domingo, 30 de junho de 2019

SÓ QUERO PINTAR O MUNDO À COR DO PÃO (poema inédito)

À margem aspirada chegado
Teimo em rezar para não ter que rezar
Por tudo e por nada
Abstenho-me dessa omnipresença
Que rege a urbe
E substitui o bom dia por graças a Deus
Sei que não devia
Que é na água a força do jacaré
Mas eu venho doutras águas
Caso já não saibam
Portanto, que se lixe a selva
O jacaré incluso

Só quero pintar o mundo à cor do pão
Define-me o fora da norma
Até que surja o noticiário
Carregado, tinto
Fecho a porta bem fechada e congelo a geografia
Transporto-me para todos os lugares onde passei
Às mulheres que amei
(não que me prenda o tempo verbal)

E no prédio
Mais fácil se conhece cada dente da chave
Do que as feições do vizinho
Rasgo as artérias com o calcanhar
Nas mãos a comichão do volante
Afinal fui sempre a estrada adiada

Abstenho-me do espectro que rege a urbe
É que trago tatuado o campo
Que roubem isso também
Só quero pintar o mundo à cor do pão

Gociante Patissa | 30 Junho 2019 | www.angodebates.blogspot.com
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quinta-feira, 20 de junho de 2019

Museus de Benguela “nomeiam” segunda Ministra da Cultura


Maria Piedade de Jesus, a Ministra da Cultura nomeada hoje (20/06) por Despacho do presidente João Lourenço (JLo) para substituir Carolina Cerqueira, de quem era adjunta, foi quadro do Museu Nacional de Arqueologia, na província de Benguela, antes de ser nomeada, em Outubro de 2017, para o cargo de Secretária de Estado para a Antropologia.

É a história a repetir-se onze anos depois. Em Outubro de 2008, era nomeada pelo então presidente José Eduardo dos Santos (JES), para a pasta da Cultura, a investigadora Rosa Cruz e Silva, quadro dos Museus de Arqueologia (Benguela) e de Etnografia (Lobito), que mais tarde desempenhou o cargo de Directora do Arquivo Histórico (Luanda).

Sendo um nome ligado ao sector pelas vertentes académica e do dirigismo, a nova titular da Cultura, Maria Piedade de Jesus, é contudo desconhecida da classe artística, perfil semelhante ao de Rosa Cruz e Silva, diferente de Ana Maria de Oliveira, que tem a faceta de escritora.

Pelo cargo passaram, entre outros, António Jacinto (1975-78), Ana Maria de Oliveira (1992-1999), António Burity da Silva Neto (1999-2002), Boaventura da Silva Cardoso (2002-2008), Rosa Maria Martins da Cruz e Silva (2008-2016), Carolina Cerqueira (2016-2019), esta última nomeada no executivo de JES e reconduzida por JLo.

Gociante Patissa | 20 Junho 2019 | www.angodebates.blogspot.com
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segunda-feira, 17 de junho de 2019

Camões e União Europeia caçam candidatos a bolsas em Música e Artes Cénicas


O Instituto Camões, organismo do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal, anunciou nesta segunda-feira (17/06), em Luanda, a abertura de candidaturas para o concurso que pretende atribuir 48 bolsas de estudos de licenciatura e mestrado nas áreas da Música e Artes Cénicas, no biénio 2019/20, contemplando apenas cidadãos naturais e também residentes dos PALOP e Timor Leste.

A iniciativa enquadra-se no âmbito do projeto Procultura, cofinanciado pela União Europeia, pela diplomacia portuguesa e pela Fundação Calouste Gulbenkian, que visa a promoção do emprego nas atividades geradoras de rendimento no setor cultural.

