PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

(Arquivo 2005) NUMA ALDEIA PERTO D'AQUI

HÁ DOIS ANOS QUE O POVO LUTA

Para lá do asfalto, a menos de 95 quilómetros dos Hummer’s, dos Jeeps Vx, dos Toyotas Rav4, um pouco distante dos concursos de “Miss”, existe uma “Ombala” chamada Tchiaia. Quase perdida em arbustos, fica a quarenta minutos a pé no sentido leste da via do Samboto. É a sede de cinco aldeias, nomeadamente, Pedreira, Kandongo, Samangula, Kawio e Tchiaia, todas elas pertencentes à comuna do Sambo, município do Tchikala Tcholohanga, província do Huambo. Lá onde os telemóveis são só brinquedos dos adultos visitantes, onde a energia eléctrica só está na memória de alguns que conhecem, quando muito, a sede da comuna, as crianças têm um sonho: o de receberem enxadas e sementes para sustentarem suas famílias.
A aldeia ressurgiu há dois anos e carece de quase tudo: desde à alimentação, serviços básicos de saúde, acesso à educação e ensino, até ao apoio na actividade agrícola – a principal fonte para o auto-sustento. Entre os populares, há os retornados da Zâmbia, alguns são viúvos, outros velhos incapacitados e boa parte das crianças é órfã. O apoio do PAM terminou em Maio último enquanto que as últimas chuvas com granizo destruíram as plantações. Hoje, o sustento das famílias, cuja dieta forçada é a batata-doce, é uma responsabilidade partilhada com a própria criança logo que completa 11 anos. Vive-se do cultivo e do fabrico de carvão. O ganho diário pelo biscate no campo é 200 Kz por adulto e 150 Kz quando se é mais jovem; já no carvão, uma criança pode fabricar até cinco sacos de cada vez. “Mete-nos até vergonha ter de pedir ajuda, nós que sempre fomos um povo trabalhador”, desabafou um adulto.
Desde cedo, as crianças dominam a auto-medicação usando raízes silvestres. É a alternativa face à inexistência de um posto de saúde e à escassez de dinheiro para pagar um enfermeiro particular pelo tratamento. “Quase todos os recém-nascidos faleceram este ano, só na sede da Ombala. Até agora, o número total é de 17 óbitos, dos zero aos 2 anos e meio”, revelaram alguns líderes da comunidade. A fonte de água para o consumo é um dilema: todo o mundo sabe que é antiga e tem bichos, incluindo cobras, mas não existe outra alternativa.
A única escola foi construída por uma ONG, em 1996, e a sua cobertura foi saqueada durante o conflito armado. Nela, três professores atendem 300 crianças, da iniciação à segunda classe, sendo parte considerável dos alunos maiores de 14 anos. Os que passam para a 3ª classe enfrentam sete quilómetros a pé para chegarem à escola na sede da comuna de Sambo.
O consumo excessivo do kaporroto, aguardente produzido localmente, é companhia dos adultos às tardes, distraindo uns e fazendo brigar outros. Bebe-se mais do que se come. Pelas manhãs, o movimento das crianças divide-se em dois galhos: umas indo à lavra, outras para a escola. Destinos diferentes, mas algo em comum: todas cheias de feridas de bitacaias e suas roupas de tão sujas e rotas (na vida real) até parecem indumentárias de teatro comunitário.
Se o Mpla é o único partido na zona, a igreja católica ganha concorrente, a adventista, que já tem um fiel dedicado (a aldeia tem mais de 200 homens). Mas a última campanha de evangelização dos adventistas provenientes do Huambo, durante um fim-de-semana, deu mais pontos aos católicos, de si já líderes das simpatias em função de alguma caridade recente aos órfãos e vulneráveis: tudo porque, no culto, um visitante terá dito que “os irmãos que adoram no domingo, adoram no mesmo dia que os palhaços”, o que ofendeu até as autoridades locais. Nos finais de semana o futebol é rei, sem técnica, táctica e onde ninguém sabe perder; mas vale a intenção: “assim as crianças se distraem das makas da guerra… e nós também”.
“Kwachas” e “MPLosos” de ontem, angolanos unidos hoje pela paz, há dois anos que lutam pela sobrevivência, pelo direito de recomeçar a vida em Tchiaia, sua aldeia do coração. Qualquer apoio é para ontem e aqui fica o SOS. Para além do governo de Angola, quem será o rico, o político, o amigo ou filho do Huambo que pode ajudar esse povo?

Gociante Patissa, Huambo, 30 de Outubro de 2005
publicado nesta data através do Blog Ondaka Usongo http://upindi.blogspot.com/2005/11/numa-aldeia-perto-daqui.html
depois retomado pelo Blog Desabafos Angolanos http://desabafosangolanos.blogspot.com/2005/11/para-l-do-asfalto.html sob o título Para lá do Asfalto

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

Por quantas vezes mais voltarei a este lugar??

