segunda-feira, 31 de maio de 2021

A ORIGEM DO NOME LUSATI: Um pouco de antroponímia umbundu aproveitando a moda

 1. NO PLANO DA GRAFIA OU SÍMBOLO

Em termos de grafia, inclino-me para a forma convencional das línguas bantu, isto é, LUSATI [lu-sa-ti], pois o S entre vogais nunca ganha valor de Z, ao contrário do que ocorre nas línguas europeias. Neste caso, LUSSATI seria uma corruptela derivada da confusão que subsiste com a dupla norma para uma mesma língua, coabitando a convenvional bantu (adoptada pelos evangélicos/protestantes) Vs a católica (apadrinhada pelo regime de então durante a dominação colonial portuguesa).

Também não é correcto grafar LUSSATY, colocando Y para representar o fonema /i/ se tivermos em conta que as semi-vogais Y e W servem para fazer hiato, ou seja, quando a letra U é sucedida de uma vogal, ganha a forma de W, o mesmo se dando com o I sucedido de vogal, que se metamorfoseia em Y. (Ex: "owanda wayuka cokuti!" ou seja, a rede veio tão carregada! Repare-se que no adjectivo "cokuti", precisamente porque o i é final, não usamos Y, pois nesta posição estará mal empregue.) 

2. NO PLANO METAFÓRICO

Socorremo-nos do levantamento do académico Francisco Xavier Yambo. 2003, pág 67, in “Dicionário Antroponímico Umbundu”, selo da Editorial Nzila, segundo o qual nome LUSATI:

"deriva de OLUSATI, resto de um milheiro cortado em crescimento e sem possibilidade nem de crescer nem de morrer. Dá-se à criança que nasce sem ter encontrado o seu pai. A morte do pai foi prematura ao ponto de não conseguir ver o fruto da sua existência. Pode ser também para aquele que além de não encontrar o seu genitor , venha a perder a mãe logo após o parto."

3. NO PLANO DAS VARIAÇÕES REGIONAIS

A língua umbundu, que caracteriza como a própria radical diz o grupo etnolinguístico Umbundu, oriundo do planalto central e em parte no litoral (seis das 18 províncias), o que representa demografiamente 1/3 da população angolana, pode ter beneficiado em termos de expansão com os anos de guerra civil, quer pelo êxodo rural em busca de melhores condições de vida, quer pela adopção da língua como senha identitária por um dos movimentos com poder de ocupação de territórios ao longo de décadas no sul, leste e no norte, falo da UNITA. 

Não surpreendeu, pois, que 2002, por exemplo, as imgens do programa Nação Coragem, da Televisão Pública de Angola, exibisse a partir do considerado enclave de Cabinda, extremo norte e sem ligação terrestre interna, um exército animadíssimo a entoar com dicção a um nível nativa cantares populares umbundu.

Sendo já factual que não existe Umbundu padrão, como não existe padrão de língua nenhuma senão uma falácia com apatênmcias de imposição etnocêntrica, podemos acrescentar que o singular de milheiro cortado ou da palha, dependendo da variante, à medida que se deixa o planalto central (Huambo e Bié), pode adoptar outras grafias e pronúncias. No interior de Benguela, por exemplo, o singular pode tanto ser OLUSATI ou OCISYATI [otshi-shati] e consequentemente o plural OVISATI ou OVISYATI. E se ouvir dizer que alguma menina se chama Shatinha, de nome próprio, não porque lhe os pais lhe augurassem mau feitio, chatice ou coisa parecida; tratar-se-á do diminutivo de Olusati ou Ocisyati.

4. NO PLANO DOS HÁBITOS ALIMENTARES

Sendo o pirão de milho a principal refeição (entenda-se mesmo diária ao almoço, jantar e até ao matabicho) entre os Oviumbundu, será de imaginar o simbolismo de vitalidade imanente em tudo o que envolva o processo de produção, colheita e transformação do milho. 

O milho dá o pirão (ou funji, aqui para introduzir um termo da região etnolinguística ambundu, do norte) que é degustado com molho de verduras, feijão, peixe ou carne. Mas o milho deriva também na ocisangwa (ou kisângwa, outra vez para usar a terminologia do norte, onde o prefixo CI [tsi] passa a ser ki). 

Ocisângwa, cujo valor falamos em tempos enquanto cartão de hospitalidade com que uma dona de casa se revela proveniente de bom berço, é também a bebida sempre presente na execução de empreitadas, pelo seu poder de saciedade, para além do efeito diurético. Não entrarei para o mérito da chegada e introdução do milho na vida dos africanos mais remotos e da motivação, segundo vários pesquisadores, de encher de energias a força de trabalho mal pago.

