segunda-feira, 18 de outubro de 2021

O que muda na Rádio Nacional de Angola após o Top dos Mais Queridos?

Que lição irá a RNA tirar da sua própria inovação no Top dos Mais Queridos 2021, num ano em que a final contou com um representante de cada província? Pela lógica da base de apoio popular, ganhou o Huambo com um grupo desconhecido de todo, com uma proposta manifestamente arrojada nos acabamentos, o que indica as condições desenrascadas em que músicos não levados ao colo pelas "labels" trabalham. Crise no Lar, tema dos Picantes, arrebatou os 2 milhões de Kwanzas de troféu principal, batendo na concorrência a "hegemonia" Paulo Flores e Yuri da Cunha, cujo tema, Njila yadikanga, está a um patamar de longe superior esteticamente e no que respeita aos arranjos. Em terceiro lugar ficou Tiviné, representando a província de Benguela (trata-se na verdade de um músico da vizinha província do Kwanza Sul que há mais de duas décadas "aportou" Benguela, onde se revelaria pelo carisma e talento enquanto integrante do Quinteto Ndjando, também na vertente da recolha e adaptação do cancioneiro). Quem conhece minimamente a dinâmica cultural e o sentimento de pertença e identidade não estranhará esse feito que bafejou o planalto central. O povo votou em massa porque conhece e se identifica, conhece porque se divulga localmente, ou seja, a província adoptou como causa de todos a participação do grupo local no concurso nacional. É que no Huambo, o que julgo estender-se ao Bié, valorizam-se e se promovem as manifestações de produção local. É o contrário por exemplo daquilo que se vê na província de Benguela, onde no campo musical o produto local é tratado como marginal, relegado para programas "temáticos", dedicando a maior parte da emissão ao mainstream, com a luandização costumeira por meio do semba (e da língua kimbundu cuja mensagem praticamente ninguém percebe, só contam o ritmo/harmonia) e do kuduro, com tudo de bom e de trágico que a subcultura carrega de boçal, salvaguardadas as virtudes cada vez mais escassas na dança/música electrónica. A mim faz mesmo muita confusão estar em Benguela, uma localidade com dez municípios e um sem fim de variantes etnolinguísticas e quando se sintoniza a rádio, é como se a pessoa estivesse em Luanda. E não é que os músicos locais não se esforcem em investir os parcos recursos para criarem. Pôr a tocar na rádio da localidade em que vivem é que é o problema. Chegam a dizer, já entristecidos, que por vezes a música tem de ganhar notoriedade fora para que localmente seja acolhida. E não é um fenómeno que só afecte as rádios do estado, as privadas também. Quando se promovem actividades, lá a música local toca, mas logo a seguir... Convém que não sejamos mal interpretados como se estivéssemos a combater o carácter cosmopolita, não é isso. É que o semba, que convém vender como bandeira nacional, pode afinal não dizer nada a muitos povos que formam a malha da diversidade cultural do país que somos, independente de ser uma riqueza muito cara ao norte ou representar o substrato da elite pós-independência e ter jogado um papel relevante na luta anti-colonial. Enfim, a pergunta de retórica é: de que adianta essa experiência da representatividade das 18 províncias e a inerente diversidade cultural na esteira do Top dos Mais Queridos, se ao longo do ano a discografia é deixada à mercê dos gostos dos DJ's e operadores de som, muitos deles, infelizmente, com pouca consistência em matéria de cultura musical?


 Gociante Patissa | Benguela 18 Outubro 2021 | www.angodebates.blogspot.com
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domingo, 10 de outubro de 2021

Crónica | Meu lugar é um desterro


Atravessa-me recorrentemente desde jovem a contradição existencial de quem ama esse País chamado Angola e continuará a honrá-lo, quer pela própria cabeça, quer pelo legado de sacrifício consentido pela família desde as décadas do nacionalismo... mas que em sentido oposto, se revê cada vez menos no rumo que a sociedade toma no campo da alteridade e ante a inversão gritante de valores elementares de convivência.

Não liguem, podem ser só dizeres de sono mal dormido de inquilino de uma certa rua cedida à poluição sonora de prostitutas (usaria termo mais bonito noutro contexto) que usam da boçalidade, da embriaguez e brigas entre si como mecanismo de se manterem acordadas no seu comércio que se instala ao cair da tarde. Não saberei dizer que sejam as mesmas todos os dias, não varia é o lugar. E a vizinhança, qual avestruz, escuda-se na barreira de som da vidraça das janelas, com isso o não-assunto prospera.

As barulhentas, socialmente invisíveis e talvez por isso inimputáveis, somem antes de lhes nascer o sol no luzir das ancas ao léu. São só umas putas coitadas que até vêm de longe, não hão-de prejudicar ninguém com noites mal dormidas derivadas do tão alto que falam e pregam na parada. Não sendo tudo más insónias, certa vez já ébrias e nostálgicas, marcava o telemóvel duas da manhã menos um quarto, elevaram a noite com coral em impecável harmonia, tenores, sopranos e contraltos, mãos dadas em arco animadíssimo em uma das línguas nacionais: na poltrona da glória celestial hei-de me sentar um dia / sim/ hei-de me sentar.

