PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

domingo, 26 de março de 2017

Homenagem | Panchita Coelho da Rua 11, musa até no jeito de partir

A coincidência de datas entre o nascimento e a morte de Esperança Lima Coelho Vilhena “Panchita” é de inspirar. Veio ao mundo há 89 anos num dia 25 de Março (fim-de-semana) e precisamente num dia 25 de Março, ontem portanto na cidade de Benguela, congelou o fôlego (de causas naturais). Imagina-se que tenha apanhado de surpresa familiares e mais próximos que preparavam o carinhoso bolo e a vela a apagar. Feliz aniversário, querida, dá lugar ao Adeus, paz à sua alma.

Há pessoas que marcam a história de emblemáticas cidades e se tornam figuras públicas pelo simples facto de existirem tal como são, inspiradoras. Uma dessas pessoas, falando de Benguela, é a beldade esperança Lima Coelho Vilhena “tia Panchita”, celebrizada pelo poema “Meu Amor da Rua Onze”, de Aires de Almeida Santos (Bié 1921 - Benguela 1992).

O poema, datado ainda da época colonial, quando ela morava na Rua 11 do Bairro Benfica, subúrbio, vigora aos dias de hoje, tão intemporal que a Banda Maravilha o musicou e por esta via vai dando corpo a versões e roupagem bwé.

“Meu Amor da Rua Onze” acabaria por constituir uma espécie de mistério, porquanto retrata um fulgurante romance reivindicado como facto consumado e desfeito por força-maior, o que no entanto a musa não viria a confirmar, repetindo em várias entrevistas que teriam sido ligados, musa e poeta, por nada mais do que uma relação de profunda amizade. Consta, como curiosidade adicional, que Aires teria (também de causas naturais) dado os últimos suspiros ao colo de Panchita. Não se conhecem, todavia, registos do poeta a dizer de sua justiça quanto haveria de verdade ou de pura ficção no poema. A este respeito, o que se pode, sem medo de errar, é afirmar que o poema cumpriu o seu papel enquanto obra de arte, o de perpetuar a inquietação na mente do leitor.

Para além de ser tia de um amigo e amiga de vários outros, nunca pessoalmente cheguei a um dedo de prosa com a “tia Panchita”. O único diálogo que tivemos ela e eu foi tácito, aquele olhar de anuência para a objectiva da minha máquina fotográfica, seguido de um já muito rouco “obrigada”, no passado dia 9 de Janeiro de 2017, quando concedeu o que julgo ter sido a sua última entrevista ao jornalista e escritor Kajim Ban-Gala. Antes disso, tinha ocasionalmente cruzado com ela pela cidade meia-dúzia de vezes, nos últimos tempos já acomodada em cadeira de rodas, rendida ao peso dos anos e da frágil saúde.

Foi-se um dos mais significativos (e raros) símbolos da literatura angolana. Nem tudo está perdido. Como li algures certa vez, "se um escritor se apaixona por ti, então tu jamais morrerás".
Gociante Patissa, 26.03.2017
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MEU AMOR DA RUA ONZE

Tantas juras nós trocámos,
Tantas promessas fizemos,  
Tantos beijos nos roubámos  
Tantos abraços nós demos.

Meu amor da Rua Onze,
Já não quero  
Mais mentir.  
Meu amor da Rua Onze,  
Meu amor da Rua Onze,  
Já não quero  
Mais fingir.

Era tão grande e tão belo
Nosso romance de amor  
Que ainda sinto o calor  
Das juras que nós trocámos.

Era tão bela, tão doce
Nossa maneira de amar  
Que ainda pairam no ar  
As vezes promessas, que fizemos.

Nossa maneira de amar
Era tão doida, tão louca  
Qu´inda me queimam a boca  
Os beijos que nos roubámos.
  
Tanta loucura e doidice  
Tinha o nosso amor desfeito  
Que ainda sinto no peito  
Os abraços que nós demos.

E agora
Tudo acabou
Terminou   
Nosso romance  

Quando te vejo passar  
Com o teu andar  
Senhoril,  
Sinto nascer  
E crescer  
Uma saudade infinita  
Do teu corpo gentil  
de escultura  
Cor de bronze  
Meu amor da Rua Onze.

(Aires de Almeida Santos)

