quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Diário | Ao menos prioridade ao viúvo, não?!


"Estão muito ocupados?"
"Bom dia, senhor."
"Ah, desculpa. Bom dia ainda primeiro, né?"
"Vai imprimir fotografia, T-shirt, fliers..."
"Não. Um cartaz. É para resolver a minha vida... Os angolanos são muito lentos, pá..."
"Como assim?! Vai fazer manif na cidade alta ou quê para JLo te ver?"
"Xê!!! Não me arranja problemas com a oposição, ó mais novo! Achas que ela deixaria ir contra o presidente que namora com a esperança de todos?"
"Pronto, desculpa, kota. Estava a brincar. Qual é o conteúdo?"
"Também quero muito isso, e não se preocupe com a rival, sou viúvo..."
"Kota, não é querer me meter no assunto do cliente, mas ainda vou perguntar ao meu patrão se posso escrever esse mambo..."
"Deixa de frescura rapaz! Despacha lá isso, pá. Eu pago. Tenho que apanhar autocarro. Para te facilitar, vou ditar devagar: TA-MBÉM QUE-RO MUI-NTO, E NÃO SE PRE-O-CU-PE COM A RI-VA-L, SOU VI-Ú-VO, ponto."
"Mas isso assim é para quê, kota?"
"Meu puto, é assim. Anda aí uma senhora assim fofinha, cheiinha, tudo no lugar e quê, uma brasileira mesmo bala. Está a falar QUERO SEXO. Dizem que é das Cáritas, aquela ONG que alivia sofrimento dos pobres e dos carentes, estás a ver, né?"
"Acho que Cárita é o nome dela, não tem nada a ver..."
"Será? Conforme vi na TV, a senhora é mente aberta, sem esses fingimentos da mulher angolana, sabes? Anda todas as províncias a anunciar isso. "Quero Sexo, quero sexo". E os angolanos, distraídos, o que é que fazem? Estão só a bater as palmas. A tal raiva que sinto eu?!!! Olha, como só diz "QUERO SEXO", ainda não indicou onde nem com quem, e uma vez que estou viúvo, pensei ainda chegar lá e me declarar. Quando ela aparecer com aqueles papéis, ah porque "QUERO SEXO", eu levanto o cartaz: "Também quero muito isso, e não se preocupe com a rival, sou viúvo..."
"Kota, você me mata, ya? hahahah O kota a essa hora já deve estar com camisinhas no bolso. Coitado. hahaha. Aquilo é arte..."
"E eu é que não sou um livro, ó rapaz!? Ao menos, prioridade ao viúvo, não?!"

www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa | Benguela, 17.10.2018
(foto: Universo digital, facebook)
Share:

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Diário | "Não há maka, ya, mano?"

"Boa tarde, senhor. O que deseja?"
"Boa tarde. O vosso liro de prato do dia é posta ou inteiro?"
"É posta."
"Ok. Daqui eu gosto de peixe grelhado, funji e molho de tomate. Têm pargo ou caxuxu?"
"Não sei. Deixo só ainda ir buscar o menu. Mas os peixes estão naquela tableta ali, é só ler."
"Ok. E quanto custa o carapau? No menu só vejo caxuxu?"
"Caxuxu não temos, vai desculpar."
"Ok. Fico com carapau grelhado, molho e funji."
"Ok. Como é que vai querer o peixe? Grelhado, frito ou como? Aqui é feito na hora..."
"Grelhado, se faz favor."
"Ok. O meu colega do balcão diz que fica por 2900."
"Pode ser."
"Desculpa, senhor. Como é que vai querer o peixe? Grelhado, frito?"
"Grelhado, amigo. Já falamos disso."
"É desculpar, meu chefe. A mente já anda cansada com uns problemas lá dentro..."
"Não há maka, ya, mano?"
www.angodebates.blogspot.com | GP | Baía Farta, 16.10.2018
Share:

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Luís Rosa Lopes com novo livro | «Tsháhua Tsháhuilê» é lançado em Novembro

Iniciou a contagem regressiva para o acto solene de lançamento da obra literária intitulada «Tsháhua Tsháhuilê», do escritor Luís Rosa Lopes, agendada para o dia 15 de Novembro, pelas 18 horas, no Centro Cultural Português em Luanda acolhe às 18h de hoje, 15/10, 

O livro, no género prosa, sai sob chancela da Editora Acácias e trata, basicamente, segundo o seu autor, de como se usa e abusa, por vezes, da tradição, sendo que embora a estória se passe nas Lundas, poderia passar-se em qualquer parte do mundo.

