terça-feira, 14 de julho de 2020

Opinião. Meu repúdio por mais um óbito pelas mãos das forças da ordem


1. Porque me obriga a consciência de cidadão e agente de mudança social no campo das letras, venho expressar mais uma vez o vivo repúdio face aos actos que redundam em excessos das forças da ordem, policiais ou militares, na sua abordagem com populares. Situo no meu entendimento ao falar em uso excessivo de força um quadro de meios e perícia injustificado ou desproporcional a uma determinada circunstância.

2. A sociedade angolana segue chocada o ascendente trágico de mortes causadas pelas forças da ordem. A vítima mais recente é o jovem José Kilamba Rangel, baleado por um agente da Polícia Nacional que patrulhava o Bairro do Prenda, em Luanda, no quadro do Decreto Presidencial que reforça as medidas de prevenção da Covid-19. Um outro jovem, que ia em companhia do falecido, sobreviveu ao tiro no ombro.

3. Segundo o porta-voz do Comando provincial de Luanda, Nestor Goubel, citado pela Lusa, o incidente ocorreu por volta das 02h00, quando os jovens "se insurgiram contra a Polícia e na tentativa de os afastar, um agente acidentalmente disparou".

4. Cada cidadão contribui para o bem-estar e segurança da nossa Angola, mas tenho consciência do respeito acrescido que nos merecem as forças da ordem, que enfrentam por inerência das suas actividade situações de perigo e dormem longe do conforto dos seus lares. Também não fui militar nem alguma vez adquiri a perícia de manejar armas.

5. Seja como for, recuso-me a acolher a recorrência de tiros acidentais ou então que não haja outras formas de dissuadir o "desacato às autoridades" senão pela neutralização letal do "alvo". A própria Polícia já nos habituou a ver louváveis exemplos de contenção, pedagogia e humanismo. O papel do polícia não pode ser o de matar (fácil), do mesmo jeito que o papel do juiz não se pode limitar a condenar.

6. Os números de vidas perdidas à bala da Polícia, só nestes quatro meses, andam acima de 65% dos óbitos causados pela Covid-19, que temos todos o compromisso de prevenir e combater. Não deixo de lamentar as mortes e de me solidarizar com as famílias de agentes e militares mortos por meliantes e cidadãos de conduta errónea.

7. Exmo. Senhor Ministro do Interior, ensina-nos a ciência a prestar atenção aos fenómenos sociais e aferir as causas determinantes e condicionantes, sob pena de continuarmos a perder tempo, neste caso vidas, com a superfície. Porque será que os tiros de efeito psicológico, admitindo o seu uso como recurso extremo necessário, tendem a ser apontados ao corpo e não para o ar? Sabendo que, matando, o autor é punido com penas pesadas, os agentes não deviam estar sensibilizados do contrário?

8. Termino reforçando o apelo para se investir no acompanhamento psicossocial e aquisição de coletes anti-bala para os nossos agentes. Seria grave ouvirmos algum dia que afinal se andou a matar por... pânico.

Gociante Patissa (escritor). www.angodebates.blogspot.com |Benguela, 14 Julho 2020

Imagem: site do minint


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terça-feira, 7 de julho de 2020

Crónica | DESCULPA DIZER MAS ERA ASSIM UM SENHOR CHEIO



Ele relata as suas façanhas com invejável correcção gramatical e numa dicção bastante clara e cativante. Conhece o lugar do sujeito, do predicado e do complemento. Ah, o da pontuação e das entoações também. Articula no registo ajustado ao canal, uma linguagem cuidada, recorre o mínimo possível ao uso da gíria ou do calão. Fluiu-lhe de tal modo o raciocínio que antecipa possíveis questões do repórter. O entrevistado, jovem com alguma escolaridade, quando tem de descrever as características de um visado acima do peso, pede desculpas antes de dizer que se trata de um “senhor assim cheio”, pois a sua educação e consciência cidadã desencorajam o bullying, que como se sabe gera consequências psicológicas graves para a vítima e para a sociedade que o rodeia. O orador tem noção do alcance massivo da rádio e realmente constitui desrespeito andar a dizer que alguém é gordo, mais a mais porque ninguém escolhe possuir características socialmente alvo de adjectivos pejorativos. E continua no seu relato, sempre tratando as vítimas com respeito, o mesmo respeito que lhe faltou.. quando se meteu a protagonizar acções que motivam agora a tomada da palavra a partir de uma esquadra policial. O sujeito é assassino confesso de mototaxistas (kupapatas), pelo menos mais de quatro, os quais o delinquente abordava na condição de cliente e a meio da corrida, às vezes com comparsas, às vezes a solo, partia para o assalto à facada durante. Foram vários meses neste modus operandi na periferia de Benguela, como bem cuidou de narrar pormenorizadamente com pitada de crueldade e malvadez cada episódio, do qual o artista levou sempre de vencida cada incusão. Usamos sempre uma faca média de cabo preto, complementa o suspeito. As motos, de marca Delop, eram vendidas a um receptador que desembolsava 100 mil kwanzas e prosperava neste lucro regado com sangue e lágrimas de familiares e demais pessoas de bem no litoral da província de Benguela, que não pode ficar indiferente a todo este quadro de instabilidade. Do lado castrense, chega na voz do Comandante Municipal, Filipe Caxota, a negação de uma polícia falida no quesito de pôr cobro à situação. Chama à liça o fracasso dos sistemas informais de segurança pública, que têm como principal actor a família. A frequência da reportagem é 92.9 FM, Rádio Benguela, pouco antes das 12h. Amanhã é reposição.

