PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

domingo, 29 de novembro de 2015

Diário | Você acha que eu como muito?

“Acorda ainda, homem! Quase dez horas, e tu aí na preguiça. Engravidaste uma gaja ou quê?”
“É o quê mais afinal? Deixa um gajo descansar. As actividades já não acabaram ontem?!”
“Daqui a pouco o pessoal sai para as compras, e vais ficar aí no ‘me esperem, me esperem’. Sabes mesmo que, no estrangeiro, é andar acompanhado; nunca se sabe os bandidos…”
“Pronto, chega já de assuntos malaike. Conta ali um mambo bala…”
“Ah, é verdade. Sua excelência o Ministro convidou a delegação para um almoço…”
“A sério? Essa é que é boa notícia!!! E onde será?”
“Num clube de Yate, tipo aquário vidrado em cais.”
“Mbora se preparar!”
“ATENÇÃO, JUVENTUDE, TODO O MUNDO CONCENTRADO! O AUTOCARRO JÁ ESTÁ LÁ FORA.”
“Fogo! Finalmente um dia de lazer, já não aguentava mais tanta reunião junta.”
“Vendo o menu, a comida é até muito mais barata aqui do que na banda! Mesmo a bebida também.”
“ATENÇÃO! CREIO QUE O ALMOÇO FOI MUITO APETITOSO. ANTES DE VOLTARMOS AO HOTEL, O MINISTRO MANDA AVISAR QUE CADA UM VAI PAGAR A SUA CONTA. PARA NÃO COMPLICAR, SÓ TRINTA DÓLARES POR CABEÇA; SUA EXCELÊNCIA ASSUME O RESTO.
“Ouviste isso?”
“Ouvi, mas não concordo! Como é que Sua excelência o Ministro nos traz nesse lugar de luxo, agora fala que ‘cada um por si, Deus para todos’?!”
“Quer dizer, essa de ‘cada um por si, Deus para todos’, hum, ele não disse! Aliás, desculpa, mas não te entendo! Quanto é que recebeste do Estado para ajudas de custo de dez dias?”
“Mil e seiscentos Dólares [US]…”
“E comeste de quanto neste almoço?”
“De sessenta Dólares. Mas todo o mundo sabe que eu até não como assim muito. Você acha que eu como muito? Um hamburger de cinco dólares numa roulotte já estava bom…”
“Mas se recebeste mil e seiscentos dólares, não tens que pagar hotel nem comida, te custa alguma coisa tirar deste valor trinta dólares para pagar o que comeste?!”
“Eu já sabia, esse ministro sempre me pareceu agarrado! Nunca se viu isso. Um Ministro me fazer pagar a conta?...”
“AGORA QUE CADA UM JÁ CONTRIBUIU, O MINISTRO MANDA AVISAR QUE JÁ PAGOU DO SEU BOLSO O ALMOÇO DE TODOS. NA VERDADE, O DINHEIRO RECOLHIDO SERÁ PARA O VOSSO JANTAR DE DESPEDIDA. ENTRE VOCÊS MESMO ELEJAM UMA COMISSÃO DE GESTÃO. PRONTO, A LIÇÃO É ESTA: JUNTOS A CONTRIBUIR, JUNTOS A COMEMORAR.”
“E agora? Ainda achas que sua excelência o Ministro merecia exoneração?” “Exoneração? Nunca! Há festaaa rijaaa, muito copo, amanhããã!!!! Esse ministro é bwééé!!!”
GP, Benguela, 29.11.2015

sábado, 28 de novembro de 2015

Umb: Usandambembwa wokaliye (Lobito Street Photography 2)

Umb: Usandambembwa wokaliye

Port: Nova Pedagogia da Paz 

Eng: New Peacekeeping Approach 

Nota solta | Uma euforia a menos

Não festejei a subida de Obama à presidência (e por acaso foi durante o seu primeiro mandato que tive o privilégio de ser convidado pelo Departamento de Estado - através da Embaixada em Angola - a visitar os EUA durante quase um mês, com passagem em quatro estados, onde vivi uma semana cada). Não festejarei agora a nomeação de Francisca Van-Dúnem a Ministra da Justiça em Portugal.

Em ambos os casos, não se festeja a competência, a aptidão, o mérito, os direitos legalmente plasmados à cidadania, mas, sim, o facto de alegadamente se transpor a barreira do racismo, na sua vertente mais primária, pois o negro chegou ao poder, curiosamente cedido pela hegemonia branca. Em 40 anos de democracia, que coincidem com os 40 anos da sua retirada de África, a nossa república "irmã" europeia é mais ou menos parabenizada por "reconhecer as outras comunidades" com as quais tem ligações históricas.

