sábado, 21 de janeiro de 2023

Poema inédito | ALUGAM-SE VELHOS


 Poema inédito | ALUGAM-SE VELHOS

 

Empurro o hoje com as mãos

Tipo a minha mãe o arado

Salgo com os poros o pão

Ainda deste lado. À mulemba nem a nado

 

Em mim tudo cabe

Tudo se ajusta

O chegar que inquieta

O partir que sabe a dieta

 

Da Ganda herdo o ciclo dos eucaliptos

Juvenis, floridos, silentes

já só lhes restando a calvície 

e a dureza da crosta aparentemente

 

Do Monte Belo em mim batem

O cieiro do calar da lareira

Ou as cinzas dos velhos que partem

Onde a esperança é a primeira

 

Por aí ouvi um dia destes

Que era das árvores rebentar 

Secar e de novo rebentar

É que abundando firmes viram peste

 

Neste chão longânime e gelado

Sobrando avós para netos

Acena ao denso vazio o preto

Alugam-se avôs onde forem achados.

 

Gociante Patissa | 20 Janeiro 2023 | www.angodebates.blogspot.com

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domingo, 13 de novembro de 2022

Eventualmente a face feia de uma era cultora do verde/limpo/sustentável?

 "Apparently the ugly face showing of a green/clean/sustainable cult era?" / 

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sábado, 29 de outubro de 2022

Um adeus impossível à FILÓ (*)

Atrás de mim, um céu carregado de chuva anunciada pelos humanos da meteorologia preenche a moldura da janela. Era suposto desfilar nas primeiras horas de terça-feira, agora desmentida por um meio-dia a espreitar seco o telhado. Diante de mim, uma tela em branco, um teclado e as ideias em vôo espiral, mas aterrar mesmo, que é bom, nada! Na banda, uma cidade em prantos, é a Filomena Maria, carismática locutora de Ombaka, de malas feitas para o além.

E no pulsar desses minutos não produzidos, penso na ansiedade da gente envolvida no TELEGRAMA, jornal digital que se propõe chegar nos próximos dias ao público angolano. Tenho o compromisso de assinar uma coluna na edição inaugural a convite do seu mentor. É a história que se repete volvidos sete anos sobre o parto do Correio do Sul (de vida efémera e descontinuado ao quinto número) onde dei o meu contributo voluntário na editoria cultural. 

 De lá para cá muito mudou em nossas vidas profissionais, a começar por já não residirmos na nossa velha província. Daí que ao receber a convocatória pendi logo para a indisponibilidade, visto que há uns anos abracei o ramo da assessoria de imprensa, o que recomenda um certo distanciamento em relação à rotina jornalística. Aliás, já-se se diz, “cada escolha é uma renúncia”. Ainda assim, cedi parcialmente, perante o momento histórico na vida de um kamba.

 

Entre mim e o Nelson, que também é Sul, há uma Benguela a transcender nas suas teimosias juvenis, no imaginário, na sociocultura, no mito do rio, no sal das ondas, enfim no capital colectivo sem fronteiras chamado memórias. Benguela, há que dizê-lo, é uma mãe que se faz mão, aberta e abundante, para quem escolhe poisar ou para o impulso de quem siga o vôo livre. 

 

Longe da banda, serve de consolo a velocidade das redes sociais, mau grado nem sempre virem notas alegres. Até começo a duvidar se esta chuva não será, afinal, lágrimas de uma Benguela que vê partir a sua Filó, das mais alegres acácias da 92.9 FM. Cala-se uma conselheira, terapeuta de casais, uma patriota também talhada para lidar com gerações mais novas.

 

Estamos nos estúdio em Dia do Herói Nacional, quatro jovens mais a locutora e o operador de som. O poeta Mbangula Katúmwa, o líder juvenil Cristiano Fernandes, o jornalista Nelson Sul e eu. A pauta gira em torno das façanhas de Agostinho Neto, papo conduzido pela carismática Filó e o recital intervalados por música de circunstância. A dado passo alguém questiona quanto tempo mais faltará para que as figuras de outros movimentos sejam também reconhecidas heróis. Fica-me a memória triangular desta irreverência cidadã do Nelson, que apanha todos desprevenidos no ido consulado do presidente JES, aspirando uma Angola de inclusão.

 

A Filó já cá não estará para acompanhar a afirmação dos putos que despontaram na década de 2000 e que tão carinhosamente amparava para emitirem opiniões. Tive a sorte de participar em duas caravanas de assalto à sua casa para homenagear a voz aposentada, uma com o Yuri Mulaja e o Mbangula, a outra deu-se ainda este ano com o pessoal do Ombaka Teatro.

 

Eis pois a crónica de um adeus impossível à Filó, eu porque temporariamente atirado nas europas, o Nelson porque retido na capital a dar parto ao seu projecto jornal TELEGRAMA.