Daí que quando no outro dia ouvi falar em "mingau", iguaria da gastronomia da Bahia, no Brasil, o Estado mais africano naquele país por conta do secular tráfico de escravos, procurei logo saber se entrava o milho nos ingredientes, ao que me foi respondido que sim. Porquê? Porque ONGAU é como se designa a primeira refeição em Umbundu, de maneira que a saudação equivalente a Bom dia é precisamente NANGAU! No meio rural, muitas vezes este ongau consiste em assar sobras de pirão da noite anterior.

Gociante Patissa, Luada 31 Maio 2021
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domingo, 30 de maio de 2021

Administração Municipal da Baía Farta com dados históricos equivocados sobre as comunas?


O estudo da Universidade Agostinho Neto (UAN) sobre "Cadeia  produtiva  do  tomate  na BaÍa Farta",  de 110  páginas, realizado em 2014, parece apresentar dados deturpados na secção do histórico das comunas da Equimina e Kalahanga, no que se refere ao exercício do cidadão Victor Manuel Patissa (meu pai). É de resto uma deturpação já em tempos estampada numa das revistas da edilidade, edição confiada à empresa do meu amigo Miguel Arcanjo. Diz o Estudo da UAN, induzido pela fonte, a Administração Municipal da Baía Farta, que o patriota Victor Manuel Patissa teria voltado a representar o Estado na comuna da Equimina de 1995 a 1996, onde estivera antes como Comissário comunal de 1986 a 1989. Se bem me lembro, Victor Manuel Patissa, que chegara da comuna da Chila, município do Bocoio, a qual governou de 1981 a 1986, altura em que foi convidado a frequentar a Escola Provincial do Partido, teria sido colocado talvez em 1987 na comuna da Equimina. Seguir-se-ia a espinhosa missão de repor a Administração do Estado na comuna da Kalahanga em 1991 mas com o eclodir da guerra pós-eleitoral (1993), a estrutura administrativa teria recuado para funcionar provisoriamente na comuna do Dombe Grande, sendo que por volta de 1995 o velho teria sido exonerado e transferido para a Administração Municipal da Baía Farta, colocado em posição a seu ver incompatível com o seu valor e entendimento dos lobbies do partido, desenhando-se a partir dali o ostracismo. Não me lembro de ter frequentado o palácio da Equimina duas vezes nesta vida 🙂 É como disse no outro dia, o MPLA precisa, enquanto partido-governo, de se reconciliar com a memória dos pequenos (os glorificados, os ostracisados, os vivos e os mortos), apostando na actualização e preservação da sua história nas bases. Haverá pouco de vantajoso em ver um município que nem uma simples cronologia dos patriotas a quem confiou a representação da Administração do Estado tem minimamente organizada. O esquecimento sectário é também uma forma de violência histórica!

Daniel Gociante Patissa
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domingo, 16 de maio de 2021

Sondagem


 

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sábado, 15 de maio de 2021

Crónica | BENGUELA 404 ANOS ENTRE O PÃO E O CÃO

A primeira imagem que me ocorre quando penso na cidade de Benguela por estes dias seria a de um Peugeot 404 (modelo fabricado entre 1960 e 1975), mas já velhinho e resiliente, que à medida que circula vai deixando cair uma ou outra peça, estoira a pintura, um pneu que lhe fura mesmo estando na condição de socorro. Só que esse Peugeot 404, sem arranque, segue a marcha (porque vale no seu conjunto) mesmo quando os ponteiros do calor do motor beiram níveis de alarme. Deve ser porque a 17 de Maio, Benguela, ou cidade de São Filipe, completa 404 anos de fundação (oficial). 

E como município sede, a aura da Ombaka cobre os restantes, considerando que, tal como o corpo humano, a ordem territorial opera na lógica de sistema, onde unha e cabelo, se quisermos litoral e interior, concorrem para o mesmo fim, que é ou seria o bem de todos, todos enquanto sujeitos e objectos. Daí que prevaleça o sonho da representação integradora e de paridade cidade-campo.

 

Celebramos o quê? Este seria o ponto de partida em cada ciclo, colocando o sentido epistemológico num patamar superior ou no mínimo equitativo em relação ao lúdico, à merecida farra, do reencontro de kambas. Impõe-se até mesmo para honrarmos a nossa história, como postula o hino nacional, a passagem de testemunho entre gerações, colocando a análise e a solidez do conhecimento sociohistórico à frente da tradicional emoção regada com o bom das nossas bebidas espirituosas e do bom kitute. 