Há várias nuances que se podem levantar, mas sou dos que acreditam que uma tal leitura só pode ainda mais abrir precedentes para a promoção do "diferente" engrossar o olho estratega do marketing eleitoral. A discriminação positiva precisa de ter pilares consistentes.

Recordo a desilusão de um grupo de jovens intelectuais que viajou do Kénia para saudar o "irmão", em Janeiro de 2010, tendo desperdiçado o seu tempo e recursos com viagem e alojamento em Washington, sem conseguir o pretendido. Nós, os do grupo do intercâmbio, porque estava programado e interessava ao poder instituído, chegamos a visitar a sede do Departamento de Estado, tendo ficado inviabilizado o nosso encontro com a Secretária Hillary Clinton pela tragédia no Haiti, para onde se deslocou de emergência.

Mudou a situação da comunidade de origem não branca nos EUA, comparativamente com a maioria que conforma a então "master-race"? Pelo contrário, acabamos vendo o renascer de conflitos baseados na supremacia racial/étnica, com o deplorável Ku Klux Klan, parece até que aumentaram os casos de abate a indefesos não brancos por parte da polícia. Não sendo naturalmente o mesmo quadro de exclusão violenta vivido em Portugal, não deixa de fazer sentido a pergunta: Porque achamos que uma única ministra representa este "Abracadabra" em Portugal? Um holofote ao académico será representativo de outras vidas socialmente menos ouvidas?

Festejamos porque a nova Ministra da Justiça é negra, é Angolana de origem, naturalizada portuguesa e lá residente há muitas décadas. Já agora, e se Portugal desatasse a explodir em festa por cada vantagem que um seu nacional ou descendente consegue em Angola e nas demais ex-colónias? E se Cabo-Verde fizesse o mesmo com a vasta comunidade que tem em Angola, "encaixada" nos mais estratégicos sectores nossos?

Sei que isso soa um tanto em contra-mão das euforias, mas sou por uma a menos.
Gociante Patissa, Benguela, 28.11.2015

Amigo, não me dá lá só cem? (Lobito Street Photography 1)

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Hobby

Foi um dia bem aproveitado a fazer fotografia de rua. Em breve vou publicar a série desta reportagem no Lobito em fotos | Busy day today doing street photography. Pictures on the journey in Lobito will be releasead soon.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Citação

"Como eu percebi que gente que trabalha com cultura não percebe de cultura, como eu percebi que gente que trabalha com a arte não tem sensibilidade para lidar com o artista, decidi fazer uma pausa"

(Dog Murras, músico angolano, in Hora Quente, TPA2, 26.11.15)

Nota solta

Deu para ouvir MBangula Katúmua, concretamente já na parte final, em jeito de breve resenha (via Rádio Benguela) ao conto "No Reino dos Rascunhos", do meu livro "Fátussengóla, o Homem do Rádio que Espalhava Dúvidas". 
Nota alta também para a referência feita ao trabalho de Ras Nguimba Ngola, que no projecto Ler Angola entrou com a prosa "E lá fora os cães", ele que por agora prepara lançamento em Luanda do segundo livro de poesia, intitulado "Pegadas Íntimas". 
Mbangula, residente em Benguela, é professor de sociologia e escritor. Publicou no campo da escrita criativa três obras de poesia, nomeadamente, "Sexorcismo", "Sexonância" e "Humanus".

Caso tenha algum tempinho, não deixe de acompanhar em áudio e de viva voz um conjunto de entrevistas, debates e mesa-redonda radiofónicos com a participação de Gociante Patissa, na condição de cidadão comprometido com a escrita e a comunicação (compilados na base de dados indicada no link). Pode também fazer download. Obrigado

Clicar aqui para aceder à base de dados do Soundcloud

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Diário | E o almoço, compadre, fica como?

