PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

Sátira e Fragmentos (novo!)

quarta-feira, 8 de março de 2017

Diário | Mas o que tem a ver o teu pai com o nosso amor?

“Amor!”
“Ainda não me chames amor, por favor!”
“Ouve, temos andado nisso mas… sinceramente, uma vez que nunca me falaste que não me gostas, custa imaginar o porquê que ainda não estamos juntos a quebrar esse gelo que nos divide… Qualquer dia ainda, a andropausa me encontra de pé à espera do sim…”
“Também não exageres, ó camarada…”
“Já te falei. Não é só assim! Te querer é te querer, mas há outros paradigmas…”
“Quais?”
“Homem, já esqueceste que o meu pedido de crédito para comprar um grande i10zinho apanha bolor?! Então andas na gerência do banco para quê, fato e gravata parece dormiste na mala?!”
“Mas esse assunto já não está arrumado?!”
“Como assim?!”
“Me arranja pelo menos 20 gajos com cartão do Mpla, a imprensa lhes apresenta como desertores a caminho do nosso partido, e assim damos um empurrão na coisa… Eu tenho que pensar no nosso futuro, estás a ver?, cargos e bem-estar. Sabes que nas eleições está tudo em aberto…”
“Assim já eu é que me viste com cara de interesseira, ne?! Não vás por aí, meu caro! Há quanto tempo é que o meu pai te falou com todas as letras que, para namorar a filha dele, tens de arranjar pelo menos 40 gajos da Unita que desertam publicamente?! Ainda isso, que é fácil, fácil, estás a bufar…”
“Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra…”
“Como não tem?! Então, meu querido, vai na primeira esquina e arranja uma qualquer da via, cheia de vícios, de preferência doenças, e casa com ela. Você acha que educar uma mulher com princípios e valores de coerência, integridade, hã!, é à toa?!”
“Mas o que tem a ver o teu pai com o nosso amor?”
“Oh, minha vida! Então tu não estás a pedir o que pediste porque queres melhorar a vida?! Ai, o meu pai também, assim, lhe queres mesmo que chegue na idade da reforma com essa pobreza?! Também não merece?! Não tem direito?! Olha, vai só, ya?… Não me aquece a cabeça, hoje até é dia das mulheres, ouviste?!”
Gociante Patissa. Benguela, 8 Março 2017



terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Diário | Também não tenho direito?
"Doutor, doutor!"
"Sim, faz favor..."

"Doutor! Vocês assim que lêem muito, doutor, me tira só uma dúvida, faxavor."

"Se estiver ao meu alcance..."
"Doutor, vê só. As minhas colegas aqui no serviço, quando assim dão parto, né?, lhes dão assim um subsídio de aleitamento..."
"Pois, parece que a Lei Geral do Trabalho deve prever isso."
"Então, mas ó doutor! Sabendo que as minhas colegas depois do parto recebem subsídio de mãe, com direito a dias de repouso, né?, assim então se a minha mulher em casa também deu à luz, eu como pai não vou ter os mesmos direitos das minhas colegas?"

GP. Benguela, 6 Dezembro 2016sábado, 28 de maio de 2016

Diário | Vocês não vão espantar a caça, ou vão?

(I)
"Atenção, atenção!!! Assim estamos a passar. A praça é grande, cada um fica já com o dinheiro na mão! Xé!, você aí, ó cidadão! Não estás a ver que a Fiscalização está a passar?"
"Como o caminho não passa na minha testa, ainda achei que não devia ter medo."
"Passa a taxa, rápido!"
"Taxa de quê?"
"O pagamento diário da bancada! Estamos aonde afinal?! Essa merda tem leis ou não?"
"Acho que o país tem uma história..."
"Meu camarada, o tempo é dinheiro. Já Arranquei a ficha do bloco de facturas. É só pagar e mais nada!"
"Então não estou a ver bem o porquê que lutei. Um gajo entrou na tropa criança, combater sem folga de estudar, desmobilização sai sem emprego. Assim se hoje tenta na venda precária, ainda é perseguido pelo Estado que serviu?"
"Estás a brincar... É a tua última palavra?"

(II)
"Chefe! Ó chefe! Um ponto ainda..."
"Estás a fazer o quê no gabinete em hora de ponta?"
"No mercado encontramos um reaccionário. Pede a comparência do chefe."
"Como é que é o gajo, assim corporalmente?"
"Músculos que não tem no corpo tem na boca, ó chefe. Nós até não passamos..."
"E qual é o estado de opinião e comentário dele?"
"Diz que não entende o fundo de dedicar a vida inteira combatente se hoje nem direito de sobreviver lhe resta... Isso é coisa de se falar, ó chefe?"
"Mas isso que ele disse é grave, é política! E quando ele explana, é com força ou devagar?"
"Com força. O mercado até pára para ouvir."
"Abafa. Técnica de exaustão, ouviu?"

(III)
"Você é o reaccionário, certo? Olha, fomos despachar com o chefe sobre o nosso diferendo..."
"Nosso diferendo?..."
"Ora essa! Se nós, os Fiscais, em pleno gozo dos nossos deveres de zeladoria, somos interrompidos na cobrança da taxa diária..."
"Eu quero falar como homens com o vosso chefe, saber onde cumpriu a vida militar..."
"Não vale a pena, ele é muito ocupado. Também já abordamos a tua inquietação..."
"Quando é que o vosso chefe vem aqui?"
"Continuando. Você, só mesmo você, está isentado de tributar a taxa diária de bancada. Mas não penses que é porque refilaste, não. Em toda a parte do mundo há autoridade. Cumpre-se primeiro, reclama-se depois."
"Ó cunhada, vem ouvir! Esta mulher que estão a ver cheia de poeira é cunhada por afinidade, viúva de um companheiro de trincheira. Como é que eu não pago mas ela tem que pagar, quando a história é igual?"
"Por acaso, o chefe não deferiu sobre o caso dela, mas é pacífico. Conta como indigente. Portanto, agora, por favor, vocês não vão espantar a caça, ou vão?"

Gociante Patissa. Benguela, 28 Maio 2016
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sábado, 6 de agosto de 2016

Diário | O kota acha que a censura me trava?



"Alô! É o kota 'Kanta Vidas', né?"
"Alô! É, sim. Quem fala?"
"O teu miúdo 'Segue Vidas', o kota não está a fazer ideia, né?"
"Por acaso não..."


"Não?! O kota até me deixa mal... Como é que não se lembra de mim, alguém que te admira muito, se ainda partilhamos o mesmo palco no show do partido?"

"Ah, não te aborreças, filho. A idade não ajuda a memória. Também já passaram alguns bons meses, não é isso? ..."
"É verdade. Está desculpado. E essa saúde, as forças como vão?"
"Oh, meu filho. Nessa nossa idade, estamos mais para morrer do que viver."
"O kota não pode morrer antes do meu disco. Quero lhe autografar. O mais velho não sabe que você é que me inspira?"
"Obrigado, filho. Mas ligou mesmo para quê?"
"É assim, kota. Está a ver a música do kota, aquele sucesso do vosso tempo?..."
"Qual?"
"A que diz 'só você me salga o amor/ em monte certo / calor / aperto/ só você me salga..."
"Notou algum erro na música, né? Pois, naquele tempo tínhamos pouco estudo na cabeça, pouca tecnologia no estúdio. Era tocar e gravar directamente. Por isso, se disser que tem falha, eu não fico triste..."
"Nada! Aquilo é muito música! A pessoa até se pergunta se o kota foi buscar mesmo tanta inspiração aonde..."
"Obrigado, filho."
"É por isso que estou a ligar. Gravamos uma versão com nova roupagem. Faz parte das músicas promocionais do meu single. É uma grande homenagem que faço no kota. Quer ouvir um cheirinho no telefone?"
"Não. Há um problema..."
"Problema auditivo, né? Eu entendo..."
"Não é isso! O que se passa é que eu também já regravei essa música para o meu disco dos 50 anos de carreira. Bati algumas portas, há promessas de patrocínio..."
"Assim é o quê?! É para dizer que não posso sair com a versão da música do kota? E quem vai me devolver o que paguei no estúdio, nos instrumentistas, na Masterização, no marketing, hã?!"
"Voce me desculpa, mas isso é problema seu. A música é minha e tenho planos com ela..."
"Kota, é assim. Eu até não precisava falar contigo. Vou esperar? Quem me garante que o patrocínio que prometeram no kota vai dar certo? Eu que tenho tudo pronto vou recuar? Se a música está registada, o kota depois reclama os direitos autorais na UNAC ou na SADIA ou quê. Cobra a multa que quiser, ok?!"
"Mas eu não quero o teu dinheiro..."
"O kota acha mesmo que até a onde cheguei e investi, eu, 'Segue Vidas', a tua censura me trava?"
Gociante Patissa, 05.08.2016

sábado, 30 de julho de 2016

(arquivo) Diário | Os preços que pratica contribuem para a paz dos espíritos?



"Vamos tentar ser objectivos. Venho ter consigo uma conversa de homens..."
"Mas a senhora é uma senhora..."
"Isso não vem ao caso! Estou aqui como entidade. Como deve saber, estamos a ensaiar o modelo de comissões de moradores, já que as autarquias são um bicho de muitas cabeças, né? Pronto. A pessoa que lhe fala é a coordenadora."
"Seja bem-vinda à nossa unidade de produção..."
"Eu lhe chamaria antes unidade de preocupação..."
"Unidade de preocupação?! Peço desculpas, mas aqui a papelada está em dia, os impostos e tudo. Há algum ressentimento da vossa parte?"
"Nem ressentimento nem consentimento..."
"Então qual é o problema?"
"O problema é que o seu papel na diversidade e robustez da economia é questionável. Até as minhas entidades superiores já quase me consideram fonte insegura. Se cada mês que reporto, ou altera o valor ou altera o volume, né?..."
"Mas o mercado é dinâmico..."
"O caro empreendedor acha que os preços que pratica no pão, que até é bíblico, contribuem para a paz dos espíritos?"
"Mas eu não importo..."
"O senhor é mesmo atrevido! Pão, que é a primeira coisa que a pessoa come ao acordar, vai custar 40 kwanzas e ainda dizes que 'não me importo', ó senhor?"
"Eu disse que não importo farinha, a matéria-prima. Logo, tenho de vender de acordo com o mercado. O preço tinha que subir."
"E o tamanho baixar?! Não sei se já reparaste mas com este tamanho, eu meto na boca dois pães de uma vez só e ainda consigo falar à vontade. Tens a coragem de negar?"
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Gociante Patissa. Benguela, 21 Junho 2016

sexta-feira, 29 de julho de 2016

(arquivo) Diário | Fico com a tua preocupação



“Bom dia, comadre.”


