segunda-feira, 22 de março de 2021

Crónica | UMA NOVA GUERRA QUE O INTERIOR NÃO INTERIORIZA

Abracei no prolongado o convite do mano Lauriano Tchoia para conhecer Nambuangongo, Bengo


província, primeira região militar dos anos de Angola guerrilheira. Ia ser outra aventura sem compromisso. É como prefiro conceber as deslocações ao interior onde não se pode esperar muito em termos de alojamento e serviços. O turismo vale mesmo só como colírio para os olhos intoxicados da city.

 

Conforme a baixa cinzenta fica para trás, ganha lugar o verde incitado por uma chuva que procura desmentir os efeitos da estiagem, na ordem dos três meses, que já tanto empobreceu famílias e mercados. Cacuaco dilui as fronteiras de Luanda pela vívida clorofila, o verde da diversidade vegetal que se estende e é de encher os olhos.

 

Não tarda, é Caxito (podia bem ser Coxito). A capital da província abre as portas mas não se deixa atravessar em linha recta, tapumes e contornos vibram em nome de um programa de investimentos públicos que soa PIIM. Salta à vista a disposição de agentes da polícia num só local. Está explicado. Há manifestação e megafone. Jovens empunham cartazes por um Bengo mais desenvolvido, menos desvios de verbas e por um adeus à Mara, governadora.

 

Deve faltar pouco para chegar, diz-nos o faro, libertos de pesquisa prévia e do GPS. A estrada parece alongar-se de propósito, o serpentear por entre as serras é agravado pelas lombas no asfalto. De quando em vez preenchem o quadrante aldeões que inundam o mercado luandense de mandioca, kizaka e banana, também chineses e serviçais locais da exploração de inertes (alivia notar que ultimamente já não vão os orientais ao volante dos seus pesados camiões). 

 

Volvidas quatro horas chegamos a Onzo, paragem-mercado informal que faz cotovelo para Muxaluandu, comuna sede do município. Aguardam-nos mais 14 quilómetros, diz-nos, solícito, o agente regulador de trânsito (que não existe). A escassos metros, em lareira a céu aberto um comerciante tem dois macacos a assar, seus dentes cerrados. Um terceiro, rosto ensanguentado do procedimento que o neutralizou, beira o lume. Não faltam é clientes para degustarem nacos do nosso “ancestral” darwiniano. Mas logo me reprimo pela instintiva repulsa ao “canibalismo”. Ora, o que difere o macaco do boi e da galinha que degusto e bem?

 

Passamos por Kixiku e na memória a satisfação de trilhar a banda da banda musical Vozes do Nambua. Às 15h fazemo-nos a um quintal com ares de hospedaria, mais de 300 km. Está em obra, especulamos. Ao fundo um senhor, estômago avantajado e outras saliências mais, desmente. Quarto ainda temos. As condições são, digamos, enfim... A fome ronca, não há ali socorro. Somos orientados a ir à praça. E lá vamos nós. Funji de carne de gazela e kizaka. Fiquei-me pela kizaka.

 

Pela manhã, deixamos Muxaluandu onde nos foi vetada a foto de cliché com a Administração Municipal ao fundo. Tirem só na escola, também sai bem, instruiu o guarda em serviço, que à nossa chegada abandonara por uns instantes o posto para ir buscar a sua máscara, por sinal a única que constatamos em quase 12 horas que andamos pelo interior do Bengo. A pandemia da Covid é uma nova guerra que o interior ainda não interioriza, se é que já o fez.

 

Já em Cana-Cassala, 35 km mais para cá, o giro levou-nos à área residencial dos governantes. A um deles, que deduzo administrador-adjunto, perguntamos o significado do nome da comuna, no que foi humilde em dizer que desconhecia e recomendou-nos abordar a comunidade. Fiquei a pensar no que mais o governante não desconhecerá da localidade. 

 

Gociante Patissa | Nambuangongo, 21 Março 2021 | www.angodebates.blogspot.com

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terça-feira, 2 de março de 2021

LIVRA-ME DOS HERÓIS (poema inédito)

LIVRA-ME DOS HERÓIS (poema inédito)

 

Com a tua suprema licença, senhor,

Que te encontre de óptima disposição

Pois só boa, sou a recear, não bastará

Ao fim de tanto estertor

Pais mães indefectíveis servos rogando

Rogando, rangendo os dentes

Impotentes, humilhando-se pela tua glória

até ao último pingo do seu viver

E tu sempre sereno, senhor

Bem-aventurados os que temem por igual

a tua graça e a tua ira

 

Não te combato, senhor

Aliás, quem seria eu

Para além da culpa por herança

Rancorosa do Eden?

Prostrei-me, senhor

Os anos mais inocentes do meu existir

Havias de proteger os meus

Havia rumores de seres justo

Havias de compensar os teus servos

Muito mais não se te podia pedir 

 

Não sei se calejado pela sorte que me deste

Este alvará de tantos ver partir 

Já podemos indagar

Os teus embaixadores em terra não deixam

Quando foi mesmo que perdi a fé?

Porquê?