 

Aonde queremos chegar? Do ponto de vista académico, incentivos precisam-se para não apagar a chama do debate de ideias, buscando na divergência e na robustez do argumento o conhecimento de nós mesmos. Há que considerar as sensibilidades e subjectividades que existem, aparentemente abafadas pelo politicamente correcto transgeracional. É preciso ouvir os que discordam da data de 17 de Maio, na lógica de que se festeja a victória do invasor Cerveira Pereira sobre a resistência dos povos encontrados. O que existia antes disso e que figuras africanas de relevo merecem memória?

 

Há que ouvir aqueles que defendem a recolocação das estátuas do poder colonial à entrada de edifícios oficiais (em nome da história), ouvir quem acha que a independência não valeu a pena, do mesmo jeito que se precisa ouvir os que advogam uma perspectiva mais nacionalista e de rotura. O pior que nos pode acontecer é termos um lugar só lembrado pelo azul do mar e pelas camas de hotel. Ah, feliz a nova geração que não tem de sentir na pele a latente teia “das famílias tradicionais”, rótulo por meio do qual o complexo de superioridade conferia a uma elite, intocável, o pódio sobre o cidadão comum.

 

Urbanismo ou humanismo? A pergunta parece capciosa, e é, pois não seriam mutuamente excludentes as proposições. Mas no contexto de Benguela, ainda mais agora que circulam prospectos de uma praia morena plástica, impõe-se ressignificar as prioridades de desenvolvimento. Como cantou Teta Lágrimas, diríamos “Benguela, já foste linda, mas temos esperança ainda.” Porém a atracção do turista pelo prisma do revivalismo não deverá sobrepor-se à premente necessidade de requalificação da periferia, do saneamento básico, da melhoria das condições das escolas e dos hospitais, da iluminação. Há que humanizar as prioridades da governação, e aí pouparemos no coartem e no soro. “Cilanda ongombe citunda vonjo”, diz o adágio umbundu que o recurso com que se compra o boi parte de casa.

 

O pão ou o cão? Recorremos à literatura para lembrar a fábula da cigarra que se vê à beira de morrer de fome e decide pedir socorro à formiga, no que ela pergunta o que andou a faminta a fazer na época seca, quando deveria trabalhar. Como respondesse que andou a cantar, a formiga atirou: pois agora dança! Voltando a Benguela em festa, há que olhar para o parque empresarial privado nacional que fecha estabelecimento a cada dia, redundando no poder de compra das famílias e no investimento em cães de raça para se protegerem do ladrão, uma vez a outra empurrado para ali pelo pão.

 

Este ano, muitos de nós estarão privados de olhar e subir neste Peugeot 404 velhinho, já sem arranque, que é a cidade de Benguela, muito por conta da pandemia. Mas há que empurrar, há que marchar!

 

Gociante Patissa | Luanda 11 Maio 2021 | www.angodebates.blogspot.com

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domingo, 9 de maio de 2021

Para ouvir e descarregar PALAVRAS & TEXTOS Angola Brasil 08.05.2021

A quem possa interessar, a edição de ontem do programa PALAVRAS E TEXTOS, na RNA, pode ser escutado neste link https://www.mixcloud.com/upload/gociante-patissa/palavras-textos-r%C3%A1dio-nacional-de-angola-com-abreu-paxe-gociante-patissa-e-kaio-carmona-080521/complete/

Para download da emissão de ontem do programa PALAVRAS & TEXTOS na Rádio Nacional de Angola, deixo aqui o link do wetransfer válido para 7 dias a contar de hoje https://we.tl/t-8mjafCMiZs

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Académico pede valorização das danças de origem bantu

Sampaio Júnior | Benguela | Jornal de Angola, 09.05.2021

 

A valorização das danças bantu e pré-bantu passa por uma investigação mais profunda do actual património imaterial, defendeu, ontem, em Benguela, o académico Gociante Patissa, para quem é fundamental enaltecer a profundidade identitária destas.

 

Actualmente, criticou, os jovens criadores se têm limitado a criar grupos da cidade, que replicam algumas das danças do interior da província em eventos festivos, inaugurações ou no Carnaval. “A questão da dança e da cultura popular, como tal, demanda políticas de Estado, no sentido não só da recolha mas também da compreensão antropológica da maioria destas”, defendeu.

 

Para o académico, é importante valorizar o mosaico etnolinguístico nacional, considerando como tal todas as sensibilidades culturais. “Temos de saber entre os Khoisans, por exemplo, quais são as manifestações culturais mais usadas em certos actos, como forma de evitar o desaparecimento de uma parte fundamental do vasto mosaico cultural angolano”, apelou.