Por essas e por outras cuidei de transmitir em conversa com jovens leitores a minha resignação. Definitivamente a minha geração fracassou, não há mudança que se vislumbre para breve. Um giro simples pela cidade, no rol de murros no estômago está ao virar da esquina um qualquer de nós com o instrumento de urinar à mão, perdoado pela ausência de WC públicos que só a encarnação seguinte trará.

Esta sociedade da qual sou parte do problema, impotente em sonhar soluções, esta sociedade da ganância, da falência do bom-senso e da razoabilidade, chega a ser um desterro que nem eu próprio recomendaria para legado. Favor acordar-me logo que atingido o fundo do poço.

Gociante Patissa, Lunda, 10 Outubro 2021 | www.angodebates.blogspot.com


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quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Desabafo de Ismael Mateus sobre ser "opinion maker" em Angola

Devo ao jornalismo a honra de me ter possibilitado falar para as pessoas, ser seguido nas minhas opiniões e acesso à mídia para analisar aspectos da vida nacional. Infelizmente discute-se pouco a opinião expressa e os analistas crescem pouco. Deveria ser o contrário, já que são úteis e ajudam o cidadão a formar opinião própria.

Depois de tantos anos desta actividade, aprende-se que a opinião pública é traiçoeira: a mesma mão que hoje te bate no ombro de satisfação amanhã é a primeira a considera-se um traidor. Na nossa opinião pública, as pessoas não esperam por uma opinião dos fazedores para formar a sua, como deveria ser. A maior parte das pessoas primeiro forma uma opinião e depois espera que o fazedor vá à imprensa corroborar dessa opinião. Se coincidem, então o fazedor de opinião é bestial mas se ele não diz o que se está à espera que diga, então passa a ser a besta.

Os tais analistas também têm culpas: uns porque são ostensivamente parciais, sem qualquer compromisso com o equilíbrio e alimentam a tendência de criação de facções na opinião pública e outros porque em vez de explicar e interpretar os fenómenos usam a capa da análise para fazer política, captar simpatias ou fomentar antipatias contra partidos políticos.

A qualidade da nossa política também passa pela qualidade de quem avalia as decisões, estratégias e acções dos políticos.

A bajulação e culto de personalidade que vemos nos partidos políticos têm muito a ver com o modo como os analistas são incapazes de ver os líderes como falíveis, humanos e mortais ou como olham a vida entre os bons e maus. Os erros dos líderes são escamoteados ou até apresentados como um alto nível do seu pensamento estratégico.

A opinião pública também tem de ter critérios, regras e uma delas tem de ser a de explicar os fenómenos, fazer entender os factos em vez da manipulação, da opinião pessoal, do "eu acho" ou "penso que". Bom dia

(Ismael Mateus, in Facebook, hoje. Versão de texto com revisão do Blog Angodebates)
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segunda-feira, 4 de outubro de 2021

UM JORNAL REPARTIDO PARA BENGUELA? JÁ DÁ MAS...


O Litoral é o mais recente jornal regional e generalista lançado pela Edições Novembro, entidade estatal detentora do Jornal de Angola (JA), o principal diário do país. O Litoral, que se estreia amanhã, 05/10, rodado em Luanda e de periodicidade quinzenal, cobre "ex aequo" Benguela e Kwanza Sul, para o que conta com matérias na sua maioria assinadas pelos seus "cabeças de série" nas respectivas províncias. Em especial ao ilustre Sampaio Júnior e equipa ali pelo Campo de Ténis, desejo os maiores sucessos neste desafio. Porém, pois há sempre um porém, ao mesmo tempo que aplaudo a estratégia de descentralização levada a cabo pelo consulado do PCA Drumond Jaime, o meu lado utópico diz que ainda é pouco, que o ideal era mesmo retomar a produção local, como se viu na transição entre as décadas de 80-90. Que bom era degustar o Jornal Kilamba e o personagem Rasta Kupapata, da banda desenhada assinada por Pio Mariano, ali pela Bela Vista no Lobito! Um jornal de Benguela e sobre Benguela é mais do que justificado para questões de identificação/proximidade afectiva, maior abordagem das dinâmicas e controvérsias da província, para além de contribuir para a promoção da leitura e uma consciência analítica/crítica, tendo em conta a densidade populacional que ultrapassa os 2 milhões de habitantes e a sua tradição de vida intensa nos campos económico, político e intelectual. É que com a falência consumada dos jornais privados (Kesongo, de Ramiro Aleixo, Cruzeiro do Sul, de Ismael Mateus e Lilas Orlov, e Chela Press, de Francisco Rasfado, sem esquecer o efémero Correio do Sul, de Nelson Sul d'Angola, e as suas não mais de três edições de vida), tudo o que se tem a enfeitar as bancas é um parque esporádico de exemplares nem sempre em quantidades minimamente satisfatórias do produto "novembrino", como sejam o JA, Cultura, Jornal dos Desportos e um e outro título privado, também viajado da capital do país.
Gociante Patissa, 04 Outubro 2021
www.angodebates.blogspot.com
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quarta-feira, 29 de setembro de 2021

QUE "LUSOFONIA" É ESSA? - opinião do escritor e jornalista João Melo ao Diário de Notícias

O conceito de "lusofonia", embora seja prático, é claramente um conceito ambíguo e limitado, que não exprime toda a complexa realidade constituída e vivenciada pelos povos de língua portuguesa. Afinal - já o escrevi aqui - essa comunidade, em termos demográficos, é afro-europeia e não euro-africana. 