 

Gociante Patissa | Escritor | Lisboa, 18 Outubro 2022


(*) Crónica publica na edição inaugural do jornal digital O TELEGRAMA

 

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domingo, 11 de setembro de 2022

Versão umbundu do livro de poesia e fotografia de José Eduardo Agualusa disponível em Lisboa desde 07 de Setembro. A obra sai pela Urukum, tem exemplares manufacturados e numerados, capa de kapulana, a tradução para umbundu foi do poeta angolano Gociante Patissa


Notícias que nos chegam da Feira do Livro de Lisboa indicam que está patente na galeria de arte do stand B 104 "ONUMBI YOKANAITO KA KAPWI" (do original, Gramática do Instante e do Infinito). Ao longo da programação de hoje, que é o último dia da Feira, José Eduardo Agualusa autografa um outro título. 







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terça-feira, 30 de agosto de 2022

CONTAGEM PARA LÊ-LA, crónica de Yosefe Mwetunda

 No dia 24 de Agosto do ano corrente, Angola foi às urnas pela quinta vez. A primeira vez, histórica mas imprópria para recordar, teve lugar nos dias 29 e 30 de Setembro de 1992, tendo sido o infeliz argumento de uma narrativa marcial que consumiu incomensuráveis pessoas humanas desta jovem pátria de África e do mundo.

À luz dos parcos números disponíveis no sítio oficial da Comissão Nacional Eleitoral (adiante CNE), o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) conquistou a maior fatia do eleitorado, sagrando-se vencedor das eleições legislativas, seguido pela União Nacional para a Independência Total de Angola (doravante UNITA). Nas presidenciais, as colocações foram similares: José Eduardo dos Santos, na altura presidente do MPLA, foi feito (ou fez-se) primeiro presidente eleito de Angola, sob acirradas alegações de fraude por parte de Jonas Malheiro Savimbi, segundo colocado.

 

Os últimos quatro pleitos foram realizados com periodicidade ordinária, deveras fruto do 4 de Abril de 2002, data em que o fratricídio que sucedeu a luta pela dipanda foi sepultado pelas pás da paz no jazigo do tempo histórico.

 

Quando o discurso da reconciliação e reconstrução nacional ganhava imperatividade, coube a uma nata estimável de angolanos definir a data das eleições legislativas de 2008, nos dias 5 e 6 de Setembro, as primeiras do tempo do silêncio das armas. No que tange a essas, a CNE apurou 81,64% dos votos para o MPLA e, para o seu principal adversário político, a UNITA, 10,39%. Nesse comenos, para a infelicidade de toda a consciência que saúda a supremacia da vida humana, Savimbi já dormia o sono do qual nunca mais acordou, mas o seu rebento político voltou às alegações da fraude. Fraude em 1992, fraude em 2008.

 

Os angolanos voltaram a pintar o dedo a 31 de Agosto de 2012. Um novo quadro jurídico-legal orientava as eleições em Angola. Como efeito da publicação da Constituição da República de Angola (em frente CRA) a 5 de Fevereiro de 2010, as eleições legislativas e as presidenciais foram tornadas ingredientes do mesmo prato, ao qual o legislador constituinte chama por eleições gerais. É lei, sons gerais para o país. E não é de leis quaisquer. É da lei das leis, minhas senhoras e meus senhores. A presidente, no novo e actual paradigma, apenas se chega com a carruagem para lamentar. Para lamentar? Não, perdoem-me. Queria escrever parlamentar. Entenda-se carruagem parlamentar, portanto.

 

Voltas à parte, em 2012, o MPLA, na altura com José Eduardo dos Santos a adquirir mais uma feliz catalogação inédita, a de primeiro presidente eleito ao estilo eleições gerais, voltou a arrancar das urnas a maioria qualificada. A CNE escrutinou 71,84% para o MPLA e, mais uma vez a secundar, 18,66% para a UNITA. A estrela em brinde. Era o hat-trick. Para o Galo Negro, fraude em 1992, fraude em 2008, fraude em 2012.

 

Com todas as bitolas legislativas das eleições de 2012, com ligeiras alterações, mormente a introdução do registo eleitoral oficioso, foram realizadas, no dia 23 de Agosto de 2017, as segundas eleições gerais, as quartas nas contas holísticas. No marcador, os craques de sempre e os carneiros, também, de sempre. O MPLA, com o seu novo rosto, João Manuel Gonçalves Lourenço, cortou a meta com 61,08%. A UNITA, com Isaías Samacuva à cabeça pela terceira vez, incluindo as legislativas de 2008, içou 26,68%, trazendo à tona, para recusar o póquer do adversário, a narrativa da fraude. Fraude em 1992, fraude em 2008, fraude em 2012, fraude em 2017.

 

Hoje, 29 de Agosto de 2022, com a publicação dos resultados definitivos das eleições gerais de 24 de Agosto, sob a batuta da CNE, o MPLA sobe ao presidium pela quinta vez consecutiva, sagrando-se, como se diz nas lides desportivas, penta campeão, com 51,17% (124 deputados), apesar de, admita-se a conclusão, ter perdido, para o tradicional adversário que no todo granjeou 43,95% (90 deputados), o petróleo de Cabinda, do Zaire e de Luanda.

 

Mais uma vez, à tese das eleições livres, transparentes e justas, engendra-se a antítese da fraude, parida muito antes do anúncio dos resultados definitivos. Fraude em 1992, fraude em 2008, fraude em 2012, fraude em 2017, fraude em 2022, vaticina a UNITA do tão discursado Adalberto Costa Júnior, motorista do GIP, tendo Abel Chivukuvuku como pendura.