Para mais informações e acesso ao regulamento do concurso, seguem-se os links: https://www.instituto-camoes.pt/activity/o-que-fazemos/bolsas-estudo


Gociante Patissa | 17 junho de 2019 | www.angodebates.blogspot.com   

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domingo, 26 de maio de 2019

Porque Terêncio Zua tem talento acima do que bate


Terêncio Zua, compositor e intérprete, vencedor do concurso de imitação Angola Encanta, realizado pela TPA e Lac em 2012, está de volta à "música mundana", depois de uns anos a fazer gospel. Dói ver o jovem, dono de um enorme potencial e elasticidade vocal, dos mais promissores que este país já viu, enveredar para a já batida tendência do que está a bater, com a impressão inclusive de ter "enlatado" a voz, coisa que aliás não precisa, tão prendado que ele é. Apoiem o miúdo, excelências, se faz favor. Uma bolsa no estrangeiro, porque o país não se pode dar ao luxo de perder mais um talento daqueles para as leis do mercado, de criar para a barriga. Ainda vamos a tempo.Estamos aqui se precisa a poesia for para as suas composições.
Gociante Patissa | www.angodebates.blogspot.com
(Foto: vicentenews)
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sábado, 25 de maio de 2019

quinta-feira, 23 de maio de 2019

“Como escrever sobre África” (fragmentos) ensaio do escritor queniano, Binyavanga Wainaina (18 Jan. 1971 – 21 Mai.2019)


Use sempre as palavras “África’:”escuridão” ou “safari” no título. Os subtítulos podem incluir termos como “Zanzibar”, “massai”, “zulu”,”zambezi”,”Congo, “Nilo,”grande, “céu”, “sombra” “tambor” “sol” ou “antigo”;

No texto, há que tratar África como se fosse um único país;

(Texto original em inglês publicado pela revista Granta, n.º 95, UK, 2005. Foto: Simon Maina/AFP/Getty Images

Certifique-se de mostrar como o africano tem enraizados a música e o ritmo na alma e come coisas que nenhum outro ser humano come. Não mencione arroz e carne e trigo; O miolo de macaco é o prato africano de eleição, juntamente com cabrito, cobra, vermes e larvas e todo o tipo de carne de caça;

Evite os personagens africanos alegres ou que lutem para escolarizar os filhos (…). Faça com que iluminem algo sobre a Europa ou a América na África. O maior tabu em escrever sobre a África é descrever ou mostrar pessoas brancas mortas ou que sofrem;

O cidadão africano moderno é um homem gordo salafrário que trabalha no departamento de emissão de vistos; As personagens devem ser coloridas, exóticas, maiores do que a vida - mas vazias por dentro, sem diálogos;

Personagens africanos podem incluir guerreiros nus, servos leais, adivinhos e videntes, sábios antigos vivendo em esplendor hermético. Ou políticos corruptos, ineptos guias de viagem polígamos e prostitutas com quem você dormiu;

Estabeleça desde o início que o seu liberalismo é impecável, o quanto você ama a África, como se apaixonou pelo lugar e não pode viver sem ela. A África é o único continente que você pode amar - aproveite isso. Se você é um homem, empurre-se em suas quentes florestas virgens. Se você é mulher, trate a África como um homem que usa uma jaqueta e desaparece no pôr-do-sol. A África é digna de pena, adorada ou dominada. Seja qual for o ângulo que você tomar, não se esqueça de deixar a forte impressão de que sem a sua intervenção e seu livro importante, a África está condenada.

São temas tabus: cenas domésticas comuns, amor entre africanos (a não ser que haja uma morte na história), referências a escritores africanos (…) Descreva, em detalhe, os peitos nus (jovens, velhos, conservadores, recém-estuprados, grandes, pequenos), os genitais mutilados ou os genitais avantajados;

Os leitores vão ficar desapontados se você não mencionar a luz de África. E o pôr-do-sol: o crepúsculo em África é indispensável, sempre grandioso e vermelho;

Termine o texto com Nelson Mandela dizendo algo sobre arco-íris ou renascimento.
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segunda-feira, 13 de maio de 2019

"Angola é dos países mais assimilados, sobretudo nos seus centros urbanos. Por isso não gostamos de falar das nossas diferenças" (Marcolino Moco, político, escritor, cientista. 13.05.2019)

Ps: contexto: matriz étnica dos movimentos nacionalistas, nos conceitos conforme o seu livro, de "Mpla (mestiços), Unita (ovimbundu) e Fnla (bakongos)", tema ainda tabu
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sábado, 11 de maio de 2019

VÍDEO. Escritor angolano Gociante Patissa na reportagem sobre o valor do provérbio na língua Umbundu

VÍDEO - Escritor angolano Gociante Patissa na reportagem sobre o valor do provérbio na língua Umbundu, TPA1 11-05-2019, reportagem do jornalista Figueiredo Casimiro

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VÍDEO. Escritor angolano, Gociante Patissa, entrevistado sobre autarquias em língua Umbundu

UMBUNDU: Usonehi Gociante Patissa wasapela lanoño youkuyevalisa asapulo Figueiredo Casimiro, catyamenla kekalo lyofeka lokwiya kwocela covaimbo, koputu vai eleições autárquicas, TPA1, 11.05.2019
PORTUGUÊS: Escritor angolano, Gociante Patissa, entrevistado sobre autarquias, noticiário em língua Umbundu TPA1, 11.05.2019, com o jornalista Figueiredo Casimiro.