quinta-feira, 23 de março de 2017

Crónica | O Soba é que disse

O Soba cá do bairro mandou um liga só. Logo hoje. Eu não mayei, liguei na hora para o vovô. Nunca se sabe se te cai uma fezada de ires à reforma em nome dele, andar a vida só em viagens e curtir, ou não é isso? Alô, paizinho Soba, ligou?Ele respondeu que ligou só através do coração, que queria mesmo era que eu fosse comprar saldo que era para ele ligar para mim, porque o assunto era muito sério para ser tratado pessoalmente. Que o melhor era mesmo falar pelo mobile. Eu disse paizinho, a chuva que te molha é a mesma que me molha. Já que o assunto é fonar, vamos gastar no meu, ainda, falando só mesmo em saldo, temos peito para tal. Ele disse, está bem já, pronto. Alô! Continuou o Soba do bairro. Estou na linha, excelência. Ó filho, estás mesmo a ver como a nossa vida está na lama da chuva, né? Não vês que até aparecemos no noticiário? Você fica já esperto, filho. Aqueles homens que lhes falam são jornalistas, quando estás a lhes ver estão a se acompanhar tipo é rato, uns com micro, outros com câmara, estão a te perguntar "afinal como é que foi?", assim você pensa que há alegria?... Nós então somos mais velhos, já vimos muito, pá! Até eu como teu mais velho não consigo sair para jantar na segunda mulher né? Estou a ver, papá. E aquele teu carrito tipo, altura tipo é cágado, é como? Ah, paizinho, é coisa leve, deixei o mambo na oficina a ver se lhe soldam boias de ar ou então asas. Estás maluco ou quê, filho?! Você não acha que com um cavalo tinhas a locomoção mais melhor? Ah, pois, mas não havia uma concessionária de cavalos, nem camelos, quando o dinheiro apareceu. Foste precipitado, filho! Mas pronto, agora é tarde. Viste ambulância passar aqui no bairro ou na rua hoje? Ainda não, paizinho Soba. Esquece. E kupapatas? Nem sombra. E energia? Tinha saído, nem sei responder. Ok, filho, prosseguiu o Soba. Já porque vocês são já os tais viciados das redes sociais, Facebook virou jardim para namorar, vou pedir um favor. É favor mas é ordem. Avisa só aqueles vossos amigos que cantam não sei se gospel ou quê - o nome me foge da boca, mas é parecido com cospe -, pois, lhes avisa mesmo bem. Que não me apareça um estúpido a me cantar, ah, porque "Faz chover, Faz chover! Abre as comportas do céu!" O povo não se vai responsabilizar, ouviste mesmo bem, né?! É tudo, paizinho Soba? Ainda era só isso. Obrigado.
Gociante Patissa. Benguela, 23 Março 2017

terça-feira, 21 de março de 2017

Utilidade pública | ALMIR AGRIA EM CAMPANHA PELA AQUISIÇÃO DE GERADOR ELÉCTRICO PARA A MÃE DE SEBEM

A ouvir neste momento na Rádio MFM Luanda, programa "Só as Melhores", o lobitanga Almir Agria promovendo campanha para recolha de fundos e consequente aquisição de um gerador de electricidade para a casa da mãe do ku-durista Sebem. Nas palavras de Almir, Sebem atravessa sérios problemas e está há um ano sem assistência médica, período que corresponde à data em que a esposa deixou ficar em casa da progenitora o autor de "todos nós queremos a felicidade". Almir faz referência a uma conversa que terá mantido em directo com o apresentador Miguel Neto ontem. Chega a fazer um apelo incisivo. "Atenção, Rei Helder! Tu fizeste muito dinheiro à custa de Sebem, vamos lá também ajudar o homem agora que tanto precisa".
Ainda era só isso. Obrigado
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Para alcance das metas na Jean Piaget de Benguela | NOVO DIRECTOR-GERAL RECUPERA “COLABORAÇÃO DE TODOS” COMO CHAVE

O recém-empossado Director-Geral do Instituto Superior Politécnico Jean Piaget de Benguela, Carlos Pacatolo, considerou ingente a função que lhe foi confiada por aquela unidade de ensino, onde irá superintender a vertente académica. Diz ter aceitado o desafio por acreditar que pode contar com a colaboração de todos, dos docentes, estudantes aos serviços de apoio, sendo esta a chave para o alcance das metas.

A tomada de posse teve lugar na segunda-feira, 20/03, durante a cerimónia oficial de abertura do ano académico 2017 e foi testemunhada pela comunidade piagetina, familiares, amigos e distintas entidades académicas e governamentais. Conferiu posse o Vice-Presidente da Associação Instituto Piaget de Angola (AIPA), Domingos Peterson. Pacatolo substitui no cargo o docente Bonifácio Tchimboto, que sai a seu pedido ao cabo de 12 anos para dar vida à coordenação científica do mesmo projecto universitário.

Há uma década ao serviço da então Universidade Jean Piaget Pólo de Benguela, onde foi subindo até ao posto de Coordenador do Curso de Economia e Gestão, Carlos Pacatolo atinge agora o cume. Passa a ter sobre os ombros a expectativa de melhorar ou ao menos manter os indicadores de prestígio daquela que reclama para si o título de maior instituição universitária privada da segunda região académica, que compreende geograficamente as províncias de Benguela e Kwanza Sul, e de ter lançado para o mercado de trabalho em 12 anos cerca de 2 mil licenciados.

Isto mesmo foi realçado no Discurso de Abertura do ano Académico pelo Administrador do ISP Piaget, Mário Rui Ferreira, que acentuou a relevância da investigação científica em prol do desenvolvimento da sociedade. Colaboração de todos foi igualmente solicitada à toda a comunidade para o bom êxito na era do novo Director-Geral.