“Bom dia, compadre.”

“Como é o passado?”
“Ah, mas passamos bem, sem queixas, somente vós.”
“Nós passamos bem, também sem problemas a lamentar”.
“O outro?”
“O outro ainda não lhe deram a promoção de estar em casa em horas de trabalhar. Foi mesmo no serviço.”
“Então calha bem. Queria mesmo uma palavra com a comadre.”
“Aié? Vamos entrar então aí dentro, a casa está um pouco desarrumada, mas na sala mesmo dá”.
“Desarrumada, comadre? É porque nunca mais foste na minha casa! Aquilo até faz chorar…”
“Tá aí cisângwa ainda.”
“Haka! Obrigado.”
“É como o assunto?”
“Comadre, até custa um pouco começar, mas é assim: já há muitos dias que guardo essa palavra. Estou cansado lá em casa. A outra, aquilo até não sei como dizer, por isso é que… sempre que venho aqui e vejo como a comadre me recebe, cuida da casa, conversa, me faz pensar. A comadre é a mulher que me falta, eu te quero, comadre. Nós dois temos futuro”.
“Aié…? É assim, compadre, fico com a tua preocupação. O outro ainda quando voltar do serviço vou-lhe pedir o teu pedido. Se ele achar que sim, depois vai dar a resposta”.
“Não, comadre, faz favor, o compadre não pode saber! Eu até só estava a brincar, a comadre já não me conhece?! Comadre, estou a ir, ya!? Olha, se na próxima semana eu não aparecer, é porque fui visitar família no mato…”
“Se prepara, compadre, o outro vem aí!”

Gociante Patissa, Aeroporto Internacional da Catumbela 29 Julho 2013
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sábado, 16 de julho de 2016

Diário | Tem mbembita?



(I)
"Afinal quando é que vamos apagar a luz como antigamente?"
"Quando estive aí para voce, não me querias. Agora, ah porque 'quando é que vamos, quando é que vamos?..."
"Nunca ouviste que os que um dia se conheceram nunca mais vão se desconhecer?..."
"É assim: eu agora tenho homem, não sou mais a de ontem. Ouviste?!"
"Você quando começa a ficar rabugenta, é porque assim já estás aceitar. Você não conhece saudades?..."
"Pronto. Cala a boca já, estás a me despir com as palavras. Mas é assim: temos que fazer as coisas com jeito. Eu como o meu pequeno negócio é ambiência, você quando é para coiso, tem que ter um código. O meu homem é pescador, não é todos os dias que dorme em casa."
"Aié, né? Ainda fala o código! Até já estou cheio de vontade..."
"De dia, não! Lá p'ras tantas, você bate à porta e pergunta assim: 'Não tem mbembita?' Se eu te responder 'tem', assim estou livre. Se eu te responder 'não tem', assim não vai dar, o meu homem está em casa, ouviste?"

(II)
"Troc, troc, troc"
"É quem é?"
"Tem mbembita?"
"Não, não tem."
"Tem mbembita?"
"Não, já acabou."
"Tem mbembita?"
"Ó senhor, já falei! Hoje não há nada p'ra beber."
"Tem mbembi..."
"CHEGA! MAS QUE PORCARIA É ESSA, Ó MULHER, HÃ?! SÃO 23 HORAS, JÁ FALASTE QUE NEGÓCIO ACABOU, E ELE CONTINUA A BATER À PORTA?! ISSO NÃO É NADA BEBIDA, PÁ, VOCÊS TÊEM OUTRA CONVERSA!..."
"Assim estás a falar lixo porquê?! Uma gaja não está contigo nua na cama? É por isso que eu quando me conquistaste já tinha receio. Meu coração já me avisava que no teu ciúme ninguém passa...'
"VAMOS EMBORA DORMIR, O GAJO TAMBÉM JÁ FOI. ESSE NEGÓCIO DE VENDER BEBIDA A COPO EM CASA SÓ DÁ CONFUSÃO..."
"Eu não trabalho, como vou sustentar os três órfãos que me encontraste com eles?..."

(III)
"Mas ó seu meu estúpido! Já não te falei que ao responder 'não há mbembita', assim o meu homem está em casa?!"
"Ontem estava já com uns copos, e você sabe que eu com copos é fogo!..."
"Estou a te avisar, ouviste?! Se o meu homem me deixar, você vai me arranjar outro, ó burro?!"
Gociante Patissa (adaptação)
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Lubango, 16 Julho 2016

sexta-feira, 15 de julho de 2016

(arquivo) Diário | TIPO RÃ?



Uma: Estás a falar baixo, quê que se passa?


Outra: Tenho brônquio.

Uma: Tens quê?
Outra: Brônquio.
Uma: Brônquio, como assim?
Outra: Quando tens respiração cutânea à noite.
Uma: Tipo rã?
Outra: Não! Quando respiras com dificuldade.
Uma: Ah, ok. Melhoras então.
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terça-feira, 6 de dezembro de 2016



Diário | Também não tenho direito?

"Doutor, doutor!"
"Sim, faz favor..."

"Doutor! Vocês assim que lêem muito, doutor, me tira só uma dúvida, faxavor."


"Se estiver ao meu alcance..."

"Doutor, vê só. As minhas colegas aqui no serviço, quando assim dão parto, né?, lhes dão assim um subsídio de aleitamento..."
"Pois, parece que a Lei Geral do Trabalho deve prever isso."
"Então, mas ó doutor! Sabendo que as minhas colegas depois do parto recebem subsídio de mãe, com direito a dias de repouso, né?, assim então se a minha mulher em casa também deu à luz, eu como pai não vou ter os mesmos direitos das minhas colegas?"
GP. Benguela, 6 Dezembro 2016

quinta-feira, 13 de outubro de 2016



(arquivo) Diário | E o senhor é jurista?

"Bem, caros convidados, daqui a pouco o nosso debate vai ao ar. Poderemos ter intervenção de ouvintes via telefone."


"Estamos prontos, caro senhor jornalista."

"Ora, a si já conheço e... a si também. Desculpe-me o senhor que vem pela instituição X: no seu caso, como quer lhe apresente?"
"Vou falar na qualidade de jurista... sem problema nenhum!!!"
"E o senhor é jurista?"
"Bem, eu trabalho na Associação como relações públicas, às vezes estafeta, e auxilio na secretaria com arquivos documentais..."
"E qual é a sua formação?"
"Estou a concluir o Médio, mas ainda dei uma pausa."
"Então o senhor não é jurista mas pode falar na qualidade de jurista?"
"A minha esposa é bacharel em Direito..."
"Pronto, não tem problema, vou-lhe tratar pelo nome."
"Você é que sabe, Ok?

Gociante Patissa, Benguela, 15.04.2016 (Adaptação)
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sábado, 8 de outubro de 2016



Diário | MAS A SENHORA ENTÃO COMO É QUE É?!

“Eu só quero falar com o procurador, mais nada!!!”
“Ó senhora, eu já falei. O procurador está ocupado!”
“AFINAL QUAL É O ASSUNTO COM ESTA CIDADÃ, Ó COLEGA CATALOGADOR?”
“Ó doutor!, é um assunto que na qual ela está aqui remintente…”
“NÃO É REMITENTE, PÁ! É RENITENTE. ‘QUE NA QUAL’?! ISSO TAMBÉM É PORTUGUÊS DE ONDE? VÁ, PROSSIGA!”
“Já há uma semana que vem aqui, sem solicitar audiência sem nada, vestida como está, esses lenços na cabeça, esses panos dela. Quer dizer, sem decoro. Ainda ao menos se alisasse o cabelo ou já só uma peruca, né?… E quer falar logo com sua excelência o senhor procurador, assim nada apresentável como está. Não é mau precedente, meu chefe?…”
“MAS A SENHORA ENTÃO COMO É QUE É?!”
“O camarada é o procurador?”
“NÃO. SOU ADMINISTRATIVO SÉNIOR COM LICENCIATURA EM DIREITO, PÓS-GRADUAÇÃO EM CRIMINALÍSTICA E POR ACASO TENHO PLANOS DE FAZER UM DOUTORAMEN…”
“Já entendi. Pronto. Mas é assim: meu irmão, eu vou-lhe pedir desculpas, não perca o seu rico tempo. O meu assunto é com o procurador. Ele afinal está ou não está?”
“A SENHORA QUE FAÇA UMA EXPOSIÇÃO, POR ESCRITO, ESTÁ BEM? HÁ CÁ TRÂMITES! NÃO É SÓ SAIR DE CASA E, PRONTO, DEU NA CABEÇA, VOU FALAR COM OPROCURADOR…”
“Mas eu não venho brincar, camarada! Também sou mulher de homem, ouviu bem?!” 
“QUAL É O ASSUNTO, AFINAL?
“O assunto é justiça. Não quero outra coisa. Repara uma coisa. Um homem quase violou a nossa filha, espancou a menina. Aí fizemos o quê? Metemos o caso na justiça. Foi julgado e condenado a três anos. Ficamos alegres mas, qual é a nossa surpresa?, já anda por aí livre. Ninguém só se preocupou em nos consultar a nossa opinião. Então o ofendido é um e quem perdoa é o outro?”
“DEVE SER DA AMINISTIA, UM INSTRUMENTO MAGNÂNIMO DA MAGISTRATUR…”
“Mas é só para alguns?”
“COMO ASSIM? ISSO É PAULATINO, MINHA SENHORA. É DE LEI...”
“Mas o meu marido, que não se conformou com a liberdade do agressor da filha, pegou nele, lhe enfiou dois socos da boca e bons pontapés no meio das pernas. A justiça vai-lhe prender, por cima da razão dele, vão-lhe condenar para dois anos e não tem amnistia?!”
“ISSO NÃO É BEM ASSIM…”
“E se não é bem assim, é como então essa justiça?”
Gociante Patissa. Benguela, 8 Outubro 2016
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quinta-feira, 29 de setembro de 2016



(arqivo) Diário | Mas casamento não é festa?

