domingo, 28 de julho de 2019

[O cúmulo da geração "civilizada" do tempo da outra senhora]


"Garçom, empreste-me lá o seu garfo, se me permite..."
"Diga, Dona?"
"Empreste-me lá o seu garfo, que é para eu endireitar o peixe [está enviesado em relação à salada]. Não suporto comida no prato arrumada sem ordem, acho horrível, perco imediatamente o apetite".

(Trechos de não-ficção. Em um lugar de uma certa urbe, hoje)

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sexta-feira, 26 de julho de 2019

NÃO TEM PERNAS O TEMPO (extracto)


O domingo iniciava no sábado, à hora de nos irmos deitar, um pouquinho a seguir às galinhas, tais eram a ansiedade e o volume de fantasias que embalavam o nosso sono garoto!

Ainda hoje tenho dificuldade em descrever um domingo daqueles, se não for a começar pelo pôr-do-sol, quando o dia, que se afigurava interminável, se ia à vida. Víamos, então, o grande sentido que reside em se dizer que a felicidade não se vive, recorda-se apenas. Tão cedo perdoávamos o homem, ou sei lá a força, que se arrogava de precipitar a manivela do tempo. Uma zanga curta; se calhar, para que não fosse longa a ponte entre um domingo e outro.

Dominávamos o itinerário do dia seguinte como a palma da nossa mão, afinal não varia assim tanto em meios pequenos a rotina – deixai-me abusar deste pleonasmo sociológico. Nada de ficar na berma da estrada, a ver se caía do céu coluna de soldados cubanos para permutar conserva enlatada com porcos, e com isso assistir ao espectáculo que era a corrida desenfreada, de quando em vez, atrás de quadrúpedes que rebentassem as fibras de bananeira que se faziam passar por cordas.

Nada de ir com restos de manteiga à padaria, atrás do pão quente, nem à pesca nem a piqueniques. Tão-pouco nasciam bebés de barro.

Ir à igreja era obrigatório, e como tal paragem insonsa. Ao meio-dia vinha a melhor parte, o passeio pelos bairros, levando-nos às mesmas casas, aos mesmos parentes. E nos esquecíamos da maçada de tomar o banho de rio naquele cacimbo insidioso, capaz de deixar amarga a rama e o bananal sem vida, como se das queimadas fossem alvos.

Calcorreávamos as picadas atrás das nossas motorizadas virtuais, que não passavam de esqueléticas jantes de bicicleta, achadas sabe-se lá quando. Ao osso achado o cão questiona pertença anterior, por acaso?! Era por aí.

Em casa da avó nos aguardava um arroz substituído por rolão de milho, toupeiras assadas com o melhor em alho e hortelã, e ainda mandioca ou batata-doce fervida, conforme a safra sazonal. Às vezes achávamos demais as orações, mas toleráveis, como aliás se suporta o gosto do gindungo. Ela tinha a mania de nos repetir que o governo nos daria carro um dia, se estudássemos. Não faltava vontade de perguntar por que não quereria, ela também, um carro, uma vez que em nenhum momento nos parecia que quisesse matricular-se na alfabetização, conhecida à época por EBOC (Escola Básica Operária e Camponesa). O que era governo, não imaginávamos, creio até que não sentíamos dele falta alguma directamente. A avó plantava mitos, e o mito não morre.

Mas o que eu adorava mesmo era ver a avó cantar hinos cristãos, quase sempre acrescentando-lhes ou retirando sinónimos, tons vocais ou metáforas, o que os tornava ainda mais originais. Não voltavam a ser os mesmos depois que caíssem nos ouvidos dela! Que óptima era! Os hinos, talvez por não existirem gravadores, pareciam renovar-se em cada entoar. É que o único gravador da comuna era um à corda, que mal servia para qualquer estatística que fosse.

Chamou-se Kwayela, do provérbio Umbundu, “kwayela osema, ovipula njala oko vili” (*). Hoje, ó avó materna minha, ouve o que te digo: com tantas confusões, nós, o povo em geral, que não dirigimos nem mudamos directamente as coisas, merecíamos, quando desse vontade, mudar de mundo, mas, oh tragédia, só temos este e aquele outro, o teu, o da inverosimilhança.

