PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

CITAÇÃO

"Os melhores poetas estão atados à terra. Eles vivem vidas comuns e utilizam roupas comuns. Eles andam incógnitos por aí, ainda assim olham para o mundo com olhos atentos. Seja preso em uma reunião ou cruzando uma rua da cidade, eles cultivam as suas habilidades de observação. Eles olham e então olham novamente, sabendo que lá deve haver mais." (Chris Orwig, in Poesia Visual-um guia para inspiração e criatividade fotográfica. Pag 34. 2010. Alta books, rio de Janeiro. Brasil)

domingo, 29 de dezembro de 2013

Ensaios: Longa exposição espreitando palmeira do outro no terraço do guetto

(sem edição. Exposição manual, NIKON D3100, F/11, ISO-100, 25". Tirada às 19h18, 29.12.2013)

Divagações de um escriba que sonha

Meu grande sonho, desde que se revelou a aptidão para a escrita, era passar por uma livraria e ver livro com meu nome na vitrina. Foram precisos 12 anos até isso acontecer. Seguiram-se outras conquistas (algumas, confesso, dependeram muito mais de eu ter sido achado do que da minha pró-acção). Hoje, o meu maior sonho é ser entrevistado por alguém que tenha já lido o livro que representa objecto da conversa. É que, tendo passado por incontável número de entrevistas nos mais diversos órgãos de comunicação social, continua a registar-se de forma recorrente a mais difícil das perguntas que um escritor tem de enfrentar, quanto mais não seja porque há sempre a preocupação de disponibilizar à imprensa um exemplar de cada livro por publicar. A pergunta que realmente me desconcerta (levantada muitas vezes por quem está com o livro há mais de uma semana) é: "Qual é o título do livro?"

Vestiu-se de vazio a praia. Restinga, Lobito, manhã de hoje

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Contos da nossa Terra: QUANDO O LEÃO TEMEU O FIM DO MUNDO

Foto de autor desconhecido
Como a estação chuvosa tinha sido fraca, a aldeia vestia-se de carência. Pirão de milho ou de bombó à mesa? Quanto luxo! O povo comia mesmo era pirão de batata-doce, jocosamente conhecido por alcatrão, dado o tom castanho torrado.

Para piorar as coisas, o frio tem o hábito de tornar a rama (folhas de batateira) amarga, de sorte que pouco sabia para conduto. Infelizmente, o caudal do rio andava perto de seco, tornando impossível a pesca continental. O talho do velho Mango até tinha alguma carne, mas só para os ricos, nada tendo de valor os aldeões comuns com que permutar.

Entretanto, é em tempos difíceis que os actos de bravura mais se evidenciam. E para desafiar a crise, lá os homens todos da aldeia decidiram realizar a caça colectiva. Uns ateavam fogo ao capim, outros agitavam os animais escondidos, enquanto os demais empunhavam flechas e azagaias, ajudados por cães – cujo tributo não passava de osso limpo e míseras tripas, quando sobrassem. A carne devia ser repartida em iguais porções. Festejava-se cada regresso, não tanto pela quantidade, mas porque a aldeia via na caça uma escola de transmissão de valores e costumes entre gerações.

Mas houve alguém que achava que, caçando só, mostraria mais valentia. Além do mais, como não teria que dividir a carne, mesmo que abatesse um só coelho, bem chegaria para uma refeição com a família. Chamava-se Kameia. Foi então que, em mais um dia de caça, Kameia foi espreitar na sua “etambo” (cubata dos espíritos) para agradecer aos antepassados. Deixou lá ficar uma bola de pirão e, já cumprido o ritual, seguiu.

A mata estava mais calma do que o habitual, só os pássaros ofereciam a sinfonia natural ao vento. Não se viam borboletas. De repente, Kameia ouve um barulho, olha à sua volta e vê um tigre. O bicho procurava escapar da perseguição de um leão que estava decidido a matar o inferior hierárquico para não morrer a fome. O caçador, em pânico, não acabasse ele em ementa para os bichos, agarrou-se à mais alta das árvores ali perto. O tigre, desesperado, fez o mesmo. Só depois de atingir o topo, o tigre notou que um pouquinho abaixo estava um homem agarrado a um galho. Como o leão não podia trepar, deitou-se ao pé da árvore, certo de que o cansaço e a fome fariam a presa descer.