www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa | Benguela 07 Julho 2020 (imagem ilustrativa, in site americanas)
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sexta-feira, 3 de julho de 2020

O segredo da Igreja Universal do Reino de Deus - Sousa Jamba

 Sou da IECA, (Igreja Evangélica Congregacional de Angola). A minha família está ligada a esta organização desde a sua fundação em Angola há mais de um século atrás. Mas sou profundamente tolerante de outras religiões; isto tem a ver com a minha infância na Zâmbia. 
(...)
Voltei para Angola e notei que muitos jovens tinham deixado a IECA para confissões mais carismáticas, algumas pregando a Teologia da Prosperidade como a Igreja Universal do Reino de Deus.
(...)
Os angolanos têm um hábito muito perigoso: um desejo profundo de quererem dar nas vistas sem, muitas das vezes, estarem prontos a dedicarem-se ao trabalho árduo e difícil que faz a diferença. Os pastores e bispos angolanos da IURD deveriam ter aprendido muito mais além dos sotaques brasileiro na organização a que pertenciam.

A IURD é uma espécie de multinacional que é altamente eficiente. Na IURD não é apenas uma questão do dízimo; na IECA temos também pago o dízimo mas as nossas igrejas não são comparáveis às da IURD. Já assisti sessões da IURD no Huambo por várias vezes. Uma das coisas memoráveis do local foi o conforto, dentro da igreja havia um bom sistema de ar condicionado. A IURD investe, sim, na suas infra-estruturas que fazem com que estas passem a atrair a muita gente.

No Huambo, uma vez, fiz questão de fotografar livros que as pessoas estavam a ler. Uma boa parte das senhoras estava a ler obras de Edir Macedo; o marketing desta organização é impressionante. Depois há, também, aqueles programas de televisão. Estamos a falar aqui de um programa de Marketing sofisticadíssimo.

As operações da IURD dariam para um bom estudo de como os negócios devem ser geridos. Nunca vi um templo da IURD numa área pobre de Angola. Os estrategistas da IURD têm como o seu alvo a classe média (e aqueles que aspiram à mesma). Este segmento da sociedade é vastíssimo. Depois há a mensagem da prosperidade, este mesmo segmento da sociedade é que mais sofre de uma ansiedade de não pertencer, propriamente dito, ao topo — orando, dando o dízimo, e nunca faltar à igreja, que poderá garantir a promoção ou o contrato. Este é, também, o local de convívio com gente com os mesmos valores etc. Isto tudo não foi feito num instante, houve muito trabalho para se conseguir tal sucesso.”

(Fragmentos da crónica, in Jornal de Angola, 03.07.2020)
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domingo, 7 de junho de 2020

Para download | O APITO QUE NÃO SE OUVIU, crónicas de Gociante Patissa (União dos Escritores Angolanos, 2015)

Ainda na senda de contribuir para a ocupação do tempo prolongado que a situação actual nos obriga a

passar em casa, tomei a liberdade de partilhar a versão PDF não comercial do meu livro de crónicas O APITO QUE NÃO SE OUVIU, publicado pela União dos Escritores Angolanos, em 2015. A descarga ou download é imediato, sendo que o link expira em sete dias. “O nosso trabalho é trabalhar”.
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segunda-feira, 25 de maio de 2020

UCCLA prolonga prazo de recepção de textos literários sobre “Cultura em tempos de Pandemia”

A UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa) lança o desafio aos escrito
res de Língua Oficial Portuguesa para refletirem sobre a “Cultura em tempos de Pandemia”. 

A Organização não esclarece se reservou ou não um orçamento para o pagamento de direitos autorais na esteira da colaboração, que no entanto não se trata de um concurso. Prevê-se a publicação dos textos apurados em plataformas digitais e em livro. Os interessados podem enviar textos em poesia ou em prosa, até ao dia 25 de junho de 2020, com o limite de 5 mil caracteres, para os emails cultura@uccla.pt e/ou ruilourido@uccla.pt.

Leia os textos e conheça os autores - oriundos de Angola, Brasil, Cabo Verde, Goa, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe - que já aderiram a esta iniciativa da UCCLA através do link https://www.uccla.pt/noticias/uccla-lanca-reflexao-sobre-cultura-em-tempos-de-pandemia.

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domingo, 24 de maio de 2020

Dissertação de Mestrado na Universidade de Lisboa estuda obras dos escritores angolanos Pepetela, Ondjaki e Gociante Patissa

“O corpus analisado é constituído por obras de escritores angolanos de diferentes faixas etárias e
procedência geográfica; assim como por textos jornalísticos produzidos por profissionais de informação que, em princípio, fazem uso da norma europeia. Analisam-se comparativa
mente os resultados sobre a colocação dos clíticos pronominais obtidos nas obras de três escritores conceituados da Literatura Angolana (Mayombe e A Sul. O Sombreiro, de Pepetela; A Última Ouvinte, de Gociante Patissa; Os Transparentes e Os da Minha Rua, de Ondjaki) e de dois jornais com uma abrangência nacional (Jornal de Angola e O País).

i. Selecção dos autores. Para uma compreensão diacrónica, escolhemos Pepetela, que escreve na década de 70 e em 2011, o que nos permite comparar a escrita do período colonial com as tendências contemporâneas, recentes. Para uma possível aproximação à linguagem popular, preferimos Patissa, que melhor representa o contacto com a língua umbundu (centro sul), e Ondjaki, que faz uma radiografia do ambiente popular da cidade capital, Luanda. O corpus jornalístico escolhido é aquele que, na esfera da imprensa escrita, julgamos representar melhor as diversas sensibilidades do país. Revelou-se muito mais rigoroso no uso da “norma” (i.e. a norma do PE), mesmo que os resultados revelem algumas divergências”

