PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

conflitos, entre o papel e o coração

O imigrante ilegal sabe desde logo pelo "estatuto" que a sua vivência é uma constante de quase-ruptura com a nova "pátria". E nesse normal ilusório, acomoda preocupações, vontades e manias - nada o impede mesmo de andar por aí, como os demais moradores, a repontar defeitos sociais e do quanto se pode estar deles farto. No entanto, quando ou se chegar a ser detido, o homem mais não é do que uma máquina de implorar para ficar. Desculpem a ladainha, tocou-me ver lágrimas a granel de um senhor, na casa dos 40-50 anos, europeu, quando encaminhado a Luanda para posterior repatriamento, que até estava a ser feito dentro do respeito pelos seus direitos. Deixava para trás, presumia-se, a esperança de solidificar as fontes de sobrevivência, ou não andássemos todos em crise económica. O homem chorava, se calhar contra a existência de leis.

"Sonhar do sem-tecto"... Inspirado na dialéctica primeiro-mundista de Washington, DC, que visitei em Janeiro de 2010

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O que tanto procuram os chineses no “Pau” de Cabinda?

Depois de há coisa de uma semana surgir a notícia da detenção de seis sacos, contendo cada 50 kg de “Pau” de Cabinda, que se pretendia despachar para Luanda pelo terminal de carga do aeroporto da província mais ao norte de Angola, a Polícia Fiscal deteve hoje no aeroporto da Catumbela três malas, num total aproximado de 90 kg, também com o mesmo produto, vindo de Luanda. Em ambos os casos, os portadores são de nacionalidade chinesa.

Numa rápida pesquisa, deparamo-nos com o inusitado site http://www.paudecabinda.com/. O marketing é feito em português (e em inglês, claro!): “Pau de Cabinda - o autêntico e genuíno afrodisíaco 100% natural e seguro. Estimulante sexual para Homens e Mulheres. Vendas para Portugal” (The authentic and genuine aphrodisiac, 100% natural and safe for Men and Women, that stimulates your sexual power)”. Mas a fama da flora angolana não fica por aí.

Pelo link http://paucabinda.no.sapo.pt/cabviagra.htm, chega-se à prescrição de Raul Moreira, publicada dos Estados Unidos da América, em Maio 1999. Moreira lá saberá a razão de “arriscar a pele”, ao comparar Viagra com o Pau de Cabinda, favorecendo este último. De fato os médicos estão a diminuir drasticamente as prescrições do Viagra para a impotência, enquanto constataram que se trata de um medicamento arriscado. Deve-se considerar também o preço elevado do medicamento (mais ou menos 60 euros cada caixa) o custo da prescrição médica obrigatória e por último, porém não menos importante, o embaraço. Com o Pau de Cabinda, tudo se torna mais fácil. É um produto 100% natural (revigorante sexual natural) que ajuda a tratar a impotência, disfunção eréctil: um remédio antigo com um grande futuro, mas sem efeitos secundários e mais barato que o Viagra. O Pau de Cabinda  é proveniente da casca de árvore com o mesmo nome e só é possível encontrar em Angola nas florestas de Cabinda”.

Uma variedade de afrodisíacos tradicionais está disponível no blog Seguindo Adiante (dono da foto), cujo link é http://seguindoadiante.blogspot.com/2008/12/pau-de-cabinda.html.  

Voltemos à questão do nosso título: o que tanto procuram os chineses no Pau de Cabinda? Um estudo profundo impõe-se, considerando até o relevante espaço da medicina oriental no plano internacional, ela que também explora essencialmente recursos naturais.

No entanto, e olhando para a realidade angolana, chega-se à rápida conclusão de que os chineses procuram mesmo é o lucro, aproveitando a debilidade de fiscalização que ainda grassa a sociedade. Basta olhar para a constelação de pequenas indústrias  de blocos de cimento para construção, que visivelmente não tributam para os cofres do Estado, constituindo-se como tal em concorrência desleal para os empreendedores nacionais.