"Dá licença, comadre?"
"Entra, compadre."
"Esse almoço sai ou não sai?"
"Falta pouco. Pode sentar, compadre, vou só passar uma toalha no rosto. Esta cozinha aquece como!" (risos)
"Estou em casa, querida comadre, não se preocupe. O outro está?" 
"O compadre tem pouca sorte. Ele esta semana não vem almoçar, está apertado no serviço."
"É verdade. O trabalho quando aperta, é mesmo a pão e gasosa..."
"Vai um copo de 'cisangwa', compadre?"
"A comadre sabe que não sei negar a vossa 'cisangwa' caseira."
"O teu compadre é que não gosta muito, prefere o vinho dele..." 
"É um pecado, comadre, ter tudo e não ver."
"Mba falaste mesmo. Haka! Veio falar com ele?"
"Sim. Quer dizer... não. Até não sei como começar..."
"É assim tão difícil falar comigo, compadre?"
"... Eu às vezes penso muito. A comadre tem essa forma de me tratar bem que, lá em casa, com a outra, a pessoa... quer dizer, não encontra. A maneira como a comadre faz as coisas. Como está sempre perfumada, o sorriso. Comadre, vai-me desculpar, mas sinto que há uma linda história de amor entre nós que nos falta viver..."
"Eu com o compadre, o compadre comigo, não é?"
"A comadre sabe como é, essas coisas do destino..."
"Oh, meu compadre, não te preocupes. Assim que o teu compadre chegar do serviço, vou-lhe pedir autorização. Se ele aceitar..."
"Comadre! Não me estraga a longa amizade! O que é que ele vai pensar?! Já vi que a comadre me entendeu muito mal..."
"Ah, já vai? Não disse que tinha pressa. E o almoço, compadre, fica como? A resposta é na minha boca ou na do outro?"
GP, Benguela, 25.11.2015 (adaptação)

domingo, 22 de novembro de 2015

Just a question

Ocorreu-me uma pergunta da esfera do futebol angolano, quanto ao destino dos treinadores. Era suposto falar da figura do educador, genericamente entendido como o professor, já que até o calendário lhe dedica o dia de hoje. Já agora, não é que não saiba da grande contradição (mais uma) da humanidade, onde o professor, com tudo o que carrega de responsabilidade na formação desta mesma humanidade, vale mil vezes menos do que um atleta de futebol, não raras vezes até analfabeto funcional. Indo ao ponto, o que me ocorreu é questionar a "moda" (no sentido estatístico do termo) entre os treinadores da selecção angolana de futebol - também conhecida por "Palancas Negras" -, sobretudo quando caem em desgraça, condenados por "teimosia". (a) Carlos Alhinho (o luso-caboverdiano, de boa memória, talvez o mais premiado no cargo de seleccionador nacional) viria a passar à besta por conta das "opções técnicas", acusado de convocar atletas já em fim de carreira, preterindo outros em melhor forma. Foi afastado por... "teimosia"; (b) O português Manuel José foi afastado (ainda bem!) pelo seu feitio arrogante (não o tinha antes da contratação?) e pela sua monumental... "teimosia"; (c) Oliveira Gonçalves, responsável pela primeira (única e provavelmente última) presença de Angola num mundial de futebol (Alemanha 2006) seria afastado mais tarde por... "teimosia"; (d) O luso-angolano Lito Vidigal perdeu o cargo por nada mais e nada menos do que a sua... "teimosia" (e) O uruguaio Gutavo Ferrín saiu de forma inglória por... "teimosia"; (f) Romeu Filemon, que esta semana anda na boca de todos pelo desaire diante da África do Sul (1-3 em casa), está a ser fustigado por exceder na sua "soberania" com as opções técnicas, deixando de fora atletas em boa forma no campeonato nacional e não só. A perder o cargo (não se exclui tal possibilidade), será, adivinhem, por... "teimosia". Ora, aqui chegados, a pergunta é: Será que o narcisismo e/ou génio casmurro é assim tão decisivo no perfil traçado para treinadores ou estaremos diante de algum problema crónico na Federação Angolana de Futebol (FAF)?

Gratifica-se

Apetece acordar amanhã com uma mentira, uma mentira que seja assim muito boa, que valha mesmo a pena, já que a verdade tem cada vez menos de fotogénica. Não peço muito mais, uma boa mentira bastava para a minha dormente máquina fotográfica. Alguém empresta uma? Gratifica-se antecipadamente com... muito grato.

Diário | Não têem sentido de humor?