Dissertação disponível em PDF neste link
https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/40812/1/ulfl274272_tm.pdf

FICHA TÉCNICA
Tese defendida a 11-Nov-2019 / Autor: Mutali, Henrique Simão
Orientador: Martins, Ana Maria/ Tema: Título: A colocação dos pronomes clíticos no português angolano escrito / 432 páginas
Universidade de Lisboa - Faculdade de Letras
Dissertação de Mestrado em Linguística
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quinta-feira, 14 de maio de 2020

Crónica | PROCURA-SE IGNORANTE

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De vez em quando, o que para ser franco até ocorre com frequência ultimamente, sua excelência eu fica a matutar sobre a evolução semântica de certas palavras no dia-a-dia mwangolê, cuja velocidade é de preocupar porque se afigura cada vez mais difícil de alcançar.

A título de exemplo, IGNORÂNCIA passou a ser uma virtude, refere-se à condição de quem (é ou) está usando a capacidade de resistir a provocações ou pressão mediante o silêncio ou inacção. Trazido ao nosso contexto, há que destacar que se ainda há algum êxito no nosso sistema de ensino-aprendizagem, então o mérito vai para a classe docente, que é formada globalmente por grandes ignorantes... pois os alunos hoje em dia não provocam pouco. Neste caso, professor sai-se duplamente ignorante se olharmos também para as condições de trabalho nem sempre favoráveis ao exercício da profissão.

Não será de admirar que nos próximos tempos, mesmo já que é para poupar espaço, a descrição de perfil em concursos de vaga em qualquer sector seja resumida a... "procura-se ignorante para admissão imediata". Vai daí o conselho: sempre que tiver de elaborar o seu curriculum vitae para dar aulas, uma vez conhecido já o fenómeno social da tendência cada vez maior dos alunos à indisciplina, não se esqueça de destacar a sua maior virtude: IGNORANTE! Até pode mesmo acrescentar que o candidato é "ignorante de pai e mãe".

E há mais. Por favor que ninguém me trate por "amigo!"; amigo é o comerciante desconhecido, concretamente o chinês ou o vietnamita da casa das fotocópias ou da "repação" de motorizadas. E sua excelência eu, sendo que não tem jeito para negócios, desgraçado talhado a subordinado, então também dispensa fama sem proveito. Ah, mas para depois não surgirem acusações de fundamentalismo, abre-se uma excepção. Quando assim ocorrer, falo de me chamar "amigo!", tenha a certeza de que estou pagando serviços no seu próprio estabelecimento. Senão, hum!...

Vou terminar com uma nota triste. Na adolescência aprendi noções básicas de tocar viola, andei no coral infantil, mas depois não houve talento para dar vida à semente. Porque se assim não fosse, hoje eu pegava nessas letras, inventaria uma melodia e COMPOSITAVA uma bela canção. É isso, esse profissional de arte que não ganhava fama nenhuma enquanto "compunha", agora já tem mais visibilidade porque passou a compositar. É como digo, depois do cuduro, nunca mais o sector da música será o mesmo. Ainda era só isso. Obrigado

Gociante Patissa. Lobito, 14 Maio 2017
www.angodebates.blogspot.com

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segunda-feira, 11 de maio de 2020

Humor | Cerca sanitária COVID-19 e etc.

Certo agente regulador de trânsito em Luanda aborda um motorista inicialmente por excesso de velocidade apenas.
— Mas, senhor agente, eu posso explicar... — replica o motorista.
— Meu caro amigo, trate de ficar quieto! Vou colocá-lo na cadeia até o chefe chegar! — esbraveja o agente. — São vocês, pá! Erra muito bem, depois ainda quer convencer… Hum!

Em coisa de minutos aproximam-se as forças da ordem em cumprimento do Estado de Emergência. O polícia explica aos colegas que o cidadão estava a circular sem credencial, portanto em lazer.
— Mas, por favor, eu só queria dizer que...
— Silêncio! Você está retido! Se abrir a boca, apanha uma pastilha por desacato à autoridade! Num momento em que o país de boca e narinas enfrenta a guerra do inimigo COVID-19, o camarada fica a zanzar, francamente, pá! Meu amigo, cala-me mais é esta máscara, pá! Já conhecemos esses truques. Comigo, se é de gasosa ou saldo, é melhor desistir. Errou, apanha as consequências!

Aí, o oficial-dia manda encarcerar o alegado infractor numa cela, sozinho, e vai embora sem lhe dar atenção. Horas mais tarde, volta para verificar o comportamento do detido:
— O chefe está a chegar! Sorte a sua que ele foi ao casamento da filha dele. Deve estar de bom humor.
— Duvido muito... Se me tivessem deixado falar, saberiam que o noivo sou eu!

(Ficção/Adaptação) | www.angodebates.blogspot.com

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terça-feira, 28 de abril de 2020

Conto | A ESTRELA QUE NÃO VOLTEI A TER

Nunca mais quis ou pude ter cães. Aos que amei ao longo destes anos, foi por afinidade. A
única cadelinha que verdadeiramente me pertenceu chamou-se Estrela. O brilho dos olhos dela evidenciava suficientemente a beleza das quatro patas, parecendo-se mesmo, vista de frente, com estrelas que as crianças guardam no céu para servirem de brinquedo em noites de calor. Era fêmea, criança, baixinha, acastanhada, brincalhona, obediente. 