Para o presente ano lectivo, estão inscritos 2 mil estudantes nos cursos de sociologia, psicologia, construção civil, enfermagem e obstetrícia, educação física, economia e gestão, análises clínicas, electromecânica, refinação de petróleos, entre outros.
Perfil

Carlos Barnabé Upindi nasceu há 39 anos no bairro do São João, Lobito. É casado e tem três filhos. Para além de docente universitário em Angola e Moçambique e analista político, é quadro da Administração Municipal do Lobito, onde exerceu as funções de Assessor do Administrador Municipal para questões políticas, económicas e sociais, desde Julho de 2010, e Coordenador para a Área Social das Campanhas de Vacinação Contra a Poliomielite em 2009; 

É mestre em Economia e Políticas Públicas no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) – Universidade Técnica de Lisboa (UTL), 2009-2011, tendo Vencido o Prémio de Melhor Estudante 2011, Quidgest Consultores, Lda. É licenciado em Ciência Política, variante Relações Internacionais pela Faculdade de Ciência Humanas (FCH) da Universidade Católica Portuguesa (UCP), 2007. É Pós – Graduado em Relações Internacionais Africanas na Universidade Autónoma de Lisboa, 2006; Bacharel (Licenciatura Curriculum de Bolonha) em Filosofia pelo Seminário Maior do Bom Pastor – Diocese de Benguela, 2000 (correspondente ao Iº Ciclo do Currículo Completo de Filosofia nas Universidades Pontifícias).
No sector voluntário, foi Coordenador e Formador do Grupo de Acção Social em África e Portugal da Universidade Católica Portuguesa (GAS – África), Outubro de 2003 a Abril de 2006; Responsável do Grupo de Voluntários do GAS - África em Guadalupe – São Tomé e Príncipe, de 29 de Julho a 24 de Setembro de 2004; Voluntário no Programa JUVEFER do Instituto Português da Juventude (IPJ) e Caminhos de-ferro Portugueses (CP), 2003 a Junho de 2004.

Gociante Patissa
Benguela, 21.03.2017
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segunda-feira, 20 de março de 2017

O bom do Silivondela no teatro

Tive hoje, pela segunda vez, o grato prazer de ver em palco Alexandre Silivondela no papel de actor. Já se passaram pelo menos uns cinco anos desde que assisti no Cine Monumental a uma peça teatral do Twayovoka, na qual ele desempenhou o papel de feiticeiro. Embora se tratasse, no caso de hoje, de teatro de intervenção, tendo como tema a abertura oficial do ano académico no Instituto Superior Politécnico Jean Piaget de Benguela, o homem voltou a fazer as coisas com notável mestria. Silivondela tem o que um bom actor deve ter: expressão dramática, clareza na dicção, projecção da voz (sem gritar), cultura geral e... naturalidade. De abono vai ainda o humor inteligente, o que não é para todos. Mano, resumindo e concluindo, você é BOM, ya!... Ainda era só isso. Obrigado.

Jean Piaget Benguela homenageia Director-Geral cessante | ANO ACADÉMICO 2017 ABERTO OFICIALMENTE HOJE

A cerimónia de arranque oficial do ano académico 2017, no Instituto Superior Politécnico Jean Piaget de Benguela, realizada na manhã de segunda-feira (20/03), foi marcada pela homenagem ao Director-Geral cessante, padre Bonifácio Tchimboto, que deixa assim, a seu pedido, um cargo que desempenhou ao longo dos doze anos de existência da instituição. Para ocupar a vaga foi nomeado o doutorando Carlos Barnabé Upindi Pacatolo, também docente da instituição, até então coordenador do curso de economia.

O Director-Geral cessante foi alvo de um banho de elogios e manifestação de carinho, presentes em vários discursos e intervenções de colegas, associação de estudantes, assim como de gestores da Associação Instituto Piaget em Angola (AIPA). 

Aos 50 anos de idade e quando, segundo revelou o próprio Tchimboto, julgava já ter chegado a altura de passar à reforma, viu-se desmentido pela administração do Instituto Superior Politécnico Jean Piaget de Benguela, que de imediato o desafiou a assumir outra missão: doravante passa a coordenar a área de Investigação Científica.
 
O evento durou pouco menos três horas e inscreveu no seu programa a oração de sapiência orientada pelo cientista social Paulo Inglês, antigo colega e actualmente radicado na Alemanha, um número de dança folclórica apresentada pelos Bismas da Acácias e ainda a animada peça teatral apresentada por um trio de estudantes piagetinos.

Gociante Patissa. Benguela, 20.03.2017

Divagações | NÃO HÁ VAGA PARA LEITURAS

Por favor, não peçam amizade via Facebook com a única intenção de me porem a ler (ou solicitar aprovação) o que se gostaria de publicar. A razão é simples: (1) não tenho autoridade académica de crítico literário; (2) as horas do dia estão cada vez mais curtas, estando difícil conciliar o emprego (numa área de actividade distante dos livros), a família com a obrigação individual de ler e escrever. Conselho: Aquele que escreve continue a escrever, e a ler principalmente, para aprimorar o fluxo criativo e o domínio da língua, que é a ferramenta de trabalho. Depois é arriscar em concursos e/ou submeter a editoras. Peço desculpas, sei que essa conversa já se torna chata, de tanto que a repito, mas diariamente entram mensagens neste sentido. Aproveitando para parafrasear um escritor renomado, a forma mais prática de dialogar com um escritor é lendo a sua obra. Portanto, amigos (novos e velhos), não tenho mesmo capacidade de resposta. Ainda era só isso. Obrigado
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Citação

"É perigoso ser-se sério muitas vezes neste país" (Bonifácio Tchimboto, docente universitário, Benguela, 20.03.2017)
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domingo, 19 de março de 2017

Diário | Tinta de jornal não prejudica?

