quarta-feira, 20 de março de 2019
Aquele meu parente de nome Daniel Gociante Patissa esteve na manhã de hoje no Instituto Superior Politécnico Jean Piaget de Benguela a cumprir a missão de arguente do painel de júri na defesa de monografia de licenciatura de um estudante no curso de licenciatura de Ensino do Português e Línguas Nacionais, opção Umbundu. É a segunda vez que lhe é colocado pela direcção da universidade este tipo de desafio, coincidentemente fazendo equipa com a Dra. Natália Viti no papel de presidente do júri. Foi bom rever as amigas Ana Ukuahamba, Margarida Kangunga, sem falar do mano David Calivala, docente do ramo, assim como o prof Mateus Cavala, que foi tutor do hoje arguente na licenciatura em linguística especialidade de inglês há quase sete anos. Ndapandula
ATT, colegas da OFICINA LITERÁRIA. Traduzindo o ditado bakongo... "Depois de montar, o caçador não deve deixar de visitar a sua armadilha" (nunca se sabe quando cai a presa e há o risco de apodrecer por abandono). Assim, se já reconfirmou o seu e-mail, faça o favor de ir consultando diariamente as entradas. Juntos
segunda-feira, 18 de março de 2019
sábado, 16 de março de 2019
PRÉMIO LITERÁRIO ANTÓNIO JACINTO | Prazo de recepção das obras do prémio foi alargado até finais de Maio
Oliver Quiteculo
‘O Cronista’, vencedor da edição 2018
com o livro de contos ‘Mahamba’ |
O Ministério da Cultura,
através do Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas (INICC),
decidiu estender o período de recepção das obras concorrentes ao Prémio
Literário António Jacinto, edição de 2019, até ao próximo dia 30 de Maio.
O prémio literário
constitui uma homenagem ao poeta António Jacinto e é um galardão de revelação para
obras inéditas de autores nacionais que procuram afirmar-se no mercado. O
prémio tem como objectivos primordiais incentivar a criação literária e promover
o surgimento de novos autores no domínio da literatura.
Patrocinado
exclusivamente pelo Banco de Poupança e Crédito (BPC), o concurso anual [instituído em 1993] atribui
ao vencedor de cada edição a quantia de cinco mil dólares norte-americanos em
moeda nacional e a publicação da obra vencedora pelo INIC.
Os concorrentes
devem enviar as obras dentro de um envelope grande, fechado e assinado com
pseudónimo literário, com a identificação completa e uma fotocópia do Bilhete
de Identidade, em envelope pequeno fechado, bem como a obra concorrente, em
três exemplares digitados a dois espaços em folhas A4, encadernadas e assinadas
com o pseudónimo.
A correspondência
deve ser remetida para o endereço: Prémio Literário António Jacinto, Instituto
Nacional das Indústrias Culturais, Caixa Postal 1248, Rua Cirilo da Conceição
Silva n.º 7, 2º andar, Luanda.
Texto: Jornal de Angola, 16.03.2019
Foto: Neovibe
(arquivo) Diário | E O SENHOR É JURISTA?
"Bem, caros convidados, daqui a pouco o nosso debate vai ao ar. Poderemos ter intervenção de ouvintes via telefone."
"Estamos prontos, caro senhor jornalista."
"Ora, a si já conheço e... a si também. Desculpe-me o senhor que vem pela instituição X: no seu caso, como quer o apresente?"
"Vou falar na qualidade de jurista... sem problema nenhum!!!"
"E o senhor é jurista?"
"Bem, eu trabalho na Associação como relações públicas, às vezes estafeta, e auxilio na secretaria com arquivos documentais..."
"E qual é a sua formação?"
"Estou a concluir o Médio, mas ainda dei uma pausa."
"Então o senhor não é jurista mas pode falar na qualidade de jurista?"
"A minha esposa é bacharel em Direito..."
"Pronto, não tem problema, vou-lhe tratar pelo nome."
"Você é que sabe, Ok?
sexta-feira, 15 de março de 2019
(arquivo) Diário | VOCÊS NÃO VÃO ESPANTAR A CAÇA, OU VÃO?
(I)
"Atenção, atenção!!! Assim estamos a passar. A praça é grande, cada um fica já com o dinheiro na mão! Xé!, você aí, ó cidadão! Não estás a ver que a Fiscalização está a passar?"
"Como o caminho não passa na minha testa, ainda achei que não devia ter medo."
"Passa a taxa, rápido!"
"Taxa de quê?"
"O pagamento diário da bancada! Estamos aonde afinal?! Essa merda tem leis ou não?!"
"Acho que o país tem uma história..."
"Meu camarada, o tempo é dinheiro. Já Arranquei a ficha do bloco de facturas. É só pagar e mais nada!"