Na tua omnisciência lá saberás

És grande, talvez grande demais

Demais, demasiado

Excessivamente grande

 

Estás confortável na tua posição, senhor

Fico feliz por ti

O que contar é que não te falta

Como quem contemplou a escravatura

As guerras que perduram

Como perdura o diabo sobre o qual podes

Enfim, o bicho homem à tua semelhança

Em todo o caso, podendo, livra-me dos heróis

Dos corajosos, dos teimosos, dos super optimistas

Do surdo ocasional aos conselhos

Ainda quero viver

ainda que atrás de um açaime cirúrgico 

Que mal sabe dizer se é tecido de facto 

Amém 

 

Gociante Patissa | 2 Março 2021 | www.angodebates.blogspot.com

 

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

O JULGAMENTO DE 1983 (Fragmentos do conto publicado no livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES)


(…) Mbali e Citumba conversavam de tudo e de nada, para não variar, seus músculos celebrando o poder refrescante de uma involuntária quebra da suada rotina de ir ao rio de bacia à cabeça para acarretar água ou de enxada em punho transformando o chão virgem em promessa alimentar ou isso ou aquilo.

(...) Viviam um dia de paz e sossego se tais palavras aplicáveis fossem àqueles tempos, malditos tempos. Até que um homem que ao longe vinha, coxo, de casaco e panos e olondindi nos pés, de quem se esperava saudar, e saudou de facto, deixou as duas cunhadas com os nervos em ebulição. «Mbwatale, nãwã yange! Etali ndasanjuka!» Exclamou ele na língua Umbundu e numa voz projectada com volume e clareza su cientes, para deixar nenhuma sombra de dúvidas. E como traduzir não ofende, o homem disse «Boa tarde, minhas cunhadas! Hoje estou contente!» E continuou seguindo o seu caminho. Via-se-lhe ainda o sorriso rasgado. Parecia feliz mesmo. Que azar!
— A cunhada ouviu o mesmo que eu ouvi?
— Até estou a tremer de medo!
— Isso não pode ficar em branco, cunhada, só se eu não me chamo eu!
— A mim já não faltavam desconfianças. Mas hoje, finalmente, o malandro confessou...
— Mas ele não tinha mais outro caminho para passar?!
— Eu só me questiono: cumprimentou só porquê?!
— Aquilo lá um dia foi cumprimentar?!
— Isso não fica assim, cunhada! Esse homem tem de ser julgado no soba! Se estar contente já era grave, Kawenya tinha conseguido a proeza de pintar com rastilho de pólvora o caminho, desde logo pela estranha maneira com que saudou, com tamanho alheamento aos costumes mais elementares.
(…) O julgamento até já tinha data. O local dispensava indicações. A mais frondosa das mulembas junto da residência do soba é por vocação a sala de audiências, para alguns expediente desconfortável, por serem abertas ao público. Quer dizer, todos sabem de todos.
O soba, ciente do ingrato papel de deliberar sobre causas e temas que muitas vezes não teve a oportunidade de dominar, tinha a seu favor uma técnica infalível: deixar que todos exponham os seus argumentos, pedir a opinião da assistência e só então divulgar a sentença. A principal acusação tinha mesmo que ver com aquilo de andar contente, justo em 1983.
Quando se tem a opinião pública em mobilização crescente contra nós, todos os esclarecimentos só podem ser poucos. Como a estação chuvosa tinha sido fraca, a aldeia vestia-se de carência. Pirão de milho ou de bombó à mesa? Quanto luxo! O povo comia mesmo era pirão de batata-doce, sarcasticamente apodado de alcatrão, dado o tom castanho torrado. Para piorar os males, o frio tem o inóspito hábito de tornar a rama de batateira amarga, de sorte que pouco sabia para conduto. De mal a mal, o caudal do rio andava perto de seco, tornando impossível a pesca continental. O talho do velho Mango no começo até tinha alguma carne, mas só para os abastados, nada tendo de valor os demais (…)
Mbali foi a primeira a tomar a palavra:
— Este ano de tanto acontecimento, o pai Bernardo partiu a perna, a minha filha com pássaro, eu com tala, os kwatchas prometem novo ataque, agora que o pai Bernardo está aleijado, o único carpinteiro confiado em fazer caixões aqui na terra. E vem logo este homem dizer boa tarde, cunhadas, hoje estou contente?!
A assistência desatou aos apupos contra o acusado:
— Wôôô! Que vergonha! Um mais-velho, que devia educar, faz isso?!
— Esse homem é feiticeiro! — condenou Citumba.
— Antes que aconteça outro azar, o soba tem que julgar. Uma pessoa de bem, com tudo o que estamos a ver na comuna, com a lua inclusive a surgir envolta em nuvens de sangue, o frio a queimar as plantas, o homem vai dizer que tem tempo de estar contente?!
O soba viu-se forçado a endurecer a voz de mando para domar a assistência, já embalada numa onda de vaias que só vista. E dirigiu-se ao acusado:
— Ao saudar as suas cunhadas, você sentou-se, procurou saber como estavam a passar, saudou as crianças, como usualmente faz um tio do nosso seio?
— Não, papá. Escapou-me.
— Você sabe que as crianças foram proibidas de brincar zera (seja na escola, em casa ou mesmo no fundo da água), porque zera é saltar batendo palmas, e as palmas foram feitas para celebrar?
— Ouvi, papá.
— Você sabe que este ano não houve casamentos, porque não houve carne?
— Sim, sim, papá.
— Você esqueceu que a Mbali trabalha duas vezes na lavra para ajudar a cunhada, uma vez que o irmão foi cumprir uma missão na frente de combate?
— Não, não, papá.
— Ainda assim, o filho anunciou que foi a tempo de encontrar um ou outro motivo para estar contente?
— Sim, papá. Quer dizer…
Gociante Patissa, in O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, 2018. Editora Acácias, Luanda. Edição brasileira da Editora Penalux, Guaratinguetá, São Paulo, 2017
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Crónica | UM REI DO BAILUNDO À PORTA DA CADEIA E O DESTOAR DA ORQUESTRA

