domingo, 24 de março de 2019

Ovilongwa kelimi/oviholo lyUmbundu: «ONGANYO YALILE KAPOKO» - Lendas da língua/cultura Umbundu: (o biscate tirou a vida a Kapoko)

| Umbundu |
Olonjanja vyalwa tusyata okuyeva akuti «onganyo yalile Kapoko». Onganyo pwãi nye? Pwãi yolya ndati? Kapoko pwãi elye? Ndomo twacikulihã, olonduko vikwete esinumwinlõ. Omo lyaco, ya Kapoko yatyamenlã kokupokola. Onganyo, okuyitala ciwa ndondaka, yikwete esinlã kelimi lyoputu, cilomboloka okuti upange, ale vo ofeto, ale cina koloneke vilo citukwiwa citi ocinyangu, yendisiwa lomunu umwe okuti vimbo ka kwete ño esilivilo lyenda oko loko. Twami ko.
Ndomo ciyevala tunde kosyãhunlu, Kapoko u ndeti, vimbo liaye wakala ulume umwe okuti apako ka kwatele. Pwãi cenda ovina, ongusu vo ka yokambelele, walikapa okwendisa upange wocinyangu, nda kokulimila, nda kokututa ovitele ale ovikwata.
Eteke limwe, umwe fumbelo watula omwenyo. Ocivimbi vacilangeka vocipata. Vamwe apa oco vasakalala ale lokusonga etumba. Okwiya vavilikiya Kapoko:
- A Kapoko, twasukila alume oco vambate etumba kwalangalo vukulu wendamba. Sandako vali umwe ukwacinyangu.

Kapoko yu watambulula ati:
- Ame ndulume laco, ocimbele ndalisoka laco. Ka cisukila ale vali okufeta alume vavali. Ocivimbi ndicambata mwenle voñoño, kavela ño nda cakutiwa ciwa, etumba kutwe.

Sokiye cina ciwa, epata lyatava okuti, nda oco apopya, momo acitenlã.
Vaenda mwenle ciwa, pwãi okupitinlã kwalangalo ale kokalundu, Kapoko wafetika okusaluka, omo okuti ocivimbi voñoño ka citundi. Pwãi vokwenda, ocivimbi cayeya calwa, ovate veya okukoka okuti letimba lya Kapoko leli lya civimbi vyalilamelenlã. Tatayale, catuviwa. Ondaka yatumuiwa mbi nda okuteta, locimahõ cokutepa etimba lyaKapoko vetimba lyacivimbi, cikasi voñoño. Una omõla wosiwe ati:

- Lalimwe eteke. Tate ka la kwata ofuka… ka kendiwa lepute. Mba kacitava!

Valete mwenle yo kutekanvã. Okwiya mba vati pwãi tê okuvakenda kavali. Kenda calingiwa. Kapoko wataka konganyo. Lomunu opanga upange walisetahãlã, otukuiwa vo ati eye Kapoko.

Osapi yondaka yeyi okuti omunu okataka kesalamihõ, vonganyo omo mutunda omwenyõ, pwãi pamwe vo luveyi haimo.


Gociante Patissa
Okwoya kwolusapo watendiwa la sekulu Víctor Manuel Patissa (1946-2001)
www.ombembwa.blogspot.com
______________________


| Português |
É frequente ouvir-se a lenda Umbundu «Onganyo yalile Kapoko». O que é “Onganyo”? Como foi que tirou vida a Kapoko? Quem foi Kapoko? Como é consabido, os nomes têm geralmente um significado. Onganyo, olhando a raiz da palavra, vem do Português, querendo dizer trabalho ou ganho, ou aquilo que hoje em dia se chama biscate, sendo que o seu praticante é uma pessoa com um estatuto abaixo da média. Kapoko vem de "okupokola", obedecer. Avancemos.

Reza a lenda que, na aldeia em que vivia, Kapoko foi um homem sem recursos. No entanto, não lhe faltava pujança, pelo que se dedicou a fazer trabalhos pontuais, fossem de cultivo na lavra doutrem, fosse de estiva/transporte.

Certo dia, deu-se o falecimento de um ancião. Foi deitado o corpo na sala, enquanto uns homens engajavam-se em desbastar madeira para o caixão. Kapoko foi chamado:

- Ó Kapoko, precisamos de homens de braços para levar o caixão do mais-velho ao enterro. Arranja mais um biscateiro.

Kapoko por sua vez surpreendeu:
- Não sou homem de pouca envergadura. Dois pagamentos não serão necessários. Levo o corpo às costas, basta amarrarem bem, e o caixão à cabeça.