 

Outro exemplo apontado por Gociante Patissa são os vahanya, povos que habitam a região de Catengue até Chongorói, incluindo o Cubal, Caimbambo e parte da Ganda, cujas danças de maior relevo são vistas em certas ocasiões, como no ritual de circuncisão, no nascimento de gémeos, ou quando evocam os deuses para que chova. “O essencial agora é estudar, a partir da raiz, com os anciãos que ainda existem, as aspirações e provérbios subjacentes à maioria destas danças”.

 

Iniciativas como o Festival Nacional de Cultura (Fenacult) precisam de ser mais valorizadas, para o académico, assim como considera importante a criação de políticas de incentivo, tipo bolsas de investigação cultural, aos pesquisadores residentes, de forma que estes estudem os instrumentos, as coreografias e os ensinem no sistema de ensino e as novas gerações possam se identificar com outras formas de cultura, “não apenas a de massas, como o kuduro, ou a kizomba”.

 

“As danças, no contexto matricial, não se dissociam da forma de ser e de estar de um todo. O risco que se corre não investindo na investigação para estudar a História e o contributo da dança na preservação de valores e até nos processos de libertação pode ter consequências internacionais no futuro”, frisou, apontando como exemplo deste fenómeno de usurpação a capoeira, que hoje é universal sob a bandeira brasileira, “quando afinal é originária de Angola e levado a outros países pelo tráfico de escravos”.

 

Variedades

A província de Benguela, contou Gociante Patissa, tem uma variedade de danças folclóricas locais, dentre as quais o destaque vai para olundongo, onyaco, ocipwete e ukongo. Muitas delas, disse, acabam por ser pouco valorizadas. “É no campo da dança que as políticas culturais menos têm conseguido acertar, mantendo sobre elas um olhar de meras manifestações de animação de eventos, como no passado, na visão exótica colonial”, lamentou.

 

Atento ao fenómeno cultural, Gociante Patissa adiantou que as danças folclóricas representam um conjunto de actos sociais, peculiares de cada região e em Benguela era usada em antigos rituais mágicos e religiosos. “As danças consideradas folclóricas, um conceito discutível e para muitos académicos pejorativo, em virtude de estabelecer uma linha divisória entre o que é moderno (e oficializado) e o que é popular (no sentido de antiquado), representam na verdade uma f o r m a d e e x p r e s s ã o e conexão espiritual de muitas sociedades africanas com os antepassados, a natureza e a projecção do universo”, explicou.

 

Anos 80

Para o narrador cultural Manuel Matias, a dança em Benguela atingiu o expoente máximo nos anos 80, com o surgimento de vários grupos e estilos, como tchipuete, ekoia, lundungo, sendeka, buluganga e chilombonde. Na altura, contou, havia palcos, também, para as músicas europeias e americanas. “Naquela época, com interesse de massificar e preservar a arte da dança, a direcção da Cultura da província muito apoiou e acompanhou os grupos, capacitando-os por via do trabalho de alguns activistas e dinamizadores da dança”, destacou.

 

Gigante

Entre os grupos de grande referência da província, os Bismas das Acácias são um dos gigantes locais adormecidos, que já efectuou digressões pela África e Europa, onde mostrou a grandeza do folclore nacional. Com um vasto repertório demonstraram, pelo talento e técnica de actuação ritmada com cânticos folclóricos, o valor da cultura angolana. Com a Covid-19, as exibições do grupo ficaram muito restritas, assim como dos 121 grupos de danças folclóricas e 33 modernos registados na província.

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sexta-feira, 7 de maio de 2021