“Esses dois que desenhaste vão aonde, Tái?”


“Eles ainda não sabem; pensaram que vão à festa, afinal é casamento.”

“Postos lá, vão ver que estavam enganados?”
“Ya! Agora queriam fugir, o noivo lhes agarrou: Xê, vocês vão aonde?”
“O noivo?”
“Esse pequeno atrasou porque tomou banho, os outros foram só mesmo assim, sujos.”
“Mas casamento não é festa?”
“Não. Festa é que as crianças dançam, kuya bwé; casamento, não.”
“E lá aonde foram é muito longe de casa?”
“Não.”
“E foram de quê?”
“A pé… Ah, de mota!”
“Agora têm que voltar para casa, porque casamento não é festa, né?”
“Sim, tio. Esse pequeno ainda não sabe; está a gostar, porque acha que vai assistir bonecos…”
“Ah, é?”
“Afinal o pai dele está em casa, não foi trabalhar.”
“Assim, ele não pode ver bonecos?”
“Não, porque o pai está a ver o noticiário.”
(Diálogo que ocorreu na presença dos pais do menino de 5 anos, Benguela, 28.09.2014)

quinta-feira, 22 de setembro de 2016



Diário | Há razão maior?

"Vais aonde a estas horas tu?"


"Ter com ela."

"Mas ela quem?"
"Caso não tenhas reparado ainda, hoje ela está cheia..."
"Cheia? Podes traduzir?"
"Vou ter com a lua. Dizem que mora no fim da madrugada em dias de lua cheia.."
"Mas para quê?"
"Cobrar a manivela..."
"Manivela? De quê?"
"Do tempo. Recuar até à adolescência, ou então saltar para a idade da reforma..."
"Mas porquê virar as costas ao presente?"
"Ora essa, porque... 'atingi do zero', como outro. 'Não sou, nunca fui'. Há razão maior?"
Gociante Patissa (com dois versos de A. Neto)

quarta-feira, 21 de setembro de 2016



Diário | Foi apanhada a bruxar?

(I)
"Excelência Camarada Comissária! Quero expressar elevada gratidão pela vossa calorosa saudação, independente de já saber que não venho por bons motivos…”
“Nada a gradecer, camarada. Saudações patrióticas e revolucionárias sempre!”
“Muito bem. Vamos cortar mato. Eu me chamo Romão Pedradura Óscar. Camarada Pedradura, para mim, é suficiente! Estamos em guerra, e a camarada já sabe…”
“Sim, sim. Tácticas de baixa visibilidade…”
“Exacto, camuflagem em tudo. Como já disse, sou o camarada Pedradura, enviado do Adjunto Instrutor do Contencioso Administrativo. Venho da província. Continuando, chegou-nos o incidente que envolve a Camarada Comissária Comunal. Muito grave! Já falamos com os nossos camaradas da informação para não sair público o assunto. Assim venho compulsar a gravidade da infracção cometida e os efeitos colaterais da mesma.”
“Mas…”
“Se não se importa, chefe, gostaria que não me interrompesse…”
“As minhas desculpas, camarada.”
“A camarada sabe, do ponto de vista da palavra de ordem e programa director nacional,  portanto domina que 1987 é o ano do Saneamento Económico e Financeiro (SEF), certo?”
“Sim, sim, camarada Pedradura.”
“A camarada sabe que isto significa valorizar os quadros a quem a Nação confiou a máquina da produção e distribuição junto do nosso povo, certo?”
“Sim, camarada Pedradura…”
“Mas então, onde é que esteve a disciplina quando praticou a gravosa infracção? Posso colocar na sindicância que a camarada está arrependida?”
“Não! Arrependida, não.”
“Não?! Será que ouvi bem? A camarada quer mesmo que eu transmita à instância superior que não se arrepende de agredir o homem da Empa, a loja do povo?”
“Camarada, ponha no relatório que o homem do comércio levou duas bofetadas minhas mais um soco do nariz, por bater uma viúva. E em mulher, reafirmo, não se bate.Violência, na minha comuna, não!”
“Mas ele nunca foi desta conduta. Fez mesmo isso? Posso-lhe chamar?”

(II)
“Camarada Delfim, como vai?”
“Mais ou menos, chefe. A vista ainda está vermelha e o nariz dói com soco da chefe.”
“Olha, por acaso a agressora diz…”
“Desculpa, camarada Pedradura, com todo o respeito, ‘agressora’, não!"
“Pronto. Disse a camarada Comissária que teve essa atitude de te dar surra, ainda por cima aos olhos de todo o povo, porque o amigo Delfim agrediu uma mulher.”
“Bem, chefe, vai-me desculpar, mas é verdade.”
“A mulher que o camarada Delfim agrediu tentou roubar víveres?”
“Não, chefe… Não, chefe…”
“Desrespeitou a bicha? Disse alguma palavra reacionária contra o governo, os heróis ou as causas da nossa luta? Era infiltrada e/ou colaboradora do nosso inimigo?”
“Não, chefe… Não, chefe…”
“Foi apanhada a bruxar?”
“Não, chefe… Não, chefe…”
“Mas, ó caramba!, afinal que mal fez a mulher para lhe partires a bacia com surra?”
“Me falou ‘quero ser tua mulher; me namora’. Ó chefe, uma mulher é que vai me conquistar?!”
Gociante Patissa (adaptação) Benguela, 21 Setembro 2016
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segunda-feira, 12 de setembro de 2016



Diário | Estás armado em homem?

(Último): “Então, parentes! Está tudo bem? Até é pergunta estúpida, essa saudação, né? Então como é que na sala de espera do consultório do doutor, vou pergunta se está tudo bem?!”
(Antepenúltimo): “Não liga isso… Português custa…”
(Último): “Éh, pá. Me falem ainda uma coisa, você é que o último da fila?”
(Penúltimo): “Sim.”
(Último): “Você o primeiro, né”?
(Antepenúltimo): “Correcto.”
(Último): “Então estou quase. Mas aqui não demoram muito atender, né? O doutor já chegou?”
(Antepenúltimo): “Meu mano, vai com calma, não gastes as perguntas de uma vez. Vamos ter tempo. Nós aqui, duas horas sentado… Até as nádegas estão já anestesiadas.”
(Último): “Parece que morrer cansa menos, ya? Os médicos afinal são porquê assim?”
(Penúltimo): “Os médicos e os advogados. Parece que a licenciatura deles vale cinco vezes. Eles só são licenciados tipo eu. Como se já não bastasse lhes chamar de doutor, é secar à espera.”
(Antepenúltimo): “Aí falaste! Viver é lixado, ya?”
(Último): “Mas o que é que vos trás aqui, meus manos?”
(antepenúltimo): “Assim estás a perguntar como?!”
(Penúltimo): “A minha situação – não é ser mal-educado – só eu e o médico é que sabemos …”
(Antepenúltimo): “Eu também…”
(Último): “Não fiquem mais com vergonha. Todos aqui somos homens.”
(Penúltimo): “Se é que ainda somos, né?… Meu! Lá em casa, ultimamente estou a tirar muitas negativas com a tua cunhada. O clima mesmo é aquele, mas o veio vai abaixo…”
(Antepenúltimo): “Meu problema é igual. A tua cunhada até gastou o vencimento só em lingeries, batom da cor do fogo, almofada de pétalas, mas eu entro em campo e… nada.”
(Último): “Será que é resto da febre-amarela? Não é possível, meu…”
(Antepenúltimo): “Mas em 2011 também já me aconteceu.”
(Penúltimo): “É verdade, até eu.”
(Último): “Também com vocês foi um ano antes das eleições? Pronto, eu sabia!”
(Penúltimo): “Como assim, ‘eu sabia’, compadre?”
(Último): “Quando estou na cama, hã!, aí me passa na cabeça um comício de 1992, o maior discurso do grande candidato, vês? Cheirava a victória, no fim perdemos. Aí baixa a potência...”
(Penúltimo): “Comigo é igual afinal. Candidato que falas é o velho Holden Roberto, né?”
(Último): “Qual Holden, pá?! Alguma vez fui de comer macacos como vocês do norte?! Falo do velho Savimbi. Aquilo foi campanha, sócio! Só cada discurso!... Olha, eu no um para um com a tua cunhada, era pilotar até à lua. Estes dias, o avião só cai mesmo ao lembrar a campanha…”
(Penúltimo): “Também não precisas ofender, ó seu bailundo traidor! Estás armado em homem? Nem uma simples esposa consegues satisfazer em condições.”
(Penúltimo): “Possas! Um gajo fica aqui a se abrir até das vergonhas de macho, a pensar que fala com camaradas, afinal são adversários que podem tirar proveito do ponto fraco? Por isso é que nas urnas vos demos surra! Se preparem, a campanha já começou. Vão levar, hã! Faz favor, vamos sentar com uma cadeira de intervalo. Adversários políticos não se misturam, OK?”
(Último): “Adversários ou meio-homem? Aliás, se o teu partido é governo, estás connosco atrás de reabilitação do pai das crianças porquê? Serias já a tal turbina da felicidade. Ou não?”
(Penúltimo): “Não vos conto, meu! Fui sempre director. Pensava assim: daqui a pouco administrador e um dia, quem sabe, presidente. O grande discurso do engenheiro Zédú dizer que quem ganha as eleições é que governa… Mas assim que veio o 2002 da paz é como? Ah, as habilitações do camarada são poucas, vai de bolsa aumentar os estudos?! E o cargo? Ficou lá alguém do governo de reconciliação nacional. Logo um proveniente! Haka! As eleições estão aí, eu no estudo é só reprovar… Enfim, nem com osso rinoceronte aquilo levanta…”
(Antepenúltimo): “Mas não se vendem protectores abaixo da cintura para campanhas?”
 Gociante Patissa. Benguela, 12 Setembro 2016

quarta-feira, 31 de agosto de 2016



Diário | EDUQUEM LÁ A VOSSA CRIANÇA, OK?