Após os acertos, a família concordou: se o disse, é porque consegue. A marcha do funeral correu sem sobressaltos, mas chegados ao cemitério, Kapoko começava a entrar em pânico, uma vez que o cadáver não lhe descolava das costas. A baba servia de cola. Várias tentativas redundaram em fracasso. Aventou-se então a hipótese do uso de faca para separar Kapoko do cadáver. Mas um dos órfãos era irredutível.
- Nunca mais! O pai não tem dívidas, não pode ser enterrado com feridas. Definitivamente, não!

Começava mesmo a anoitecer. Decidiu-se por fim pelo enterro do cadáver conjuntamente com Kapoko. E foi feito. Kapoko perdeu a vida num biscate. Ainda hoje, em função da lenda, rotulam-se de Kapoko aqueles que vivem de trabalhos inferiores.
A chave da parábola: o homem está fatalmente condenado a viver à custa do suor, do trabalho vem o sustento, assim como podem vir doenças.

Gociante Patissa

Adaptação da lenda contada pelo velho Víctor Manuel Patissa (1946-2001)

Share:

sexta-feira, 22 de março de 2019

SOS | Como Angola não aderiu ao novo acordo ortográfico de língua portuguesa, preciso de saber se existe uma norma em uso nos organismos oficiais e gabinetes de comunicação institucional e imprensa, uma vez que o computador tende a forçar a "correção" de pendor abrasileirado. Mantém-se a norma antiga ou se mistura, por ex., "têem/têm", "vêem/vêm"?

PS: Fui às definições do computador, instalei "português (Angola)" mas diz não haver suporte manual para este idioma. Funciona o "português (Portugal)", usando a opção Pré-Acordo Ortográfico. É o que já vinha usando. Obrigado
Share:

quinta-feira, 21 de março de 2019

(Arquivo) Humor | MANUAL DE PROCEDIMENTOS DO ASSALTANTE

Certo assaltante, em pleno exercício de funções, pula o muro da residência de missionários na pacata vila da Catumbela, que tinha no seu quintal uma marcenaria com materiais e ferramentas valiosíssimos. A residência não tem guardas, ou porque os celibatários o dispensassem ou porque não tinham condições de o remunerar. Disso andava bem informado o profissional do roubo. A noite é de cacimbo, tudo o que pessoas normais podem querer é aconchegar-se bem fofinhos na mantinha. O gatuno até já faz contas do quanto irá ganhar. Para seu azar, um dos padres, sabe-se lá por que insónias, acorda e flagra o gatuno. Instantes depois, os demais residentes se juntam. O resto é amarrar o gatuno, palmatória preparada e tudo para aplicar um correctivo. "UM PONTO DE ORDEM!", exclama o ladrão, para a surpresa dos donos de casa. "SENHOR PADRE, É ASSIM: PRIMEIRO AINDA NÃO É BATER. ACONSELHEM!"

(Adaptaçao da cena contada pelo Hito Virgílio, amigo de adolescência, no bairro Santa Cruz, Lobito) | www.angodebates.blogspot.com
Share:

sábado, 16 de março de 2019

PRÉMIO LITERÁRIO ANTÓNIO JACINTO | Prazo de recepção das obras do prémio foi alargado até finais de Maio


Oliver Quiteculo ‘O Cronista’, vencedor da edição 2018
 com o livro de contos
Mahamba
O Ministério da Cultura, através do Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas (INICC), decidiu estender o período de recepção das obras concorrentes ao Prémio Literário António Jacinto, edição de 2019, até ao próximo dia 30 de Maio.

O prémio literário constitui uma homenagem ao poeta António Jacinto e é um galardão de revelação para obras inéditas de autores nacionais que procuram afirmar-se no mercado. O prémio tem como objectivos primordiais incentivar a criação literária e promover o surgimento de novos autores no domínio da literatura.

Patrocinado exclusivamente pelo Banco de Poupança e Crédito (BPC), o concurso anual [instituído em 1993] atribui ao vencedor de cada edição a quantia de cinco mil dólares norte-americanos em moeda nacional e a publicação da obra vencedora pelo INIC.

Os concorrentes devem enviar as obras dentro de um envelope grande, fechado e assinado com pseudónimo literário, com a identificação completa e uma fotocópia do Bilhete de Identidade, em envelope pequeno fechado, bem como a obra concorrente, em três exemplares digitados a dois espaços em folhas A4, encadernadas e assinadas com o pseudónimo.

A correspondência deve ser remetida para o endereço: Prémio Literário António Jacinto, Instituto Nacional das Indústrias Culturais, Caixa Postal 1248, Rua Cirilo da Conceição Silva n.º 7, 2º andar, Luanda.


Texto: Jornal de Angola, 16.03.2019
Foto: Neovibe
Share:

(arquivo) Diário | E O SENHOR É JURISTA?