 

Nas ruas, há gente a partir a cabeça. Somam as visualizações de fotografias e vídeos de pessoas trajadas com as cores do partido vencedor a sofrer violência nas ruas. Reprova- se, reprove-se com veemência. Há gente que julga que se ACJ falou, logo é verdade: o MPLA não ganhou as eleições. A liberdade de consciência permite que se duvide das decisões da CNE e de todos outros actores do drama eleito oral.

 

Nas ruas, até quem não sabe quanto dá dois mais dois, para não falar da conversão de votos em assentos parlamentares, expele dos pulmões o ar suficiente para dizer que o pleito foi justo ou fraudulento. Convenhamos, a UNITA não é portadora de ingenuidade, ao ponto de repisar o fumo sem que alguém tenha acendido fogo. Fraude vezes cinco, a ser mesmo fraude, é igual a desespero mesmo.

Nos próximos dias, é provável que o dossier venha passar das mãos de Manuel da Silva para as de Laurinda Cardoso. Atentos aos entes que ambos dirigem, diríamos passar da CNE para o Tribunal Constitucional, mas da mesmice não se passará, contanto que os citados órgãos, sob o olhar cúmplice da CRA e da lei, são propensos a desequilibrar a balança a favor do partido com a maior galeria presidencial. Mas, enquanto a tal UNITA que alega fraude ainda esboça a sua contagem paralela, eis-me aqui, junto de todos os amantes desta Angola, a olhar para a CNE que espera a contagem para lê-la. Para lê-la, somente e ponto.

 

Luanda, 29.08.22.XXI.18.00

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José Guilherme João Muetunda nasceu em Julho de 1991, no município de Mavinga, província do Cuando Cubango, Angola. Licenciado em Direito pela Universidade Metodista de Angola, adoptará, quando for escritor, o pseudónimo Yosefe Mwetunda. Autor de poucos textos (mais poemas e crónicas) publicados, o aludido pode ser lido na extinta revista Luzeiro Gospel, onde assinou, só para citar, o poema Evangelho da Graça. Na viva Palavra&Arte (virtual), Mwetunda tem, entre outros, o continho “sexo da bênção”. Tem ainda textos no extinto jornal Nova Gazeta, rubrica poema do leitor e no blogue Angola, Debates e Ideias (www.angodebates.blogspot.com) e em Palavras são tantas: colectânea de poemas e crónicas de jovens autores angolanos, sob a chancela das editoras Perfil Criativo (Portugal) e Alende Eleições (Angola), com a organização do escritor Gociante Patissa.

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domingo, 24 de julho de 2022

A propósito da requalificação do Museu Nacional de Arqueologia em Benguela

Pedem-me para tecer algumas palavras sobre a requalificação do Museu Nacional de Arqueologia, localizado na cidade e província de Benguela, Angola. Ora pois, considero ser uma intervenção pertinente para responder ao desafio de tornar os museus cada vez mais atraentes e até mesmo auto-sustentáveis, na sua função de santuário especializado do ramo científico em que se inserem. 

O também conhecido como antigo armazém de escravos guarda ainda uma narrativa, do ponto de vista do seu funcionamento, em certa medida ligada ao desenrascar, dada a carência generalizada com que se vem debatendo. Pelo que a nova era vem também homenagear os homens e mulheres que ao longo dos anos dão o seu cunho pessoal para a preservação daquele Museu, aqui com particular realce a Pais Pinto (já falecido). Vale lembrar a proeza de terem saído desse elenco duas Ministras da Cultura, as académicas Rosa Cruz e Silva e Maria Piedade de Jesus.

 

De resto, para quem já teve a oportunidade de visitar a Europa, salta à vista o grande investimento na museologia, feito não só por iniciativa singular dos Estados, mas também com fundos da própria União. E realmente nós só temos a ganhar imitando bons exemplos, para bem do saber e da preservação do nosso acervo nos planos nacional e internacional.   

 

A localização do Museu Nacional de Arqueologia numa zona emblemática da cidade (ao lado do Palácio do Governador e da Praia Morena, também alvos de requalificação) constitui um cartaz de boas-vindas para o turista, embora para mim o valor dos monumentos seja ainda maior quando estes residem no coração do cidadão comum, do ponto de vista da sua função social e da identificação. Por isso, vejo que a obra representa, fundamentalmente, uma oportunidade de demonstrar lisura e boa governança na gestão de fundos públicos, com vista à consolidação de um país cada vez mais comprometido com a ética republicana, a transparência e demais valores de cidadania.

 

Faço parte de uma geração que se descobriu na sua vocação da escrita criativa e de comunicação social ali mesmo no pátio do Museu Nacional de Arqueologia, que nos anos 90 serviu de cenário de gravações do programa infanto-juvenil Comboio de Amizade, da Televisão Pública de Angola.