EXPOSIÇÃO ABERTA À EXMA SENHORA MINISTRA DA SAÚDE


Exma. Senhora, njali yetu Sílvia Lutucuta,

Ndukulamiosapo lensanju, lusondi Kwenda esumbilo.
Cumpre-me adiantar que não vou escrever muito, mas era só para manifestar a minha tristeza por não contemplarem a minha classe nas prioridades de vacina. É que, Exma., considerando que sou xará do meu avó nascido na década de 1920 e, à parte isso, vi nascer e morrer cada personagem dos 8 livros que dei à luz, considero-me muito mais em grupo de risco do que o Secretário de Estado Mufinda, jovemzinho, cheio de energias, bem apessoado e quê e tal. A actividade de imaginação e recriação do mundo é uma cormobilidade por inerência, Dra, como doente anda a humanidade.
Exma, senhora Ministra, os médicos e demais profissionais abnegados de saúde precisarão de quem os mantenha vivos e eternos por meio da memória e da escrita. Isso diz quem um dia se sentou na carteira para promotor de saúde rural.
Estive no Mutu e fui competentemente barrado, tentei no Pazflor à sorte e me xotei sozinho, que de filas incertas já me bastaram as do PAM no tempo da penúria quando iamos implorar por um prato de comida. Estou recolhido em casa feito rato na toca, à espera que a cobra da pandemia não me alcance.
Aguardando uma cunhazinha aqui colocada em pratos limpos, despeço-me com consideração.
Daniel Gociante Patissa
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domingo, 2 de maio de 2021

O MAL DO POEMA (poema inédito)

 O MAL DO POEMA (poema inédito)

 

Ciclos

Do alto de cá, meu camarada

Onde me quedo

Furto as impressões digitais

Ao lençol freático

Na gélida esperança de te apalpar

A mão de semear

A enxada de arar povo

Melhor já

Que em Julho o frio 

Por ventura greta laços

 

Ciclos

O relógio marca

Sete e cinco

De um lado

No condicional

Digo individual

Do outro também 

Sete e cinco

Na aspiração

Telúrica 

Utópica gangrena

Digo 

A ardósia sem giz

Ou tu, camarada

E o colo que não mais há

 

Ciclos

O mal do poema

Meu pai 

É roubar a última sílaba

À lágrima

Depois ainda há Julho

Há o não lugar

Do irmão alfaiate à parte 

 

Ciclos

És sete e cinco

Que dobra

Que te dobra

Bem aventurados 

os que contar

não sabem 

 

Gociante Patissa | Luanda, 01 Maio 2021 | www.angodebates.blogspot.com

 

 

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segunda-feira, 26 de abril de 2021

Henrique Ferreira. Tão cedo, tão duro

Acabo de me aperceber da morte (por suicídio) do senhor Henrique Ferreira (ango-luso), formador profissional que muito nos foi útil ao tempo em que realizei e conduzia o programa semanal de mesa redonda e opinião “viver para vencer”, entre 2006-2011, em modalidade de aluguer de espaço de antena na Rádio Morena Comercial, ao serviço da AJS (Associação Juvenil para a Solidariedade), ONG à qual demos vida ainda na casa dos 21 anos. Uma das dificuldades que a equipa de produção que coordenei enfrentava, como de resto é apanágio em Angola, é convencer as fontes, quer pela cultura do medo (do micro e não só), quer pelo argumento de interrupção da produtividade durante a hora e 45 minutos que se “perdia” em ambiente de estúdio. Henrique Ferreira esteve sempre positivo e de um raciocínio bastante fluído em temas ligados à cidadania, à saúde pública e ao empreendedorismo/vocação profissional. A partida do mentor do centro de formação profissional CFG enluta o Lobito, cidade onde viveu, e a classe empresarial da província de Benguela. Não é assim que se morre, ilustre, tão cedo, tão duro. Eterno abraço

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domingo, 25 de abril de 2021

EMPRESTE MAIS UM COXE DO SEU MEDO (poema inédito)

 EMPRESTE MAIS UM COXE DO SEU MEDO (poema inédito)

 

Elevo-te outra vez 

Não sei se elevo ou rebaixo

Tão ambígua é aura de leitora

Outra SMS interesseira

Não é que me queixe, mãe

minha tão enorme mãe

É só que entre mim e a vida 

Grassa uma noite

Espessa, densa, uma noite, noite 

Não é que algo eu peça, mãe

Minha tão graciosa mãe

Nem te critico as ramelas

O ranho que secou pelo buço da irmã

 

É esta noite que me inquieta

noite caiada de números

Centenas e centenas ao dia

Sei soldar, mãe

Não sei é contar, confesso

Hoje, embrulhado o comer

Sol insinuando Miami Florida

Calcei as chinelas e saí

Levantei-me, corrijo

Em pleno dia caiu a noite

Curto ficou o roteiro

Cinco passos, se tanto

Que passear hoje em dia 

É conforme a luz Sílvia incide

Não vá o breu pegar-nos

A gente veste e se perfuma para caminhar

Da mesa para a cama

 

E a noite não saciada

Infla-se na voragem

De segunda vaga

Dois médicos na eterna viagem

Custa-me admitir, mãe

Por esta capital da máscara ao queixo

Sou o frágil andante

Prendo-me à única armadura 

A bênção, minha mãe

E nada mais lhe peço senão

Que me empreste um pouco 

Um só coxito mais

Daquele seu medo, aquele da kitota

Pode ser que sirva

Pode ser que viva

 

Gociante Patissa | Luanda 25 Abril 2021 | www.angodebates.blogspot.com

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domingo, 18 de abril de 2021

DEVEM OU NÃO OS PORTA-VOZES FALAR PARA A IMPRENSA QUE NÃO LHES SEJA AMISTOSA?