"Você um dia vai ter já prolemas de mulher, ó coisa!..."
"Vou fazer mais como?!"
"Tudo o que te mandam só aceitas..."
"Afinal é o quê vocês?"
"Já viste?!"
"O quê?"
"Nosso patrão até lhe demos só já o nome de jornalista..."
"Fala muito?"
"Até não..."
"Desconta muito?"
"Também não até..."
"Escreve muito ameaça?"
"Até é filho alheio..."
"Então lhe deram nome de jornalista porquê o vosso patrão?"
"Ele basta só te ver com decote, amolga jornal e te manda meter na fenda das mamas. Oh, coiso! Tinta de jornal não prejudica?..."
Gociante Patissa. Benguela 19.03.2017

A propósito do dia do pai... Victor Manuel Patissa (Julho 1946 - Julho 2001)

Uma vida de utopias, um futuro que chegou em forma de deserto, um enterro solitário. O que sobrou, Camarada?...
Todo o antologista atravessa inevitavelmente a noite da exclusão. E vai sair. Dois meses

Homenagem ao mês da mulher | Bar Estrela “assaltado” pela arte e reflexão

Teatro, música, dança e testemunhos de histórias de superação profissional no feminino foram os atractivos de um sábado ecléctico no centro da cidade de Benguela, ontem (18/03), que juntou fazedores de arte e o público em geral na esplanada do Bar Estrela. O evento, a todos os títulos louvável por promover não só a consciência cívica, mas também a socialização entre artistas e a aproximação destes com o público em ambiente descontraído, foi uma iniciativa da organização denominada Núcleo de Artistas Independentes de Benguela (NAIB). 

Do menu do evento, destaque para o teatro que esteve a cargo do conceituado Bismas das Acácias, a dissertação em jeito de testemunho auto-biográfico de superação, partilhado por Mizé Balsa, uma empreendedora e mãe que regressou a Benguela em 2009, depois de uma década como emigrante na Europa, onde teve de aprender a trabalhar como empregada doméstica, distante do balcão de livraria ao qual estava habituada. 

Dissertaram ainda jovens como Hilaria Kalei (da Associação de Mães na Adolescência), Angelina de Sales (Nutricionista) e Mila Barato (1.ª Dama do Miss Catumbela). Nota positiva também para a dupla de apresentadores, designadamente Anaína Lourenço e Luís Epamba, que foram comedidos sem deixar de ser cativantes e criativos no improviso. Sabe-se que o segundo “Meteting”, como é designado o evento, está programado para o mês de Abril. O Blog Angodebates aproveita a oportunidade para encorajar o NAIB e seus parceiros no sentido de continuarem nesta senda. Ainda era Só isso. Obrigado. https://angodebates.blogspot.com/

Foto da semana | Mizé Balsa, empreendedora benguelense

sábado, 18 de março de 2017

Noite quente

Divagações​ | UM DIREITO INALIENÁVEL

Sua excelência eu, como quem tem os impostos pagos, está à espera que o executivo mande com urgência uma grua - empilhadora  também serve - para lhe levantar da cama. Viva a preguiça, um direito constitucional e (como dizem os juristas, já cheios de finuras no fato e gravata) inalienável. Ainda era so isso. Obrigado hahaha
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sexta-feira, 17 de março de 2017

Grande entrevista | PASSEI POR UMA VIDA CARICATA | Conheça a história de Job Sipitali, uma promessa distinta entre a jovem poesia angolana

Job Sipitali tem uma história de vida digna de narrativa. Aos sete anos viu o pai, a mãe e um irmão assassinados, durante a guerra civil, no município do Cubal, sua terra natal. Aos 22 anos, troca o interior pelo litoral da província de Benguela, atrás da vocação para o sacerdócio. Concluído o ensino médio, descobre que afinal ser padre não era bem o que queria para si no futuro. Abandona o Seminário para frequentar o curso universitário de linguística/português, mas os caminhos retornariam à Casa dos Rapazes: agora contribui dando aulas de literatura africana de expressão portuguesa e a cadeira de latim. Sereno, tímido, franzino e com uma articulação influenciada pelo umbundu, sua língua materna, Job Sipitali traz uma poesia concisa, proverbial e penetrante, enfim um material esteticamente pronto para saltar da gaveta para as páginas de um livro. O Blog Angodebates conversou com aquele que já foi membro do Movimento Lev’Arte e que há dois anos co-fundou a Associação Literária e Cultural de Angola (ALCA).

Texto e fotos: Gociante Patissa, Benguela, 17.03.2017

Blog Angola, Debates e Ideias (Angodebates): Onde foi que viveu a sua infância?
Job Sipitali (JS): No Cubal. Nasci em 1985. Passei por uma vida, digo assim, caricata no Cubal que me viu nascer. Fiz o ensino primário, o secundário, no mesmo município. Em 2007 saio de lá e tive essa oportunidade de entrar para o seminário, vi que tinha vocação. Fiz o seminário menor. Terminei o ensino médio, infelizmente, não quis avançar para a filosofia. Saí e fui para o ensino superior. Graças a Deus terminei e estamos para defender ainda mesmo no próximo mês.

Angodebates: Que curso seguiu? Sabemos que foi no ISCED, da Universidade Katyavala Bwila, certo?
JS: Certo. Fiz o curso de Linguística/Português, ISCED, que é ciências da educação.