Luís Rosa Lopes nasceu em 1954 em Luanda, onde reside, e é da considerada geração de 80, do século 20, aquela que marca a transição entre a poesia militante e o país novo. Publicou, entre outras obras, «Forças da Minha Lavra», em poesia, editada pela União dos Escritores Angolanos (UEA), em 2016, agremiação da qual é membro.

http://angodebates.blogspot.com/ 
Share:

domingo, 14 de outubro de 2018

Crónica | Um bom exemplo profissional do Cinemax Benguela


Na penúltima sexta-feira, aceitei o convite de ir assistir à estreia da comédia americana «A Turma da Noite», sessão das 18h40, no Cinemax de Benguela. Não sou propriamente um consumidor regular de filme por filme, na medida em que a minha cabeça, ou antecipa as cenas, ou presta demasiada atenção aos aspectos técnicos (narrativa e fotografia incluídas), ou então denuncia mensagens sub-reptícias de “ismos”. Dito isto, reconheço, acabo não sendo uma boa companhia para o flutuar na fantasia que a arte cénica exige. Seja como for, merece o meu incentivo o papel que o cinema representa enquanto pretexto de socialização.

Cumprido o ritual da globalização (pipocas e bebidas), entramos na sala, passava ainda a ficha técnica. Não foi nem preciso ocupar o assento para nos darmos conta de como a sala não arejava. O resto é de imaginar. Muita gente e cheiro de gordura num espaço abafado. Manifestei à pessoa que me fazia companhia não suportar o desconforto. Aí abordei o pessoal de serviço e fui direccionado a falar com um jovem, o supervisor.

O supervisor falava ao telefone com alguém que presumi ser o técnico de climatização. Percebi que não se encontrava nas instalações e que demoraria algum tempo a chegar. Quando terminou a chamada, expus a situação da falta de ventilação na sala. Respondeu-me com simpatia e profissionalismo. Justificou com os constantes picos de corrente eléctrica que durante a semana se registavam e que, entendia ele, seriam a causa do disparo de um disjuntor, a sala esteve boa na sessão que antecedeu a nossa.

Ouvi atentamente e perguntei com gentileza qual seria a saída. Ele sugeriu a sessão seguinte, para dar tempo de o técnico chegar, o que para nós não seria viável, pelo avançar da hora, já que no dia seguinte eu iria trabalhar às 6h00. Propôs então passarmos num outro dia, mantendo os bilhetes válidos. E para salvar a noite, convidou-nos a ver um outro filme que estreava, «Venon», por conta da casa, fazendo parte do cabaz dois pares de óculos 3D. O filme não é grande coisa, mas o gesto foi a graça toda.

Na sexta-feira seguinte, anteontem portanto, voltamos ao Cinemax, a ver se o supervisor cumpria a sua palavra. Atendeu-nos com a mesma simpatia e eficiência. É certo que assim acontece em sociedades normais. Porém, conhecendo a relação entre o usuário e o prestador de serviço na maioria dos casos cá, um elogio grande é inevitável. Assim, sim! Ainda era só isso. Obrigado.

Gociante Patissa | Benguela, 14 de Outubro de 2018 | www.angodebates.blogspot.com
Share:

sábado, 13 de outubro de 2018

A Voz do Olho: 04 | O ZÉ DO 28, O INGLÊS E EU NO PORTO (*)


Aleija-me profundamente a mentira: a das mulheres, a dos mestres, a dos mecânicos, a dos políticos, a das crianças. Nunca fui, todavia, o primeiro a atirar pedras.

À chegada do interior, tive a felicidade de morar no morro da Quileva. Tem-se vista avantajada do coração da cidade. Cintura verde, a sul, as salinas, no centro, e o mar, a norte. Se desci o morro, foi somente atrás da máquina burocrática para questões escolares. Para lá dos jardins, uma vez na baixa, a cidade sumia, daí o desejo de logo regressar à prateleira. Por exemplo, disputávamos a titularidade de carros que víamos circularem na linha do horizonte.

Em cidades singulares, as portas todas costumam dar em uma só com alma, o porto. Às marés ou aos caudais, faz-se entrada e saída, ao mesmo tempo, o cais. E é este desfile aparentemente desconexo dos navios que adensa na história do meu Lobito o fio.

Com a greve dos professores, foram três meses de tédio, agora no bairro da Santa Cruz, zona com vista limitada, sem o televisor em casa, que por sua vez somava meses no conserto. Tudo levava a crer que o eletrotécnico não despacharia o trabalho sem a paga, posição quanto a nós injusta, porquanto o dinheiro que lhe faltava a ele faltava-nos a nós também. Estamos em 1995, e a presença, às centenas, de capacetes azúis da ONU e demais agências humanitárias ilustrava bem o quadro de penúria que o país atravessava, resultado do retorno à guerra civil entre as forças guerrilheiras da Unita e o exército governamental, com o fracasso da primeira experiência democrática, tendo como mote a não-aceitação pela oposição dos resultados das eleições de 1992.

Não me ocorrendo a posição do pai, decidimos entre irmãos tirar proveito da ONU. Coube-me a missão de juntar a coragem ao meu arrojado inglês e comercializar, tipo zunga, as estátuas de madeira lá de casa. Arrecadaríamos cinquenta e cinco dólares norte americanos, o equivalente a dois salários de professor. Em vão. O televisor já tinha sido extraviado.