Como formando de comunicação institucional foi interessante observar na prática, hoje, a partir dos bastidores, o media/public speaking em situação de ambiente hostil, tendo como laboratório a Rádio Despertar Comercial FM (pertencente ao partido Unita), com o debate acalorado de hora e meia no programa “Angola e o Mundo em 7 Dias”, onde o painel de quatro elementos esteve integrado por um representante do partido Mpla. Os temas giraram em torno da crise do lixo em Luanda, da situação da Covid, da razoabililidade do termo “doação” do Presidente da República para socorrer os sinistrados pela praga de gafanhotos no Kunene, entre outros. Em termos gerais, fez diferença a postura ideologicamente “não engajada” do moderador, que acolheu as chamadas de atenção do participante “isolado” para assegurar que os contendores se cingissem aos tópicos e que fosse concedida equidade no tempo de intervenção. A experiência confirmou na prática a teoria de comunicação institucional segundo a qual os porta-vozes não devem excluir órgãos de informação que não sejam amistosos à sua instituição.

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sábado, 17 de abril de 2021

TRÊS VIDAS PRESSA MULATA QUE AÍ VAI (poema inédito. Para Karina)

 TRÊS VIDAS PRESSA MULATA QUE AÍ VAI (poema inédito. Para Karina)

 

Ia a mulata a passar 

Como gente como nós

Pessoas, só pessoas

Banais existências

Sem notícias

 

Na cabeça da gente

Punhado ocioso

movidos à puberdade

A mulata que passava

Desfilava as culpas com que se cosia

Do cabelo ao pé

 

Aquela mulata que passava

E nos preenchia os olhos

Merecia castigo

Imediato

Sabia-se lá porquê

 

Aquela mulata que passava

Despertando sintomas de Freud

Encarnava carcaça

Do oco sensual TV

Desempatiado militante

Num ano que não era ano

Mundo feito dominó

Guerra biológica não declarada

Microfone pro médico 

Oligarcas no açaime

Coveiros sem folga

E ela a passar assim

Peito erguido

Coxas torneadas

 

Olhem-me pressa mulata que aí vai

Xé! Moça! Doutora!

Aqui vendem vidas sobressalentes!

Quero três

Uma pra mim

Duas prusmôspais.

 

Gociante Patissa | Luanda 17 Abril 2021 | www.angodebates.blogspot.com

 

 

 

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sexta-feira, 16 de abril de 2021

O AMOR É ROUPA DE DOMINGO (poema inédito)

 O AMOR É ROUPA DE DOMINGO (poema inédito)

Da caverna que me cabe espreito

As medidas do mundo

Dois e dois lá vão

Para quem sabe contar

São anos

E dormem e acordam na mesma sombra

Do amanhã nem luz

falseando sábios

Me pus

Taciturno desespontâneo

Derrubam-me as nuvens deste céu

Faltam ombros

Quem dera ao menos caber num palavrão

Foda-se, todavia!

Conheço o amor

Como conheço o fundo da noite

O amor é roupa de domingo

Se adquire

Lava

Engoma

E pendura

Contando para o dia

O próprio dia

O amor é

A camisa

As calças

A blusa

A saia

Botão que desprega

À porta da festa

A nódoa na lapela

O rubro na veia

Temerário

O amor comparece 

O amor falta

O amor é que sabe

Salva selva

Ouve tudo menos conselhos

Fosse o amor tecido

Como se tecem os sentidos

Um pouco mais seria

Que roupa de saída

Investimento privado

Dívida pública

O amor é só mesmo isso

Isso tudo

 

Gociante Patissa | Luanda, 16 Abril 2021 | www.angodebates.blogspot.com

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segunda-feira, 12 de abril de 2021