Há qualquer coisa de artificial na “torcida” contra a responsabilização criminal do cidadão investido há


uns anos no poleiro de Rei do Bailundo, de sua graça Armindo Kalupeteka ou Ekwikwi V. Segundo se ficou a saber, o Rei-juiz foi condenado por co-autoria na morte de um outro compatriota, alegadamente condenado no tribunal costumeiro sob acusação de ter enfeitiçado uma neta, sendo que a pena aplicada pela “corte”, cuja letra não foi publicada, fomentou o desfecho trágico numa república que aboliu a pena de morte. Seria ou não o Rei-juiz imputável pelas sentenças? 

 

Aí é que a meu ver está o artificial da coisa. Teríamos de partir do perfil das autoridades tradicionais na sociedade moderna, sua legitimidade, coerência e o âmbito do seu poder. É evidente que o poder real/tradicional não andará muito longe do decorativo, residual e vinculativo em comunidades rurais pouco escolarizadas, fruto do curso de uma ex-colónia antropologicamente corrompida, da guerra civil e dos interesses políticos dos movimentos de libertação. Paixões à parte, se quisermos considerar alguma coerência republicana estaremos de acordo a esse respeito. 

 

Qual é o papel dos sobas, sobetas, sekulus, reis e regedores do ponto de vista de voz junto do poder político nesta república que se assume democrática de direito? É facto que o poder real implica território, identidade etnolinguística, linhagem e discernimento. Hoje por hoje, praticamente a obediência a tais autoridades é facultativa, nalguns casos só sobrevivendo por conta do medo que as sociedades tradicionais têm do feitiço. Diz-se que poder é feitiço. Consoante se teme ou não, podemos ter um pai que obedece e um filho que manda lixar. 

 

Não entrarei nos elementos técnicos da coabitação entre a lei positiva e a lei costumeira, porque em meu entender é injusta a dupla subordinação jurídica só para alguns, se tivermos em conta que todos somos iguais e merecemos igual tratamento. Serão a filosofia oral, a idiossincrasia e o dogma da autoridade critérios bastantes para se fazer justiça? No Monte Belo, a título de exemplo, interior da província de Benguela, abundam casos de pessoas que morreriam sem nunca saldar a dívida que contraíram para pagar as multas pesadas que lhes foram na Ombala aplicadas pelo crime, imaginem!, de terem aparecido no sonho de alguém, o que serve de confissão de bruxos ou feiticeiros. 

 

O que me indigna é o activismo selectivo pela “soberania da cultura ovimbundu”, na tese de que o direito positivo se equipara ao costumeiro, carecendo de peso de hierarquia para responsabilizar uma autoridade tradicional. Como alguém alertou, o cidadão angolano morto, suposto bruxo denunciado pela própria família, não tem nome e direito à protecção pelo Estado angolano? Se foi condenado por crime de feitiçaria, não haveria de ser punido pela mesma via sobrenatural?

 

Enfim, as nossas rádios quase não tocam a música cantada em umbundu, mas isso não incomoda. O direito positivo ou civil não reconhece o casamento costumeiro, mas OK. O cidadão chega à licenciatura estudando a língua portuguesa desde a iniciação mas nunca as línguas nacionais bantu e pré-bantu, e isso não incomoda. Em visita diplomática aos órgãos de soberania, o soba ou rei ou sekulu, defendeu o Ismael certa vez, não tem direito a tradutor como têm as autoridades estrangeiras. 

 

O Estado desenterra decretos da era colonial e impõe a castração das consoantes e semi-vogais W, Y, K da toponímia e perpetua deturpação secular neste campo, mas isso não incomoda. A grafia das línguas bantu anda obsoleta, situação agravada pela existência de dois códigos, o convencional versus o católico, o que compromete a familiarização com as línguas e fomento da produção literária. Isso também não incomoda. A língua portuguesa, factor de unidade nacional, ainda não dialoga e o preconceito faz com que nas instituições oficiais tacitamente se proíba o uso das línguas (em rigor) locais e regionais, mas OK. Ora, se anuímos docemente que as línguas tenham estatuto secundário e se cada língua veicula uma cultura, custa aceitar que as práticas e costumes do mosaico que enriquece o território chamado Angola sejam secundários? Temos modelos que só recorrem às línguas africanas em contexto eleitoral, mas o que incomoda mesmo é que o Rei do Bailundo seja condenado caso apadrinhe sentenças que levem à morte de alguém. A soberania cultural mora só ali. E é fácil juntar-se a esse coro até que o “feiticeiro” da vez linchado seja alguém que amamos. KWENDA CIKAPALAMA!