Quanto ao Pau de Cabinda, cujo comércio é até centenário, a dúvida que fica é se a questão está na quantidade, ou se se encaixa na mesma protecção legal que cobre a classe de diamantes. Seja como for, o problema é também ecológico, por se tratar de plantas “vítimas” de progressivas colheitas em quantidades industriais.

Gociante Patissa, Benguela 26 Janeiro 2011

quase-voo

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Para breve… autores angolanos serão lidos em árabe

 Um acordo firmado recentemente entre União de Escritores Egípcios e sua congénere angolana prevê acções comuns, entre as quais colocar livros angolanos em árabe e traduzir para o nosso mercado alguns escritores egípcios. Da parte da União dos Escritores Angolanos (UEA), foi signatário o escritor Abreu Paxe.

O êxito da missão da UEA à terra dos faraós deveu-se outrossim à colaboração da embaixada angolana, numa delegação chefiada pelo Conselheiro de Imprensa, Victor de Carvalho. O próprio Embaixador, Hendrick Vaal Neto, teve empenho de realce para que o Acordo avançasse e disponibilizou os serviços da Embaixada.

Foi também realizado um encontro com o Governador de Luxor, que prometeu todo o apoio, inclusive para alojamento lá de escribas angolanos. É possível que, brevemente, haja uma reunião entre o Embaixador (Hendrick Vaal Neto) e o Governador de Luxor para começar a afinar as agulhas.

O crítico literário e professor das Universidades de Évora (Portugal) e Katyavala Bwila (Angola), Francisco Soares, um dos prelectores do certame, faz uma avaliação positiva. “Voltamos do Egipto onde correu tudo bem, melhor do que esperávamos. Melhor na medida em que, afinal, o encontro (Festival de Literatura «O Nilo na cultura de África: visões do futuro») era organizado pela União de Escritores Egípcios. O Egipto funciona como plataforma para todo o mundo islâmico, o que pode ser fundamental para nós”, sublinhou.

Na ocasião, o académico Francisco Soares falou também de acções em perspectiva. “Estamos a pensar em comemorar uma semana da literatura angolana lá em Março, no dia da poesia e dias afins, mas muito mais acções podem ser realizadas”.

REGULAMENTO DO CONCURSO LITERÁRIO «LUGAR AOS NOVOS»

Nota: A pedido dos organizadores, o Blog Angodebates  presta apoio na divulgação deste concurso.

A instituição


A editora angolana Edilivro – Editores e Livreiros promove, a partir de Novembro de 2010, o Concurso Literário «Lugar aos Novos».

Objectivos


Este concurso tem como finalidades desenvolver a habilidade de escrita criativa e divulgar novos trabalhos literários de qualidade em Angola.

Destinatários

O concurso destina-se a todos os interessados cuja idade não exceda os 35 anos de idade.

Modalidade

1. É admitida a concurso a produção literária pertencente à modalidade conto.
2. O conto deve ser inédito, escrito em português, apresentados em formato Word, tendo um número não superior a 30.000 caracteres com espaços.
3. A cada concorrente só é permitida a entrega de um trabalho.

Apresentação de Candidaturas


1. Os trabalhos devem ser assinados com nome próprio ou pseudónimo e enviados até 31 de Janeiro, acompanhados de uma pequena biografia, para os seguintes endereços: jcerejeira@edilivro.co.ao egildoseca@hotmail.com.
 
Júri

As obras serão avaliadas por um painel de 5 jurados habilitados.

Divulgação dos resultados



1. Os resultados serão divulgados a 30 de Abril de 2011. As obras seleccionadas serão publicadas numa colectânea de contos, a ser editada pela Edilivro.

