PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

domingo, 28 de novembro de 2010

Académica do Lobito de volta à 1ª divisão de Futebol "Girabola"

Os factos:

A formação da Académica Lobito confirmou ontem, 27/11, a supremacia e o bom momento de forma que atravessa diante do Domant Futebol Clube de Bula Atumba, do Bengo. O empate alcançado no primeiro jogo da Liguilha, em Caxito, foi determinante para os anseios dos estudantes do Lobito, que no seu reduto e diante do seu público venceram com alguma naturalidade. Ganhou a Académica do Lobito, por 2-1, como podia ter ganho a formação do Bula Atumba. Sem qualquer demérito para a equipa orientada por Agostinho Tramagal, podemos afirmar que o factor casa pesou para o regresso da Académica ao Girabola, sobretudo na segunda metade do jogo, altura em que sofreu o golo de Domant FC, período em que a equipa abanou por completo. O pior não aconteceu para os lobitangas, que ao longo da semana se preparavam para comemorar a festa do regresso à fina-flor do futebol nacional, porque os atacantes adversários foram bastante perdulários. (In, Jornal dos Desportos)

O comentário: 

"Esperemos que a Académica do Lobito não se torne num sobe e desce e se mantenha por muito mais tempo no Girabola." (ELCAlmeida, do Blog Pululu, escrito em 2008)

A opinião: 

O clube lobitanga, que em 1999 teve a proeza de ficar pelo segundo lugar do "Gira", qualificando-se em consequência à liga dos Clubes Campeões em África, não tem parado de desiludir os seus adeptos - e sócios, provavelmente.1999 pode ser considerado mesmo o apogeu, embora efémero, já que foi goleado em casa, diante do Tout Puissant Mazembé, por qualquer coisa como 2-5.


As peripécias, cada vez mais sonantes neste século 21, têm sido apontadas em dois galhos: o da má gestão e a insuficiência de recursos. Embora não sejam de domínio público as receitas canalizadas pela petrolífera Esso, enquanto principal (única?) patrocinadora, afiguram-se poucas se comparadas com o "reinado" da Sonangol. 

Por outro lado, a crise de liderança, que culminou com a precipitação do fim do mandato do ex-deputado, Paulo Rangel, tem trazido ao de cima acusações de descaminho de fundos. Em defesa da sua dama, o presidente cessante aponta como factor de desaire a fase temporária (mais de um ano) em que o clube se instalou na província do Huambo, enquanto a Federação Angolana da Futebol efectuava obras profundas de requalificação do Estádio do Buraco, utilizado para treinos durante do CAN 2010. 

Na verdade, há também observadores mais severos na análise, que julgam o caso da académica uma amostra representativa da pobreza do futebol angolano, com elevados custos administrativos e logísticos, no entanto com pouca qualidade em termos de jogadores. Ou seja, mais despesas que profissionalismo.

Do mesmo SOS alinha o Estrela Clube 1º de Maio de Benguela, com regresso já garantido ao Girabola. Rui Araújo, o "vitalício" vice-presidente, tem sido recorrente em incisivas críticas contra o alegado abandono a que o team da rua Domingos do Ó está votado, contrariamente ao que se passa com grandes clubes que, defende, vivem do erário público, através de patrocínios de empresas públicas.

A pergunta, ingénua aparentemente, que se impõe é: que tal fazer representar a província de Benguela na primeira divisão do futebol nacional com uma equipa do tipo "Misto de...", que englobaria o que há de melhor em termos de atletas nos clubes Académica do Lobito, Nacional de Benguela e 1º de Maio? A questão é de lógica: pouca qualidade técnica, aliada à inexistência de fundos para salários, hospedagem e viagens, só pode levar à instabilidade. Portanto, seria uma questão de planificação.


Naturalmente não se advoga a aniquilação da história, tradição ou glórias de cada clube. Até porque, como eu, muitos passaram boa parte da infância assistindo aos treinos e jogos desses, agora titubeantes, clubes, naquela época do provincial. O que se propõe é que invistam nas camadas de formação o máximo que for possível, funcionando o escalão de competição como selecção, tendo em conta o princípio de "custo e qualidade".