Culturalmente, é cada vez mais mestiça, marcada de maneira distintiva por traços culturais de origem africana.  Mais do que incompreensível, é inaceitável, portanto, a repetição de determinados atos falhos por parte das elites políticas e culturais dos dois países autoconsiderados "dominantes" dessa comunidade, ou seja, Portugal e Brasil. Anos atrás, por exemplo, certas universidades portuguesas tinham departamentos de "estudos lusófonos e portugueses", o que fala por si. Espero que essa designação e outras do mesmo calibre já tenham sido colocadas no caixote do lixo.  

O fraco reconhecimento e as dificuldades de circulação na comunidade em questão de bens culturais produzidos nos diferentes países de língua portuguesa são exemplos de uma área em que todas as fragilidades (estou a ser gentil) do conceito de "lusofonia" saltam à vista. Na coluna de hoje, comentarei brevemente o que se passa na área da literatura, por ser a que melhor conheço.  

Começo por mencionar dois factos. Primeiro, o lançamento, no passado dia 9 deste mês de setembro, em Lisboa, da obra Safras de Um Triste Outono, do poeta cabo-verdiano Arménio Vieira, prémio Camões 2009, publicada pela editora também cabo-verdiana Rosa dos Ventos. Segundo, a premiação da poeta são-tomense Conceição Lima pelo conhecido site internacional de literatura traduzida (para o inglês) Words without Borders, juntamente com três outros poetas mundiais. Nenhum desses dois factos foi notícia nem em Portugal nem no Brasil, onde os respetivos autores são relativamente conhecidos.  

A verdade, nua e crua, é esta: pesem os esforços da academia - sobretudo, diga-se, no Brasil - para conhecer e divulgar as literaturas africanas de língua portuguesa, as instâncias que ajudam a constituir o chamado "mercado", isto é, as editoras, os eventos e a imprensa, prestam uma atenção literalmente episódica ao que se produz em tais países. Mais grave ainda: quase sempre, as escolhas dessas instâncias não escondem os seus preconceitos ideológico-culturais, que alguns, nem sempre com razão, mas legitimamente, poderão confundir com fatores étnicos.  

Como entender, por exemplo, que o Festival de Poesia de Lisboa não tenha convidado nenhum poeta africano de língua portuguesa realmente conhecido como poeta? Se a maka eram dificuldades logísticas, aí vai uma lista de nomes de poetas africanos que moram na capital portuguesa: o próprio Arménio Vieira, o igualmente cabo-verdiano José Luís Tavares, o moçambicano Luís Patraquim e os angolanos Ana Paula Tavares e Zetho Gonçalves. Certamente haverá outros, que lamento não conhecer.  

Outro ato falho foi cometido pelo Prémio Oceanos, alegadamente instituído para galardoar autores de todos os países de língua portuguesa, quando, na sua conta do Instagram, chamou o angolaníssimo José Eduardo Agualusa, semifinalista da edição 2021 do referido prémio, de "escritor português". É como se apenas fizesse sentido que autores portugueses (e brasileiros) fossem dignos do prémio em questão.  

Por fim, não podem também ser ignoradas as culpas que têm nesta matéria os próprios países africanos de língua portuguesa. Para resumir com uma frase, direi que, de um modo geral, os mesmos pouco ou nada têm feito para internacionalizar a sua própria literatura.  Este assunto não se esgota aqui. Em próximo artigo, tentarei sugerir algumas ideias para promover um verdadeiro intercâmbio literário entre todos os países de língua portuguesa.  

Escritor e jornalista angolano, diretor da revista África 21 | Diário de Notícias, 28.09.2021

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terça-feira, 28 de setembro de 2021

MORRE UM POUCO DE NÓS COM A PARTIDA DE CRISTÓVÃO MÁRIO KAJIBANGA (clicar no título e na imagem para ouvir áudio)

clicar na imagem para ouvir áudio

Tomei conhecimento com pesar profundo da partida de Cristóvão Mário Kajibanga, o eterno homem de cultura em terras de Benguela e patrono do grupo cultural Bismas das Acácias. Para além de ter sido sócio-gerente da editora KAT, pela qual publiquei Consulado do Vazio, meu poemário de estreia, foi colega nas andanças da ONG's, sendo nós pela AJS (Associação Juvenil para a Solidariedade, da qual fui presidente/coordenador executivo) e ele pela ADRA. Neste âmbito Kajibanga foi frequente painelista (a custo zero) do programa de debate Palmas da Paz, mais tarde Viver para Vencer, o qual realizei e conduzi por meio de Rádio Morena Comercial sob financiamento da USAID, Embaixada americana, PNUD/Fundo Global e Médicos del Mundo (entre 2003-2011). O prémio Provincial de Cultura e Artes, que me foi atribuído pelo júri liderado pelo académico ArJaGo, em função da dedicação à divulgação da língua e cultura umbundu através do conto e das novas tecnologias de informação e comunicação, aconteceu durante o mandato de Kajibanga como Director Provincial da Cultura. Foi também com ele nas vestes de Director da Rádio Mais que quase fui recrutado para assumir a área de informação na iminência de abertura da estação no Lobito, mediante êxito nos testes de locução e entrevista conduzida por Kenia Sandão (negociação entretanto mal sucedida ao fim de alguns encontros em função das condições que coloquei). Discordamos muitas vezes e em vários aspectos mas não posso deixar de assinalar a simplicidade e o fácil trato de Kají. O último contacto que mantive com ele ocorreu nos estúdios da Rádio Benguela, no dia 08 de Janeiro, já de máscaras e tudo por conta da abominável pandemia, para debater sobre Cultura Nacional, sob condução de Gilceu de Almeida e Paulo Stone da Conceição. Por tudo isso, posso dizer que vai uma parte do nosso orgulho com a partida de Kajibanga.