Luanda, 22 de Novembro de 2010

O Director Executivo,

Jorge Cerejeira

domingo, 23 de janeiro de 2011

Os sonhos do meu sobrinho de oito anos

Questionado pela mãe sobre o que quer ser quando for grande, Salatiel, que anda na 3ª classe, não gaguejou: "presidente"! Para quê?, prosseguiu, curiosa, a mãe: "para mandar, se quero comer arroz, ou beber água fresca ou sumo", essas coisas assim. Neste caso, insistiu outra vez a mãe, quem vai pensar no que fazer pelo país? "Isso é trabalho do governo!" (a quem possa interessar, o rapaz é irmão da Paki, cujas analogias insólitas podem ser recordadas aqui). Boa segunda-feira a todos.

sábado, 22 de janeiro de 2011

O quase só pode ser relativo

Se acordar, uma certeza: colho com a mesma paixão mais este sonho, e se falhar, sempre terei experimentado o ideal. Que importa que seja imaginário? Bom fim de semana a todos e todas!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Onepa yocisungo covonembele (parte de um hino cristão)

Umbundu

"Kefetikilo Liungende
cakala esanju lialwa
noke oloseteko viñi, viñi, vieya
valua vasala vonjila
vovaso mweya onjile
capepele casava
calelukile calema".

.................................
Português (tradução livre)

No início da viagem
uma grande alegria
depois várias tentações vieram
muitos pelo caminho ficaram
nos olhos só vertigens
o que era bom perdeu o sabor
o leve tornou-se pesado.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

(Mexendo no arquivo) Crónica: "Hoje é dia mundial dos empreiteiros (em especial os de Angola)"

Há dia mundial para tudo e mais qualquer coisa, né?! Assim, e antes que seja tarde demais, institui-se hoje o Dia Mundial dos Empreiteiros. Quem acha que não, que levante a mão!

Já agora, você ainda se lembra da lenda dos “Crocodilos Sagrados”? Perdão, disso já falamos lá mais adiante. Olhemos primeiro ao que é mais recente.

Pois é! Ontem, o Telejornal da TPA exibiu uma reportagem, que julgamos vir da província do Kuando-Kubango, sobre o curso de certa obra, obra esta, que concorrerá para o bem-estar social decorrente das sinergias pela reconstrução do país… quanto mais não seja por se tratar de residências e escritórios. O repórter em serviço (sempre essa raça de jornalista que é melhor nunca ter por perto) colocou uma impertinente pergunta. “ Quando pretende entregar a obra?”

O empreiteiro (coitado!), num semblante que lembrava ladrão de ovos apanhado em flagrante delito, não podia estar mais incerto: “Depende. Pode ser até à fase do natal. Porque, às vezes, nem sempre o material chega a tempo. Então, vai depender do material”.

Ora, diante desse quadro conspirador contra os inocentes empreiteiros, só podemos deduzir o (falso) dilema de que construir em Angola e cumprir os prazos de entrega é impossível. Para ser mais claro, se alguém tiver de ser responsabilizado pelo atraso na conclusão das obras, então, já sabemos quem é: o cidadão de seu nome completo “material de construção”.

Repito: você ainda se lembra da lenda dos “crocodilos sagrados”? Segundo uma lenda da antiga Grécia, o imperador era responsável pela criação de um lago, tipo viveiro, que era o habitat de colossais crocodilos, os Crocodilos Sagrados. Para quê? Ora pois, todo o empreiteiro que não honrasse a promessa de entregar atempadamente as obras que lhe fossem adjudicadas (não sei dizer se por concurso público ou não), era lançado aos Crocodilos Sagrados. Ainda bem que a nação angolana tenha nascido muito, mas muito tempo depois dessa época. É que, com os nossos empreiteiros, os crocodilos morreriam de obesidade e fartura…

Gociante Patissa, bairro da Santa-Cruz, Lobito, 1 de Abril 2010

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Crónica: Diríamos um polícia educado, mas mau gestor de tempo?

Falar de avarias num carro velho é pleonasmo. Mas o coração gosta de se iludir e festeja cada regresso das mãos mecânico. Anteontem recebi o meu, que entendeu avariar dois dias após o natal.

