sábado, 19 de outubro de 2019

OFERTA DE LIVROS DIGITAIS ESTE FIM-DE-SEMANA

Deixe o seu e-mail ou whatsapp no endereço patissagociante@yahoo.com e receba até domingo PDF de dois livros já esgotados do escritor angolano Gociante Patissa:
1. A ÚLTIMA OUVINTE (contos, UEA 2010);
2. FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS (contos, GRECIMA, 2014)

NOTA: A divulgação é não comercial que faço por esta via, pelo que, em caso de a versão digital interessar a algum leitor que conheça, esteja à vontade em partilhar.
Ainda era só isso.
Obrigado
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terça-feira, 8 de outubro de 2019

Crónica | MESAS VAZIAS

Algumas vezes ao mês quando o fim do mês
deixa, damo-nos ao luxo de comer fora, poderia ser para poupar o gás lá da cozinha de casa. Quem fala do gás não estará de modo algum a referir-se à preguiça de enfrentar a pilha da rotina de lavar a loiça, cozinhar, encher o papo e ter de lavar de novo o que ainda há poucos instantes esteve reluzente. Bem vista, a loiça partilha a ingratidão da barriga, a qual passamos a maior parte da nossa existência a alimentar mas nunca agradece. Calhou o domingo. Depois de meia hora de caminhada sob o sol, faço-me ao destino. Primeira etapa da peregrinação vencida. Vai faltar é o regresso. Geralmente é a parte mais trabalhosa, caminhar de barriga cheia mas... haverá tempo para se pensar nisso. No restaurante, sala cheia. Cheia de mesas vazias e pessoal de serviço. De clientes mesmo, assim contando, apenas dois, um deles sendo eu. Som ambiente bom, sinfonias e acordes sem voz humana. Depois passa o carrinho das encomendas. O pargo, distante de pesar meio Kg, do tamano de dois caxuxos pelos quais em Benguela nunca pagaria mais de mil kwanzas, mesmo até lhe adicionando o orçamento do que é obviamente necessário para completar o tempero, sai a 13 mil kwanzas. Só o peixe com uma meia dúzia de rodelas de batatas, não entrando nas contas o couvert, a sopa, a bebida, enfim. Lá no fundo, a pergunta é inevitável: mas esse peixe assim foi apanhado em alto mar pelo príncipe Harry ou por aquele do Dubai?! Ps: fiquei-me pela alternativa mais acessível, o peixe roncador, mas não deixei de me enganar quanto à quantidade de batatas. Taxativamente quatro. E pronto. Até ao próximo fim do mês. Ainda era só isso. Obrigado Gociante Patissa, Luanda, 06 Outubro 2019 | www.angodebates.blogspot.com
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domingo, 6 de outubro de 2019

UM "CLUBE DO LIVRO" QUE AFUGENTA LEITORES

Nas bombas de combustível da Chicala, Luanda, encontrei há pouco um exemplar do já "esgotado" livro de contos FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPAL


HAVA DÚVIDAS, de Gociante Patissa (2014). Último exemplar. Mas o sabor agradável da surpresa do reencontro teve pouca dura. Custa acreditar que um livro pago (produção e direitos autorais) na totalidade e custeado pelo erário esteja a ser redistribuído por um tal de clubedolivro.co.ao ao proibitivo preço de capa de 3.125 Akz, contra os 500 Akz sonhados pelo projecto LER ANGOLA, das coisas boas do extinto GRECIMA. O lucro é de mais ou menos 600%. É bom recordar que a iniciativa fora concebida e financiada para promover o acesso ao livro através da subvenção, com o preço de capa de 500 Akz, ficando a distribuição a cargo da Textos Editora (grupo Leya), que embolsava 15%, salvo erro, 25% para a rede de mercado Kero, que vendia os livros, restando 60% para o autor. Aos entendidos no metier, fica a dúvida: haveria alguma hipótese de se aplicar a regra dos preços vigiados?😭😭
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Poema inédito | A PAZ PERDEU O MEDO