Ganhara-a de um primo que dela se queria livrar, no que se pode considerar um dos mais memoráveis passeios da adolescência, com a diferença de o destino ter sido apenas o bairro da Kanata, duas horas a pé de casa. Tinha catorze anos, que pareciam menos, dada a pouca altura que me era característica até aos dezanove anos e o curso de pedreiro no IED[1].

O que disse é uma verdade passível de desiludir o Stick, cão lá da casa de minha mãe, que não faz outra coisa quando me vê, a não ser pular e sujar-me a roupa toda. Só mesmo o Stick, com aquele carinho (sobejo mas sincero) de saudades. Por sorte, os cães não sabem ler ou ao menos, como ironizaria certa poetisa, não todos.

Como já confessei numa crónica parida algures em 2010, tive infortúnio com cães, um pouco por culpa da noite. O sangue sob a roda confirmava. Era o cão da vizinha, que eventualmente procurava aconchego nos restos do calor do motor. 
— Matou, assacou em baixo da roda!!! — acusavam as crianças, como se não se tivessem distraído, elas também, pelo brotar do luar e as brincadeiras de quem chama o apetite para jantar. 

Nada mais havia a fazer, além de seguir  para a escola, 
enquanto a sobrinha e outros jovens da casa ao lado cuidavam do resto. É que já levávamos uns quarenta minutos de atraso. Ficava para o fim das aulas a conversa com a ama do Bruninho, como era carinhosamente chamado (no entanto tratado como a maioria dos considerados rafeiros, protegidos pelo acaso e co-alimentados pela rua).
— Assim o tio não vai na cadeia? — indagava Nair, sobrinha de cinco anos. E logo cuidei de esclarecer que o tio não atropelou de propósito e que, como devia ser, lugar do cão era em casa, não na estrada; que o tio não iria responder, por não se tratar de vida humana. 

Outra questão soou-me à condenação pública:
— O tio também já não gostava do Bruninho, né?! — A resposta objectiva foi afirmativa, pois ela me vira recorrentes vezes a enxotá-lo, sem que isso significasse motivo para o que aconteceu. São as tais analogias pueris, justificáveis por isso mesmo.

Havia um cão no quintal em que em tempos fui morar, nessa busca solteira de anexo módico, que me recordava o Bruninho. Tinha cor preta, malcheiroso e com a mesma vivência. No outro dia, dei por ele a sair, envergonhado, da minha cozinha, onde achara saco de lixo com restos. Não tive forças para o condenar  não que assumisse o desleixo de ter deixado a porta aberta, mas por o compreender de certo modo.

Numa bela semana dos dois anos do meu convívio parcial com aquela família, constatei uma situação de afecto colectivo pelo cão, talvez a maior mesmo. Tinha sido atropelado, quebrando uma pata e causando ferimento à outra. A sangrar desesperadamente, era de um silêncio inusitado. Nem só um chiado. É como aquele mito dos humanos que diz que quando se chora muito, é porque o choque é mínimo. Umas vezes deitado no quintal, outras no corredor do beco que dá para a casa, o cão vivia uma pacatez moribunda. E não era para menos, conforme se veio a ver. A pata engessada infestara-se, a outra fedia que nem uma coisa doida, rompendo-se algo que me parecia ser sutura lá do veterinário.

Quando acordei, algumas manhãs depois, vi-o num estertor que me fez pensar por uns instantes se uma eutanásia não seria a mais assertiva saída para aquele ser impotentemente vivo. Saí para matabichar. De regresso, os jovens da casa escovavam do chão a porcaria do doente. Para onde fora o cão, nem quis perguntar. Desconfio que terão feito a ele o mesmo que à minha Estrela, comparação de todo o modo injusta, quiçá, se tivermos em conta que a minha cadelinha não chegou a adoecer, mas fora abatida juntamente com dois outros cães adultos de casa... para agradar um vizinho que se queixara de roubo.

Se calhar, o erro foi meu, por querer ter uma estrela para mim, ainda tão pequeno no mundo dos adultos, quando elas foram feitas para as termos à distância, no palco ou no céu. 

Gociante Patissa, in «Fátussengóla, O Homem do Rádio que Espalhava Dúvidas» (pág. 41). GRECIMA. Programa Ler Angola. Luanda, 2014 
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quarta-feira, 22 de abril de 2020

Diário | ME RECONHECESTE SÓ PORQUÊ, SE O OUTRO ESTÁ A USAR MÁSCARA?