“Senhor motorista, guarda ainda os teus documentos!”
“Está bem, chefe.”
“Vocês ali na carroçaria, tudo que é homem, já no chão e com BI na mão!”
“Ó filho, eu já tem já 60, o teu irmão 45. Também desce?”
“O que conta é idade fértil. Fora isso, tudo que não está de saia sai-me já da carrinha!”
“Ora vejamos… O que é que levam aqui… Ei, mais-velho, esses dois sacos de milho tem quê?”
“Milho, filho.”
“Milho?! Está onde a factura?”
“Milho da lavra. Sai do Muhaningo, no Dombe, Baía Farta é caminho. Temos óbito no Lobito, é para fazer fuba.”
“Qual é o documento que diz que o milho saiu da tua lavra?”
“Documento é enxada, filho, não passeia na viagem. Milho do PAM [Programa Alimentar Mundial] é seco; este ainda é ‘citiva’ [semi-seco].”
“Vocês pensam que é brincadeira governar, não? Este ano [1996], o governo e os seus parceiros sociais não dormem, só para ver se acabam de vez com a penúria. E os camaradas ficam a fazer escaramuças com as doações?”
“Vai ainda no teu primo Jaime.”
“Sim, pai.”
“Xé! Você vai aonde? Ó mais-velho, onde está a ir o teu filho?”
“Vai só aqui perto no vosso colega Jaime?”
“O Jaime de onde?”
“Aqui só falar com primo dele, vosso companheiro só da seculança…”
“Vai fazer lá quê, se o intendente Jaime a esta hora está ocupado no que tange ao trabalho?! Mas, ó senhor! Você é precipitado, não? Volta cá mais é, aqui! Isso até já estava no fim. Será que vocês, com essa idade toda, não têm sentido de humor?”
“Pronto…”
“O paizinho não tem só assim um quinhentos kwanzas para o teu filho de braçal comer só um pão seco?”
“Ó filho, quando é assim, você pede mesmo. Mas não tem.”
GP, Benguela, 22.11.2015

sábado, 21 de novembro de 2015

Diário | Cash, assim, é inglês?

"O senhor prefere fazer o pagamento em multicaixa ou cash?"
"Hã?"
"Se o pagamento é em cash ou multicaixa..."
"Não entendi."
"Vai usar cartão ou vai pagar em dinheiro à mão?"
"Dinheiro à mão. Ai, cash, assim, é inglês?"
"Sim."
"Mas, então, porque é que estás a falar comigo inglês, se somos todos angolanos?"
"É o termo próprio."
"É o termo que vocês usam aqui?"
"Não só aqui, mas em todo o lado. Cash mesmo é dinheiro à mão."
"Mas, espera aí, isso tens que usar com quem estudou contabilidade, porque é linguagem técnica. Eu não estudei isso."
"Ai, é? (risos)"
"Não ri".
GP, Lobito, Nov. 2014

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Problema resolvido | JÁ ESTÁ DISPONÍVEL O VÍDEO DA ENTREVISTA DE GOCIANTE PATISSA AO PROGRAMA FAIR PLAY, DA TV ZIMBO

Conduzida por Kénia Sandão e gravada na quarta-feira, 06 de Agosto, a entrevista foi ao ar no domingo, 10 de Agosto de 2014. A conversa gravitou em torno da vivência e produção literária do escritor angolano Gociante Patissa, residente em Benguela. Perdeu-se alguma qualidade na imagem, mas o som compensa

Utilidade pública

Recebido o alerta quanto a ter sido removido o vídeo oficial da entrevista biográfica que o escritor Gociante Patissa concedeu em 2014 ao programa Fair Play, da TV Zimbo, conduzido por Kenia Sandão, e porque a nossa equipa entende que o conteúdo se mantém actual, estamos a cuidar de usar os meios ao nosso alcance para obter uma cópia do referido vídeo e consequentemente carregá-lo no Youtube, tão breve quanto possível, desta vez por nossa conta e risco. Gratos pela compreensão.

Diário | A última pessoa a falar

"Meu kota! Kota Kupatisa! O kota não está a me reconhecer, né?"
"Desculpa. Tu és..."
"O fulano! Meu kota, deixa só parar bem a mota para dar um abraço no kota Kupatisa... Grande kota..."
"Pois, és o fulano, sim. Mas já vai muito tempo que não nos vemos."
"Eu estava a cumprir. Recebi soltura só há dois meses e tal. Mas sempre que via o kota Kupatisa na televisão, lá mesmo na pení [penitenciária], os meus colegas não acreditavam. Eu lhes falava mesmo 'éste é meu kota lá da banda!'.
"Obrigado pela consideração."
"Nós estamos a acompanhar a carreira do kota. Primeiro mesmo foi naquele teu livro, A ÚLTIMA PESSOA A FALAR!"
"A Última Ouvinte?"
"É mesmo esse. Eu até lhes falava que o kota também já bumbou assim na rádio."
"Quer dizer, indirectamente, fiz programa de uma outra entidade através da Rádio Morena..."
"Vi na televisão o lançamento, aquilo é um grande livro, kota Kupatisa, A ÚLTIMA A FALAR!!! Continua mesmo assim, meu kota. E onde é que estão a vender?"
"Ah, ainda não tiveste contacto com o livro?"

