PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Encontro com estudantes do Instituto Médio Industrial de Benguela, 27.06.2016


Num contexto em que os adultos passam a ter cada vez menos autoridade moral para estarem (no papel de modelos) diante de novas gerações para passar valores, exemplos e ideais, foi pois com certa ambivalência que aceitei o convite/desafio do Programa SABER MAIS, da Cooperação Portuguesa ligada ao Instituto Camões para o Apoio ao Reforço do Ensino o Secundário em Angola em parceria entre o Ministério angolano da Educação. Fui ao Instituto Médio Industrial de Benguela no dia 27 de Junho 2016 falar da minha trajectória de escritor, de cidadão, de patriota e, fundamentalmente, alguém preocupado com a necessidade de a escola preparar alunos para a vida, que é algo muito mais alargado do que a reprodução do conhecimento e tirar boas notas. Havia pelo menos mais de cem participantes, incluindo alguns professores, numa sessão de aproximadamente uma hora. Voltei a questionar o papel dos conselhos científicos, mormente no campo dos trabalhos de fim de curso, que como se sabe estão fadados a ganhar pó nas prateleiras,

terça-feira, 28 de junho de 2016

Partilhando leituras | “A INVESTIGAÇÃO A PARTIR DE HISTÓRIAS: UM MANUAL PARA JORNALISTAS INVESTIGATIVOS” (edição da UNESCO, 2013)

"O jornalismo investigativo envolve expor ao público questões que estão ocultas – seja deliberadamente por alguém em uma posição de poder, ou acidentalmente, por trás de uma massa desconexa de fatos e circunstâncias que obscurecem a entendimento. Ele requer o uso tanto de fontes e documentos secretos quanto divulgados."

Livro em PDF para download grátis aqui

segunda-feira, 27 de junho de 2016

A foto do dia | No papel de mestre de cerimónia, o professor Jorge Barroso, uma referência no ensino da língua portuguesa em Benguela

Divagações

Ao ouvir neste momento em directo via Rádio Nacional a conferência de imprensa da Polícia Nacional sobre os resultados do inquérito à volta do ataque no dia 25 de Maio último a uma delegação parlamentar do partido Unita na localidade de Kapupa, município do Cubal, província de Benguela, de que resultaram três mortes e vários feridos graves (entre civis e polícias)... Ora bem, entre as conveniências retóricas e todas as zonas cinzentas, com tudo a pender para as vítimas serem as culpadas, já só duas certezas prevalecem: uma é que voltaram a morrer angolanos sem para já haver efectivamente alguém a quem responsabilizar judicialmente; a outra certeza é que as lideranças políticas fazem muito pouco em termos de exemplo para combater a intolerância política no meio rural. É uma vergonha que as rivalidades e a apetência para o crescimento do número de militantes nos partidos políticos tenham mais valor que a vida humana e a necessária união entre angolanos!

sábado, 25 de junho de 2016

Poemário «Almas de Porcelana» na imprensa especializada brasileira | POESIA DE GOCIANTE PATISSA É DESTAQUE NO PORTAL CRONÓPIOS | Resenha de Vivian de Moraes ao livro editado pela Penalux, dos ilustres Wilson Gorj e Tonho França

Gociante Patissa é um poeta experimentado. Depois de oito livros lançados em seu país de origem, Angola, e também em Portugal, ele chega ao público brasileiro — com uma edição que compila seus principais conjuntos de poemas — pelas mãos da Editora Penalux.

O livro brasileiro é Almas de Porcelana (2016), o que já revela o quanto tem de forte (uma alma não se finda, segundo as religiões) e delicado (porcelana). Um ser que se vê no papel de poeta enfurecido pelos males que assolam seu país – Gociante nasceu em 1978, três anos depois da independência do jugo colonial português, mas a libertação viria a ser seguida por três décadas de guerra civil entre angolanos, findas somente em 2002 – , além de se constituir um autor que resgata a beleza estética no que é feio ou grotesco, ou simplesmente errado, como no poema África mãe Zungueira:

Esta que se aproxima
carrega uma criança às costas
outra no ventre
uma nuvem húmida rasga-lhe a blusa
lembrando que é hora de parar e amamentar
e lá vai ela seguindo o itinerário que a barriga traçar
gestora de um ovário condenado a não parar
porque é património social
penhora o útero na luta contra a taxa de mortalidade

[…]

Utilidade pública | Uma porta para a promoção de música de matriz tradicional através da rádio

Leva-se ao conhecimento de possíveis fazedores de música genericamente conhecida como tradicional e que procurem a promoção das mesmas o seguinte: (1) Sua excelência eu colabora (a título voluntário e não remunerado) com um programa do Canal A da Rádio Nacional de Angola, programa este emitido aos sábado a partir das 18 horas, com reposição à madrugada de domingo, de Luanda para todo o país. Há três décadas no ar, este programa da RNA tem como vocação a recolha da tradição oral e etnomusical de Angola; (2) O meu poder do colaborador limita-se a recolher, elaborar uma pequena sinopse, caso o conteúdo esteja numa das línguas que domino, e posteriormente remeter o conteúdo à realização do programa, a quem cabe a decisão final de divulgar (ou não) mediante a sua qualidade. Por exemplo, este mês de Junho promovemos na região sul dois artistas, o Kupeletela (do Bocoio, Benguela) e Morais Camambala (do Huambo e radicado na África do Sul); (3) Sua excelência eu não cobra rigorosamente nada, nem se devia nunca cobrar, mas também não garante pagamento de direitos de emissão. Em caso de interesse, o e-mail para remeterem as músicas em formato Mp3 é patissagociante@yahoo.com
Ainda era só isso. Obrigado.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Divagações