Obrigado, ó patriota Kajibanga, os pêsames à família e à classe artística do seu Patissa.
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Cristóvão Mário Kajibanga enluta cultura angolana


Faleceu hoje na cidade de Benguela Cristóvão Mário Kajibanga, homem de cultura e ex-Director Provincial da Cultura. Natural do Moxico, o cinquentenário residia em Benguela há mais de quatro décadas, tendo desenvolvido actividades nos ramos da educação, cultua e desenvolvimento comunitário.

LEMBRAR BENGUELA COM GRATA MEMÓRIA DE KAJIBANGA
Em Maio de 2008 a editora KAT, representada por Cristóvão Mário Kajibanga (à direita), e o então membro da sociedade civil e jornalista freelance, Gociante Patissa, que na ocasião era também Editor do Boletim A Voz do Olho, jornal comunitário da AJS (Associação Juvenil para a Solidariedade, no Lobito), lançavam na cidade de Benguela o livro Consulado do Vazio, poemas deste último. Tivemos a honra de ser o professor universitário Francisco Soares a fazer a apresentação formal, uma sugestão da amiga Lena Sebastião. O êxito do evento é também devido ao director da Rádio Morena Comercial, José Lopes de Almeida Júnior, que apadrinhou a vertente da divulgação e cedeu o recinto. A imprensa como um todo tem sido de um amparo impagável, desde os gestores dos órgãos aos jornalistas de modo geral.
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domingo, 26 de setembro de 2021

Crónica | Você vai subir com peixe seco no ar condicionado?!

Viajar de transporte colectivo é dos mais representativos miradouros das nossas mais incómodas pobrezas existenciais, uma das quais, a mais incisiva quiçá, a do bom-senso que sucumbe sem poupar gerações. É a tese da conterra após uma aventura interprovincial no feriado prolongado do herói. Mas como apriorismos não pagam dívidas, foi assim…


Encafuada na capital do capital capitulada por manha de uma certa pandemia, na primeira oportunidade de integrar delegação para inaugurações ao centro e sul, embarcou! Quão bom é reencontrar verdejantes solos infinitos no horizonte, emprestar os pulmões longe do empestado! Decidiu permanecer mais duas noites, seu lugar no voo voltando vazio.


No domingo que sucedeu a um prolongado de matar saudades, fez-se a conterra à paragem de autocarros, Macon na opção, bilhete comprado de 8h45, lugares marcados. Era nove no assento à janela, um nove que dobraria para coincidir com a hora de partida, porque certamente há de existir algum lugar onde Angola signifique ligeiro atraso.


Ela usa o truque bem aprendido dos anos de atendimento ao passageiro noutro sector, o da aviação civil, que isso de técnicas é um calo que nunca mais nos larga. Em situação daquela coisa aí que nos demanda açaime, nada melhor do que o banco ao lado vazio. O machimbombo modernizado parte do terminal de Benguela, uma finta na Catumbela, porém no Lobito impera a bexiga. Alguns Pax em trânsito desembarcam em brasa.


Vai-me desculpar mas este lugar é meu, reivindica a conterra. O outro lugar não está livre? Retruca a outra. Está mas os lugares estão marcados, é só seguir no bilhete… se reparou, há até garrafa de água na bolsa do assento, vim sentada aqui. A invasora, cara feia, levanta-se. Eu também o meu lugar é aquele, já encontrei já essa mana sentada. Assim vou fazer como? Antes de a legítima dizer o não sei da praxe, a invasora da invasora, carapuça nos cornos, cuja filha ocupava assento quando era suposto ir ao colo, refila: no autocarro tem muitos lugares, meu bilhete comprei ontem, não tem número!


A conterra por uns instantes rememora Mayday, desastres aéreos, documentários do Natgeo e a razão de ser dos lugares marcados conforme o manifesto. Em caso de sinistro fica mais fácil identificar quem ia onde. Mas dará tempo de palestrar? Perdoai-as, senhor.


A invasora, que tal como a conterra e a invasora dois ia na casa dos 40 e tal, prossegue passivo-agressiva. Então assim vou sentar aonde se eu ir lá atrás tiro tudo? Eu também!, responde a invasora dois. Não estás a ver até já preparei o saco? Eu no fundo vomito bwé. E lá se acomoda a invasora no banco dez, na coxia, mas não pára quieta. Agora liga a música no seu telemóvel e murmura o louvor. Ah, não tem auscultador?! Pergunta de retórica a conterra, auxiliada pela expressão corporal policial que logo aborta a DJ. Caramba, essa gente então como é? Já imaginou se todos tocarem suas músicas?!


Bem, ainda antes de deixar o terminal batia-lhe o ombro um ancião em jeito de favor. Ajuda só a controlar essa menina, vai descer no Cabo Ledo. Aparentava ter uns dez anos. Vai-me desculpar, paizinho, o meu trabalho não permite assumir esta responsabilidade. E pensa consigo mesma: menor desacompanhada, sem documento, sem termos de responsabilidade... estamos doidos ou o quê?! Não tardou que outro jovem aceitasse.