"Então não estou a ver bem o porquê que lutei. Um gajo entrou na tropa criança, combater sem folga de estudar, desmobilização sai sem emprego. Assim se hoje tenta na venda precária, ainda é perseguido pelo Estado que serviu?"
"Estás a brincar... É a tua última palavra?! Primeiro o camarada cumpre, depois é que reivindica. Nós também são ordens superiores que estamos a cumprir, ouviste, né?. "
"Ainda afinal quero ver esse tal vosso superior, tratar como homens peito a peito (corpo a corpo era já noutro tempo)..."
(II)
"Chefe! Ó chefe! Um ponto ainda..."
"Estás a fazer o quê no gabinete em hora de ponta?!"
"No mercado encontramos um reaccionário. Pede a comparência do chefe."
"Como é que é o gajo, assim corporalmente?"
"Músculos que não tem no corpo tem na boca, ó chefe. Nós até não passamos..."
"E qual é o estado de opinião e comentário dele?"
"Diz que não entende o fundo de dedicar a vida inteira combatente se hoje nem direito de sobreviver lhe resta... Isso é coisa de se falar, ó chefe?!"
"Mas isso que ele disse é grave, é política! E quando ele explana, é com força ou devagar?"
"Com força. O mercado até pára para ouvir."
"Abafa. Técnica de exaustão, ouviu?"
(III)
"Você é o reaccionário, certo? Olha, fomos despachar com o chefe sobre o nosso diferendo..."
"Nosso diferendo?..."
"Ora essa! Se nós, os Fiscais, em pleno gozo dos nossos deveres de zeladoria, somos interrompidos na cobrança da taxa diária..."
"Eu quero falar como homens com o vosso chefe, saber onde cumpriu a vida militar..."
"Não vale a pena, ele é muito ocupado!!! Também já abordamos a tua inquietação..."
"Quando é que o vosso chefe vem aqui?"
"Continuando. Você, só mesmo você, está isentado de tributar a taxa diária de bancada. Mas não penses que é porque refilaste, não. Em toda a parte do mundo há autoridade. Cumpre-se primeiro, reclama-se depois."
"Ó cunhada, vem ouvir! Esta mulher que estão a ver cheia de poeira é cunhada por afinidade, viúva de um companheiro de trincheira. Como é que eu não pago mas ela tem que pagar, quando a história é igual?"
"Por acaso, o chefe não deferiu sobre o caso dela, mas é pacífico. Conta como indigente. Portanto, agora, por favor, vocês não vão espantar a caça, ou vão?"
www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa. Benguela, 28 Maio 2016
quinta-feira, 14 de março de 2019
Crónica de Germano Almeida | RACISTAS OU NEM POR ISSO?
Foi nos
inícios dos anos 60 do século passado, certamente por pressão dos movimentos
independentistas e urgente necessidade de provar ao Mundo que éramos todos,
brancos, pretos, amarelos, mulatos e companhia, todos iguais perante a Nação,
que Portugal começou a integrar os naturais das ex-colónias nas tropas da Marinha.
E lembro-me de um navio de guerra português que fundeou no porto da vila de
Sal-Rei donde desembarcaram uma quantidade de jovens negros, bem tratados e
fardados de um branco impecável e imaculado, e que saíram a passear e conhecer as
ruas da vila. Quando passaram pela nossa casa a minha mãe viu-os e chamou-nos,
Venham ver uns pretinhos de guerra a passar! Fomos ver. Eram muitos e
rigorosamente fardados e bonitos, passeando em fila quase militar, sorrindo
para nós, cumprimentando alegres. Depois que ficámos só nós, disse para a minha
mãe, Mas espera, tu também és preta! Não, respondeu sem hesitar, nós somos
cabo-verdianos.
Os cabo-verdianos em geral sempre tiveram alguma dificuldade
em aceitar a sua condição de negro. Há muitos exemplos históricos a comprovar
essa asserção, alguns bem caricatos como o caso de um administrador da ilha do
Maio no século 18, negro como um carvãozinho, mas que se apresentou como branco
a estrangeiros que visitaram a ilha. Pode ter sido o conhecimento dessa
fraqueza nacional que levou Baltazar Lopes, no prefácio a Aventura Crioula de
Manuel Ferreira, a afastar a nossa eventual condição quer de africanos quer de
europeus, para sem mais nos afirmar orgulhosamente cabo-verdianos. E dentro
dessa linha de pensamento, costumo defender, sem qualquer fundamento
científico, é verdade, a existência de mais uma raça, a juntar-se às já
existentes, e que é a raça cabo-verdiana.