 

Gociante Patissa | Benguela, 11 Fevereiro 2021 | www.ombembwa.blogspot.com 

Foto: DocPlayer 

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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Obrigado, Lázaro Bernardo Lázaro Dalas, pelos anos de partilha para solidificarmos as nossas ONG’s, vocês APDC forneceram o exemplar da Lei das Associações que permitiu elaborar os estatutos da AJS, aí em 1999. Pelas ONG’s cruzamos na actividade com crianças de Rua do Lobito com o mestre José Patrocínio Zetó (da Okutiuka-Apav e Omunga). Foste meu colega no segundo curso de Linguística/Inglês da então Universidade Agostinho Neto em Benguela, dependi da tua boleia no teu Atos preto para as idas e vindas à escola em 2006. Fomos vizinhos de bairro, tu no São João, nós no bairro Santa Cruz, o nosso Lobito. Foste um camarada de sorriso incorrigível, um conselheiro (que nem sempre ouvimos, claro 🙂 ). Tivemos em comum o estatuto de trabalhadores da Sonamet, tu no office, nós no estaleiro no início da década 2000. Gabava-me eu de ter sido o gajo que te forçou a deixar de fazer cábula, não porque duvidasse do teu potencial intelectual, mas precisamente pelo contrário disso (tanto é que nesse ano passaste directo sem ir a recurso). Estivemos juntos há três semanas, falamos ainda na sexta, o teu espírito optimista estava mais acelerado que a reacção do teu organismo. Sonhamos o que havia a sonhar, viveste na intensidade que a vida te permitiu. O único defeito que te aponto, e não te vou perdoar por ele tão cedo, foi o da morte prematura. Faleceu hoje, de doença matreira, o nosso mano professor de inglês e recursos humanos. Adeus, Mr. Dalas. Kwendepo ciwa! Ame wove!


 

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quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Crónica | O FILME DA MINHA SEGUNDA VEZ EM LUANDA

Perguntaram-me há dias sobre a primeira impressão de Luanda, que acaba de completar 445 anosOra, convém esclarecer que me estreei em luandices em Junho de 2001, recebido com eclipse solar e tudo. É a cidade da auto-estima. A cabeça erguida com que passam a cantar os pneus de carrões de última geração é notória no tipo do Starlet a cair de podre. E no trânsito, ninguém ofende mais ou menos a mãe do outro em função da cilindrada do seu motor e logo cada um segue, como diz o outro graças da Deus, a caminho da igreja.

 

Será a cidade que mais revela o meu lado trapalhão, a exemplo da segunda vez há 18 anos quando vim para o curso de pesquisadores de grupos focais num estudo sobre a disposição dos angolanos em relação às eleições que se cogitavam para dois anos após o fim da guerra.


Fiz o vôo de uma hora e vinte minutos de Benguela a Luanda com a concentração dividida. De um lado o livro cativante que lia, de outro a ânsia do reembolso dos USD 110 que investi na passagem da avioneta. Desembarquei às 9h00 no terminal da Sal com aquela pressão no ouvido e que obriga a apertar as narinas com a ponta dos dedos para desentupir. 


Ainda no aeroporto 17 de Setembro, o amigo Florêncio André, da TPA, pede-me para entregar aos estúdios centrais cassetes de vídeo, matéria urgente para o telejornal. Ia negar?! Um favor à comunicação social era investimento no quadro das relações públicas.


Bagagem recolhida, tirei da agenda o contacto que me fora fornecido pelo mestre cabeçudo Zetó José Patrocínio. De um telefone público liguei para o NDI (Instituto Nacional Democrático), ONG americana dirigida por Isabel Emerson. Desculpa, mas deve ser um engano. Não é, venho da parte do projecto Omunga, sou líder da AJS (Associação Juvenil para a Solidariedade), parceira na Rede Municipal da Criança de Rua do Lobito. Senhor, a reserva está em nome da Sra. Manuela Costa. Pois, estou a substituí-la, o Zetó já tratou disso. Deixa ainda consultar. Um minuto depois: É como disse, não há mesmo como te acolher.


Só me restou comprar o regresso no vôo das11h00. Raiva, frustração e humilhação mesmo povoavam. Não tinha telemóvel nem havia telefones nos escritórios, quanto mais e-mail para tirar satisfações com o mestre. A agravar a aflição, dois companheiros de viagem para quem transferi o favor da TPA não aceitaram e lá regressei com as cassetes pensando nas consequências ao repórter por sabotar o telejornal.


Posto em Benguela, diz-me o Zetó que fora um equívoco do pessoal logístico. Andava estafado da altitude, desmoralizado pelo USD 220 perdidos. O outro vôo sairia às 15h00. Coloquei todas as variáveis da equação na mesa. Contratos com ONG internacionais aquilatavam sempre o CV, um sonho de fundadores de ONG locais para injectar capital e alicerçar parcerias. Por último, o contrato seria de USD 550, pelo que para quem já perdeu, engolir o sapo e encaixar USD 330 era a melhor opção. Às 16h45 recebia as boas-vindas do senhor Domingos, de Land Cruizer, que ajudou a ver a maka da TPA.