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Utilidade pública | Toda a informação que procura para voar com a SonAir, "asas da tranquilidade", a líder na rota Luanda-Catumbela-Luanda

Obs:  Para se inteirar dos horários, preços, o que é ou não permitido levar a bordo ou no porão. Pode também adquirir bilhetes remotamente e pagar por referência/multicaixa, basta ligar em horário comercial para os contactos que aparecem na imagem e obter o número de referência.


Há ainda o contacto alterntivo +244 272 234 458
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Utilidade pública | Toda a informação que procura para viajar com a TAAG


Para se inteirar dos horários, preços, o que é ou não permitido levar a bordo ou no porão, é só ligar, 24/24h: 
Call center: +244 923 190 000
Website: taag.com
Facebook/TAAGLinhasAereasdeAngola
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sexta-feira, 10 de maio de 2019

Diário | tenho um supremo raso, né?

"Moço, boa noite. Chegue ainda cá."

"Pois não?"
"Aqui no vosso menu está escrito supremo de frango. É como esse prato? Desculpe a minha ignorância. O frango é preparado com o quê?"
"Ah, basicamente, supremo de frango é tipo, coiso, peito de frango..."
"Então supremo, supremo é só mesmo peito?"
"Ya, assim mesmo, senhor."
"Ah, muito bem... Neste caso eu assim que não faço ginásio, consideram que tenho um supremo raso (light), né?"
"Bem, mais ou menos. Podemos dizer que o senhor tem é supremo com ossos."
"Aié?..."

Gociante Patissa | Num lugar | 10.05.2019 | www.angodebates.blogspot.com
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terça-feira, 7 de maio de 2019

Perfil do novo Presidente da Mesa da Assembleia da União Dos Escritores Angolanos (UEA)

Antigo apresentador do programa “Leituras”, da Televisão Pública de Angola, e Vice-ministro da Cultura, Luís Kandjimbo nasceu em Benguela em 1960. Poeta e crítico literário, é membro da União dos Escritores Angolanos (UEA) e da Associação para o Estudo das Literaturas Africanas de Paris (APELA). Publicou “Apuros de Vigília" (ensaio e crítica), "Apologia de Kalitangi" (ensaio e crítica), “A Estrada da Secura” (poesia, Menção Honrosa do Prémio Sonangol de Literatura),  “O Noctívago e Outras Estórias de um benguelense” (contos), “De Vagares a Vestígios” (Poesia), “Ideogramas de Ngangi” (ensaio), “Ensaio para Inversão do Olhar da Literatura Angolana à Literatura Portuguesa”. 


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segunda-feira, 6 de maio de 2019

O feitiço do Dombe-Grande é assim porquê?!



Ex.ªs, o feitiço do Dombe-Grande não é coisa de brincar, excelências, quem avisa é porque viu! Não acreditam, né? Acham que feitiço é lenda. Está bem. Vão duvidando... Sua excelência eu também era de duvidar, ah porque Tchiwiyawiya já morreu, aquilo já não tem anti-balas, agora é tudo faca a atravessar mamão maduro, ah porque já não se temperam feiticeiros como antigamente. O meu azar? Refilei com uns mais velhos que queriam boleia. Me mandaram uma "onda" que, até vi fumo!, acho que desmaiei ou quê, acordei já assim como estou vestido, tipo passei a noite na lavandaria. Logo eu que já tinha decidido nunca na vida me enfatar e engravatar tipo bolo-e-leite, cara de reverendo, a cheirar a naftalina, essas coisas de cauda no pescoço. Assim ainda volto lá mais? Quem se atrever a dizer que sim vai-se ver com a PGR. Ainda era só isso. Obrigado hahahah

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David Capelenguela eleito secretário-geral da União dos Escritores Angolanos

Gociante Patissa (esq.), Fernando Noé e David Capelenguela
Luanda, 05 Mai 2019 (Lusa) - O escritor David Capelenguela (à direita na foto), 50 anos, foi eleito sábado secretário-geral da União dos Escritores Angolanos (UEA), tornando-se a sétima personalidade a liderar a primeira associação cultural criada após a independência, em 10 de Dezembro de 1975.