Penso que se alguém com capacidade e conhecimento e
vontade, pegasse a sério nesse postulado, bem perfeitamente que sem grande
esforço poderia reencher o novo conceito de mais uma raça no mundo, a
cabo-verdiana, caracterizando-a como tendo sido historicamente composta por
todas as raças e culturas que aqui aportaram e se juntaram e se misturaram e se
multiplicaram e acabaram criando raízes e se espalharam pelas ilhas todas,
todos moldados por uma terra onde tiveram que quebrar pedras para inventar
comida e que manenti manenti não se acanhava de os matar à fome.
Ora aconteceu que na sua intervenção parlamentar durante a
reunião da Assembleia Nacional a deputada por África, eleita nas listas do
PAICV, discutindo a mobilidade e integração na CEDEAO, insurgiu-se contra o
tratamento que considera discriminatório a que viu serem sujeitos os africanos
que pretendem vir para Cabo Verde, com exigências que considera vexatórias, e
concluiu que até se poderia classificar isso tudo como discriminação racial.
Foi um deus-nos-acuda! Imediatamente os deputados
apoiantes da situação e que estavam sentindo o Governo acossado, logo agarraram
o mote e não mais largaram o osso. Racismo não! É grave acusar as pessoas de
racismo, porque o cabo-verdiano, o povo cabo-verdiano, não é racista. Mas o
mais grave é o PAICV, os deputados do PAICV, ouvirem essa afirmação atentatória
da dignidade nacional sem reagir, aceitando de facto uma situação que deixa de
rastros o povo cabo-verdiano…
De modo que a dúvida está lançada, e como não há não que
não contenha um sim, vamos aguardar pelos próximos capítulos a ver se sim ou
não somos racistas ou simplesmente cabo-verdianos.
In revista África21, Nº 137, pág. 58, Luanda, Angola -
Março 2019
quarta-feira, 13 de março de 2019
Livro do mês na Revista África21 | O Homem Que Plantava Aves, De Gociante Patissa: Desfile Alegórico Da Praxis Popular Benguelense | Por José Luís Mendonça
LIVRO DO MÊS | Sugerimos ao
leitor que pegue na obra O Homem que Plantava Aves, de Gociante Patissa, e
comece por ler o último dos contos, Porque é que a Cauda de Lagartixa Cai? Este
destoa do conjunto de estórias. É a voz de um contador de estórias anónimo, que
Gociante talha com o formão da língua portuguesa num produto literário novo.
Por José Luís
Mendonça, in revista África21, Nº 137, pág. 73/74, Luanda, Angola - Março 2019
A seguir, leia-se
A Lenda do Soberano Ndumba. Muito próxima da última estória, pela colagem ao
nativismo, difere dela pelo recurso descritivo que caldeia todo o livro. É o
que lemos neste trecho: “Concebo sipaio como milícia, um espécime rudimentar
criado pela autoridade colonial, mas cujo poder se cingia sobre as comunidades
indígenas, irónico instrumento de repressão de colonizados contra os seus
semelhantes.”
O leitor atento
pode constatar que certos recantos linguísticos trazem reminiscências do
refinamento discursivo de Óscar Ribas. Nessa conformidade, o valor literário
desta colectânea de contos não reside tanto no seu espectro linguístico, senão no
registo fonético e no desfile alegórico da praxis popular benguelense de que se
constrói a narrativa.
O Homem que
Plantava Aves, lançado pela editora Acácias nos dias 14 e 15 de Dezembro nas
cidades de Benguela e do Lobito, reúne 15 contos, de cuja leitura se extrai um
valioso repositório de usos e costumes da região de Benguela. Neste sentido,
esta obra é rica pelo seu pendor etnográfico. Como explica o autor, na nota
introdutória, “Temos em mãos uma colectânea de ficção com esparsas referências
autobiográficas do autor e do espaço de língua e cultura Umbundu, o que implica atravessar uma vez ou outros temas complexos, como as
memórias do tempo de guerra civil, ou as sequelas do pós-conflito, não fugindo
o devaneio literário ao papel de confrontar a humanidade com as suas
contradições.”
Um
aspecto peculiar de O Homem que Plantava Aves é a reunião, num mesmo texto, das
técnicas do jornalismo, da literatura e da resenha histórico-social. Mas, quem
é o homem que plantava aves? Lumbombo (raiz), paralítico à nascença, tal como
Kahito, do griô Wanhanga Xitu, é um prodígio na sua aldeia.
Esta
raiz paralítica produziu mais riqueza na aldeia que boa gente de corpo
saudável. Primeiro, foi a horta. Que atraiu tantas aves, ao ponto de os
vizinhos conjecturarem que Lumbombo passara, de simples domador, a plantador de
aves. Preocupado em “atrair simpatia feminina aprendeu a esculpir pentes.” Até
que, “com as suas poupanças, passou o mestre Lumbombo a investir na criação de
gado. De frágil a prodigioso, cativava beldades e acumulava bens sem sair do
lugar, sem conhecer o caminho da lavra sequer, já que só se podia mover
arrastando-se.” Esta estória deslumbra por essa razão. Uma lição de filosofia se
extrai no final: “Não é com as pernas que corremos, é com o pensamento.”