Para quem à sexta-feira trabalhou até 21 e poucos, um bom relaxe é acompanhar através da emissão em directo da Rádio Benguela o concurso "Benguela Gentes e Músicas", que vai já na sua sexta edição, depois de ter sido lançado em 2013 para descoberta de novos talentos na música. Com o devido respeito aos organizadores e aos concorrentes, agora que entra em palco o oitavo cantor, tenho a forte convicção que a presente edição está muito abaixo das que a antecederam (nas quais vibramos com Frederico Tiago, Adriana Carvalho, Neusa Linda Sessa, entre outros, que levavam a plateia a prognosticar com elevada margem de certeza o vencedor de cada edição). Estou a falar mesmo do ponto de vista do desempenho dos concorrentes (desenvoltura, potencial vocal, harmonia, emoção). À parte os temas cantados em kimbundu que não domino, o conteúdo também parece estar esteticamente não tão extraordinário, quer em português quer em umbundu, excepto um tema da autoria de Paulo Flores. Por mim, ninguém levaria o prémio. 
Gociante Patissa, Benguela 24.06.2016

Raider em Benguela (3)

(arquivo) Cenários

É uma hospedaria com condições de conforto pela mediana, apenas fora do seu tempo e meio, talvez. Lembra o mamão, espaçoso e terno por dentro, nulo por fora. Descampado e falidas pretensões de obra ao redor, escuridão e capim. A calçada, impecável esteira de betão, pode dar para tudo... e a agenda noticiosa é já ali. Mas há que ressaltar a postura a século vinte e dois da casa, trata todo o hóspede por Doutor!
GP, 24.06.2014

Raider em Benguela (2)

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Raider em Benguela (1)

"A kovi weh / eh, kovi / ko Lupito watanga / eh, kovi / ko Wambu watanga / eh, kovi" (do cancioneiro popular Umbundu)

(arquivo) Divagações | Grande David! Dos poucos e em vias de extinção

Recorri ao ATM (ou terminal multicaixa) do aeroporto da Catumbela para dar de comer o modem, dependente que andamos dessa coisa chamada Net. Meia hora depois, já a passar a Damba-Maria (ou 27) em direcção a Benguela, dou pela ausência do recibo da recarga. Na verdade, não me lembrava de ter visto mesmo o papel. Acabava de perder quatro mil e quinhentos kwanzas, equivalentes a USD 45. Aconselhado pelos colegas, fiz uma inversão de marcha. Lá postos, abordamos ao longe o David, vinte e poucos anos, de natureza cordata, responsável pelo turno da empresa que tutela o aeroporto. “O meu saldo!”, cobrou, um tanto brincalhão, um dos colegas. “De quanto?”, replicou o David. “De quatro e meio”, completamos. “Ah, está aqui”, e lá retirou-o do bolso. “Eu vi, quase falei com os colegas, mas como as pessoas gostam de se aproveitar, decidi calar. Pensei assim: se o dono for alguém daqui, vai voltar, e aí eu entrego”. Neste facebook dominado pela indignação legítima diante da corrupção e má conduta, seria injusto não homenagearmos gestos de honestidade, já que, multiplicados, dar-nos-iam certamente uma sociedade melhor.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Divagações

O debate na Tv Zimbo esta noite parece estar animado. Estou impedido de o acompanhar, mas também não há dramas. Não ter o sinal de televisão por parabólica no meu "habitáculo", é uma opção à qual não pretendo para muito cedo alienar. Viro-me bem com um televisor de 2008 e os dois canais (com pouco risco de me viciarem). Pelas reacções que acompanho neste momento no facebook, o meu "miúdo" MBangula Katúmua está a sair-se bem na sua faceta de sociólogo, ramo no qual aliás acumula primitivamente uma licenciatura, um mestrado, o exercício de professor e, ainda mais, um doutoramento a caminho. Está a ser elogiado por resistir à tentação do populismo e por fazer o óbvio: apresentar dados/fenómenos observáveis, interpretá-los e apontar sugestões. Sei que vindo da minha parte, de alguém que está constantemente exposto e a se expor, soa estranho o que direi. Mas a verdade mesmo é que gostaria muito que as oportunidades, muito seguidas ultimamente, no que respeita aos bastidores da produção mediática, não estourassem tão cedo a imagem do rapaz. Força, Mbangula!

Diário | Os preços que pratica contribuem para a paz dos espíritos?

"Vamos tentar ser objectivos. Venho ter consigo uma conversa de homens..."
"Mas a senhora é uma senhora..."
"Isso não vem ao caso! Estou aqui como entidade. Como deve saber, estamos a ensaiar o modelo de comissões de moradores, já que as autarquias são um bicho de muitas cabeças, né? Pronto. A pessoa que lhe fala é a coordenadora."
"Seja bem-vinda à nossa unidade de produção..."
"Eu lhe chamaria antes unidade de preocupação..."
"Unidade de preocupação?! Peço desculpas, mas aqui a papelada está em dia, os impostos e tudo. Há algum ressentimento da vossa parte?"
"Nem ressentimento nem consentimento..."
"Então qual é o problema?"
"O problema é que o seu papel na diversidade e robustez da economia é questionável. Até as minhas entidades superiores já quase me consideram fonte insegura. Se cada mês que reporto, ou altera o valor ou altera o volume, né?..."
"Mas o mercado é dinâmico..."
"O caro empreendedor acho que os preços que pratica no pão, que até é bíblico, contribuem para a paz dos espíritos?"
"Mas eu não importo..."
"O senhor é mesmo atrevido! Pão, que é a primeira coisa que a pessoa come ao acordar, vai custar 40 kwanzas e ainda dizes que 'não me importo', ó senhor?"
"Eu disse que não importo farinha, a matéria-prima. Logo, tenho de vender de acordo com o mercado. O preço tinha que subir."
"E o tamanho baixar?! Não sei se já reparaste mas com este tamanho, eu meto na boca dois pães de uma vez só e ainda consigo falar à vontade. Tens a coragem de negar?"
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Gociante Patissa. Benguela, 21 Junho 2016

Rubrica Victor Manuel Patissa 70 anos | HOMENAGEM (parte4): PATISA, O SOBRENOME DE ORIGEM MISTERIOSA, AS RASURAS E O NACIONALISMO ANGOLANO


