PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Quando você andou a guardar em dois anos 26 GB de fotografias em alta resolução... e o disco duro externo resolve não querer abrir

Diário | Fala já: mas perdoas ou não?!

“Ouve, vizinho! Eu vim a bem. Estou aqui para falar contigo, porque, é assim… na igreja, falaram uma coisa que até agora não consigo dormir bom sono.”
“Outra vez, vizinha?! Mas você não me deixa só em paz porquê?”
“É mesmo a paz que me trouxe, homem! Falaram tudo o que não está perdoado na face da Terra, no céu também não. Se eu morrer amanhã, não tenho direito ao paraíso.”
“Isso é problema teu!”
“Problema meu? Disseste quê?! O vizinho está a brincar comigo. Só pode!”
“Não, é engraçado que não estou. As feridas que me ofereceste ainda não curaram. Volta quando eu tirar o gesso e continuamos esta conversa.”
“Esperar mais o quê?! Mas o vizinho não ouviu aquele jovem na televisão, hã, português já não é português na ponta da língua, engravatado, que falou que o limite de vida do angolano é só 46 anos? Com 50 anos nos cornos, você pensa que estamos a comer para crescer mais? Estamos mais é a viver para morrer. Fica já saber!”
“O gesso sai daqui a 45 dias. Nessa altura você aparece e te digo se já estou em condições de falar de perdão, ou não.”
“E se eu cair amanhã aí na rua, atropelada como um cão? Já viste o risco de perder o reino dos céus, só porque o torto do meu vizinho não me quer perdoar? Afinal esta tortice vai-te levar aonde? É por essa coisa de complicar já muito que se lutamos…”
“Desculpa, não lutamos. Com mulher não luto. Foi mais uma agressão histérica tua. E porquê? Por ter dito que não era correcto a vizinha levar para a casa um vaso de flores que todos os vizinhos contribuíram para enfeitar a rua no dia de Natal”.
“Eu só levei porque não tinha árvore de Natal em casa… Aliás, mesmo até desde que plantamos a árvore no vaso, como eu até era a pessoa que mais regava… né?”
“Sim, mas a ideia não era essa. O que é de todos deve ser decidido por todos.”
“Eu também, se tivesse marido que me comprasse árvore de Natal, não ia levar para casa o vaso… mesmo a minha prima, que mora noutro bairro, também construiu quintal e cercou o chafariz do bairro em casa. Como é solteira, ninguém lhe chateou. O vizinho já como é que tem boca comprida, viu que sou mulher, queria se meter comigo. Você pensa que a tal mulherice está espalhada em todo o corpo ou quê? Eu te parto os cornos, ouviu? Agora estás ali com o braço no gesso.”
“Vizinha, agora, se faz favor, vai tomar banho, que eu vou descansar, ya?”
“Mas é preciso ressuscitar Mahatma Gandhi para o vizinho entender? Já naquele tempo ele dizia que o perdão é dos fortes, os fracos não sabem perdoar.”
“Ah, também chegaste a agredir o coitado do Mahatma Gandhi?”
“Eu já falei, vizinho. A bem ou a mal, vais ter que me perdoar. Se for necessário vou lutar outra vez contigo. Daqui é que não saio sem perdão. Fala já: mas perdoas ou não?!”
GP. Benguela, 30.12.15

Para terminar, uma dos ensaios à gruta da Baía do Santo António, cuja configuração sugere o mapa de África. Um grande adeus, amiga Milagre Cruz e que em paz descanse a tua alma para o consolo dos que ficam

O espaço cheirava a flores, o teu faro militar lia constituição. Nada disseste da tua passagem breve, ó Milagre Cruz

Da tua Canon com a minha Nikon em tuas mãos. Aprendemos bastante, tanto que nem falamos que se podia deixar o mundo com tão pouca idade, amiga Milagre

domingo, 27 de dezembro de 2015

“A mais profunda diferença entre o animal irracional e o homem é que para manter o animal cativo, você precisa de lhe fechar as portas todas (senão ele escapa na mínima hipótese que tiver), ao passo que para manter o homem no cativeiro, você precisa de deixar uma porta entreaberta (se perceber que está totalmente fechado, ele quebra a prisão e liberta-se)”. – citando de memória autor desconhecido.

Divagações a Facebook | "Porque é que a fama de figuras públicas, com realce para músicos e escritores, em Angola é instantânea?"

Estendeu-me a pergunta o amigo Horácio Dos Reis. E trago para cá o que eu acho. Mano, acho que partimos de uma premissa errónea quando esperamos que o escritor tenha fama, precisamente pela natureza intemporal do consumo do seu trabalho. Ao contrário da música, a literatura não é de efeito imediatista. Era suposto conhecermos a obra muito mais do que a banga do obreiro. Aqui em Angola é que se confunde literatura com espectáculo, de sorte que a pessoa pode não gostar de ler, pode não dominar a língua (a principal ferramenta de trabalho) mas terá a coragem de se chamar "poeta" disso e daquilo, pelo simples facto de saber gritar um texto com espasmos. A humanidade já deu exemplos paradigmáticos. Em Portugal, Camões só ficou conhecido pela sua obra depois de morrer. Espero ter ajudado.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Recortes do arquivo

Nadir Ferreira: "Foi professor?"
Cardeal Alexandre do Nascimento: "Sim, da casa das Beiras."
Nadir Ferreira: "Há pessoas, hoje na sociedade, de quem se lembre e que foram seus alunos?"
Cardeal Alexandre do Nascimento: "Sim, muitas."
Nadir Ferreira: "Quais?"
Cardeal Alexandre do Nascimento: "Não, não digo."
Nadir Ferreira: "Não?"
Cardeal Alexandre do Nascimento: "Não me quero dar uma importância que eu não tinha."
In «Caras e Vidas», TPA 1, Luanda. 25/12/13

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Oratura | KAPALANDANDA, um herói injustamente esquecido?