Texto: Diário de Notícias, Portugal (com base no novo acordo ortográfico)

Segundo os resultados da votação, avançados hoje pela imprensa angolana, David Capelenguela, pela lista B, foi eleito com 48 votos, mais dois que o seu opositor, Cristóvão Neto, da lista A.

Citado na imprensa, o novo secretário-geral da UEA, natural da província da Huíla, indicou que vai propor, em breve, a realização de uma assembleia-geral extraordinária, com a finalidade de resolver alguns problemas que afligem a associação, bem como proceder a revisão do estatuto "para equacionar com a atual realidade do país".

David Capelenguela substitui o escritor Carmo Neto, que se manteve na secretaria-geral da associação durante nove anos, o correspondente a três mandatos.

A UEA tem parcerias com instituições do setor nacionais e internacionais no âmbito das suas responsabilidades sociais, entre os quais, o Acordo de Cooperação Cultural com a Academia Cabo-verdiana de Letras, para um Programa Permanente e Difusão Literária, Artística e Cultural.

Fundada em 10 de dezembro de 1975, a UEA é a mais antiga organização cultural da era pós-independência de Angola e foi proclamada pelo primeiro Presidente da República, António Agostinho Neto, que foi o primeiro líder da Mesa da Assembleia Geral.

Entre os membros fundadores figuram nomes como Luandino Vieira, Arnaldo Santos, António Jacinto, António Cardoso, Jofre Rocha, Fernando Costa Andrade "Ndunduma" e Aires de Almeida Santos.

A UEA ocupa, no contexto angolano, um estatuto reconhecido de associação prestigiada e com um historial de estabilidade e democracia, uma instituição de utilidade pública, com sede em Luanda, fazendo parte do "mundo Digital", através de um portal na internet construído e atualizado há nove anos.

A UEA comporta vários espaços divididos em Biblioteca, um cibercafé com 16 postos, um setor editorial, um auditório para 150 pessoas, uma sala VIP e ainda um salão nobre de trabalho dos seus filiados.

O escritor (jornal O País)

Natural da província da Huíla, David Capelenguela, é membro destacado da União dos Escritores Angolanos (UEA), e um dos escritores angolanos a viver fora dos grandes centros do país. É autor de várias obras poéticas, das quais, “Planta da sede”, 1989, “O enigma da Welwitschia”, 1997, “Rugir do crivo”, 1999, “Vozes ambíguas”, 2004, “Acordanua”, 2009. Participou nas Antologias poéticas da Brigada Jovem de Literatura Angolana da Huíla, em 2003 e no Namibe, em 2008, com os textos “O sabor pegadiço das impressões labiais” e “Dunas de Calahari”.

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terça-feira, 30 de abril de 2019

(arquivo 2) Ruído na comunicação: WANDA É COM “U” OU COM “V”?


Passam das 10 horas da manhã. É domingo. Pessoas normais estarão a caminho da praia, a visitar parentes, ou na cama em ressaca, não ligadas ao telefone fixo com discurso repetido para uma lista com mais de 80 nomes. Mas tem de ser, e é comigo:
"Aló", atende-me uma voz feminina.
"Sim, bom dia. Ligo da empresa X para confirmar se a senhora vai usar o serviço que reservou para hoje. Falo com a senhora Wanda?"

Do outro lado da linha, a senhora não se contém. Rebenta mesmo uma risada com sabor a sarcasmo. Estou calmo e deixo a senhora rir-se às custas do meu ouvido. Instantes depois, satisfeita talvez por lavar a alma, ela confirma, corrigindo:

"/Uanda/?! /Vanda/!!! Sim, sou eu. Vou usar".

Não sou pago para discutir sociolinguística com os clientes. Aliás, pouca utilidade há para pensar, de tão autómatas que certas missões são, pelo que agradeço a atenção e deixo um até logo.