Há algumas dúvidas e mistérios à volta da raiz paterna da família Patissa. Em meados do século 19 aportou um homem chamado Patisa Mariano na região do Bocoio, aldeias de Cindyanda ou Kanyãlã, leste da Comuna do Monte Belo. Migrara de Mukinda, terriola do nordeste do Kuito, província do Bié (Silva Porto de então) e nunca mais regressou nem se lhe conhecem parentes ou ascendentes, o que é estranho, partindo do princípio que o africano Bantu tem a identidade arraigada no solo. A este respeito, é pertinente chamar à conversa um trecho do cancioneiro Umbundu: «A malanga / cina walile/ petula kopeto weh/ sokolola kuna watunda/» (ó palanca / depois de te saciares / levanta os chifres / lembra-te de onde vieste). A integração com os povos do litoral sul, designados por «vambwelo» viria a efectivar-se ao desposar a jovem Cilombo Malinyã, em consequência do falecimento da esposa que trouxera de Mukinda. Ainda assim, Patisa não escapou à alcunha “Maliyanu Ukwamãnyã” (Mariano o rabugento). Não havendo relatos de comportamentos socialmente reprováveis da sua parte, presume-se que a alcunha resultou de algum choque cultural dada a entoação algo imponente da variante biena da língua Umbundu (acima do diapasão musical e reticente dos Vambwelo). Da aliança com Cilombo, nasceram Alemályu, Cipriano, Henrique, Frederico e Manuel (não nesta ordem). Como se explica que ele nunca quisesse regressar a Mukinda? Algum desgosto? Desamor? Teria cometido algum erro grave e fugido à responsabilização? Na localidade de Olondimba, a caminho da barragem de Lomaum, estão os túmulos de Patisa, falecido no dia 16 de Janeiro de 1937, e esposa, Malinyã, falecida a 22 de Dezembro de 1957. 
Dos filhos de Mariano, destaco o Manuel, a quem o registo oficial atribuiu mais um S, passando a Patissa, inicialmente apenas mais uma criança nascida para o campo, nada antevendo o que a história de Angola o tramaria. Manuel, depois de experimentar o consumo de álcool e não gostar, o mesmo se dizendo da religião católica, aderiu ao movimento evangélico protestante, concretamente a IESA (Igreja Evangélica do Sudoeste – hoje Sinodal – de Angola), fomentada por missionários suíços em Kalukembe, Lubango. Manuel Patissa em 1961 é feito preso político, seis meses volvidos sobre o falecimento da esposa, na «operação ovissonde», em consequência dos acontecimentos do Norte, nos primórdios da luta armada. Passaria cinco anos na cadeia de Bentiaba, na então Moçâmedes, hoje Namibe. Quando sai, encontra os filhos marcados pela revolta. Victor Manuel, que por altura da prisão do pai tinha 15 anos, vai dando sinais já de irreverência (passível de castigo físico), a ponto de ao domingo preterir o dia de adoração para ficar na companhia do seu primo Segundo Miñamiña e brincar ao ocinganji, figura mística africana e de intermediação com o além, conotado com o diabo. No fervor dos movimentos de libertação, Victor Manuel adere às bases do MPLA e mais tarde, não se revendo no nome do colono, resgata o do seu avô paterno e faz um novo registo. Passa a ser Victor Manuel Patissa, obviamente distinto dos irmãos (Adelina Mbali Manuel, Fernando Manuel, o Valeriano Manuel e Henrique Manuel). Tal alteração tem efeitos colaterais à identidade oficial de seus próprios filhos nascidos na década de 1970 (registados como filhos de Victor Manuel). Ainda tentou à caneta rectificar, mas a rasura estava demais evidente. Em tempo de guerra, não havendo meios de voltar do Bocoio, no caso particular tive de obter uma nova cédula pessoal, aproveitando uma campanha de registo de menores na comuna da Equimina, onde ViMaPa era o chefe do governo. Passei infelizmente a ser natural da Baía Farta, quando na verdade sou do Monte Belo, município do Bocoio. 
Daniel Gociante Patissa www.angodebates.blogspot.com

segunda-feira, 20 de junho de 2016

(arquivo) CITAÇÃO

"O maior dos perigos do nosso tempo não é não haver respostas para os problemas; o maior perigo do nosso tempo é já não colocarmos as grandes perguntas" - Padre Anselmo Vieira, português, 71 anos, entrevistado pela RTP Internacional, 20 Junho 2014

domingo, 19 de junho de 2016

Diário | Quarteto de uma pessoa?

“Bem-vindos ao concurso de dança tradicional. Está a ser um momento único de viajarmos pelos municípios da nossa província através dos hábitos e costumes dos seus povos. Já passaram quatro grupos, agora vem o quinto!”
“Boa noite, ilustre corpo de jurado.”
“Boa noiteee, amigo!!! Como estão? Usamos o plural porque a sinopse indica que teremos um quarteto. E os outros integrantes onde andam?”
“Por acaso é quarteto de uma pessoa só sobre a dança tradicional do Chongorói.”
“Quarteto de uma pessoa? Quer ajudar-nos a entender melhor?”
“É uma coreografia de quatro actos, só comigo.”

sábado, 18 de junho de 2016

Citação

"O actual bispo responsável da Rádio Ecclesia está a trabalhar 100 por cento para abrir..a primeira será aqui no Moxico.. além de ser bispo jornalista e lincenciado na matéria...fez contacto a nível  do governo e  parceiras internacionais para isso..." - do meu amigo e antigo formador Zeferino Passagem Passagem, hoje.