(I)
"SÔ AGENTE! SÔ AGENTE!!! Responde só já o outro, meu irmão. Não fica mais ignorante…”
“Mas que atrevimento é esse?! Tu conheces as minhas habilitações? Vai chamar ignorante ao teu pai, faço-me entender?!"
“Mas, ó chefe, até falei com boas maneiras. É de se ofender mais dos pais?..."
“Você tem noção das suas palavras?”
“Mas assim então, (nessa vida é bom perguntar para aprender, né?) onde é que me expressei mal? Só falei não me ignora mais, faz favor..."
“Não foi isso que você disse! Falaste ‘Não fica mais ignorante’”… Quer dizer, viste que é polícia, é porque não estudou, né?!”
“Oh, afinal o ignorante e aquele que ignora não é a mesma coisa? Vai-me desculpar, sô agente!"
“Aprendam bem o português, Ok?!”
“O português é traiçoeiro. Está a ver só, meu irmão? A pessoa ia só mesmo levar chapadas à toa, é no tal funeral do Camões que já não fomos…” 
(II)
“Pronto está desculpado. Mas também qual é a emergência afinal?!”
“É mesmo o Estado de Emergência, chefe!”
“Fez o quê?”
“O chefe está a ver aquele senhor aí de camisa azul? Vim fazer queixa contra o gajo…”
“Mas aqui no quintal do supermercado é para apresentar queixa?!”
“Ele ofendeu o Presidente da República…”
“João Lourenço mesmo? O nosso Comandante em Chefe?”
“É isso, chefe… Pode chamar só já o patrulheiro para lhe levarem em julgamento sumário…”
“Assim estás a sugerir ou a ordenar?! Mas ofendeu o Presidente? Falou o quê?”
“Por acaso não falou nada…”
“Escreveu o quê no facebook?”
“Não sei, chefe, não lhe vi no facebook dele…”
“Mas então ofendeu o Presidente no que tange a quê? Cantou RAP de insubordinação?”
“Não, chefe.”
“Filho da mãe! Mas você fumou cangonha ou o quê?! Não falas coisa com coisa, pá!”
“Me encostou meio metro... Quer estragar a minha quarentena...”
“E no quê que isso ofende o Comandante em Chefe?”
“Então eles não mandaram ficar em casa, lavar todo o dia as mãos com sabão, álcool gel e se dar distância? Esses dias nem namorar com as minhas pequenas estou a conseguir mais...”
(III)
“Ó CIDADÃO, TUDO BEM?”
“Boa tarde, senhor agente...”
“Recebi queixa de que o senhor furou as regras do Estado de Emergência... Procede?”
“Não, chefe. Eu estava na fila direita, aí olho assim, reconheci este aldrabão que me deve dinheiro e anda a me esquivar há cinco anos. Então tentei lhe cobrar...”
“Está a ver, sô agente? Na quarentena é de se cobrar?! A Ministra da saúde falou dois metros...”
“Isso é meu azar!!! E antes da quarentena pagaste o que deves? Agora se o Covid-19 te matar?”
“MAS O SENHOR ESTÁ OU NÃO A FALHAR COM A DÍVIDA ALHEIA?”
“Ele sabe que me deve, chefe. Anda a me fugir há anos. Está com truques. Hoje lhe reconheci.”
“Mas me reconheceste só porquê, se o outro está a usar máscara?”
Gociante Patissa | Benguela, 22 Abril 2020 | www.angodebates.blogspot.com
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terça-feira, 21 de abril de 2020

Do escritor brasileiro Francisco Carvalho | "ACÁCIA DOS MEUS QUINTAIS E OUTROS CONTOS MAIS" SAI PELA PENALUX


Acácia dos meus quintais - Editora Penalux
O escritor brasileiro Francisco Carvalho e a Editora Panalux, com sede em Guaratinguetá, São Paulo, promovem a obra “Acácia dos meus quintais e outros contos mais”, que pode ser adquirido link https://www.editorapenalux.com.br/loja/acacia-dos-meus-quintais . 


O autor de A Estranha Casa do Jabuti CascudinhoMeu Irmão, Meu Amigo, disponível para download no formado e-book recorreu ao Blog Angodebates para ajudar na divulgação.

Sobre o livro Acácia dos meus quintais e outros contos mais”, Daniel Zanella, editor do Jornal RelevO, escreveu o seguinte:

    “ Um cheiro de terra molhada, de jardim suspenso no abismo, um jeito de velhas estrelas e noites longas: Acácia dos meus quintais e outros contos mais promove um encontro de sensações, dos grandes dramas da vida e do tempo em meio aos rios pequenos e constantes: “e o relógio parecia mais preguiçoso do que nunca”.
     Os 13 contos de Francisco Carvalho apresentam personagens envolvidos em dramas de variadas gradações, com desconfortos entre existir na máxima potência e lidar com os pequenos desvios da vida, sempre querendo nos empurrar para fora, para longe. “Não bastasse a saudade, nunca achei seguro dirigir devagar, antes de o sol aparecer”. São sentimentos e paisagens, interiores e horizontes.
     As tensões de Acácia dos meus quintais e outros contos mais expõem um conjunto de belezas, a literatura como descanso, como motor lírico: “No céu azul de uma clara manhã de outono, o sol brilhava preguiçoso ao lado de algumas nuvens brancas que mais pareciam um bando de carneirinhos flutuantes”.
     Os personagens de Francisco Carvalho buscam a estabilidade, o equilíbrio, seja pelo amor, pela fé no divino, pela aproximação sacra de afetos. São anseios de calmaria, da felicidade dos amores e do crescimento das novas gerações. É que a vida, nos diz Acácia dos meus quintais e outros contos mais, a vida é também o canto triste dos pássaros e a mãe afagando o rosto da filha.”

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segunda-feira, 20 de abril de 2020

Lançamento em Luanda |“ESCRITOS DE QUARENTENA” DÃO CORPO À COLECTÂNEA DIGITAL


A imagem pode conter: textoVários autores e diferentes géneros dão corpo aos “Escritos de Quarentena”, uma obra literária no formato digital que será disponibilizada no sábado, 23/04, pelas 16 horas, no site da editora www.edicoeshandyman.com, para saudar o Dia Mundial do Livro.

Com 52 páginas, o livro conta com textos de escritores consagrados, entre os quais Cremilda de Lima, João Tala, José Luís Mendonça e Helder Simbad, ao lado de textos de novos autores. A iniciativa é do projecto editorial Edições Handyman, criada em 2018 por estudantes do Curso de Língua e Literaturas em Língua Portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto e que se dedica à publicação de e-books.