No domingo voltava do Lobito, por volta das 8h30 da manhã, quando um agente regulador de trânsito mandou parar na zona da Damba-Maria (ou 27). Podia dizer que isso foi ontem, só que assim passaria despercebida a missão, que foi a de pegar quatro irmãos para a instalação eléctrica na obra. Ser interceptado não era bem o que esperava, não que fosse pela pressa, mas pela noção do ponto fraco: a falta de triângulo e um verbete há 15 dias carecendo de renovação.

Bom dia, como esta? Saúda-me o agente, 24 anos aparentemente. Eu, muito pacato, bom dia, senhor agente, como está? Ele acena, com aquela vaidade típica de jovens que acabaram de entrar para a polícia. Faculta-me a documentação do carro. Tem a carta de condução ali? Sim, claro!, respondo, um tanto atrapalhado para localizar a pasta com os papéis. O senhor conhece o número da sua carta? A pergunta é tão-somente inesperada. Diga? O número da sua carta, pode-me dizer? Não, senhor agente, confesso que nunca me preocupei em memorizar o número, é como o do BI. Em que escola o senhor passou? X, respondi-lhe. Em que ano? 2008. Qual a sua data de nascimento? Setembro de 78, digo erradamente, ao que meu kota corrige, Dezembro de 78. E quando expira a carta? 2013, digo, curto, evitando dar margens para mais complicações. Expira no dia do seu aniversário! Olha, senhor, diz-me ele com movimentos de maestro, é importante saber isso! E eu, obrigado.

Ele dá uma volta de 360º ao carro e manda: pisa no travão! Pisa outra vez! Liga o limpa-pára brizas! Outra vez! Neste instante, inspecciona o verbete e se choca. Sabe há quanto tempo está expirado? Sei sim, há 16 dias. O carro esteve no mecânico até ontem, pode-se mesmo ver pela sujidade. Sabe o que devia ter feito? Procurar imediatamente a polícia para a renovação. Concordo, senhor agente, mas ontem foi sábado. Como disse, o carro esteve na oficina. Neste caso, devia parquear até regularizar. Olha que isso pode dar até apreensão do veículo. Sorrio, claramente rendido à razão do agente. Pronto, pode seguir! E eu, bom trabalho senhor agente. Ele acena. Está aqui um livro meu, é uma oferta. Diga? E acrescento, de vez em quando sou escritor e quero oferecer um livro meu.

No dia de “baixa”, o motor foi abaixo por aí umas cinco vezes no mesmo trajecto de 35 km entre Lobito e Benguela, talvez a semana em que um veículo mais usou o triângulo. Saído a voar de uma dessas paragens forçadas, só muito mais tarde me lembrei de não ter recolhido o maldito triângulo. Resta agora esperar pelo salário, que vai também cobrir a taxa de circulação. Essa explicação seria para o agente, se este não perdesse tanto tempo com “extravagâncias e detalhes” a respeito da carta de condução. No fim de contas, para o meu lado, claro, foi melhor assim.

Gociante Patissa, 17 Janeiro 2011

sábado, 15 de janeiro de 2011

E porque hoje é dia nacional do compositor em Angola... Onde anda o Trio Akapaná?


Alguém pode dizer, justificar o silêncio deles? Os Akapaná são das coisas mais agradáveis que guardo na memória da campanha eleitoral de 1992. Foi durante um comício do Mpla, na praça 1º de Maio, defronte ao Prédio do 10º andar, Lobito - a propósito, o bem-comum do carnaval e outras manifestações culturais e desportivas onde a sanzala e a cidade mais facilmente se encontravam, parte da nossa história mas que alguém desastrosamente vendeu (não se sabe a troco de quantos dinheiros) à multinacional sul-africana, Shoprite. Bom, depois do Diabick - que fazia furor com o seu "para a gente melhor/viver em paz/deixa falar a voz do coração" - e outros passarem em palco, subiam três homens de pano "samakaka", peito desnudo. Um ocupou o teclado e uma viola, outro ficou na bateria, e o último a viola baixo. Ora português, ora Nyaneka Humbi, ora Umbundu, o que o trio vindo da Huila fez foi prodigioso, um rico SHOOOW artístico. Ainda recordo, além do "elamba ndamonla", aquele tema que diz "kumbi ngenda eh, kumbi ngenda, ava valiloka ile ile, ava valiloka ivaluko".