O contacto com os capacetes azúis era fruto proibido em certos quartéis. Recordo quando o Eliseu viu o seu negócio confiscado, digamos que de modo ilícito, pela guarnição do Hotel Términus. Mais conversa, menos conversa, prometeu-se subornar o guarda angolano, penhorando o Bilhete de Identidade. Parvo do guarda, já que ficava sempre mais fácil tratar outra via do documento.

Lá conheci o Zé, mais novo e mais alto do que eu. Até em sua casa, no 28 (Zona Comercial), cheguei a beber água. Causava impressão ver-me, baixote, falar «fluentemente» com os estrangeiros, ganhando esporadicamente desde livros, cassetes, a produtos de higiene. Foi o Zé quem decidiu levar-me ao Porto do Lobito, onde esteve naquele dia um navio britânico da ONU. Atleta de basquetebol na escola da Casa do Pessoal, o Zé passava pelo portão sete como água pela garganta. Como entraria eu?

O Zé instruiu-me a dizer ao polícia que iria ter com o guindasteiro Frederico Carlos, meu «pai». O polícia fitou-me, e autorizou. Ainda melhor, disse para voltar a ter com ele, caso alguém me molestasse. Tinha resultado! Antes de degustarmos as iguarias do navio, observei ao longe o guindasteiro. De facto, tínhamos algumas semelhanças, no tom de pele ligeiramente clara e no semblante aparentemente mentalista, enfim.

Hoje, o Zé é um homem feito, fazendo carreira como professor de educação física em colégios. Um dia desses lembrar-lhe-ei aquela emocionante aventura, todavia reprovável.

Gociante Patissa. In «O Apito Que Não Se Ouviu», 2015. Pág. 60-61. União dos Escritores Angolanos. 1.ª Edição. Luanda, Angola. 2015 Colecção: «Sete Egos»
Share:

Livro de José Nkai promete verdades nunca contadas | «A CÉLEBRE BATALHA DO KUITO KUANAVALE – MEMÓRIAS DE UM GUERRILHEIRO» [grande entrevista em exclusivo]


Está marcada para o dia 09 de Novembro a apresentação ao público de «A Célebre Batalha do Cuito Cuanavale – Memórias de um Soldado», de José Nkai. A cerimónia terá lugar no Museu das Forças Armadas, em Luanda. A obra testemunhal sai pela Tamoda Editora e marca a estreia do então miúdo do Soyo recrutado aos 16 anos pelas FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola), exército governamental apoiado pela tropa cubana. A batalha deu-se entre 15 de Novembro de 1987 e 23 de Março de 1988. A data entretanto permanece alvo de contestação. Nesta grande-entrevista em exclusivo ao Blog Angola, Debates e Ideias (Angodebates), José Nkai, em tom descontraído, destapa o véu à obra, que considera ser o primeiro relato de subalternos do último escalão sobre uma batalha “monopolizada” por altas patentes e por vezes por quem por lá não passou. O autor rebateu a polémica do “inimigo de ontem”, UNITA, aliada do regime de apartheid sul-africano, na voz do general Kamalata Numa. Este, num artigo publicado este ano, por ocasião do 23 de Março, qualificou de “ficção” a Batalha do Cuito Cuanavale, crucial para que a Namíbia se tornasse independente.

Blog Angola, Debates e Ideias (Angodebates): Quem é o José Nkai?

José Nkai (JN): José Nkai é um cidadão que naceu no Soyo, provincia do Zaire, homem de certas convicções, acredita no destino, batalhador e empreendedor. Alguns o caracterizam de impulsivo e outros o encaram como homem de virtudes, é amigos dos seus amigos, gosta da verdade e às vezes é muito frontal. Vive em comunhão de mesa com a dona Maria Antonia Garcia e é pai de oito filhos.

Angodebates: Como se deu a sua entrada para as FAPLA? É daqueles que foram rusgados ou se entregou voluntariamente?

JN: A minha entrada às FAPLA foi de forma livre e espontânea depois de estar muito saturado em me esconder das rusgas, apesar de na altura não possuir uma idade apropriada para o serviço militar.

Angodebates: Como é que um adolescente da província do Zaire, município do Soyo, foi parar ao Cuito Cuanavale, província do Kwando Kubango?

JN: Inicialmente nem mesmo eu sei como era gerido o processo de recrutamento, mas com o tempo, fui fazendo a seguinte reflexão em torno do facto: a conclusão que a minha razão encontrou consistia talvez na integração do país. Sabe-se que depois de 11 de Novembro de 1975, o país ficou dividido ideologicamente, sendo que os do mais ao Norte de angola eram considerados como zairenses ou simplesmente os da FNLA; os de Luanda, capital do país, como sendo os mais do MPLA, enquanto os do Sul, da UNITA. Daí, acredito que dentro da estratégia do MPLA e para quebrar tal gelo, fazendo reforço da palavra de ordem que dizia “de Cabinda ao Kunene um só povo uma só nação”, acho que se alinhou ao tal pressuposto. Hoje mais do nunca, vivemos nessa integração sem limites. A prova disso é o meu exemplo: a minha esposa é da província de Benguela. [ri-se]

Angodebates: Quais foram as principais dificuldades no processo de adaptação, de rapaz da vida civil a recruta, e depois na frente de combate?