Sádicos são bonitos
na verdade já senhores
de motos sem destino
ou fundo algum de necessidade
que nos rasgam a calada da noite
roncando, roncando, roncando
Trompete trágico
dos escapes
vibrantes abastados
possante passante possante passante
e, não satisfeitos pela proeza,
castram o sono pela manhã
coxo, coxo sono
cedo, cedinho, cedinho
para o mesmo deleite
maroto marginal
disparar os alarmes
do comercial banco
e da manada de topos de gama
que adornam a avenida
nas barbas da guarda presidencial
a paz é que perdeu o medo
ueon, ueon, pin, pin, piu, piu
possante passante possante passante
para o mesmo deleite
maroto
disparar os alarmes
É que a pedagogia
aquela
do Dombe Grande já era
do feitiço, como do amor, o mesmo
Tanto se fala sem se ver.
Gociante Patissa | Luanda, 06 Outubro 2019 | www.angodebates.blogspot.com
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Opinião | Flagrantes de auto-sabotagem no sector do livro em Angola

Depois de já ter denunciado neste espaço a especulação na revenda de livros subvencionados, com o meu livro de contos Intitulado FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS (2014), por um tal de Clube do livro que estipulou o preço de capa da 3125 kz, contra os 500 kz oficiais, volto a bater na tecla.
É que ontem, numa livraria vizinha da ex-Stromp, ali pela Maianga, em Luanda, escandalizei-me com o preço de 4 mil Kz praticado para o livro "UANGA-Feitiço", de Óscar Ribas (2014), edição da colecção "Clássicos da Literatura Angolana", projecto LER ANGOLA, do extinto GRECIMA, iniciativa governamental adstrita aos serviços de apoio ao Presidente da República cessante. Tratou-se de uma iniciativa em que o Orçamento Geral do Estado custeou as despesas de produção, distribuição, promoção e joias autorais na sua totalidade.
Ora, numa sociedade que carece de massificar a aproximação do livro com o leitor, ver um agente livreiro que adquire o exemplar subvencionado a 500 Kz para o revender ao repelente preço de 4 mil kz, num lucro de 800%, excelências, quando o livreiro não tem sequer de deduzir contrapartidas nem com o autor nem com o editor nem... concluí que temos entre nós auto-sabotadores e que o fomento dos hábitos de leitura é para todos os efeitos uma causa perdida. Ainda era só isso. Obrigado
Gociante Patissa
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Última hora | PRESTAÇÃO DE CONTAS


ATT, colegas "mecânicos" da 3.ª OFICINA LITERÁRIA, há motivos para ficarmos contentes. Chegou hoje do nosso Editor, em Portugal, já bem bonito e tudo, o MIOLO/PROVA da nossa COLETÂNEA DE POESIA E CRÓNICAS em formato paginado (de livro) para cada um confirmar se o conteúdo está conforme. Devo recordar que sob vossa procuração, estou a representar-vos enquanto organizador, mas que os direitos da parte autoral, embora me sejam formalmente atribuídos, devem na verdade ser entendidos como património intelectual equitativo de cada participante. Continuando. Posso enviar por e-mail e receber as vossas contribuições até 2.ª feira às 12h? É que temos de agir com celeridade para ver se ainda este ano segue para a impressão. Ainda era só isso. Obrigado
Gociante Patissa
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sábado, 31 de agosto de 2019

Pintor brasileiro expõe culturas angolana e afro-peruana em Luanda


O artista plástico brasileiro, Klaus Novais, inaugurou nesta quinta-feira, 29 de Agosto, no Centro Cultural Brasil Angola (CCBA), sito no Bairro dos Coqueiros, em Luanda, a exposição intitulada "É de Lá", que reúne 50 quadros com retratos, recorte de jornais e paisagem, num olhar estético centrado na sociedade angolana e na cultura afro-peruana.

O acto foi prestigiado pelo Embaixador do Brasil em Angola, Paulino de Carvalho Neto.

Klaus, que usa técnicas mistas com predominância do acrílico sobre tela, tem uma folha de serviço rica no campo das artes, com passagem pelo teatro e no cartoon. O também escritor, com obra publicada e um romance na forja, é dono de uma sensibilidade que se foi apurando com a exposição a diferentes choques culturais e sociais que começam em São Paulo, sua terra natal, passam por Peru, Portugal e por fim Angola.

A exposição fica patente até ao último dia de Setembro e ao contrário do habitual, quem lá esteve na noite da inauguração voltou para casa sem saber o preço das obras, uma espécie de caricato positivo. É que para o artista, este "pormenor" não foi ainda pensado, tendo preferido concentrar toda a sua energia na criação e preparação da inauguração como tal.
(Nas fotos, os amigos com o pintor de quem se fala: Paulo, Fernanda BandosGociante Patissa)

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domingo, 18 de agosto de 2019

Poema inédito | DECLARO-ME CULPADO

DECLARO-ME CULPADO

Que sinais pintas
no céu cinza, ó porvir? Estás
ali?
Propuseste este precipício e
eu respondi "pronto!"
É para mergulhar
de cabeça ou com os pés?