Angodebates: Vamos voltar ao Cubal. Falou em infância caricata vivida lá. Que recordações tem da infância: momentos felizes e momentos difíceis?
JS: Eu tenho uma recordação difícil, por ter perdido os pais ainda aos meus sete anos. Digo que é uma vida caricata, por ter perdido mesmo os pais, isto é na guerra, e também o irmão mais velho, digo o primogénito. E [quanto] aos tempos mais felizes na infância, normalmente nós brincamos, assim como na igreja, igreja católica. Momentos mais felizes, também os estudos, que ajudaram bastante a entrar no mundo da literatura.

Angodebates: O que é ou como concebe a literatura?
JS: Eu concebo a literatura como o ponto subjectivo de cada um. Sim, cada um tem a sua visão de como funciona a literatura. A literatura é a visão ampla de cada um.

Angodebates: De que forma é que a literatura sempre esteve (ou não) presente na vivência da sua comunidade ou então está presente no dia-a-dia das pessoas?
JS: A minha visão é que a literatura não está tão presente. Eu vejo que não há muita entrega, por mais que eu tenha dito que a literatura está na subjectividade cada um, não há muita entrega à literatura. Há muitos jovens que se deixam levar, não se importam tanto com esse mundo da literatura que é tão benéfico, o que é perigoso.

Angodebates: Quando foi que se despertou em si o bicho do fazer poético?
JS: Depois de ter entrado no seminário. Acho que ali tive a oportunidade de ter essa ousadia, assim como pessoas amigas e alguns colegas que declamavam, que faziam teatro, apresentavam muita coisa. Mas também não foi assim de pé para a mão. Observava colegas a declamar e a escrever. Mais tarde tive mesmo a curiosidade de entrar neste mundo por um poema. Já não me lembro. É de um escritor angolano, acho que João Tala. Despertou-me bastante. Tive uma pequena imitação de um dos poemas dele. Começa com o verso “Há tempo para viver”, mais ou menos assim.


Angodebates: Olhando para o seu trabalho, nota-se que há um distanciamento em relação à tendência dos da sua geração. Normalmente, o que se vê são poemas longos, discursivos, com um ultra-realismo, que alguns mais velhos chamam “canta-lutismo”, aquela nota acentuadamente pessimista e declarativa, aparentemente sem grande labor estético. A poesia de Sipitali marca-se pela diferença. Nota-se um lado proverbial, um lado conciso, um lado profundo. Tem noção disso?

JS: Sim. Tenho noção. É a minha tendência – já definimos o que é a literatura, que eu disse que era a subjectividade de cada um. Então eu procuro mesmo distanciar-me daquilo que alguns escritores têem feito. Há muitos poemas longos. Percebemos muito bem que após o romantismo, cada um queria a própria liberdade de escrita. Eu procuro sintetizar as minhas ideias. Então posso mesmo ser chamado de poeta proverbial. Muito conciso. Assim procuro trazer mais ideias. Não gosto muito de me alongar.

Angodebates: Como ocorre o seu processo criativo? É daqueles que acham que só funciona tendo uma hora ou um lugar específico para criar?
JS: O meu processo criativo é mais de forma particular. A minha literatura não é essa de ficar a declamar. Eu escrevo para a vida. Aliás não tenho poemas para serem declamados, mas sim para serem publicados. Escrevo para todas as gerações. Não sou um imitador. Alguns poetas enganam-se tanto neste mundo da literatura e os seus poemas acabam por perder valor, porque a escrita é mais declamativa…

Angodebates: Mais espectáculo?
JS: Exacto! Mais espectáculo e ficar aí em muitos gritos. Não acho que a literatura poderia passar por ali. Então vamos escrever mais seriamente.

Angodebates: Quais são as suas referências criativas de modo geral?
JS: Tenho muitas referências. A primeira é Consulado do Vazio. É uma obra que me despertou bastante. Leio também, de modo geral, Luís Vaz de Camões. Leio algumas obras de João Tala, mas não é tanto. Gosto mais de [Adriano] Botelho de Vasconcelos…

Angodebates: É muito hermético. Muito complicado de descodificar. Concordas?
JS: Sim (risos). É um escritor muito subjectivo, mas gosto desses poetas que trazem assim uma literatura muito complicada para nós. Em Portugal gosto de ler Fernando Pessoa.

Angodebates: Para além da formação universitária, dedica-se à docência?
JS: Sim. Dou aulas de literatura africana de expressão portuguesa aqui no Seminário Médio do Bom Pastor. Também lecciono uma cadeira que é a língua latina. Aqui sou tradutor também. Mesmo neste momento, os alunos estão aí a traduzir.

Angodebates: O latim é tido por muitos como sendo uma língua complicada. Imagino que não seja essa a sua opinião?
JS: Não, não. Não é uma língua assim complicada. Talvez podia ser complicada para alguém que não tenha domínio de mais de uma língua. Aliás, os que fazem o Direito têem sempre alguns textos em que a base tem de ser o latim.

Angodebates: Quantas línguas domina?
JS: Domino duas. Como a língua materna, o umbundu; segunda língua, o português.