 Gociante Patissa, do bairro da Santa-Cruz, Lobito, 28 Novembro 2010

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Utilidade pública: Adelino Camati Chitula Benole (sobrinho) e Ester Chitula (irmã), em Benguela, procuram por familiares, algures na república da Zâmbia, desaparecidos em 1994, na Huila

"Eu, Adelino Camati Chitula Benole, pretendo localizar os meus tios de nome Ezequiel Chipalanga e António Diniz, algures na república da Zâmbia, que desapareceram no dia 28 de Novembro de 1994. Isto aconteceu na comuna de Vionga, município do Kaluquembe, província da Huila. A vossa mana Ester Chitula encontra-se muito preocupada, visto que são muitos anos sem comunicação com vocês. Estamos localizados no Lobito, bairro da Bela-Vista, província de Benguela". Contacto: (+244) 933 25 78 95 ou 926 69 61 55

(My name is Adelino Camati Chitula Benole. I am looking for my uncles, Ezequiel Chipalanga and António Diniz, somewhere in republic of Zambia, who have been missing since 1994, during the post-election conflict. They used to live in Vionga, municipality of Kaluquembe, province of Huila. Your elder sister is worried, since it has been long without hearing from you. We are based in Bela-Vista quarter, municipality of Lobito, province of Benguela. Please call: (+244) 933 25 78 95 ou 926 69 61 55

Legenda da foto:
Adelino Camati Chitula Benole (sobrinho) e Ester Chitula (irmã), residentes na cidade do Lobito, província de Benguela, procuram por familiares, algures na república da Zâmbia, desaparecidos no ano de 1994, na localidade de Vionga, Kaluquembe, província da Huila. São eles: Ezequiel Chipalanga e António Diniz, nascidos em 1953 e 1957 respectivamente, ambos professores de profissão. Quem souber deles fará um grande favor ligando para o terminal telefónico (+244) 933 25 78 95 ou 926 69 61 55 - www.angodebates.blogspot.com

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Chineses acusados de assassinar vendedor de moeda em Benguela

Um grupo de cidadãos de nacionalidade chinesa está a ser acusado de ter torturado até à morte um jovem “ quinguila” (vendedor de moeda) de nome Eduardo Chiwila, na tarde da última sexta-feira. 

A reportagem da Ecclesia, apurou esta segunda-feira que no mês mo dia os chineses manifestaram num local de venda ambulante de moeda estrangeira o interesse de comprar cerca de 30 mil dólares norte-americanos. 

“ O chinês quando chegou aqui disse que precisava de 30 mil dólares, como nós não tínhamos o valor em questão ligou-se para um colega nosso e esse nosso colega tinha 20 mil dólares e na nossa parada tinha alguém com 6 mil e 700 dólares mais o dinheiro que ele próprio também tinha quase que se aproximava.

Daí que quase que se aproximava do valor que os mesmos precisavam e saíram para fazer o negócio. É que o tempo ia passando e nunca mais aparecia”- contou um dos colegas. 

O corpo da vítima só foi localizado na tarde de sexta-feira, nas imediações do novo estádio de futebol “ Ombaka”, com as mãos e as pernas amarradas e a boca tapada com fita adesiva, apresentando sinais de tortura como esfaqueamentos. 

Perante o acontecido, os jovens que diariamente compram e vendem a moeda norte-americana nas ruas da cidade de Benguela mostram indignados e o sentimento é de revolta. 

Os órgãos operativos da polícia já trabalham para o esclarecimento do caso. Segundo o chefe das operações do comando da polícia de Benguela, a corporação mostra-se preocupada com os rumores vindos dos vulgos “ quinguilas” e da sociedade civil que visam tomar medidas de retaliação junto dos cidadãos chineses. 

“Para evitarmos algumas situações que pudessem ocorrer quanto a aspectos de retaliação, apelamos à acalmia, para a polícia chegar a algumas conclusões” – disse o operativo da polícia nacional. 

O jovem supostamente morto por cidadãos chineses deixa a viúva grávida e três filhos. 

22 Nov 2010
Fonte:Apostolado e http://angonoticias.com/full_headlines_.php?id=29462 

sábado, 20 de novembro de 2010

Crónica: "Quando só a pedradas se consegue dormir"

A pedra esteve sempre ao lado do homem, quer como material nas obras, quer como elemento espiritual - os amuletos, por exemplo - não fosse ela a mais polivalente dos inertes.

Aos sábados, excepto quando calha uma folga, o que é raro, devo sair cedo para o serviço. Às 5h30. Isso implica dormir cedo na 6ª feira, no que nem sempre sou disciplinado. Mas ontem, por acaso até o fui. 

