram, ou Cindumbu, onde se desenvolveriam e lugar adotado para o fim de suas vidas, ambas da comuna do Monte Belo, município do Bocoio), pois sempre conseguia correr para as “axilas” do irmão e sair impune.

Nesta foto de 4 de Maio de 1982, 
da esquerda para a direita, 
Fernando Manuel e o seu filho 
Malaquias Fernando (6 anos), bem 
como o casal Víctor manuel Patissa 
e Emiliana Chitumba Gociante mais
 os filhos Rosa Ngueve Gociante 
Patissa (6 anos) e Daniel Gociante 
Patissa (3 anos)
FM foi dos filhos de Manuel Patissa a mais directa vítima da “Operação Ovisonde”. Tinha ele pouco mais de doze anos quando se dá a prisão do pai em 1961, acusado pelo regime colonial português de terrorista que usava o altar da sinagoga para fomentar a revolução, na sequência dos ataques no norte de Angola. Durante os cinco anos de cadeia do pai em São Nicolau de Moçâmedes (actual Bentiaba, Namibe), Fernando é retirado da escola pelos tios, para quem o estudo só trazia desgraças. “Se a pessoa que madrugou ainda não voltou, é prudente seguir outra pelo mesmo caminho?”, socorriam-se aqueles da parábola, já que o preso não tinha outra arma senão saber ler e escrever. Em consequência, FM nunca mais conseguiu estudar mas nem por isso deixou de aprender a ler e escrever e desenvolver a profissão de alfaiate.

Fernando Manuel, que também chegou a ir trabalhar como contratado nas minas de ouro de Transvaal, África do Sul, gabava-se, e provas disso não foram poucas, de ser o mais pujante da família. “Aquilo [peso] que eu desconseguir levantar, na família que ninguém mais experimente.” Como é natural, não faltam nas relações momentos menos bons, os quais para já são irrelevantes, até se comparados aos mais conseguidos.

Em nós, filhos de ViMaPa, fica marcada a gratidão pelo mais elevado gesto protector de Fernando Manuel ao idealizar, conduzir legal e logisticamente a última viagem do seu irmão, da sua irmã Adelina Mbali Tulituke Manuel e do patriarca Manuel Patissa ao jazigo na Aldeia de Cindumbu, passando pela exumação dos cemitérios em que haviam sido originalmente enterrados no litoral de Benguela. FM chegou a ser censurado pela direção da Igreja Evangélica Sinodal de Angola (uma vez mais a conservadora IESA), que considerava ritual mundano a transladação de ossos. Se tiverem de me suspender, estão à vontade, teria dito, “o que eu sei é que os hebreus andaram mais de 400 anos com as ossadas dos seus entes até que as condições permitiram o repouso final.”
Daniel Gociante Patissa www.angodebates.blogspot.com