Depois de se acalmar, o tigre concluiu que, fazendo cair o homem, o problema do leão estaria resolvido. E começou a pisá-lo na cabeça, cada golpe mais violento que o outro. Mas o homem tinha o medo para resistir. Enquanto isso, o leão, sem pressa, já lambia os bigodes antecipadamente, imaginando o bom apetite que teria ao degustar o tigre.

Cada vez que olhasse para baixo, o tigre empurrava com mais força ainda o caçador que, em retaliação, cortava o galho onde estava pendurado o tigre. A cena repetiu-se até que o galho cedeu. Caíram o galho, o tigre e o Kameia para o chão. Tão grande foi o estrondo da queda, que o leão julgou tratar-se do fim do mundo. Inconsciente, desatou a fugir. Mas não fugiu só ele, fugiram também o tigre e o caçador.

Moral: Para cada corajoso, o seu medo.

Adaptação de Gociante Patissa, recolha de Amós Patissa. Publicado inicialmente no Boletim “A Voz do Olho” Veículo Informativo, Educativo e Cultural da AJS (Associação Juvenil para a Solidariedade). Lobito, Dezembro/2007

Benguela, noite de Natal


quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

CITAÇÃO

"As grandes dores não se definem nem se falam delas, sentem-se apenas" - Cardeal Alexandre do Nascimento, In «Caras e Vidas», TPA 1, Luanda. 25/12/13

Extractos

Nadir Ferreira: "Foi professor?"
Cardeal Alexandre do Nascimento: "Sim, da casa das Beiras."
Nadir Ferreira: "Há pessoas, hoje na sociedade, de quem se lembre e que foram seus alunos?"
Cardeal Alexandre do Nascimento: "Sim, muitas."
Nadir Ferreira: "Quais?
Cardeal Alexandre do Nascimento: "Não, não digo."
Nadir Ferreira: "Não?"
Cardeal Alexandre do Nascimento: "Não me quero dar uma importância que eu não tinha."

In «Caras e Vidas», TPA 1, Luanda. 25/12/13

Momentos. Baía Azul, um dia destes


CITAÇÃO

"Os ideais não se compram; eu não tenho muito a dizer" (Rei Loy)

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Crónica: O FAMÍLIA E O CONTERRA

Finalmente, aqueles dois profissionais, conhecidos pelo antagonismo em literalmente tudo, deixavam de discordar em alguma coisa: andavam ansiosos, muito, direi. A viagem ia ser longa, não em termos de chão necessariamente.

Família entende um pouco de francês, o Conterra de inglês. Complementam-se no novo e excitante emprego, desistentes do sombrio posto de professores mal reconvertidos, isto é, com salário abaixo do previsto para o seu escalão. Integram o denominado “Staff do Don Acidente”, ku-durista que transborda prestígio, tanto que – se dependesse do culto à irreverência – seria o embaixador da cultura angolana.

Don Acidente é já de uma vasta experiência em tournées, ao contrário do Staff, particularmente o Família e o Conterra, que tinham nessa ida ao Natal Colorido da Bahia a sua primeira viagem de avião. Logo, iam recebendo do patrão pontuais lições de etiqueta no showbiz, que tinha como fundo a afirmação da grandeza angolana. “Vocês, lá, num’valapena esse respeito de boelo, ya? Os brazucas não podem esquecer que o Samba veio do Semba”, vivia repetindo o patrão. “Têm que mostrar peso, senão nos metem estatuto abáuti. Quê que vai dar? Esses wí na banda vão-nos bifar”. E como abominavam voltar ao emprego antigo, o Conterra e o Família acataram.

No aeroporto 4 de Fevereiro, os cartões de embarque. “Xê, Família, nós, licenciados, vamos na económica; ele e os bailarinos vão na executiva?” A réplica foi automática. “Isso não conta, Conterra. São ku-duristas, gozam de imunidades.” E o Conterra disse: “Claro. Nós somos Staff. Quando eras prof., a tua licenciatura te deu alguma coisa?”