"Bem, caros convidados, daqui a pouco o nosso debate vai ao ar. Poderemos ter intervenção de ouvintes via telefone."
"Estamos prontos, caro senhor jornalista."
"Ora, a si já conheço e... a si também. Desculpe-me o senhor que vem pela instituição X: no seu caso, como quer o apresente?"
"Vou falar na qualidade de jurista... sem problema nenhum!!!"
"E o senhor é jurista?"
"Bem, eu trabalho na Associação como relações públicas, às vezes estafeta, e auxilio na secretaria com arquivos documentais..."
"E qual é a sua formação?"
"Estou a concluir o Médio, mas ainda dei uma pausa."
"Então o senhor não é jurista mas pode falar na qualidade de jurista?"
"A minha esposa é bacharel em Direito..."
"Pronto, não tem problema, vou-lhe tratar pelo nome."
"Você é que sabe, Ok?

Gociante Patissa, Benguela, 15.04.2016 (Adaptação)

Share:

sexta-feira, 15 de março de 2019

(arquivo) Diário | VOCÊS NÃO VÃO ESPANTAR A CAÇA, OU VÃO?

(I)
"Atenção, atenção!!! Assim estamos a passar. A praça é grande, cada um fica já com o dinheiro na mão! Xé!, você aí, ó cidadão! Não estás a ver que a Fiscalização está a passar?"
"Como o caminho não passa na minha testa, ainda achei que não devia ter medo."
"Passa a taxa, rápido!"
"Taxa de quê?"
"O pagamento diário da bancada! Estamos aonde afinal?! Essa merda tem leis ou não?!"
"Acho que o país tem uma história..."
"Meu camarada, o tempo é dinheiro. Já Arranquei a ficha do bloco de facturas. É só pagar e mais nada!"
"Então não estou a ver bem o porquê que lutei. Um gajo entrou na tropa criança, combater sem folga de estudar, desmobilização sai sem emprego. Assim se hoje tenta na venda precária, ainda é perseguido pelo Estado que serviu?"
"Estás a brincar... É a tua última palavra?! Primeiro o camarada cumpre, depois é que reivindica. Nós também são ordens superiores que estamos a cumprir, ouviste, né?. "
"Ainda afinal quero ver esse tal vosso superior, tratar como homens peito a peito (corpo a corpo era já noutro tempo)..."

(II)
"Chefe! Ó chefe! Um ponto ainda..."
"Estás a fazer o quê no gabinete em hora de ponta?!"
"No mercado encontramos um reaccionário. Pede a comparência do chefe."
"Como é que é o gajo, assim corporalmente?"
"Músculos que não tem no corpo tem na boca, ó chefe. Nós até não passamos..."
"E qual é o estado de opinião e comentário dele?"
"Diz que não entende o fundo de dedicar a vida inteira combatente se hoje nem direito de sobreviver lhe resta... Isso é coisa de se falar, ó chefe?!"
"Mas isso que ele disse é grave, é política! E quando ele explana, é com força ou devagar?"
"Com força. O mercado até pára para ouvir."
"Abafa. Técnica de exaustão, ouviu?"

(III)
"Você é o reaccionário, certo? Olha, fomos despachar com o chefe sobre o nosso diferendo..."
"Nosso diferendo?..."
"Ora essa! Se nós, os Fiscais, em pleno gozo dos nossos deveres de zeladoria, somos interrompidos na cobrança da taxa diária..."
"Eu quero falar como homens com o vosso chefe, saber onde cumpriu a vida militar..."
"Não vale a pena, ele é muito ocupado!!! Também já abordamos a tua inquietação..."
"Quando é que o vosso chefe vem aqui?"
"Continuando. Você, só mesmo você, está isentado de tributar a taxa diária de bancada. Mas não penses que é porque refilaste, não. Em toda a parte do mundo há autoridade. Cumpre-se primeiro, reclama-se depois."
"Ó cunhada, vem ouvir! Esta mulher que estão a ver cheia de poeira é cunhada por afinidade, viúva de um companheiro de trincheira. Como é que eu não pago mas ela tem que pagar, quando a história é igual?"
"Por acaso, o chefe não deferiu sobre o caso dela, mas é pacífico. Conta como indigente. Portanto, agora, por favor, vocês não vão espantar a caça, ou vão?"

www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa. Benguela, 28 Maio 2016
Share:

quinta-feira, 14 de março de 2019

Crónica de Germano Almeida | RACISTAS OU NEM POR ISSO?