 

Gociante Patissa | 24 Julho 2022 | www.angodebates.blogspot.com

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sexta-feira, 8 de julho de 2022

[poema inédito] MOSCOVO A BARCELONA

Entre Moscovo e Barcelona

Voa a mortalha

Ou o chamado da soberania 

da saúde 

para a saúde 

da soberania

Ngolêh



Entre Moscovo e Barcelona

Angola e a mortalha

“humbi-humbi”

Ou o havemos de voltar

Que conta netos

Nas paredes e nos homens 

Palácio Pegasus

Quatro décadas d’envergadura



Moscovo a Barcelona

Solene indagação

Em paz

E os santos de casa?

A nós resta sonhar

“Kakele ka cimbamba”

Até que um dia



Até que um dia 

Porque 

“Cilanda ongombe citunda vonjo”

Peleje meu hospital

ao suspiro final

Do mais alto

Também.

Gociante Patissa | Luanda | 10 Setembro 1979 - 08 Julho 2022| www.angodebates.blogspot.com

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Línguas, gelos e labaredas

filhas são amantes 
redundância
que leva à pirâmide

enquanto no gelo
dorme o oxigénio
que falta à labareda
só lembrada na cor da língua.

Cada limite
novo começo
multiplicação
ou soma
processos
levam ao mesmo
repetição.

Gociante Patissa, in «Guardanapo de Papel», 2014, pág. 42. NósSomos. Vila Nova de Cerveira, Portugal 

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sábado, 2 de julho de 2022

A acontecer: GOCIANTE PATISSA AUTOGRAFA O HOMEM QUE PLANTAVA AVES

Aguardamos por si na Cozinha da Leitura para a sessão de autógrafos e tertúlia à volta do livro de contos O HOMEM QUE PLANTAVA AVES. Vamos a


té às 13h de hoje, sábado, no Kassenda, Luanda, rua 24 (fo CIRA ( iniciativa da Editora Acácias). Venha adquirir o seu exemplar por 3.900 Kz. 👏🏻👏🏻🇦🇴

#gociante_patissa
#escritor_angolano
#editoraacacias
#luanda
#uniaodosescritoresangolanos
#uea

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sábado, 28 de maio de 2022

[Vídeo] Puxa Palavra com João Carrascoza (Brasil) e Gociante Patissa (Angola)

Assista-nos no YouTube  através do link

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sábado, 30 de abril de 2022

[Poema inédito] DE QUE NOS VALE DIA DO IDOSO?

 

[Poema inédito] DE QUE NOS VALE DIA DO IDOSO? 


Carrego a estiagem 

Na ponta do dedo

Húmidos dedos regados

Salgado fluído do olhar

Feito guardanapo insubmisso 


Carrego a estiagem 

No punho cerrado

Que me alivia o peso da cabeça

Só somar troncos e frondes serrados

Enterrar bolsas de sombra 

Tremer-nos o osso cada meia centena dos nossos

"Nda tukunamenla vali pi?" 


Resulta que desse punho encharcado 

Salgado fluído do olhar

Não flori

Um poema que seja

Desse ao menos um’estrofe

Algo que desce e destoa cifras

D'esperança micro-universo 


Vida cá da gente

É semana cósmica abreviada

Na quarta a velha Flora seca

"Ame ame ciyunge"

Na sexta é o fogo que se afoga

"Sekulu Ndalu watusya vali"

De que nos vale Dia do Idoso 

Oh fôlego taxado a meio século?


Gociante Patissa | Luanda 30 Abril 2022 | www.angodebates.blogspot.com  

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quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Benguela choca pelo não uso de máscaras

Em pouco menos de dez horas de estadia em Benguela, o choque é inevitável dado o desleixo individual e colectivo flagrante na via pública. Praticamente ninguém (mais) usa máscara, já nem falarei da ausência de frasquinhos de álcool ou solução em gel, da saudação aos punhos e cotovelos recomendados. Bombas de combustível, farmácia, supermercado, via pública, tudo igual ao litro.

Não sei o que é pior, se as incertezas crónicas ligadas às políticas mundiais de resposta à Covid ou se os cidadãos corajosos que dispensam a prevenção, marimbando-se para a regras de contenção da propagação da pandemia, seja pela narrativa negacionista, seja pelo discurso triunfalista de ter já tomado as doses completas da vacina.

Eu cá faço parte dos que escolheram ficar do lado da prudência, na consciência de se tratar de uma "bolha" como opção - e disso não há que ter vergonha - no sentido de contribuir até onde me for possível fazer a diferença. Do lado oposto há os corajosos, os decididos, que dispensam o uso de máscaras ou distanciamento, pena é que estes corajosos também não se limitam ao restrito espaço dos seus lares. Só que estes corajosos acabam expondo os demais cidadãos, o que acaba por ser no final das contas uma liberdade em contramão, uma imposição da insensatez. Estamos fartos desse já velho novo normal? Estamos, sim. Mas neglienciar nem por isso compensa. Inicia amanhã um novo ciclo de regressão, para não dizer endurecimento, no plano legal, das medidas de prevenção da Covid-19, na esteira do Decreto anunciado esta noite, no dia em que as estatísticas superaram os quatro dígitos, mais de mil e 100 casos.