"Minha senhora! O INAC é aqui?"


"Bom dia também se diz. Sim."

"Repito. O Instituto Nacional da Criança fica aqui?"
"Também repito. Sim. Aqui mesmo."
"Pronto, assim fica mais fácil. É assim! Eu já desde a barriga da minha mãe que nunca fui de falar muito. E só lhe digo uma coisa, minha senhora. Está aí a vossa criança. Lhe eduquem bem! Estou a ir embora..."
"Desculpe-me, caro cidadão. De quem é filho este menor?"
"Meu também..."
"Seu também?"
"Ya! Um gajo já anda muito saturado! Esse miúdo, 10 anos, mexe que mexe, é faltador. Tudo o que ele encontrou já antes de nascer, obriga que é dele e oferece a quem quiser, não ouve ninguém. Já lhe reuni. Nada. Lhe bati na medida da criança. Nada..."
"Mas mexe como? Tem que mexer, é traquinice própria da idade."
"Furta, desvia, subtrai, gamanço. Ó minha senhora, não faça isso! Assim vai dizer que não entende o que é mexer?!"

terça-feira, 30 de agosto de 2016



(arquivo) Diário | Não têem sentido de humor?

“Senhor motorista, guarda ainda os teus documentos!”
“Está bem, chefe.”
“Vocês ali na carroçaria, tudo que é homem, já no chão e com BI na mão!”
“Ó filho, eu já tem já 60, o teu irmão 45. Também desce?”
“O que conta é idade fértil. Fora isso, tudo que não está de saia sai-me já da carrinha!”
“Ora vejamos… O que é que levam aqui… Ei, mais-velho! Esses dois sacos de milho tem quê?”
“Milho, filho.”
“Milho?! Está onde a factura?”
“Milho da lavra. Sai do Muhaningo, no Ndombe Grande, Baía Farta é só caminho. Temos óbito no Lobito, é para fazer la ainda fuba.”
“Qual é o documento que diz que o milho saiu da tua lavra?”

sexta-feira, 26 de agosto de 2016



Diário | Mas o doutor é assim à toa porquê?

“Doutor! O doutor vai-me desculpar, mas o doutor às vezes só me dá raiva a vida do doutor. Olha só mesmo!… O doutor afinal vai-se respeitar mesmo quando, ó minha vida?!”
“O que foi, filho?”
“Assim mesmo é verdade, hã?, um doutor fica mesmo a andar ali de baixo para cima, cheio de suor, camisa de mangas compridas, calças de lã, parece vem do congelador? Custa mesmo ter só um pouquinho de estilo no grife?”
“Bem…”
“Mas ó doutor, faz favor! O estudo te levou mesmo a estudar até não se dar valor? Já viste os outros médicos como aparecem, hã? Carro perfumado, pele fina tipo de branco. Aquilo até, você mesmo já de longe percebe que, sim senhor!, o filho alheio estudou... Em casa, garrafeira não vale apena!, grandes mobílias; não é o doutor, que só tem uma secretária e cadeiras de plástico em casa. Porque condições sempre vos deram, governo é filho alheio! Agora você fica aí a se misturar com gente a cheirar a sovaco. Eu se fosse doutor como você, juro mesmo!, você ia ver só. Vida lixada, grandas damas!”
“Quer dizer…”
“Doutor, olha só. O governo te deu carro, ze-ri-nho da fábrica, mas você oferece o carro a um sobrinho… para andar mesmo a pé… Isso é vontade mesmo de se fazer sofrer? Mas o doutor afinal é assim à toa porquê?”
“Mas se eu te perguntar se és aleijado da perna porquê, tu vais-me responder como?”
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Gociante Patissa (adaptação). Lobito, 26.08.2016

quarta-feira, 24 de agosto de 2016



Diário | O quê que ela vai pensar?!

"Amor, posso fazer uma crítica ou um pequeno reparo? Quer dizer, não é bem reparo. Se calhar é uma observação. Ou seja, talvez até não chegue a ser uma observação, é mais ou menos uma nota. Diria mais uma espécie de ponto de vista, um parecer..."
"Pára de dar voltas, homem! Qual é o assunto?"
"Sabes que eu mesmo... o amor é aquele, né?..."
"Já estás há dois dias a patinar nesta rotunda, desculpa-me o exagero... Queres dizer o quê, que a relação termina aqui?"
"Claro que não!!! Hoko!"
"Então esta tal crítica, que não é bem crítica, ou o reparo que não é reparo, ou a nota ou moeda, sei lá, é sobre o quê? Até já estou a bocejar. Que sono!"
"Amor, estamos a namorar há já quatro meses, pelo que, ah!... e já é tempo de me apresentar aos teus pais, sabes?..."
"Hum! Ó coiso! Assim, quatro meses de namoro, te apresento na minha mãe. Amanhã te dá na cabeça me trocar por outra. Pouco tempo depois vou apresentar outro homem que 'ah, mãe aquele já não é, o dono das pastas agora é esse'. O quê que ela vai pensar?!"
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Gociante Patissa. Katombela, 24.08.2016

segunda-feira, 22 de agosto de 2016



Diário | Mas tudo não é lá?

"Marido, é como afinal essa cara de limão azedo?"
"Mulher, aquele azar que costumo ver no lar dos outros, onde as mulheres também têem opinião em assuntos de homens, faz favor, que aqui ainda não chegue."
"Tchia! Olha já ele!... Por acaso há um assunto teu que depois não fica meu?! Você mesmo que quando tem problemas passa a noite toda a resmungar, quem é que sofre a ouvir?"
"Aí falaste a tua razão. Senta, isso até... Porra, meu! Esses camaradas afinal como é?!"
"Qual é o problema, ó pai do Quim?"
"Eu até já não me dói o lixo que sai da boca de deputado, mas ouvir de um colega defender que só os licenciados serão licenciados a exercer jornalismo?..."
"Isso mais é desde quando? "
"Parece que vai entrar em vigor uma nova lei de imprensa. É o que eu digo, algumas pessoas têem de fazer consulta. Sofrem de Luanda crónica na hora de pensar o país..."
"Mas tudo não é lá?"
"Possas, pá! Como é que um país que só tem ensino superior de jornalistas em Luanda e Huila vai esperar que de repente tenhamos todos um canudo específico?"
"Quer dizer que com a tua licenciatura em história e outra em direito não serves para jornalista?"
"Já viste?! Esses homens se esquecem que o país se constrói com todos e que foram os técnicos médios que aguentaram isso? Queriam o quê, que desfalcássemos as nossas províncias atrás de título?"
"Hum..."
"Só porque vivem em províncias privilegiadas, alguns foram lá fora com bolsa do estado, agora querem amerdalhar os que sempre suaram?"
"Mas ainda me fala só, mor! P'ra quê que o jornalista precisa de licenciatura? A missão não é só falar bem do patrão, do amigo do patrão e da família do patrão?"
Gociante Patissa. Lobito, 22.08.2016

sexta-feira, 19 de agosto de 2016



Diário | Mas vai usar como, se ele não tem braços?

“Hoje vamos falar da camisinha!…”
“OK, professora!, eu tenho uma dúvida…”
“Já? E qual é tua dúvida?”
“Assim o mano António, que não tem braços, também usa camisinha?”
“Claro! Se já pratica sexo, deve usar protecção!”
“Mas vai usar como, se ele não tem braços?! Só se deixar a mulher lhe colocar a camisinha. Até aí, também já é muita falta de respeito…”
“Falta de respeito?! Na hora da intimidade?! Acoooorda!!! E o vírus da SIDA sabe lá dizer que a esta pessoa eu não ataco porque é portadora de deficiência?”

Gociante Patissa, Lobito, 4 Março 2009. (Concebido e difundido em drama radiofónico pela AJS - Associação Juvenil para a Solidariedade)

quarta-feira, 17 de agosto de 2016



Diário | Xé!, você é mau, ya?...

(I)
"Boa noite, meu irmão. Vai para o Lobito?"
"Boa noite. Mais ou menos. Parei para dar boleia àquele moço, é um primo meu. Não é bem Lobito, está mais próximo da Katombela o destino dele."
“Dá-me só um jeito também, ya?”
“Fica complicado, mano. Vai-me desculpar. Estou a vir da escola, são já 22 horas. Portanto, aquilo vai ser um depositar o homem na paragem e voltar.”
“Não faz mal, fico onde ele ficar…”
“Pronto, vamos…”
(II)
 “Eh pá, primo, estás entregue. Chega bem à casa e cumprimentos à família.”
“OBRIGADO. VOCÊ TAMBÉM, BOM REGRESSO E VAI COM DEUS.”
“Mano, conforme falamos, a paragem é aqui.”
“Mas vai ter que fazer a rotunda lá na bolacha do campo do Buraco, ou não é isso?”
“Sim, com certeza.”
“OK, ali estou bem.”
(III)
“Pronto, meu caro amigo, aqui já estás entregue.”
“Meu irmão, entra só até depois da ponte [500 metros]. Vais ter mesmo coragem de me deixar nesta escuridão?”
“Assim fica complicado ajudar, companheiro. Lembras-te de quando eu disse que só traria o primo?”
“Meu irmão, não custa nada, ajuda só. Eu tenho medo de bandidos. Vais fazer isso mesmo comigo, me deixar nesta escuridão?...”
“Olha, neste caso, há uma solução boa para ambas as partes. Fecha a porta, ainda vou a tempo de te deixar na paragem de Benguela [35 km] onde subiste. Lá não há bandidos.”
“Xé!, você é mau, ya?…”
Gociante Patissa, Benguela. 17 Agosto 2016

sábado, 13 de agosto de 2016



(arquivo) Diário | QUAL FUTURO, HOMEM, FUTURO DE QUÊ?!