Foi nos inícios dos anos 60 do século passado, certamente por pressão dos movimentos independentistas e urgente necessidade de provar ao Mundo que éramos todos, brancos, pretos, amarelos, mulatos e companhia, todos iguais perante a Nação, que Portugal começou a integrar os naturais das ex-colónias nas tropas da Marinha. E lembro-me de um navio de guerra português que fundeou no porto da vila de Sal-Rei donde desembarcaram uma quantidade de jovens negros, bem tratados e fardados de um branco impecável e imaculado, e que saíram a passear e conhecer as ruas da vila. Quando passaram pela nossa casa a minha mãe viu-os e chamou-nos, Venham ver uns pretinhos de guerra a passar! Fomos ver. Eram muitos e rigorosamente fardados e bonitos, passeando em fila quase militar, sorrindo para nós, cumprimentando alegres. Depois que ficámos só nós, disse para a minha mãe, Mas espera, tu também és preta! Não, respondeu sem hesitar, nós somos cabo-verdianos.

Os cabo-verdianos em geral sempre tiveram alguma dificuldade em aceitar a sua condição de negro. Há muitos exemplos históricos a comprovar essa asserção, alguns bem caricatos como o caso de um administrador da ilha do Maio no século 18, negro como um carvãozinho, mas que se apresentou como branco a estrangeiros que visitaram a ilha. Pode ter sido o conhecimento dessa fraqueza nacional que levou Baltazar Lopes, no prefácio a Aventura Crioula de Manuel Ferreira, a afastar a nossa eventual condição quer de africanos quer de europeus, para sem mais nos afirmar orgulhosamente cabo-verdianos. E dentro dessa linha de pensamento, costumo defender, sem qualquer fundamento científico, é verdade, a existência de mais uma raça, a juntar-se às já existentes, e que é a raça cabo-verdiana.

Penso que se alguém com capacidade e conhecimento e vontade, pegasse a sério nesse postulado, bem perfeitamente que sem grande esforço poderia reencher o novo conceito de mais uma raça no mundo, a cabo-verdiana, caracterizando-a como tendo sido historicamente composta por todas as raças e culturas que aqui aportaram e se juntaram e se misturaram e se multiplicaram e acabaram criando raízes e se espalharam pelas ilhas todas, todos moldados por uma terra onde tiveram que quebrar pedras para inventar comida e que manenti manenti não se acanhava de os matar à fome.

Ora aconteceu que na sua intervenção parlamentar durante a reunião da Assembleia Nacional a deputada por África, eleita nas listas do PAICV, discutindo a mobilidade e integração na CEDEAO, insurgiu-se contra o tratamento que considera discriminatório a que viu serem sujeitos os africanos que pretendem vir para Cabo Verde, com exigências que considera vexatórias, e concluiu que até se poderia classificar isso tudo como discriminação racial.

Foi um deus-nos-acuda! Imediatamente os deputados apoiantes da situação e que estavam sentindo o Governo acossado, logo agarraram o mote e não mais largaram o osso. Racismo não! É grave acusar as pessoas de racismo, porque o cabo-verdiano, o povo cabo-verdiano, não é racista. Mas o mais grave é o PAICV, os deputados do PAICV, ouvirem essa afirmação atentatória da dignidade nacional sem reagir, aceitando de facto uma situação que deixa de rastros o povo cabo-verdiano…

De modo que a dúvida está lançada, e como não há não que não contenha um sim, vamos aguardar pelos próximos capítulos a ver se sim ou não somos racistas ou simplesmente cabo-verdianos.

In revista África21, Nº 137, pág. 58, Luanda, Angola - Março 2019 
Share:

quarta-feira, 13 de março de 2019

Livro do mês na Revista África21 | O Homem Que Plantava Aves, De Gociante Patissa: Desfile Alegórico Da Praxis Popular Benguelense | Por José Luís Mendonça


LIVRO DO MÊS | Sugerimos ao leitor que pegue na obra O Homem que Plantava Aves, de Gociante Patissa, e comece por ler o último dos contos, Porque é que a Cauda de Lagartixa Cai? Este destoa do conjunto de estórias. É a voz de um contador de estórias anónimo, que Gociante talha com o formão da língua portuguesa num produto literário novo.

Por José Luís Mendonça, in revista África21, Nº 137, pág. 73/74, Luanda, Angola - Março 2019 

A seguir, leia-se A Lenda do Soberano Ndumba. Muito próxima da última estória, pela colagem ao nativismo, difere dela pelo recurso descritivo que caldeia todo o livro. É o que lemos neste trecho: “Concebo sipaio como milícia, um espécime rudimentar criado pela autoridade colonial, mas cujo poder se cingia sobre as comunidades indígenas, irónico instrumento de repressão de colonizados contra os seus semelhantes.”