Uma voz, a habitual para ser sincero, lançava ao vento palavras de consolo, equilibrando-se entre o repouso agora e um espaço melhor num futuro distantíssimo, enigmático.
“Não sei quantas vezes mais terei ainda de voltar aqui, mas a chatice de cá estar é sempre a mesma”, desabafei com um amigo. Já fora, no fim de tudo, uma senhora em trajo preto desabafava impotente com uma suposta amiga (ambas para mim eram desconhecidas, sendo a viatura e a viagem a única coisa em comum entre nós): “uma gaja nunca vem aqui para relaxar… é sempre com problemas. Possas!”
Voltará a sorrir tão cedo a pobre mulher? Talvez (espero que sim!), mas o rosto transparecia abalo, com um suspiro sentido, enquanto tentava sentar-se no pára-choques traseiro empoeirado da viatura, que não sabia a quem pertencia nem o sujeito que a conduziria. Nestes momentos, qualquer carro dá, não há lugar para formalidades. No fundo todo o mundo vai ao mesmo sítio e volta já, já, à base – excepto, claro, a pessoa do dia.
E os primeiros instantes no destino então são os mais ingratos, sobretudo quando no quintal – cujo branco não é sinónimo de uma paz sincera, racional, mas apenas de conformismo, face a uma derrota sem recurso impeditivo – a leitura daquele texto de costume caminha para as últimas linhas.
Como sempre, já sei o que vem a seguir. Mas me retiro, e é agora, para não olhar de frente, pelo menos desta vez, o passo mais concreto de toda a cerimónia (aquele momento que põe de parte toda a natureza de aparências que normalmente norteiam o socialmente recomendável em termos de apresentação individual e de discursos em relação ao personagem único; o momento pragmático do “terra p’ra terra”). Dou dois passos à retaguarda devagarinho para não dar nas vistas (péssimo momento para um eventual show-off!). Uma obra de arte castanha, que atende pelo nome de caixa, capitaliza as atenções, disputando nalguns casos com os rostos húmidos daqueles directamente mais atingidos (oh, e há sempre!).
O filme é repetido e o impacto também. Enquanto deixo o círculo em busca de forças, sinto as pernas trémulas, a cabeça doendo… Estão muito frescas as imagens de uma conversa de “amizade em trabalho” que travamos na única pensão do Cubal, há um mês. Tudo agora passa para a classe de um passado sem interacção, juntamente com os seis anos da relação de colegas de “profissão”. É mais uma repetição da triste constante: a vida um dia nos junta e, logo, logo, nos separa…!
O homem da bata branca, de livro de capa azul na mão, com os olhos por detrás dos óculos, continuava a apregoar o Senhor e o descanso eterno, enquanto amigos e familiares se rendiam em segurar as poucas pás disponíveis. E cada pausa do seu discurso corajoso era preenchida por um barulho agudo, num compasso que se tornou perfeito face à peculiar frequência ao longo dos anos. O buraco tinha de ser tapado, o homem ficaria mesmo!
A poucos passos, um atraente vaso na cabeceira de uma campa de humilde aparência salta à vista. É natural ou artificial? Agacho-me, arranco uma folhinha e o verde húmido entre o meu polegar e indicador, ao esmagá-la, diz tudo. De um verde nutrido e uma flor amarela sorridente, foi trazida para cá no meio de lágrimas e choros de uma família que depositava para sempre mais um ente querido, como essa, hoje, agora. Não há dúvidas. Ela, a flor, sem me dizer há quanto tempo não recebia irrigação, só mostrou que tem conseguido sobreviver, ao lado de um vasto universo de flores artificiais em vasos com água.
Por mais voltas que dermos vamos lá sempre ter… no cemitério. Como é chato, principalmente quando cada visita representa sempre a partida de alguém conhecido e/ou chegado, para nunca mais se voltar a ter novidades?! Como doem as habituais irrespondíveis perguntas lançadas aos choros por órfãos, viúvos/as e familiares em geral? Como é ingrato sabermos que o fim da vida dessa pessoa é o início de um problema para muitos, o de dar seguimento ao seu projecto de vida? O hoje lá se vai, mas quem sabe o amanhã? Ou melhor, é coisa de a pessoa se perguntar: por quantas vezes mais terei de voltar ao cemitério?
Por: Gociante Patissa, em memória de Gabriel Agostinho, o “Gaby” da Okutiuka, Lobito, 12/08/2006

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

Mudamos para melhor!!!