JN: Olha, a minha adaptação foi rapida, se calhar, por na altura não possuir nenhuma responsabilidade à minha volta, isso porque ainda reinava nos jovens e adolecentes aquela euforia, idependentemente das suas convições politicas na altura, a defesa da Pátria era fundamental. No meu caso, pese embora certas adversidades, no fundo queríamos ver uma Angola livre e em paz.

Angodebates: No livro institucional intitulado «FAPLA – Baluarte da Paz em Angola», José Nkai aparece de canhão morteiro ao ombro. Aquilo foi uma sessão na retaguarda? Em que dia, mês, ano e localidade foi feita a reportagem? Quem foram os jornalistas?

JN: [ri-se] Companheiro, a arma no meu ombro não era Morteiro só para rectificar –. Era, sim, um míssil portátil antiaéreo. Chamava-se «Flecha C2M», possuía capacidade de derrubar qualquer tipo de avião, quer de caça-bombardeiro, quer de carga. Porque em toda a extensão da província do Kwando Kubango, com maior destaque na via que liga cidade de Menongue a Cuito Cuanavale, era recorrentemente fustigada pelos ataques aéreos da parte do exército sul-africano e seus aliados que apoiavam o outro lado beligerante no conflito armado angolano.

Aquilo não se tratava de uma simples sessão de retaguarda conforme a sua pergunta, era mesmo real e, olha, honestamente falado, eu nem sequer me lembro em que momento foram captadas aquelas imagens. Obtive-as numa das exposições fotográficas no Ministério dos Antigos Combatentes, pela parte do Focobacc – Fórum dos Combatentes da Batalha do Cuito Cuanavale.

Quanto à data, se a memória não me atraiçoa, terá sido em finais de 1987. Agora lembro que nesse período havia alguns repórteres de guerra da Televisão Angolana (TPA), que iam em diferentes frentes de combate. O cameraman responsável daquilo (soube mais tarde) chamava-se Carlos Henriques. Nem sei se este senhor ainda vive... Mas se ainda vive, devo honestamente reconhecer a sua coragem em ir fazer reportagens e imagens reais em zonas de hostilidades naquele período.

A OBRA

Angodebates: Qual foi a motivação para escrever este “A Célebre Batalha do Cuito Cuanavale – Memórias de um Soldado”?

JN: A minha maior motivação consiste apenas em disseminar informações daquilo que vivemos naquela parcela como soldados. Isso o povo angolano até então só ouvia versões históricas dos comandantes e daqueles que eram os decisores daquela nefasta guerra, em nenhum momento ecoou uma voz de um soldado, a pergunta que se coloca é a seguinte: será que na referida guerra só existia ou só foi feita pelos Generais? Acho que não, daí surgiu a inspiração em manter em escrito as minhas lembranças... Mas gostaria deixar muito bem claro aqui que a descrição que consta do meu livro, foram todos os cenários que eu vivenciei enquanto militar de 1985 à 1989 naquela região do Cuando Cubango, por falo na primeira pessoa.

Angodebates: Para além do recurso à memória, teve outras fontes para completar o livro?

JN: Não exactamente, excepto quando me estivesse a escapar nome de um colega que seria objecto da minha citação, varias vezes recorri ao Eugénio Samety para me fazer lembrar de um ou do outro. Mas todas as memórias foram colectadas simplesmente por mim.

Angodebates: Tem-se dito que o pior de uma guerra é quando ela termina, na medida em que os seus protagonistas não se conseguem livrar tão facilmente dos traumas e marcas da brutalidade. Esse livro pode ser visto como uma terapia para o José Nkai, uma espécie de exorcismo, ou não sofreu assim tanto enquanto soldado?

JN: Bom, não sei exactamente o que quer dizer com essa afirmação. Mas eu tenho um ponto de vista diferente. Na vida devemos ter princípios de auto-superação, isso é como se alguém que nasce defeituoso ou que a adquire ao longo do tempo, necessariamente procura maneiras de encontrar a melhor forma de sobreviver...

Agora, quanto ao sofrimento... [ri-se] Seria possível alguém estar mergulhado num teatro de operações de guerra estando numa situação entre vida ou morte sem ter nenhuma marca? Nós não devemos ver aquele cenário como se fosse uma peça teatral... Acho que não... A vida militar, mesmo feita em tempos de paz, não deixa de ser mesmo difícil, a começar pela fase de instrução até ao cumprimento de qualquer missão. Só quem já passou nisso consegue sentir. [ri-se]

No meu caso, não se trata de nenhuma terapia nem tão pouco uma espécie de exorcismo nem trauma. [ri-se] Felizmente tenho vindo a superar aos poucos, agora resta saber dos outros, que também lá estiveram, como andam psicologicamente.

Angodebates: Concorda com a leitura segundo a qual muita gente gostaria de escrever memórias mas acaba ficando inibida pelo medo de ser mal interpretada?