E cá vou eu
Posiciono-me, marinheiro nato,
à frente das minhas marés.
Faço do simples viver uma missão
outra escolha nunca tive

E julgava eu que era,
finalmente, e estava na foz
mas consta que te negas
a aplacar quimeras,
como se restasse ainda
apalpar as rugas
a mais uma esquina.
Que sinais são estes?

Abstraí-me das causas
e do nosso
Enfim, perante o mundo,
que mal se entendendo
a si próprio
estranha não me perceber a mim
e se isso lhe faz feliz...
cuidei de facilitar a vida:
declaro-me culpado, e pronto.

Gociante Patissa | 18 Agosto 2018 | www.angodebates.blogspot.com
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sábado, 10 de agosto de 2019

Lançado Dicionário de Verbos conjugados Umbundu e Português em Luanda

Recebendo o autógrafo da autora do DICIONÁRIO DE VERBOS CONJUGADOS EM UMBUNDU & PORTUGUÊS, Cesaltina Kulanda, o qual sua excelência eu apresentou no acto de lançamento que teve lugar hoje, 09 de Agosto, na União dos Escritores Angolanas, em Luanda (sob chancela da Chela Editora). Foi uma oportunidade lúdica de reencontro com as memórias e cultura umbundu, a par de reflectir sobre os empecilhos, alguns de natureza institucional, que influenciam o lugar político, cultural, académico e social das línguas nacionais de origem africana em Angola, fazendo com que pesquisar e dar eco a elas seja um acto de resistência, numa sociedade que elevou a língua portuguesa, que era suposto ser factor de coesão nacional, ao patamar de monstro que não dialoga com as demais já encontradas no território. Ainda era só isso. Obrigado

A imagem pode conter: 1 pessoa, em pé
(captação da imagem por Kiamba Uimgui)
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quinta-feira, 8 de agosto de 2019

A ÚLTIMA OUVINTE, livro esgotado


Recebi hoje com enorme felicidade a "triste" confirmação oficial da editora de que, nove anos após a sua publicação em Angola, os mil exemplares do livro de contos A ÚLTIMA OUVINTE, comercializados ao preço de capa de mil kwanzas, estão esgotados. Trata-se da minha primeira prosa, a obra que marca de forma especial a carreira por ter motivado o convite que recebi durante o consulado do confrade Adriano Botelho de Vasconcelos (com participação do escritor Abreu Paxe) para ingressar como membro da União dos Escritores Angolanos (UEA), publicada há nove anos com a capa feita pelo artista plástico Miguel Dafranca (de feliz memória). Se calhar era oportuno "seduzir" a União dos Escritores Angolanos para uma segunda edição. O que você acha da ideia? Para terminar, recordo que esta é a segunda obra de minha autoria que se esgota, depois dos 2 mil e 500 exemplares do também livro de contos FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS (2014), editado pelo então Grecima, enquadrado no concurso nacional da Bolsa Literária "Ler Angola", subvencionada pelo Estado e que apurou 11 obras dos considerados novos autores, com o preço de capa de 500 Kwanzas. Ainda era só isso. Obrigado
Gociante Patissa, 08 Agosto 2019 | www.angodebates.blogspot.comResultado de imagem para FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS, PATISSA

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quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Utilidade pública. Candidatura a bolsas de estudos em artes na Embaixada Egípcia


Resultado de imagem para EMBAIXADA DO EGIPTO EM ANGOLA
A Embaixada da República Árabe do Egipto em Angola tem disponíveis bolsas de Estudos integrais no domínio das artes em diversas academias e institutos do seu país nas seguintes áreas: ballet, teatro, cinema, música, artes folclóricas e música árabe.


Os candidatos interessados devem reunir as condições discriminadas nas linhas que se seguem:


1. Ter (igual ou menos de) 30 anos de idade

2. Comprovativo de estado de saúde
3. Orientar a inscrição na área de formação pretendida
4. A academia irá custear todos encargos da bolsa em caso de sucesso no exame, sendo que de contrário, será o candidato a arcar com todos os custos de alojamento e formação.