   1.      NOTA PRÉVIA

Você já ouviu e expressão «no tempo do Caprandanda?» É provável que sim, apesar do seu erro crónico. O correcto seria grafar Kapalandanda, pois não temos «R» na língua Umbundu, ao passo que o «C» é pronunciado [t∫i], e como tal diferente de «K».

Como veremos mais adiante, a história de Angola pode estar a cometer uma injustiça por omissão, relativamente ao papel heróico da figura do sul que atende pelo nome de Kapalandanda. A dúvida académica que fica é: que critérios foram usados para enaltecer Mandume, Lueji, Njinga, Ekwikwi e entretanto nada se dizer oficialmente de Kapalandanda? É que para além de ser personagem de um tema de evocação no cancioneiro Umbundu, de si muito explorado até 1991 enquanto trilha sonora pela Vorgan [Voz da Resistência do Galo Negro], rádio da Unita [então forças rebeldes na guerrilha], pouco ou nada da figura de Kapalandanda se passava de geração em geração.

A minha adolescência foi marcada por um quadro complexo no Lobito, onde a residência se confundia com dependências das administrações comunais da Equimina e Kalahanga (não ao mesmo tempo). Como a circulação de pessoas e bens era mediante guias de marcha, “trabalhei” como dactilógrafo do meu pai, na sua condição de Comissário e/ou Administrador Comunal, mas sobretudo como pombo-correio da correspondência familiar entre Lobito, Catumbela e Benguela, na maioria destes casos até… a pé.

A exposição à propaganda despertou cedo o meu interesse de observador da política (talvez se deva a isso o facto de me ser hoje inócua). Evidentemente, havia parentes que (às escondidas) não alinhavam com o Mpla. Estamos a falar entre 1988 e 1991. Calhava encontrar este ou aquele a ouvir a Vorgan, com o volume baixinho. A trilha sonora dizia: «Kapalandanda walila / walilila ofeka yaye/ kapalandanda walila /eh/ walilila ofeka yaye»  (Kapalandanda chorou / chorou pela sua Terra/ Kapalandanda chorou / oh/ chorou pela sua Terra). Mas quem foi ele e chorou porquê? GP

2.      AGORA O PERFIL DE KAPALANDANDA E SUAS FAÇANHAS:

Reproduzimos a seguir, com pequena adaptação do blog www.ombembwa.blogspot.com, o valioso contributo de Carlos Duarte, publicado no «Jornal o Chá», da Chá de Caxinde, Nº 10 - 2ª série, Luanda, Abril/Maio 2014:

«Kapalandanda era sobrinho do Soba Kulembe, da Catumbela. Ia ser Soba. Agiu de 1874-1886. Adolescente, ganhou fama por ter morto sozinho um leopardo que andava a comer as cabras (…) Ainda jovem, inconformado com a passagem e estadia de caravanas de (…) comércio, levando panos e sal para o Huambo – Bailundos – e trazendo borracha, cera, mel e marfim – sem pagamento, pediu uma audiência ao Soba, seu tio, e aos sekulus, onde tentou convencê-los a que fosse cobrada uma taxa – «Onepa» - a essas caravanas. O Soba, acomodado e com medo da reação dos colonos, não concordou. Kapalandanda então reuniu um grupo de guerreiros e foi para o mato, armar emboscadas e assaltar as caravanas, cujo produto, confiscado, era em parte distribuído pelos kimbos do sobado.

Quando os colonizadores tomaram conhecimento, foram falar com o Soba para que tomasse providências e acabasse com essa resistência. O Soba reuniu os melhores guerreiros e ordenou-lhes que fossem pegar Kapalandanda. Mas o resultado foi o contrário do previsto. O grupo de Kapalandanda dominou e derrotou fácil os guerreiros de Kulembe. Os colonizadores resolveram então fornecer armas de fogo o Kulembe, acreditando que, com essa vantagem, acabariam com o grupo guerrilheiro.

Mas Kapalandanda, agindo como um Robin Hood angolano, tinha já granjeado a simpatia de grande parte dos kimbos do sobado; então, emissários dos kimbos saíam para avisá-lo da movimentação das forças de Kulembe, o que lhe deu condições de espera-las para o confronto, em local que lhe era propício, anulando assim a vantagem das armas de fogo.

Uma vez mais a tropa de Kulembe foi derrotada, e Kapalandanda ficou melhor armado. Os colonizadores resolveram então enviar uma companhia de tropa portuguesa, comandada por um capitão de nome Almeida, para submeter Kapalandanda. O encontro deu-se no Sopé do Passe. O grupo de Kapalandanda saiu derrotado e ele levado preso, primeiro para o Forte da Catumbela, e depois para S. Tomé.»

Ao ler este relato de Duarte, evidente se torna que a história de Kapalandanda merecia ser mais divulgada, o que representaria um importante precedente pelo levantamento de mais bravos filhos que deram a vida para chegarmos a Angola independente.
Gociante Patissa, Benguela, 24.12.15

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Diário | Vá lá, este alambique é de quem é?