O Blog passa agora a denominar-se Angola: Debates & Ideias , com o endereço www.angodebates.blogspot.com. Mexeu-se na denominação, assim como se podería mexer em outra componente, desde que se julgasse importante. Depois da aparência, decidiu-se evoluir para um nome mais fácil de identificar... e cá vamos nesta nova roupagem.
Sempre vimos neste blog uma experiência em busca constante da sua "identidade técnica", enquanto seguimos dando o nosso contributo publicando posts como é compromisso primário. Continuamos a ser um blog virado para o mundo, tendo Angola como base e a humildade como grande alicerce. Como dizia "Gabriel, o Pensador", célebre revolucionário do Hip Hop brasileiro, "seja você mesmo, mas não seja sempre o mesmo".

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

Mig é o músico angolano mais querido 2006

1.O músico Mig, autor do sucesso actual Maka Mami, venceu esta quinta-feira, o Top dos Mais Queridos durante a gala que decorreu no cine Atlântico, em Luanda, uma organização da Rádio Nacional de Angola (RNA).
2.O Top dos Mais Queridos, é um concurso que vem reforçar a promoção e divulgação da música, cujo o resultado final, é definido pela votação dos ouvintes daquela estação radiofónica nacional, do melhor artista do ano.
3.A lista dos 10 mais deste ano era integrada ainda por Feddy, Tóto, Yola Semedo, Matias Damásio, Anselmo Ralph, Yuri da Cunha, Mig, Noite&Dia e o grupo Kalibrados.
4.Yuri da Cunha, ficou com o segundo lugar, e o músico Totó, conquistou o terceiro lugar, tendo como prémios 10 e 5 mil dólares, respectivamente.
5.Na gala, que contou com a participação do grupo tradicional do Huambo Okitata, foram ainda homenageados pelo contributo em prol da música angolana, Lourdes Van-Dúnem, Beto Gourgel e Raúl Endipu, músicos angolanos já falecidos.
6. A novidade do concurso, foi a atribuição do valor de 2 mil dólares as vozes femininas, que estiveram entre o Top Ten, uma iniciativa do grupo feminino da RNA em parceria com o Ministério da Família e promoção da Mulher.
Oct 06, 01:03
Fonte:Angonoticias

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

A pior campanha eleitoral de sempre

Não se fala de outra coisa com tanta insegurança do que as próximas eleições em Angola. Alías, em todo o mundo é a política que comanda a atenção das pessoas, sendo quando muito um assunto inesgotável para as conversas em qualquer contexto. Eleições.

O que se passa em relação à eleição da futura direcção do Clube académica petróleos clube do Lobito é uma vergonha ao nosso "cambaleante" desporto e um péssimo empréstimo à política nacional. Vá se poder ao Bar Piquenique e constate um cartaz com graves disparates (literalmente) atribuidos ao deputado Paulo Rangel, como sendo provenientes da sua boca, um texto que foi colado debaixo da fotografia "em ponto grande".

Se a moda pega, as próximas eleições seria melhor que tivessem lugar num prostíbulo ou cazerna de recrutas. Assim não dá! Há que se darum ponto de ordem. Só não entendo como é que um restaurante como o Piquenique, cuja propriedade se atribui ao antigo Administrador Municipal, Frederico d'Almeida, tolera a exposição de tão grave cartaz, quanto mais não seja porque alí passam entre adultos e crianças durante todo o dai.

Ainda não aconteceram as eleições naquele clube e seja quem for o vencedor, Antero ou Rangel, nos protagonizaram a pior campanha eleitoral de sempre!!!!!!!!!!!!

terça-feira, 19 de setembro de 2006

Será o português uma lingua machista?

Imagem de autor não identificado

Car@ amig@
Será o português uma língua machista? Quantas vezes não nos sentimos mal porque, na era do equilíbrio de género e de combate à violência contra a mulher, elaboramos um texto “machista”. Estou a falar da minha experiência recente num boletim informativo e aqueles textos generalistas, muitos deles bem intencionados, em que um simples “caro leitor” poderia “ferir” sensibilidades. Quantas vezes não parece que a nossa locução radiofónica não se “dirige” somente a homens?

Essa de atribuir “sexo” aos adjectivos e a defesa de que quando é geral se pode usar o masculino não terá sido estabelecido por homens? Em inglês teríamos “dear”, para já não falar que os substantivos todos têm um artigo generalista “the” (o, a, os, as). Em francês sei quase nada, no meu Umbundu, minha doce língua materna, também não é tanta a diferença. Será que têm razão de existir essas dúvidas? Cá vou eu, hoje, partilhando a minha ignorância, na esperança de angariar a sua opinião em particular. Fico aguardando por sua resposta, entretanto até lá, continuarei a servir-me da muleta caros/as, querid@, em tudo que escrever para o público. Será o português uma língua machista?