Conta já com três e-books disponibilizados no site da Revista Palavra e Arte, sendo eles, Revista O Fio da Palavra, em homenagem ao poeta Lopito Feijóo (2018), Antologia Poética Digital Nós e a Poesia, em homenagem ao poeta João Tala (2018) e a novela infato-juvenil A Palanca de Chifres Dourados, de Hélder Simbad (2019).
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(Download actualizado) a pedido de alguns interessados | 2+2 LIVROS PDF GRÁTIS DE GOCIANTE PATISSA (Contos. Literatura angolana)


(Download actualizado) a pedido de alguns interessados | 2+1 LIVROS PDF GRÁTIS DE GOCIANTE PATISSA (Contos. Literatura angolana)

Prezado/a leitor/a

Nestes dias complexos em que a humanidade atravessa limitações e privações por conta da pandemia do Covid-19, tomei a liberdade de contribuir com a ocupação positiva do seu tempo, disponibilizando algumas obras de minha autoria na versão digital/PDF não comercial. Clique no link para descarga imediata





Votos de boa leitura e continuação de dias seguros.
Gociante Patissa.
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domingo, 12 de abril de 2020

Just a question | UM ENFERMEIRO PORTUGUÊS NA EQUIPA QUE SALVOU DO COVID-19 O PRIMEIRO MINISTRO BRITÂNICO 

No discurso de gratidão após receber alta, o 1.º Ministro britânico, Boris Johnson, internado por agravamento do seu estado de infectado por Covid-19, ressaltou o serviço nacional de saúde do seu país, em especial dois enfermeiros que passaram 48 horas a cuidar de si, no momento crucial que podia dar tanto para sobreviver como para sucumbir entre eles um português, do Porto, chamado Luís. Este e uma enfermeira da Nova Zelandia tiveram o decisivo papel de monitorar a cada instante o equipamento de ventilação. Não seria demais, digo eu, que a imprensa portuguesa conferisse a este enfermeiro metade do destaque que dedicam ao futebolista Cristiano Ronaldo, considerando que ambos puseram o nome de Portugal nos lugares cimeiros das conquistas. Ou não?
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terça-feira, 7 de abril de 2020

Opinião | ABATE DE IMIGRANTES ILEGAIS? NÃO É POR AÍ, EMBAIXADOR NETO KIAMBATA! [actualizado]


O Embaixador Luís Neto Kiambata, proeminente figura da história de luta anti-colonial em Angola, um dos primeiros a liderar a Agência de Notícias Angola Press (Angop) na primeira república, é um fazedor de opinião que muitas vezes bate o seu próprio recorde pela virulência no verbo. No músculo também, literalmente, reza a história. É-lhe atribuído um embaraço diplomático por conta de uma eloquente bofetada por si administrada a um jornalista português, já lá vão décadas. Mas o assunto hoje é outro.

"Será que os 2 mil Km de fronteira que temos com o Congo Kinshansa (RDC) estão todos controlados? Acho que não! Eu defendo que aqueles que atravessam a fronteira ilegalmente e nos expõem ao risco do Coronavirus deviam ser abatidos! É matar, porque a situação é grave", cito de memoria com elevada repulsa as palavras do Embaixador Kiambata, proferidas ontem via telefone no espaço da Televisão Pública de Angola dedicado à conversa com especialista.

Foi a seguir à Conferência de imprensa para o ponto de situação da Comissão Interministerial de combate ao Coronavírus, a qual deu a conhecer o registo de mais um caso positivo de infecção pelo Covid-19, perfazendo 17 casos, dos quais dois óbitos e duas recuperações. Curiosamente, todos “importados” através de voos vindos de Portugal e Brasil.

Mais adiante, o ancião sugeriu às autoridades a adopção da tortura com chicotadas no rabo de quem trespassar a fronteira. E o que não falta ao diplomata é a ideia bem clara de como administrar tais chibatadas migratórias focadas nos glúteos: em público!

Quero acreditar que tenha sido um pronunciamento a quente e que amanhã já terá um discurso mais comedido. É de resto o mesmo optimismo com que muitos de nós digerimos a metáfora do Ministro do Interior, Eugénio Laborinho, quando confrontado com queixas sobre casos de excessos de zelo por parte das forças ordem, no contexto do Estado de Emergência. Ao mesmo tempo que se desculpava, o Ministro cuidou de esclarecer – na verdade desenganar gulosos em doçaria – que a polícia não está na rua para distribuir rebuçados… e nem chocolates.

Voltando ao Embaixador Kiambata, não sou propriamente adepto da visão expansionista segundo a qual a pessoa deve sentir-se pertencente ao lugar geográfico que goste/ame ou seja do seu interesse, apenas por assim ser. Desde logo porque é uma narrativa injusta e desproporcional, sobretudo olhando para a história da humanidade. O mesmo se aplica a qualquer outra proveniência. Se é para cumprir as leis do Direito Internacional, pois então que assim seja, com todos os critérios objectivos que regem as nações.

Não posso, contudo, deixar de manifestar indignação perante uma sugestão tão radical como esta do Embaixador Neto Kiambata, que pelos motivos óbvios tem responsabilidades acrescidas na formação da mentalidade e consciência cívica. Bastaria lembrar que Angola é contra a pena de morte e não se pode fazer apologia ao abate de seres humanos, nem dentro nem na fronteira.

