sábado, 2 de maio de 2026
Flagrante de um encontro com o pesquisador Aristóteles Kandimba 'Toti'
sexta-feira, 1 de maio de 2026
Crónica | NÃO VOU AO TRABALHO, VOU À FESTA
Benguela teve sempre muito boa gente com quem travar um bom papo. E tem o Duda. Adão Faustino. Mente brilhante, humor q.b, timbre preenchido, jornalista, locutor (que só peca pela preguiça), diplomata, enfim, daqueles perfis que dão muito trabalho de traçar. E hoje é feriado, ainda por cima.
Num desses dias que já lá vão, lá vou eu ao aeroporto onde fabricava o meu pão de cada dia no acolhimento de passageiros, modo motivação na escala de zero. Vindo das paixões de rádio e ONGs, aviação é rotineira demais. E freio o velhote rabo de pato, que ainda dá tempo, no local do costume. Café da Cidade. Saúdo um Duda energético, como sempre.
Por aí uma hora de prosa, mais coisa, menos coisa, despeço-me. Companheiro, o dever chama. Vou trabalhar. E ele logo corrige. “Não digas vou ao trabalho. Diz, antes e sempre, vou à festa!”. A combinação directa entre trabalho e festa é de caçar sentido. Como assim?! Sou obrigado a sentar-me outra vez.
Viver dá trabalho, trabalhar dá vida. Essa transacção cimenta a sociedade, que mais não é do que a soma do que cada indivíduo faz ou deixa de fazer, por obrigação logística, por prazer, por vontade de subir na pirâmide social, por medo de ser mal encarado, enfim. Mas daí a ser festa?! Dia do trabalhador. Mas qual? Conta própria ou de outrem?
1.º de Maio é uma data de despertar memórias coloridas para gerações que ainda vivenciaram uma pontinha que fosse do proletariado. Mas pode muito bem ser um dia absolutamente inócuo como qualquer outro, com a vantagem apenas de nos brindar com aquela folga remunerada ao trabalhador (que não labore por turnos). Este ano até sabe a dobrar, apanha logo uma sexta-feira e venha a nós o bom do feriado prolongado.
Que me lembre, nunca desfilei num naqueles cortejos alegóricos do Dia do Trabalhador, onde não acho iguais à minha mãe camponesa. Talvez por ter ingressado muito cedo, com 14 anos, aprendiz de fotógrafo na Foto Kodak, do mestre Octávio Lopes Chimango, no Lobito para sustentar os estudos na 7.ª classe. Consta que este ano o litoral de Benguela, ainda a se refazer das feridas das cheias que desalojaram e enlutaram milhares de famílias, optou por cancelar os festejos do 1.º de Maio. Que a tradição prevaleça logo que possível.
E tem razão a filosofia segundo o Duda. Se passamos metade da nossa vida a trabalhar e praticamente todas as horas úteis do dia nos consomem no local de trabalho, longe de quem nos quer e quem queremos pertinho dos afectos, melhor será que encaremos o trabalho como festa. Há-de cansar menos. De outro modo torna-se insuportável para a saúde mental. Não digas vou ao trabalho; diz, antes e sempre, vou à festa.
Gociante Patissa | Lisboa | 01 Maio 2026 | www.angodebates.blogspot.com
segunda-feira, 27 de abril de 2026
O Pensamento Agostinho Agostinho Neto (excerto)
“O povo, a base de todas as manifestações de arte, é em África constituído pela massa indígena e é nela que terá de alicerçar-se qualquer produção artística duradoura. Logo que haja um conhecimento mais humano das realidades espirituais, Angola acabará por «descobrir-se» em seu benefício e, certamente, no de todo o Império. A não ser que nós, os angolanos, prefiramos continuar a repetir mal o que já foi dito sobre Vasco da Gama, a narrar aventuras de caça ou incluir quimbundo nos versos para lhes dar um ar «africano»
Agostinho Neto, in MEMORIAL Investigação, Arte e Cultura | Ano II - Nº 4, Dez. 2023, p. 8-9, Revista Semestral
domingo, 12 de abril de 2026
O litoral da província de Benguela volta a atravessar um momento de luto e destruição causados pela força das chuvas e enchentes do rio Cavaco. O fenómeno é cíclico e está bem presente na memória colectiva, ainda desde os anos 90. Às famílias enlutadas/afectadas a minha mais profunda solidariedade. Aqui fica o abraço à distância de benguelense impotente perante a situação🙏
segunda-feira, 6 de abril de 2026
Chegarão os tempos em que até para escrever "bom dia, como estás?"... mbora consultar a IA se está certo😊. O avanço na modernidade em certa medida pode aumentar o grau de insegurança nas competências cognitivas e linguísticas já desenvolvidas ao longo dos anos de formação. Rezemos para que nunca falhe a net🤓
domingo, 5 de abril de 2026
Poema inédito | LUZ DE FUBA
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
Adivinhem quem chegou? ALMAS DE PORCELANA, edição angolana da poesia seleccionada de Gociante Patissa até 2023. É uma co-edição da União dos Escritores Angolanos e a Imprensa Nacional (que patrocinou e distribui a obra)
pôde adquirir o seu exemplar. Mais novidades oportunamente🇦🇴🕺💔🫶🏼 (imagem: Alzira Simões)
terça-feira, 27 de janeiro de 2026
Crónica | GERAÇÃO QUE VIU A RÁDIO EVOLUIR DA BOBINE, VINIL, CASSETE, CD, MINIDISC À SONOPLASTIA DIGITAL
Nos últimos dez anos a revolução digital alterou em grande medida o jornalismo como um dia o sonhámos, o aprendemos na apaixonante família da Comunicação Social. A evolução na técnica e nos hábitos de consumo é dialéctica.