"Mais-velho, a pátria está muito triste com a vossa sabotagem, pá!"
"Sim, filho?..."
"NÃO ME INTERROMPE, ESTÁS A OUVIR?!"
"Perdão, chefe."
"Vá lá, este alambique é de quem é?"
"É só meu e da tua tia ainda, meu filho."
"Quer dizer, a guerrilha ameaça tudo quanto é fronteira, nós andamos para cima e para baixo na rusga dos abrangidos para as FAPLA [Forças Armadas Populares de Libertção de Angola]. E você, em vez de colaborar, fica aí na kazukuta do kaporroto?"
"É porque não tem trabalho, chefe. Trabalhava na Câmara, agora já está velho..."
"Mas 'velhice' como, se estás ali a fabricar no alambique toneladas de kaporrroto para enganar o nosso povo?"
"É porque a tal vida mata com fome, chefe..."
"Assim a nossa vida já é que está fácil? Você sabe o que custa esta farda, o peso da arma e o tacão desta bota? Hã?!"
"Perdão, chefe."
"Quantos garrafões por semana?"
"Depende só, filho, do farelo, do açucar, do fermento, da lenha e dos tais bêbados..."
"Isso dá cadeia! Cela sem visitas. Caramba, pá, ó compatriota! Quer dizer, a pátria esforça-se com as importações para ter um pouco para cada um nas lojas do povo, e o camarada vai lá com cartão de abastecimento, avia e gasta o produto a produzir aguardente caseiro? Vá, arruma as evidências, que o camião Kamaz está a caminho para ir à procuradoria."
"Bem, chefe..."
"Isso, só entre nós, mais-velho, porque o teu crime é contra a pátria, arranja só já dois litros de primeira, eu vou ver o que posso fazer por ti."
"Desculpa lá, ó filho. Você afinal veio em nome do trabalho ou para se aproveitar da minha bebida a enganar o tal povo?"
GP. Katombela, 22.12.15

Nota solta

Estive a pensar quão coerente seria se as campanhas eleitorais de todo o mundo, para qualquer que fosse o cargo, ocorressem todas num único dia, o dia 1 de Abril. Era só isso. Obrigado

domingo, 20 de dezembro de 2015

Crónica | Nicki Minaj e o soft porno conveniente

Foto do portal Platinaline
O mercado capitalista, que se baseia no postulado da liberdade de mercado, costuma no espírito e na forma acabar sendo o oposto do que apregoa: a liberdade. Porque ela, a liberdade, é música dissonante quando pelo seu lado da vontade individual parece pôr em causa o outro lado, o da obra do sonho colectivo.

No nosso caso, a partir do momento em que uma marca comercial, por força da sua publicidade e presença na vivência da maioria, se torna representativa, ela passa a figurar no campo dos afectos telúricos. Passa a ser um património de uma determinada sociedade, mesmo sem o ser materialmente. A Unitel é nossa. Não devia valer, por esta lógica, o argumento do "posso, logo faço", alheando-se de todo um conjunto de sistema de valores do meio em que está inserida.

É certo que neste campo, há uma espécie de dois países em um só, estando num lado um meio urbano ultra-liberalista (entretanto sem pilares como tal) e noutro uma desesperada tentativa de salvar e resgatar valores positivos de matriz identitária africana. As políticas de Estado, que não tinham como ser acutilantes em épocas de guerra, seriam o necessário capital de contra-poderes. Enquanto isso, o debate é insuficiente em quantidade e profundidade. O espectro do medo e da conotação é omnipresente.

Como pensador não subscrevo a visão radical que qualifica de bosta o que a academia convencionou chamar "arte moderna/urbana", por ela representar uma montra de pura anarquia em termos de conceitos estéticos e rigor, bastando apenas um pouco de ousadia argumentativa para qualquer "nada" elevar-se ao estatuto de arte ou olhar estético.

Também não posso concordar com paralelismos relativistas e descontextualizados, só para defender os deslizes que ocorrem na publicitação de produtos. No outro dia, perante um outdoor (que suscitaria polémica pela nudez explícita na imagem da modelo) em Luanda, não tardou alguém dizer que não via diferença entre aquilo e a forma tradicional de vestir dos mucubais, no sul de Angola, que se apresentam geralmente de tanga e peito desnudo. Mas seria intelectualmente honesta a comparação que arranca uma etnia do seu contexto cultural? Enfim.

Voltando ao título deste apontamento, parece que é à Unitel que devíamos torcer o nariz em repulsa à imagem da sua convidada, a americana Nicki Minaj, que entretanto não pode ser responsabilizada, uma vez que o seu mercado encoraja aquela forma escandalosamente sensual de vender música. Quem paga (e nestes casos nunca é pouco) pode sempre influenciar. Consta que foi por isso que o nosso Yuri da Cunha (não que alguma vez apostasse no culto ao corpo) teve de se vestir de maneira mais "comedida" aquando da sua jornada com o italiano Eros Ramazzoti pela Europa, talvez para não destoar a imagem de simplicidade em palco como marca.

Não fazendo apologia da censura, não podemos por outro lado deixar de assinalar que grandes corporações influenciam opiniões e modelos. Para uma juventude já com tão débil noção de distinguir fantasia de vida real, talvez o soft porno não seja tanto o que mais ajuda enquanto modelo, mesmo o conveniente, como parece ser o caso. Não reclamemos, pois, se amanhã as nossas irmãs cantoras enveredarem pelo sof porno como forma mais frutífera de conseguir um cachet alto em palco.