Para mais detalhes, queiram contactar directamente a entidade promotora no e-mail: info@academyofarts.edu.eg


Ainda era só isso. Obrigado e Boa sorte (07.08.2019)


Gociante Patissa | www.angodebates.blogspot.com

(imagem: Angop)
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sábado, 3 de agosto de 2019

Citação

"O joalheiro e o poeta padecem da mesma maldição, ambos procuram a perfeição."
(Argumento do personagem principal no filme iraniano Septembers of Shiraz), TVC4
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quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Crónica | O Dia do Exército lá em casa


O 1.º de Agosto, Dia do exército, é uma data de particular importância na história da nossa família, com memórias inusitadas do convívio com os guarda-costas do pai, os quais tratávamos por manos e se assumiam sobre nós com a autoridade irmãos mais velhos.

Não sei bem que critérios (tirando a língua/cultura Umbundu) eram usados pelo camarada Administrador/Comissário comunal Victor Manuel Patissa (ao centro na foto, fardado, olhar para o chão), nosso pai, para os fisgar das fileiras FAPLA/FAA para a sua guarda pessoal num período que se estendeu até 1997. De um pelo menos posso assegurar que se deveu à coincidência, chamava-se Kapatissa. Ora, sendo o chefe Patissa...

Eram na sua maioria "refugiados", designação usada na época de guerrilha para angolanos capturados das bases do inimigo, a Unita. Alguns eram bastante talentosos na arte da trova, pena só era a afinação deles não ser universal e como tal difícil de apanhar. O pai, apesar de letrado e exigente, mantinha dois guardas absolutamente analfabetos, do que deduzo ter sido usado o critério do carácter e da lealdade. Também, estando confinado na Equimina, sair com o chefe representava ter o luxo de ir visitando a grande cidade.

Numa das crónicas da série que saudou o 70.º aniversário (póstumo), escrevi o seguinte: Cada alegoria, cada metáfora, cada mobilização política faziam do homem um tecelão. Os ciclos seguiam-se. Guarda-costas confundiam-se nos direitos com os rapazes mais velhos da casa (um deles, da primeira vinda ao bairro Santa Cruz, receberia a mais insólita das ordens. «Então, passou bem a noite?» E ele: «Não, chefe.» Mas porquê? Inquiria o velho. «Muito mosquito, chefe». Ora, «Tu não és tropa?! Faz tiro!» E nós, era só rir).

Continuando. Na Kalahanga, não havendo serviço de justiça, ser guarda-costas do chefe funcionava também como ardil para o encaminhamento à procuradoria militar, em caso de graves delitos, como fora o caso de um tipo que assassinara um primo seu. Em anos de guerra, o papel dos tropas não se podia dizer propriamente que respeitasse a separação entre as missões do estado e as do chefe. Azar foi o de um velho esperto, que vendera a mesma casa a dois clientes. O resto coube aos guarda-costas, caçar o homem e em poucos dias a restituição ser um facto, não sem antes o castigo de cavar fossa do WC do chefe.

O tropa era alto, de uma imponência de meter medo, preto retinto, português arrojado, dono também de um chulé ímpar. De tal modo que as botas do homem dormiam no tecto e ele nem se dava ao esforço de confirmar, o chulé encarregava-se de ir ter com ele lá. Em teoria não dormia – “Se o inimigo madruga, as nossas forças não dormem, dizia a palavra de ordem nas ondas da rádio” –, até ao dia em que o quarto foi arrombado.

O ladrão teve tempo de beber da aguardente e, embriagado (talvez da combinação letal entre álcool e chulé de bota de tropa), entornar leite azedo pelo cano da AKM47 do guarda que dormia o nonagésimo sono patriótico. Na verdade, o assaltante viria a ser tramado pela sua própria generosidade: dera de beber leite azedo ao rádio-receptor e este por sua vez pôs-se a roncar feito um porco sendo capado, o que acordou todos os matulões. Enfim, soubesse o ladrão manusear a arma, seria uma tragédia. O final foi feliz, ladrão apanhado e sabiamente espancado. Ainda era só isso. Obrigado.

Gociante Patissa | Luanda, 01 Agosto 2019 |www.angodebates.blogspot.com
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domingo, 28 de julho de 2019

[O cúmulo da geração "civilizada" do tempo da outra senhora]


"Garçom, empreste-me lá o seu garfo, se me permite..."
"Diga, Dona?"
"Empreste-me lá o seu garfo, que é para eu endireitar o peixe [está enviesado em relação à salada]. Não suporto comida no prato arrumada sem ordem, acho horrível, perco imediatamente o apetite".