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Diário | MBWATALE, NÃWÃ YANGE, ETALI NDASANJUKA

"A cunhada ouviu o mesmo que eu ouvi?"
"Até estou a tremer de medo!"
"Isso não pode ficar em branco, cunhada, só se eu não me chamo eu."
"A mim já não faltavam desconfianças. Mas hoje, finalmente, o malandro confessou..."
"Mas ele não tinha mais outro caminho para passar?"
"Eu só me questiono: cumprimentou só porquê?!"
"Aquilo lá um dia foi cumprimentar?!"
"Nesse ano [1984] de tanto acontecimento, o pai Bernardo com a perna partida, a minha filha com pássaro [convulsões], eu com tala [gangrena de origem não identificada], a unita [então movimento de guerrilha] a prometer novo ataque, vem logo ele..."
"Dizer 'mbwatale, nãwã yange, etali ndasanjuka' [boa tarde, minha cunhada, hoje estou contente]?"
"Esse homem é feiticeiro! Antes que aconteça outro azar, o soba tem que julgar. Uma pessoa de bem, com tudo o que estamos a ver na comuna, com a lua inclusive a surgir envolta em nuvens de sangue, o frio a queimar as plantas, o homem vai dizer que tem tempo de estar contente?"
GP, Benguela, 19.11.15

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Partilhando de autor desconhecido (tradução nossa)

"Porque é que temos as guerras?"

"Porque somos regidos pela elite de um grupo de psicopatas que são proprietários de bancos, controlam os governos e os meios/órgãos de comunicação. Essa elite financia os dois lados de uma guerra por causa do lucro e manipula o consentimento do público através da propaganda nos meios/órgãos de comunicação."

Diário | Até já entrei. Não tem cão?

“Mas vocês não ouvem?! Anda, vão ver quem está a bater ao portão, pá!”
“Ó papá, é um tio quem tem lata de leite na mão.”
“Lata de leite?”
“Parece que é mestre, a lata está um pouco suja, tem tinta.”
“Dá licença, mano. Até já entrei. Não tem cão?”
“Sim, faz favor. Eu tenho azar, cão dos outros é guarda; o meu mais é que recebe visitas.” 
“Assim as bruxas já lhe partiram a voz. Haka! Boa tarde, ainda.”
“Boa tarde. Está aqui o assento.”
“Obrigado. Ainda um copo de água?"
"Copo de água aqui para a visita!"
"Ah! A garganta quase a encravar! Mas estamos bem, é mesmo só a tal vida. Ainda pensamos andar pelos bairros, ver se encontramos trabalho. Somente.”
“Nós, também, é mesmo assim: dia bom, dia mau. O resto dos problemas… pronto… têm a nossa altura, podemos com eles.”
“Vimos que o mano tem uma casa, – sim, senhor! – até que uma pintura mesmo caía bem.”
“Pois. O problema costuma mesmo ser a escolha do caminho, se vamos para a tinta ou para a barriga. E é precisamente quanto?”
“Não te falo mentira. O mano costuma de vez em quando passear na cidade, não é?”
“Sim.”
“O mano, por exemplo, da Kaponte à zona comercial, não costuma ver que há lá umas casas bem pintadas, de frente e qualidade? Aquilo fui eu…”
“Espera aí! Você pensa que sou burro, não? Caramba! Então, um gajo que me aparece aqui com uma lata de leite vazia, dois pincéis no bolso, meio quilo de cal, vai mentir que pintou as casas de uma cidade toda, pá?”
GP, Katombela, 18.11.2015