Creio que a formação se passou, coincidentemente com a de 2001, no quintal do INAC, ao Kalemba 2. Fiz dupla com o Vadinho Silvério Santos, da Okutiuka, que foi o primeiro a chegar. O aprendizado correu animado, graças também ao sentido dramático e cómico de Augusto Santana, o número dois, ligado à ONG nacional NCC (National Counselling Center) e a algum pessoal das artes cénicas, falo da Nela do grupo Julu.


O senhor Domingos, motorista, na sua generosidade levou-me em dia de folga a passear à sua banda, Viana, a bordo do Corolla bolinha já idoso sem ar condicionado. Foi um choque. Nunca me advertiram tanto na vida contra o risco de sofrer assaltos. LEVANTA O VIDRO! TRANCA A PORTA! CUIDADO!


Gociante Patissa | 28 Janeiro 2021| www.angodebates.blogspot.com

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segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

O que nos diz o segundo lugar ganho pela extrema direita na diáspora portuguesa Angola?

Segundo dados partilhados pelo amigo Phil Nelo, nas aleições presidenciais portuguesas o candidato da extrema direita, André Ventura, foi o 2.º mais votado em Luanda com 109 votos, contra os 281 do “aconchegante” Marcelo Rebelo de Sousa. Em Portugal o controverso líder do CHEGA ficou em 3.º lugar. Que ilações se podem tirar deste indicador, sobretudo da expressividade da extrema direita na diáspora portuguesa cá?

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sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

PRIMEIRO POEMA DE GOCIANTE PATISSA TEM 25 ANOS

Esta réplica que data de 1998 ilustra o texto que pode ser considerado o primeiro da caminhada do benguelense Gociante Patissa, recitado em Abril de 1996 no Comboio da Amizade, programa infanto-juvenil da Televisão Pública de Angola (TPA) Benguela, ao qual é dedicado. O convite para frequentar as gravações do programa no recinto do Museu de Arqueologia, na altura sob realização de Ladislau Fortunato, dava sequência a um encontro fortuito ocorrido em Julho de 1995 na Vila da Catumbela, na qualidade de aluno do terceiro nível da Escola dos Bambus, 16 anos, tendo sido cooptado depois para guia da equipa de reportagem e para uma entrevista e um concurso de quem comia o gelado mais rápido, o qual como bom pobre materialmente falando venci, não fosse o luxo cair em mãos alheias. E na primeira vez que lá estive e sondando o puro ambiente, concluí que um poemazinho seria bem acolhido, e foi. Levei a amiga e colega Mariana Pascoal Manuel "Yana", filha dos profs Henrique e Victória. As nossas condições só davam para fazer de comboio a ligação Lobito-Benguela. Destacavam-se na equipa de apresentadores do Comboio da Amizade os irmãos Cabral (Márcio e Izenaida), a Anaína Lourenço (mais tarde minha protectora), a Yola Poças, a Arminda, a Núria Pinto, a Rossana Victor. Seguiu-se depois uma arrojada contribuição minha como comediante, poeta e repórter desportivo estagiário (actuei, se bem me lembro, uma vez a entrevistar meninas do andebol do Electro, ao tempo da Alzira Tavares "Zizi", e outra com os putos do karaté do Estrela Clube Primeiro de Maio. A nossa desgraça na altura era cruzar com o escritor Raúl David, que consumia praticamente o espaço de antena tão ansiado pela turma, afinal só se tinha 28 minutos para todas as rubricas. O Tony Kangandjo, ajudante de pedreiro da Tecno-Hossi, era quem me emprestava os ténis para fazer bonito, logo eu o filho de um membro do governo (administrador comunal da Kalahanga) porque não tinha mesmo calçado, exceptuando um par de ténis alvo de bullying, de sola furada e com os dedos beijando o chão. Nessa altura frequentava já o primeiro ano do Puniv no Lobito, sendo que em 1997 desisti de tudo, da TPA e da escola, para frequentar o curso de pedreiro no IED, que pagava de subsídio 25 USD, o que cobriria a título de exemplo o salário de dois professores. A ligação ao jornalismo ou o bicho da comunicação social nunca morreu, tampouco o da literatura, pois com o João Filipe Paulo, filho da tia São Kalukembe, também do subúrbio do Lobito, bairro Santa Cruz, escrevíamos casos difíceis ao estilo brasileiro "Você Decide para o espaço conduzido por Kieza Silvestre na Rádio Lobito, o que viríamos a cancelar a partir do momento em que continuaram a ler os nossos casos ficcionais mas sem mencionar os autores. Nessa altura era colega de escola do Eduardo Chingole, estagiário de locutor infanto-juvenil da Rádio Lobito, com quem trocava noções. Essa façanha ocorreu entre 1995-1997. De sorte que mais uma vez reafirmo, não há separação entre literatura e jornalismo/comunicação no cidadão Daniel Gociante Patissa. Ainda era só isso. Obrigado.