Meia hora antes das 23, deitei-me no vale de lençóis. E justo quando o sono ia vindo, o vizinho com quem partilho a parede do quarto toma a liberdade de subir bem alto o volume da música, pondo a coitada da parede a vibrar. Estão já a ver essas casas-anexo de quintal, que sempre ficam siamesas de outras, ironicamente sem acesso directo e tal... Não conheço esse bendito vizinho, com tão poucos conhecimentos de convívio urbano. Calculo apenas que seja jovem (talvez adolescente), a julgar pelo tipo dançante de música com que me tortura ciclicamente de há dois anos para cá, muito Rap da cara! Ele deve achar que não faço o mesmo por não ter semelhante utensílio de ruído. Olha que até fui aguentando, mas, às tantas, opa!, o sono já se cansava de esperar. A hipótese de contacto pessoal era nula, na medida em que, para sair do quintal em que moro e ir ao dele, teria de dar volta ao quarteirão. Foi então que me lembrei de uma pedra com que de vez em quando dou jeito aos calcanhares, e lá estava eu a bater na parede. Pú!, pú!, pú!. Quanto mais me irritasse a música, mais procurava a localização estratégica para o devido pú!, pú!, pú!. E pronto, resultou!... Volvidos uns 10 minutos, a música parou, e por uma questão de justiça, parei também com as pedradas contra a parede. 

Ai, se não tivesse a minha pedra, estava lixado.

Gociante Patissa, Benguela 20 Novembro 2010 

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Crónica: "O que devem os cidadãos pedir (ou não) à polícia?”

“A polícia devia ainda esquecer um pouco os direitos humanos. Em qualquer parte do mundo, a polícia é repressiva”, advogou um cidadão, ao espaço “opinião” da Rádio Benguela. Será?

Encontramo-nos, nas primeiras horas laborais de anteontem, com o comandante Kundi, cabeça da polícia de trânsito no município de Benguela. Em menos de 20 minutos, foi  agradável prosa no aeroporto da Catumbela, nós em serviço e ele “despachando” a família para Luanda.

Vivia-se a ressaca do fim-de-semana prolongado (quatro dias), pelo 35º aniversário da independência angolana, conquistada a 11 de Novembro de 1975. O assunto do dia era o rubro inventário dos acidentes rodoviários em todo o país, onde Benguela não passou incólume.

Passeamos pelas causas, onde se viu que fora das localidades as culpas são tripartidas entre a falta de iluminação, o excesso de velocidade e o pasto do gado, feito ao longo da via. Fresco ainda na memória está o acidente, algures entre Caimbambo e Chongorói, que vitimou o bispo católico da diocese do Namibe. Já dentro das localidades, viu-se, é recorrente a condução sob efeito de álcool, para além da imprudência no seu geral. Aliás, como sublinhou recentemente o inspector Pinto Caimbambo, os acidentes estão geralmente associados à transgressão. Partilhei a indignação referente ao encandeamento no troço nada iluminado Lobito-Benguela, que piora com a moda das luzes “chenon”, algo azuladas. Kundi, que tomou nota, sublinhou tratar-se de mais uma consequência da absorção de modas que não se adequam à nossa realidade, na medida em que aquele tipo de luzes é de uso especial por razões climatéricas nos seus países de origem.   

Construí a primeira impressão de Kundi no contexto do problema da filha de uma pessoa amiga. Na traquinice da adolescência, a rapariga e um jovem meteram-se na estrada em aula prática de condução de motorizada, sem licença nem capacete, tendo sido actuados por agente motoqueiro-chefe, às 17h00. Radical, o agente exigia cadeia para ambos e encaminhamento a julgamento sumário, nada menos que isso. O pai da menina, entre a vontade de aplicar um bom puxão de orelhas e o receio de prejuízo na escola, era de um semblante de meter dó. Por volta das 22h00, surgia o comandante que, inteirado do caso, se juntou à maioria de agentes que eram por um correctivo baseado na multa apenas pela transgressão, o que veio a acontecer.

No mesmo pátio estava um cidadão (utente de motorizada) detido por desacato. Pelos títulos “senhor, camarada, colega”, Kundi disse-lhe: “nós somos um mesmo corpo, a diferença é o ramo. Bombeiro, ordem pública ou anti-terror, somos uma só polícia. Custava dizer ao agente regulador de trânsito que também é colega?”. Ao visado só restou baixar a cara, de remorsos, ao que se seguiu um convite para conhecer os demais gabinetes da Unidade Operativa.