No poeirento Sumbe capital do Kwanza Sul (que me perdoe o padroeiro da toponímia colonializada, por não escrever com C de cu), aquela paragem para troca de motoristas, sempre bem aproveitada para compritas. Quem desce não reconhece o bafo no interior do machimbombo. XÉ, Ó SENHOR! Indigna-se um jovem. Você vai subir com peixe seco no ar condicionado?! O visado faz silêncio ao saco preto com duas vistosas tábuas de corvina escalada. WEY, CHAMA O MOTORISTA! Se a gente soubesse, também era subir com nosso cabrito que metemos no porão. Os demais apressam-se a abrir as janelas, vamos morrer com esse cheiro no AC, oh pai do Céu! E lá o motorista recolhia o peixe.

 

A passar o Longa, lá atrás ouve-se música enlatada do telefone de alguém com notório mau ouvido. Ninguém protesta. Dessa vez a conterra, que não se imagina vivenciar algo idêntico num avião, engole em seco. Só o letreiro do barbeiro tio Toy para desanuviar.


Já embutidos com churrasco de galinha rija, refrigerantes e cervejas, intervalados com os vómitos de tirar o próprio fígado protagonizados pela invasora da invasora, os pax desinibem-se. Minha mulher quando está grávida o desejo dela é fodido. Espera ainda, interrompe outro, escuta ainda o azar do meu amigo: dia seguinte ao casamento a mulher já lhe ligou, querido traz pão. Gargalhadas. Dizia eu, a minha mulher grávida só quer cheiro da fossa, fica mesmo aí a inalar, bafo de cocó é que lhe faz bem.


A conterra, que vem adiando a maternidade, não sabe se Neto, lá na solitária tumba, ri, faz poema, faz tiro ou prepara uma injecção letal para varrer de vez a estirpe do homem novo que não se recomenda para semente. De qualquer modo, falta pouco para chegar, o destino é terminal do Rocha. Lia-se no letreiro sonante no para-brisas via Gamek.


À entrada do Benfica, o motorista anuncia seco e irredutível, no relógio 19h30, pela hora, vou já para Viana, quem vai na cidade desce já aqui no triângulo da via expresso. Incrédula, a conterra vê os Pax feitos cordeiros. Atirada ali à sua sorte, foi pela sorte protegida até chegar à casa onde de imediato lavrou um e-mail de protesto. O mesmo teor remeteu no espaço de reclamações no site da transportadora. Pode ser que ainda antes da segunda vinda de Cristo a Macon formule desculpas. Melhor se conta como ficção.


Gociante Patissa | Luanda, 26 Setembro 2021

 

 

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quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Opinião | Porque perdemos todos na briga judicializada entre entre o vice-procurador e o jornalista

Estando aprazada para o dia 13 deste mês a sentença, gostaria muito que o jornalista Carlos


Alberto ganhasse a causa no processo movido contra si pelo vice-Procurador Mouta Liz por crime de difamação e calúnia (conforme o cartaz), na sequência de uma série de reportagens no seu canal A Denúncia sobre alegada apropriação ilegal e abusiva de terreno de pacato cidadão pelo dignitário para fins particulares .

Não é que afiance os excessos, adjectivos ou entusiasmo do redactor/repórter, mas porque seria uma perigosa jurisprudência prender jornalistas, encerrar órgãos ou proibir gestores de frequentarem as suas próprias empresas de comunicação social como medida de coação pessoal, na medida em que não há memória de tal ter ocorrido com profissionais no exercício da actividade quando os visados são "apenas" cidadãos comuns. Não é que também não reconheça legitimidade em Mouta Liz (neste caso como cidadão em litígio particular) de ver reparados os danos à sua imagem e reputação, até porque nestes defendi sempre que cabe aos tribunais arbitrar, não devendo os jornalistas quando "apertados" por coisas que publicaram se fazerem de vítimas. A razoabilidade deve imperar.

A questão é que podemos hoje andar emprestados a outras variantes da comunicação e não só, porém não deixamos de ser cidadãos com consciência cívica enquanto jornalistas, ramo ao qual volta e meia retornamos. E nessa qualidade defendo que precisamos de um sistema de justiça/Direito eficiente, do mesmo jeito que precisamos de um jornalismo investigativo acutilante em defesa do interesse público e da justeza social, de uma sociedade civil ética e coerente. A democracia carece deste equilíbrio ou então perdemos todos e bem perdidos! Ainda era só isso. Obrigado Gociante Patissa | Luanda, 09 Setembro 2021 |
www.angodebates.blogspot.com imagem 2: Carlos Alberto (à direita), ladeado do actual secretário-geral do Sindicado de jornalistas angolanos, Teixeira Cândido (à esquerda) - arquivo Manifexto
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terça-feira, 31 de agosto de 2021

Monólogos (1)

Aquele agente, até, você como motorista lhe olha mesmo assim... não!, lho bate pala, sim senhora! Merece! É aquilo mesmo já que falam, quem sabe fazer bem o trabalho dele não complica. Ele assim tipo te mandar parar e pedir documentos?... Nunca! Ele fala me'mo: mô ndengue, eu n'um quero saber se roubaste o carro ou não, isso é teu problema você e com teu Deus. Me dá só a minha parte e vai à tua vida, não se atrapalha mais, mô ndengue; você mesmo sabe que tenho fome, você conhece a minha fome... Aí a pessoa lhe garante a parte dele, uns mili paus ou quê e tiras voado. Tás a ver? Esse é que é agente, não são os outros que fica a te complicar documento, taxa e no final vai te pedir saldo.

www.angodebates.blogspot.com (créditos da imagem: Anacleto Miranda)

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quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Agenda cultural


 

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segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Diário | DOS MESTRES E A LUCIDEZ A JEITO?