A Unitel, que tem a responsabilidade tanto de estar perto dos seus clientes do meio rural como dos da cidade, tem outras formas de encher os angolanos de orgulho, das quais sublinho a contínua melhoria da qualidade e a expansão do seu serviço na conquista de outros países... com Angola no coração.
Gociante Patissa, Benguela 20 Dezembro 2015

Olhar minimalista à Vila da Equimina

Diário | Quer dentro ou quer fora?

“Mas o vizinho? Por aqui? De alegria também não é. Ou é?”
“Adivinhou, vizinho. Coração está na mão. Podemos conversar?”
“Quer dentro ou quer fora?”
“Dentro mesmo! Me assaltaram quando saí para a sentina. Isso até, a pessoa, se não é homem, chora… Tanto rico com carro de casa e carro de saída; jogador a acender cigarro da vela p'ra boca com dólar... vão roubar logo um filho do suor?!”
“AJUDANTE!”
“Pronto, mestre!”
“ANUNCIA!”
“Entrada é cinco mil, consulta é dez.”
“Está certo. Aqui estão os quinze mil Kwanzas."
“Roubaram o quê?”
“Roubaram duas escalças sociais de saída…”
“Escalças?”
“Sim, de vestir com a camisa.”
“Só?”
“Também maço de cigarros, dois pães com chouriço metido, litro de quente e uma sexta de cerveja que era para o Natal, saiote da tua cunhada.”
“AJUDANTE!”
“Pronto, mestre!”
“ANUNCIA!”
“Se olha no espelho.”
“Já está!”
“O que acha do sonho?”
“O sonho tem alguma coisa a ver com o roubo?”
“Aqui é saber responder!”
“Bem, o sonho… são fantasias… geralmente erróneas…”
“CALA A BOCA, IRMÃO! O SANTO TOMÉ NÃO ADMITE FALAR MAL DO SONHO. O SONHO É A MÚSICA DA VIDA!”
“Pronto, vizinho, deve ser isto mesmo!”
“AJUDANTE!”
“Pronto, mestre!”
“ANUNCIA!”
“O Santo Tomé está a ver o gatuno a correr no espelho. Passou mesmo com tuas coisas.”
“Yaló! Obrigado, vizinho. Eu sabia, eu sabia que o mestre não desconsegue nada! Mas diga, quem é o gajo? Qual o nome dele, que é p’ra lhe partir já no focinho?”
 “AJUDANTE!”
“Pronto, mestre!”
“ANUNCIA!”
“Ah, o Santo Tomé manda avisar que já sabemos quem foi, mas não dá para falar nome. O mano sabe que isso, no bairro, costuma dar inimizades, não sabe?”
GP. Benguela, 20.12.15
www.angodebates.blogspot.com

sábado, 19 de dezembro de 2015

Citação

"É preciso respeitar o autor. A nossa juventude não faz isso; ela acha-se o 'salvador'. Já me fizeram isso com duas músicas." 
(Elias Dya Kimwezu, veterano músico angolano. In TPA, programa Kutonoka. 19.12.15)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Memórias da pólio


Entre 2002 a 2005, três vezes ao ano e mais de três dias por semana, se não me engano, servi voluntariamente como inquiridor de indicadores de qualidade nas jornadas de vacinação contra a poliomielite. Na prática, foi um trabalho de campo de vários quilómetros a pé no Lobito, Baía Farta, Katombela, Dombe-Grande, Benguela e Kanjala, sob coordenação da CRS. A nossa missão de fiscais não podia ser mais desapreciada pela outra parte, no caso os próprio vacinadores. O ponto de maior tensão consistia em flagrar vacinadores, também eles voluntários, sobretudo em zonas montanhosas (e periferia), a entornar a gota ao chão e ficticiamente preencher a estatística, o que representava a exclusão de moradias de relativamente difícil acesso. Fartávamo-nos de reportar à entidade parceira do Ministério da Saúde, mas o quadro se repetia ano após ano. As causas para tal sabotagem, se me permitem o termo, resumiam-se na desmotivação, depois de esfriada a emoção de receber a T-shirt, o boné, e algum lanche à base de gasosa, sandes, maçã importada e frango frito. Para quem andou nos bastidores durante este tempo, fica difícil soltar-se do cepticismo quanto à erradicação da poliomielite em Angola.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Diário | Então vou-lhe chamar mais como?