Gociante Patissa
Amigo do jornalismo

NÃO LEVE MOCHILAS QUANDO É 11 DE SETEMBRO


  1. Luanda, 11/09/06, residência da Embaixadora dos Estados Unidos da América em Angola, Cynthia Efird. Mais de vinte pessoas aguardavam sentadas pela cerimónia oficial de assinatura dos acordos de financiamento de pequenos projectos de 8 ONGs nacionais, orçados em USD 140 mil. Estavam todos, entre beneficiários, pessoal do protocolo e jornalistas, menos a anfitriã, que levava mais de meia hora de atraso. E quando não se sabe onde está a diplomata, difícil ainda é saber quanto tempo mais resta esperar.
  2. O vazio ainda continuava a ocupar o lugar da representante de Jorge Bush em Angola, para a impaciência dos jornalistas encarregues de cobrir o acto. Já os beneficiários olhavam com algum nervosismo aos termos de referência sobre a mesa – que assinariam em breve aos olhos da imprensa e do “diplomaticamente recomendável”, sem que tivessem antes a oportunidade de analisá-los. As comidas e bebidas prontas a servir nos quatro cantos do quintal emprestavam ao ambiente um cenário de festa. Ainda assim, de repente, vêm-me à mente as palavras de uma amiga europeia. “Em casa da embaixadora americana, em 11 de Setembro?! Era o último lugar que eu queria estar!”. Na verdade, eu já não sabia se queria estar aí ou se era só mais um daqueles compromissos sociais inadiáveis.
  3. Instantes antes da consumação da cerimónia, cada um dos representantes das Organizações financiadas recebe do protocolo, com surpresa, um envelope e a respectiva explicação em tom baixo: “gostaríamos que voltasse às dezanove para ter um contacto com o Assistente da Secretaria de Estado para a Cidadania, Direitos Humanos e Trabalho; está de visita em Angola e queria ter uma conversa breve com as ONGs”. Por volta das dezassete a embaixadora e o Assistente se despedem dos convidados num até já e “visitarei os vossos projectos!”, e desaparecem por uma das portas da misteriosa residência.
  4. Se para alguns não fazia sentido regressar dentro de 2 horas, quando até não estava programado, resolvemos, o meu colega e eu, comparecer – mesmo que não seja em trajo formal, como recomendado. Usamos meia hora de atraso como consolo. Quem trabalha/vive nisso de desenvolvimento com a sociedade civil não tem “horas nem agendas” de reunir, o que se resolve muitas vezes com uma mochila e/ou com o hábito de estar preparado para tudo e a qualquer hora. Por falar em mochilas, amo-as há mais de vinte anos, minha fiel companhia, e ainda hoje não vejo nada mais prático a usar como carteira ou como “escritório móvel”!
  5. Na portaria exibimos os convites do envelope e entramos. Era tudo, menos o anunciado. O quintal estava em festa, literalmente cheio e tão “barulhento” – com todo o mundo a falar – como as nossas praças (mercados informais). Única diferença: ali não se anunciavam preços ou produtos e o inglês substituía o Umbundu ao lado do português. Pela primeira vez na vida, éramos uma ilha rodeada de figuras públicas por todos os lados: políticos, sociedade civil, diplomatas, jornalistas, etc. De repente se tornou tão simples apertar a mão a qualquer pessoa à Embaixadora, ao presidente da Unita, etc., (como nos sonhos), entre nacionais e “expats”.
  6. O assunto “Angola, 14 anos sem eleições” era tentação sempre presente nas conversas. Afinal Os políticos desfilavam fazendo cara bonita, tal como prostitutas caçando clientes. Pouco antes das 20:15, quando: “Desculpa, posso falar consigo um minuto?”, dirigiu-se a mim um senhor. “Acho que sim!”, respondi-lhe enquanto tentava descobrir o motivo. “Epa, estás a ver, aqui vem muita gente e a mochila…” Entendi muito antes do homem terminar o sermão e facilitei: “estás a propor que lhe entregue a minha mochila?” Enquanto se engasgava esse angolano, o mesmo senhor dos envelopes – esquecido de ter subjectivamente convidado para um encontro e não para uma festa, ainda por cima sem música – vem e reforça o que para mim já estava claro. Lá entreguei a mochila ao segurança, não vá eu ser acusado de transportar bombas para importunar a pobre embaixadora e os demais ali presentes, que disfarçavam o medo do terrorismo nas bonitas roupas e nos sorrisos mecânicos que a diplomacia ensina.
  7. É verdade! As coisas chegaram a tal ponto que, ao que parece, já não dá para confiar em ninguém, até mesmo nos guardas da nossa residência. E se você for um dia conviver em ambiente americano e quiser evitar desconfortos, o melhor é não levar a sua amada mochila. Porque tem outro significado quando é 11 de Setembro. Conselho de amigo!