Na madrugada de Natal, desembarcavam em Salvador, depois de uma escala no Rio de Janeiro, onde passaram três horas, muito bem aproveitadas para a demonstração do peso. Don Acidente conseguiu pôr os brasileiros que o contrataram de patas para o ar, ao exigir churrasco de galinha com pai e mãe. “Me fala só, Família, era mesmo necessário aquilo?” Como sempre, o Família retrucou: “Você, lá em Angola, gosta de frango?” E o Conterra: “Gostar, não gosto, né?, mas não vomito". E de novo o Família: “Meu mano, você não liga só; esses madiês gozam de imunidades, são ku-duristas.”

Atendida a exigência de lhe cuidarem do cansaço no Hotel, a garota de programa (nome requintado para prostituta) exigiu duzentos Reais, para a reacção intempestiva de Don Acidente. “Estás a brincar ou quê? Em Luanda, um gajo paga saldo do telefone, jantar, bebedeira para os sogros, roupa de boutique, cabelo brasileiro, e você só pede cem USD? Toma lá mil dólares, pá.” E lá a rapariga arrecadou dez vezes mais.

Como prevista, no palco montado na orla, a noite foi escaldante. No êxtase do palyback, Don Acidente baixou as calças. “Aquilo não é atentado ao pudor?”, intrigou-se o Conterra, o que o Família abateu: “Qual pudor, ó meu? Mete na cabeça que são ku-duristas, gozam de imunidades!” Mas o Conterra insistiu: “Ouviste aquele absurdo do patrão: eu sou gay, mas não homossexual?” Família simplesmente não respondeu.

No dia de regresso, foi o próprio Conterra quem surpreendeu o grupo ao exigir, o mais desordeiro que pôde, à mesa do restaurante um boi no espeto.

Gociante Patissa, Benguela 24 de Dezembro de 2013 (PS: pura ficção)

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Estrela vegetal


Tribuna da Equimina

Fotografei esta tribuna por fotografar no dia em que resolvi visitar a comuna da Equimina. Dias depois fiquei a saber que foi construída há por aí 20 anos durante o mandato de Victor Manuel Patissa como comissário/administrador. Era dali que mandava as bocas ideológicas e as promessas (certamente muitas delas não cumpridas hahahhaha). Por acaso não sabia e se não for destruída futuramente, passa a ser um pedaço importante para os que ficaram. As pessoas passam, as obras ficam.

Voltando ao inquérito preliminar (que mais parece definitivo) a respeito da queda do voo da LAM em que 33 pessoas morreram

No noticiário da uma da tarde da Rádio Nacional de Angola surgiram mais dados a apontar para a "intenção clara de despenhar o avião" da parte do comandante Hermínio Fernandes, alegadamente como consequência de factores psicológicos recentes em sua vida, sendo a morte de um filho e a separação marital. E a "novela" segue.

Diário benguelense

Se ainda restassem energias para acreditar nas boas intenções de político/governante, embalava no discurso mais recente de Isaac dos Anjos, governador provincial de Benguela, em entrevista à TV Zimbo e retransmitida pelas rádios locais. O homem falou, entre outras coisas, em projectos de construção para minimizar as assimetrias, realçando (até que enfim) o contraste entre a magnitude da ponte da Catumbela e as condições periclitantes (palavras dele) de muitos populares bem perto. Mudar isso, disse, não é tão difícil. Falou também em combater vícios como o negócio de terrenos nas administrações (Lobito foi o exemplo). Agora, como e quem vai fiscalizar, não foi dito. Quanto a mim, desde que se esclareça cada passo a tomar, sai a sociedade a ganhar, a começar mesmo por se saber, quanto a centralidades e terrenos a lotear para auto-construção, quem é a empresa que vai trabalhar nesse processo de talhonamento, onde tem sede, que competência tem no ramo, quem é o dono e como foi seleccionada.

sábado, 21 de dezembro de 2013

O teste da banheira

De autor desconhecido

Feliz Natal a todos e todas e, já agora para quem bebe, é favor ir pedindo com com cada copo aquele petisco chamado moderação.