Agora, no intervalo entre uma chamada e a outra, quem ri sou eu. Sim, porque em Umbundu, língua nacional predominante no centro e sul do país chamado Angola, e em particular em Benguela, "owanda", ou simplesmente "wanda" [ua:nda], significa rede. É um nome que se dá a crianças que surgem depois de o casal ter perdido outros filhos. É como metáfora a dizer que a rede da morte poderá arrastar esse recém-nascido a qualquer momento também. E a pessoa cresce com aquele nome. Para a minha interlocutora, de certeza, só existe uma forma, Wanda que se lê com /v/.


Já lá vão uns três anos e não sei como fui pensar logo hoje em ruídos na comunicação.

Gociante Patissa, Benguela, 08.12.2012

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segunda-feira, 29 de abril de 2019

ENSAIO. Línguas nacionais, toponímia e identidade nacional


(*) António Fonseca | Programa Antologia, Rádio Nacional de Angola | 27.04.2019

Muito já se falou sobre a questão das línguas nacionais e, a ela associada, sobre a questão da toponímia e da identidade nacional. Como o tema não está esgotado, aqui está, pois, o Antologia para trazer subsídios ao debate que se impõe em torno da questão. Para tal, importará talvez elencar os diversos aspectos que se levantam, de modo a que, sobre cada um deles, possamos ir emitindo o nosso ponto de vista e talvez contribuir para que se faça luz sobre a questão.

1 – Quanto à questão de definir o que são ou quais são as línguas nacionais, no caso angolano, dissemos no último programa que, por exclusão de partes, as mesmas só podem ser as línguas gentílicas das comunidades socioculturais que habitam o território angolano, independentemente da sua territorialidade ou de serem transfronteiriças. Para nos posicionarmos ante a questão, partimos do Decreto Nº 77, de 9 de Dezembro de 1921, do Alto-comissário e Governador de Angola, José Mendes Ribeiro Norton de Matos, que estabeleceu o que passo a citar:

Artº 2º - Não é permitido ensinar nas escolas das missões línguas indígenas.
Artº 3º - O uso da língua indígena só é permitido em linguagem falada nas catequeses e, como auxiliar, no período do ensino elementar da língua portuguesa. & 1º - É vedado na catequese das missões, nas suas escolas e em qualquer relação com os indígenas, o emprego das línguas indígenas ou de outra linguagem que não seja a portuguesa (...)

Portanto, chegados aqui, com alguma razoabilidade, somos forçados a afirmar que o próprio Alto-comissário e Governador de Angola, José Mendes Ribeiro Norton de Matos, foi quem, por oposição entre as línguas indígenas e a língua portuguesa, definiu já em 1921 que as línguas indígenas são as línguas nacionais de Angola.

2 – Quanto à questão da Toponímia e Identidade Nacional, são dois aspectos que andam muito ligados. A questão que amiúde se coloca é a de se não deveriam ser mantidos os antigos nomes de localidades, de ruas e de avenidas e mesmo se as estátuas do período colonial não deveriam voltar a ocupar o seu antigo lugar. As opiniões dividem-se e verificamos que se vai impondo uma certa tendência de fazer ressurgir tais nomes. Ora, todos sabemos que a toponímia, os nomes de ruas e lugares, não são dados por mero acaso. São dados para exaltar um feito ou uma figura. Por esta ordem de razão, os heróis e feitos heróicos do colonizador não são os heróis nem os feitos heróicos do colonizado. Por outro lado, a toponímia visa cimentar valores e caucionar uma identidade. Por esta ordem de razão, de igual modo, a perspectiva do colonizado não pode ser a perspectiva do colonizador.

3 – No pós-independência a alteração dos nomes foi vista como “uma forma de marcar a vitória pela a independência e como afirmação da identidade africana dos angolanos independentes, há muito oprimida institucionalmente pelo colonialismo. Este era também um dos objectivos de movimentos como “Vamos Descobrir Angola” onde participaram figuras como Viriato da Cruz, António Jacinto e Luandino Vieira”[1] e, de um modo geral, dos grandes poetas da geração da Mensagem.