    Por: Gociante Patissa, Luanda. (
    gociantepatissa@hotmail.com, patissagociante@yahoo.com )
    Visite:
    www.ajslobito.blogspot.com …. www.debatescontados.blogspot.com

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

AUTOESTIMA OU ALIENAÇÃO DO POBRE ANGOLANO?

Voltei a vê-lo hoje na boleia (paragem de transportes públicos) e, quase quinze anos depois, era o mesmo invejável homem de personalidade rara, que me remeteu a uma urgente e profunda viagem mental aos seus tempos de glória. A forma como com a linguagem do corpo se punha em vantagem, numa situação até embaraçosa, fez-me lembrar o “optimismo” de meter medo, naquele filme americano sobre Edie, o pior realizador de sempre.
Quem me conhece sabe que sou sempre o mesmo, ora optimista e na maioria das vezes desesperado. Por acaso até, os últimos dias não me têm ajudado muito quando é para sustentar a auto estima, e você concordará comigo se lhe contar que é por carecer de dois elementos polémicos: mulher (mais do que sexo) e dinheiro (materialização de projectos, mais do que compra e venda, ou conta bancária encerrada); de resto, uma daquelas fases em que a pessoa só sai de casa por haver compromissos sociais inadiáveis, chegando mesmo a se esquecer de usar a calça mais limpa e coisas do género.
Conheci-o muito depois do nome na época das Lojas Francas, da Açucareira, da URSS, das motas MZ, óculos com jogo de luzes e vídeos Nokia. Só de pensar nele sinto-o tão perto, tão real, no seu habitual short (calções) jeans azul que usa propositadamente para exibir a marca e o feitio do calçado. Depois, já não é difícil ver o seu andar de extrema banga (vaidade), tanta assim que o calcanhar não toca o chão, para não falar do ritmo que se tornou regra – falo do balançar do seu “rabinho”, como se de uma moça à caça de homens se tratasse.
Era o rei do “Domingo angolano”, as tardes de disbunda (farra) no centro turístico dos Bambus, onde os animais enjaulados assistiam a escassos passos, suportando o barulho do gira-discos e leitor de cassetes e/ou uns tantos chatos que depositariam alguns insultos, do tipo: esse macaco é feio, esse jacaré é aquilo, olha só… e tal. Como me lembro de nunca termos dinheiro para um simples rebuçado, nem já para o acesso ao quintal, tendo de pular o cerco ou passar debaixo do arame, ajudados pela pequenez, passando mais tempo a fugir do guarda do que a dançar ao lado dos kotas (adultos)?! Chamou para si a alcunha “Dá que dói”, uma corruptela intencionalmente sensual do nome de uma antiga figura militar angolana na luta pela independência. Às vezes me pergunto se ele conhece a etimologia do nome. Famoso como ele e digno de dançar ao mesmo nível, só mesmo o “Gato”, feito de si célebre por dançar Vayola e possuir, dizia-se, cuecas com jogo de luzes!!!
E hoje, estávamos no mesmo Hiace na boleia da unidade operativa na Caponte, Lobito, ali onde quase ninguém mais fala, senão os cobradores de Hiaces, cujo pregão se diferencia pelo destino entre a vila da Catumbela e a cidade de Benguela. Sempre a seu jeito, ele senta-se na baúca (a parte posterior do assento do motorista, tampa do motor) … a razão é que só tinha quarenta kwanzas, contra os cinquenta vigentes há bué (muito) d’anos. A barba rentinha já não consegue esconder a idade, o que confirma um olhar rápido à parte exposta entre os seus calções jeans e os tennis converse da mayuya (imitação do original e produto de baixa qualidade). Levava um disco pirateado de kizomba lusófono. Ainda assim, estava aí, firme, sorridente, bangão, aparentemente feliz. Como será que consegue, com tanto desemprego, limitadas oportunidades de formação, corrupção em tudo quanto é canto… com tanta frustração social?
“Dá que dói” é um daqueles compatriotas em cuja aparência buscamos alguma força para o equilíbrio, quando todo o optimismo e a autoestima parecem sucumbir; um daqueles que hoje lutam contra a ordem natural da vida, o legado de que tudo tem seu tempo, regra essa que ajuda a saber ser e estar de acordo com o contexto. Mas será que tem noção disso? Será que o deixaram ascender à categoria tácita de cidadão observador atento, quando tudo indica que ele não sabe, no mínimo, assinar o próprio nome? É apenas uma questão de diferença de personalidade, ou “alienação” de mais um irmão angolano?
Gociante Patissa, quinta-feira, 24 de Agosto de 2006, 13:06

sábado, 19 de agosto de 2006

Como seria a vida sem vizinhos?