 “Meu jovem, tudo bem?”

“Tudo, sim, mestre. Muito obrigado, mestre. O mestre como vai?”

“Tem de ir, meu jovem, tem de ir. Esse país não dá muitas opções, sabes meu caro? Olha, nestas minhas andanças no insta chamou-me a atenção um texto teu assim muito pertinente... Muito bem escrito. Sintético, fácil de ler, actual e tudo mais...”

“Ah, aquele sobre O Andar da Carruagem, meu kota?”

“Esse mesmo! Meu puto, aquilo é de um alcance que faz a pessoa acreditar que temos jovens! Meu puto, é assim que tem que ser! Muito bem conseguido. É preciso não se acomodar...”

“Fico sem palavras mestre. Nem todos conseguem elogiar nós que procuramos lugar ao sol...”

“É de coração meu puto. Continua assim, está bem? O texto está tão bom que merece ser lido por mais pessoas. Posso partilhar? Mo envia então quando puderes, ya? São quantos parágrafos mesmo?”

“Já enviei, mestre. São só cinco parágrafos de quatro linhas.”

“Meu puto, recebi, o texto está mesmo muito bom. Só uma pequena sugestão, posso?”

“Claro, mestre, é uma honra melhorar com os conselhos dos gurus...”

“Estás a ver no último parágrafo, eu se calhar metia assim uma coisinha ali assim, tás a ver?”

“Tipo quê?”

“Tipo assim uma linha mais directa, sabes?”

“Aié? Está bem mestre. Tem razão.”

“No segundo parágrafo se calhar davas assim um retoque, sabes?”

“É isso, né, mestre?”

“Mesmo o título também, acho que falta ali qualquer coisa. Se quiseres posso te ajudar a refazer...”

“Né, mestre?”

“O parágrafo de abertura eu mexia um bocado. O leitor precisa de sentir O Andar da Carruagem...”

“Ah, ok. Com os solavancos e tudo? Está tudo aí, mestre, se calhar não fui claro...”

“Mas o texto está muito bom, meu puto, continua mesmo assim, está bem?”

“Certo, mestre.”

“Ah, e outra coisa, estás a ver o parágrafo quatro, acho que o três também, se calhar punhas um pouquinho mais de ênfase nos sintagmas. Abrias um pouco se calhar na linha de raciocínio...”

“Na problematização?”

“Isso mais ou menos. Como a ideia é sobre O Andar da Carruagem, talvez ver as variáveis. Então se é carruagem, o ónus recai ao maquinista ou ao passageiro ou a quem aprecia a paisagem? Será que bater nos actores com o signo da equidade colhe verosimilhança? O âmago está no ónus. Estás a seguir o raciocínio, meu puto?”

“Se é ânus de quem que está amargo, doutor?”

“Ónus, meu, ónus! Entendeste?”

“Bem, a palavra se calhar é filosofia, não entendi só lá muito bem. Mas é assim, mestre, se calhar vou escrever um outro texto, esse como já foi visto, fica só já assim, né?”

“Pois, se calhar é melhor. Mas continua, gostei muito do teu texto, está bem?

“Esse kota como é então? Será que um dia vamos aprender com isso dos mestres e a lucidez a jeito?

 

www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa | Luanda, 23 Agosto 2021

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sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Divulgação: Terceira edição da Flipoços discute Literatura e Educação no Brasil


Acompanhe a programação  DIA 25 DE AGOSTO – QUARTA-FEIRA  10h às 11h | Mesa "A metade do meu Enzo" - O que os pais separados deveriam saber antes de danificar o bem estar físico e emocional dos seus filhos. Uma conversa de pais para pais, com o autor Antonio Voorhees e a psicóloga infantil Barbara Martins. 

14H30 às 15H30 | Mesa "Carta de Cipriano: da fonte primária à rota literária" apresentação do livro Cypriano Joseph da Rocha: uma vida entre Portugal e o Brasil na Idade do Ouro, de António Andresen Guimarães. Com Priscila Moraes e Decio Zylberstajn. Mediação Thiago Bittencourt.   


16h30 às 17h30 | "Os super-heróis na sala de aula" com Leandro Ribeiro Nogueira e Lívia Jacob. Will Eisner, um dos grandes mestres das HQs, definiu seu ofício como “arte sequencial”, a fim de diferenciá-lo da literatura. Hoje, a fronteira entre as duas artes se mostra cada vez maisbranda, visto que diversas séries de livros dedicadas ao público jovem, a exemplo de Wild Cards (ed. George R.R.Martin) são inspiradas no universo das Hqs. 