O leitor atento pode constatar que certos recantos linguísticos trazem reminiscências do refinamento discursivo de Óscar Ribas. Nessa conformidade, o valor literário desta colectânea de contos não reside tanto no seu espectro linguístico, senão no registo fonético e no desfile alegórico da praxis popular benguelense de que se constrói a narrativa.

O Homem que Plantava Aves, lançado pela editora Acácias nos dias 14 e 15 de Dezembro nas cidades de Benguela e do Lobito, reúne 15 contos, de cuja leitura se extrai um valioso repositório de usos e costumes da região de Benguela. Neste sentido, esta obra é rica pelo seu pendor etnográfico. Como explica o autor, na nota introdutória, “Temos em mãos uma colectânea de ficção com esparsas referências autobiográficas do autor e do espaço de língua e cultura Umbundu, o que implica atravessar uma vez ou outros temas complexos, como as memórias do tempo de guerra civil, ou as sequelas do pós-conflito, não fugindo o devaneio literário ao papel de confrontar a humanidade com as suas contradições.”

Um aspecto peculiar de O Homem que Plantava Aves é a reunião, num mesmo texto, das técnicas do jornalismo, da literatura e da resenha histórico-social. Mas, quem é o homem que plantava aves? Lumbombo (raiz), paralítico à nascença, tal como Kahito, do griô Wanhanga Xitu, é um prodígio na sua aldeia.

Esta raiz paralítica produziu mais riqueza na aldeia que boa gente de corpo saudável. Primeiro, foi a horta. Que atraiu tantas aves, ao ponto de os vizinhos conjecturarem que Lumbombo passara, de simples domador, a plantador de aves. Preocupado em “atrair simpatia feminina aprendeu a esculpir pentes.” Até que, “com as suas poupanças, passou o mestre Lumbombo a investir na criação de gado. De frágil a prodigioso, cativava beldades e acumulava bens sem sair do lugar, sem conhecer o caminho da lavra sequer, já que só se podia mover arrastando-se.” Esta estória deslumbra por essa razão. Uma lição de filosofia se extrai no final: “Não é com as pernas que corremos, é com o pensamento.”

Gociante Patissa, qual plantador de aves literárias, reúne na sua lavra vozes longínquas de mais-velhos e as vozes do seu quotidiano benguelense, numa bela sinfonia de escrita.

É com o pensamento que Gociante Patissa, o plantador de aves literárias, corre, de estória em estória, reunindo na sua lavra vozes longínquas de mais-velhos e as vozes do seu quotidiano, numa bela sinfonia de escrita, onde, por vezes, encontramos trechos a raiar a textura da crónica, ou pedaços de ficção escritos como quem dança um som de ngoma mítico, tal é a ordem de sub-esferas culturais e psico-sociais que se entrechocam nas estórias.

Em Nossa Luta Vossa Luta, abre-se o pano do palco histórico angolano, tal como Manuel Rui o abre em Quem me Dera ser Onda. Com uma pitada de sarcasmo ajindungado. Assim lemos: “Mas há por aí pólvora na via pública a apanhar restos nos contentores, na birra do trânsito, na estatística da investigação criminal.” O mesmo jindungo pica num outro conto, A Chefe e os Homens, que faz a apologia da mulher na política.

A Comissária Comunal da Equimina, ao tempo do partido único, é alvo do machismo impenitente que grassa em Angola, principal. A Comissária havia espancado o responsável de uma loja que tinha batido numa viúva e estava a ser alvo de inquérito. “Dez dias depois saía o tão temido veredicto Primeiro. Recrutamento da senhora agredida para os quadros da OMA e Promoção da Mulher. Segundo. Exoneração do chefe da loja e responsabilização criminal do mesmo. (...) Contudo, este resultado levou os detractores, que já davam como certa a exoneração da chefe, a acreditarem ainda mais que a política é suja.”

Depois desta colherada de caldo de peixe seco, cabe a vez ao leitor de comprar O Homem que Plantava Aves e saborear o caldeirão real e, ao mesmo tempo, fantasioso, que nos mostra outra parte de Angola, das vidas que por lá nascem, crescem e desaparecem e da sua história que, por obra de Patissa, deixam um rasto indelével no livro.

Daniel Gociante Patissa nasceu em 1978 no Bocoio, Benguela. Tem licenciatura em Linguística, especialidade de Inglês, pela Universidade Katyavala Bwila. Membro da União dos Escritores Angolanos, foi distinguido com o Prémio Provincial de Benguela de Cultura e Artes 2012, na categoria de Investigação em Ciências Sociais e Humanas, «pelo seu contributo na divulgação da língua local Umbundu, na perspectiva das tradições orais, através do conto e novas Tecnologias de Informação e Comunicação». Anima os blogues www.angodebates.blogspot.com e www.ombembwa.blogspot.com
Share:

(Arquivo) Diário | ENTÃO GOZAS DE IMUNIDADES COMO?