Voltando ao pedido do cidadão, que será que ele entende por direitos humanos? É pergunta de retórica, claro. Mas como o contexto da conversa era a irresponsabilidade de jovens e adolescentes na estrada como base de acidentes, não custa especular que ele veja a coisa pelo ângulo da “inimputabilidade”. Se é legítima a opinião, mais contraditória não podia soar, já que telefonar para a rádio é igualmente um direito humano, no caso à livre expressão. Queremos realmente carabineiros? Não basta a aplicação de punições, correctivos e responsabilizações previstos por lei, sendo os direitos e os deveres duas faces da mesma moeda?

Prefiro mil vezes polícias, como o comandante Kundi, que acham que “prender” alguém que se tenha esquecido dos documentos, ante a urgência de levar familiar ao hospital, é “excesso de zelo”. Obrigado, senhor agente, é este o polícia que queremos.

Gociante Patissa, 16 Novembro 2010

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Site do Semanário Angolense tá mbora parado antão por causa de quiiêêêêê?


Esse parente Salas Neto é bwé malaike, ya?!. Antão ele fica director do Semanário Angolense e dá cabo da generosidade que era actualização semanal do site?! Com Graça Campos e Severino Carlos na cadeira de papoite, é que era... Bastava sábado chegar, lá estáva o mambo e o mundo num click. Mesmo até pé-dé-éfe e tudo!!! Devolve-nos lá, ó Salas, as versões online do SA. É cumué antão, ó meu????? http://semanario-angolense.com/home/

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Conto: "O Temível"

Nota: excepcionalmente publicado no Angodebates em apoio ao jornalista Celso Malavoloneke (foto: Club-k).

— Onde habita gente, há sempre alvoroços. Por isso, existe a polícia, quero dizer nós, para assegurar a ordem! Mas quando uma testemunha aparece em todos os casos a registar, a coincidência estatística deixa de o ser, torna-se pista. E quando essa testemunha é apenas uma assinatura, está instalado o drama. “O Temível”, um autógrafo de misteriosa omnipresença, que mexia com o sono de qualquer um naquela vila — contava D. Judith.

Qualquer coisa contada por D. Judith — que, convém explicar, fazia questão de não mais ser tratada por «Comandante Dith», tendo em conta que, naquele exato dia, ela passaria à reforma — tem sempre um sumo peculiar. Era capaz de pôr um cágado a ganhar maratonas nos jogos olímpicos de atletismo, tal é a forma como abre os olhos, esperneia, ajoelha, bate o murro na mesa, e tudo mais se necessário, para dar vida ao relato! É muito provável que tenha escolhido a profissão errada. Uma comandante policial não seria de prender a atenção das pessoas no fluir da voz, ainda por cima sensual.

Mulher prática e líder de esquadra apaixonada. Peito erguido, cabelo a rapazinho. Daquelas cidadãs que preferem a companhia do braçal, no piquete, ao aconchego do marido, no colchão do lar, sempre que em causa esteja a tranquilidade pública; polícias de corpo e alma. Assim era D. Judith. Repito, ser-me-ia mais fácil, e até justo, tratá-la pelo título «Comandante Dith», mas exigia ser tratada por D. Judith! Acreditava que tal facilitaria a adaptação à vida civil, uma passagem que vinha adiando (desde que, há dezoito meses, recebeu a ordem de despacho), enquanto não desvendasse o mistério do “Temível”.

Pouco depois de iniciado, o relato sofria interrupção. Era hora do café, que a secretária servia com pontualidade orgânica no apertado gabinete, sem falhar uma única vez em vinte e cinco anos. D. Judith, como sempre, agradeceu com uma vénia, enquanto o comandante substituto aguardava, ansioso, pela retirada da secretária e consequente
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A Última Ouvinte
regresso ao conto “O Temível”. Eu também, de caça-palavras em punho, mal podia esperar — era a minha oportunidade de caprichar num artigo para o Jornal de Angola e ser promovido a correspondente efetivo.
— Uma localidade, não importa quantas ruas possa ter, divide-se sempre em três partes… e meia, digo. A entrada, a saída e o centro. A meia parte é geralmente o descampado onde a coletividade vai fazer as necessidades maiores assim que a noite cair.
— Curiosa esta geografia, não? — disse, sorrindo, o novo comandante.
— São lições do tempo, comandante. — assegurou D. Judith.
— Claro, prosseguindo…
— Um camião, que vinha da Alta, na entrada, perdeu os travões. Matou duas senhoras e um catequista. O motorista era um miúdo de 14 anos.
— Como assim, comandante?! Até onde vai o…?
— Era um aprendiz de mecânico que queria impressionar a namorada. Para ludibriar os nossos agentes, escreveu «EXPERIÊNCIA» num papelão e aplicou no focinho do camião.
— E houve testemunhas?
— Houve e não houve. O que encontramos, a única coisa consistente, era uma assinatura a vermelho feita com spray em jeito de graffiti: “O Temível”. O resto era testemunhos desconexos, aquilo a que chamo de fontes poluídas.
— Quem viria a ser esse temível? — questionou o novo comandante.
— Neste dia, não demos importância.