18h30 às 19h30 | Mesa "Euclydes da Cunha: uma ponte para o sertão que virou mar" com José Huguenin. Oferecimento Nós Educação.   Toda a programação é gratuita e a transmissão vai acontecer na redes sociais do Flipoços (Youtube e Facebook) e com retransmissão nos parceiros: Nós Educação, Município de Óbidos (Portugal), Publishnews, The Book Company (Portugal), Elicer (Festival do Cerrado), Museu da Língua Portuguesa (SP), Resenhando e Secult Poços. 

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sexta-feira, 13 de agosto de 2021

PONTO D’ORDEM: O infinitivo do absurdo

 

Está cada vez mais chato ouvir os nossos locutores/apresentadores quando falam de improviso, não apenas pelas graves makas linguísticas/gramaticais, como também por conta de uma mania, que não se sabe bem porquê, a do abuso do infinitivo como muleta. As regras da clareza e da simplicidade na comunicação estão “cafricadas” por uma carrada de vaidoso infinitivo, um tanto incómodo.

 

1.     EXEMPLO DE MULETA ABSURDA NA COMUNICAÇÃO SOCIAL QUE ESTÁ NA MODA

 

“Bom dia, bom dia, caros telespectadores/ouvintes!

Dizer que estamos de volta para mais um programa para matar as saudades convosco… Agradecer o carinho da sua audiência. Salientar ainda que hoje vai ser um tema quente. Dizer que o nosso tema é sobre o subsídio de aleitamento materno. Dizer por outro lado que o doutor xxxx já se encontra no nosso estúdio para a conversa. Dizer que esperamos contar com a sua participação lá mais para frente para tirar dúvidas ou colocar questões. Lembrar ainda que os nossos terminais são os mesmos. Seja bem-vindo doutor. Agradecer a sua disponibilidade.”

 

2.     VERSÃO CLARA, CORRECTA E CONCISA SEM O INFINITIVO RUIDOSO E ESCUSADO

 

“Bom dia, bom dia, caro telespectador/ouvinte!

Estamos de volta para mais um programa e matar saudades… Agradecemos o carinho da sua audiência. Hoje vai ser um tema quente, é sobre o subsídio de aleitamento materno. O nosso convidado é o jurista xxxx e já se encontra no nosso estúdio para a conversa sobre a sua área de especialidade. Esperamos contar com a sua participação lá mais para frente para tirar dúvidas ou colocar questões. Os nossos terminais são os mesmos. Se preferir, também pode deixar mensagem nas nossas redes sociais.Seja bem-vindo, doutor, e muito obrigado/a pela sua disponibilidade.”

 

CONCLUSÃO: falar simples também é estilo, a moda do papagaio é que não. 

 

Gociante Patissa

www.angodebates.blogspot.com

 

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quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Criminalidade violenta no litoral de Benguela: RESTOS MORTAIS DO SEGURANÇA ASSASSINADO NO FIM-DE-SEMANA JÁ REPOUSAM NO CEMITÉRIO DO LUHONGO

Foi hoje a enterrar Victor Isaac Paulino 'Paizinho', 38 anos, o segurança assassinado por indivíduos até agora


desconhecidos, na noite noite de sexta-feira para sábado, 07/08, no seu local de serviço, uma fábrica de blocos situada no perímetro do PDIC (Pólo de Desenvolvimento Industrial da Catumbela), no bairro da Santa Cruz, imediações do estádio do Buraco, no Lobito.

Até ao momento, não se conhecem suspeitos nem as motivações de um crime que chama atenção pela elaboração da sua crueldade, contrariando redondamente a versão oficial. No noticiário ao meio-dia desta segunda-feira na Rádio Benguela, o porta-voz da polícia descreveu o homicídio como sendo resultado da acção dos meliantes que surpreenderam o segurança e roubaram um computador e uma câmara [de videovigilância], sendo que a vítima não resistiu à agressão e acabou por perder a vida no local.

Recorde-se que o corpo de Victor Isaac Paulino 'Paizinho' (na foto), que deixa viúva e quatro filhos menores, foi encontrado amarrado nos pés e braços, escondido do escritório da empresa. Quem por lá passou às primeiras horas de sábado, dia 07, fala de cenário de um filme de terror cuja hospitalidade morava nas marcas de sangue no chão e nas paredes, enquanto o corpo da vítima evidenciava bem a extrema barbárie sobre si descarregada, sobretudo na parte superior. No estaleiro, os criminosos abandonaram os objectos contundentes por eles utilizados, sendo uma alavanca de aço e uma tesoura para metais.

Já em termos de bens materiais roubados, a fazer fé no "inventário" do porta-voz da polícia, os ladrões só levaram o sistema de videosegurança ali instalado, que inclui um computador e uma câmara.

Natural do Monte Belo, município do Bocoio, província de Benguela, Victor Isaac Paulino, membro da IESA, era xará do primo materno do seu pai, Victor Manuel Patissa (meu pai).