À anfitriã do programa, Nadir Ferreira, dou igualmente uma nota negativa por não ter rebatido logo a opinião do seu interlocutor, demarcando de imediato a estação pública de uma tal diatribe, quanto mais não seja por se tratar de uma figura tida como herói nacional (ainda jovem, na era colonial, Kiambata e um correligionário tiveram a proeza de desviar um avião  de carreira, com tiroteio e tudo, rumo a um dos Congos onde se juntaram a outros combatentes pela liberdade).

Precisamos de frieza nas análises e não perder de vista o essencial, nomeadamente a observância das medidas de prevenção e o repensar das nossas políticas migratórias.
Repito, matar para prevenir a morte, em contexto de saúde pública, não faz o menor sentido.

Gociante Patissa (escritor e jornalista) | 07 Abril 2020 | | www.angodebates.blogspot.com
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terça-feira, 10 de março de 2020

áudio | PALAVRAS E TEXTOS entrevista escritor e jornalista Gociante Patissa, Rádio Nacional Angola 29.2.2020


Conversa descontraída conduzida pela jornalista Elione Falcão, tendo como convidado o escritor e jornalista Gociante Patissa. A conversa incidiu na produção literária, representação das várias línguas/grupos étnicos na literatura angolana, problemática do livro, no papel da rádio, entre outros assuntos. Realização de João Pedro, técnica de som de Falcão Tomás. A frequência é 93.5 FM, programa emitido em directo das 09-10h. Obrigado. Trilha sonora: Derito Tavares, Carlos Albano e Carlos Lopes

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GOCIANTE PATISSA, O ESCRITOR E A ÉTICA, artigo de opinião de Adriano Mixinge, publicado hoje na página 7 do Jornal de Angola, edição de 3 de Março, 2020

Conheci-o já há alguns anos através do seu blog, a que os interessados podem aceder no site https://angodebates.blogspot.com/: é dos poucos que tem um blog.
 Gosta das palavras e trabalha com elas, mas não é fanfarrão, nem aparece só para dar nas vistas. Por conseguinte, não tem aqueles tiques dos escritores convencidos de uma suposta genialidade que surge, como diria Hegel, por “geração espontânea”: confia na disciplina e no trabalho oficinal, que exercita sempre que pode.


Tem uma voz talhada pelos anos em que fez rádio, uma forma de estar e uma personalidade atendendo a serenidade e, como descobri há dias, com largos e intensos momentos de sentido de humor fino, apurado e surpreendente. Não utiliza a literatura como um meio para atingir um fim inconfesso, obscuro ou politicamente insosso: a literatura é, para ele,qualquer coisa que nos pode transportar para outros lugares ou, quando menos, pode fazer-nos pensar a sério. Produz tanto com regularidade como com uma qualidade digna de realce e acima dos níveis habituais entre muitos dos escritores e intelectuais angolanos. Daniel Gociante Patissa é o seu nome.

Os seus três primeiros livros tiveram géneros literários diferentes: o primeiro foi de poesia, o segundo foi de contos e o terceiro foi uma novela. O escritor tem oito obras publicadas, designadamente, “Consulado do Vazio”(Kat Editora. Benguela, 2008), “A Última Ouvinte”(UEA. Luanda, 2010), “Não Tem Pernas o Tempo” (UEA. Luanda, 2013), “Guardanapo de Papel”(Nós Somos. Vila Nova de Cerveira, 2014), “Fátussengola, O Homem do Rádio Que Espalhava Dúvidas”(Grecima. Luanda, 2014), “O Apito Que Não Se Ouviu”(UEA. Luanda, 2015), “Almas de Porcelana”(Editora Penalux. São Paulo, 2015) e “O Homem Que Plantava Aves”(Editora Penalux. São Paulo, 2015), para além de nove participações em antologias, algumas das quais publicadas em Portugal e em Moçambique.

No entanto, foi na quinta-feira última que o escritor Daniel Gociante Patissa (Benguela, 1978) pela mão de Cíntia Gonçalves conversou com os leitores, na primeira sessão deste ano do programa “Textualidades”, organizado pelo Memorial Dr. António Agostinho Neto (MAAN). Quem não esteve, saiba que perdeu uma boa oportunidade para conhecer melhor a vida do escritor e o transfundo do que está na origem e nas circunstâncias de algumas das suas obras, desde o acto criativo, passando pelas histórias de vida até chegar às voltas da criatividade, das línguas e da imaginação.

Ele é licenciado em Linguística, especialidade de Inglês, pelo Instituto Superior de Ciências da Educação da Universidade Katyavala Bwila. É membro efectivo da União dos Escritores Angolanos e colaborador do Jornal Cultura, da Edições Novembro. Foi distinguido com o Prémio Provincial de Benguela de Cultura e Artes 2012, na categoria de Investigação em Ciências Sociais e Humanas “pelo seu contributo na divulgação da língua local umbundu, na perspectiva das tradições orais, através do conto e das novas tecnologias de Informação e Comunicação” lê-se, na badana do seu último livro.

Na quinta-feira passada, além de ter-nos feito rir fartamente durante a hora e meia que durou a sessão, Gociante Patissa não evitou nem os temas candentes, nem os delicados, e nuns e noutros não caiu em lugares comuns. Quem o lê atentamente dar-se-á muito facilmente conta que a sua relação com a oralidade e com as línguas é mais dinâmica do que a mera tradução de uma para outra, do umbundu ao português.