A Sociolinguística do pão

Uma das coisas que marcaram a minha escolaridade foi a observação dos fenómenos sociais ao longo da caminhada entre a casa e a escola, cujo campo equivalia aos cerca de 15 km diários a pé. E foi a estudar na Catumbela que muitas vezes reparávamos como nossos colegas não abandonavam as filas da padaria, mesmo que em causa estivesse o horário das aulas. Não se imaginava, creio, um dia bom que não começasse por degustar o bíblico produto da farinha. Se hoje já há uma vasta oferta, com a substituição de fornos à lenha pelos eléctricos, nem por isso se afectou a hegemonia do pão. A tendência das crianças, por exemplo no litoral de Benguela, é classificar matabicho (entenda-se pequeno almoço em Portugal, café da manhã no Brasil) o pão, com chá ou com leite. De manhã, ouvimos crianças dizerem que não matabicharam; só comeram papa, ou arroz de ontem. Anteontem, outro exemplo, um menino que voltava da casa da madrinha às 19 horas disse que tinha acabado de matabichar, quando na verdade jantou foi leite com... pão.

Gociante Patissa, Benguela 21.12.13

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

E vai ao mundial?

Contos da nossa Terra: UMA VIDA SEM VIZINHOS?

Sobre vizinhança já se falou muito. Ora vizinho supera família, ora só é bom quando não atravessa o muro. É bem um daqueles temas de debate eterno, como o bem e o mal. Via de regra, estão em causa o conflito, o boato, a dívida, a intromissão em assuntos familiares e, já nos últimos tempos, o barulho da música ou do gerador da casa ao lado. Não teríamos mais paz vivendo sem vizinhos? Você já pensou nisso algum dia?

Havia um homem chamado Ferramenta que um dia resolveu realizar um sonho antigo: livrar-se dos vizinhos. Mas como? Foi na procura desta resposta que dedicou bons anos de sua vida a trabalhar duro, poupando ao limite o pouco que conseguiu durante quinze anos. Assim, a esposa só tinha que ir ao salão para tratar da beleza – evitando os dedos da vizinha que ganhava mais um mexerico pela trança; os filhos tinham computador, telemóveis, Internet e todo o aparato possível para fazerem amigos, escusados do entra e sai da vizinhança. Reuniu todo o equipamento de limpeza e higiene possível, deixando para sempre de precisar de mobilizar vizinhos para campanhas de limpeza.

Que não seja possível escolher os pais, avós, irmãos, tios, etc., que gostaríamos de ter, isso é algo com que temos de nos conformar. Cada um nasce e assume os restantes graus de parentesco, como o manda a lei da árvore da família. Não há como escapar. Mas nada mais o irritava do que as refeições atrasadas porque a esposa foi à prosa, os filhos da casa ao lado com lugar cativo à mesa, ou os olhos da rua por cada artigo de valor que o vissem trazer para a casa. Ou não se incluíssem na extensa noção de família alargada do africano Bantu os para-familiares indirectos que são os vizinhos.

Uma vez reunidas as condições, foi ao deserto viver. Casa projectada no isolamento, como sempre quis – sem vizinhos! A distância era por aí quinze quilómetros do seu antigo bairro. Tudo o que se ouvia à volta era o assobiar dos pássaros, o soar do vento e, enquanto tardava o jardim crescer, deleitavam-se observando a variedade de bichos. A vida tinha melhorado, e de que maneira! Afinal, quem é que não gosta de sossego?! Viviam uma paz perfeita até um dia ser invadido por antigos vizinhos numa onda terrível de violência. Do tipo, espancar primeiro, perguntar depois. Tudo porque uma águia que sobrevoava o antigo bairro resolveu roubar um bebé que descansava ao pé da árvore. E então os moradores da aldeia decidiram segui-la. Um tempo depois, e já cansada, a águia decidira largar a presa. Só que – vai-se lá saber porquê – o bebé foi pousar exactamente no território da nova casa do senhor Ferramenta.

– Pois então – indignaram-se os antigos vizinhos – mudaste de bairro é para roubar bebés alheios usando águias? Seu feiticeiro do raio!

Pouco tempo e forças teve o velho Ferramenta para se defender. Sobre ele pesava – e ao que parece para sempre pesará – a incisiva acusação de o isolamento ser só um pretexto para o roubo de recém-nascidos. O grande desafio passou a ser como convencer a sociedade do contrário, já que… querendo ou não, viver é ser vizinho.