À parte os profissionais de saúde e defesa, que têm de enfrentar na primeira linha o mal, bravo mesmo seriam aqueles que duvidam da existência da doença, se recusam a usar a formas de prevenção e como tal... não saem de suas moradias, não expõem ninguém ao risco de contágio. Aí, sim, a cara lavada faria sentido!

Votos de festas felizes e cuidemo-nos!

Gociante Patissa, 23 Dezembro | www.angodebates.blogspot.com |
(Imagem ilustrativa do site Luxemburger Wort)

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domingo, 5 de dezembro de 2021

Crónica | Quanto custa denunciar o corrupto à IGAE?

É com esta indagação de retórica que me dou ao luxo de iniciar esta reflexão solta e cidadã. Vem a propósito das recorrentes reportagens com flagrantes de detenção de fiscais, polícias e demais servidores públicos a partir de denúncias do cidadão via terminal 119, da IGAE (Inspecção Geral da Administração do Estado).

 
A série de enredos é longa. No trânsito, no ramo imobiliário, no comércio, na justiça. Tão omnipresente como a extorsão e o oportunismo, males que a sociocultura mwangolê há bwé que os amparou: "gasosa", "cabritismo", "mixa", "saldo", etc.

 
Com a agenda do executivo do presidente João Lourenço, voltada para o combate à corrupção e para a consequente moralização da sociedade, cresceu em mediatização a pauta. Só que sempre que se desnovela, senão sempre pelo menos na maioria das vezes, a trama envolve valores acima da metade do salário mínimo da função pública. Podemos afirmar que as vítimas denunciariam na mesma à IGAE caso o suborno fosse confortável ao bolso?

 
É necessário começar de algum lado, mas pode ser ilusório tomar tais flagrantes por indicadores satisfatórios de viragem para a almejada sociedade mais ética e patriota. Um combate à corrupção que se foque mais no corrupto do que na excessiva burocratização pode fracassar. É a complexidade dos processos que fomenta atalhos. Soma-se a isso outro fenómeno, o da elegibilidade. Subscrevo que o próximo combate terá de ser contra a incompetência.


Eu ainda hoje me vejo obrigado a corromper, não me orgulho em nada mas também não abraço a ingenuidade. E como só posso falar por mim, partilho alguns factores. Em 2014 adquiri o terceiro carro da minha vida. Até à data em que me desfiz do ligeiro, sete anos depois, continuei a carimbar verbete, nunca vi a cor do livrete. No mesmo ano, deixaria por esquecimento a carteira de documentos e cartões bancários num supermercado, aonde regressei volvidos dez minutos. Sugeri então que compulsassem o fluxo para aferir se o ladrão identificado estava cadastrado via cartão da loja. Tinha de ser o Serviço de Investigação Criminal (SIC) a fazê-lo.

 
No SIC fui bem atendido. O investigador que me foi "cedido" é que não pôde grande coisa. Aceder ao vídeo de CCTV sem autorização escrita da Procuradoria Geral da República (PGR)? Passados três dias, na PGR o processo ainda não tinha número, era para ir passando, crimes sem preso envolvido não são prioritários. Moral: desisti da queixa. Ainda hoje me viro com o verbete da carta de condução. A renovação do BI foi graças à amiga de um amigo.

 
Noutro dia fui interpelado na Maianga. O senhor viu o que fez? O que foi, senhor agente? Não sabe que neste cruzamento não se vira à esquerda? Mas não vi lá nenhum sinal, nem horizontal nem vertical. Mas o senhor está a ver mais algum condutor a praticar a mesma transgressão? E lá o homenzinho puxou do seu bloco de multas. Pedi-lhe que atenuasse. Mas atenuar como?!

 
Perante a minha insistência, o regulador de trânsito me impinge o cardápio de um snack-bar, diz que tem fome. O que podes fazer por nós? Era sexta-feira à noitinha, fim-de-semana prolongado. Até terça-feira nada garantia que não fosse extraviar os meus documentos. Que alternativas? Ocorreu-me lubrificar-lhe a mão com dois mil Kwanzas. Por azar, tinha nota de cinco mil. Aí diz ele: como estás a dar de coração, podes seguir; gostei da tua humildade, ya?

 
www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa | Luanda, 05 Dezembro 2021

(Imagem do Jornal de Angola)

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quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Memória vegetal


Memória vegetal, o fogo, o afago. Todo o amar, abunde mar ou lago, foi antes de mais um bago, aquele bago no peito semeado por sabe-se lá quem, talvez um mago, todavia bem gago🤓 (GociantePatissa). Bom dia e boa semana, minha gente✅

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segunda-feira, 22 de novembro de 2021

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Crónica | O REGRESSO DE ISABEL EMERSON, AGORA PELA UNIÃO EUROPEIA