ABERTAS INSCRIÇÕES NO PRÉMIO IMPRENSA NACIONAL DE LITERATURA

O Prémio Imprensa Nacional de Literatura foi instituído pela Imprensa Nacional – E.P com o objectivo de valorizar o talento nacional e promover a divulgação de obras de autores desconhecidos no mercado literário angolano.
Mediante este Prémio, augura-se proceder à selecção de obras inéditas e com elevada qualidade em termos literários nos *domínios do romance, da poesia e do drama (teatro),* *escritas em língua portuguesa, cujos autores devem ser cidadãos angolanos ou estrangeiros residentes em Angola há mais de 3 anos.*
*Artigo 1.º*
A Imprensa Nacional – E.P. organiza um concurso para a atribuição do *Prémio Imprensa Nacional de Literatura*, o qual é realizado anualmente.
*Artigo 2.º*
Podem participar neste concurso todos os cidadãos angolanos ou estrangeiros residentes em Angola há mais de 3 anos.
*Artigo 3.º*
O Prémio Imprensa Nacional de Literatura *vai contemplar a publicação da obra laureada e a atribuição de Kz: 500 000,00 (quinhentos mil kwanzas) ao vencedor por cada uma das três categorias.*
*Artigo 4.º*
1. As obras concorrentes devem ser inéditas e redigidas em língua portuguesa. Devem ser apresentadas em duas cópias em papel, no formato A4, e acompanhadas de uma gravação em formato digital, com a dimensão mínima de 80 páginas A4, em Times New Roman tamanho 12 e entrelinha 1.4.
2. As obras concorrentes devem ser assinadas com um pseudónimo do autor.
3. Cada concorrente deve única e exclusivamente remeter para o concurso uma obra.
4. As obras concorrentes devem ser acompanhadas de um envelope fechado, identicado com o título da obra e o pseudónimo utilizado pelo autor para assinar a obra, contendo:
a) Identicação do concorrente: nome completo, identificação fiscal (NIF); endereço completo, endereço eletrónico e telefone para contacto;
b) Declaração assinada pelo concorrente com a menção de que a obra apresentada a concurso é original e inédita, e não foi apresentada a nenhum outro concurso com decisão pendente.
5. Os originais devem ser apresentados na sede da Imprensa Nacional – E.P., Rua Henrique de Carvalho n.º 2 – Cidade Alta, Luanda.
6. Aos originais submetidos em mão, na morada supramencionada, é entregue recibo.
7. Os concorrentes podem também optar pelo envio das obras através da internet, em formato PDF, para o seguinte endereço electrónico: premio.literario@imprensanacional.gov.ao
*Artigo 5.º*
1. A Imprensa Nacional – E.P. designa como elementos do júri entidades ligadas às artes literárias, à docência universitária e à edição de livros.
2. A deliberação do Júri é tomada por unanimidade ou por maioria simples
3. O Júri do concurso tem o direito de não escolher nenhuma das propostas apresentadas e das suas decisões não cabe recurso.
*Artigo 6.º*
1. O período para entrega das obras originais para o concurso decorre de 3 de Maio a 9 de Julho. A decisão do júri é divulgada a 13 de Setembro, nos órgãos de comunicação social, e contempla a designação do trabalho premiado.
2. Caso o dia 13 de Setembro seja um sábado ou domingo, a decisão do júri é anunciada no dia útil imediatamente a seguir à data supramencionada.
3. A abertura dos envelopes das obras submetidas ao Prémio Literário é efectuada a 14 de Julho, em hasta pública, na sede da Imprensa Nacional, pelas 10h00.
*Artigo 7.º*
Os originais são avaliados de acordo com os seguintes critérios:
a) Originalidade (50%);
b) Contributo para a cultura nacional (30%);
c) Respeito pelas características canónicas do género literário (20%).
*Artigo 8.º*
1. Exceptuando as obras que venham a ser consideradas pelo júri para eventual publicação, os originais enviados são destruídos.
2. A candidatura ao Prémio Imprensa Nacional de Literatura implica a aceitação do presente Regulamento
*Artigo 9.º*
1. A partir do momento da entrega da obra para o concurso, a Imprensa Nacional – E.P. torna-se detentora do trabalho premiado, cujo autor cede gratuitamente os respectivos direitos de utilização e autoriza, em regime de exclusividade, a Imprensa Nacional – E.P. a publicar em língua portuguesa, divulgar, utilizar, explorar e editar, por conta própria, a referida OBRA, em primeira edição, que terá uma tiragem máxima de 1.000 exemplares, bem como a proceder à sua comercialização em todo o mundo.
2. Em caso de reedição da obra referida no número anterior, a Imprensa Nacional – E.P. paga ao respectivo autor, a título de direitos autorais, uma remuneração correspondente a 10% (dez por cento) sobre o preço de venda ao público dos exemplares efectivamente comercializados.
*Artigo 10.º*
1. O autor premiado deve aceitar que a Imprensa Nacional –E.P. proceda a uma revisão literária dos originais, na qual sejam eliminadas todas as incorrecções ortográficas ou gramaticais, e resolvidas as inconsistências com as normas de estilo adoptadas para a publicação do Prémio Imprensa Nacional de Literatura.
2. O autor premiado disponibiliza-se a examinar eventuais sugestões, que contribuam para a melhoria e claricação do texto, que lhe sejam submetidas para apreciação e aprovação.
3. Os casos omissos são resolvidos pelos membros do Júri em colaboração com a Coordenação do Prémio e o Conselho de Administração da Imprensa Nacional – E.P.
Inagem: O País
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segunda-feira, 22 de março de 2021