"Mas, ó mano Vano, eu já não te falei para você não andar vir me procurar mais?!”


“Isso mais que estás a falar é como é que é?”

“Será que na vossa casa não tem televisão? Eu não posso todos os dias deixar de fazer jantar, não lavar a louça, para vir te atender, ouviste? Não vamos só se complicar, ya?”
“Ehh…, vejamos…”
“A essa hora, os outros estão a ver telejornal, depois é novela, depois é sessão da meia-noite; você se põe no caminho para vir conquistar uma mulher com quatro meses e metade?”
“Você não entende quase nada da vida, e é isso que gosto em ti, cada vez adoro mais…”
“Apaga ainda esse cigarro, faz favor.”
“Te incomoda?”
“Assim vou falar quê, hã?! Ainda me fala só… Esse dinheiro que gastas no tabaco ainda podias só comprar um par de chinelos em condições. Olha só o calcanhar como está empoeirado, ó mano Vano.”
“Ouve o fundo da questão, ó minha benquista, e isso é difícil porque você mesmo sabe que os homens… ora… não são lá bons sentimentais, né? Mas é assim, esse ponto que reclamas, para mim não influi… O filho que vai nascer ou o titular da gravidez que fugiu, para mim é pacífico.”
“Ainda não dá só muitas voltas, homem, me ouve! Haka!, ó coiso, você acha mesmo juízo conquistar uma mulher com cinco meses de uma gravidez que não te pertence?”
“Mas você não é a gravidez, ó amável. Você é uma constante, uma constelação de sorrisos, afectos, enfim, um paiol de aconchegos que o futuro me reserva…”
“Qual futuro, homem, futuro de quê?”
“Mas eu te amo!”
“Mas você não tem o direito de me amar!”

GP. 12.04.2016, Aeroporto Internacional da Catumbela

sexta-feira, 12 de agosto de 2016



Diário | VER BEM?

"Bom dia, o Pastor chamou?"
"Sim, filha. Fizeste bem em vir. Senta ainda. O grupo coral vai bem espiritualmente, não é?"
"Graças a Deus, irmão Pastor. Depois daquele caso do dirigente do grupo que tropeçou no sétimo, tirando só isso, estamos fortalecidos."
"Louvado seja Ele, filha! É de facto uma curva perigosa para a juventude o sétimo mandamento."
"É só orar, Pastor..."
"Amen! Filha, eu chamei porque o conselho da igreja está preocupado..."
"Preocupado? Fiz algum disparate?"
"Não, filha. Nós confiamos na filha, a filha mesmo no juízo... sim, senhora!..."
"Então é o quê que preocupa o conselho de anciãos, Pastor?"
"Filha, já sabemos que a filha está de namoro com aquele irmão de Cabinda que cultua connosco... Sabe como é que é, filha. Cristo mesmo é Cristo, amor mesmo é amor; mas é preciso ver bem..."
"Ver bem?"
"Aquilo é longe. Não é a mesma coisa. Tradição deles é grande. A filha é um dos pilares cá da igreja..."
"É verdade, né? Mas ainda não percebi onde está a preocupação."
"Filha, é assim. Benguela com Cabinda ainda... não estamos a ver se as famílias se casam mesmo bem. A preocupação é perder a filha e a geração vindoura. A nossa semente, filha..."
"Ok. Irmão Pastor, muito obrigada pelo carinho. Só uma curiosidade... Quando Agostinho Neto disse 'de Cabinda ao Kunene, um só povo e uma só nação', vocês pediram a palavra para desmentir?!"
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Gociante Patissa (adaptação). Katombela, 12.08.2016

sábado, 6 de agosto de 2016



Diário | Mas quem é que me garante?

"Amor, hoje parece que algo não correu bem na cozinha. A sopa está um pouco salgada..."
"Ai, está? Olha, não sendo tu um premiado na gastronomia universal, meu amor, não me leves a mal, mas... não vejo valor no teu parecer. Continua a comer, que mal também não te vai causar."
"Ora essa! Tu és por acaso a ministra da saúde para me fazer acreditar que a sopa salgada não me faz mal?"

"Tu é que sabes. É por essas e por outras que qualquer dia deixo de cozinhar e vou para a casa da minha mãe..."
"Para isso terias de ser uma Joana D'arc, o que não és. Achas mesmo que levo a sério esta promessa de rebeldia? E vou-te já avisando, meu bem. Tu sais de casa, e entra outra esposa..."
"Hahahaha. Andas mesmo muito convencido. Meu filho, tu não és nenhum Rei Salomão para teres a legitimidade de falar sobre haver mulheres atrás de ti..."
"E esta tua dúvida de onde tira o direito de ser? Por acaso és o Tomé da Bíblia?"
"Uma vez que nunca venceste nem só já um premiozinho maboque de jornalismo, até não sei porque é que ainda respondo às tuas perguntas..."

"Pronto, vamos acabar com isso. Anda cá dar um abraço e uns beijos, querida... E temos uma noite longa só para nós..."
"Eu até era capaz de vir, mas não sendo tu o Jack do Titanic nem o Shakespeare, quem é que me garante a mim que entendes de romantismo?"
"Sou angolano. Isso não te basta?"
"Por acaso és o Ministro da Justiça para me garantir isso?"
"Anda cá mais é para os meus braços, temos uma noite para fazer tudo a que temos direito."
"Não sei não, meu caro, se sai algo de jeito. Como nunca vi o teu nome num cartaz de filme erótico, né?..." 




Gociante Patissa, Benguela, 06.08.2016

terça-feira, 21 de junho de 2016



Diário | Os preços que pratica contribuem para a paz dos espíritos?

"Vamos tentar ser objectivos. Venho ter consigo uma conversa de homens..."
"Mas a senhora é uma senhora..."
"Isso não vem ao caso! Estou aqui como entidade. Como deve saber, estamos a ensaiar o modelo de comissões de moradores, já que as autarquias são um bicho de muitas cabeças, né? Pronto. A pessoa que lhe fala é a coordenadora."
"Seja bem-vinda à nossa unidade de produção..."
"Eu lhe chamaria antes unidade de preocupação..."
"Unidade de preocupação?! Peço desculpas, mas aqui a papelada está em dia, os impostos e tudo. Há algum ressentimento da vossa parte?"
"Nem ressentimento nem consentimento..."
"Então qual é o problema?"
"O problema é que o seu papel na diversidade e robustez da economia é questionável. Até as minhas entidades superiores já quase me consideram fonte insegura. Se cada mês que reporto, ou altera o valor ou altera o volume, né?..."
"Mas o mercado é dinâmico..."
"O caro empreendedor acho que os preços que pratica no pão, que até é bíblico, contribuem para a paz dos espíritos?"
"Mas eu não importo..."
"O senhor é mesmo atrevido! Pão, que é a primeira coisa que a pessoa come ao acordar, vai custar 40 kwanzas e ainda dizes que 'não me importo', ó senhor?"
"Eu disse que não importo farinha, a matéria-prima. Logo, tenho de vender de acordo com o mercado. O preço tinha que subir."
"E o tamanho baixar?! Não sei se já reparaste mas com este tamanho, eu meto na boca dois pães de uma vez só e ainda consigo falar à vontade. Tens a coragem de negar?"
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Gociante Patissa. Benguela, 21 Junho 2016

domingo, 19 de junho de 2016



Diário | Quarteto de uma pessoa?

“Bem-vindos ao concurso de dança tradicional. Está a ser um momento único de viajarmos pelos municípios da nossa província através dos hábitos e costumes dos seus povos. Já passaram quatro grupos, agora vem o quinto!”
“Boa noite, ilustre corpo de jurado.”
“Boa noiteee, amigo!!! Como estão? Usamos o plural porque a sinopse indica que teremos um quarteto. E os outros integrantes onde andam?”
“Por acaso é quarteto de uma pessoa só sobre a dança tradicional do Chongorói.”
“Quarteto de uma pessoa? Quer ajudar-nos a entender melhor?”
“É uma coreografia de quatro actos, só comigo.”

“E qual é o tema da dança?”
“É sobre o ciclo de vida do homem mukilenge, do nascimento à circuncisão. Da caça à pastorícia. Do casamento ao enterro…”



“Muito bom. O senhor é de lá?”



“Claro que não! Vou lá de vez em quando. Aquela gente não entende nada de estudos, só se preocupa com o gado e as bebedeiras. Porque não é para qualquer um entender o padrão universal da dança, que como sabemos é como o perfume e a música, só tem sete elementos.”

“Ah, sim?…”

“Eu até vou melhorar o que tem sido feito até agora, porque é preciso originalidade, e os nativos não entendem nada disso.”
“E como irá o amigo desvencilhar-se entre a dança e a percussão, estando sozinho em palco?”
“Esta é uma das inovações, vou dançar sem suporte. Porque aquele povo precisa deste prémio, que vai representar de maneira universal a sua cultura.”
“Mas lá como é que se faz originalmente? É com ou sem suporte?”
“É com suporte. Batuque, compasso de paus ou rugidos do próprio peito. Mas não faz falta, porque cada artista tem a sua sensibilidade estética própria…”
“Mas não lhe passou pela cabeça levar a cabo tal tarefa junto com os nativos do Chongorói, os quais afinal de contas se propõe representar?”
“Eu?! Por amor de Deus! Eu tenho alguma formação e viajo um pouco pelo mundo… além de que sempre tive um amor muito grande pelas terras do Chongorói. Isso não é já suficiente? A inspiração em dança não é universal e sem fronteiras?”

Gociante Patissa, Benguela, 19 Junho de 2016

Diário | Entre as desculpas e a cadeira assim vou escolher lá o quê?