(Trechos de não-ficção. Em um lugar de uma certa urbe, hoje)

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sexta-feira, 26 de julho de 2019

NÃO TEM PERNAS O TEMPO (extracto)


O domingo iniciava no sábado, à hora de nos irmos deitar, um pouquinho a seguir às galinhas, tais eram a ansiedade e o volume de fantasias que embalavam o nosso sono garoto!

Ainda hoje tenho dificuldade em descrever um domingo daqueles, se não for a começar pelo pôr-do-sol, quando o dia, que se afigurava interminável, se ia à vida. Víamos, então, o grande sentido que reside em se dizer que a felicidade não se vive, recorda-se apenas. Tão cedo perdoávamos o homem, ou sei lá a força, que se arrogava de precipitar a manivela do tempo. Uma zanga curta; se calhar, para que não fosse longa a ponte entre um domingo e outro.

Dominávamos o itinerário do dia seguinte como a palma da nossa mão, afinal não varia assim tanto em meios pequenos a rotina – deixai-me abusar deste pleonasmo sociológico. Nada de ficar na berma da estrada, a ver se caía do céu coluna de soldados cubanos para permutar conserva enlatada com porcos, e com isso assistir ao espectáculo que era a corrida desenfreada, de quando em vez, atrás de quadrúpedes que rebentassem as fibras de bananeira que se faziam passar por cordas.

Nada de ir com restos de manteiga à padaria, atrás do pão quente, nem à pesca nem a piqueniques. Tão-pouco nasciam bebés de barro.

Ir à igreja era obrigatório, e como tal paragem insonsa. Ao meio-dia vinha a melhor parte, o passeio pelos bairros, levando-nos às mesmas casas, aos mesmos parentes. E nos esquecíamos da maçada de tomar o banho de rio naquele cacimbo insidioso, capaz de deixar amarga a rama e o bananal sem vida, como se das queimadas fossem alvos.

Calcorreávamos as picadas atrás das nossas motorizadas virtuais, que não passavam de esqueléticas jantes de bicicleta, achadas sabe-se lá quando. Ao osso achado o cão questiona pertença anterior, por acaso?! Era por aí.

Em casa da avó nos aguardava um arroz substituído por rolão de milho, toupeiras assadas com o melhor em alho e hortelã, e ainda mandioca ou batata-doce fervida, conforme a safra sazonal. Às vezes achávamos demais as orações, mas toleráveis, como aliás se suporta o gosto do gindungo. Ela tinha a mania de nos repetir que o governo nos daria carro um dia, se estudássemos. Não faltava vontade de perguntar por que não quereria, ela também, um carro, uma vez que em nenhum momento nos parecia que quisesse matricular-se na alfabetização, conhecida à época por EBOC (Escola Básica Operária e Camponesa). O que era governo, não imaginávamos, creio até que não sentíamos dele falta alguma directamente. A avó plantava mitos, e o mito não morre.

Mas o que eu adorava mesmo era ver a avó cantar hinos cristãos, quase sempre acrescentando-lhes ou retirando sinónimos, tons vocais ou metáforas, o que os tornava ainda mais originais. Não voltavam a ser os mesmos depois que caíssem nos ouvidos dela! Que óptima era! Os hinos, talvez por não existirem gravadores, pareciam renovar-se em cada entoar. É que o único gravador da comuna era um à corda, que mal servia para qualquer estatística que fosse.

Chamou-se Kwayela, do provérbio Umbundu, “kwayela osema, ovipula njala oko vili” (*). Hoje, ó avó materna minha, ouve o que te digo: com tantas confusões, nós, o povo em geral, que não dirigimos nem mudamos directamente as coisas, merecíamos, quando desse vontade, mudar de mundo, mas, oh tragédia, só temos este e aquele outro, o teu, o da inverosimilhança.

Não tem pernas o tempo, seriam longas, ou curtas, demais.