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Socooorro: Uns acham que é "moda", outros falta de originalidade, mas não erraria quem o chamasse "parasitismo"

1. Há cá uma generalizada falta de originalidade na música Angolana que exige muitos e urgentes estudos. A gospel ou sacra não é por isso diferente. Neste momento exploro disco de um casal pastoral, que inclui um hino surgido noutra igreja entre 1989-91. Uma outra música tem a base - só que mto lenta - de No woman no cry (Bob Marley). Em nenhum dos casos se referencia o autor. Preço devenda? Mil kwanzas (USD 10)... Já nos estilos mais "recentes", RAP e Ku-duro, impera um exacerbado narcisismo e cultura do "eu". Qualquer um acha/canta/ecoa que é perseguido, conspirado, que é melhor que outro, antes mesmo de dar oportunidade ao público no sentido de avaliar a qualidade do trabalho. É como se os machos precisassem de escrever na testa que o são, o que seria um inútil exercício de esclarecer o óbvio. Arte parasitária assim... não existe! É pelo menos o que eu acho.
2. Num passado muito recente, e citando outra fonte, Paulo Flores dizia que quando o artista deixa de ouvir a sua intuição e faz apenas aquilo que o público exige, deixa de ser artista, passa a comerciante. E um comerciante tanto pode ser honesto ou desonesto. Mais acrescentaria que ultimamente há muita "mesmice musical". 
3. Sobre o mesmo fenómeno, um escritor ressaltou que há uma recorrência, não apenas de estilos e tendências melódicas, senão também de temas: ou a mulher corneou o marido, ou o marido ingrato e que não sustenta, basicamente neste padrão, como que uma leitura viciada (seria limitada?) dos problemas do nosso povo.
Gociante Patissa, 14 Janeiro 2011 

Quem manda afinal no ensino superior? Quem exonerou o reitor Paulo de Carvalho na Univ. benguelense Katyavala Bwila? A ministra já disse que foi (apenas?) incumbida...

leia texto da Angop clicando aqui

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Crónica: Os portadores do vírus da SIDA e o efeito inverso da luta contra o estigma

A edição desta semana do programa “60 minutos”, da televisão americana CBS e que nos chega pela TPA, teve um bloco sobre a SIDA no Uganda. Naquele país africano, os índices de novos casos de infecção por VIH sobem consideravelmente. O fenómeno é associado ao aumento da noção de que “a SIDA já não mata”, na medida em que existe terapia para atenuar o efeito das doenças a ela associadas. A solução, realçava o narrador, passou a ser o próprio problema.

Vários casais aparecem, aparentemente, e aqui sublinho o aparentemente, prontos a partilharem com a televisão o momento de abertura do resultado dos testes médicos, num cenário preparado para o efeito. A primeira ilação que se podia tirar, para quem alguma vez se engajou em acções do género, era de que a campanha de sensibilização colhia resultados positivos. Não havendo ainda vacina, a informação é a mais potente arma, o que passa pela sensibilização. É certo que os testes médicos são, na sua essência, objecto de sigilo entre o paciente e o profissional. Portanto, se os casais ainda anuíram para que o momento fosse filmado, estava-se muito mais do que num encorajador caminho. É bom lembrar que os testemunhos e exemplos são relevantes na promoção da mudança positiva de mentalidades.