Foto de autor não identificado
Sobre o factor vizinho já se falou muito: ora vizinho é melhor que família, ora vizinho só é bom quando não atravessa o muro. Quando é que começou a existir vizinhança, ainda está por saber. Mas a relação entre vizinhos é um daqueles temas de debate eterno, tal como o bem e o mal. Já serviu de matéria para romances, canções, produções televisivas e, infelizmente, também para tribunais, e por aí fora. Normalmente estão em causa o conflito, o boato, a intromissão em assuntos de família, e, já nos últimos tempos, o barulho da música ou do gerador da casa ao lado. Não teríamos mais paz vivendo sem vizinhos? Você já pensou nisso algum dia?
Havia um homem chamado Ferramenta que um dia resolveu realizar um sonho antigo: o de livrar-se dos vizinhos. Mas como? Foi na procura desta resposta que dedicou bons anos de sua vida a trabalhar duro, a economizar milagrosamente o pouco que conseguiu ganhar durante mais de quinze anos. Assim, a esposa só tinha que ir ao salão para tratar da beleza – evitando os dedos da vizinha que ganhava mais um mexerico pela trança; os filhos tinham computador, telemóveis, Internet, e todo o aparato possível para fazerem amigos sem precisarem o entra e sai da vizinhança; reuniu todo o equipamento de limpeza e higiene possível, deixando para sempre de precisar mobilizar os vizinhos para a campanha de limpeza.
Que não seja possível escolher os pais, avós, irmãos, tios, etc., que gostaríamos de ter, isso é algo com que temos de nos conformar. Cada um nasce e assume os restantes graus de parentesco, como o manda a lei da árvore da família… e não há como escapar. Mas nada mais o irritava do que as refeições atrasadas porque a esposa foi bater papo, os filhos da casa ao lado entrarem e saírem, ou os olhos da rua por cada artigo de valor que o vissem trazer para a casa.
Uma vez reunidas as condições, foi ao deserto viver numa casa projectada no isolamento, como sempre quis – sem vizinhos! A distância era por aí quinze quilómetros do seu antigo bairro. Tudo o que se ouvia à volta da casa era o assobiar dos pássaros, o soar do vento e até o jardim crescer, deleitavam-se observando a variedade de bichos. A vida tinha melhorado, e de que maneira! Afinal, quem é que não gosta de sossego?! Viviam uma paz perfeita até um dia ser invadido por antigos vizinhos numa onda terrível de violência. Os quinze quilómetros de deserto foram insuficientes para impedi-los. Tudo porque uma águia que sobrevoava o antigo bairro resolveu roubar um bebé que descansava ao pé da árvore. E então os moradores da aldeia decidiram seguí-la. Um tempo depois, e já cansada, a águia decide largar a presa. Só que, coisas do destino, o bebé foi pousar exactamente na nova casa do senhor Ferramenta.
– Pois então – indignaram-se os antigos vizinhos ao chegarem – mudaste de bairro é para roubares os bebés dos outros usando águias? Seu feiticeiro do raio!
Pouco tempo teve para se defender, mas a maioria caiu por cima dele com uma boa surra. Sobre ele pesava – e ao que parece para sempre pesará – a incisiva acusação de o isolamento ser só um projecto para o roubo de recém-nascidos. O grande desafio é convencer a sociedade do contrário, já que, quem é que em sã consciência acredita numa vida sem vizinhos?
Moral da estória: existem normas que servem de padrão para evitar medidas extremas no relacionamento entre as pessoas. Até porque cada um de nós é vizinho de alguém.
Adaptação: Gociante Patissa, 27 de Maio de 2006

Zangam-se as comadres, conhecem-se as verdades!”