Rubrica Victor Manuel Patissa 70 anos | HOMENAGEM (parte3): PARECIA COMBOIO MAS ERA MESMO CASA

Depois da moto brincalhona que se desgovernava na descida e obrigava o uso do calcanhar e a perda de chinelos, se para caber numa eventual lista de mau comprador necessário fosse, o nosso pai teria como razão bastante a forma do que nos ofereceu para morar. Não! Aquilo não existia esteticamente como casa, se entendermos casa como resultado estático da conversão de umas linhas magras marcadas em papel chamado planta. A nossa estava muito acima, só lhe faltando rodas para completar a inspiração que causava. Era uma estrutura comprida a despejar para os dois lados, cujos compartimentos eram autónomos quartos-e-salas. Explico: a cozinha era um quarto-e-sala. O espaço dos rapazes? Idem. Quarto e sala também para o dormitório das meninas. A secção maior, a capital da casa, tinha a porta de entrada na sala de jantar, que dava tanto à sala de visitas como ao corredor que levava ou ao dormitório central ou à fartura logística alocada na despensa. Não se iluda você, que até ali houve adaptação, uma parede teve de ser rompida. Mas, é preciso dizê-lo, qualquer leitura a apontar para eventual propensão de ViMaPa para obstruir a circulação de pessoas e bens é… injusta. Por acaso assacaríamos ao comprador os defeitos estruturantes de um produto? Sem ser propriamente um meio de transporte, a casa fora concebida para o entra-e-sai, ou seja, como geradora de rendimento por via do arrendamento, o que a nossa família veio a herdar. Recordo que a parte posterior tinha ilhado um quarto-e-sala onde morava uma idosa oriunda do Bié, à qual o pai tratava mais como mãe do que inquilina. Por várias vezes, ouvimos o pai anunciar bónus (“este mês ainda fica para a cozinha, mãezinha”), se bem que muita falta também não fazia o valor da renda ao bolso do velho. Até ser derrubada para dar lugar a algo melhor, a nossa casa tinha reparações e ajustes que nunca mais acabavam, o que abria espaço para o assédio de empreiteiros e vendedores de tudo e mais alguma coisa. Eis um registo dramatizado de uma cena real:

DIÁRIO | ATÉ JÁ ENTREI. NÃO TEM CÃO?

“Mas vocês não ouvem?! Anda, vão ver quem está a bater ao portão, pá!”
“Ó papá, é um tio quem tem lata de leite na mão.”
“Lata de leite?”
“Parece que é mestre, a lata está um pouco suja, tem tinta.”
“Dá licença, mano. Até já entrei. Não tem cão?”
“Sim, faz favor. Eu tenho azar, cão dos outros é guarda; o meu mais é que recebe visitas.” 
“Assim as bruxas já lhe partiram a voz. Haka! Boa tarde, ainda.”
“Boa tarde. Está aqui o assento.”
“Obrigado. Ainda um copo de água?"
"Copo de água aqui para a visita!!!"
"Ah! A garganta quase a encravar! Mas estamos bem, é mesmo só a tal vida. Ainda pensamos andar pelos bairros, a ver se encontramos trabalho. Somente.”
“Nós, também, é mesmo assim: dia bom, dia mau. O resto dos problemas… pronto… têem a nossa altura, podemos nós com eles.”
“Vimos que o mano tem uma casa, – sim, senhor! – até que uma pintura mesmo caía bem.”
“Pois. O problema costuma mesmo ser a escolha do caminho, se vamos para a tinta ou para a barriga. E é precisamente quanto?”
“Não te falo mentira! O mano costuma de vez em quando passear na cidade, não é?”
“Sim.”
“O mano, por exemplo, da Kaponte à Zona Comercial (no 28), não costuma ver que há lá umas casas bem pintadas, de frente e qualidade? Aquilo fui eu…”
“Espera aí! Você pensa que sou burro, não? Caramba! Então, um gajo que me aparece aqui com uma lata de leite vazia, dois pincéis no bolso, meio quilo de cal, vai mentir que pintou as casas de uma cidade toda, pá?!”
GP, Katombela, 18.11.2015
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HISTÓRICO

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Circular

Por conveniência de serviço e usando das faculdades e universidades que não nos são conferidas nos termos da lei do desenrascar, levo ao conhecimento de todos que a ausência de cursos de mestrado em Benguela será severamente punida com o meu regresso às aulas para mais um ciclo de licenciatura, pois quatro anos à espera representam um imperdoável esbanjar de noites. Preparem-se para as consequências dos meus actos... neste caso nenhumas hahahaha

Rubrica de homenagem até 26 de Julho | VICTOR MANUEL PATISSA 70 ANOS (2): A MOTO BRINCALHONA

(Da dir. à esq.) em pé: Henrique Avindo Manuel,
 uma moça com bebé cujos nomes não recordo, a
Rosa Ngueve Gociante Patissa, ViMaPa,
Francisca Canete, Maurícia Kwayela Manuel Patissa
 e Daniel Gociante Patissa.

SENTADOS: Albino Huambo Serviço, Imbo,
Nicodemos Quintas Sabino.
FOTO DE APROXIMADAMENTE 1989
O meu pai tinha comprado uma motorizada de um amigo seu, que também já não está em vida, da Bela-Vista, um daqueles bairros mais visuais do Lobito. Os pais por vezes compram bens como amigos, não com olhos de clientes. Em casa, o veículo não teve recepção feliz. Podre, velha e outros adjectivos iam a ponto de implodir no peito de praticamente todo o mundo, embora sem o manifestar abertamente. Eu cá acho que a moto até era generosa para as crianças. Muito. Diria até interactiva. No quintal, calhava ser atingida com a nossa bola de saco, e ela, a moto, deixava cair uma peça, como que a multiplicar brinquedos. Assim, a brincadeira que era só nossa, passava a ser dela também. Com os adultos é que não sei se seria tão amável. Não é que já no dia da aquisição entendeu pregar uma enorme partida ao comprador!... Ao descer o sempre congestionado morro da Vista Alegre, constou-nos (no relato do velho, que não era de acelerar pouco) que a moto perdeu os travões, o que levaria o utente a desenrascar, como nos filmes extremos, para imobilizá-la com o calcanhar. Resultado? Chegou à casa só com um pé dos chinelos que calçava. Tenho a impressão que se conseguiu devolver o produto e muito provavelmente saiu beliscada a relação de amizade. Moral da história: amigos, amigos; negócios (podres) à parte.
Gociante Patissa (conto em construção)