Gociante Patissa (Pág. 115-6. União dos Escritores Angolanos, Luanda, 2013)
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(*) Lá onde a fuba [farinha de milho] abunda, há também famintos.
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domingo, 21 de julho de 2019

CRÓNICA. Tens que voltar para o Sumbe


Estávamos condenados a ir longe, 600 Km. A nos perdermos também. Não o conhecia e ele a mim muito menos. Um empate técnico é como diriam os “lamentaristas” desportivos. Melhor começo de viagem a dois era impossível. Ninguém podia dizer que levava vantagem, de modo que o êxito da jornada dependia, valha a redundância, da interdependência entre mim e o companheiro. Eu dirijo e ele suporta-me. Falo do carro.

Mal pisei o pedal do acelerador, ouviu-se um trác, do trancar centralizado de portas. Calma ali, ó meu! – dirigi-me ao companheiro – Também não vamos exagerar. Repara que até tenho o cinto posto. É verdade que não nos conhecemos, que já não vou para novo e que o meu sentido de orientação até é péssimo, mas não me vejo a saltar com o carro em movimento, Ok?! Enfim… E já não era a primeira partida naquele dia.

Como se já não bastasse o motor se negar a pegar, por bateria descarregada, e gente doida a pressionar para libertarmos o estacionamento, típico faroeste rodoviário que Luanda é. A desgraça abre mercado a jovens de rua tarefeiros. O carro do kota é automático, né? Vamos chamar um Tucson para fazer chantagem, mas vai dar um saldo. Só três mili kwanza… Estás maluco ou o quê?! A essa hora já queres fatigar três paus ao teu irmão?! Você é nosso, vamos disminuir. Mil kwanzas, ya? Ok.

E não há cabos para o chante. Porra!, me fazem vir à toa dizendo que o kota tem cabo, afinal não tem?! Estaca zero. Sai um telefonema para o Soberano Canhanga, um gajo que nos prova a cada dia, a nós os leitores, que a carreira administrativa só aniquila o escritor, querendo. Solícito, delega a seu subordinado, deve entrar para (mais) uma reunião. Até que surge um vizinho com bateria sobressalente e lá se faz o chante com a ajuda de duas chaves. Os jovens de rua embolsam metade. Muito obrigado. Não há margem para arriscar, e lá sacudimos o bolso, em forma de conta bancária, para uma bateria nova.

Depósito cheio de diesel, pneus calibrados. Rasga-te, ó estrada! A paisagem é colírio. Conduz-se bem, exceptuando curtos desvios de terra batida. Quatro horas depois, abrem-se entranhas do Sumbe. Seis da tarde. No silêncio, o elogio pelo visível trabalho de obras. Os chineses não brincam! Cinco anos se passaram desde a última vez que fiz o troço. Já esteve pior, lembrava-me de ter ouvido. Quase a viagem toda é feita no asfalto, insistia a reminiscência. Assim sendo, como até falta pouco, restava focar o instinto no asfalto, mesmo depois do posto de controlo do Sumbe, diante da traiçoeira estrada da Comarca.

A dada altura, começo a estranhar alguns sinais. A estrada agora parece mais estreita, serpenteante. Passo por aldeolas pacatas, iluminadas, toponímia alheia à memória visual. Não vislumbro o clássico postal costeiro. Na dúvida, sintonizo as rádios de Benguela. O sinal é cada vez mais cristalino, só pode ser porque estou no bom caminho e perto.

Aceno, apressado, à sede de Uco Seles. Às 20h recebe-me Conda e o asfalto morre. Boa noite, jovem. Boa noite, tio. A estrada para Kanjala onde é? Mas aqui no bairro não temos Kanjala. Então, e para o Kikombo? Ah, tens que voltar para o Sumbe, são 75 Km. Tento negociar um meio-termo. Mas não há outra via de chegar a Kikombo? Infelizmente, não. E lá dou a meia-volta saldada em três horas perdidas e 150 Km fora do plano. À meia-noite e meia chegávamos, triunfantes, ao destino, Benguela. Ainda era só isso. Obrigado.