JN: Cada um tem o seu ponto de vista a cerca disso e é difícil responder. No meu caso, não acho bem assim. Bem ou mal interpretado, acho que é questão de se ver como exteriorizam os contextos da sua versão histórica. Do meu ponto de vista, deve haver a coragem do contraditório, caso a informação não confira com uma certa verdade, aí sim.

Posso admitir que hoje se calhar muita gente quer escrever, sim, mas não encontra espaços certos por falta de recursos. E as pessoas superavits, em termos de dinheiros em Angola, não estão interessadas em contribuir nisso ou apoiar quem possui determinadas memórias que possam ilustrar certos fenómenos que vivemos em diferentes pontos de angola, quer da parte das FAPLA quer da parte das FALA. Dos poucos que tiveram essa sorte ou foi com a ajuda de pessoas bem próximas, ou dos familiares, ou ainda por instituições internacionais que tinham interesse em determinados aspectos que serviria como seus suportes.

Angodebates: Para estas pessoas, que conselho deixa?

JN: “Água mole em pedra dura, bate, bate, até furar”. Devemos escrever mais sobre esta Batalha. Reconheço que não é fácil encontrar alguém disposto a patrocinar a edição de um livro, mas devemos continuar a bater às portas... Se calhar quando menos esperarmos, podemos ter portas abertas, como foi no meu caso.

Angodebates: Agora, uma pergunta corriqueira: quanto tempo levou para escrever a obra?

JN: Tive a ideia de começar a escrever o livro em 2013 quando terminei a minha formação superior pela faculdade AIEC. Mas depois houve um certo abrandamento da minha parte, se calhar devido a muitos factores externos e da própria conjuntura laboral e comercial. Já em 2016, comecei novamente a rever aos poucos o que ja existia como matéria bruta de forma mais intensa e fui alinhando as ideias. De lá para cá, posso dizer que foram quase dois anos de trabalho aturado, com maior incidência em meados do mês de Novembro de 2017, numa altura que me encontrava bastante abalado em virtude de alguns negócios que havia feito e tive enormes prejuízos. Na verdade fiquei meio frustrado. Daí para afogar as mágoas, procurei refrescar a memória escrevendo. E tenho vindo a reproduzir outras memórias dia após dia. [ri-se]  

Angodebates: Houve patrocínio ou sai com fundos próprios?

JN: [ri-se] Eu preferia não comentar acerca disso, mas vamos partir pelo pressuposto de que o José Nkai, para além de ser funcionário da SonAir, hoje é também um empreendedor. [ri-se] Logo, já pode encontrar resposta nisso, embora haja sempre ajuda de alguns amigos mais chegados. [ri-se]

Angodebates: Sobre o assunto, já outros protagonistas escreveram e debateram. O que é que, na sua perspectiva, o livro vem acrescentar à compreensão do leitor?

JN: Eu acho que os mais atentos têem vindo a acompanhar diferentes relatos isolados quando se avizinha o dia 23 de Março em cada ano e, dos debates até hoje vistos em algumas cadeias televisivos, em Angola, quer a estações de rádios ou mesmo na TPA, em minha opinião tem havido muito pouco espaço para os actores directos dessa Batalha. Ouvem-se mais, até, de pessoas que nem sequer passaram por lá, e isso entristece-me. Eu acho que a abordagem desse assunto devia ser mais inclusiva e mais abrangente para se colherem diferentes pontos de vistas em todo território nacional onde possui rádios ou centros de produção de TVs. Já se passaram quase 30 anos, acho que já é hora de reverter o quatro... Consegues imaginar quantos fazedores desta história se encontram espalhados por essa Angola? Ao invés de limitar o testemunho de alguns Generais, deviam também dar um espaço aos subalternos do último escalão a expressarem-se a respeito, em minha opinião. [ri-se]

Angodebates: A seguir a Luanda, que outros lugares constam do roteiro de lançamentos?

JN: Queremos levar essas memórias em todas as provincias do nosso país (Angola) e quiça em todos os cantos do mundo, não queremos nos limitar apenas em Luanda. [ri-se]

A BATALHA

Angodebates: A Batalha que dá corpo ao livro ocorreu entre 15 de novembro de 1987 e 23 de março de 1988, estando de um lado o exército de Angola FAPLA (apoiado pela tropa cubana) e do outro as Forças Armadas de Libertação de Angola (FALA), então movimente rebelde de guerrilha apoiado pela tropa sul-africana. Sabemos que não há consenso sobre os factos históricos, mas já falaremos disso daqui a pouco. Por enquanto queremos ouvir a sua avaliação da relevância e dos ganhos que representou o acontecimento para a história de Angola.