O regime colonial português, no meio de toda a imposição etnocêntrica que se lhe conhece, ainda tentou preservar alguma identidade dos indígenas na toponímia. Oficializou em 1770 a vila como sendo KATUMBELA, portanto era apenas uma questão de substituir o U pelo O para termos KATOMBELA. Aí veio a independência, tornámo-nos soberanos como país. E o que é que fizemos? Catumbelizamos a vila. Um preciosismo difícil de entender na linha de combater o K, W e Y, pelo simples facto de não existirem no alfabeto português. Definitivamente, é a consagração de uma toponímia sem memória.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Memórias do Médio Oriente | AQUANDO DA 26.ª EDIÇÃO DA FEIRA DO LIVRO DE JERUSALÉM

Retoque da foto tirada (originalmente pelo escritor Frederico Ningi) a 12.02.2013 na zona turística do Rio Jordão, fronteira entre Israel e Jordânia, onde segundo a história cristã Jesus Cristo foi baptizado

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Rubrica de homenagem até 26 de Julho | VICTOR MANUEL PATISSA 70 ANOS (1)

Se estivesse em vida, completaria no próximo dia 26 de Julho o 70.º aniversário natalício. É também o mês do 15.º ano desde que faleceu de doença. Decidi homenagear a partir de hoje (com fotografias e trechos literários ou não com os quais se relacione directa ou indirectamente) a memória do cidadão Victor Manuel Patissa (1946-2001), o pai que durante os anos difíceis da primeira e segunda repúblicas nos vimos forçados a dividir com as missões de Estado, destacado em zonas de alto risco de ataques de guerrilha, cabendo à mãe a responsabilidade de preencher o vazio. Não me lembro de termos feito no lar festa alguma de aniversário, fosse por ele ou por qualquer outro membro, embora não se possa dizer propriamente que as datas e efemérides lhe fossem indiferentes, se considerarmos até o monte de feriados que o calendário socialista acarretava. Foi um homem com as suas qualidades e os seus defeitos, fez leituras consoante as suas convicções, ingenuidades e cultura. No lugar dele, eu talvez tivesse tomado uma ou outra decisão mais flexível diante de indignações de trajectória, mas ele lá teve as suas razões. Depois da grande homenagem que a família lhe prestou, aquela da transladação das suas ossadas do cemitério do Luongo para o jazigo construído na aldeia de Tchindumbu (como que a devolver o filho à Terra em que despertou na década de 1960 para a actividade política, depois de ver o pai preso, torturado e desterrado para São Nicolau, hoje Bentiaba), a recolha da memória fotográfica é algo complementar. Tomei eu a liberdade de a levar a cabo (sem precisar de pedir autorização a ninguém por mexer neste passado desértico, com o qual não tenho problemas nenhuns, nem ninguém devia ter). Não me move endeusar ViMaPa (acrónimo com que gostava ele de assinar) nem lhe dar uma importância histórica que não merecesse, muito menos cobrar o que quer que seja. 
Daniel Gociante Patissa www.angodebates.blogspot.com

Diário | MESTRADO É QUE É O QUÊ, MAMÃ?!

"Mas ó meu filho, eu qualquer dia bebo veneno por tua causa. Assim também é muito demais!"
"Ó mãe! Deixa mais é de ser atrasada, pá! Em pleno século 21, as pessoas estão a investir em fórmulas de sucesso... Até quando esse teu olhar retrógrado?!"
"Uma mãe... depois de vender a herança de família e investir no mestrado do filho no estrangeiro, filho esse que com tudo pago não aceita... assim é que é retrograda?..."
"A mãe não vê notícias do mundo? Não acompanha a nova dinâmica global, né? É uma pena!"
"Ó meu filho, eu se tivesse a tua idade já me tinha enfiado no avião... até para a última aldeia do mundo.... Formação é tudo! Só quero o teu sucesso, meu filho, seres responsável de uma área... Peço desculpas se incomodo..."
"A mãe acha que eu também não quero subsair na vida?"
"Já não sei, meu filho..."
"Mãe, eu sei o que quero ser e sei bem a lição que me falta. Estou arrependido da preguiça que fiz no passado. Por isso, vou procurar o meu professor da primária. Preciso de explicações em gramática..."
"Mas isso faz algum sentido?! Então você sonha em ser um bom assessor, deputado e foge do mestrado já pago para ter explicações da primária?"
"O sucesso está em declarar antónimos. Mestrado é que é o quê, ó mamã?!"

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Gociante Patissa. Benguela, 15 Junho 2016

terça-feira, 14 de junho de 2016

Promoção da literatura angolana com jornal em breve | UNIÃO DOS ESCRITORES ANGOLANOS "RESSUSCITA" GAZETA LAVRA & OFICINA

A União dos Escritores Angolanos (UEA) aposta no ressurgimento e remodelação da Gazeta "Lavra & Oficina", o seu veículo de informação, opinião e análise cultural que circulou até meados da década de 1990.

Em fase de esboço e sem ter por enquanto um corpo redactorial, a materialização do projecto conta com a colaboração dos membros da agremiação, aos quais já foi lançado o repto de enviarem artigos, recensões, poemas e prosa. Um repto que vem de um nome conhecido no segmento de comunicação cultural, o jornalista e escritor José Luís Mendonça.

A Gazeta "Lavra & Oficina" é a aposta da nova direcção da UEA, que tem no órgão executivo o escritor Carmo Neto, secretário-geral reconduzido para um terceiro mandato nas eleições deste primeiro semestre de 2016, pela lista A, com a presidência da mesa da assembleia a cargo do escritor Roderick Nehone.

Gociante Patissa, Benguela, 14 Junho 2016
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Diário | Género? É unisexo, não?

