sexta-feira, 1 de maio de 2026

Crónica | NÃO VOU AO TRABALHO, VOU À FESTA

O Café da Cidade é aquele local aonde nos vamos sentar e consumir algo que por acaso temos de sobra em casa. Um chá, um café, um galão (antes fosse superlativo de galo) ou um pão que fermenta de cêntimos para milhares no assalto ao pacato bolso (nem a vaca ou o porco anuiriam. Sandices, pronto). Claro está que não é sobre comeres e beberes; é sobre encontros e reencontros, aquela prosa antes, durante e após o trabalho.

Benguela teve sempre muito boa gente com quem travar um bom papo. E tem o Duda. Adão Faustino. Mente brilhante, humor q.b, timbre preenchido, jornalista, locutor (que só peca pela preguiça), diplomata, enfim, daqueles perfis que dão muito trabalho de traçar. E hoje é feriado, ainda por cima. 

 

Num desses dias que já lá vão, lá vou eu ao aeroporto onde fabricava o meu pão de cada dia no acolhimento de passageiros, modo motivação na escala de zero. Vindo das paixões de rádio e ONGs, aviação é rotineira demais. E freio o velhote rabo de pato, que ainda dá tempo, no local do costume. Café da Cidade. Saúdo um Duda energético, como sempre. 

 

Por aí uma hora de prosa, mais coisa, menos coisa, despeço-me. Companheiro, o dever chama. Vou trabalhar. E ele logo corrige. “Não digas vou ao trabalho. Diz, antes e sempre, vou à festa!”. A combinação directa entre trabalho e festa é de caçar sentido. Como assim?! Sou obrigado a sentar-me outra vez.

 

Viver dá trabalho, trabalhar dá vida. Essa transacção cimenta a sociedade, que mais não é do que a soma do que cada indivíduo faz ou deixa de fazer, por obrigação logística, por prazer, por vontade de subir na pirâmide social, por medo de ser mal encarado, enfim. Mas daí a ser festa?! Dia do trabalhador. Mas qual? Conta própria ou de outrem?

 

1.º de Maio é uma data de despertar memórias coloridas para gerações que ainda vivenciaram uma pontinha que fosse do proletariado. Mas pode muito bem ser um dia absolutamente inócuo como qualquer outro, com a vantagem apenas de nos brindar com aquela folga remunerada ao trabalhador (que não labore por turnos). Este ano até sabe a dobrar, apanha logo uma sexta-feira e venha a nós o bom do feriado prolongado.

 

Que me lembre, nunca desfilei num naqueles cortejos alegóricos do Dia do Trabalhador, onde não acho iguais à minha mãe camponesa. Talvez por ter ingressado muito cedo, com 14 anos, aprendiz de fotógrafo na Foto Kodak, do mestre Octávio Lopes Chimango, no Lobito para sustentar os estudos na 7.ª classe. Consta que este ano o litoral de Benguela, ainda a se refazer das feridas das cheias que desalojaram e enlutaram milhares de famílias, optou por cancelar os festejos do 1.º de Maio. Que a tradição prevaleça logo que possível.

 

E tem razão a filosofia segundo o Duda. Se passamos metade da nossa vida a trabalhar e praticamente todas as horas úteis do dia nos consomem no local de trabalho, longe de quem nos quer e quem queremos pertinho dos afectos, melhor será que encaremos o trabalho como festa. Há-de cansar menos. De outro modo torna-se insuportável para a saúde mental. Não digas vou ao trabalho; diz, antes e sempre, vou à festa.

 

Gociante Patissa | Lisboa | 01 Maio 2026 | www.angodebates.blogspot.com  

 


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