JN: No meu ponto de vista, os ganhos são visíveis e reconhecidos em todos os países que melhor benefício tiraram ou vêm usufruindo com aquela victória das FAPLA no campo de Batalha em 23 de Março de 1988. Foi através desta batalha que o exército angolano passou a ter mais protagonismo na região da SADC e países como a Namíbia e a África-do-Sul saíram do jugo de uma política que lhes frenava. Proporcionou-se na região uma maior liberdade e a Independência, foi ainda através desta batalha que na África-do-Sul conheceram o fim de regime de Apartheid e consequentemente a libertação do Nelson Mandela. Cá entre nós permitiu abertura para um diálogo que culminou com a assinatura dos acordos de paz em 31 de maio de 1991, entre outros ganhos.

Angodebates: Dizíamos há bocado não haver consenso sobre os factos e protagonistas da Batalha do Kwito Kwanavale, com a UNITA e o MPLA desencontrados em alguns pontos. Num artigo publicado pelo Club-K no dia 04.03.2018, por exemplo, o general Abílio Kamalata Numa, proveniente das FALA, acusa que “A dita Batalha do Kuito Kuanavale é uma ficção porque a verdadeira Batalha de 1987/88 foi a Batalha Lomba 87, esta foi uma de entre várias batalhas que se produziram naquele teatro de guerra”. Afinal o que se passou de concreto?

JN: Olha, eu por acaso vi e li sobre essa matéria. Eh, pá! Respeito a opinião do Sr. General Numa. Em minha opinião ele fê-lo como qualquer um o podia ter feito. Aquilo era como manifestar um direito de resposta quando atacado num facto. [ri-se] Vamos só aqui analisar uma questão prática: um confronto ou um jogo, normalmente só termina quando existir um vencido e um vencedor né?... Pois bem, reconheço e vale aqui dizer que a Batalha do Cuito Cuanavale teve os seus vários cenários técnicos e tácticos... Aliás, o meu livro de memórias ilustra muito bem e mostra os seus claros e os escuros que nortearam todos os cenários que éramos envolvidos entre 1985 e 1988.

Ainda acerca disso, importa aqui salientar, quanto aos desaires que as FAPLA tiveram no rio Lomba em duas ocasiões (1985 e 1987), que não representavam um final dos confrontos, atenção! Nessas épocas as FAPLA tiveram os seus momentos menos bons, confesso... E todo o interveniente que também participou dela, pode reforçar esse meu testemunho.

O General Numa quando citava no visado o texto “A derrota das FAPLA e das tropas cubanas na Batalha Lomba 87 foi à derrota da Rússia e Cuba que tinham em Angola a trincheira firme para a expansão do comunismo na parte Austral da África. Na mesma dimensão se situa o Acordo de Bicesse entre o Governo de Angola e a UNITA, que permitiu as primeiras eleições democráticas no país em 1991 para se voltar aos Acordos de Alvor violados pelo MPLA em 1975.” [ri-se] - Muito sinceramente eu não me lembro na altura o exército angolano FAPLA querer expandir o comunismo na Região da SADC através das forças cubanas ou soviéticas na altura, salvo informações que eventualmente possam transcender o meu conhecimento…

Mas o ilustre General, se calhar, esqueceu-se que na tentativa da perseguição que a UNITA (FALA) e os seus aliados pretendiam fazer do Lomba até à pequena vila do Cuito Cuanavale, as FAPLA, para vir-lhes dar o tiro de misericórdia, depois de terem atingido a parte em era considerada pivô daquela marcante ofensiva das FAPLA, com designação «Saudemos o Outubro de 1987», cuja maior vítima foi a 47.ª brigada de Desembarque e Assalto, as FALA e o exército Sul-africano fracassaram no dia 23 de Março de 1988 nas extremidades do Chambinga e do Tumpo, diante da defesa da 25.ª brigada.

Logo, o exército Sul-africano, como era o escudo das forças da UNITA, ao sair daquela batalha de 23 de Março perdedor e em debandada, acrescido de outras acções que foram perpetrados nas localidades do Calueke onde estava concentrado o maior grosso do comando Operacional sul-africana, estes ficaram sem norte e quase sem capacidade combativa de prosseguir com os seus intentos no Cuito e ele, o General Numa, se calhar, deve estar muito bem lembrado disso... Aquilo tinham sido acções combinadas e quase em simultâneo entre defender o Cuito Cuanavale e ripostar com golpes maciço na sua retaguarda, quando eles menos esperavam. [ri-se]

Portanto nessa batalha de 23 de Março, foi onde se deu a grande egemonia e o tríunfo das FAPLA com apoio dos cubanos ao sairem vitoriasos, disso acho que não temos nenhumas dúvidas, até porque os próprios protagonistas sul-africanos, que os apoiavam, hoje reconhecem isso...

Angodebates: É possível haver uma verdade sobre a batalha ou considera normal que nunca se chegue a consensos?

JN: Tem que haver muitos testemunhos à semelhança do que eu fiz no meu livro. Tem que haver muitos a escrever porque se assim não for, ficará difícil.

Angodebates: Acha que o facto de ser militante assumido do seu partido (MPLA) atrapalha o rigor que se impõe na sua faceta de académico ou nem por isso?

JN: Não, de que maneira! [ri-se] Quem ler o meu livro de memórias irá encontrar muita coisa até então não contada. [ri-se] Convido.