"Bom dia, bom dia! Como sempre, estendemos o nosso abraço morno aos caros ouvintes. Morno é sempre melhor, para evitar oscilar mediante as épocas de calor ou de cacimbo. Para entrevista trazemos alguém que se define como literata-maior. Bom dia, seja bem vindo!"
"Lei do sucesso na vida. O melhor locutor não é aquele que faz o programa, mas aquele que liga antes o microfone."
"Seria uma espécie de indirecta? O seu microfone até está ligado."
"Não, meu caro, é uma das lições importantes do livro que escrevi para a formação integral de locutores."
"Ah, o senhor literata-maior também entende de comunicação?"
"A literatura é um dom que tudo entende, caso ainda não saibas, meu caro."
"Já agora, o senhor escreve o quê?"
"Sou colunista, articulista, poeta, escritor, cronista, prosador, ensaísta, dramaturgo, romancista, enfim, tudo isso você encontra no meu livro."
"Essa parte do microfone... ainda como é que é mesmo?..."
"O melhor locutor não é aquele que faz o programa, mas aquele que liga antes o microfone."
"Isso! Como podemos enquadrar em termos de género?"
"É unisexo, não? Tanto dá para masculino como para feminino."
"Ah, ok. Que outras coisas de sua autoria gostaria de partilhar com os ouvintes?'
"A minha obra literária 'Lei do Sucesso Na Vida' é o livro mais esperado. Por exemplo, anota esta passagem: matar a sede é morrer, pois água é vida. A sede é que nos salva."
"Muito bem! Em quem é que você se inspira?"
"Eu só leio grandes escritores, tipo Agostinho Neto, Pepetela, Shakespeare, Dan Brown. Bestsellers, sabe?"

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Gociante Patissa, Aeroporto Internacional da Catumbela, 14.06.2016

Citação

"A empresa só pertence ao dono em dois momentos, quando ele a abre ou quando vai à falência. Enquanto estiver a trabalhar já pertence a todos" (de um empresário anónimo agora mesmo)

Na semana do dia da criança africana

partilho o retrato de um parente distante meu quando tinha aproximadamente oito anos, fotografia captado na Foto Maia, que funcionava no bairro da Bela Vista, Lobito, por ocasião das matrículas escolares da segunda classe em 1986

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Debate global a propósito do massacre na discoteca em Orlando | QUAL SERIA A SÍNTESE

TESE: "O assassino de Orlando é de uma família afegã (...) Temos que rever a nossa política de imigração e escrutinar quem aceitamos dentro das nossas fronteiras (...) Os bombistas da Maratona de Boston, por exemplo, obtiveram a autorização de permanência no nosso país através de um asilo político." - Donald Trump

ANTÍTESE: "O assassino de Orlando não é afegão. Ele nasceu nos Eua, foi criado com base na cultura dos Eua, portanto não representa o Afeganistão" - De um cidadão em Kabul.
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Revirando o baú | Memórias dispersas de família

Na procura de fotografias do tempo de guerra com personagens do meu núcleo familiar mais próximo, achei este postal tirado na comuna da Equimina, município da Baía Farta, em finais da década de 1980 e princípios da de 1990. Victor Manuel Patissa, o meu pai, é o terceiro militar armado a contar da esquerda (durante o seu mandato de Comissário Comunal, hoje equivalente a Administrador Comunal). Aproveito também para apelar no sentido de quem tiver em sua posse mais fotos as partilhar connosco, não havendo nenhum risco de perder o seu acervo, pois eu pessoalmente vou ao seu encontro para fazer a cópia em reprodução. Já sei que com os camaradas do seu tempo não se pode contar, porquanto o ostracismo tem efeito repelente.

domingo, 12 de junho de 2016

Palhaço Pipocas. Benguela, hoje

Construções na areia, suposta Njinga. Benguela, hoje

Construções na areia, o jacaré. Benguela, hoje

Utilidade pública

Caso interesse para fins de observação e fotografia, acontece na praia hoje um concurso nacional de construções na areia, feitas por criança. O programa de rádio que apadrinha o evento já está no ar em directo. É ali na cognomada "Praia do Pequeno Brasil", na parte posterior ao Instituto Superior Politécnico, na cidade de Benguela

Áudio | Para quem não pôde acompanhar, aqui vai o arquivo da edição de 11.06.2016 (primeira parte) do programa Antologia, da RNA, conduzido por António Antunes Fonseca, num exercício permanente de recolha e divulgação da tradição oral e etnomusical angolana. Nesta edição, destaque para KUPELETELA, a voz do município Bocoio, província de Benguela

ALGUNS TRECHOS: "nakalungu/ nakacekele/ cukwavo olya/caye osoleka (...) cananga mo ceci/olongombe vipokola komunu/omunu ka pokola kwisya yaye/ la ina yaye" (o espertalhão é dinâmico, guarda o que é seu para comer o que é do outro (...) o que me deixa perplexo é que o boi obedece ao ser humano, o ser humano desobedece ao pai e à mãe"

Declaração de interesses: faço este convite na minha condição de ouvinte e colaborador do programa. Por outro lado, estou ainda ligado ao músico Kupeletela por laços familiares, ele é primo meu.

sábado, 11 de junho de 2016

Ideia projectual

No âmbito da diversificação da economia, estou a pensar seriamente em abrir uma cantina para vender sono. A questão é que não consigo espaço para dormir a grande quantidade de horas que tenho em atraso e como tal excedentes. Alguém empresta uma balança? Obrigado

Citação

"O TAL se estivesse calado seria um bom mestre de retórica!" (João Assis Gonçalves Neto, via Facebook, hoje)

UM CONVITE ESPECIAL PARA ESCUTAR O PROGRAMA ANTOLOGIA DE HOJE

O programa ANTOLOGIA, emitido pelo canal A da Rádio Nacional de Angola a partir de Luanda com a realização e apresentação do escritor e docente António Antunes Fonseca, dedica na sua emissão de hoje, sábado (11/06), uma boa fatia na divulgação da tradição oral e etnomusical de Benguela, tendo como cabeça de cartaz o jovem Kupeletela, da região do Bocoio (comuna do Monte Belo e aldeias como Cindumbu e Kalombwe). Sintonize a partir das 18h00 nos 91.5 FM se estiver em Benguela ou ainda através do site www.rna.ao

Declaração de interesses: faço este convite na minha condição de ouvinte e colaborador do programa. Por outro lado, estou ainda ligado ao músico Kupeletela por laços familiares, ele é primo meu.
Gociante Patissa