Angodebates: Dá aulas cá de literatura africana de expressão portuguesa. Gostaria de ouvir a sua visão do panorama da literatura feita no espaço de língua portuguesa.
JS: Falar sobre a literatura de expressão portuguesa no espaço africano, aborda-se mais a literatura antes das independências. Então a temática está sempre em torno da liberdade, assim como os textos de José Craveirinha, “Eu sou Carvão”; outros poemas de Agostinho Neto. Essa poesia antes da independência tem simplesmente uma [temática] que é a luta, que é de combate. Por isso é que os textos têem uma temática mais modernista, que é a objectividade, não tanto a subjectividade. São textos que nos levam mais a perceber o que é que ocorreu no passado. Após a independência, já temos textos mais um pouco subjectivos, por mais que alguns escritores ainda estejam com o passado.

Angodebates: Ao referir-se mais aos autores das décadas de 50, 60, 70 (séc. 20), isso tem apenas a ver com o tempo que a academia leva para escrutinar que obras ensinar, ou porque acha que a produção de lá para cá não foi promissora?
JS: A produção não tem sido tão promissora porque houve uma fase em que escritores angolanos [negros] não podiam chegar ao público; era uma literatura assim fechada. Graças a alguns intelectuais que foram estudar a Portugal e criaram a Casa dos Estudantes do Império, que trazem a nova literatura angolana. Sabemos que a própria nossa literatura dita escrita começa em 1950, senão 1948. Antes disso, a literatura mostrava mais os feitos dos portugueses. Então é esse preconceito que nós temos.

Angodebates: Olhando ainda para a literatura de expressão portuguesa no nosso continente africano, e em Angola, o que é que você gostaria de ver melhorado? Que aspectos é que em seu entender não estão tão bem?
JS: Eu teria começado por uma citação da obra de Mia Couto: “E Se Obama Fosse Africano?” Lá aborda alguns preconceitos hoje. Fala dos sete sapatos sujos. A ideia de que os culpados são sempre os outros e nós somos sempre vítimas. O que não está bem actualmente, há um processo que eu chamaria de permissivismo; hoje a sociedade angolana permite tudo. O que não está a ser abordado é a questão da cultura, a língua. Há muitos jovens que se perdem, não gostam de assumir que são angolanos. Eu não queria citar aqui alguns que já perderam até a sua cor. É mesmo a perda de valores culturais e a própria língua, que é uma identidade humana.

Angodebates: Vamos voltar uma vez mais ao seu trabalho. O seu devaneio criativo ou a alma de poeta flutua mais no espaço urbano ou rural, uma vez que você tem estas duas experiências de vida?
JS: A minha literatura flutua também no campo urbano, mas é mais no rural. Tenho alguns traços por ter vivido entre o rural e o urbano. Então revelo recolhas de lá, mas como estou a viver mais na cidade, olho mais para os comportamentos sociais. Há também alguns livros que me trazem ideais que possa descrever nos meus poemas.

Angodebates: Como falante de umbundu, eu arriscaria em dizer que há um diálogo intenso e permanente na sua literatura com a tradição oral. Concorda com isso?
JS: Concordo. Por ser proverbial, há sim! Há alguns traços intensos nos meus poemas.
 
Angodebates: Considera o seu trabalho de poeta como sendo influenciado pela sua faceta de tradutor?
JS: Sim. Em todo o meu trabalho há sempre traços de tradutor mesmo (risos). Há uma interferência linguística. Nos meus poemas há sempre esses traços.

Angodebates: Livro ou disco? Qual seria o formato ideal para divulgar a sua obra?
JS: A minha literatura, nos meus pensamentos, não gostaria que passasse pelos discos.

Angodebates: Tem algum trabalho publicado ou participação em alguma antologia?
JS: Não. Também ainda não estou em nenhuma antologia. Houve uma em que iria participar quando fazíamos parte do Movimento Lev’Arte. Tenho sempre esse sonho.

Angodebates: A minha experiência de quem andou no sector da sociedade civil e viu muitas associações e redes nascerem e morrerem, leva a reflectir que em muitos casos, tais iniciativas não vingam porque não há uma convergência de interesses. Isso se coloca no caso dos movimentos e associações literárias? Ou seja, acha que os membros quando se filiam a estas associações e movimentos literários têem uma noção clara do que esperam receber e do que podem dar?
JS: Sim. Há. Todo o jovem que se junta a uma associação, espera receber alguma coisa. Muitos gostam mais de receber do que de dar, e as associações morrem por causa disso. A juventude gosta de formar essas associações, mas depois não cumprem.

Angodebates: Alguns jovens procuram ser escritores por via da associação. No seu caso particular, ao filiar-se a uma associação, o que é que espera dela?
JS: O que eu espero da associação não é simplesmente que os nossos textos sejam publicados. Um dos objectivos da nossa associação (ALCA) é publicar. Mas quem entra só por isso, quando vê que as suas obras não estão a ser publicadas, a tendência é de sair e buscar tocar mais em outras pessoas para esse fim, o que tem levado também tempo.

Angodebates: A publicação de livros tem uma vertente logística. Que apoios você considera que deveriam existir e vindos da parte de quem?
JS: Para alguns, o apoio é só moral. Mas acho que o estado devia apoiar, porque alguns empresários dão algum apoio, só que a literatura não é o campo deles.