Gociante Patissa, qual plantador de aves literárias, reúne na sua
lavra vozes longínquas de mais-velhos e as vozes do seu quotidiano benguelense,
numa bela sinfonia de escrita.
É com o pensamento
que Gociante Patissa, o plantador de aves literárias, corre, de estória em
estória, reunindo na sua lavra vozes longínquas de mais-velhos e as vozes do
seu quotidiano, numa bela sinfonia de escrita, onde, por vezes, encontramos trechos
a raiar a textura da crónica, ou pedaços de ficção escritos como quem dança um
som de ngoma mítico, tal é a ordem de sub-esferas culturais e psico-sociais que
se entrechocam nas estórias.
Em Nossa Luta
Vossa Luta, abre-se o pano do palco histórico angolano, tal como Manuel Rui o
abre em Quem me Dera ser Onda. Com uma pitada de sarcasmo ajindungado. Assim lemos:
“Mas há por aí pólvora na via pública a apanhar restos nos contentores, na
birra do trânsito, na estatística da investigação criminal.” O mesmo jindungo
pica num outro conto, A Chefe e os Homens, que faz a apologia da mulher na
política.
A
Comissária Comunal da Equimina, ao tempo do partido único, é alvo do machismo
impenitente que grassa em Angola, principal. A Comissária havia espancado o
responsável de uma loja que tinha batido numa viúva e estava a ser alvo de
inquérito. “Dez dias depois saía o tão temido veredicto Primeiro. Recrutamento da
senhora agredida para os quadros da OMA e Promoção da Mulher. Segundo. Exoneração
do chefe da loja e responsabilização criminal do mesmo. (...) Contudo, este
resultado levou os detractores, que já davam como certa a exoneração da chefe,
a acreditarem ainda mais que a política é suja.”
Depois desta
colherada de caldo de peixe seco, cabe a vez ao leitor de comprar O Homem que
Plantava Aves e saborear o caldeirão real e, ao mesmo tempo, fantasioso, que
nos mostra outra parte de Angola, das vidas que por lá nascem, crescem e desaparecem
e da sua história que, por obra de Patissa, deixam um rasto indelével no livro.
Daniel Gociante
Patissa nasceu
em 1978 no Bocoio, Benguela. Tem licenciatura em Linguística, especialidade de
Inglês, pela Universidade Katyavala Bwila. Membro da União dos Escritores
Angolanos, foi distinguido com o Prémio Provincial de Benguela de Cultura e
Artes 2012, na categoria de Investigação em Ciências Sociais e Humanas, «pelo
seu contributo na divulgação da língua local Umbundu, na perspectiva das tradições
orais, através do conto e novas Tecnologias de Informação e Comunicação». Anima
os blogues www.angodebates.blogspot.com e www.ombembwa.blogspot.com
Ex.ª JLo, boas vindas à banda do seu "colega", digamos sua ex.ª eu. Favor inaugurar o renascer da esperança de conseguir moradia naquele complexo habitacional abandonado à entrada do Bairro da Luz, Lobito. Ah, V/ Ex.ª não sabe, né? Até vou já reivindicar no INAREES do título de PhD em morar nos anexo de quintal, ou não?
(Arquivo) Diário | ENTÃO GOZAS DE IMUNIDADES COMO?
"Ó senhora, eu já falei. Ainda não sou casado, nunca bati uma mulher. Por isso, me cumpre só, ya? Não me obrigues a fazer uso de força, estás a ouvir?!"
"Isso é teu problema, ó mano. E eu é que vou fazer o quê, se as mulheres deste mundo não te aceitam?! Larga mais é o meu negócio, pá! Vá ser homem noutras coisas, entendeste?!"
"Já que não queres entregar a prova da infracção, estás renitente, é só subir na carrinha!..."
"Eu?! Tchaaa!!! Nunca!"
"Estás a te confiar em quê?"
"Nós gozamos de imunidades."
"Ó dona, vá, vamos embora, já falamos muito! Voz de mando! Eu sou autoridade!"
"Oh! Mano, o mano não é fiscal?"
"Ainda perguntas?!"
"Fiscal não é civil? Como mais é que vai ser autoridade?"
"Só falta mesmo pouco, vou-te meter nas algemas. Isso então é desacato!"
"Desacato como?! Te fiz o quê?"
"A senhora estava a fazer pracinha na berma, por cima ainda a estrada é nacional..."
"Não vamos só falar à toa ainda, mano! Uma pessoa sozinha assim já vira pracinha?! Afinal se a outra é zungueira..."