(arquivo) Divagações | Agenda cultural à deriva

Uma das questões que teremos de repensar quando houver tempo é a secundarização que se assiste do lugar da cultura. Na nossa comunicação social, regra geral, a grande maioria da pauta cobre política. Parece que nos esquecemos de que só uma pessoa culturalmente rica pode ser um bom político. Indo ao site da Angop, por exemplo, política aparece no topo, é destaque; cultura aparece em baixo, acoplada ao lazer. Posto isso, não é de estranhar o seguinte espectro: em muitos órgãos da nossa imprensa, há editores de política, de desporto e até de sociedade. Já para cultura, qualquer um pode fazer. Parece prevalecer uma visão de agenda cultural enquanto desfile de actuação para assinalar efeméride ou quando convém agradar o turista (África e o mundo) com breves minutos de folclore. É o que acho e estou pronto para comemorar se alguém me disser que não passa de um engano meu de óptica.
Gociante Patissa, Lobito, 11.06.15
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quinta-feira, 9 de junho de 2016

Reconhecimento | BLOG ANGODEBATES É REFERENCIADO NA REVISTA DIGITAL "PALAVRA E ARTE" | A resenha é assinada por Cláudia Cassoma

Embora estejamos perante a uma explosão virtual, ainda não é fácil encontrar um endereço electrónico digno de um investimento ilimitado de tempo e atenção por faltar dentre muitos atributos, qualidade; tanto no conteúdo como não. Deparar-se com um blogue de autoria angolana, demanda uma pesquisa excessiva, mais ainda quando se tenciona encontrar um de teor literário.

O blogue AngoDebates: Angola, Debates &Ideias, é decerto uma das excepções. Numa linguagem original e transparente, assuntos a respeito de Angola e outros lugares são abordados no mesmo. Num olhar aprofundado ao singular, aos detalhes, é apresentada, num retrato sem guarnição, a imagem do mundo literário. No blogue há um vasto arquivo de notícias, reportagens, crônicas e desabafos.

A Rubrica Oficina é preenchida por poesias, contos, e crónicas; essa última é também encontrada na rubrica Crónicas do Metro. Dentre outras rubricas no blogue estão: Diário, Citação, Nota Solta, Utilidade Pública, e Fábulas da nossa terra; há lá também razões para gargalhar, com sarcasmo ou não, na rubrica Humor.

O blogue supracitado é editado pelo escritor angolano Gociante Patissa. O mesmo nasceu na comuna do Monte-Belo, município do Bocoio, província de Benguela. Tem licenciatura em Linguística, especialidade de Inglês. O autor altiloquente é membro efectivo da União dos Escritores Angolanos e colaborador do Jornal Cultura. A edição do AngoDebates: Angola, Debates & Ideias é também auxiliada por outros colaboradores, principalmente em rubricas como: Oficina.

Em síntese, AngoDebates: Angola, Debates & Ideias é um endereço eletrónico digno de uma visita morosa. 
Fonte: Revista online "Palavra & arte", Junho-Julho 2016

Inauguração

Benguela conta com um espaço novo no ramo da restauração, com a inauguração ainda a decorrer neste momento do "Chiquitos Café e Boutique", projecto da amiga Filó Anaefe Ferreira, onde está patente a exposição fotográfica denominada "Okwenda", do amigo José Alves. O estabelecimento situa-se junto ao Banco Externo, ali pela praia do Pequeno Brasil. Depois de já depositar em pessoa os meus parabéns, faço-o por esta via para elogiar o bom gosto artístico com que a casa foi decorada, com realce para os detalhes de artesanato das colunas que suportam os candeeiros na esplanada e ainda a boutique de arte, onde se pode apreciar uma variedade de peças feitas de material reciclado, reaproveitado e/ou reutilizado. De esquebra ainda mandei um bom empadão para o bucho.

Diário | Governo não é só o marido da república?

“Camarada-Vice! Camarada-Vice! Você, que é mulher, acha que a minha esposa vai sobreviver?”
“A tua esposa está muito mal, camarada… Continua em coma profundo na reanimação.”
“O que estão a fazer é certo? Vê só, Camarada-Vice, vê só! Desde anteontem que não me deixam chegar perto da mulher. Desconfiam de quê? Será que o amor faz mal?”
“É preciso ter calma e deixar os técnicos fazerem o trabalho médico. Ela está grave…”
“Mas, ó Camarada-Vice, então a minha mulher que passo a vida a lhe ver nua, hoje vai ter vergonha de me ver só porque está grave? Vai esconder mais o quê?”

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Curiosidade | Este trecho descreve uma cena observada na cidade de Tel Aviv, Israel, há três anos (foto). usado na ficção, refere-se à ilha de Luanda no conto «A Alma Gémea Do Mar», In «Fátussengóla, O Homem Do Rádio Que Espalhava Dúvidas»

"Às tantas, algo capturava-nos os sentidos, num silêncio invulgar que até parecia combinado. Tudo muito rápido a poucos metros, como num filme: dois ilustres desconhecidos saem abraçados do restaurante vidrado que dá vida às ruínas de uma doca que se esqueceu da idade, passos conforme as ondas algo bravias. O céu, até há pouco cinzento, cai. Ela não corre, ele muito menos. É já fim de tarde. Está frio, incisivo mesmo. Longe do carro, não perto de casa. E beijam-se. Quem se escuda agora é a chuva."

Ponto

Ás vezes, na teia da ignorância que a vivência me reserva, vejo somente medo nos olhos quando os estendo para captar o zénite. Nasci num contexto ideologicamente carregado, o socialismo, o da apologia à austeridade partilhada e à causa das nossas causas, sistema que na globalidade das sociedades logo colapsou, porque, como qualquer outra farsa, tinha o tempo a contar. O socialismo deu lugar à democracia, que faz apologia ao relativismo transversal e à prevalência da retórica, tudo no quadro do soberano jogo democrático. E é isso que amedronta, que a democracia seja apenas um jogo, e com uma única lei: a lei da força.

Diário | Entre as desculpas e a cadeira assim vou escolher lá o quê?