"Assim, o miúdo vai ficar um ano sem estudar, só porque a escola não consegue passar o certificado... para se matricular noutro nível?"
"Mas vocês, os jovens de hoje, não sabem esperar afinal por causa de quê?"
"Mas, senhor contínuo, já estive aqui há duas semanas..."
"Sim, mas já te disse que o camarada director ainda não tinha assinado o certificado... Ele só assina dez documentos por dia. Depois houve feriado de fim-de-semana prolongado."
"Três semanas e um simples certificado não sai?! Mas vocês esqueceram que o período de matrículas só tem duas semanas? Sinceramente, ó senhor contínuo..."
"Aliás, o termo 'tio', ainda aceito, mesmo sem ser família; agora, o verbo 'contínuo' é que não! Faço-me entender?!"
"Então vou lhe chamar mais como? 'Secretário'?"
"A secretária está de repouso. Se cortou na mão em casa ao preparar a salada, levou um ponto no posto médico."
"Mas se o tio não é professor, não é guarda, não é da limpeza, nem é secretária..."
"Eu sou elemento dos serviços de apoio à administração, rapaz! ESAA, nomeado pelo camarada director, entendeu, ó aprendiz de encarregado?"
"Seja como for, tenta entender o problema. É o futuro de uma criança que está ameaçado. Então se o certificado já está assinado, porquê que não entregam, quando as matrículas encerram já amanhã, sexta-feira?"
"Porque o certificado não está carimbado! Já disse que a secretária está de repouso. Meus Deus, nos ajuda! Que tipo de vacina é que essa juventude precisa para aprender um pouco a esperar?"
"Isso é meu azar!!! O tio acha que esperar resolve sempre? Mas o carimbo não é só aquela coisa de borracha que está agarrada numa coisinha de madeira, ó tio? Não é só mesmo fazer 'tá!´na almofada da tinta e 'tá!' em cima da assinatura?"
GP. Benguela, 17.012.15

Crónica | Músico Kyaku Kyadaff dá aulas com guarda-costas?

O músico Kyaku Kyadaff volta a estar no centro de uma polémica. Desta vez, segundo denúncia do jornal Nova Gazeta, edição de 15/12, Eduardo Fernandes, que de profissão é também professor de psicologia, tem levado para a sala de aulas um guarda-costas, que ele chama de “agente”. O palco da cena é o Instituto Superior Politécnico Internacional de Angola (ISIA), em Luanda. Seria menos polémico se, no lugar de músico, o professor fosse um general com direito orgânico a guarda-costas?

Compositor e trovador de mão cheia, Kyaku vive o segundo ano a fio de uma carreira no auge e muito premiada. No ano passado, foi acusado de má-fé pela cantora Dircy Sil, por ter cedido o tema “paga que paga” à cantora Ary, que o regravou. Embora os arranjos fossem de Kyaku e Kamané, a música retrata, segundo a queixosa, as mágoas de uma relação amorosa pessoal. Talvez já o previssem, a versão de Ary viria a ter mais êxitos, vencendo até o Top dos Mais Queridos 2014, da Rádio Nacional.

Mas o que faria o professor levar uma pessoa estranha às aulas? Consta que não se trata de um guarda. Assim sendo, até onde vai o papel de um agente musical? Estas e outras questões impõem-se, no exercício dual de nos colocarmos no lugar do outro. Tentamos, sem êxito, ouvir a versão de Kyaku. Por outra, o que dizer da postura, digamos intrigante, dos estudantes? Pelo que se relata, não foi coisa de um dia apenas. Foi preciso esperar por um conflito com a direcção escolar para explodir via jornal?

Já diziam Steinberg and Sciarin que o espaço físico chamado sala de aulas, no qual são esperados o professor e os estudantes, está, por definição, isolado do resto da vida social. E porque é de gestão escolar que falamos, vale acrescer que a observação de uma aula planifica-se e tem roteiro próprio. Pelo que a presença de um intruso, mesmo que calado, mudo ou inominável, interfere na espontaneidade do estudante.

A direcção escolar, citada como condescendente, aparece ao mesmo tempo a demarcar-se. Mas o jornal vai mais longe. “A irregularidade foi confirmada pelo próprio músico, mas que desvaloriza, explicando que nunca encarou a presença do seu agente musical na sala como ‘incómoda’, porque os estudantes nunca se manifestaram e que só passou a fazê-lo por imperativos da sua profissão de músico.” Surreal! Parece a cena de um outro artista que levou a filha e um fotógrafo particular ao jantar da sua agremiação.

Sublinhemos esta passagem: “só passou a fazê-lo por imperativos da sua profissão de músico.” O que quer isto dizer? Que a profissão de músico sobrepõe-se à de professor, que o músico e seus acompanhantes gozam de imunidades no dia-a-dia, a ponto de subverter as boas práticas pedagógicas?

O autor destas linhas, que se opõe a determinados sinais de ostentação passíveis de beliscar o bem-comum, não tem entretanto problemas em reconhecer a grandeza de Kyaku (carácter, personalidade), natural de Mbanza Congo, província do Zaire, cujo talento atestou durante a convivência no Brasil, pela 6.ª Bienal de Jovens Criadores da CPLP 2013. O tímido Kyaku monopolizava a atenção da imprensa local, contrariando a própria direcção da delegação angolana, cuja noção de riqueza cultural ficava-se pelo oco dançante, com honras ao ku-duro de Madruga Yoyo e Cabo Snoop.