Angodebates: «Eu vou, eu vou / morrer em Angola / com arma, com arma / de guerra na mão. Granada, granada / será o meu caixão. / Enterro, enterro, será a minha patrulha.» Você chegou a entoar este canto de marcha?

JN: [ri-se] Muitas vezes e mesmo nos dias de hoje, quando a memória me leva a viajar, canto. Por que não?... [ri-se]

Angodebates: Se a história se repetisse, o José Nkai faria tudo de novo ou eventualmente só metade ou então iria viver para o estrangeiro?

JN: Guerra?! Nãããão... [ri-se] Eu acho que diante disso, emigraria. [ri-se]

Angodebates: Considera-se um herói? Porquê?

JN: Se é assim como se diz, por que não eu admitir que sim?! Até porque já fui condecorado medalha sobre Heroismo na Batalha do Cuito Cuanavale em Abril de 1988, medalhas essas que vieram do Estado de Cuba.

Angodebates: O que é Angola para si?

JN: Um País belo onde todos podem ter espaço para crescer e progredir.

Angodebates: Para terminar, uma provocação. Sabemos que José Nkai é um persistente empreendedor de referência no município do Soyo, província do Zaire, com intervenção na Prestação de Serviços e no apoio ao sector petrolífero, sem pôr de parte a componente de responsabilidade social com causas humanitárias. Qual das experiências considera mais difícil? Ser empresário num país em contexto de crise ou ser jovem na Batalha do Cuito Cuanavale?

JN: As duas coisas, porque a primeira foi um desafio e venci-o. Agora, a segunda variante, devo confessar que está a ser muito dura. Encontro pouco espaço para ajudar os meus compatriotas angolanos, há muito conflito de interesses. Hoje empreender requer muita inteligência competitiva, mas a luta continua, porque desistir... NUNCA!

Dizer também que a minha empresa preocupa-se muito com a componente social e já cobriu os seis municípios que a província do Zaire tem, contribuindo e ajudando comunidades mais carenciadas desde 2009, apesar de princípio ventilar-se de que com aquelas acções pretendia alcançar cargos políticos ou governamentais. Esqueceram-se de que a maioria das victórias que tive na vida advieram de muita gente anónima que hoje nem sequer tenho preço para com eles e a melhor maneira que de retribuir era ir ajudando outras pessoas, à semelhança da sorte que tive destes anónimos. [ri-se]

Muito obrigado.

Gociante Patissa | Benguela, 10 de Outubro de 2018
Blog Angola, Debates & Ideias – ANGODEBATES www.angodebates.blogspot.com
Share:

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Literatura infanto-juvenil brasileira | «A Estranha Casa do Jabuti Cascudinho» anuncia pré-venda


Do país irmão Brasil, chega-nos a agradável notícia da disposição, em pré-venda, da obra infantil «A estranha casa do jabuti Cascudinho», da caneta de Francisco Paiva de Carvalho, uma fábula que procura valorizar e mostrar a importância  da família e, acima de tudo, da verdadeira amizade.

Narra a experiência de um jabuti (para nós, cágado) que, após se distanciar dos pais e irmãos enquanto andavam pela floresta, vê-se apavorado, sentindo que estava perdido na escuridão da noite. Por sorte, Corisco, um tatuzinho bondoso que morava em uma toca ali por perto, vendo sua aflição, não pensou duas vezes e decidiu ajudá-lo. Começava assim uma verdadeira e eterna amizade. Bastante feliz e nutrindo um sentimento de profunda gratidão, o pequeno jabuti, surpreendendo até a si mesmo, sem muito pensar, resolve atender ao pedido do novo amigo, que queria conhecer sua estranha casa.

Francisco Paiva de Carvalho nasceu em 1955 em Pará de Minas (MG), é bacharel em Direito, casado e pai de dois filhos. Tem poemas, contos adultos e infantis publicados em livros e jornais e venceu concursos promovidos pela Prefeitura de Pará de Minas, pelo Movimento Pitanguiense de Ação Cultural e pela Universidade de Itaúna. Recebeu menção honrosa em concursos literários das Academias de Letras de Divinópolis (MG), Araguari (MG) e Cachoeiro do Itapemirim (ES), além de outros. Publicou o livro Lua crescente (http://migre.me/twplt), em coautoria com o ilustrador Fernando Reis (Editora Novaterra, 2010) e o e-book “Meu irmão, meu amigo” (https://bit.ly/1Oiyyo4) (Selo Off Flip Editora, 2016).

A obra chega ao público ao preço de 20 Reais. 
Share:

DEBATE | Que percentagem de música local toca nas rádios?


DEBATE
1. Que percentagem de música local toca nas rádios? 
2. Porquê?
3. Que consequências da luandização da identidade musical?
Share:

Conferência de Imprensa | Academia Angolana de Letras contra ratificação do acordo ortográfico de Língua Portuguesa

A Academia Angolana de Letras (AAL) pediu esta quarta-feira ao Governo de Angola que não ratifique o Acordo Ortográfico (AO) de 1990, perante os “vários constrangimentos identificados” no documento, que necessita de uma revisão.