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Just a question

É impressão minha ou o veterano jornalista António Muachilela anda a florear demais na abertura do noticiário das 20H na Rádio Nacional de Angola? Estará ele em busca de um estilo próprio, uma espécie de marca? Como quem por uns meses andou a estudar e treinar para "noticiarista" (projecto Rádio Ecclesia Benguela, 2004), não gostei da abertura do jornal de ontem (15/11/15), no que para já não foi a primeira vez nos últimos dez dias. Os títulos de cortesia com que saúda os seus "excelências, meus respeitáveis senhores e minhas senhoras", o "eis os temas de destaque que fazem tema neste jornal", o anúncio de estação, a quilométrica data (que podia muito bem ser feito por um locutor de continuidade), os tropeços nos leads, de si já um tanto longos e, já apresentada a ficha técnica, aquele coiso e tal "nas ondas da rádio"... Hum, pendem mais para entretenimento do que para um jornal central, que é o rosto da rádio. Sem pretender briga com os amigos vários que tenho na RNA e apenas no meu direito de ouvinte e contribuinte, julgo que seria bom se calhar alguém lembrar ao nosso veterano que  alguns preceitos continuam a vigorar, sendo que para a comunicação em rádio, "MENOS É MAIS".

Gociante Patissa​

Diário | Eu sou moça ainda

- Aló, bom dia.
- Sim, bom dia.
- É da instituição X?
- É sim, senhor.
- Ligo por causa do anúncio de vaga que ouvi na rádio. Falo com a senhora fulana de tal?
- Senhora, NÃO! Quê isso, "senhora fulana de tal"?! Eu sou moça ainda! Senhorita fulana de tal!
- Pronto, peço desculpas. Mas é ela?
- Sim, pode falar.

domingo, 15 de novembro de 2015

EXCERTOS | Graça Machel

"Independência é dirigir e controlar sectores decisivos e estratégicos."
(...)
"Temos de revisitar as prioridades na formação. Hoje, tu perguntas a um jovem, todos querem seguir gestão de empresas. Poucos querem seguir engenharia, agronomia, veterinária. Quem está a construir as nossas obras? Os chineses, os portugueses, os brasileiros. Não estou contra isso, mas... que competências teremos para dizer que aqui e ali estão a nos aldrabar?!"
(...)
"Finalmente, tenho algo a dizer: é preciso reinventar as utopias, reinventar as utopias para os próximos trinta anos; resgatar a generosidade; repensar e conjugar aquilo que é meu interesse pessoal e o projecto nacional; a pátria não é só de heróis, é de todos; reinventar o sentido de pertença. O ensino superior tem de desenvolver para repensar o povo, a narrativa do povo; formar não só para servir o mercado, mas para servir o povo."
(...)
"Temos de formar jovens que saibam ter o sentido de humildade. Os nossos jovens, hoje, saem "muito doutores"; doutores disso, doutores daquilo. Eu também não sou doutora?! É preciso ter jovens formados e que se identificam com a mãe, tirar da cabeça essa coisa de "os pobres".
________
Graça Machel em palestra sobre "A Visão Estratégica para o Ensino Superior", na sua condição de Ministra da Educação no primeiro governo de Moçambique, transmissão da STV Notícias, canal 9 da Dstv, 30.09.14

Diário | O primo afinal não sabia?

É pensamento de quê então, a pessoa cumprimenta trinta vezes sem resposta?”
“Vai-me desculpar, minha prima. É nessa vida mesmo...”
“É preciso calma. Pensar só normal. Pensar muito é perigoso.”
“É perigoso, não é?”
“Eu tenho um cunhado que, nisso mesmo de pensar muito, chegou um dia, caiu. Coração lhe matou com pensar muito.”
“Estou a ver. Mas essa crise, prima, isso está duro!”
“Crise mais de como?”
“Dinheiro não aparece, tudo que é preço subiu, obra não anda…”
“Nós mba no kanegócio, como já nunca esperamos ganhar lá muito, não tem quase nada que mudou. Um bocado de lucro mesmo assim, no prato, as crianças e o tal pai dormem sono.”
“Um gajo até já não está a ver mais qual ideia para chegar no dinheiro.”
“Não? Ó primo, investe num cabrito!”
“Investir num cabrito? E depois?”
“Depois, você lhe amarra ao lado do banco. Cabrito come onde for amarrado. O primo afinal não sabia?…”
GP, Benguela, 15.11.15