A radiodifusão acaba por ser a mais afectada, perdendo o seu espaço de influência social e familiar para a hegemonia anti-social das redes sociais, o vício do telemóvel (aquele aparelho frio que tanto nos rouba a concentração e corrói valores familiares, contrariamente à caixa de som que é o radiorreceptor).
A magia da radio, que reside no mistério da palavra falada sem ver, de instigar a imaginação, embalar os órgãos dos sentidos, vê-se obrigada a televisionar-se, indo atrás do público consumidor, ou não sobreviverá à frenética e abundante oferta do universo multimedia. Hoje a diferença entre Rádio e Tv está no mobiliário do estúdio, nada mais fica para a imaginação.
Vantagens também as há, é certo, a começar pela velocidade e abrangência no acesso aos conteúdos, sem mais depender da deficiente distribuição dos jornais em papel. O digital facilita, ainda, a consulta aos arquivos, com o advento da Cloud.
É natural que não entra nas contas a perspectiva do cidadão-repórter-portalista e a poluição que grassa no mundo digital.
De resto, como diz Américo Aguiar, Cardeal de Lisboa, "respeito quem aprecia o cidadão jornalista, mas eu não aprecio porque é uma coisa muito perigosa. Não podemos esquecer que a tarefa do jornalista e do fotojornalista implica um código deontológico, ou seja, eu confio que aquele profissional tem regras, tem limites, tem linhas vermelhas e que a sua intermediação em me fazer chegar a realidade é peneirada coisa que, se não existir, ficamos sujeitos à avalanche das `fake news´".
Gociante Patissa | Janeiro 2026 | www.angodebates.blogspot.com
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
Crónica | PSICÓLOGOS QUE CEDO NOS DEIXAM PORQUÊ E PARA QUÊ, MANO NVUNDA TONET?
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
sábado, 17 de janeiro de 2026
Crónica | ANGOLA E A TOPONÍMIA DESAJUSTADA À IDADE DA SENSATEZ
O colchão é das coisas que mais duram na dura vida de um luandense, já que não sabe dormir. Tão poucas horas na cama. O resto do tempo é madrugado no transporte para o trabalho (inclui negociatas) ou buzinado, com insultos à mistura, no trânsito. No fim do dia, porque ninguém é de ferro, inventam-se motivos para empurrar uns copos e dançar.
Esta semana tive de encarnar o luandense e sair da cama às seis da manhã para conhecer o novo Aeroporto Internacional António Agostinho Neto. Também sei madrugar. Não é que goste. Como o meu guia vive no Kilamba, 35 km da Baixa, chamei o táxi por aplicativo a 13 mil Kwanzas. Luanda é tão dispersiva na sua geografia e burocracia que a gente se desdobra em verdadeiras viagens intestinais, até para carimbar um documento.
No canteiro relvado do quarteirão saltou à vista a sequência de placas de sinaléctica de estacionamento. Reagi com breve risada ao anedótico. Sobre a mesma figura histórica lia-se nas placas “Nimi-a-Lukeni, Nimi-a-Likene, Nini a Lukini e Nimi a Likena”. Mas logo pensei. Queres ver? Há cá fenómenos de simbolismo, justo no mês da Cultura Nacional. De resto, a Lei de Bases N.º 14/16, aprovada há de anos no Parlamento quando Nandó o presidia, define Toponímia como o estudo histórico e linguístico da origem e evolução dos nomes próprios dos lugares ou a designação das localidades pelos seus nomes.
Naquele jardim e estacionamento dá-se o embarque diário de crianças para a escola. A sua primeira leitura do dia mora naquelas placas negligenciadas. Imagine-se que o professor pergunte a cinco alunos em coro o nome do quarteirão. Babel total. Por outra, Kilamba (do Kimbundu, líder), principal urbanização social erguida no programa de reconstrução nacional iniciado em 2004, dá nome ao presidente fundador Agostinho Neto.