Fiquei a saber com o noticiário da RNA hoje que a antiga boss do NDI (National Democratic Institute), agência americana subrecipente da USAID, Isabel Emerson, de ascendência portuguesa, está de volta a Angola, pelo menos oficialmente, agora nas vestes de responsável da União Europeia, com posição de adjunta de uma das áreas, sempre ligada à temática do desenvolvimento. Por volta de 2003, Isabel Emerson e o seu NDI constituíam a elite de doadores para ONG's nacionais, as quais não podiam obter financiamento directo da USAID senão por meio da World Learning (representada pela luso-canadiana Fern Teodoro) e do IRI (Instituto Republicano Internacional), com cujo representante não cheguei a cruzar. De Isabel guardo a recordação de quando fui contratado para um trabalho pontual de pesquisador de grupos focais para sondagem de opinião de angolanos sobre a expectativa da realização das primeiras eleições depois do fim da guerra, que se especulavam para 2004. Fiz parelha com o Silvério Loth Santos "Vadinho", da Okutiuka, num workshop que teve lugar no quintal do INAC, na Calemba, onde tive o gosto de conhecer o Augusto Santana, um misto de metodólogo e comediante, conheci ainda a Nela (ex-actriz do Julu. Onde anda mesmo ela?). O Santana era também o boss do NCC (National Counseling Center, ONG angolana detentora da Rede Terra). Essa viagem que fiz de avião no trajecto de hora e meia entre Benguela e Luanda pode ter sido a mais desastrosa do meu percurso ao serviço das ONG's, que iniciou com a fundação da AJS (Associação Juvenil para a Solidariedade), em finais de 1999. Explico. Tendo recebido da parte do Zetó José Patrocínio a indicação de participar na pesquisa por indisponibilidade da D. Manuela Costa, comprei a passagem e me enfiei no avião da SAL para depois ser ressarcido, como era usual. Permitam-me transcrever uma parte da crónica da "minha segunda vez em Luanda": Desembarquei às 9h00 no terminal da Sal com aquela pressão no ouvido e que obriga a apertar as narinas com a ponta dos dedos para desentupir. Ainda no aeroporto 17 de Setembro, o amigo Florêncio André, da TPA, pede-me para entregar aos estúdios centrais cassetes de vídeo, matéria urgente para o telejornal. Ia negar?! Um favor à comunicação social era investimento no quadro das relações públicas. Bagagem recolhida, tirei da agenda o contacto que me fora fornecido pelo mestre cabeçudo Zetó José Patrocínio. De um telefone público liguei para o NDI (Instituto Nacional Democrático), ONG americana dirigida por Isabel Emerson. Desculpa, mas deve ser um engano. Não é, venho da parte do projecto Omunga, sou líder da AJS, parceira na Rede Municipal da Criança de Rua do Lobito. Senhor, a reserva está em nome da Sra. Manuela Costa. Pois, estou a substituí-la, o Zetó já tratou disso. Deixa ainda consultar. Um minuto depois: É como disse, não há mesmo como te acolher. Só me restou comprar o regresso no vôo das11h00. Raiva, frustração e humilhação mesmo povoavam. Não tinha telemóvel nem havia telefones nos escritórios, quanto mais e-mail para tirar satisfações com o mestre. A agravar a aflição, dois companheiros de viagem para quem transferi o favor da TPA não aceitaram e lá regressei com as cassetes pensando nas consequências ao repórter por sabotar o telejornal. Posto em Benguela, diz-me o Zetó que fora um equívoco do pessoal logístico. Andava estafado da altitude, desmoralizado pelo USD 220 perdidos. O outro vôo sairia às 15h00. Coloquei todas as variáveis da equação na mesa. Contratos com ONG internacionais aquilatavam sempre o CV, um sonho de fundadores de ONG locais para injectar capital e alicerçar parcerias. Por último, o contrato seria de USD 550, pelo que para quem já perdeu, engolir o sapo e encaixar USD 330 era a melhor opção. Às 16h45 recebia as boas-vindas do senhor Domingos, de Land Cruizer, que ajudou a ver a maka da TPA. Findo o treino, em Benguela entrevistamos homens e mulheres ligados à agricultura, mercado informal, ex-militares, tudo devidamente anotado e gravado em cassetes. O resultado da pesquisa chegou a ser apresentado em livrito, tendo como um dos processadores o economista Justino Pinto de Andrade. Bem-vinda de volta, Isabel, e que não deixes de advogar por mais financiamentos das ONG's nacionais (sobretudo as pequenas). Gociante Patissa, Luanda 16 Novembro 2021 | www.angodebates.blogspot.com | Foto: DW África
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domingo, 14 de novembro de 2021

domingo, 7 de novembro de 2021

SUBVERTER A ESPERANÇA DE VIDA - Gociante Patissa no conjunto de depoimentos sobre o 80.º aniversário do escritor Manuel Rui Monteiro

Manuel Rui Monteiro, o agora octogenário, pertence a uma geração de intelectuais, artistas e actores do nosso processo histórico cuja vida e obra já não cabe na linearidade biográfica do indivíduo mas, na dialéctica da vida, em como nos espelhamos na trajectória que Angola nos lega. Pioneiro na transição entre as décadas de 1970 e 80, anos de guerrilha e revolução, entrelaço Manuel Rui nas aspirações do hino nacional, nas utopias mais nobres do País novo. Chegado ao meio urbano, acho Manuel Rui encarnando em forma de papel o griot que a guerra me roubou no Monte Belo em chamas. "SIM, Camarada!”, livro de capa encarnada, sempre disposto no gabinete do meu pai, em nós da OPA simbolizava a disciplina. Mas vejo também Manuel Rui na pedra do charco em Quem Me Dera Ser Onda, uma sátira que não deixa de denunciar a tensão pós-colonial ainda por resolver entre as classes sociais. É uma pena que por cá chegar aos 80 seja subverter a esperança de vida. Saudades dos avós!” 
Gociante Patissa


(*) depoimento publicado hoje na íntegra no Jornal de Angola a pedido do jornalista e escritor Isaquiel Cori, no dossiê sobre os 80 anos do escritor Manuel Rui Monteiro, convite que aceitei sem perder a oportunidade de refilar antes de quê e tal...)