sábado, 14 de novembro de 2015

Diário | VOU AO DOMBE-GRANDE, NÃO SEI SE CONHECE

“Bom dia, vizinho Notícia.”
“Bom dia, vizinho. Como é lá em casa?”
“Bem, mas, ainda, passamos. Somente.”
“Aqui, também, de queixar não temos. Saúde ainda há.”
“Queria só um remendo aqui entre as pernas.”
“É da bicicleta, não é?”
“Trabalho-casa-trabalho. Pedalar, pedalar. As nossas calças só rasgam só no meio das pernas.”
“É só deixar. Passa daqui a duas horas.”
“Duas horas tudo, para remendo pequeno?”
“Mas o mano quer como afinal?”
“Está bem. É quanto é?”
“Só depois do trabalho. O mano é de casa.”
“Mas esse valor dá para uma calça nova!”
“Como?”
“Não tenho tudo isso, acho que vou pagar em prestações.”
“Ah, mas o problema é que tenho uma viagem. Vou resolver um assunto ao Dombe-Grande, não sei se conhece…”
“Ah, olha só…! Desculpa, mestre Notícia, afinal tinha aqui no bolso o dinheiro. Mba o esquecimento…”

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Disponível na livraria Texto Editores de Benguela

Neste momento, a livraria Texto Editores ainda tem os últimos três exemplares do seu stock à venda. Quinhentos kwanzas é o preço do meu livro de contos FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS, lançado em 2014. A livraria situa-se ao lado do jardim "milionário" na cidade de Benguela

Just a question

Na ressaca dos 40 anos de independência, tropecei nesta citação captada em Janeiro 2015: "Esse pessoal a gente lhes vê a entrar sem papel, nem só já um visto provisório, nada. Basta irem a Luanda... até te esfregam o BI angolano na cara. Não vale a pena só, meu mano, Bilhete não é nada."

Nessa Angola onde tudo "ofende" (muitas vezes com mais gente de fora a decidir sobre quem somos do que os de dentro), que tal rever os modos com que se anda a "esbanjar" a nacionalidade? Do ponto de vista histórico, o desporto/futebol esteve sempre entre o que mais negativamente contribuiu para isso, com muita gente da RDC de repente a ser natural da mais recôndita aldeola do sul do país. Havia até em alguns clubes da província de Benguela indivíduos cuja actividade era mesmo fazer corredor junto dos registos. Em alguns aspectos, acho que a Namíbia tem as suas razões: ou se é namibiano ou se é outra coisa. A mim faz uma certa confusão volta e meia ver alguém tornar-se angolano pelo simples facto de saber correr atrás de uma bola, pela habilidade de subornar, ou por ser parceiro/afilhado deste ou daquele. E no final, o nosso "conterrâneo" ama Angola e lhe é indiferente o angolano. Que tal aprovar uma adenda para atribuição de uma espécie de nacionalidade provisória para aqueles a aquelas a quem este país pouco ou mais nada representa do que um espaço para sobrevir ou acumular dinheiro?

Diário | Coragem Científica

"Eu admiro aquele doutor, meu. É barra! E tem coragem científica também."
"Coragem científica?"
"Ya, o homem está sempre um passo à frente com qualquer ideia, mesmo a dele próprio. Mesmo até tem sempre um choque novo com alguém."
"Como assim?"
"Por exemplo: numa aula dupla, aquilo que ele te ensinou nos primeiros 45 minutos já não vale na segunda metade; assim já tem uma ideia diferente. se é na prova, te espeta negativa. Tudo pela ciência!"
"Hã...?!"

Diário | há um ano era lançado o livro de contos «Fátussengóla, O Homem Do Rádio Que Espalhava Dúvidas»

Pelas minhas contas, a partir de amanhã (11/11) a Televisão Pública de Angola (Canal 2) fecha o capítulo da divulgação que vem dedicando aos livros publicados no quadro da Bolsa "Ler Angola", edição referente ao ano 2014, considerando a entrada em vigor da edição 2015. 

O meu segundo livro de contos «Fátussengóla, O Homem do Rádio Que Espalhava Dúvidas», que fora um ano antes finalista vencido do Prémio Sagrada Esperança (da Fundação Agostinho Neto), viria a ser uma das onze propostas que conformam a fornada de "novos autores", da responsabilidade do GRECIMA (Gabinete de Revitalização e Execução da Comunicação Institucional e Marketing da Administração), programa de iniciativa presidencial, que também reedita obras mais antigas na colecção designada "11 Clássicos". Em termos de testemunho, devo dizer que a bolsa "Ler Angola", que visa incentivar o gosto pela leitura e escrita, promovendo a marca Angola, é das iniciativas de encorajar, considerando sobretudo o seu alcance social. 