Constam entre as funções da Toponímia, conforme a Lei de Bases e o Decreto Presidencial N.º 163/19, que o regulamenta, “manter vivos e perpetuar aspectos culturais de honorabilidade; (...) perpetuar nomes de personalidades nacionais e estrangeiras”. E mais diz a lei: “Os topónimos são escritos em língua portuguesa, seguindo a grafia latina; nas demais línguas de Angola, são escritos em conformidade com as regras de grafia da língua correspondente, devendo ser certificados pelo Instituto de Línguas Nacionais”.
O flagrante da sinalética espelha bem a desarmonia institucional da Toponímia, num país que seguindo o ciclo de vida humana completou 50 anos, a idade da sensatez, de exercer o ouvir com ouvidos, dar valor a aspectos que em idade de sangue a ferver não puderam caber no balaio das prioridades. Tudo desemboca no investimento que tarda em relação à diversidade das línguas nacionais. Nos aspectos linguísticos reside a alma do povo.
Quem vem a ser Nimi-a-Lukeni ou Lukeni-Lua-Nimi? A generalidade das fontes consultadas indica que foi filho de Nimi-a-Nzima e de Lukeni-lua-Nsanse, viveu entre 1380 e 1420. O Ntotila fundou no século XV o Reino do Kongo, unificando tribos na África Central, tendo Mbanza-a-Kongo como capital de seis províncias: Mbamba, Mbata, Mpemba, Mpangu, Nsundi e Soyo. Suas ossadas repousam no monumento Kulumbimbi.
Resta-nos terminar esta crónica respigando um dos valores do Hino Nacional, “honramos o passado e a nossa história”. Venham a nós políticas culturais que dediquem à etnolinguística a experiência aplicada em promover a dimensão performativa das artes e resultou internacionalizando a expressão do Carnaval, Semba, Kizomba e do Cuduro.
Gociante Patissa | L. 17 Janeiro 2026 | www.angodebates.blogspot.com
segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
domingo, 11 de janeiro de 2026
Crónica | BENGUELA DE PAIXÕES QUE NÃO POISAM
ser freado com a abundância do projecto social das centralidades. A sociedade superava o complexo em relação à periferia, fazendo com que famílias preferissem morar literalmente em garagens, na parte urbana herdada do colono, a ter de o fazer num T3 mais espaçoso, porém para lá do asfalto. No calor da onda adquiri um terreno no 11 de Novembro, bairro árido equivalente a uma embaixada do Sumbe (de até há dois anos, se é que me faço entender). Bloco atrás de bloco, lá a obra foi ganhando forma e personalidade. Sentido e beleza. Casa própria, design moderno, material de qualidade, só a zona destoava. No fundo a velha sensação. Não é bem o que sonhamos, é o que se conseguia arranjar. As paredes, a muda que aos poucos dava voz à arborização, os acabamentos, cada detalhe a contar uma história de vida. Ao fim de três anos no projecto que passou de obra a residência comigo já lá a morar, a vida, dinâmica como é, ditava outro rumo. Havia que ceder a um inquilino. Uma nova etapa, uma nova forma de ver e viver a casa. Até que certo dia, passados largos meses sem visitar o espaço, mesmo já para permitir o à vontade ao inquilino, os meus olhos não acreditavam no que viam! O inquilino tomara a liberdade de matar a árvore, ceifando o ninho de amores apócrifos da comunidade junto ao portão. Depois de lhe serrar os galhos barrou as feridas com calda de cimento, mais outros químicos mesmo na raíz da minha frondosa, agora reduzida a um tronco seco. Porque as folhas faziam lixo, dizia-se. Nem uma palavra com quem tão carinhosamente a plantara e cuidara, o meu cunhado. Ainda hoje sangra em mim aquela árvore. Do mesmo jeito que sangram as casuarinas que não mais poesia inspiram na tão cantada e versejada Praia Morena. Não sobra uma para contar história. Tomou-lhes o lugar um punhado de palmeiras sem passado. A velhota Morena foi um dia deitar-se e despertou estrondosamente linda, rejuvenescida, escaldante, porém sem as marcas da idade. Já não é poltrona, é só lugar de se ver, olhar e seguir. O sol ralha, paixões não poisam. O que me darão as esbeltas das palmeiras quando bater sede daquele beijo adolescente e travesso que só o atrás da árvore conhece, sob o silêncio sábio do Sombreiro? O progresso nega vez às casuarinas porque sujavam, porque albergavam garças da caca branca, não tolera natureza sendo natureza? E lavar a loiça, não é porque houve vida?