"Não, não! A mim não enganas! Já namorei com uma gaja de Malanje que me ensinou umas quinze palavras de kimbundu. Zungueira significa mulher que circula, ambulante. Não é o caso. Você estava parada..."
"Mano, na vossa família andam, andam, andam, nunca ficam cansados?"
"Por acaso, tens ali o cartão de ambulante para vender essa ginguba torrada, abacate, mandioca e banana?"
"Não."
"Tens alvará de retalhista?"
"Não preciso..."
"Então gozas de imunidades como?"
"Mão então o meu marido não é chefe de departamento?! Alguma vez viste no Prado dele último grito algum selo de taxa de circulação?"
www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa | Catumbela, 17.06.2018
terça-feira, 12 de março de 2019
Ex.ª, se você foi colega na licenciatura e mestrado em sociologia do comentador João P. Nganga e não vem a público defendê-lo, a PGR está a ver. Não vale dizer que o homem tem um capital de raciocínio lógico/crítico maior que o de muitos mestres e PhD (o que é verdade). A questão não é essa, é apenas de compromisso com a verdade académica.
"Amanhã já assim na Bola TV a tal bajulação em Portugal, em Portugal, em Portugal?... Até tem lá um locutor que gosto, mas é que eu, no relato de futebol, gosto mais do Brasil. Me cuia muito da forma que açucaram!... Mesmo eu sempre falo: quando morrer, a pessoa que vai ler a minha biografia vai ter que ser um brasileiro!"
segunda-feira, 11 de março de 2019
Crónica | Uma oração a “o ocaso dos pirilampos”*
Hoje por hoje, quando um bom leitor se depara com
livro de autor desconhecido, é regra que reaja de forma cética e desdenhosa.
Olha para a capa, para a contracapa, para as badanas; mesmo que esta esteja
escrita da forma mais inteligente possível, ainda reage à biografia do autor
com o estoicismo de um médico calejado ante a impaciência de seu jovem
paciente. Tratando-se de obras prefaciadas, também reagirá a esses dados com
indiferença. Já tem noção de como fazem os prefaciadores: muitas vezes são
leitores superficiais e entusiasmados que não têm a sorte de captar o âmago da
matéria que introduzem.
Então o leitor avança e, se for realmente uma obra
de fôlego, ele começará a resfolegar logo nas primeiras palavras que lhe darão
entrada ao enredo. Porque para reconhecer um bom artista basta uma simples
palavra sua, um som, um piscar de olhos. Depois segue-se, da parte do cético
leitor, aquela estranha sensação de autoengano e também alguma autopunição
libertadora; logo após o prazer cresce em cada avanço, em cada página, em cada
secção. Muda-se o quadro, agora é ele que se sente caçoado, rebaixado,
desdenhado, com o orgulho tolhido. Engole em seco, de arrependimento, mas
também e sobretudo pela sorte de estar a degustar uma boa obra literária.
Existe melhor terapia do que essa? Muitas vezes o escritor, primeiro subjugado,
agora pesca o leitor, acolhe-o no seu manto, deixa-o prostrado na seguinte
oração: «eu falo, é o falo!», escreve sorrindo, soltando um peido, «eu vomito
cidades, todas as vossas cidades de novos-ricos e novos-pobres», ousa o
escritor. E o leitor pensa: micção/Mixinge/isso é felação, há muito que eu
andava a desconfiar de que as nossas cidades, e essa vaga de novos-ricos e
novos-pobres que só começaram a aparecer primeiro em 1975 e depois em 2002,
eram xixi e “dejetos fecais”. Mas o leitor não tem como abrir a boca, fica
preso à trama… uma leitura assim é eletrizante. Atua como íman, prende e faz
refém. Ele fica imerso na leitura, é absorvido, absolvido e convidado a adotar
posições kamasutrianas. Só quando
alcança as três ou duas páginas derradeiras, aquelas que desfecham o enredo, é
que se lembra de parar, de forma brusca, porque é chato constatar que se vai
terminar a leitura de um bom livro; e por isso finge, procurando prolongar, por
subterfúgios, o momentum. Numa
atitude de desespero, põe o marcador na página derradeira e devaneia: sopesa o
livro, sente-lhe o cheiro, o tato também, detém-se por mais tempo e com algum
respeito na leitura da biografia e na imagem do autor para lhe perscrutar as feições
e abstrair as emanações da sua personalidade… Um bom leitor não aprecia um
livro antes de saber do que este retrata.
Sempre tive medo de terminar a leitura de um bom
livro; deixa-me uma sensação de desamparo, de traição e de vazio absoluto. Um
bom livro é como o coitado do coito, seu fim nunca foi bem-vindo.
* “O Ocaso dos pirilampos” é título de um livro da autoria de Adriano
Mixinge, escritor angolano; vencedor do prémio Sagrada Esperança. Esse texto
foi inspirado pela leitura daquele livro.