A par da publicação do livro, os novos autores receberam via transferência bancária o prémio de 250 mil kwanzas, agregados à distribuição pela Rede KERO e pela livraria Texto Editores, a divulgação em jeito de sinopse pela TPA2, mais cerca de 60% das vendas. Já para o leitor, a grande vantagem da subvenção directa do Estado reside no preço por exemplar, que é (apenas) quinhentos kwanzas. Não podendo falar pelos outros, considero eu que o projecto ainda não conseguiu transpor o grande mal da literatura feita em Angola, a débil distribuição. Tendo começado bem, assiste-se entretanto, nos últimos seis meses à escassez do produto, defraudando daí a procura. Gociante Patissa
PS: Depois de publicada esta nota, recebi de fonte ligada ao projecto a garantia de que não seria para já dado o corte à publicitação via TV.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Diário | Dormir na geleira

"Esse madiê será que agora dorme na geleira ou quê? Possas, pá, um gajo alegre, brincalhão, ficou assim?! Nem parece ele! Quer dizer, chega no meio dos outros, tão distante assim, todo frio, tipo que está doente?"
"Desde que foi nomeado. Ele agora é chefe."
"Se só ele já é assim, o que está acima se comporta mais como?"
"É lixado. Cargos matam pessoa mesmo, ya?!"

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

5/5:A vez do autógrafo no lançamento de O APITO QUE NÃO SE OUVIU

“O Apito Que Não se Ouviu”, livro de crónica da autoria de Gociante Patissa, foi lançado no sábado, 31 de Outubro, às 15h00, na Mediateca de Benguela, numa edição da União dos Escritores Angolanos (UEA). O livro foi apresentado pelo escritor e jornalista Luís Fernando.
O músico Ndaka Yo Wiñi e o seu instrumentista chamado Mebembo deslocaram-se de Luanda para se juntar à festa que foi o lançamento do livro de crónicas intitulado O APITO QUE NÃO SE OUVIU, o sexto do autor Gociante Patissa, no dia 31/10/15.
Para além da música, teve também uma leitura dramatizada do conto Os Dentes do Soba, do livro A Última Ouvinte, do mesmo autor. A encenação foi levada a cabo pelo sector de língua portuguesa da Escola de Formação de Professores de Benguela (antigo IMNE), através do programa Saber Mais (assessorado pela cooperação portuguesa do Instituto Camões).

domingo, 8 de novembro de 2015

4/5:A vez do reencontro no lançamento de O APITO QUE NÃO SE OUVIU

“O Apito Que Não se Ouviu”, livro de crónica da autoria de Gociante Patissa, foi lançado no sábado, 31 de Outubro, às 15h00, na Mediateca de Benguela, numa edição da União dos Escritores Angolanos (UEA). O livro foi apresentado pelo escritor e jornalista Luís Fernando.
O músico Ndaka Yo Wiñi e o seu instrumentista chamado Mebembo deslocaram-se de Luanda para se juntar à festa que foi o lançamento do livro de crónicas intitulado O APITO QUE NÃO SE OUVIU, o sexto do autor Gociante Patissa, no dia 31/10/15.
Para além da música, teve também uma leitura dramatizada do conto Os Dentes do Soba, do livro A Última Ouvinte, do mesmo autor. A encenação foi levada a cabo pelo sector de língua portuguesa da Escola de Formação de Professores de Benguela (antigo IMNE), através do programa Saber Mais (assessorado pela cooperação portuguesa do Instituto Camões).

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

3/5: A vez do solene no lançamento de O APITO QUE NÃO SE OUVIU

“O Apito Que Não se Ouviu”, livro de crónica da autoria de Gociante Patissa, foi lançado no sábado, 31 de Outubro, às 15h00, na Mediateca de Benguela, numa edição da União dos Escritores Angolanos (UEA). O livro foi apresentado pelo escritor e jornalista Luís Fernando.
O músico Ndaka Yo Wiñi e o seu instrumentista chamado Mebembo deslocaram-se de Luanda para se juntar à festa que foi o lançamento do livro de crónicas intitulado O APITO QUE NÃO SE OUVIU, o sexto do autor Gociante Patissa, no dia 31/10/15.
Para além da música, teve também uma leitura dramatizada do conto Os Dentes do Soba, do livro A Última Ouvinte, do mesmo autor. A encenação foi levada a cabo pelo sector de língua portuguesa da Escola de Formação de Professores de Benguela (antigo IMNE), através do programa Saber Mais (assessorado pela cooperação portuguesa do Instituto Camões).