Perguntarmo-nos pois se faria sentido voltar a chamar Cidade de Salazar à Cidade de Ndalatando, ou se faria sentido voltar a chamar Cidade de Carmona à Cidade do Uíge? Cremos que não, pois estaríamos a homenagear aqueles que tanto dano causaram ao nosso povo e que nem na sua respectiva pátria merecem tal homenagem. Já agora, pergunto-me por que razão a Cidade do Namibe voltou a ser chamada de Cidade de Moçamedes. Será que se quis homenagear o tráfico negreiro, ou a reposição de tal nome terá sido apenas fruto da ignorância? Como dizia o escritor Pepetela, chamar Moçamedes ao Namibe equivale a chamar Salazar a Ndalatando ou Carmona ao Uige[2].

Para quem queira ouvir e portanto reflectir sobre a manutenção do nome de Moçamedes para a cidade do Namibe, importa dizer que o Barão de Moçamedes, em cuja honra foi no tempo colonial dado o seu nome àquela cidade, foi uma das principais figuras do tráfico de escravos em Angola. Senão vejamos:

a)     Barão de Mossâmedes (ou barão de Moçâmedes) foi um título de juro e herdade criado por carta régia de 13 de Agosto de 1779 da rainha D. Maria I a favor de José de Almeida e Vasconcelos, um militar e governador-geral de Angola. A propósito de Moçâmedes, pode ler-se no artigo Namibe, Cecil Rhodes, descolonização e o Barão de Moçâmedes, publicado na página ANGONOMICS[3].

b)     “O nome Moçâmedes é uma homenagem ao antigo governador-geral de Angola, José de Almeida e Vasconcelos Soveral e Carvalho, o Barão de Moçâmedes (ou Mossâmedes). Quando ordenou a exploração de terras a sul de Benguela em 1785, o Barão despachou o tenente-coronel Luís Cândido Cordeiro Pinheiro Furtado e o sargento-mor Gregório José Mendes e quando chegou à Angra do Negro – o nome pelo qual os portugueses conheciam a zona do porto do Namibe por ser um local de embarcação de escravos – rebaptizou o local como Porto de Moçâmedes em homenagem a José de Almeida e Vasconcelos.

José de Almeida e Vasconcelos, que antes de cumprir a missão em Angola foi um capitão-mor de sucesso na capitania de Goiás no Brasil, para onde foi enviado pelo Marquês de Pombal, chegou a Angola em 1784 e tinha entre as suas prioridades retomar o controlo metropolitano do comércio de escravos e das receitas aduaneiras inerentes ao comércio de pessoas que estava a ser dominado por comerciantes baseados no Brasil.

Durante o governo de José de Almeida e Vasconcelos, o Barão de Moçamedes, entre 1784 e 1790, o tráfico de escravos atingiu níveis recorde na colónia de Angola, como escreveu Joseph Calder Miller. Assim, retomar o nome de Moçâmedes é efectivamente homenagear um servidor diligente do colonialismo, sendo amplamente considerado como um servidor público de qualidade pelos serviços prestados para o império português; a causa que serviu jogou em muitos aspectos contra a causa dos povos de Angola.

Com o regresso ao nome colonial, Moçâmedes, passa-se a homenagear uma pessoa ligada à administração colonial em pleno período de vigência do comércio transatlântico de escravos, a principal actividade comercial e principal fonte de receitas para administração colonial em Angola.”

Pelas questões apresentadas acima, fica a ideia que a decisão de passar o nome da cidade do Namibe para Moçâmedes foi baseada em informação frágil uma vez que representa efectivamente uma homenagem a um homem cujas acções, por iniciativa própria ou por inerência das funções que desempenhava, o desqualificam para qualquer tipo de homenagem toponímica na Angola de hoje. Portanto, parece-nos ser esta uma questão para reanalisar...
_________________
Biografia
António Antunes Fonseca nasceu no Ambriz em 1956. Licenciado em Economia pela Universidade Agostinho Neto, é diplomado em Estudos superiores especializados de políticas culturais e acção artística Internacional pela faculdade de Direito e ciências políticas da Universidade de Bourgogne, França.

É o actual PCA do Memorial Dr. Agostinho Neto, em Luanda. Dirigiu a Empresa Nacional de Discos e de Publicações desde 1982 e já dirigiu o Instituto do Livro e do Disco de 1983 a 1994. Iniciou a actividade jornalística na Emissora Católica de Angola, ingressado posteriormente na Rádio Nacional de Angola, onde desde 1978, realiza e apresenta o programa Antologia.