Parece-nos mais um quadro de incompatibilidades entre os holofotes do showbiz e a discrição e decoro do professorado. A sociedade tem de recordar que um músico não está acima do professor. Logo, defender como “normal” a presença de um “agente musical” numa sala em que se é professor de psicologia (e não música), chame-se a cidade Luanda ou Hollywood, só pode ser ingenuidade. O sensato seria suspender a docência e dar vez à agenda musical, que vai bem e se recomenda. E fica a questão de retórica: é possível viver-se só de música em Angola?
Gociante Patissa, Benguela, 17 Dezembro 2015

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

MEMÓRIAS (a pedido do amigo e colega TULA)


Durante três meses, fizemos o trajecto Lobito-Benguela de autocarros públicos, o colega Antonio Firmino Antonio e eu, frequentando o curso básico de jornalismo (Rádio, TV, Imprensa) ali na Biblioteca do Instituto Camões em Benguela, ao lado do IMNE, na Kambanda, no ano de 2005. No dia do encerramento, entrevistaste-me logo a seguir à entrega de certificados. Estávamos felizes, tu mais ainda, pois tinhas o encaminhamento melhor definido, ou não acabasses de receber o convite para ingressar como colaborador na Rádio Lobito, editoria de Língua Umbundu, equipa que tinha, entre outros, nomes célebres como os mais-velhos Joaquim Viola, Evaristo Kakulete, Emiliana Nasoma. Os demais colegas (entre os quais eu e outros com afinidade à inoperante Rádio Ecclesia) ficaram com a esperança de concorrer a eventual vaga na Direcção Provincial da Comunicação Social, talvez fruto de alguma má interpretação no calor do discurso do seu titular. Era só isso. Obrigado.

Sugerindo filmes | "O TÉDIO"

O título deste post é enganador, vindo de alguém com muitíssimo poucos conhecimentos e hábitos de consumo em matéria de filmes. Seja como for, vem na sequência do post esta manhã quanto à existência de DVD ao preço de cento e cinquenta kwanzas (mais barato que uma cerveja) numa loja ao extremo sul da cidade de Benguela. Ora, indo directo ao ponto. Dos que tive a possibilidade de ver, a sugestão vai para o filme "O TÉDIO", do original em francês "L'ennui". É um romance que se destaca pelo elevado nível de diálogos inspiradores, às vezes com discreto humor, com óbvio realce entre os dois protagonistas: Martin (Charles Berling), o professor de Filosofia, e a jovem Cecilia (Sophie Guillemin), uma estudante e modelo de pintura. As cenas são simples, os cenários naturais e lindos. Gravado em 1998 e realizado por Cédric Kahn, o filme é erótico e um interessante e permanente debate sobre a vida, os sentimentos, as convenções e, sobretudo, o próprio amor. Para quem "tiver peito" (Internet) de o ver online, aqui vai o link . Era só isso. Obrigado

Utilidade pública

Na pesquisa transversal e permanente a que me dedico por imposição da missão de ler/escrever, e quando passava pela secção de livros de uma loja grande que no extremo sul da cidade de Benguela costumava comercializar livros meus também, topei com uma campanha interessante. Há lá diversos DVD de filmes estrangeiros, eróticos e não só, traduzidos e legendados em português naturalmente, que valem sobretudo pelo preço: cento e cinquenta kwanzas cada. Sem desvalorizar a necessidade de poupança na conjuntura da crise, ainda assim aconselho o investimento na cultura geral, desta feita, comprando um filmezinho, que até sai ao preço da cerveja. Era só isso. Um abraço

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Nota solta

1. Apanhando boleia de uma publicação no mural de Reginaldo Silva, que citava de memória uma passagem captada de uma rádio, considerando que "o crioulo das Antilhas é um francês mal falado, tal como o de Cabo-Verde será um português todo à toa.", o que ele vê como deselegância...
2. Não deixa de representar mais um ponto de reflexão para os desleixos crónicos que temos enquanto sociedade angolana a lidar com o dossier das identidades (olhando mais atentamente para as idiossincrasias dos grupos étnicos que compõem a grande identidade do projecto de nação), pelo seguinte: Cabo-Verde, Guiné Bissau, entre outros, dão valor ao seu crioulo, pejorativamente visto como corrupção com base na língua portuguesa,
3. Já nós, que até temos línguas só mesmo nossas, como o Kimbundu e Umbundu, sem falar das línguas fronteiriças, assobiamos para o lado, perpetuando a secundarização daquilo que é nosso património. Não admiraria, pois, que num futuro breve tenhamos de priorizar o Mandarim, a língua dos nossos "irmãos" chineses, com cursos de licenciatura em Linguística deste idioma oriental.
GP, Benguela, 15.12.15

Outubro de 2005, cerimónia de entrega de certificados aos formandos do curso básico de Jornalismo (Rádio, TV e Imprensa), parceria da ONG APHA com o Instituto Camões de Benguela, beneplácito da Direcção Provincial da Comunicação Social

A senhora na foto é a professora Maria Aida Baptista, Leitora (representante) do Camões em Benguela na ocasião, autora do livro de crónicas "Passaporte Inconformado". Na verdade, a senhora, que tem também raízes familiares em Benguela, foi determinante para o meu aperfeiçoamento no género crónica. Bons tempos, quando a Biblioteca do Instituto Camões, plantada no antigo Magistério Primário da Kambanda, era muito mais apelativa ao público.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Diário | Só que o posto dele é na cama, estás a ouvir?!