A sua morte surge uma semana após a também trágica morte do filho de uma conterra nossa, a tia Deolinda Valiangula, assassinado na via pública no bairro Luhongo, município da Catumbela, crime este ainda não esclarecido.😪😪

Daniel Gociante Patissa, Lobito, 11 Agosto 2021
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terça-feira, 10 de agosto de 2021

POR QUE SANGRAM AS MÃES? (Poema inédito)


POR QUE SANGRAM AS MÃES? (Poema inédito)

 

(Para as mães do Victor Isaac Paulino ‘Paizinho’ e da Ivandra Vinez ‘Messita’)

 

Mãe nenhuma merece poema

Um só poema

Mãe 

Nem uma

Merece um poema

Um só

É pouco

A menos que sangre

A inspiração

 

O papel rasgado

Às tiras

Pegado

O que seja

Tesoura

Prensa

Guilhotina

Alavanca

Sangra a seiva

Da árvore

Que foi

 

É uma mãe 

Que indaga

Solidão pública

Encharcando o peito

Os peitos

Com o rio dos olhos

Porquê, meu filho, 

Porquê, minha filha?

Que mal, tão mal fizeste?

 

Mãe nenhuma merece poema

Um só poema

Mãe 

Nem uma

Merece um poema

Um só

É pouco

A menos que sangre

A inspiração

Oh mundo imundo

E os limites?

 

Gociante Patissa, Lobito 09 Agosto 2021 | www.angodebates.blogspot.com 

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domingo, 8 de agosto de 2021

Crónica | Chamou-se Paizinho, não carinhosamente. A ironia de um sobrevivente assassinado

Escrevo esta crónica na cama como quem se agarra à ilusão de embrulhar o dia capaz de afrontar a impotência que nos avacalha desde as primeiras do dia de sábado que ainda é hoje. É o máximo que posso nesse misto de choque e revolta instalado por tempo indefinido, até que se esclareça o guião da tragédia que desenhou a prematura partida, literalmente partida, do protector físico de 38 anos que atendia pelo nome de Víctor Isaac Paulino, (não carinhosamente) conhecido por Paizinho. Explico.

 

Quando em 1983, anos do partido único e guerra civil pós-independência, o interior ia completamente vulnerável aos ataques da guerrilha da UNITA/FALA que buscava reforço logístico e desmoralizar a administração do Estado (MPLA/FAPLA/ODP), o casal Isaac Paulino e Balbina (Luvina), conhecido pelo corpo esbelto e cabelos lisos, ganhava o primeiro rapaz de uma escadinha que ia na quarta contagem. Logo correram as artérias da comuna do Monte Belo para anunciar a homenagem a Victor Manuel Patissa, filho de Josefina Kanjala, irmã do pai de Isaac, Kalupeto. O menino foi sempre Victor até um acontecimento torná-lo improcedente. Sobre isso vamos devagar, que também já nada mais se salva. O interessado está lá na morgue, surdo ao pranto da viúva e a prole de cinco, né? Voltemos à memória.

 

Em meados da década de 1980, que eu chamaria a era dos primos, o que vigorou até à proclamação da abertura de mercado, Isaac Paulino era o pseudónimo comercial de Victor Manuel Patissa na comuna piscatória da Equimina, ao tempo em que os governantes não deviam ter negócios (na verdade todos procuravam precariamente empreender, bastava que por interposta titularidade). Com o cessar fogo alcançado em Bicesse em 1991 e a liberdade de mercado, a euforia toma conta, só se fala em regressar ao kimbo e recuperar as terras. Isaac nessa altura já só existia na recordação, a morte natural o havia arrebatado poucos anos antes, deixando o Victor criança sob tutela de Victor original.

 

Em 1992, de volta ao kimbo abandonado havia sete anos, Victor Manuel Patissa movimenta duas de suas esposas para o cultivo, acolhidas pela cunhada Adelina Mbali, que resistira à guerra ali. A coabitação entre as partes beligerantes era mais táctica do que pacífica, quer o governo, quer  a UNITA ostentavam exércitos. O nosso magro projecto agrícola complementava-se com pequenos negócios, fuba de milho em canecas e petróleo iluminante. Sobrava para mim, claro, essa parte, 13 anos nos cornos, noites de breu e farras. A parte boa é que foi no kimbo que aprendi a dançar um-dois-um.

 

Certa vez acordou-nos o apelo épico para ir à CPPA (comando provincial da polícia de Angola). Parecia cena arrancada dos filmes. Eram já nove da manhã e não havia sinal da comissão (conjunta ou mista?) de verificação. Pelo menos quinze agentes estavam rendidos por tropa da UNITA, farda verde oliva justinha à pele. Ao comandante fora aplicada uma careca. A tropa de assalto vinha de Amenlã. O incidente terminaria com a heróica  intervenção do capitão Tchakusanga, da 7.ª Região Militar das FALA, o qual de passagem para o Balombo exortou as partes à reconciliação. E tudo acabou em bem. Em nós ficou sempre a convicção de que a paz de 1991 resultara da derrota militar do governo. 

 

Por conta dessa volatilidade registada a faltarem três meses para as primeiras eleições gerais, o meu pai, pelo acesso privilegiado à informação político-militar, ordenou partirmos de volta ao litoral, no ar uma sensação de fuga pela segunda vez. Uma das precauções para os que ficavam foi omitir o nome de Victor, não fosse o menino sofrer purga. Foi assim que Victor Isaac Paulino ficou Paizinho.

 

Ironia, é esse Paizinho sobrevivente ileso das guerras e cirurgias de pedra nos rins que morre hoje nas mãos cruéis de assassinos ainda desconhecidos, no bairro que em parte lhe fez homem, Santa Cruz.

 

Gociante Patissa |Lobito, 07 Agosto 2021 | www.angodebates.blogspot.com


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TV-ANGODEBATES

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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