Anedota
– Vamos lá a ver, menino Luizinho, o que me sabe dizer sobre a morte de Luís de Camões?
– Que descanse em paz, senhora professora. (Adaptado)
– Que descanse em paz, senhora professora. (Adaptado)
domingo, 10 de março de 2019
Enquanto no Brasil as alegorias de carnaval exaltam figuras da resistência (do passado e do presente) do seu país e das raízes africanas, o carnaval de Angola insiste na "reencarnação" de reis e rainhas, enfim, toda a corte medieval. Ainda é pelo argumento de "preservar a história" ou é do síndrome de Estocolmo mesmo?
Ex.ª JLo, favor decretar implantação de chip corrector ortográfico. A cada dia nos noticiários surgem políticos com garantia de participar em grande nas eleições "autárticas". Mas quando e com que dinheiros?! Então se nem nas eleições AUTÁRQUICAS, dicionarizadas e tudo, Angola tem ainda experiência, né?, vão inventar mais "autárticas"?!
"Homem mais?... Você tem que ser esperta e ver o momento. Com os pais é igual. Se você, tipo assim, tem uma preocupação, né?, se faz de burra. Controla o dia quando eles estão assim bem humorados, a rir à toa. Aí você aproveita pedir mesmo já tudo duma vez! Porque em dia normal, é mentira, minha irmã!, vais só perder o teu tempo; te ignoram"
sábado, 9 de março de 2019
Carnaval de Benguela | QUAL SERIA A MISSÃO DO CARNAVAL DE HOJE?
Escrevo
estas linhas a pedido do Folha-8 pouco após a divulgação dos resultados do
desfile provincial 2019, que volta à sua forma tradicional quatro anos depois,
pondo fim à municipalização “imposta” durante o consulado do governador Isaac
dos Anjos, na base da qual sete dos dez municípios competiam no interior.
Só muda o tempo verbal. O dono do pódio é uma constante: Bravos da Victória, do município da Catumbela. Quando se falasse do Carnaval, na província de Benguela, vinha sendo assim até ao ano 2015, quando o grupo suspendeu a sua participação nos desfiles, por entender que não havia concorrente à altura na categoria municipal. Os Bravos da Victória chegaram a desfilar (sem concorrer) na Nova Marginal da Praia do Bispo no Carnaval de Luanda em 2018.
O prémio maior na classe adulta vai para quem? Adivinhem! Bravos da Victória, com 542 Votos, ficando na segunda posição, o Bloco Amarelo com 500 votos (vencedor da edição municipal 2015), que se estreou há alguns anos como bloco de animação. Em terceiro lugar ficou o município do Cubal com os 442 Votos arrebatados pelo grupo Irene Cohen (vencedor da edição provincial 2015). Na classe infantil, sagrou-se vencedor o município do Bocoio, com 442 Votos, seguindo do Lobito, com 378 Votos e mais uma vez o Cubal no pódio por intermédio do Grupo Dr. António Agostinho Neto, com 362 Votos.
Com lugar cativo no pódio, os Bravos da Victória reeditam a hegemonia do grupo da Hanha do Norte, com a diferença de aquele ter sido um fiel tradutor etnográfico do seu meio. A questão hoje a colocar é cristalização dos padrões, já sem falar das músicas de disco e o playback, com figuras simbólicas como Reis e Rainhas desgarrados da nossa idiossincrasia. O que pretende o carnaval de hoje e qual a sua missão no que respeita às representações sociais e culturais do povo que o dança? São questões que quem testemunhou as décadas de 80/90 do século 20 continua a colocar-se. De sorte que temos de esperar a edição seguinte do carnaval para ver as danças que não encontram vez nas manifestações do dia-a-dia, como sejam o casamento, o nascimento, o óbito e a circuncisão.
(*)
Escritor. Residente em Benguela. FOLHA-8, pág. 36 |Luanda, 09 de Março de 2019
Fonte
da foto: Capoco News
sexta-feira, 8 de março de 2019
Portugal e Angola: Mais colonos do que amigos | Opinião do luso-americano Luís Costa Ribas
A bem-sucedida visita do Presidente
Marcelo Rebelo de Sousa, os afectos, as selfies com o Ti
Celito e a aparente bonomia do Presidente João Lourenço, são a superfície. Sob
este nível cutâneo, os portugueses continuam a ser, sobretudo, colonos.
Fonte: SIC, 07.03.2019
É longa e boa a minha relação com Angola. É marcada pelos amigos, muito
bons amigos, de décadas; por um interesse profundo por um povo muito bom,
amaldiçoado com um governo muito mau que felizmente, com João Loureço, está a
melhorar todos os dias; e por dedicação profissional a África, em parte devido
ao meu trabalho numa emissora internacional nos Estados Unidos.