"Ó senhora, eu já falei. Ainda não sou casado, nunca bati uma mulher. Por isso, me cumpre só, ya? Não me obrigues a fazer uso de força, estás a ouvir?!"
"Isso é teu problema, ó mano. E eu é que vou fazer o quê, se as mulheres deste mundo não te aceitam?! Larga mais é o meu negócio, pá! Vá ser homem noutras coisas, entendeste?!"
"Já que não queres entregar a prova da infracção, estás renitente, é só subir na carrinha!..."
"Eu?! Tchaaa!!! Nunca!"
"Estás a te confiar em quê?"
"Nós gozamos de imunidades."
"Ó dona, vá, vamos embora, já falamos muito! Voz de mando! Eu sou autoridade!"
"Oh! Mano, o mano não é fiscal?"
"Ainda perguntas?!"
"Fiscal não é civil? Como mais é que vai ser autoridade?"
"Só falta mesmo pouco, vou-te meter nas algemas. Isso então é desacato!"
"Desacato como?! Te fiz o quê?"
"A senhora estava a fazer pracinha na berma, por cima ainda a estrada é nacional..."
"Não vamos só falar à toa ainda, mano! Uma pessoa sozinha assim já vira pracinha?! Afinal se a outra é zungueira..."
"Não, não! A mim não enganas! Já namorei com uma gaja de Malanje que me ensinou umas quinze palavras de kimbundu. Zungueira significa mulher que circula, ambulante. Não é o caso. Você estava parada..."
"Mano, na vossa família andam, andam, andam, nunca ficam cansados?"
"Por acaso, tens ali o cartão de ambulante para vender essa ginguba torrada, abacate, mandioca e banana?"
"Não."
"Tens alvará de retalhista?"
"Não preciso..."
"Então gozas de imunidades como?"
"Mão então o meu marido não é chefe de departamento?! Alguma vez viste no Prado dele último grito algum selo de taxa de circulação?"

www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa | Catumbela, 17.06.2018
Share:

segunda-feira, 11 de março de 2019

Crónica | Uma oração a “o ocaso dos pirilampos”*


Banny de Castro, Benguela, 10.03.2019

Hoje por hoje, quando um bom leitor se depara com livro de autor desconhecido, é regra que reaja de forma cética e desdenhosa. Olha para a capa, para a contracapa, para as badanas; mesmo que esta esteja escrita da forma mais inteligente possível, ainda reage à biografia do autor com o estoicismo de um médico calejado ante a impaciência de seu jovem paciente. Tratando-se de obras prefaciadas, também reagirá a esses dados com indiferença. Já tem noção de como fazem os prefaciadores: muitas vezes são leitores superficiais e entusiasmados que não têm a sorte de captar o âmago da matéria que introduzem.

Então o leitor avança e, se for realmente uma obra de fôlego, ele começará a resfolegar logo nas primeiras palavras que lhe darão entrada ao enredo. Porque para reconhecer um bom artista basta uma simples palavra sua, um som, um piscar de olhos. Depois segue-se, da parte do cético leitor, aquela estranha sensação de autoengano e também alguma autopunição libertadora; logo após o prazer cresce em cada avanço, em cada página, em cada secção. Muda-se o quadro, agora é ele que se sente caçoado, rebaixado, desdenhado, com o orgulho tolhido. Engole em seco, de arrependimento, mas também e sobretudo pela sorte de estar a degustar uma boa obra literária. Existe melhor terapia do que essa? Muitas vezes o escritor, primeiro subjugado, agora pesca o leitor, acolhe-o no seu manto, deixa-o prostrado na seguinte oração: «eu falo, é o falo!», escreve sorrindo, soltando um peido, «eu vomito cidades, todas as vossas cidades de novos-ricos e novos-pobres», ousa o escritor. E o leitor pensa: micção/Mixinge/isso é felação, há muito que eu andava a desconfiar de que as nossas cidades, e essa vaga de novos-ricos e novos-pobres que só começaram a aparecer primeiro em 1975 e depois em 2002, eram xixi e “dejetos fecais”. Mas o leitor não tem como abrir a boca, fica preso à trama… uma leitura assim é eletrizante. Atua como íman, prende e faz refém. Ele fica imerso na leitura, é absorvido, absolvido e convidado a adotar posições kamasutrianas. Só quando alcança as três ou duas páginas derradeiras, aquelas que desfecham o enredo, é que se lembra de parar, de forma brusca, porque é chato constatar que se vai terminar a leitura de um bom livro; e por isso finge, procurando prolongar, por subterfúgios, o momentum. Numa atitude de desespero, põe o marcador na página derradeira e devaneia: sopesa o livro, sente-lhe o cheiro, o tato também, detém-se por mais tempo e com algum respeito na leitura da biografia e na imagem do autor para lhe perscrutar as feições e abstrair as emanações da sua personalidade… Um bom leitor não aprecia um livro antes de saber do que este retrata.