"Pai sogro! - primeiro ainda bom dia, né? - É como o passado?"
"Não!, por acaso, mesmo com a ressaca daquele copo que pagaste ontem sem maneiras, ainda o passado lhe passamos bem, conforme é possível com a graça e companhia dos engraçados. Assim é escovar o álcool da boca e ir trabalhar..."
"Para ganhar o pão, não é isso?"
"Não!, por acaso! Se bem que o tal pão já sai com bolor do próprio forno..."
"Pão novo com bolor, meu sogro?"
"Salário sem poder de compra, meu genro?"
"Ah, é verdade. Ainda pensei que é mais uma das àtoíces de falar do pai sogro. Porque o pai quando pega para errar... Mas é assim, vamos ainda deixar o politiquismo para os que estudaram, meu sogro..."
"Não!, aí falaste, meu filho!..."
"Eu madruguei para vir pedir desculpas. Dizem que ontem não aguentei na chupeta, aterrei na cadeira, depois caí e a cadeira partiu-se toda..."
"Ah, afinal? Meu genro, entre as desculpas e a cadeira assim vou escolher lá o quê?! Não vamos se complicar, meu filho, compra só outra no lugar..."
"Assim o meu próprio sogro, hã, pai da minha mãe, - sim, porque esposa é como uma mãe, ou estou errado? - é verdade o meu sogro vai-me fazer pagar?!"
Gociante Patissa. Aeroporto Internacional da Catumbela, 08 Junho 2016

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Diário | Assim já queres ofender?




“Oi.”
“Oi.”
“Incomodo? Aqui é o teu amigo virtual “Batejá”. Se calhar não te lembras. Ainda falamos no mês passado. Sempre sigo o teu mural, gosto das tuas publicações, amiga.”
“Podes dizer, “Batejá”. Já nem me lembro. Como não tens foto nenhuma no teu facebook, é um pouco difícil lembrar…”
“Posso-te fazer uma crítica?”
“Podes. É sobre o quê?”
“Não é só contigo, mas acho que as nossas figuras públicas, personalidades assim da intelectualidade, são egoístas…”
“Pode ser. Mas estás a falar de quê?”
“É assim, eu até te acho uma maravilhosa artista plástica.”
“Ah, és apreciador de artes plásticas? Consegues interpretar a representação do mundo e do caos nas minhas expressões artística e semiótica?”
“Não. Nunca vi as tuas obras. Só costumo ouvir que és maravilhosa. Fico muito revoltado quando em situações como o filho da Doutora Felismina, Decana da faculdade Fotografia, que escapou violar a filha da doméstica dela, você não fala nada. Será que não ouviste? Ou a última exposição já te custou a consciência?”
“Ouvi, sim. Mas o que é que tem a mãe a ver com uma violação praticada pelo seu filho já maior de idade? Este ano ainda não emiti uma posição pública sobre violações. Aliás, e no teu mural também, se bem me lembro, não publicaste nada sobre o assunto.”
“Mas é diferente! Você é figura pública, tem mais obrigações de condenar. Falta coragem, isso sim! Na terra dos outros, artista plástica tem que impor a voz.”
“Sinto muito, pois até agora não preciso de autorização e ainda só publico de acordo com a minha consciência. Quando tenho de criticar, faço-o; não espero ordens.”
“Wô! Assim já queres ofender? Onde é que já se viu uma artista que só critica de vez em quando? Tenha mais é coragem, pá!”
“Mas tu é que andas no facebook sem cara nem nome nem morada, tens identidade completamente anónima, e eu é que tenho a falta de coragem?!”
Gociante Patissa. Benguela, 26 Maio 2016 
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sexta-feira, 20 de maio de 2016

Diário | Com a minha sobrinha de quatro anos

"Vem brincar com o cabelo do tio. Vai vendo se tem caspa, ya?"
"Ó tio, vou trançar bobi e spirro, ouviste?"


"Está bem. Só não puxes com força, porque dói. Mas já sabes mesmo trançar cabelo?"


"Sei."

"Aprendeste com quem?"
"Já me nasceram assim. Ouve, ó tio, há pessoas que lhes nascem mesmo assim... já sabem trançar."
GP. Benguela, 18.05.2016

sábado, 21 de maio de 2016



Diário | E quem é a fonte?

"Ora, cá está o sindicalista mais famoso da província!..."
"Famosa é a vossa digna casa."
"É, né? Seja bem-vindo. Olha que o nosso diferencial no panorama jornalístico e informativo está mesmo na abertura, isenção e pluralidade. É que aqui, censura não mora. Não é fácil neste nosso país com o passado histórico que temos, como imagina... Pronto, está ligado o microfone..."
"Mas preparam ao menos as entrevistas? Ultimamente as entrevistas são feitas a free style, e é em todos os órgãos de informação..."
"Bem, caro sindicalista, esta parte não posso publicar assim como disse..."
"Mas é a minha opinião!"
"Pode ser mal recebido. Mas entendo o que o senhor quis dizer. Vou escrever que o sindicalista defende maior cobertura das actividades reivindicativas, é isso?"
"Estou a dizer que o habitual é que convidam mas não se faz a mínima pesquisa do que o entrevistado faz, às vezes nem do nome dele sabem. E isso não é nada bom para a tradição de rigor que o jornalismo tinha."
"Mas, sabe? -- E isso falo como amigo, já não é na qualidade de jornalista -- É bom não criar anti-corpos, até mesmo porque a imprensa tem um poder que nem o amigo imagina."
"Isso quer dizer o quê?"




"Quer dizer que como experiente no metier, já sei as palavras que vou usar para a entrevista ser bem ouvida. Porque temos de saber falar para todos os segmentos e camadas."
"Mas disse eu algum disparate?"
"Não, por amor de Deus!  Mas, pronto, vamos avançar, porque o tempo é pouco e ainda temos mais perguntas."
"À vontade."
"Indo directo ao ponto da discórdia. A entidade patronal esteve cá e disse que o senhor em particular, em desprimor da responsabilidade que tem e do número de seguidores ideológicos, é o que mais periga a higiene no local de trabalho. Acha correcto o que tem feito?"
"Mas o patrão foi a tempo de falar também do défice de higiene interior que tem?"
"O que seria higiene interior?"
"A conduta coerente e deontologia e ética..."
"Mas o que é que isso acrescenta à resolução do diferendo?"
"Se ele acusa e ataca, julguei que falasse de exemplos morais de parte à parte."
"Chegou-nos a informação que o senhor passou uma semana de 'doença política', alegando dores lombares. O que tem a dizer?"
"E quem é a fonte?"
"O senhor quer praticar censura?! Já ouviu falar da liberdade de imprensa, de opinião e da protecção das fontes? O senhor acha que andamos a brincar no jornalismo ou quê?! Se acha que é tarefa fácil, com todo o respeito, porque é que não vem exercer?!"
"Não se chateie caro entrevistador. Essa sua fonte foi honesta o suficiente para explicar que passei a trabalhar sentado em mesa plástica de bar, as chamadas 'espera condições', desde que o chefe cedeu a minha sala a uma estagiária particular que lhe serve o café?"
"Vê lá se nos entendemos: quem faz perguntas sou eu. Para já, o senhor acha educado criticar superior hierárquico aos microfones? Acha que a sociedade vai respeitar um sindicalismo deste género?"
"Quem começou com perguntas enviesadas é você..."
"Eu para já não admito que me chamusquem a reputação. Se o senhor quer censurar, não é aqui. Você tem ideia do esforço dedicado por todo um colectivo para se construir essa imagem de excelência jornalística, isenção e pluralidade que temos?!"
GP. Benguela, 21.05.2016
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segunda-feira, 9 de maio de 2016



(arquivo) Diário | MÍNIMO TOQUE

"Quantos meses?"
"Seis."
"E o bebé?"
"Nove."
"Têm que pensar no planeamento..."
"Ela não aceita!"
"Não?!"
"É confusão."
"E outros métodos?"
"Ela é mesmo assim; mínimo toque, já fica grávida."

domingo, 24 de abril de 2016



Diário | Por falta de prato?

“Vens daonde?”
“Fui ali numa sentada…”
“Então, amiga, domingo sem fazer nada, você bate um bom copo e não convida?!”
“Não tinha a ver com copos, amiga…”
“Então estou curiosa.”
“Estás a ver o mano coiso?”
“Ya. Aquele, tipo coiso, assim um pouco… né? Estou a ver.”
“Ele está com boa ideia. Se você quer também pode entrar. Estou já a te convidar.”
“É ideia de como então?”
“De formar uma colectividade de trabalho generoso.”
“Isso assim é como?”
“De fins não-lucrativos… para socorrer os necessitados…”
“Ó coisa, uma gaja está aqui desempregada, ainda vou trabalhar sem lucros? E quem vai pagar os meus vícios, as minhas vaidades, hã, quem?!”
“O mano coiso já pensou nisso. Ele já falou mesmo que assim que os apoios começarem, os primeiros necessitados somos nós. Já viste se você desmaia na hora de entregar um prato por falta de prato?…”
"até porque as tias não vão aceitar a nossa doação de roupas se formos lá de tangas, não é?..."
GP, Katombela, 24.04.2016

quarta-feira, 20 de abril de 2016



Diário | Tens pressa?

"Aqui afinal tem quê?"
"Mas está cheio, yeah!..."
"Só estou a gostar do som. Adoro esta música, amiga, adoooooro!"
"Eu também. Uma gaja até imagina numas bandas, umas cenas, numas horas..."
"Vamos ainda entrar, amigona. Tens pressa?"
"Nada! Já lavei loiça. Também a minha mãe não está em casa, que é chata."
"Não acredito! Toda essa gente afinal é para feira do livro?!"
"Isso é brincadeira! Euzinha, perder o meu tempo no livro?! Só se for kamasutra!"
GP, Benguela, 20.04.2016


Diário | E o senhor é jurista?

"Bem, caros convidados, daqui ao pouco o nosso debate vai ao ar. Poderemos ter intervenção de ouvintes via telefone."
"Estamos prontos, caro senhor jornalista."
"Ora, a si já conheço e... a si também. Desculpe-me senhor que vem pela instituição X: no seu caso, como quer lhe apresente?"


"Vou falar na qualidade de jurista... sem problema nenhum!!!"