"Pai sogro! - primeiro ainda bom dia, né? - É como o passado?"
"Não!, por acaso, mesmo com a ressaca daquele copo que pagaste ontem sem maneiras, ainda o passado lhe passamos bem, conforme é possível com a graça e companhia dos engraçados. Assim é escovar o álcool da boca e ir trabalhar..."
"Para ganhar o pão, não é isso?"
"Não!, por acaso! Se bem que o tal pão já sai com bolor do próprio forno..."
"Pão novo com bolor, meu sogro?"
"Salário sem poder de compra, meu genro?"
"Ah, é verdade. Ainda pensei que é mais uma das àtoíces de falar do pai sogro. Porque o pai quando pega para errar... Mas é assim, vamos ainda deixar o politiquismo para os que estudaram, meu sogro..."
"Não!, aí falaste, meu filho!..."
"Eu madruguei para vir pedir desculpas. Dizem que ontem não aguentei na chupeta, aterrei na cadeira, depois caí e a cadeira partiu-se toda..."
"Ah, afinal? Meu genro, entre as desculpas e a cadeira assim vou escolher lá o quê?! Não vamos se complicar, meu filho, compra só outra no lugar..."
"Assim o meu próprio sogro, hã, pai da minha mãe, - sim, porque esposa é como uma mãe, ou estou errado? - é verdade o meu sogro vai-me fazer pagar?!"
Gociante Patissa. Aeroporto Internacional da Catumbela, 08 Junho 2016

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Logo que leu as notícias

Revirando o baú | Pesquisa de grupos focais no Huambo profundo

Em 2005, ao serviço da inglesa Save The Children, recrutamento no meu caso feito pela urbanista australiana Susan Dow, passei um mês em recônditas localidades do município da Cikala Colohanga, província do Huambo, recolhendo dados qualitativos na metodologia de grupos focais sobre "Crianças Órfãs e Vulneráveis", pesquisa apadrinhada pelo Ministério da Reinserção Social. Foi enquanto consultor e assessor de líder de pesquisa o primeiro contrato mais alto, USD 1.600,00. As quatro semanas foram repartidas, sendo duas de observação participante no interior (Sambo e Mbave) e as duas restantes para o processamento de dados na capital. O mês era Outubro e chovia bastante, agravado com as vias inacessíveis para viaturas e não havia cobertura telefónica. Maior ainda era o medo de accionar uma mina terrestre, uma vez em troços sem asfalto e com águas residuais. Enquanto isso, as regras eram mais do que rígidas: não desviar do caminho, não seguir viagem depois das 17 horas.

domingo, 5 de junho de 2016

Última hora

Tenho informações a indicar que um certo professor doutor, cooperante, deixa o país em fim de mandato e com um parágrafo enorme na folha de serviços, mas é pelas piores razões, supostamente, a venda de teses de licenciatura e ver-se apanhado no esquema de extorsão (em época de exames de admissão) de candidatos inseguros na faculdade em que leccionava. Alguém confirma?

sábado, 4 de junho de 2016

Revirando o baú | A primeira vez que andei de elevador

Nesta foto de 4 de Maio de 1982, creio que acabávamos de regressar da Ganda (onde passamos alguns anos) e estivemos hospedados no Hotel Grão Tosco, hoje Hotel Lobito (salvo erro), na zona comercial do Lobito. Durante anos, já de regresso ao Monte Belo, zona rural de nascença, procurei entender a sensação de entrar num quarto que subia e descia a correr connosco lá dentro, o elevador. Da esquerda para a direita, Fernando Manuel e o seu filho Malaquias Fernando (6 anos), bem como o casal Víctor manuel Patissa e Emiliana Chitumba Gociante mais os filhos Rosa Ngueve Gociante Patissa (6 anos) e Daniel Gociante Patissa (3 anos). Pelas características, aposto que o postal foi tirado na Foto Cine, que ficava ali junto à colina da Saudade (margem direita para quem sai). A vida dá mesmo muitas voltas, não é que acabei sendo o mais alto de todos!... hahahah www.angodebates.blogspot.com

Revirando o baú | Memória descritiva do estúdio preto-e-branco

Era preciso inovar para agradar o cliente, independentemente de sermos um estúdio artesanal e obviamente limitado em recursos. Os sócios da Foto Kodak, no bairro Santa Cruz, subúrbio a sul do Lobito, tiveram a ideia de dar um toque festivo ao produto durante a quadra festiva. Fui incumbido de adaptar um cartão postal, adicionando-lhe à caneta os dizeres "Feliz Natal e Boas Festas". De seguida, usou-se a técnica de reprodução, que consiste em fotografar fotografias. Na câmara escura, revelou-se o rolo e estava pronto o negativo como maquete de arte. Depois era só inserir no ampliador o negativo da fotografia pretendida no que correspondia a uma metade do papel fotográfico 9/12cm, mantendo bloqueada a outra e, feito isso, proceder ao inverso, isto é, projectar a imagem da maquete na margem restante do papel fotográfico e proteger a primeira, para evitar imagens sobrepostas. Concluído o engenho, ainda à luz laranja da câmara escura, mergulha-se o papel num recipiente com um líquido malcheiroso chamado revelador, num mexe e remexe de mais ou menos três minutos até surgir a imagem no papel. Quando o boneco ganha a tonalidade pretendida, mergulha-se o papel noutro líquido com cheiro ainda menos amistoso que atende pelo nome de fixador que é para, tal como o nome indica, fixar o tom que será o definitivo (o revelador e o fixador, quando escassos no circuito oficial, eram obtidos em esquemas com os funcionários hospitalares da área do Raio X). Para finalizar é só passar por água e secar ao sol, não poucas vezes com ajuda de molas de estender a roupa. Nessa foto captada pelo mestre Lopes, fui o modelo, o empregado e obreiro, tinha eu 15 anos em 1993.

Gociante Patissa, in "Almas de Porcelana", 2016, pág. 71. Editora Penalux, São Paulo. Brasil

sexta-feira, 3 de junho de 2016

(arquivo) Diário | Inovando no puxa-saco

De acordo com o site Ugandans At Heart (UAH), o facto ocorreu em Agosto de 2014, com o presidente do districto de Buikwe, Mathias Kigongo, a ajoelhar-se à passagem do presidente Ugandês, Museveni.