Uma pausa obrigatória na conversa. D. Judith saía em defesa do seu café, que corria o risco de arrefecer. E como se tivéssemos combinado, estávamos os três com os olhos alcançando o teto, numa obediência à lei do gole.
— Algum tempo depois, uma velha foi violada quando vinha da sentina. Fomos ao local e encontramos a mesma assinatura: “O Temível”.
— E deixou algum rasto, digo, para além da assinatura?
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— Não, comandante. “O Temível” era só testemunha fantasma. Numa operação simples localizamos o infrator. Era o genro da vítima, traído pela escuridão. A esposa estava de parto fresco… e ele queria uma via rápida…
— Então, mas que raio de pessoa era esse Temível, que estava sempre no lugar certo, na hora certa, sem impedir o crime de acontecer?
— Por aí começava a nossa dor de cabeça, como polícias. Fazia sentido associar a assinatura “O Temível” com a onda de criminalidade, nunca antes vista na vila. E justamente nesse impasse, vai-me logo surgir, assim do nada, um cidadão que se arrogava de ter a resposta. Não foram poucas as vezes que me deu uma gana de algemar o gajo, que era um subversivo do caraças.
— Que tese defendia esse cidadão?
— “O Temor a Deus é o princípio da sabedoria”, logo, “eram sinais dos tempos” (Provérbios 19:23 “O Temor do SENHOR encaminha para a vida; aquele que o tem ficará satisfeito, e não o visitará nenhum mal”).
— E com isso, a canção do arrependimento, da fé, do dízimo, certo?
— Se dissesse que não, o comandante acreditava…?! — retorquiu, irónica.
— Pois é, continuando…
— Os crimes continuaram a ocorrer e, como era de esperar, a assinatura “O Temível” chegava antes da polícia. O charlatão comovia cada vez mais seguidores, visto como um profeta que pregava ao vento num mundo de materialistas teimosos. O número de fiéis cresceu até formarem a Congregação do Princípio e Anúncio da Sabedoria (COPAS). Já a nossa reputação perante a população é que andava abaixo de zero. Como diz aquela máxima: “quando acertamos ninguém se lembra, quando erramos ninguém se esquece”.
— Sempre o dilema: como louvar uma polícia que tarda em esclarecer casos de crime, né?
— Ora, nem mais! Mas, com o tempo, a minha intuição alertava: tinha que haver alguma ligação entre o profeta e os crimes.
— Bom, mas ele tinha algum antecedente criminal?
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— Não por acaso, ele sempre respeitou os semáforos. Mas como entender… a mesma letra, a mesma palavra no local do crime “O Temível”, e o mesmo argumento de sinais dos tempos, o mesmo cinismo do profeta?!
— É… — tentou dizer algo o comandante, mas viu que o melhor era calar.
— E justamente nesse impasse, para usar o seu termo, saía a ordem de despacho para a sua reforma, comandante?! — provoquei.
— Vê lá tu o meu azar. Abandonar o comando da investigação era como se os trinta e tal anos a vergar a farda do interior não valessem a pena. Algumas vezes sentia que estávamos muito perto da verdade, mas quase sempre regressávamos ao ponto zero. E esses avanços e recuos, mais recuos do que avanços, só reforçavam a minha desconfiança: era um crime cuidadosamente preparado, com todos os pormenores para ludibriar a polícia. Quando olhei para o calendário, já um ano tinha ido p’ro caraças… O profeta, este sim, prosperava. Até casa própria de construção definitiva, ele tinha.
— E… um ano é tempo considerável quando os negócios correm bem…
— Negócios. É essa é a palavra. O profeta vendia a preço d’ouro a sua fórmula de fé, tal como os brasileiros vendem sentimentos, os americanos a democracia…
— Essa é boa, D. Judith, até vou usar no meu artigo. — voltei a provocar.
— Fica descansado, que não te vou cobrar direitos do autor até te tornares profeta. — depois de uma curta risada, continuou:
— A casa era só o começo. O profeta, que no princípio usava uma bicicleta, foi aconselhado pelo conselho de anciãos da COPAS a adquirir um meio de transporte mais seguro. Um carro. Fez-se, então, uma ordem de saque. E do Dubai veio um Hummer verde, a cor da esperança, que respondia bem aos desafios da evangelização até aos confins da terra (“E não vos esqueçais da beneficência e comunicação, porque com tais sacrifícios Deus se agrada” Hebreus 13:16). O novo estatuto lançou nos olhos do profeta a ramela das grandezas, tanto que se esquecia de descer da viatura para saudar os irmãos. Só buzinava ou fingia olhar para o outro lado. Foi então que surgiram fiéis descontentes, o que era uma oportunidade para as nossas investigações. E alguns relatos dos excessos do homem eram hilariantes. Conta-se que uma senhora, que se dizia aflita tanto quanto o marido, porque nunca mais engravidava, foi ter com o profeta. O pastor, confundindo os seus limites e numa clara manifestação de ignorância, garantiu: “A senhora vai engravidar hoje mesmo! Vou orar com fervor”. E olha que nem sequer procurou saber de eventuais antecedentes de problemas de saúde, se a mulher estava no período fértil e muito menos se o marido estava presente. Será que a fé era determinante para o surgimento de uma gravidez na data em que ele, o pastor, pretendia? O outro caso foi do cidadão que se queixou da humilhação. Foi visitar o pastor, e este pediu que o irmão se levantasse do sofá para deixar o lugar… que era do cão…