Leia outros depoimentos na versão online da peça
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quarta-feira, 3 de novembro de 2021

A beleza nunca é triste*


 A BELEZA NUNCA É TRISTE*

Nem os postiços
nem as lembranças
belas
Que é só o mar
no bater das ondas
a tomar o seu banho
nada para desmerecer
as almas
engolidas pela espuma
E se ente soldado é defunto
até voltar da guerra
Tchipa ressuscitou o mundo
na saudade que canta
na frente da chama
cá na mata, a vida é bela, mamã**
mesmo aos olhos do fado
“a beleza nunca é triste”.
Gociante Patissa, Benguela, in «Guardanapo de Papel», 2014, pág. 13. "NósSomos". Vila Nova de Cerveira, Portugal (poema escrito a 27.11.2011)
__________
* O título do poema deve-se à fadista portuguesa Celeste Rodrigues, em entrevista à televisão, em 2011.
**Jacinto Tchipa, músico angolano – Cartinha da Saudade – (década de 1980)
Foto: Fadista portuguesa Celeste Rodrigues (1923 – Lisboa, 1 de agosto de 2018), in TV7Dias



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domingo, 31 de outubro de 2021

Crónica | Rua das relações interiores

Debaixo do prédio há coisa de quinze minutos quando estacionava, vindo da boemia luandense que se seguiu à colectânea Trilha dos Inadaptados, a vida fez questão de imitar a literatura. O flagrante foi curto mas impagável. Já conto, não vá eu ser injusto na ordem de chegadas, posto que este episódio está longe de ser a estreia, ainda que parafraseando George Michael, estrela pop inglesa de feliz memória, seja caso para dizer que a cena há pouco testemunhada de esguelha “is not the first and won’t be the last, it’s just the biggest”.

Tenho a sorte que acompanha os escritores solitários, como a bola para os pontas de lança à boca da baliza. A vantagem é que não temos de recear a incredulidade de leitor/ouvinte do episódio da vez, pois entre a verdade e a mentira, salva-nos a conotação criativa do ofício. Do outro lado do cruzamento, no conglomerado de diplomatas free lance, vi marchar uma individualidade em atavio apropriado à ocasião. Junto à farmácia, no pilar da vitrine de fatos e calçado de preço presidencial, não evitei rever-me na ansiedade do homem de mãos nos bolsos, perfume no ponto, encostado à parede para disfarçar o nervosismo. O mano aguardava naquela condição que não se deseja a nenhum adido de coisas do coração, falo dos instantes que antecedem a chegada de quem mandamos chamar, coração palpitante, mas que as palavras ensaiadas, oh desespero, encravam quando ela diz “fala já, me chamaste porquê?”. Transportou-me por instantes para as memórias de menino e moço “na província”, naquele limbo de gosto e tortura chamado “dicar ou xaxar”. Mas os tempos são outros, o sim na era do SIM chega em linha recta, pelo que tranquei o carro devagar apreciando o filme com aquela invejinha do trono libidinoso do outro. Tudo o mais devagar possível, ouvidos antenados q.b. A mulher chega coladinha a milímetros ao tronco do outro, calções jeans amputados na borda das nádegas, entranhas arrogantes, bolsa reluzente, blusa de alças, penteado executivo. Mas destoa no tom de noticiário, não há sussurros. “Vou-te avisar uma coisa, eu não gosto disso ouviste?”, atira para o embaraço do moço. “Eu quando os meus chefes me ligam é para ir f..., ouviste, né?!” Ele vai a ponto de implorar que fale baixo. “Já me ligaste às seis da manhã, às 14h, à tarde, e ficas só a estragar o meu silêncio. Meu número é para os meus chefes; liga e saio para f... Vamos se respeitar, não admito falta de respeito no meu local de trabalho, ya?” E lá o encontro termina inconclusivo, com o rapaz a sair de cena pelas sombras e penumbras dos postes que mantêm acordadas as diplomatas das relações interiores, passos disparados como cliente derrotado na falta de cobertura pelo preço do bem luxuoso na montra. Voltara? (A série continua) Gociante Patissa, 30 Outubro 2021 | www.angodebates.blogspot.com
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quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Réquiem | HORÁCIO NGANDU E O FIM DA GINGUBA