Sempre tive medo de terminar a leitura de um bom livro; deixa-me uma sensação de desamparo, de traição e de vazio absoluto. Um bom livro é como o coitado do coito, seu fim nunca foi bem-vindo.

* “O Ocaso dos pirilampos” é título de um livro da autoria de Adriano Mixinge, escritor angolano; vencedor do prémio Sagrada Esperança. Esse texto foi inspirado pela leitura daquele livro.
Share:

Anedota

– Vamos lá a ver, menino Luizinho, o que me sabe dizer sobre a morte de Luís de Camões?
– Que descanse em paz, senhora professora. (Adaptado)
Share:

sábado, 9 de março de 2019

Carnaval de Benguela | QUAL SERIA A MISSÃO DO CARNAVAL DE HOJE?


Gociante Patissa (*)


Escrevo estas linhas a pedido do Folha-8 pouco após a divulgação dos resultados do desfile provincial 2019, que volta à sua forma tradicional quatro anos depois, pondo fim à municipalização “imposta” durante o consulado do governador Isaac dos Anjos, na base da qual sete dos dez municípios competiam no interior.

Só muda o tempo verbal. O dono do pódio é uma constante: Bravos da Victória, do município da Catumbela. Quando se falasse do Carnaval, na província de Benguela, vinha sendo assim até ao ano 2015, quando o grupo suspendeu a sua participação nos desfiles, por entender que não havia concorrente à altura na categoria municipal. Os Bravos da Victória chegaram a desfilar (sem concorrer) na Nova Marginal da Praia do Bispo no Carnaval de Luanda em 2018.

O prémio maior na classe adulta vai para quem? Adivinhem! Bravos da Victória, com 542 Votos, ficando na segunda posição, o Bloco Amarelo com 500 votos (vencedor da edição municipal 2015), que se estreou há alguns anos como bloco de animação. Em terceiro lugar ficou o município do Cubal com os 442 Votos arrebatados pelo grupo Irene Cohen (vencedor da edição provincial 2015). Na classe infantil, sagrou-se vencedor o município do Bocoio, com 442 Votos, seguindo do Lobito, com 378 Votos e mais uma vez o Cubal no pódio por intermédio do Grupo Dr. António Agostinho Neto, com 362 Votos.

Com lugar cativo no pódio, os Bravos da Victória reeditam a hegemonia do grupo da Hanha do Norte, com a diferença de aquele ter sido um fiel tradutor etnográfico do seu meio. A questão hoje a colocar é cristalização dos padrões, já sem falar das músicas de disco e o playback, com figuras simbólicas como Reis e Rainhas desgarrados da nossa idiossincrasia. O que pretende o carnaval de hoje e qual a sua missão no que respeita às representações sociais e culturais do povo que o dança? São questões que quem testemunhou as décadas de 80/90 do século 20 continua a colocar-se. De sorte que temos de esperar a edição seguinte do carnaval para ver as danças que não encontram vez nas manifestações do dia-a-dia, como sejam o casamento, o nascimento, o óbito e a circuncisão.

(*) Escritor. Residente em Benguela. FOLHA-8, pág. 36 |Luanda, 09 de Março de 2019
Fonte da foto: Capoco News
Share:

sexta-feira, 8 de março de 2019

Portugal e Angola: Mais colonos do que amigos | Opinião do luso-americano Luís Costa Ribas


A bem-sucedida visita do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, os afectos, as selfies com o Ti Celito e a aparente bonomia do Presidente João Lourenço, são a superfície. Sob este nível cutâneo, os portugueses continuam a ser, sobretudo, colonos.

Fonte: SIC07.03.2019

É longa e boa a minha relação com Angola. É marcada pelos amigos, muito bons amigos, de décadas; por um interesse profundo por um povo muito bom, amaldiçoado com um governo muito mau que felizmente, com João Loureço, está a melhorar todos os dias; e por dedicação profissional a África, em parte devido ao meu trabalho numa emissora internacional nos Estados Unidos.

Esta relação de proximidade com Angola, e o facto de a maioria dos angolanos que me conhecem me associarem aos Estados Unidos, permite-me ouvir deles avaliações francas sobre Portugal. E Portugal – a Tuga – é a terra dos colonos. Os “pulas” – os portugueses – são amigos de ocasião e convenientes bombos da festa. Estão lá pelo dinheiro, não pela amizade. O mesmo se pode dizer da interesseira amizade angolana com Portugal: apesar das “ameaças” de amizade com Espanha ou França, não há porta europeia como a portuguesa. São assim as relações internacionais. Todas as amizades o são por conveniência.