A decisão foi apresentada pelo reitor da Universidade Independente de Angola e membro da AAL, Filipe Zau, numa conferência de imprensa em que, pela primeira vez, a academia, criada oficialmente em Setembro de 2016 e que conta com 43 membros, tomou uma posição pública sobre o acordo ortográfico, apresentado em 1990.

“Recomendamos a todos os Estados [membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, CPLP] e ao Estado angolano que é necessário rectificar para que se possa ratificar”, disse à agência Lusa Filipe Zau. Segundo o docente, a academia, que tem como patrono e ocupante da “cadeira número um” o primeiro Presidente de Angola, António Agostinho Neto (1922- 1979), decidiu tomar posição após auscultar os seus membros. “Não estamos contra o acordo ortográfico em si, estamos contra este acordo”, sublinhou.

“Um número elevado de excepções”

No comunicado, a AAL apresenta um conjunto de razões para justificar a tomada de posição, destacando que, no âmbito dos pressupostos do Acordo Ortográfico de 1990, existe “um número elevado de excepções à regra” que, acrescenta-se, “não concorre para a unificação da grafia do idioma [português], não facilita a alfabetização e nem converge para a sua promoção e difusão” em Angola.

Por outro lado, a AAL lembra que o acordo “diverge, em determinados casos”, de normas da Organização Internacional para a Padronização (ISSO) sobre o conceito ligado à ortografia, além de “não reflectir” os princípios da UNESCO nem os da Academia Africana de Letras (Acalan) sobre a “cooperação linguístico-cultural com vista à promoção do conhecimento enciclopédico e de paz”. “Face aos constrangimentos identificados e ao facto de não ser possível a verificação científica dos postulados de todas as bases do AO, factor determinante para a garantia da sua utilização adequada, a AAL é desfavorável à ratificação por parte do Estado angolano”, lê-se no documento.

A AAL sublinha que, tendo em conta a contribuição de étimos de línguas bantu na edificação do português, o AO não considera a importância das línguas nacionais angolanas como factor de identidade nacional. “A escrita de vocábulos, cujo étimos provenham de línguas bantu, deve ser feita em conformidade com as normas da ortografia dessas línguas, mesmo quando o texto está escrito em português”, defende a AAL, entidade presidida pelo escritor Boaventura Cardoso e que tem Pepetela como presidente da mesa da assembleia geral.

A academia, sublinha-se no documento, constatou a necessidade de o AO ter de ser objecto de “ampla discussão” entre os vários Estados-membros da CPLP, considerando “indispensável” que se estabeleça um “período determinado para a análise, discussão e concertação de ideias” à volta do assunto. “Tem de se encontrar um denominador comum que permita harmonizar a aplicação do AO de 1990 em todo o espaço comunitário”, refere a AAL, recomendando “maior investimento” dos Estados num “ensino de qualidade”, quer em português, quer nas línguas nacionais, “como contribuição para a preservação” dos vários idiomas.

“Trouxe uma deriva arriscada”

Na conferência de imprensa, o presidente da AAL, Boaventura Cardoso, lembrou que, em Angola, a língua portuguesa é a oficial e é falada “mais ou menos em todo o país”, tendo-se tornado “materna” para grande parte dos angolanos, uma vez que 65% da população utiliza-a na comunicação diária, tal como revelou o último censo populacional de 2016.

Para Boaventura Cardoso, muitos dos problemas que se levantam e que constituem erros passam sobretudo pela ausência do AO de 1990 dos sons pré nasais, duplos plurais e de respeito pelos radicais das palavras que emigram das línguas nacionais para o português.
“Impõe-se, pois, rever esta situação e, no nosso caso particular, rever a questão da escrita da toponímia angolana, reassumindo os ‘k’, ‘y’ e ‘w’ na grafia da língua portuguesa”, sublinhou, exemplificando ainda com dois casos de sons pré-nasais. “‘Ngola’ ou ‘Gola’.

No primeiro caso, ‘Ngola’, trata-se do título do titular máximo do poder no contexto da língua nacional kimbundu. Sem o som prénasal, significa a parte superior de uma peça de vestuário. O mesmo se passa com ‘Mfumu’ e ‘Fumo’: ‘Mfumu’ significa ‘chefe’ nas várias hierarquias. Fumo significa o que de tal termo se conhece na Língua Portuguesa”, exemplificou. Para Boaventura Cardoso, o AO de 1990 “trouxe mais problemas do que resolveu”: “Trouxe o iminente risco de uma deriva arriscada que pode levar à desvirtualização da Língua Portuguesa.”

Dos nove países da CPLP, apenas quatro Estados ratificaram o acordo: Cabo Verde, Brasil, São Tomé e Príncipe e Portugal.
_____
Share:

Vídeo | Gociante Patissa, escritor na 2ª FLIPELÔ 2018, Bahia. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

Publicações arquivadas