“Mas que vozes são essas, meu Deus?!”
“Não são vozes, patroa, é uma senhora só… Está bem frustrada a tal senhora, patroa. O guarda inclusivéé não consegue lhe segurar…”
“Mas qual é o problema para tanta histeria afinal?”
“Patroa, falo mesmo?”
“Claro! Que pergunta mais parva, homem!”
“Ela diz que veio discutir os direitos dela…”
“Mas que direitos são esses?”
“O mano Sentado. É isso… é mulher do mano Sentado. Ela falou que tem certeza que o marido dela está ali dentro de casa…”
"Ai, o problema dela é só mesmo esse?”
“Parece, patroa…”
“Manda entrar a gaja.”
“A SENHORA DEVIA TER VERGONHA! ROUBAR MARIDO, COM TANTO HOMEM DISPERSO?!…”
“Muito prazer em conhecer. Eu sou Nasesa. A senhora como se chama?”
“A SENHORA NÃO ME ENGANA COM ESSES TEUS MODOS, MAZÉ, PÁ…”
“Qual é mesmo o assunto?”
“O MEU ASSUNTO É DA VOSSA POUCA VERGONHA! FICAS ALI, FELIZ DA VIDA, MAS AS CRIANÇAS QUASE ESQUECEM A CARA DO PAI! QUE TIPO DE MULHER É VOCÊ, QUE NÃO CONHECE A DOR DAS OUTRAS? HÔKO, OLHA A CARA DELA... ATÉ PARECE NÃO MENSTRUA!”
“Minha senhora, parece haver aqui uma confusão.”
“CONFUSÃO DE QUÊ, PÁ?! AGORA ENTENDO O PORQUÊ QUE O PADRE, NA CERIMÓNIA DO MEU CASAMENTO, ME DISSE ‘ORAI E VIGIAI’… ERA MESMO A CONTAR JÁ CONTIGO, MINHA BANDIDA!”
“Já que procuraste, agora vou-te responder à medida. Está a ver esta pala de sombra? É o lugar do guarda. Ali onde estás, se faz favor, estás a atrapalhar o lugar do jardineiro. Ah, é uma pena que tenhas os pés empoeirados, senão te mostrava o meu quarto. O senhor Sentado, teu marido, aqui é trabalhador, como os outros. Só que o posto dele é a cama, estás a ouvir?!
GP. Katombela, 14.12.2015

domingo, 13 de dezembro de 2015

A FIGURA (Texto e foto do jornal A CAPITAL, sábado, 12/12/2015, Luanda. Pág. 2)

EDDY TUSSA. Por mais que se pense o contrário é de estranhar um caso de estudo a forma abusada, useira e vezeira com que este músico se serve de criações alheias para fazer sucesso. É salutar que as músicas populares que marcaram um antigamente na vida sejam resgatadas para que as novas gerações tenham contacto com tudo quanto se produziu num período áureo da música angolana. É também normal que qualquer um se sinta empurrado a interpretar alguma música que o tenha marcado de um cantor doutra geração. Mas, é bem verdade, que tudo tem o seu limite. E a forma como este jovem cantor tem-se servido de criações alheias para marcar a sua carreira musical revela uma forma grotesca de facturar ao menor custo. É actualmente um dos mais solicitados cantores da praça, mas os seus contratantes esquecem que o ‘menino’ vive, maioritariamente, daquilo que é a inspirações doutros criadores que, estranhamente, não recebem um chavo pelos seus ‘produtos’. Consta, por exemplo, que ao obter o terceiro lugar da edição 2014 do Top dos Mais Queridos esperava-se que o antigo ‘rapper’ beneficiasse também os legítimos herdeiros do músico Tony do Fumo, cuja composição (Monami) levou-o à distinta consagração. Qual não foi o espanto: os herdeiros directos de Do Fumo sequer viram um ‘vintém furado’. E agora, o ‘rapaz’ regressou à baila com novo disco e com uma maioria de músicas doutros músicos. A pergunta que se coloca é: já não haverá por aí compositores no mosáico musical angolano de forma a suprir este jovem músico de ‘nutrientes’? É que, quer queiramos, quer não, o ‘miúdo’ tem cá uma forma abusada de fazer sucesso!... Isto até dá dó.

Diário | O filho não acha que tem fuso horário errado?

"Boa noite a todos."
"Boa noite."
"Ó mãe, é ele..."
"Finalmente! Afinal é você?..."
"Cóf, cóf!"
"Pode ir-se acalmando, filho. Aqui não temos pressa. Quer um copo de água para a tosse?"
"Não, minha senhora, obrigado. Só me engasguei um pouco."
"Tens sorte. Nós andamos engasgados esse tempo todo. É demais! Eu não sei o que o filho faz, mas que a minha filha está com a cabeça no ar, está muito mesmo..."
"Ó prima, repara que ela já tem 24 anos, uma mulher feita, mas nunca na vida se comportou tanto como adolescente sem educação de berço..."
"Estás a ouvir o que diz o tio dela?"
"Cóf, cóf! Estou a acompanhar a explanação, sim, sim."
"Basta só escurecer, a menina sai. Sem despedir. Sem preparar o jantar. Chega de madrugada. Descalça. Pela ponta dos dedos. O filho acha isso correcto? E se fosse tua filha?"
"Eh, isso até..."
"Você, a tal mulher sem juízo, estão a namorar desde quando?"
"Já vai um ano, mãe..."
"E o que é que o filho tem a dizer?"
"Bem, na verdade, digo, quer dizer, é só que, por acaso, não é?, estou atrás dela; ainda não me aceitou..."
"O quê?! Então uma mulher que já dormiu contigo de trás p'ra frente, de frente p'ra trás, você ainda tem a coragem de dizer que não te aceitou?! O filho não acha que tem o fuso horário errado?!"
GP, Benguela. 12.12.15

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Crónica | Nós e a coisificação do outro no lugar do debate

Precisava urgentemente de um computador portátil. O meu, a caminho de quatro anos, fartava-se de emperrar. Já na aloja, chamou-me a atenção um computador, pela benevolência do preço, poupança superior a trinta mil kwanzas, ainda mais em tempos de crise. Com alguma sorte, fui a tempo de o não comprar. O rótulo dizia made in Angola. É que se a pessoa leva em conta a qualidade do nosso ensino (ou a falta dela), do ponto de vista do rigor, apostar na fiabilidade de determinados produtos “nossos” leva a pensar duas vezes. É um voo complexo de embarcar. Afro-pessimismo?