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quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

[vídeo] MAAN - Textualidades com o escritor angolano Gociante Patissa

MAAN - Textualidades com escritor angolano Gociante Patissa 
Memorial António Agostinho Neto, Luanda. Moderação de Cíntia Gonçalves (homenagem gravada no dia 27 de Fevereiro de 2020)
#gociante_patissa #cintia_gonçalves #literatura_angolana 
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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

APÓS 21 ANOS, UNIÃOS DOS ESRITORES ANGOLANOS REEDITA GAZETA LAVRA & OFICINA

A União Dos Escritores Angolanos (UEA) faz saber aos amantes da cultura e ao público leitor em geral que a Gazeta Lavra & Oficina volta a circular, estando previsto o seu lançamento para esta


semana, em edição especial inserida nas comemorações dos 45 anos de existência da mais antiga Associação cultural do país, fundada a 10 de Dezembro de 1975 e que teve como primeiro Presidente da Mesa da Assembleia o político e médico António Agostinho Neto.

O regresso da Gazeta Lavra & Oficina, o veículo de informação Artes e letras da UEA, de distribuição gratuita, vem colmatar um vazio que prevalecia desde 1999, altura em que foi suspensa a sua produção por conta das limitações financeiras que se viviam.
Mais esclarece a UEA que apesar de a situação financeira que a agremiação vive actualmente não ser das melhores, conta com o recurso às tecnologias de informação e comunicação, pelo que numa primeira fase a Gazeta Lavra & Oficina vai circular no formato eletrónico (PDF), enquanto se mobilizam apoios para custear a sua impressão. Terá uma periodicidade bimestral.
Esta primeira edição da terceira série da Gazeta Lavra & Oficina tem como tema «incertezas e resiliência», por influência do contexto desafiador que há um ano assola a humanidade. É um tributo à palavra e à memória enquanto tradutores de sentimentos, aspirações e herança, prestando também uma singela homenagem a quatro poetas falecidos nos dois últimos anos, designadamente António Panguila, Frederico Ningi, Jimy Rufino e António Gonçalves.
Com mais de 30 páginas, a edição especial da Gazeta Lavra & Oficina traz depoimentos exclusivos de escritores e intelectuais com papel activo no processo de afirmação do País cultural, não abdicando da tradição de canal de intercâmbio entre consagrados e novos valores.
Criada na década de 1970 (do século vinte) no calor do surgimento da União dos Escritores Angolanos, a Gazeta Lavra & Oficina teve como precursores os escritores e jornalistas David Mestre, Carlos Everdosa, Ruy Duarte de Carvalho, Antônio Jacinto e Luandino Vieira, sendo o seu último Editor o escritor e ensaísta Luis Kandjimbo.
Em nome dos membros e da equipa da Gazeta Lavra & Oficina, venho por este meio formular votos de continuação de boa quadra festiva e um 2021 próspero.
Luanda, 28 de Dezembro de 2020
__________________
David Capelenguela
Secretário-Geral
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terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Ensaio | SITUANDO PATISSA, UM SIGNO DE RESILIÊNCIA NA LITERATURA ANGOLANA

Fernando Tchacupomba (*)


 

Gociante Patissa faz parte de uma nova geração de escritores cujas preocupações sociais e estéticas demarcam-se daquelas que foram invocadas pela geração de 40 , chamada também de Mensagem, ou ainda a geração de 80 , apelidada por Kandjimbo como a geração das Incertezas. 

 

Se  analisarmos a sua geração do ponto de vista da periodização da nossa literatura, podemos catalogá-la numa fase que se caracteriza pela procura da consolidação do fenómeno literário em Angola, este decerto parece-me a tarefa árdua, mas também a responsabilidade principal  desta mais novíssima elite cultural e moderna de intelectuais angolanos, é a geração do pós 4 de Abril que transporta na sua escrita a realidade sócio-histórico-cultural que vive ou viveu a sociedade Angolana, propondo uma leitura do quotidiano partilhado com o leitor.  Nesta perspectiva, a abordagem de Patissa e da sua geração diferencia-se daquelas abordadas por escritores doutras gerações. Compreendendo a Geração de Patissa. 

 

Chamamos de Geração Pós-Conflito aquela composta por novos intelectuais ou escritores que se lançaram no mundo da escrita entre o limiar da guerra civil e o logo após a guerra. Esta geração goza do privilégio de viver este dois momentos da sociedade angolana, isto é, a guerra e a paz. E como o escritor,  seja qual for a geração, tem o compromisso com a verdade, então esta  retrata a realidade social angolana através de engenhos artísticos e estéticos que se demarcam de outras como afirmámos acima. Dentre as várias preocupações sociais abordadas por esta geração destacamos as seguintes: A guerra e as suas principais consequências, as desigualdade social, a sorrupção, o resgate dos valores morais e culturais, a burocracia e a alienação.

 

São estas peripécias que vive esta geração e surge como uma inconformação através dos seus escritos, por isso, sugerimos compreender o nosso autor não longe desta realidade social que o circunda.

 

Patissa e Obra

 

É um escritor benguelense que tem vindo a tomar grandes passos na instituição literária angolana. Caracterizamo-lo como uma figura resiliente na medida que apesar de estar a viver-se em Angola uma grande crise do Livro ou até mesmo na literatura angolana devido o pouco apoio neste sector e também da falta de leitores, tem vindo a publicar e a ganhar leitores. 