Crónica | UMA NOVA GUERRA QUE O INTERIOR NÃO INTERIORIZA

Abracei no prolongado o convite do mano Lauriano Tchoia para conhecer Nambuangongo, Bengo


província, primeira região militar dos anos de Angola guerrilheira. Ia ser outra aventura sem compromisso. É como prefiro conceber as deslocações ao interior onde não se pode esperar muito em termos de alojamento e serviços. O turismo vale mesmo só como colírio para os olhos intoxicados da city.

 

Conforme a baixa cinzenta fica para trás, ganha lugar o verde incitado por uma chuva que procura desmentir os efeitos da estiagem, na ordem dos três meses, que já tanto empobreceu famílias e mercados. Cacuaco dilui as fronteiras de Luanda pela vívida clorofila, o verde da diversidade vegetal que se estende e é de encher os olhos.

 

Não tarda, é Caxito (podia bem ser Coxito). A capital da província abre as portas mas não se deixa atravessar em linha recta, tapumes e contornos vibram em nome de um programa de investimentos públicos que soa PIIM. Salta à vista a disposição de agentes da polícia num só local. Está explicado. Há manifestação e megafone. Jovens empunham cartazes por um Bengo mais desenvolvido, menos desvios de verbas e por um adeus à Mara, governadora.

 

Deve faltar pouco para chegar, diz-nos o faro, libertos de pesquisa prévia e do GPS. A estrada parece alongar-se de propósito, o serpentear por entre as serras é agravado pelas lombas no asfalto. De quando em vez preenchem o quadrante aldeões que inundam o mercado luandense de mandioca, kizaka e banana, também chineses e serviçais locais da exploração de inertes (alivia notar que ultimamente já não vão os orientais ao volante dos seus pesados camiões). 

 

Volvidas quatro horas chegamos a Onzo, paragem-mercado informal que faz cotovelo para Muxaluandu, comuna sede do município. Aguardam-nos mais 14 quilómetros, diz-nos, solícito, o agente regulador de trânsito (que não existe). A escassos metros, em lareira a céu aberto um comerciante tem dois macacos a assar, seus dentes cerrados. Um terceiro, rosto ensanguentado do procedimento que o neutralizou, beira o lume. Não faltam é clientes para degustarem nacos do nosso “ancestral” darwiniano. Mas logo me reprimo pela instintiva repulsa ao “canibalismo”. Ora, o que difere o macaco do boi e da galinha que degusto e bem?

 

Passamos por Kixiku e na memória a satisfação de trilhar a banda da banda musical Vozes do Nambua. Às 15h fazemo-nos a um quintal com ares de hospedaria, mais de 300 km. Está em obra, especulamos. Ao fundo um senhor, estômago avantajado e outras saliências mais, desmente. Quarto ainda temos. As condições são, digamos, enfim... A fome ronca, não há ali socorro. Somos orientados a ir à praça. E lá vamos nós. Funji de carne de gazela e kizaka. Fiquei-me pela kizaka.

 

Pela manhã, deixamos Muxaluandu onde nos foi vetada a foto de cliché com a Administração Municipal ao fundo. Tirem só na escola, também sai bem, instruiu o guarda em serviço, que à nossa chegada abandonara por uns instantes o posto para ir buscar a sua máscara, por sinal a única que constatamos em quase 12 horas que andamos pelo interior do Bengo. A pandemia da Covid é uma nova guerra que o interior ainda não interioriza, se é que já o fez.

 

Já em Cana-Cassala, 35 km mais para cá, o giro levou-nos à área residencial dos governantes. A um deles, que deduzo administrador-adjunto, perguntamos o significado do nome da comuna, no que foi humilde em dizer que desconhecia e recomendou-nos abordar a comunidade. Fiquei a pensar no que mais o governante não desconhecerá da localidade. 

 

Gociante Patissa | Nambuangongo, 21 Março 2021 | www.angodebates.blogspot.com

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TV-ANGODEBATES

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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