Conta-se que a Dona Kandimba e a Dona Lagartixa eram boas comadres. O tempo foi passando e os hábitos tomaram corpo: trançavam-se o cabelo uma da outra, fofocas bem actualizadas, desabafavam os fracassos dos maridos (nas finanças e na cama), baptizavam os filhos, etc., etc. Tudo corria a mil maravilhas, até o tempo provar que é o senhor da razão.Certo dia, vinha a D. Kandimba de uma aldeia vizinha, completamente histérica: pulava p’ra lá, pulava p’ra cá, cabelinho arranjado, uma calça da Nigéria, um óculos por causa da conjuntivite. Mas doesse como doesse, ela vinha alegre. Trazia numa mão a felicidade e na outra a carne de vaca para partilhar com a família. A carne lhe fora oferecida na festa. Mal se aproxima da aldeia vê uma goiabeira frutos bem amarelinhos, e o aroma então, esse era completamente tentador! Para uma D. Kandimba, toda emancipada, trepar uma goiabeira não é apenas para homens, e resolveu trepar para saborear as goiabas, deixando a carne ao pé da árvore, sobre uma pedra.Ainda não tinha comido um único fruto, quando ouviu gritos lá debaixo da árvore:- Achado não é roubar! É minha sortiiiéééé!!!!!- Espera aí, comadre, deve haver uma confusão. A carne é minha, deram-ma na festa…- Nunca, comadre Kandimba! – interrompeu a lagartixa – Isso é que a carne não é!!! Nem penses!- … Mas é verdade, sim. Só parei para comer algumas goiabas e então deixei-a ao pé da árvore. Deixe-me dividir um pouco consigo, cara comadre…- Não senhora! Não posso dividir o que achei. Assim perco a minha sorte. Ou levamos o caso ao rei ou já não sei… hum! Isso é azar!!!Partiram ambas para a residência do Rei, cada uma convencida de que tinha a razão. Chegadas lá, a Dona Kandimba ainda tentou argumentar, mas a Comadre lagartixa não parava de falar: era lógica atrás de lógica, até que: “ó Rei – disse a lagartixa – se a carne fosse da comadre, não teria trepado com ela?Engasgado, o Rei não teve outra saída senão atribuir a carne á Dona Lagartixa. Esta partiu em alta velocidade para a casa, tanto assim que ao dar a refeição aos filhos deixou a cauda de fora. A D. Kandimba que vinha cabisbaixa, derrotada quase a chorar, ao ver a cauda agarra-a e grita:- Zás! Achado não é roubado! Achei uma cauda de lagartixa, é minha sorte!- Pára, pára, pára aí, ó comadre Kandimba! – dizia a Lagartixa a pedalar – Não está a reconhecer a minha cauda? Isso já é abuso, não te parece?- Não... eu achei a cauda, comadre Lagartixa…- Mas como é que vai achar uma coisa que está presa no meu corpo? A comadre só pode estar a querer apanhar-me a pata! Vamos só para a Residência do Rei.De novo lá e ouvidas as duas versões, o Rei já não teve problemas em decidir, e disse: “Se entrou para a toca, D. Lagartixa, e deixou a cauda de fora é porque não é Sua. Não foi o mesmo com a carne da outra? A Lagartixa ainda tentou, a esmo, dizer algo afim de inverter o curso dos acontecimentos mas: “D. Kandimba, eis o machado e corte a cauda à sua Comadre. Não se divide algo achado, senão perdes a sorte.Se o Rei bem o ordenou Kandimba melhor o fez. Cortou a cauda e como não precisava dela jogou ao chão, aí mesmo na residência do Rei. A Lagartixa, recolheu-a e saiu desesperada a procura de um bom cirurgião plástico para lhe repor a cauda. A ideia foi boa, mas a técnica naquela altura não estava tão desenvolvida. Por isso é que sempre que se dá uma pancada à cauda da lagartixa, ela cai (e por vezes nos assustamos).Moral da estória: quando nos apoderamos de algo alheio, por vezes acabamos por perder algo maior. O que é nosso em nossas mãos vem parar.Adaptação: Gociante Patissa, 2003(Contos da minha terra, originais em língua Umbundu)Gociante Patissa, segunda-feira, 19 de Janeiro de 2004, 17:11:18

Homens são vontades!!!

Depois de ter tido a oportunidade de publicar textos em páginas de amigos e não só, nunca mais parei de exigir de mim o dever de contribuir. A ideia de criar esse blog pode ser semelhantes a muitas outras (idiotas, talvez), mas que ajudam a fazer alguma coisa nesse mundo. Mais do que simples ilusão apaixonada, ao longo dos temp0~s os blogs têm sido uma importante ferramente na promoção da mudança sociail. Fico mais contente porque não estarei a dizer novidade para ninguém.

Vou lançando, hoje, agora, a minha primeira pedra. É um blog que se pretende pacífico, participativo, apesar de "íntimo", ou seja, misturar doses moderadas de debate cidadão com contos e provérbios, no fundo sevir como o bloco diário de apontamentos desse vossomeu/ amigo. A ideia á fazer desse canto um espaço sem limites, quanto mais não seja de língua. Que as diferenças nos juntem, mais do que afastar. Se você é mulher, homem, fala que língua for, isso não deve estar em primeiro lugar. Vale sempre a intenção.Volto daqui a pouco.