Membro da União dos Escritores Angolanos (UEA), foi co-fundador da Brigada Jovem de Literatura e da Associação Angolana dos amigos do livro. Publicou Raízes, Sobre os Kikongos de Angola, Poemas de Raíz e Voz, e Crónicas dum Tempo de Silêncio. Figura em algumas antologias e possui colaboração dispersa em alguns jornais e revistas luandenses.

(*) Texto escrito para o Programa Antologia, da Rádio Nacional de Angola, edição de 27 de Abril de 2019. Versão revista e editada pelo Blog Angodebates / com UEA. Foto: Angop


[1] Namibe, Cecil Rhodes, descolonização e o Barão de Moçâmedes, ANGONOMICS
[2] Pepetela, TEXTUALIDADES – Conversa com os Leitores – MAAN, Luanda, 2019
[3] Namibe, Cecil Rhodes, descolonização e o Barão de Moçâmedes, ANGONOMICS
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domingo, 28 de abril de 2019

Tribunal “devolve” palco ao músico Robertinho acusado de narcotráfico (*)


O músico Robertinho, 61 anos, que viu a situação carcerária evoluir de detenção para prisão domiciliar, já respira o ar da liberdade desde quarta-feira (24.04). A decisão é Tribunal Provincial de Luanda, por exceder o tempo de prisão preventiva, desde Maio de 2018, sob a acusação de tráfico de droga. Robertinho pode actuar sem restrições no país e no estrangeiro.

Em declarações ao Jornal de Angola, David Mendes, advogado do cantor, disse que Robertinho, caso queira ausentar-se da capital do país por um período superior a oito dias, deve comunicar às autoridades judiciais.

Segundo ainda o advogado nada impede o autor de “Kakinhento” de poder exercer a sua actividade artística, onde for convidado para actuar. “Ele vive da música e nada o impede de continuar a brilhar nos palcos e entreter os admiradores como sempre o fez, com profissionalismo e dedicação.”

Embora tenha partido do juiz da causa a decisão da restituição da liberdade, o Robertinho está obrigado a apresentar-se às autoridades judiciais uma vez por semana.
 
David Mendes disse que o processo está na fase final, sendo que o desfecho do caso está dependente do número de processos do juiz da causa, aguardando pela pronúncia do mesmo. 

Afirmou que haverá a fase de instrução contraditória que foi requerida para tentar aclarar algumas questões não esclarecidas, por existirem elementos bastantes que contradizem a acusação feita pela Polícia Nacional.

David Mendes alerta os artistas e desportistas alvos preferenciais dessas redes de traficantes de droga para “estarem sempre atentos e em alerta no momento do despacho das bagagens.”

Em declarações sentidas que proferiu à Rádio Luanda, o músico, que aconselha prudência, reafirmou a sua convicção de ser inocente.

“Realmente, estou com o meu coração limpo e com a cara erguida. Aconselho as pessoas a serem prudentes e nunca receber nada de ninguém quando estiverem a viajar”, sublinhou.

Quem é Robertinho

Fernando Lucas da Silva, natural de Malange, reside em Luanda desde finais da década de 1960 de século 20, tendo dado vazão à inclinação pela música no bairro Marçal onde cresceu. Como gostava de fazer playback de músicas românticas, principalmente as do brasileiro Roberto Carlos, ganhou dos amigos o apelido de “Robertinho”, que passou a ser o seu nome artístico. 

Ganharia notoriedade em 1992, depois de abraçar uma carreira a solo, gravando o primeiro trabalho discográfico com o músico Eduardo Paím, o “Samba Samba”, ainda no formato cassete, coroando uma carreira iniciada no grupo Ébanos, como instrumentista e corista, aos 18 anos, a convite de um amigo. Integrou, aproximadamente, um ano, o agrupamento Diamantes Negros, como vocalista e baterista, de 1983-1984.

Realizou a sua primeira digressão com o agrupamento FAPLA-Povo, em Cuba, representado Angola no Festival Mundial da Juventude, numa altura em que cumpria serviço militar. Neste grupo, Robertinho assumia os papéis de instrumentista e corista, juntamente com o cantor Proletário. Poucos anos depois, os dois passam a  vocalistas principais.