Angodebates: No seu poema “…A Gramática E A Zungueira…”, dois versos despertam atenção. Um diz “Corrige-me o sofrimento não a gramática”, o outro diz “Corrige-me tudo, menos o pensamento”. Será a reafirmação da sua solidez cultural e identitária, ou será por eventual medo de ser mal interpretada sua voz de poeta?
JS: É para dizer que eu sou firme na minha dimensão cultural. “Corrige-me tudo, menos o pensamento”. Cada ser tem aquilo que lhe apraz, do fundo da alma. E hoje existe muito [preconceito] da própria interferência linguística de que já falei; alguns dizem ‘estão a errar’, mas há um traço cultural. Portanto, a entrada de uma outra língua não nos pode trazer, digamos assim, escândalo.
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…A GRAMÁTICA E A ZUNGUEIRA… 

Corrige-me
o destino
não o pensamento.

Corrige-me o sofrimento não a gramática
que gosta de comer bem com os verbos e esquece-se dos
pronomes personificados, dos pratos típicos e quentes da sintaxe.

Corrige-me a palavra,
não a polissemia que gosta de ser híbrida.
Corrige-me tudo, menos o pensamento.

…O MITO DA COR…

Toma-se a cor pela palavra.
A garganta enriquece-se
de mitos nocturnos.

A fogueira evoca os espíritos,
enquanto a lenha se prolonga
esperando a verdade.

Mente quem conhece a
história do pescador de palavras.
E eu sou balaio que se estende ao silêncio.

…À PROCURA DE IDADE…

Como se prepara a imortalidade?
Pede existência aos pais.
Fica doente e não procures saúde,

mas viaja para ela se alegrar.
Toma o que quiser.
Pronuncia Humano no silêncio.

Agora vai ao hospital.
Morre no banco de urgência.

Atingiste a idade (a confissão diária).
Job Sipitali

quarta-feira, 15 de março de 2017

Citação

“Na base de toda a forma de cultura está a linguagem como sistema de símbolos verbais indispensáveis à comunicação entre os homens” (Alberto Manuel Machado, in «A Palavra e a Diferença», 1986, pág. 160. Porto Editora. Portugal)

terça-feira, 14 de março de 2017

Entrevista | Gociante Patissa: Em Angola línguas nacionais tem um "status" secundário | Áudio | Acaba de sair a SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA QUE CONCEDI À RÁDIO VOZ DA ALEMANHA DURANTE A PRESENÇA NA FEIRA DO LIVRO DE FRANKFURT, ao microfone da repórter Nadia Issufo