Repare-se no “irritante”. Independentemente do mérito do caso na justiça portuguesa contra o ex-vice-Presidente, Manuel Vicente, Angola não aceitou – nem nunca aceitaria – a sujeição de quem foi um alto responsável do estado à ex-potência colonial. Não está em causa saber se Vicente era, ou não, corrupto. Provavelmente, é. Aceitar que a justiça portuguesa, mesmo sem as suas tristes e lamentáveis práticas recentes, pudesse sobrepor-se à atroz e incompetente justiça angolana é inaceitável. Como qualquer angolano nos dirá, “a nossa justiça é má, mas é nossa”.

É claro que, para os adversários do regime, recorrer à justiça da ex-colónia é uma faca de dois gumes. Por um lado, mesmo má, é melhor e mais independente do que a angolana. Logo, a probabilidade de se fazer justiça é superior. Mas, por outro, a situação gera um enxovalho e uma humilhação a que muitos angolanos não querem sujeitar o seu país. Apesar de, entre a oposição, suscitar uma boa dose de shadenfreude ver os arrogantes e corruptos dirigentes do MPLA a suar as estopinhas em Lisboa, castigar os nossos às mãos dos estrangeiros, não é sucesso garantido.

No caso de José Eduardo dos Santos e do seu regime, era um mero caso de arrogância, de “como se atrevem”, vindo de um regime com uma noção imperial da presidência. No caso de João Lourenço foi uma necessidade política. Defender Manuel Vicente não era defender Manuel Vicente. Era defender João Lourenço. O novo presidente angolano estava a atiçar muitos marimbondos e fazer frente a Portugal ajudou a proteger o seu flanco interno.

Por um lado, deu uma satisfação aos muitos que, nas elites angolanas, se sentem desconsiderados pelos “pulas” e agastados com a arrogância com que muitos – e não são poucos – comparecem em Luanda. Por outro, Lourenço precisava de estabelecer contrastes firmes com José Eduardo dos Santos. E mesmo que a justiça angolana não seja, ainda, muito melhor – os aperfeiçoamentos necessários estão a anos de distância – o facto de não ser arma contra a oposição constitui, em si mesmo, uma bem-vinda melhoria.

À atitude sobranceira com que Luanda lidou durante anos com Lisboa não é alheia a postura desta, solícita, de chapéu na mão, ou abjecta, de joelhos, como foi o caso de Rui Machete, incitando à humilhação. Até mesmo no caso recente do Bairro Jamaica, aceitando que o Governo português não pediu desculpas a Luanda, alguma coisa foi dita para permitir tal interpretação.

Recentemente, encontrei nos arquivos diplomáticos portugueses um telegrama da embaixada em Luanda, de 1976, dando conta de uma carta do então Ministro das Relações Exteriores, José Eduardo dos Santos, ameaçando expulsar os diplomatas portugueses, se Lisboa continuasse a permitir a presença de apoiantes angolanos da UNITA no português. Não faltam, no historial desta relação, manifestações de nacionalismo defendendo a soberania angolana através de imposições à soberania portuguesa.

As mudanças de José Eduardo dos Santos para João Lourenço retiraram à presidência insolência e sobranceria, humanizaram-na e aproximaram-na dos governados, mas não alteraram o carácter nacionalista do MPLA que se reflecte nas suas relações com Lisboa.

Por muito que precise de Portugal e dos portugueses, e precisa, Luanda olhará sempre para os pulas como colonos, primeiro, e amigos depois.

Share:

Sugestão para ver no feriado | "SÃO NICOLAU - ELES NÃO ESQUECERAM" (documentário angolano)

Estou a ver o documentário "SÃO NICOLAU-Eles não esqueceram", um DVD que me foi ofertado pela Associação Tchiweka de Documentação, da família do nacionalista Lúcio Lara, com o seu projecto Trilhos (gratidão minha reiterada à investigadora Elisabete Azevedo). Traz relatos in situ como contributo para a posteridade de memórias vivas num registo dos horrores do centro de reclusão/desterro de presos políticos do regime colonial português de São Nicolau (hoje Bentiaba), encravado entre o deserto e o mar, em Moçâmedes (hoje província do Namibe). O meu avô paterno Manuel Patissa, líder religioso protestante (IESA - Igreja Evangélica do Sudoeste de Angola), no interior da comuna do Monte-Belo, município do Bocoio, cumpriu (1961-66) no famigerado processo "operação Ovisonde"
PS: O documentário está parcialmente disponível neste link https://vimeo.com/52489934
Share:

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

Publicações arquivadas