Não se trata propriamente de amar mais ou menos a pátria. Trata-se, isso sim, de assumir os defeitos que estamos com eles. Escusado é falar do ainda débil e não representativo sistema de controlo de qualidade. Já se diz que o primeiro passo para resolver um problema é assumir a sua existência. Se negamos, adiamos, e o mal cresce.

Sou dos que alimentam alguma “inveja positiva” relativamente àqueles que tiveram oportunidade de se formar no exterior do país. Falo naturalmente de instituições com boa reputação pela consistência. Como lá chegar daria outro texto. Que tal vai o nosso ensino universitário? O desafio é grande, tanto mais que temos professores licenciados nos cursos de licenciatura. Então devíamos parar? Claro que não! O país precisa de aproveitar os recursos que tem, potenciando-os de mãos em serviço, não cruzadas.

Até lá, há que aproveitar de forma transversal momentos de enriquecer a cultura geral, tirando proveito da imprensa convencional e das novas tecnologias de informação e comunicação. E por falar nisso, dentro da fatia de contributo social que lhes cabe, a TPA e a TV Zimbo têm na sua grelha de programação espaços de partilha de ideias com um formato híbrido, entre o debate e a mesa-redonda, se quisermos. E os intervenientes?

Ora, já alguém repugnou a tendência da bipolarização, tanto das visões dos convidados, como o debate pós-programa nas redes sociais, tendência que taxa a coisa entre os pró e os anti-governo. Mas a rotulação, que agora assume um nível mais mediático, não será na verdade o mesmo espectro que coarcta e não sabe diferenciar adversário de inimigo no dia-a-dia? Ainda bem que já se assumiu a necessidade de combater a intolerância.

Gostaria de chamar à liça outro mal, o da megalomania. É natural que como cidadão, algumas vezes me simpatizo mais com a ideia defendida por um do que pelo outro, mas só posso esperar de todos elevação e contenção na forma. É com alguma desilusão que “engolimos” alguns deslizes, a título de exemplo, de três compatriotas formados na Europa: o jurista João Pinto, o sociólogo João Paulo Ganga e o jurista Juvenis Paulo.

Depois de “ordenar” na TV Zimbo ao académico Fonseca que lesse mais e que os livros não eram para se guardar em casa, Ganga não se coibiu de esta semana usar do mesmo tom pouco cortês e afirmar que o seu contendor estava a delirar. Já no debate de ontem na TPA, disse Juvenis, no alto do seu podium em relação ao colega de painel e mais-velho: "temos de dar prioridade a licenciados". Do jurista Pinto já se sabe o que vem …

Como diria Graça Machel, «temos de formar jovens que saibam ter o sentido de humildade. Os nossos jovens, hoje, saem "muito doutores"; doutores disso, daquilo.»
Gociante Patissa. Katombela, 10 Dezembro 2015

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Diário | Mas o camarada estava ou não estava com o canhão na mão?

“OFICIAL-DIA!!!”
“Pronto, Chefe!”
“TRAZ AQUI AQUELE DETIDO DE ONTEM!”
“De ontem à noite, Chefe?”
“TEMOS OUTRO?”
“Bem, é só mesmo ele, Chefe.”
“ANDA LÁ!”
“Até o Chefe faz bem, porque ele tem estado a transpirar muito…”
“Com licença?”
“ENTRA!”
“Bom dia, excelência.”
“CAMARADA, AQUI NÃO HÁ CÁ MUITAS VOLTAS, OK?”
“Efectivamente.”
“O CAMARADA SABE PORQUÊ QUE ESTÁ AQUI DESDE ONTEM, NÃO?”
“Não digo que não, mas não fiz nada. Só mesmo bebedeira.”
“NÃO FEZ NADA? O CAMARADA NÃO ESTAVA A FAZER MENOR NO JARDIM?”
“Mas nem caiu nem uma gota ainda, já me prenderam…”
“ME DIZ SÓ: MAS O CAMARADA ESTAVA OU NÃO ESTAVA COM O CANHÃO NA MÃO?”
“Estava escuro e não tinha caído nenhuma gota de xixi ainda no chão, levei duas chapadas, Chefe…”
“LUCRO DO DESACATO. NESTE CASO, A POLÍCIA AGIU LEGAL OU ILEGAL?” 
“Ilegal!”
“LEVEM-ME DE VOLTA O CIDADÃO PARA A CELA! ENTÃO, O CAMARADA, EMBRIAGADO, ESTAVA A ATENTAR CONTRA O PUDOR, E DIZ QUE A POLÍCIA AGIU ILEGAL?”
“Espera aí, Chefe. ‘Ilegal’ afinal é como?”
“SEM RAZÃO.”
"Legal é que está certo?"
"NOS TERMOS DA LEI..."
“Ah, claro que agiu LEGAL. Ilegal mas como?!!! Ó chefe, umas coisas é ensinar, faz favor… Agiu muito legal, a polícia até fez bem!!! …”
GP. Benguela, 08.12.15