Quando pouco antes da conversa formal com a Cíntia, entre as poltronas da sala de conferências do Memorial Dr. António Agostinho Neto, numa daquelas cavaqueiras que servem para distender e amenizar os momentos prévios à conversa com o público, ouvimos o Gociante Patissa falar em ética, sem retórica enfadonha nem com tantos malabarismos verbais, mas sim como algo simples e vital que deve estar em tudo que fazemos identificamo-lo como um “dos nossos”.

O escritor faz a ética estar presente tanto na sua escrita como na sua vida, vivida ao calor de experiências em organizações não-governamentais e apoiada numa consistente atitude de cidadão avisado: ele sabe que só haverá uma transformação positiva da literatura angolana actual e a do futuro se o acto criativo, no geral, e a escrita literária, em particular, forem, sobretudo, exercícios de verdade e de sincero comprometimento com os homens daqui, com estes nossos lugares, com a estética no seu sentido mais amplo e com as noções de beleza que inventarmos.

Neste sentido, pelo seu engenho, “O Homem Que Plantava Aves”, o conto que dá título ao seu último livro está, certamente, entre os contos mais interessantes que alguma vez eu tenha lido. Por todas estas razões e outras que, espero, o leitor descobrirá quando o ler recomendo seguir atentamente a obra e o percurso de Gociante Patissa.

Adriano Mixinge 
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POR ACASO MORRI BEM (Poema inédito)

POR ACASO MORRI BEM (Poema inédito)

Morri na semana passada
Dum jeito que seria sempre o mais aconselhável
Caso justa a vida fosse feita para ser
de motu proprio
Gabo-me a proeza
Por acaso morri bem
Salvo seja
À imagem das promessas do doutor

Em poucas linhas resumo o insólito
Cruzei-me com a morte
À hora que quis
No lugar que marquei
Apagão suave
Distante da agenda de perdida bala
e do tumulto
E da lei por baixo do tacão do fardado da sentença capital
a granel
E do livre arbítrio do meliante
E do rodoviário sinistro
Fio Luanda das missangas
Zamba 2 - Maianga! Maianga-Zamba 2 a sair, padrinho!!!

Na semana passada morri
Dum jeito que seria sempre o mais aconselhável
Desacompanhado
Com tempo para olear a espiral de medos
Todos eles
Algures no estômago
Bastou uma picada
Para curar o mundo
Das pandemias e dos leaks
Nada ouvi nada senti nada vi
e pensar que tantos meus vi partir…
Quem dera diluir a passagem pela Terra
Numa endoscopia...

Gociante Patissa, 10 Março 2020 | www.angodebates.blogspot.com
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sábado, 1 de fevereiro de 2020

Crónica | OMS ADVERTE, EMOJI AMARELO TRANSMITE CORONA VÍRUS

Image result for oms corona virus"Quando há 15 anos Angola e a República Democrática do Congo (RDC) foram assoladas pelo surto do vírus de Marburg (responsável por um vendaval de óbitos), repudiamos a "insinuação ocidental" segundo a qual a doença resultava dos hábitos alimentares dos africanos, especificamente do comer carne de macaco (racismo, exotismo!).

As províncias do norte de Angola foram na época as mais abaladas, dada a sua localização fronteiriça com a RDC. A realidade da resposta sanitária local, contrária à vontade e ao optimistmo das autoridades, é sempre frágil no começo, por se tratar de epidemias esporádicas. Nestes casos, surgem sempre em quantidades enormes as receitas alternativas de tratamento caseiro, para os bem-intencionados primeiros socorros, arraigados no legado da cura pela natureza, algumas vezes de si uma perda de de tempo.

Recordo que se falou de uma província onde muitos doentes acabaram por sucumbir por falta de creolina, desinfectante que entretanto a província tinha em armazém. E por lá continuaram por muito mais tempo confinadas as unidades de creolina, quando mais se precisava delas para salvar vidas. Tudo pela simples, diremos pueril, razão de o Director Provincial da Saúde e o Director do Hospital não se suportarem no ego e no feitio. Enfim, hoje a PGR se calhar teria algo a dizer.
E quis a história que 2020 abrisse com catástrofe para a China e por arrasto para o restante globo. O carrasco responde pelo nome combinado de corona vírus. Valha-nos a "sorte" de ter havido em Angola apenas um caso de suspeita de infecção, entretanto já descartada, com a anunciada alta do oriental que andou sob os cuidados médicos na Clínica Girassol.

Ainda assim, é com certa reserva que noto que hoje já, perante o corona vírus, lá estamos, do alto da curta memória, nós os angolanos, a engrossar o coro: 'esses chineses quem lhes manda comer carne de morcego e tudo o que se move?!' (Oh, pensar assim já não é racismo, exotismo?!) Em face do pânico e do desdém pelo chinês, receio que alguns vão deixar de usar emojis amarelos, só para garantir... Daí a evocar a OMS (Organização Mundial da Saúde) para credibilizar a fake, difícil não será.

Só para que conste, por acaso até não sou favorável à presença chinesa em Angola (a preferir, eu preferia, sem sair do continente asiático, os japoneses). É de modo geral um povo com cujo contacto não ganhamos quase nada (nem no intercâmbio cultural nem em valores nem em transferência de know-how, nada. Eles dão e levam literalmente tudo de volta). Julgo mesmo que o crédito chinês, que terá sido indispensável no momento particular da nossa história, é uma penhora da qual nos iremos arrepender amarga e prolongadamente.

Gociante Patissa | 01 Fevereiro 2020 | www.angodebates.blogspot.com (imagem ilustrativa: youtube)
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TV-ANGODEBATES

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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