 

Tem contribuindo grandemente como incentivo de vários jovens que pretendam mergulhar neste mare Magnum que é a literatura, criando um espaço de oficina literária no seu blogs, por exemplo. Tem tido um papel fulcral na divulgação da cultura e língua umbundu, um aspecto muito visível na sua obra.  

 

Patissa lançou-se precisamente no mundo literário com uma obra poética Consulado do Vazio . Se considerarmos este ano como o seu nascimento enquanto artista das letras, podemos considerar que tenha mais de 10 anos de escritor e durante este percurso publicou cerca de 8 obras e nestas verificamos um certo equilíbrio na forma de pintar os textos, isto é, publicou tanto contos como poesia. Além das obras também participou em várias antologias nacionais e internacionais. Abaixo a sequência de obras publicadas: 

 

Consulado do Vazio (poesia), KAT editora. Benguela, Angola, 2008. 

. A Última Ouvinte ( contos), União dos Escritores Angolanos. Luanda, Angola, 2010. 

. Não tem Pernas o Tempo (novela), União dos Escritores Angolanos. Luanda, Angola, 2013. 

. Guardanapo de Papel (poesia), Nós Somos. Vila Nova de Cerveira, Portugal, 2014. . Fátussengóla, O Homem do Rádio que Espalhava Dúvidas (contos). GRECIMA. Programa Ler Angola. Luanda, Angola, 2014. 

. O Apito que não se Ouviu (crónicas). União dos Escritores Angolanos. Luanda, Angola, 2015. 

. Almas de Porcelana (poesia resumida). Editora Penalux. São Paulo, Brasil, 2016. 

. O Homem Que Plantava Aves (contos). Editora Penalux. São Paulo, Brasil, 2017.  

. Um olhar a obra a Última Ouvinte . 

 

O conto A Última Ouvinte – União dos Escritores Angolanos, 2010 - dá nome ao segundo livro de Patissa. Como uma questão de preferência, vamos comentar apenas esta narrativa. Numa linguagem com pouca influência do coloquial, Patissa traz-nos para reflexão a figura Caçule que representa boa parte dos jovens da década de 90. O nome Caçule, recebe-o a partir dos 9 anos  quando entra no exército da FAPLA. 

 

Uma prática muito frequente na sociedade daquela altura, fazendo com que muitos jovens adiassemos seus sonhos para ir a guerra. Ademais, denuncia igualmente questões ligadas a corrupção e o suborno. Tudo isto demonstra um certo inconformismo ante a estas situações e que este conto acaba por ser uma intervenção. Há durante a narração uma frequente a corrência aos provérbios da língua Umbundu  e, como já afirmámos, a linguagem no texto é pouco coloquial, ou seja, as falas das personagens do conto são influenciadas, uma característica pouco comum na nossa literatura, uma vez que uma boa parte dos nossos contistas, nas falas do discurso directo, usam a linguagem coloquial, ou melhor, apresentam a nossa realidade linguística de forma nua e clara. 

 

O homem que Plantava Aves . . Uma obra publicada no Brasil pela Editora Penalux e mais tarde em Angola pela Editora Acácias. É coleção de 15 contos, mas nós, igualmente a anterior analisaremos apenas o conto que dá nome ao livro.   O conto traz-nos para reflexão a questão da nomeação segundo a nossa cultura. Tradicionalmente o nome é dado em função das circunstâncias, um valor que hoje parece que se perdeu (... tendo uma infância bastante doentia, ficando a sua sobrevivência a preces de medicações à base de raízes ... Lumbombo ,sinónimo de raiz. Pág 22). 

 

Como já falámos, Patissa é um activista cultural e este aspecto é visível em toda sua obra, uma vez que com frequência faz recurso a provérbios umbundu. Neste conto, por exemplo, leva-nos a refletirmos sobre um valor que vai se perdendo: o cumprimento da palavra. Para isso, usa duas figuras,  um devedor e um devido. O primeiro representa o tipo de pessoas que passam por cima de pessoas aparentemente mais fracas, como é o caso de Lumbombo, o devido, que por ser deficiente julgou-se que fosse incapaz. Esta reflexão é clara na medida que mostra que a dignidade humana não  está no físico, mas sim no espiritual,(Não é com pernas que corremos, é com pensamentos. Pág. 25). 

 

(*)  Fernando Tchacupomba é pseudônimo de Fernando Tchicolomuenho Inácio Tchacupomba,  nasceu no dia 06 de Julho de 1998,  no município do Lobito, província de Benguela, é aspirante a escritor,  estudante do curso de Ensino do Português e Línguas Nacionais no Instituto Superior Politécnico Jean Piaget de Benguela, é co-fundador da união dos Escritores do Instituto de Ciências Religiosas de Angola, ICRA Regional de Benguela, onde fez o Ensino Médio em Educação Moral e Cívica e Língua Portuguesa; Professor de Literatura no Colégio Adventista Ebenézer, faz parte do movimento de sonetista, poesia bucólica e pastoril Arcádia. Fernando é um publicador activo no site brasileiro Recanto de Letras.