Mas acontece que o Hummer servia também para outros fins alheios à evangelização, tipo sair com raparigas para curtir. Numa bela noite, o profeta foi ao mais discreto descampado da vila com uma menina. Lá estavam em pleno filme, quando foram surpreendidos por dois meliantes armados. Estes recolheram o dinheiro, outros bens, e violaram a menina. Não estando satisfeitos com isso, baixaram as calças do profeta e puseram-no no colo, como as mães fazem na hora de colocar pó talco no traseiro do bebé. Só que foram mais longe. Aproveitaram-se do ânus do profeta também, deixando-o inflamado o suficiente para não conseguir sentar. No final, ainda restava spray para escrever à volta do carro “O Temível”.


Foi então que o profeta procurou a polícia para contar a sua verdade. Ele próprio criara a marca através da instrumentalização de quatro jovens, aproveitando que uma localidade, não importa quantas ruas possa ter, divide-se sempre em três partes… e meia. Logo, o primeiro atuava na entrada, o segundo na saída, o terceiro no centro e o quarto nos lados da sentina, o descampado onde a coletividade vai fazer as necessidades maiores assim que a noite cair. Quatro unidades de spray e uma patrulha discreta chegavam para sacudir a vila com o alarmismo. Infelizmente, para o profeta, a arma fugira do controlo do inventor, a marca “O Temível” ajudava outros oportunistas.


In "A Última Ouvinte", Gociante Patissa & União dos Escritores Angolanos, 1ª Edição, Luanda , 2010 (versão com base no novo acordo ortográfico)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

reflexões literárias: Contemplar, um verbo para o mar?


Quem vestiu de tristeza o mar, que não lhe viu o nobre azul do sangue?


Este exercício que o Blog Angodebates faz surge depois que o seu editor tomou contacto com um poema que coincide em título e tema com outro de sua lavra. Em ambos os casos, os observadores parecem ver no mar um ombro para desabafar e retemperar forças.

Certa é a imensidão de ângulos para se falar da relação entre Angola e Brasil. Estas duas ex-colónias portuguesas e banhadas pelo oceano atlântico – um factor que tanto as separa fisicamente, como logo as une afectivamente – têm, para além da língua, várias semelhanças no sentir, pensar e olhar o mundo.