Gociante Patissa | 20 Julho 2019 www.angodebates.blogspot.com |imagem: Rede Angola
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domingo, 30 de junho de 2019

SÓ QUERO PINTAR O MUNDO À COR DO PÃO (poema inédito)

À margem aspirada chegado
Teimo em rezar para não ter que rezar
Por tudo e por nada
Abstenho-me dessa omnipresença
Que rege a urbe
E substitui o bom dia por graças a Deus
Sei que não devia
Que é na água a força do jacaré
Mas eu venho doutras águas
Caso já não saibam
Portanto, que se lixe a selva
O jacaré incluso

Só quero pintar o mundo à cor do pão
Define-me o fora da norma
Até que surja o noticiário
Carregado, tinto
Fecho a porta bem fechada e congelo a geografia
Transporto-me para todos os lugares onde passei
Às mulheres que amei
(não que me prenda o tempo verbal)

E no prédio
Mais fácil se conhece cada dente da chave
Do que as feições do vizinho
Rasgo as artérias com o calcanhar
Nas mãos a comichão do volante
Afinal fui sempre a estrada adiada

Abstenho-me do espectro que rege a urbe
É que trago tatuado o campo
Que roubem isso também
Só quero pintar o mundo à cor do pão

Gociante Patissa | 30 Junho 2019 | www.angodebates.blogspot.com
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quinta-feira, 20 de junho de 2019

Museus de Benguela “nomeiam” segunda Ministra da Cultura


Maria Piedade de Jesus, a Ministra da Cultura nomeada hoje (20/06) por Despacho do presidente João Lourenço (JLo) para substituir Carolina Cerqueira, de quem era adjunta, foi quadro do Museu Nacional de Arqueologia, na província de Benguela, antes de ser nomeada, em Outubro de 2017, para o cargo de Secretária de Estado para a Antropologia.

É a história a repetir-se onze anos depois. Em Outubro de 2008, era nomeada pelo então presidente José Eduardo dos Santos (JES), para a pasta da Cultura, a investigadora Rosa Cruz e Silva, quadro dos Museus de Arqueologia (Benguela) e de Etnografia (Lobito), que mais tarde desempenhou o cargo de Directora do Arquivo Histórico (Luanda).

Sendo um nome ligado ao sector pelas vertentes académica e do dirigismo, a nova titular da Cultura, Maria Piedade de Jesus, é contudo desconhecida da classe artística, perfil semelhante ao de Rosa Cruz e Silva, diferente de Ana Maria de Oliveira, que tem a faceta de escritora.

Pelo cargo passaram, entre outros, António Jacinto (1975-78), Ana Maria de Oliveira (1992-1999), António Burity da Silva Neto (1999-2002), Boaventura da Silva Cardoso (2002-2008), Rosa Maria Martins da Cruz e Silva (2008-2016), Carolina Cerqueira (2016-2019), esta última nomeada no executivo de JES e reconduzida por JLo.

Gociante Patissa | 20 Junho 2019 | www.angodebates.blogspot.com
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segunda-feira, 17 de junho de 2019

Camões e União Europeia caçam candidatos a bolsas em Música e Artes Cénicas


O Instituto Camões, organismo do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal, anunciou nesta segunda-feira (17/06), em Luanda, a abertura de candidaturas para o concurso que pretende atribuir 48 bolsas de estudos de licenciatura e mestrado nas áreas da Música e Artes Cénicas, no biénio 2019/20, contemplando apenas cidadãos naturais e também residentes dos PALOP e Timor Leste.

A iniciativa enquadra-se no âmbito do projeto Procultura, cofinanciado pela União Europeia, pela diplomacia portuguesa e pela Fundação Calouste Gulbenkian, que visa a promoção do emprego nas atividades geradoras de rendimento no setor cultural.

Para mais informações e acesso ao regulamento do concurso, seguem-se os links: https://www.instituto-camoes.pt/activity/o-que-fazemos/bolsas-estudo


Gociante Patissa | 17 junho de 2019 | www.angodebates.blogspot.com   

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domingo, 26 de maio de 2019

Porque Terêncio Zua tem talento acima do que bate


Terêncio Zua, compositor e intérprete, vencedor do concurso de imitação Angola Encanta, realizado pela TPA e Lac em 2012, está de volta à "música mundana", depois de uns anos a fazer gospel. Dói ver o jovem, dono de um enorme potencial e elasticidade vocal, dos mais promissores que este país já viu, enveredar para a já batida tendência do que está a bater, com a impressão inclusive de ter "enlatado" a voz, coisa que aliás não precisa, tão prendado que ele é. Apoiem o miúdo, excelências, se faz favor. Uma bolsa no estrangeiro, porque o país não se pode dar ao luxo de perder mais um talento daqueles para as leis do mercado, de criar para a barriga. Ainda vamos a tempo.Estamos aqui se precisa a poesia for para as suas composições.
Gociante Patissa | www.angodebates.blogspot.com
(Foto: vicentenews)
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TV-ANGODEBATES

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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