"E o senhor é jurista?"

"Bem, eu trabalho na Associação como relações públicas, às vezes estafeta, e auxilio na secretaria com arquivos documentais..."
"E qual é a sua formação?"
"Estou a concluir o Médio, mas ainda dei uma pausa."
"Então o senhor não é jurista mas pode falar na qualidade de jurista?"
"A minha esposa é bacharel em Direito..."
"Pronto, não tem problema, vou-lhe tratar pelo nome."
"Você é que sabe."
GP, Benguela, 15.04.2016 (Adaptação)

terça-feira, 12 de abril de 2016



Diário | Qual futuro, homem, futuro de quê?

“Mas, ó mano Vano, eu já não te falei para você não andar vir me procurar mais?!”
“Isso mais que estás a falar é como é que é?”
“Será que na vossa casa não tem televisão? Eu não posso todos os dias deixar de fazer jantar, não lavar a louça, para vir te atender, ouviste? Não vamos só se complicar, ya?”
“Ehh…, vejamos…”
“A essa hora, os outros estão a ver telejornal, depois é novela, depois é sessão da meia-noite; você se põe no caminho para vir conquistar uma mulher com quatro meses e metade?”
“Você não entende quase nada da vida, e é isso que gosto em ti, cada vez adoro mais…”
“Apaga ainda esse cigarro, faz favor.”
“Te incomoda?”
“Assim vou falar quê, hã?! Ainda me fala só… Esse dinheiro que gastas no tabaco ainda podias só comprar um par de chinelos em condições. Olha só o calcanhar como está empoeirado, ó mano Vano.”
“Ouve o fundo da questão, ó minha benquista, e isso é difícil porque você mesmo sabe que os homens… ora… não são lá bons sentimentais, né? Mas é assim, esse ponto que reclamas, para mim não influi… O filho que vai nascer ou o titular da gravidez que fugiu, para mim é pacífico.”
“Ainda não dá só muitas voltas, homem, me ouve. Haka!, ó coiso, você acha mesmo juízo conquistar uma mulher com cinco meses de uma gravidez que não te pertence?”
“Mas você não é a gravidez, ó amável. Você é uma constante, uma constelação de sorrisos, afectos, enfim, um paiol de aconchegos que o futuro me reserva…”
“Qual futuro, homem, futuro de quê?”
“Mas eu te amo!”
“Mas você não tem o direito de me amar!”
GP. 12.04.2016, Aeroporto Internacional da Catumbela

quinta-feira, 31 de março de 2016



Diário | Afinali?...

"Meu kota, esse livro é mbora da igreja?"
"Não." 
"Waaah"


"É literatura."

"Afinali?..."
"Sim. É uma novela."
"Hahahah. Afinal também há livro de novela?"
GP, Malanje, 2013


domingo, 27 de março de 2016



Diário | E quem te autorizou por escrito, hã?

“Senhor Director, vim falar com o senhor Director.”
“Qual é o assunto?”
“Queria uma guia médica. O corpo não está só assim bem…”


“MAS ISSO NÃO É ASSIM, Ó SENHOR PROFESSOR!!!”

“Diga?”
“E quem te autorizou por escrito, hã?”
“Autorização para quê?”
“Ficar doente…”
“Mas doença é doença, senhor Director…!”
“Seja o que for, tem que saber esperar a tua vez! A tua colega Doroteia já não pediu guia? Não autorizei?”
“Sim…”
“Mas então se a outra ainda não acabou o tratamento, você agora vem outra vez com essa conversa? Vocês não sabem que no hospital os medicamentos são poucos, reagentes para análises é ouro? Quer dizer, logo, logo a minha escola entra na estatística… com dois professores a dar cabo dos medicamentos?”
“Mas vou fazer mais como, ó senhor Director?”
“Volta para o teu trabalho, mais é, homem! Há gente mais carente de remédios; não é um professor!!! Vá, agora desaparece-me das vistas e vê se ficas doente mais tarde; nessa época de crise é que não! Faço-me entender, pá?! Aprende de uma vez por todas a evitar gastos no OGE, ok?!
GP, Lubango, 27.03.2016

terça-feira, 22 de março de 2016



Diário | Você lhe chamou de porco ou não?

"Obrigado, meritíssimo."
"MAS O QUE É QUE QUER ACRESCENTAR MAIS, SE O DEFENSOR OFICIOSO JÁ TUDO FEZ POR SI?"
"Meritíssimo, eu apelo à sua generosidade, por favor. Tem de me perdoar, porque não vou aguentar tanto processo..."
"'TANTO PROCESSO', COMO ASSIM?"
"A pessoa não pode ser julgada duas vezes pelo mesmo crime, não é isso?"
"MEU CARO, NÃO ESTAMOS PROPRIAMENTE NUMA AULA DE JURISPRUDÊNCIA, ESTÁ BEM?"
"Meritíssimo, eu apelo que reconsidere. Dois processos é muito..."
"VOCÊ CHAMOU O SEU VIZINHO DE PORCO, ACUSANDO-O DE DESVIAR AS OFERTAS DA IGREJA PARA COMPRAR UMA MOTORIZADA PESSOAL. O OFENDIDO PEDE REPARAÇÃO PELOS DANOS MORAIS AO BOM NOME. NÃO SEI SE SABE, MAS A LEI DEVE SER CUMPRIDA. VOCÊ LHE CHAMOU DE PORCO OU NÃO?"
"É esse o problema, meritíssimo. Os porcos abriram outro processo contra mim por esta comparação, sentem-se difamados. Assim vou indemnizar quem neste meio?"
GP, Benguela, 22.03.2016


quinta-feira, 3 de março de 2016



Diário | Ah, fala o namorado dela?

"Wey, estás a ver essas miúdas?"
"Ya, wi."
"Lhes pára ainda!"
"Xé, garinas, venham cá!"


"Boa tarde, moços."


"Tudo bem, bebés?"

"Tudo."
"Vocês moram aonde?"
"Na Fronteira..."
"Aié? Passem aqui vossos números de telefone, já, já!"
"E o contacto da outra?"
"Ela ainda não tem."
"Olha, o meu amigo e eu vamos vos procurar, ouviram? Não vale a pena só desligar ou dar uma de quem não viu, estão a ver né? Eu fico lixado! É atender, ouviram bem, né?"
"Está bem. Vamos atender."
"Ok. Podem bazar!"
"Tchau."
"Wey, já viste o mambo? Essas miúdas, logo mais, é só arrastar, mano. A mais boa é minha, você fica com a mamudinha. Damas muito fracas."
"É, não é? Essas gajas hoje é tudo bandida. Um desconhecido é que você vai lhe dar número do terminal?..."
"Deixa ainda lhes dar já um beep no número que elas deram. Alô! Está? (Wey, é voz de homem) Esse número não é da fulana? Ah, fala o namorado dela? Deve ser engano, meu velho, vai-me desculpar."
"Filho da mãe dessas miúdas, meu! Nos enganaram, deram número que não é delas."
"Vamos fazer como, agora que já foram embora?"
GP, 03.03.2016

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016



Diário | O trabalho dignifica o cão, não?

"Esse cão comeu mesmo?"
"Comeu, tio!"
"Não parece... Olha a barriga dele..."


"Mas comeu."

"Lhe deste o quê?"
"Arroz guisado com guelras de peixe."
"Verifica outra vez a tigela dele então."
"Já. Ó tio, comeu uma metade. Assim, a outra metade ele vai comer mais tarde. Esse cão é mesmo assim quando vê pessoas; gosta de boa vida, comer bem..."
"Neste caso, é melhor o cão arranjar emprego. O trabalho dignifica o cão, não?"
GP. Benguela, 23.02.2016

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016



[arquivo] Diário | Você acha que um decreto presidencial é coisa de brincar?!

“Bom, dia.”
“Bom dia, senhor Agente.”
“A nossa legalidade?”
“Diga?”
“Documentos, por favor.”
“Meus ou da viatura?”
“Carta de condução e documentos do carro!”
“Aqui estão.”
“O senhor sabe o que fez?”
“Diga?”
“O senhor viu o que fez? Aquela ultrapassagem está correcta?!”
“Não sei… quer dizer… não havia lá linhas contínuas, que seriam de proibição.”
“Aié? Então o senhor acha que pode fazer ultrapassagem a dois veículos longos?”
“Mas ali não é na curva e a visibilidade estava boa. E, ainda, buzinei.”
“Você acha que ele te consegue ver? Não vês mesmo que o camião é muito alto? Vou-te passar uma multa! Lê ainda o artigo 18.º desse livrito.”
“Pois… Ok, já acabei de ler.”
“Isso é resumo de um decreto presidencial. A multa são 60 UCF’s, agora você faz as contas: isso vezes o artigo 18.º, são dez mil Kwanzas.”
“Mas não podemos ficar por uma advertência? Acho que os conselhos que acaba de me dar chegam a ser mais educativos do que a multa…”
“O decreto presidencial não fala em advertências! Isso até está mais do que claro: condução perigosa, multa! Você acha que um decreto presidencial é coisa de brincar?!”
“Está bem. Eu não vou desrespeitar o seu trabalho. Pode passar a multa. Mas, é assim, eu estou em serviço.” [o motorista levava consigo uma máquina fotográfica DSLR, uma bolsa e alguns jornais no carro, sem falar do colete de repórter…]
“Isso não tem nada a ver!”
“Tudo bem. Pode passar a multa, o serviço depois vai resolver…”
“Vais p’ra onde?”
“Vou fazer uma reportagem a Malanje.”
“Estás a ver? E Malanje é longe. Qual é a pressa?”
“Pronto, falhei. Vou prestar mais atenção”.
“Toma lá. Mas, te falo mesmo, meu irmão, até carros zero quilómetro acidentam. Na estrada não vale a pena se confiar só muito.”
“Obrigado, bom trabalho.”