Não tem pernas o tempo, seriam longas, ou curtas, demais.

Gociante Patissa (Pág. 115-6. União dos Escritores Angolanos, Luanda, 2013)
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(*) Lá onde a fuba [farinha de milho] abunda, há também famintos.
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domingo, 21 de julho de 2019

CRÓNICA. Tens que voltar para o Sumbe


Estávamos condenados a ir longe, 600 Km. A nos perdermos também. Não o conhecia e ele a mim muito menos. Um empate técnico é como diriam os “lamentaristas” desportivos. Melhor começo de viagem a dois era impossível. Ninguém podia dizer que levava vantagem, de modo que o êxito da jornada dependia, valha a redundância, da interdependência entre mim e o companheiro. Eu dirijo e ele suporta-me. Falo do carro.

Mal pisei o pedal do acelerador, ouviu-se um trác, do trancar centralizado de portas. Calma ali, ó meu! – dirigi-me ao companheiro – Também não vamos exagerar. Repara que até tenho o cinto posto. É verdade que não nos conhecemos, que já não vou para novo e que o meu sentido de orientação até é péssimo, mas não me vejo a saltar com o carro em movimento, Ok?! Enfim… E já não era a primeira partida naquele dia.

Como se já não bastasse o motor se negar a pegar, por bateria descarregada, e gente doida a pressionar para libertarmos o estacionamento, típico faroeste rodoviário que Luanda é. A desgraça abre mercado a jovens de rua tarefeiros. O carro do kota é automático, né? Vamos chamar um Tucson para fazer chantagem, mas vai dar um saldo. Só três mili kwanza… Estás maluco ou o quê?! A essa hora já queres fatigar três paus ao teu irmão?! Você é nosso, vamos disminuir. Mil kwanzas, ya? Ok.

E não há cabos para o chante. Porra!, me fazem vir à toa dizendo que o kota tem cabo, afinal não tem?! Estaca zero. Sai um telefonema para o Soberano Canhanga, um gajo que nos prova a cada dia, a nós os leitores, que a carreira administrativa só aniquila o escritor, querendo. Solícito, delega a seu subordinado, deve entrar para (mais) uma reunião. Até que surge um vizinho com bateria sobressalente e lá se faz o chante com a ajuda de duas chaves. Os jovens de rua embolsam metade. Muito obrigado. Não há margem para arriscar, e lá sacudimos o bolso, em forma de conta bancária, para uma bateria nova.

Depósito cheio de diesel, pneus calibrados. Rasga-te, ó estrada! A paisagem é colírio. Conduz-se bem, exceptuando curtos desvios de terra batida. Quatro horas depois, abrem-se entranhas do Sumbe. Seis da tarde. No silêncio, o elogio pelo visível trabalho de obras. Os chineses não brincam! Cinco anos se passaram desde a última vez que fiz o troço. Já esteve pior, lembrava-me de ter ouvido. Quase a viagem toda é feita no asfalto, insistia a reminiscência. Assim sendo, como até falta pouco, restava focar o instinto no asfalto, mesmo depois do posto de controlo do Sumbe, diante da traiçoeira estrada da Comarca.

A dada altura, começo a estranhar alguns sinais. A estrada agora parece mais estreita, serpenteante. Passo por aldeolas pacatas, iluminadas, toponímia alheia à memória visual. Não vislumbro o clássico postal costeiro. Na dúvida, sintonizo as rádios de Benguela. O sinal é cada vez mais cristalino, só pode ser porque estou no bom caminho e perto.

Aceno, apressado, à sede de Uco Seles. Às 20h recebe-me Conda e o asfalto morre. Boa noite, jovem. Boa noite, tio. A estrada para Kanjala onde é? Mas aqui no bairro não temos Kanjala. Então, e para o Kikombo? Ah, tens que voltar para o Sumbe, são 75 Km. Tento negociar um meio-termo. Mas não há outra via de chegar a Kikombo? Infelizmente, não. E lá dou a meia-volta saldada em três horas perdidas e 150 Km fora do plano. À meia-noite e meia chegávamos, triunfantes, ao destino, Benguela. Ainda era só isso. Obrigado.

Gociante Patissa | 20 Julho 2019 www.angodebates.blogspot.com |imagem: Rede Angola
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