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terça-feira, 22 de dezembro de 2020

CONTRA O PLÁGIO, PELA ORIGINALIDADE - Adriano Mixinge

Jornal de Angola, 22.12.2020


Desde a noite de quarta-feira passada até agora, a notícia que nos abala corre como a pólvora: Paulo Cantareli, um autor brasileiro até então desconhecido para muitos de nós, publicou o texto “Lourenço Mussango, o plagiador de Angola”, no muro da sua página do Facebook.

No libelo de Cantareli, ele apresenta o que diz serem provas de que o seu conto “Serena”, publicado no livro “Recifenses” (Edições Mondrongo, Bahia, 2019), foi plagiado pelo autor angolano no conto que dá título ao recém-publicado livro “A Mulher Infinita” (INIC. Luanda, 2020), vencedor do Prémio António Jacinto, deste ano.

Por isso, este é um texto ingrato, desta vez, escrito pela pior das razões que poderia ter para escrever um texto: o escrevo por uma questão de responsabilidade, uma vez que escrevi o prefácio do livro.

Não importa se é um estreante, um autor com obra publicada ou, até mesmo, um escritor consagrado: quando aceitamos ler o livro que alguém nos dá e assume que é seu, a priori, não temos motivo para duvidar de que cada personagem, ideia e construção argumental e imaginária não o sejam.

Lemos os manuscritos com a melhor das intenções, desfrutando, reflectindo e pode acontecer que, ao contrário do que muitos pensam,podemos nem concordar com algumas das ideias do livro, sobretudo quando se tratam de pesquisas ou de ensaios, por exemplo.

Este não foi o caso do livro sobre o qual nos estamos a debruçar: “surpreendente, atrevido, crítico e elegante” foram alguns dos adjectivos utilizados no prefácio do livro de que faz parte o conto

posto em causa.

Porém, o texto de Cantareli é contundente. Ele apresenta cinco

dados para provar o que afirma, a saber:no seu conto tem uma personagem cujo nome é Zé Moreno e no de Mussango, a personagem chama-se Zé Gordo (1); no conto de Cantareli, Lampião é recebido por uma família, no de Mussango é um Nacionalista a quem uma família recebe, em circunstâncias similares (2); tanto no de Cantareli como no de Mussango há uma cena em que um mais velho diz exactamente as mesmas palavras(3); o conto de Cantareli fala de coiteiros – uma palavra do nordeste brasileiro que, por não ser muito utilizada entre nós, recordo ter consultado o dicionário à primeira vez que a li- e no de Mussango, a mesma palavra também aparece, o que provoca estranheza, não obstante o eco nas telenovelas brasileiras entre nós (4); no conto de Cantareli aparece um miúdo que é posto dentro de um saco e que vê tudo a partir de um buraco que o saco tem, no conto de Mussangotambém (5).

Entretanto, há ainda uma história (paralela coincidente) por esclarecer sobre a hipótese de que, na origem do plágio estejam circunstâncias mais escuras, que implicam uma terceira pessoa, a quem piratearam a sua conta desde sites e números brasileiros, um baile de datas sobre quem postou antes e a possibilidade de que excertos do conto em questão (não necessariamente os excertos que provariam o plágio) tenham sido publicados nas redes sociais, antes mesmo de Paulo Cantareli ter publicado o seu livro.

Mas, até ao momento em que escrevo esta crónica, não há provas que corroboram a hipótese de que, concretamente, o autor angolano tenha publicado antes o seu texto em livro ou que ele próprio o publicara nas redes sociais. Pelo contrário, quem publicou primeiro o seu livro foi o autor brasileiro, isso está provado.

Ou seja: tudo indica que houve plágio, mas, o tipo de plágio (parcial ou conceitual, já que excluimos o auto-plágio e o plágio integral), quem fez a quem e em que grau, lugar e circunstâncias ele aconteceu, essa é matéria que, para além do juízo moral e público dos leitores, ou regulamentar de quem organiza o Prémio António Jacinto, muito desejamos que quem acusa os prove em tribunal, onde, de certeza, a questão dos direitos de autor estará no centro da disputa.

Quando um escritor, músico e ou académico é plagiado e decide identificar, denunciar e demonstrar, publicamente, quem é o plagiador antes mesmo de transitar em julgado, a simples suspeita de plágio desencandeia já o juízo moral, social e mediático fulminante sobre o presumível criminoso. Quem for acusado de plágio fica condenado a passar a sua via-crúcis, o que, de certeza, marcará a sua trajectória, definitivamente.

Não importa o número de contos que o livro tiver, mesmo que for tão-só num conto, um plágio é um plágio: do que se trataria é da desonestidade do acto criativo que, caso se venha a provar em fórum próprio, não se executou com lisura. Em face disso, a percepção social dos potenciais leitores, a respeito do livro e do seu autor, muda radicalmente: a suspeita de plágio, se for razoável, fulmina o suspeito.

A graça, prazer e elevação do trabalho de ser escritor residem no facto de se tentar ser original. Quem não estiver disposto a fazer este esforço convém ir fazer outra coisa, na vida.

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TV-ANGODEBATES

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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