Um mês qualquer de 2006. Eram 12h e mais coisa, menos coisa, sol abrasador no lombo de um carteiro de circunstância, entre o Alda Lara e a paragem da Cruz Vermelha, serpenteando ali pelas ruelas da Sé Catedral. Mas a fome inventa. A fome sabota passos largos. Vão duas doses de ginguba torrada, garrafa de água é receita fixa na mochila. Há que apressar o passo para ocupar o lugar no Hiace do Lobito, Santa Cruz paragem e escritório, cansado mas satisfeito por ter distribuído todas as cartas-convites. Encho a boca de ginguba e justo neste instante, uma voz ao longe exclama às sílabas de carinho: Go-ci-ante-pa-ti-ssa. A saudação exigia no mínimo uma retribuição calorosa, verbal. Mas com que boca? Embaraçado como só poucos, lá me desvencilhei e rimo-nos à farta da partida que involuntariamente pregara ante a minha trapalhada de locutor que afinal se embutia de ginguba nas horas de aperto. 

 

Era o Horácio Ngandu, operador de som da Rádio Morena Comercial, um gajo do naipe competente e aprazível com quem havíamos desenvolvido cumplicidade, só rivalizava no empenho e criatividade com um Dinho Carlos ou um Manuel Chandicua, em Benguela.

 

As pessoas, passageiras por vocação como bem são, passam. Mas há as que têm a proeza de nos ficarem gravadas na memória por presenciarem aqueles momentos ímpares, talvez segundos, exactamente naquele instante improvável envolto em flagrante trapalhada. Será para sempre essa a lembrança mais imediata que fica do Horácio Ngandu. Hoje tomei conhecimento de que vai a enterrar no Cemitério do Camama às 10h de hoje, ainda ninguém me revelou as causas. Ngandu trocaria Benguela pela capital onde se estabilizou como operativo da Polícia e na sua paixão pelos bastidores das ondas hertzianas, colocado na Rádio MFM. Falamos em tempos sobre os planos que alimentava de escrever um livro.

 

Dar corpo à ONG AJS (Associação Juvenil para a Solidariedade) custou-nos chuva, sol, assaduras e demais desgastes de uma caminhada a começar do zero literalmente, tendo a penas o capital de gerar ideias, neste aprender-fazendo com o ímpeto de mudar o mundo. Como de resto terminam todas as juventudes, mudamos nós, o mundo nem por isso, lá permanece pronto para enfrentar novas utopias. Quanto a nós, éramos no núcleo duro jovens com ensino médio, sonhadores, origem desenrascada, irreverentes mas protegidos pela reputação de gestão rigorosa de património e parcerias. 

 

Por meio dos projectos, muito mais dos produtos de comunicação para cidadania, concretamente os programas de rádio Palmas da Paz e Viver para Vencer (2003-2012) e o do Boletim A Voz do Olho, jornal comunitário, há um somatório de memórias, entre colaboradores, voluntários, convidados, quadro efectivo da rádio, bem como a sua gestão e área comercial, sem esquecer os operadores de som, aqueles que garantiam a emissão. O programa era em directo, intervalando debate com arte dramática, dinâmico como é o pulsar da juventude pensando e debatendo Angola: reconciliação, saúde pública, educação e desenvolvimento comunitário. A mesma equipa polivalente de não mais de cinco imberbes desdobrava-se entre a concepção, condução e fazer de estafeta para assegurar convidados.

 

Repousa em paz, amigo Horácio! Aqui fica a gratidão pelo contributo prestado a nós e à AJS.

 

Gociante Patissa | Luanda 27 Outubro 2021 | www.angodebates.blogspot.com (Imagem: Facebook pessoal de Horácio Ngandu)

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domingo, 24 de outubro de 2021

Diário | Não gostei nem um pouco, sabes, né?

"Moço! Garçon!"
"Já venho. Só um minuto."
"Chega ainda aqui."
"Ok, senhora... A comida não estava boa?"
"Nada a ver, moço! Achas que agiste bem?"
"Não entendi, senhora. É o quê mesmo?"
"A tua atitude foi correcta? Não gostei nem um pouco, sabes, né?"
"Vai desculpar, moça. Mas entendi que pediram a conta e é por isso que trouxe. Não era para fechar a mesa então?"
"Claro que era, né? Nada a ver. Mas porque é que ao trazer a conta, foste logo entregar ao homem, sendo nós dois um casal?"
"Não é de propósito, é só que como normalmente ele é que é o homem..."
"Mas homem só paga, moço! Quem controla é a mulher!... Não é isso, mor?"
"Ai é?"
"Ai é, como assim, moço?!"
"Eh..."
"Tás a ver esse trabalho todo que lhe deste de conferir os gastos? Esse trabalho é meu, ouviste, né?"
Gociante Patissa | Luanda 24 Outubro 2021 | www.angodebates.blogspot.com
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[áudio]: Académicos Gociante Patissa e Lubuatu discutem Literatura Oral na Rádio Cultura Angola 2022

TV-ANGODEBATES (novidades 2022)

Puxa Palavra com João Carrascoza e Gociante Patissa (escritores) Brasil e Angola

MAAN - Textualidades com o escritor angolano Gociante Patissa

Gociante Patissa improvisando "Tchiungue", de Joaquim Viola, clássico da língua umbundu

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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