[E lá o mot(u)orista segue a viagem, salvo pelo bluff, por sua vez estimulado pelo bluff do agente, para quem um artigo chamado 18.º, multiplicado por 60 UCF, resulta em 10 mil kwanzas recebidos à beira da estrada, provavelmente sem papel passado, ao jeito ela por ela].
 GP. Aeroporto Internacional da Katombela, 8 Fevereiro 2014
www.angodebates.blogspot.com

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015



Diário | Fala já: mas perdoas ou não?!

“Ouve, vizinho! Eu vim a bem. Estou aqui para falar contigo, porque, é assim… na igreja, falaram uma coisa que até agora não consigo dormir bom sono.”
“Outra vez, vizinha?! Mas você não me deixa só em paz porquê?”
“É mesmo a paz que me trouxe, homem! Falaram tudo o que não está perdoado na face da Terra, no céu também não. Se eu morrer amanhã, não tenho direito ao paraíso.”
“Isso é problema teu!”
“Problema meu? Disseste quê?! O vizinho está a brincar comigo. Só pode!”
“Não, é engraçado que não estou. As feridas que me ofereceste ainda não curaram. Volta quando eu tirar o gesso e continuamos esta conversa.”
“Esperar mais o quê?! Mas o vizinho não ouviu aquele jovem na televisão, hã, português já não é português na ponta da língua, engravatado, que falou que o limite de vida do angolano é só 46 anos? Com 50 anos nos cornos, você pensa que estamos a comer para crescer mais? Estamos mais é a viver para morrer. Fica já saber!”
“O gesso sai daqui a 45 dias. Nessa altura você aparece e te digo se já estou em condições de falar de perdão, ou não.”
“E se eu cair amanhã aí na rua, atropelada como um cão? Já viste o risco de perder o reino dos céus, só porque o torto do meu vizinho não me quer perdoar? Afinal esta tortice vai-te levar aonde? É por essa coisa de complicar já muito que se lutamos…”
“Desculpa, não lutamos. Com mulher não luto. Foi mais uma agressão histérica tua. E porquê? Por ter dito que não era correcto a vizinha levar para a casa um vaso de flores que todos os vizinhos contribuíram para enfeitar a rua no dia de Natal”.
“Eu só levei porque não tinha árvore de Natal em casa… Aliás, mesmo até desde que plantamos a árvore no vaso, como eu até era a pessoa que mais regava… né?”
“Sim, mas a ideia não era essa. O que é de todos deve ser decidido por todos.”
“Eu também, se tivesse marido que me comprasse árvore de Natal, não ia levar para casa o vaso… mesmo a minha prima, que mora noutro bairro, também construiu quintal e cercou o chafariz do bairro em casa. Como é solteira, ninguém lhe chateou. O vizinho já como é que tem boca comprida, viu que sou mulher, queria se meter comigo. Você pensa que a tal mulherice está espalhada em todo o corpo ou quê? Eu te parto os cornos, ouviu? Agora estás ali com o braço no gesso.”
“Vizinha, agora, se faz favor, vai tomar banho, que eu vou descansar, ya?”
“Mas é preciso ressuscitar Mahatma Gandhi para o vizinho entender? Já naquele tempo ele dizia que o perdão é dos fortes, os fracos não sabem perdoar.”
“Ah, também chegaste a agredir o coitado do Mahatma Gandhi?”
“Eu já falei, vizinho. A bem ou a mal, vais ter que me perdoar. Se for necessário vou lutar outra vez contigo. Daqui é que não saio sem perdão. Fala já: mas perdoas ou não?!”
GP. Benguela, 30.12.15

terça-feira, 22 de dezembro de 2015



Diário | Vá lá, este alambique é de quem é?

"Mais-velho, a pátria está muito triste com a vossa sabotagem, pá!"
"Sim, filho?..."
"NÃO ME INTERROMPE, ESTÁS A OUVIR?!"
"Perdão, chefe."


"Vá lá, este alambique é de quem é?"


"É só meu e da tua tia ainda, meu filho."

"Quer dizer, a guerrilha ameaça tudo quanto é fronteira, nós andamos para cima e para baixo na rusga dos abrangidos para as FAPLA [Forças Armadas Populares de Libertção de Angola]. E você, em vez de colaborar, fica aí na kazukuta do kaporroto?"
"É porque não tem trabalho, chefe. Trabalhava na Câmara, agora já está velho..."
"Mas 'velhice' como, se estás ali a fabricar no alambique toneladas de kaporrroto para enganar o nosso povo?"
"É porque a tal vida mata com fome, chefe..."
"Assim a nossa vida já é que está fácil? Você sabe o que custa esta farda, o peso da arma e o tacão desta bota? Hã?!"
"Perdão, chefe."
"Quantos garrafões por semana?"
"Depende só, filho, do farelo, do açucar, do fermento, da lenha e dos tais bêbados..."
"Isso dá cadeia! Cela sem visitas. Caramba, pá, ó compatriota! Quer dizer, a pátria esforça-se com as importações para ter um pouco para cada um nas lojas do povo, e o camarada vai lá com cartão de abastecimento, avia e gasta o produto a produzir aguardente caseiro? Vá, arruma as evidências, que o camião Kamaz está a caminho para ir à procuradoria."
"Bem, chefe..."
"Isso, só entre nós, mais-velho, porque o teu crime é contra a pátria, arranja só já dois litros de primeira, eu vou ver o que posso fazer por ti."
"Desculpa lá, ó filho. Você afinal veio em nome do trabalho ou para se aproveitar da minha bebida a enganar o tal povo?"
GP. Katombela, 22.12.15

domingo, 20 de dezembro de 2015



Diário | Quer dentro ou quer fora?

“Mas o vizinho? Por aqui? De alegria também não é. Ou é?”
“Adivinhou, vizinho. Coração está na mão. Podemos conversar?”
“Quer dentro ou quer fora?”
“Dentro mesmo! Me assaltaram quando saí para a sentina. Isso até, a pessoa, se não é homem, chora… Tanto rico com carro de casa e carro de saída; jogador a acender cigarro da vela p'ra boca com dólar... vão roubar logo um filho do suor?!”
“AJUDANTE!”
“Pronto, mestre!”
“ANUNCIA!”
“Entrada é cinco mil, consulta é dez.”
“Está certo. Aqui estão os quinze mil Kwanzas."
“Roubaram o quê?”
“Roubaram duas escalças sociais de saída…”
“Escalças?”
“Sim, de vestir com a camisa.”
“Só?”
“Também maço de cigarros, dois pães com chouriço metido, litro de quente e uma sexta de cerveja que era para o Natal, saiote da tua cunhada.”
“AJUDANTE!”
“Pronto, mestre!”
“ANUNCIA!”
“Se olha no espelho.”
“Já está!”
“O que acha do sonho?”
“O sonho tem alguma coisa a ver com o roubo?”
“Aqui é saber responder!”
“Bem, o sonho… são fantasias… geralmente erróneas…”
“CALA A BOCA, IRMÃO! O SANTO TOMÉ NÃO ADMITE FALAR MAL DO SONHO. O SONHO É A MÚSICA DA VIDA!”
“Pronto, vizinho, deve ser isto mesmo!”
“AJUDANTE!”
“Pronto, mestre!”
“ANUNCIA!”
“O Santo Tomé está a ver o gatuno a correr no espelho. Passou mesmo com tuas coisas.”
“Yaló! Obrigado, vizinho. Eu sabia, eu sabia que o mestre não desconsegue nada! Mas diga, quem é o gajo? Qual o nome dele, que é p’ra lhe partir já no focinho?”
 “AJUDANTE!”
“Pronto, mestre!”
“ANUNCIA!”
“Ah, o Santo Tomé manda avisar que já sabemos quem foi, mas não dá para falar nome. O mano sabe que isso, no bairro, costuma dar inimizades, não sabe?”

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015



Diário | Só que o posto dele é na cama, estás a ouvir?!

“Mas que vozes são essas, meu Deus?!”
“Não são vozes, patroa, é uma senhora só… Está bem frustrada a tal senhora, patroa. O guarda inclusivéé não consegue lhe segurar…”
“Mas qual é o problema para tanta histeria afinal?”


“Patroa, falo mesmo?”

“Claro! Que pergunta mais parva, homem!”
“Ela diz que veio discutir os direitos dela…”
“Mas que direitos são esses?”
“O mano Sentado. É isso… é mulher do mano Sentado. Ela falou que tem certeza que o marido dela está ali dentro de casa…”
"Ai, o problema dela é só mesmo esse?”
“Parece, patroa…”
“Manda entrar a gaja.”
“A SENHORA DEVIA TER VERGONHA! ROUBAR MARIDO, COM TANTO HOMEM DISPERSO?!…”
“Muito prazer em conhecer. Eu sou Nasesa. A senhora como se chama?”
“A SENHORA NÃO ME ENGANA COM ESSES TEUS MODOS, MAZÉ, PÁ…”
“Qual é mesmo o assunto?”
“O MEU ASSUNTO É DA VOSSA POUCA VERGONHA! FICAS ALI, FELIZ DA VIDA, MAS AS CRIANÇAS QUASE ESQUECEM A CARA DO PAI! QUE TIPO DE MULHER É VOCÊ, QUE NÃO CONHECE A DOR DAS OUTRAS? HÔKO, OLHA A CARA DELA... ATÉ PARECE NÃO MENSTRUA!”
“Minha senhora, parece haver aqui uma confusão.”
“CONFUSÃO DE QUÊ, PÁ?! AGORA ENTENDO O PORQUÊ QUE O PADRE, NA CERIMÓNIA DO MEU CASAMENTO, ME DISSE ‘ORAI E VIGIAI’… ERA MESMO A CONTAR JÁ CONTIGO, MINHA BANDIDA!”
“Já que procuraste, agora vou-te responder à medida. Está a ver esta pala de sombra? É o lugar do guarda. Ali onde estás, se faz favor, estás a atrapalhar o lugar do jardineiro. Ah, é uma pena que tenhas os pés empoeirados, senão te mostrava o meu quarto. O senhor Sentado, teu marido, aqui é trabalhador, como os outros. Só que o posto dele é a cama, estás a ouvir?!
GP. Katombela, 14.12.2015

GP. Benguela, 20.12.15


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