Esta relação de proximidade com Angola, e o facto de a maioria dos
angolanos que me conhecem me associarem aos Estados Unidos, permite-me ouvir deles
avaliações francas sobre Portugal. E Portugal – a Tuga – é a terra dos colonos.
Os “pulas” – os portugueses – são amigos de ocasião e convenientes bombos da
festa. Estão lá pelo dinheiro, não pela amizade. O mesmo se pode dizer da
interesseira amizade angolana com Portugal: apesar das “ameaças” de amizade com
Espanha ou França, não há porta europeia como a portuguesa. São assim as
relações internacionais. Todas as amizades o são por conveniência.
Repare-se no “irritante”. Independentemente do mérito do caso na justiça
portuguesa contra o ex-vice-Presidente, Manuel Vicente, Angola não aceitou –
nem nunca aceitaria – a sujeição de quem foi um alto responsável do estado à
ex-potência colonial. Não está em causa saber se Vicente era, ou não, corrupto.
Provavelmente, é. Aceitar que a justiça portuguesa, mesmo sem as suas tristes e
lamentáveis práticas recentes, pudesse sobrepor-se à atroz e incompetente
justiça angolana é inaceitável. Como qualquer angolano nos dirá, “a nossa
justiça é má, mas é nossa”.
É claro que, para os adversários do regime, recorrer à justiça da
ex-colónia é uma faca de dois gumes. Por um lado, mesmo má, é melhor e mais
independente do que a angolana. Logo, a probabilidade de se fazer justiça é
superior. Mas, por outro, a situação gera um enxovalho e uma humilhação a que
muitos angolanos não querem sujeitar o seu país. Apesar de, entre a oposição,
suscitar uma boa dose de shadenfreude ver
os arrogantes e corruptos dirigentes do MPLA a suar as estopinhas em Lisboa,
castigar os nossos às mãos dos estrangeiros, não é sucesso garantido.
No caso de José Eduardo dos Santos e do seu regime, era um mero caso de
arrogância, de “como se atrevem”, vindo de um regime com uma noção imperial da
presidência. No caso de João Lourenço foi uma necessidade política. Defender
Manuel Vicente não era defender Manuel Vicente. Era defender João Lourenço. O
novo presidente angolano estava a atiçar muitos marimbondos e
fazer frente a Portugal ajudou a proteger o seu flanco interno.
Por um lado, deu uma satisfação aos muitos que, nas elites angolanas, se
sentem desconsiderados pelos “pulas” e agastados com a arrogância com que
muitos – e não são poucos – comparecem em Luanda. Por outro, Lourenço precisava
de estabelecer contrastes firmes com José Eduardo dos Santos. E mesmo que a
justiça angolana não seja, ainda, muito melhor – os aperfeiçoamentos
necessários estão a anos de distância – o facto de não ser arma contra a
oposição constitui, em si mesmo, uma bem-vinda melhoria.
À atitude sobranceira com que Luanda lidou durante anos com Lisboa não é
alheia a postura desta, solícita, de chapéu na mão, ou abjecta, de joelhos,
como foi o caso de Rui Machete, incitando à humilhação. Até mesmo no caso
recente do Bairro Jamaica, aceitando que o Governo português não pediu desculpas
a Luanda, alguma coisa foi dita para permitir tal interpretação.
Recentemente, encontrei nos arquivos diplomáticos portugueses um telegrama
da embaixada em Luanda, de 1976, dando conta de uma carta do então Ministro das
Relações Exteriores, José Eduardo dos Santos, ameaçando expulsar os diplomatas
portugueses, se Lisboa continuasse a permitir a presença de apoiantes angolanos
da UNITA no português. Não faltam, no historial desta relação, manifestações de
nacionalismo defendendo a soberania angolana através de imposições à soberania
portuguesa.
As mudanças de José Eduardo dos Santos para João Lourenço retiraram à
presidência insolência e sobranceria, humanizaram-na e aproximaram-na dos
governados, mas não alteraram o carácter nacionalista do MPLA que se reflecte
nas suas relações com Lisboa.
Por muito que precise de Portugal e dos portugueses, e precisa, Luanda
olhará sempre para os pulas como
colonos, primeiro, e amigos depois.