Contemplação

(António Nunes “Tonton”, In III Antologia de Poetas Lusófonos, Pág. 63, Folheto Edições e Design, Leiria, Portugal 2010)


Um dia eu quis descrever o mar,
Mas descrever em toda a sua grandiosidade,
Suas ondas, seus peixes e pescadores,
Fiquei pensando: Por onde?
Não sabia começar,
Se escolhia o mais belo,
Se o descrevia correctamente
Não sabia começar,
Decidi fazer julgamento minucioso,
Não soube aquilatar para dar fim à indecisão,
Fui ao mar,
Para apurar o que de mais belo deveria ser,
E… fiquei por lá,
Sem nada (a) escrever,
… apenas a admirar.

Elaborado a 7 de Julho de 1988
_____________________________________________________________
Contemplação

(Gociante Patissa, In Consulado do Vazio, Pág. 41, KAT Consultoria e Empreendimento, Benguela, Angola 2008)


Contemplei a equação da calema
um tanto brava
e ao mesmo tempo de toques ternos
afaguei as águas que no vai-e-vem
talvez química biologia – não sei
conservavam o eterno frio sob azul

Li em cada movimento um verso
descontraído ajoelhado
como se a rezar o terço
mas a vida não é como o mar
tem escala relógio e bumbar

o dever não quis esperar
e tive de zarpar

Elaborado no Lobito entre 1996-2001


Quanto ao poema de Gociante Patissa, quando em 1996 frequentava o 1º Ano do Curso Pré Universitário, houve um dia em que ele e uns colegas passaram pela praia. Alguma coisa foi rabiscada, tendo em 2001 ganho o título Quanta calma”. De cinco versos, veio a ficar com os actuais, os mais profundos na óptica do editor, que refez o título a partir da primeira linha.

António Nunes (Tonton), diz curta nota biográfica, é feliz, casado, vive em Recife (Pernambuco-Brasil) e é tão comum e tão diferente como qualquer um de nós. Engenheiro por formação, professor universitário por vocação e escritor por paixão. Premiado como contista e na categoria de literatura infantil pela Academia Pernambucana de Letras (2009 e 2010).

Voltando à questão de abertura, quem vestiu de tristeza o mar, que não lhe viu o azul do sangue? Ou especulando, por que razão os Ovimbundu (e outros grupos etnolinguísticos de origem Bantu) deram ao mar o nome de “Kalunga”, a mesma palavra que significa morte? Será apenas da natureza do mar, ou é lágrima pelo número que se tornou incontável de seus filhos que desapareceram pelo mar, vendidos como escravos para refundar o Brasil e outras Américas de vão suor?

sábado, 6 de novembro de 2010

Faltou vontade e ficou por lembrar a lógica da não contradição

De vez em quando surpreende a dimensão da mesquinhez. Nestes casos, o ponto não é o efeito da acção, mas sim a dificuldade em entender como uma pessoa consegue ser tão pequena por dentro.

Bom fim de semana a todos.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Chegou à África "III Antologia de Poetas Lusófonos", Folheto Edições e Design, Leiria - Portugal, 2010



Monte-Belo
Chuva
na cor do vento
Verde
nas intenções do tempo
Dança
nos provérbios do luar
Ambivalências
de um eterno menino daqui


Gociante Patissa, Julho de 2009 (Pág.136)

Na teoria do resultado (pág. 137)


O reencontro
mesmo com a prisão

molha
na largura dos olhos
o barro p’ro novo sol

Não tem pernas o tempo

seriam longas
ou curtas
demais
... 
Gociante Patissa (ISCED-Universidade Agostinho Neto, Benguela, 9 de Julho 2009)



Umbilical pára-quedas

 À Emiliana Chitumba Gociante, minha mãe

Se voar é de asas abertas
Em replay põem-se a nu as cicatrizes.

Tudo é nada mais senão o vento
que faz assobiar e sublima cantos
tocar o céu pelo penteado da montanha
até ceder à lei de gravidade

Houve sempre uma mão
houve sempre uma mãe.

AJS, 23-10-08
(Pág. 138)

Rastos na linha do farol


Reincidente olhar inquieta-se
à volta do pingo de luz
aquele tímido ponto veludo
quando o céu todo é negra nuvem

Aquela luz
para lá do mar
útero da mesma aragem
que outras velas vai apagar
ainda há-de ser minha
antes que caia do céu a manhã e o fim do cenário
ou façam-me tudo então
menos perdoar.

Durante o evento "Piaget Fashion Day", Benguela, 08/11/08

Pág. 139

In III Antologia de Poetas Lusófonos, Folheto Edições e Design, Leiria - Portugal, 2010