Mais tarde, ainda na década de 80, decide enveredar pela carreira a solo, lançando a sua primeira música, intitulada “Nguma”, com a banda Os Kiezos, no programa “Bom fim-de-semana”, que procurava novos talentos, sob a égide do Ministério da Cultura. Já a primeira obra discográfica, “Joana”, sai a público em 1992, com seis temas, destacando-se “Joana”, “Samba-samba”, “”Desespero”, “Kalamaxinde” e “Sanguito”.

(*) Com Jornal de Angola e Angop / Título do Blog Angodebates

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sábado, 27 de abril de 2019

(arquivo 2) Diário | O pai jovem está com medo?


“Boa noite, pai jovem. Atrapalho o parto?”
“Eh, haka!… Mba isso até… hum… Vai-me desculpar só já, mãezinha, não tenho outra palavra para escalpelizar.”
“Não pede desculpa, filho. O filho até não errou, só tentou parir aqui…”
“Vai ser pela primeira vez e a última necessitar maiores aqui…”
“Mas e assim já acabou de cagar, filho?”
“Mãezinha, me desculpa só. Eu não sou bem, bem daqui. Vinha procurar a minha namorada mas como fiquei apertado, calculo eu que não ia conseguir namorar sossegado com isso, então vim só já aqui no escuro. Mas não faço isso sempre. Juro mesmo!”
“Mas o pai é um pouco analfabeto?”
“Até não. Reprovei só duas vezes na décima, mas para trabalhar estou em altura. Até o curriculum vitae já está no envelope em casa. Experiência é que…”
“A tua T-shirt é bonita.”
“Obrigado.”
“Essa letra no peito ainda é como?”
“Yes, we can!”
“Isso é língua quê?”
“É inglês. Quer dizer que nós podemos. A mãezinha será que não acompanhou na parabólica a campanha do Obama? Passou muito na TV, legenda e tudo.”
“E para ler letreiros com advertência, tipo ‘proibido cagar aqui’, não é possível, pai?”
“É só já ali que falhei. É mais ou menos como já falei na mãe. Aqui nessa zona é a banda da minha garina. Nesses casos, o meu amor é sem fronteira. Então, feito que não sei quanto tempo vou ficar com a namorada, preferi só já necessitar as maiores num instante…”
“Aqui está escrito proibido cagar. Mesmo assim o pai cagou no meu quintal. Aqui estava limpo mas o pai sujou. Agora assim estás a entender lá como, ó pai?”
“Mba, isso até…”
“O pai está com medo?”
“Não. Medo, medo até não; é só mesmo já aquele respeito.”
“Assim ainda é mais fácil…”
“Recolhe só o teu produto, você é que sabe se leva à mão ou no bolso…”
“MAS COMO ASSIM?! ISSO É ANTI-HIGIÉNICO!!!”
“Aié? E esse monte que está a cheirar assim é que é pró-higiénico?!”
“Pelo menos só já uma pá, né?!”
“Por acaso o filho tem uma pá no bolso? Não vamos só nos complicar, ya?! Apanha mais é isso e vai embora, nunca torna mais, ouviste?!…”
“VÃO À MERDA!!!”
“Merda é o que você fez aqui no meu jardim, filho! Já esqueceste?…”

www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa, 29 Junho 2017 | Aeroporto Internacional da Catumbela
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sexta-feira, 26 de abril de 2019

POLÉMICA. Crítico Hélder Simbad denuncia racismo na literatura angolana

O crítico literário e escritor Hélder Simbad denunciou "algum racismo que ainda é vigente na literatura angolana". Num vídeo-ensaio publicado via youtube na quinta-feira, 25.04, com uma duração de 21 minutos e que tem como cenário a União dos Escritores Angolanos, em Luanda, Helder Simbad, que é também professor de letras, acrescenta que "nós gostamos de tapar o sol com a peneira", mas que [para] "qualquer analista – não precisa de ser analista – é muito visível que há ainda alguma elitização – e esse elitismo há em todos os sítios – e algum racismo, sim", realça, sem deixar claro se tem ou não noção de como um tal pronunciamento é passível de lhe reduzir simpatias e fechar portas. Helder Simbad tem-se afirmado no plano dos estudos literários em Angola, quer pelos artigos, quer pelas acções formativas que leva a cabo por intermédio do Círculo de Estudos Literaglis, de que é o rosto mais notório.

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TV-ANGODEBATES

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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