Política linguística deve ser revista para dar um estatuto as outras línguas nacionais, reivindica escritor e linguista Gociante Patissa. Para ele, promoveu-se o português e descurou-se das outras, promovendo a exclusão.
E o seu primeiro prémio, enquanto escritor, deveu-se ao empenho na divulgação do Umbundo, sua língua materna. A DW África conversou com o escritor angolano sobre a política linguistíca em Angola.
DW África: É linguista e o seu primeiro prémio deveu-se ao seu empenho na divulgação do Umbundo. Alia sempre a sua formação às suas obras?
Gociante Patissa (GP): É inevitável por um lado. Por outro lado, sou um ser insatisfeito em relação à questão da política linguística em Angola. Penso que criamos um monstro chamado língua portuguesa e descuramos do resto. E às vezes compreendo, penso que houve uma necessidade  ao longo dessas décadas de conseguir um equilíbrio enquanto nação, fazendo desse conjunto de nações uma só, já que por detrás da língua há outros fatores. Mas é altura de repensarmos, há pessoas que vão nascer, crescer  e morrer sem lhes fazer falta a língua portuguesa. Então, uso as técnicas científicas para ao meu nível promover a minha língua, o que é difícil porque temos ainda o problema da dualidade de grafias. Não entendo porque uma língua tem de ter duas grafias diferentes, vamos falar da colonização e da igreja, mas as línguas são anteriores a colonização e a igreja. O católico e o protestante falam a mesma coisa, mas quando chega a hora de codificar codificam diferente. Isso depois tem como consequência o desencorajamento da produção em línguas nacionais, como é que vão ler?
DW África: Ainda sobre a política linguística em Angola, no que se refere a promoção das outras línguas nacionais o que gostaria de ver melhorado?
GP: Muita coisa, primeiro é a questão da política do Estado e o Estado tem de assumir isso, mais do que tem feito até agora. Sei que há um estudo de harmonização. Em 2012 fui entrevistado por uma jornalista inglesa e soube através dela que tinha sido encomendado um estudo a um académico africano para a harmonização ortográfica das línguas de matriz Bantu. Até hoje, volvidos 20 anos, não se sabe pelo menos o ponto de situação. Depois é a maneira como se olha [para elas], o status secundário é atribuído as línguas nacionais. O jornalismo, por exemplo, é feito em língua portuguesa, mas quando se fala em jornalismo em línguas nacionais na verdade não é jornalismo, é tradução a quente do texto em português e as deturpações que disso advém. Portanto, é preciso dar as línguas os estatutos que elas merecem. Tem de se fazer muita coisa, estou a reclamar do Estado porque ele é o decisor e quem superintende ao nível macro as políticas. Mas depois há também há questão do cidadão, por exemplo, na rua, eu falo muito bem o umbundo melhor até que o português, se eu saudar uma varredora de rua [em umbundo] ela me vai automaticamente responder em português, porque ela interpreta que lhe estou a desqualificar. Naturalmente há algumas províncias que dão algumas expetativas, eu gosto de ir ao Humabo, lá há menos complexos do que há em Benguela e em outras províncias, mas ainda assim não satisfaz. É preciso dar um suporte a isso. Por dia a televisão tem cerca de meia hora de noticiário em umbundo, o que é meia hora? É nada.
GP: Não, não gosto porque tenho estado a ler muito e leio um autor cubano que se chama Ignácio Virgil?? que diz que a rádio deve transmitir a vivência da comunidade. E atualmente penso que o conceito de rádio é um pouco elitista e de exclusão, faz-se muito o trabalho de estúdio, fala o artista, fala o empresário, fala o comerciante, fala o governante e às vezes fala o académico, [mas] o cidadão comum não fala para a rádio, a não ser que tenha saldo para o telefone ou que tenha cometido um crime e queira prestar contas a sociedade. Eu gostaria de ter uma rádio mais virada para a integração, para a promoção cultural, uma rádio onde a pauta informativa não relegasse para o fim do noticiário, por exemplo um evento cultural. Temos rádios especializadas no desporto, poderíamos pensar em rádios especializadas na cultura. Já há um jornal, infelizmente é quinzenal e tem uma circulação bastante complexa e limitada. Gostaria de uma rádio, mas não banal, que saiba ser o rosto da comunidade.DW África: No seu percurso houve também uma passagem pela rádio, aliás, o que também transportou para a sua escrita. Gosta da forma como se faz rádio em Angola?
DW África: Há no seu país uma restrição considerável no que diz respeito a abertura de rádios. Com vê isso no contexto do acesso a informação e da liberdade de imprensa?
GP: Deixei de fazer jornalismo há alguns anos, então não estou tão inteirado sob o ponto de vista dos "dossiers" do assunto e é um pouco arriscado tecer comentários mais profundos quando a gente não está tão familiarizada com os assuntos mais recentes da área. Mas eu acho que é complexo, pelos debates que vou acompanhando o quadro que se avizinha não é muito bom porque primeiro mata a figura do freelancer. Doravante fazer jornalismo significa pertencer a uma empresa, isso faz com que a subserviência seja ainda maior, porque se você for minha diretora e eu refilar consigo automaticamente eu deixo de fazer jornalismo. E outra coisa, havia uma esperança de abertura de rádios comunitárias e penso que no atual figurino as rádios ainda não forma contempladas. Então, o que vai acontecer, vamos ter uma relação muito tensa entre o profissional as entidades empregadoras, penso que não é um quadro muito bom. Era bom ouvir o outro lado também, temos estado a ouvir o outro lado das pessoas que são contra o espírito da nova lei, então era bom ouvirmos o outro lado e percebermos os seus fundamentos. Mas penso que o quadro que se avizinha não é de todo próspero.
DW África: Tem um blog ou dois?
GP: Tenho dois, o Angodebates, que generalista e o Ombembwa, palavra umbundo que significa paz. Inicialmente [este último] era para ter mais conteúdo de natureza linguística, mas não tenho tido muito tempo para fazer pesquisa, então é mais passivo que o Angodebates.
Frankfurter Buchmesse, Gociante Patissa, Schriftsteller aus Angola
Alguns livros de Gociante Patissa
DW África: Os seus blogues são uma plataforma para o seu mundo literário?
GP: Sim, mas agora há uma inversão, quando começou o maior número de leitores era de Portugal, Brasil e só depois de Angola. Depois houve uma inversão, penso que há duas variáveis: uma é que houve melhorias em Angola no acesso a internet, não podemos negar isso, e por outro lado penso que passou a haver também maior interesse para o consumo interno dos blogues. E é interessante porque essa inversão surge numa altura em que já há o Facebook e outras plataformas que poderiam distrair. E os meus blogues, tal como o Facebook acabam também por divulgar a minha obra em quanto escritor, Vou lá colocar fragmentos, há contos que na verdade evoluem de crónicas, é uma estrada de dois sentidos.
DW África: Homem de muitas paixões, já vi que não se separa da sua máquina fotográfica. Fale-nos desse mundo também...
GP: Vivo profissionalmente numa área que não gosto, acho que nunca gostei e nunca vou gostar. Respeito e tenho uma atitude profissional, mas se não faço arte eu expludo. Trabalho há quase dez anos na aviação, não é uma área que me apaixona, não sou hipócrita e não finjo que me agrada. Tenho bom emprego, mas em termos de  natureza da atividade não é o que gostaria [de fazer]. E isso empurra-me com cada vez mais energia para aquilo que eu gosto. A minha ligação com a fotografia tem também a ver com a sobrevivência, quando aos 15 anos precisei de arranjar emprego para pagar os meus estudos na sétima classe fui bater a porta a uma casa de fotografia, penso que já havia uma relação. Então aprendi a fotografar, mas numa perspetiva mais comercial, mas ao longo desses anos sempre fui fazendo fotografia de autor e nos últimos tempos, com um pouco mais de recursos, fui evoluindo. Faço umas mais documentais e outras artísticas, é uma paixão muito grande. Acho que no futuro, na reforma, eu já a andar de bengala vou dedicar-me só a fotografia.