Estariam preparados para o resultado do teste? Teriam transposto as suas comunidades a barreira do estigma e discriminação? A mais eloquente resposta veio das lágrimas de inconformismo de uma senhora, ao saber que vivia com o vírus da SIDA, independentemente de não apresentar sintomas. A mais dramática reacção foi de um cidadão que anunciava o fim da relação, pois a companheira era VIH positiva e ele negativo. Num tom de clara culpabilização, ele dizia sentir-se inseguro e com medo de partilhar a cama. Coitada da mulher, que mal conseguia pronunciar uma única palavra em Inglês, e como tal incapaz de se defender. Como seria o dia seguinte daquelas pessoas transtornadas pelo impacto da condição serológica já exposta ao mundo, a reportagem não disse, podia muito bem não estar previsto. Longe de reduzirmos o crivo da maturidade e ética da CBS (e seus respectivos “retalhistas”) a este incidente, não deixa de ser intrigante. O que terá motivado os casais a exporem sua intimidade, quando podiam optar pelo sigilo? Será que esperavam apenas por testes negativos?

O contributo da comunicação social na promoção da saúde pública é inquestionável, pelo que estamos à vontade em partilhar o axioma de que, na realidade angolana, a resistência ao uso da camisinha é cada vez menor e bom indicador da redução dos tabus. Quanto à aceitação do seropositivo na família, é um longo desafio. Pessoas vivendo com o VIH assumem cada vez mais a sua condição serológica, mormente através da media. Não sendo obra do acaso, tal é também resultado do processo de combate ao estigma, que inclui aparição pública e depoimentos. O símbolo da seroprevalência em Angola, Maria Geovety de Brito “Soraya” (na foto), morreu de tuberculose associada ao VIH/Sida, a 31/07/2007, no Hospital Sanatório de Luanda. Sem margem para dúvidas, Soraya foi pioneira por ter “arriscado” a cara através do programa “Nação coragem” da Televisão Pública de Angola (TPA).

De facto, a comunicação social deve engrossar as sinergias na luta contra SIDA e doenças derivadas (entre elas a ignorância), com trabalhos de seguimento, sob pena de ser acusada de aproveitamento da dor do próximo em prol do instinto mediático da busca da audiência.

Gociante Patissa, Benguela 7 Janeiro 2011

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Oratura-a lenda Umbundu: «Onganyo yalile Kapoko» (o biscate tirou vida a Kapoko)

Umbundu

Olonjanja vialwa tusiata okuyeva akuti «Onganyo yalile Kapoko». Onganyo puãi nye? Puãi yolia ndati? Kapoko puãi elye? Ndomo tuacikulihã, olonduko vikuete esinumuinlo. Omo liaco, ya Kapoko yatiamela kokupokola. Onganyo, okuyitala ciwa dondaka, yikuete esinla kelimi lyioputu, cilomboloka okuti upange, ale vo ofeto, ale cina koloneke vilo citukwuiwa citi ocinyangu, yendisiwa lomunu umwe okuti vimbo kakuete ño esilivilo lyenda oko loko. Twami ko.

Ndomo ciyevala tunde kosiãhunlu, Kapoko u ndeti, vimbo liaye wakala ulume umwe okuti apako kakuatele. Puãi cenda ovina, ongunsu vo kayokambele, walikapa okuendisa upange wocinyangu, nda kokulimiila, nda kokututa ovitele ale ovikuata.

Eteke limwe, umue ukulu wendamba watula omwenyo. Ocivimbi vacilangeka vocipata, vamwe apa oco vasakalala ale lokusonga etumba. Okwiya vavilikiya Kapoko:

- A Kapoko, tuasukila alume pala okuambata etumba kualangalo vukulu wendamba. Sanda ko vali umwe ukuacinyangu.
Kapoko yu watambulula ati:
- Ame ndulume laco. Kacisukila ale vali okufeta alume vavali. Ocivimbi ndicambata mwenle voñoño, kavela ñ onda cakutiwa ciwa, etumba kutwe.
Sokiye cina ciwa, epata lyatava okuti, nda oco apopia, momo acitenla.