Aliás, cada hora é certa para lançar a nossa primeira pedra construtiva nessa obra chamada mundo.Há sempre algo a fazer, para quem tem vontade para tal. Comente, critique, escreva, leia. Só não se esqueça que "é má ideia não ter ideias"
Eu

Falando difícil


Dá para repensar a diferença entre falar ecomunicar-se.!!!!!!!!!!!!
E antes que me esqueça, a foto não é minha.
U abraço

terça-feira, 15 de agosto de 2006

POR QUANTAS VEZES MAIS...??? (*)

Uma voz, a habitual para ser sincero, lançava ao vento palavras de consolo, equilibrando-se entre o repouso agora e um espaço melhor num futuro distantíssimo, enigmático.
“Não sei quantas vezes mais terei ainda de voltar aqui, mas a chatice de cá estar é sempre a mesma”, desabafei com um amigo. Já fora, no fim de tudo, uma senhora em trajo preto desabafava impotente com uma suposta amiga (ambas para mim eram desconhecidas, sendo a viatura e a viagem a única coisa em comum entre nós): “uma gaja nunca vem aqui para relaxar… é sempre com problemas. Possas!”
Voltará a sorrir tão cedo a pobre mulher? Talvez (espero que sim!), mas o rosto transparecia abalo, com um suspiro sentido, enquanto tentava sentar-se no pára-choques traseiro empoeirado da viatura, que não sabia a quem pertencia nem o sujeito que a conduziria. Nestes momentos, qualquer carro dá, não há lugar para formalidades. No fundo todo o mundo vai ao mesmo sítio e volta já, já, à base – excepto, claro, a pessoa do dia.
E os primeiros instantes no destino então são os mais ingratos, sobretudo quando no quintal – cujo branco não é sinónimo de uma paz sincera, racional, mas apenas de conformismo, face a uma derrota sem recurso impeditivo – a leitura daquele texto de costume caminha para as últimas linhas.

Como sempre, já sei o que vem a seguir. Mas me retiro, e é agora, para não olhar de frente, pelo menos desta vez, o passo mais concreto de toda a cerimónia (aquele momento que põe de parte toda a natureza de aparências que normalmente norteiam o socialmente recomendável em termos de apresentação individual e de discursos em relação ao personagem único; o momento pragmático do “terra p’ra terra”). Dou dois passos à retaguarda devagarinho para não dar nas vistas (péssimo momento para um eventual show-off!). Uma obra de arte castanha, que atende pelo nome de caixa, capitaliza as atenções, disputando nalguns casos com os rostos húmidos daqueles directamente mais atingidos (oh, e há sempre!).
O filme é repetido e o impacto também. Enquanto deixo o círculo em busca de forças, sinto as pernas trémulas, a cabeça doendo… Estão muito frescas as imagens de uma conversa de “amizade em trabalho” que travamos na única pensão do Cubal, há um mês. Tudo agora passa para a classe de um passado sem interacção, juntamente com os seis anos da relação de colegas de “profissão”. É mais uma repetição da triste constante: a vida um dia nos junta e, logo, logo, nos separa…!
O homem da bata branca, de livro de capa azul na mão, com os olhos por detrás dos óculos, continuava a apregoar o Senhor e o descanso eterno, enquanto amigos e familiares se rendiam em segurar as poucas pás disponíveis. E cada pausa do seu discurso corajoso era preenchida por um barulho agudo, num compasso que se tornou perfeito face à peculiar frequência ao longo dos anos. O buraco tinha de ser tapado, o homem ficaria mesmo!
A poucos passos, um atraente vaso na cabeceira de uma campa de humilde aparência salta à vista. É natural ou artificial? Agacho-me, arranco uma folhinha e o verde húmido entre o meu polegar e indicador, ao esmagá-la, diz tudo. De um verde nutrido e uma flor amarela sorridente, foi trazida para cá no meio de lágrimas e choros de uma família que depositava para sempre mais um ente querido, como essa, hoje, agora. Não há dúvidas. Ela, a flor, sem me dizer há quanto tempo não recebia irrigação, só mostrou que tem conseguido sobreviver, ao lado de um vasto universo de flores artificiais em vasos com água.
Por mais voltas que dermos vamos lá sempre ter… no cemitério. Como é chato, principalmente quando cada visita representa sempre a partida de alguém conhecido e/ou chegado, para nunca mais se voltar a ter novidades?! Como doem as habituais irrespondíveis perguntas lançadas aos choros por órfãos, viúvos/as e familiares em geral? Como é ingrato sabermos que o fim da vida dessa pessoa é o início de um problema para muitos, o de dar seguimento ao seu projecto de vida? O hoje lá se vai, mas quem sabe o amanhã? Ou melhor, é coisa de a pessoa se perguntar: por quantas vezes mais terei de voltar ao cemitério?
Por: Gociante Patissa, em memória de Gabriel Agostinho, o “Gaby” da Okutiuka, Lobito, 12/08/2006

(*) para arquivo. Publicado no Blog do Pacatolo sob o link http://upindi.blogspot.com/2006/08/por-quantas-vezes-mais.html