A bem-sucedida visita do Presidente
Marcelo Rebelo de Sousa, os afectos, as selfies com o Ti
Celito e a aparente bonomia do Presidente João Lourenço, são a superfície. Sob
este nível cutâneo, os portugueses continuam a ser, sobretudo, colonos.Sugestão para ver no feriado | "SÃO NICOLAU - ELES NÃO ESQUECERAM" (documentário angolano)
Estou a ver o documentário "SÃO NICOLAU-Eles não esqueceram", um DVD que me foi ofertado pela Associação Tchiweka de Documentação, da família do nacionalista Lúcio Lara, com o seu projecto Trilhos (gratidão minha reiterada à investigadora Elisabete Azevedo). Traz relatos in situ como contributo para a posteridade de memórias vivas num registo dos horrores do centro de reclusão/desterro de presos políticos do regime colonial português de São Nicolau (hoje Bentiaba), encravado entre o deserto e o mar, em Moçâmedes (hoje província do Namibe). O meu avô paterno Manuel Patissa, líder religioso protestante (IESA - Igreja Evangélica do Sudoeste de Angola), no interior da comuna do Monte-Belo, município do Bocoio, cumpriu (1961-66) no famigerado processo "operação Ovisonde"
PS: O documentário está parcialmente disponível neste link https://vimeo.com/52489934
(arquivo) Diário | A VÍTIMA MAIS É QUE TEM A CULPA?!
(I)
“Doutora Felismina! Venha só ver. Oh, pai! O que é que eu fiz para merecer isto???!!!”
“O que foi, doutora Ernestina, para tamanho alarido?”
“O seu filho, um matulão destes, que até leite do biberão dei, hã!, hoje vai pegar à força a minha filha?! E quando vou-lhe perguntar me responde com duas bofetadas?!”
“Mas a doutora Ernestina já viu a gravidade da acusação? Qual é o corpo de delito?”
“Repare, doutora Felismina, as escoriações no corpo da menina, a lingerie rebentada…”
“Credo! A doutora agora sente o monstro que pari, né? É isso... Quando eu batia no gajo ou ralhava, a doutora defendia, ‘ah não, não podemos muito apertar com os miúdos’. Que me perdoe Deus, mas não somos mães para passar a vida a limpar as cagadas, quer dizer desvarios, dos filhos. Está aí ele, é maior de idade. Faça o que achar correcto, doutora, como ofendia.”
(II)
“Alô! É do 113? Preciso de patrulheiro, é urgente!!! Tenho uma queixa. O senhor polícia está a ver o filho da doutora Felismina?” (…) “Ah, não conhece? Eu explico. É assim um pouco alto, músculo de pedreiro. Então não é que apanhei o gajo a violar a minha filha! Como mãe que sou, lhe chamei um nervo. E a resposta? Duas chapadas da minha cara. Pwá! Pwá! Isto assim é legal?” (…) “Onde fica a minha casa?! Na casa da patroa! Moro no anexo atrás da casa.” (…) “O meu nome? Doutora Ernestina.” (…) “Como assim, ‘doutora é o seu nome?!’ Então, mas uma empregada doméstica não pode ter licenciatura, ó senhor agente?! Desculpe-me lá, mas há cada pergunta!… curso de Direito.” (…) Qual é o itinerário? Mas, ó senhor polícia, francamente! Numa situação de emergência pericial, o presumível delinquente pode escapulir, hã!, você ainda me pergunta o nome oficial da rua?! Não era mais fácil perguntar se a casa fica ao lado de quê?!” (…) “Ah, pronto. Está desculpado!”
(III)
“Doutora Ernestina, como vai esta saúde?”
“Vai bem, doutora Felismina. Até estou a estranhar a sua visita. Alguma coisa?”
“Quê isso, doutora?! Já não podemos mostrar preocupação com os mais próximos?”
“Quer saber quando é o julgamento do vosso filho na violação frustrada à minha filha?”
“Para ser franca, é por isso. A doutora nunca só cogitou, como mãe, retirar a queixa?”
“A doutora sabe que o agressor chegou a ser solto sem explicação? Tive de pedir uma audiência para questionar a justeza da instrução do processo. Depois de tudo voltar à primeira forma, fiquei mais descansada. Agora é com o ministério público…”
“Doutora Ernestina, acho que está a ser preciosista, a criar situações onde não existem.”
“Como assim, doutora Felismina?!”
“Mas a doutora não sabe que a cadeia não tem condições, há mosquitos, superlotação, doenças, desvios sexuais e tudo?! Quando penso que ainda ele não me deu netos…”
“Doutora Felismina, não acha que deve perguntar isso ao ministro da justiça? Então, se o habitáculo prisional é desprovido de habitabilidade, a vítima mais é que tem a culpa?”
“Não nego o erro do meu filho, mas tente lá retirar a queixa, ser humana, doutora. Assim vai-me dizer que você nunca levou uma bofetada do seu falecido marido?”
“Doutora Felismina, por favor, não me faça envergonhar! Então gastamos quatro anos a estudar de noite o Direito para hoje defender que o lugar de criminoso é em casa?!”
Gociante Patissa. Benguela, 25 Maio 2016 | www.angodebates.blogspot.com
