Vaenda muenle ciwa, puãi okupitinla kwalangalo ale kokalundu, Kapoko wafetika okusaluka, omo okuti ocivimbi voñoño kacitundi. Puãi vokuenda ocivimbi cayeya calua, ovate veya okukoka etimba okulamelenla. Tatayale, catuviwa. Ondaka yatumuiwa mbi nda okuteta, locimahõ cokutepa etimba lyaKapoko vetimba lyacivimbi, cikasi voñoño. Una omola wosiwe ati:
- Lalimwe eteke. Tate kala kwata ofuka, kakendiwa lepute. Mba kacitava!
Valete mwenle yo kutenkanva. Okuiya mba vati puãi te okuvakenda kavali. Kenda calingiwa. Kapoko wataka konganyo. Lomunu opanga upange walisetahãla otukuiwa vo ati Kapoko.
Osapi yondaka yeyi okuti omunu okataka kesalamiho, vonganyo omo mutunda omwenyo, puãi pamwe vo luveyi.

Português

É frequente ouvir-se a lenda Umbundu «Onganyo yalile Kapoko». O que é “Onganyo”? Como foi que tirou vida a Kapoko? Quem foi Kapoko? Como é consabido, os nomes têm geralmente um significado. Onganyo, olhando a raiz da palavra, vem do Português, querendo dizer trabalho ou ganho, ou aquilo que hoje em dia se chama biscate, sendo que o seu praticante é uma pessoa com um estatuto abaixo da média. Kapoko vem de "okupokola", obedecer. Avancemos.

Reza a lenda que, na aldeia em que vivia, Kapoko foi um homem sem recursos. No entanto, não lhe faltava pujança, pelo que se dedicou a fazer trabalhos pontuais, fossem de cultivo na lavra doutrem, fosse de estiva/transporte.

Certo dia, deu-se o falecimento de um ancião. Foi deitado o corpo na sala, enquanto uns homens engajavam-se em desbastar madeira para o caixão. Kapoko foi chamado:
- Ó Kapoko, precisamos de homens de braços para levar o caixão do mais-velho ao enterro. Arranja mais um biscateiro.
Kapoko por sua vez surpreendeu:
- Não sou homem de pouca envergadura. Dois pagamentos não serão necessários. Levo o corpo às costas, basta amarrarem bem, e o caixão à cabeça.


Após os acertos, a família concordou: se era o que dizia, é porque o conseguia.

A marcha do funeral correu sem sobressaltos, mas chegados ao cemitério, Kapoko começava a entrar em pânico, uma vez que o cadáver não lhe descolava das costas. A baba servira de cola. Várias tentativas redundaram em fracasso. Aventou-se então a hipótese do uso de faca para separar Kapoko do cadáver. Mas um dos órfãos era irredutível.

- Nunca mais! O pai não tem dívidas, não pode ser enterrado com feridas. Definitivamente, não!
Começava mesmo a anoitecer. Decidiu-se por fim pelo enterro do cadáver conjuntamente com Kapoko. E foi feito. Kapoko perdeu a vida num biscate. Ainda hoje, em função da lenda, rotulam-se de Kapoko aqueles que vivem de trabalhos inferiores.

A chave da parábola: o homem está fatalmente condenado a viver à custa do suor, do trabalho vem o sustento, assim como podem vir doenças.

Adaptação da lenda contada pelo velho Víctor Manuel Patissa (1946-2001)

sábado, 1 de janeiro de 2011

Diário: 1/1/11

A ressaca é a primeira das várias horas que antecedem a próxima êxtase.


Tal como os sonhos, estimem as vossas utopias. Se as perdemos, mais não somos do que corpos em contagem decrescente. Eu carrego as minhas...


boas vindas ao 2011.
GP