Adaptação de Gociante Patissa, 27/05/06. Publicado inicialmente no Boletim “A Voz do Olho” Veículo Informativo, Educativo e Cultural da A.J.S. (Associação Juvenil para a Solidariedade), Lobito, Abril/2007

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Turismo interno: Equimina, aprox. 100 km de Bgla, 22 anos depois

Acabei de chegar de uma aventura por estrada em turismo interno para a comuna piscatória da Equimina, aproximadamente 100 km a sudoeste da cidade de Benguela, território do município da Baía Farta, onde os meus documentos dizem que nasci (não acreditem nos malditos hahah). A última vez que lá estive foi em 1991, quando o meu pai, Victor Manuel Patissa, era Comissário Comunal/Administrador. Acabei por chegar até Baía dos Elefantes. A casa amarela foi o palácio/administração/comissariado até meados da década de 90 do século 20.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

ALGUM SÓCIO PARA A RENT-A-CAMELO?


Com o ano a terminar, é indiscutível que o lado bom foi ter viajado em turismo interno de carro (Bié, Huambo, Malanje, Namibe, Huila, Kwando Kubango, Kwanza Sul, Luanda e Kwanza Norte). Fora de portas estive recentemente no Brasil, mas a frustração é mesmo o meu projecto empresarial idealizado durante os 10 dias em Israel. A rent-a-camelo, que revolucionaria os cortejos de casamento, só para dar exemplo, não avançou por falha da transportadora hahahah


Agasalho. Praia Morena, Benguela, hoje

Convergência. Praia Morena, Benguela, hoje

sábado, 14 de dezembro de 2013

Lobito, cidade dos flamingos


Praia do Lobito

"Vocês têm sumo natural?"
"Sim."
"Quanto é o copo?"
"De limão é quatrocentos kwanzas [4 USD], o de laranja está novecentos [9USD]".

Do arquivo, fábulas da Terra: O CÃO, O GATO E O PEIXE NA GRELHA

Pelo menos uma vez na vida, o Cão e o Gato tentaram levar uma vida pacífica. É que não se justificava mais – entendiam ambos – a rivalidade, quanto mais não fosse pelo facto de habitarem debaixo do mesmo tecto:
– Vizinho Cão, consegues dizer-me a razão de sermos inimigos?
– Para ser sincero, mano Gato, eis uma pergunta que nunca ninguém me soube explicar! Então, por falar nisso, mas porquê a pergunta?
– Bem, não é nada de especial. Mas…
– Eh pá! Acho melhor te afastares. Ir na tua conversa não significa que me apanhaste a pata, fica já a saber!!!
– Lá estás tu, ó Cão, com a tua parvoíce! Por acaso te faz mal conversarmos?
– Ora... Digamos que não.

E a conversa continuou entre inimigos, que aproveitavam bem a saída da dona de casa para as compras:
– Você já imaginou, ó Cão, como temos tanto em comum?
– Hum... Será?
– Claro! Vê só: andamos sobre quatro patas, temos cauda, a mesma ama, somos solteiros. Então?
– Estamos juntos, mas não misturados, ó Gato!
– Para quê usar estas palavras que nem são tuas sequer?

Tanta era a argumentação do Gato, que ao Cão faltavam argumentos para não acreditar no novo projecto de paz no lar. Perante tão boas intenções, também já cansado de andar aos murros com o “baixinho miau”, decidiu aceitar o pacto. Surpresa, porém, ficou a dona de casa ao notar que, ao contrário do habitual, o Cão e o Gato já não disputavam a graxa na apresentação das boas vindas. «Esses gajos devem ter muita fome», pensou:
– Mas vocês ouviram óbito ou quê?
– NÃO, não. Quê isso, nossa ama?! – responderam os ex-inimigos.
– Mas não vos parece que há paz a mais nesta casa? Então já não brigam? É como, então?
– Bem… temos algo a dizer, avançou o Gato. – Decidimos acabar com a inimizade de longos anos, cuja origem desconhecemos.
– Têm certeza que é mesmo isto o que querem?– Sim! – asseguraram.

O tempo passava e melhor entendiam-se. A ama só seguia, admirada, o novo fenómeno, bonito de se apreciar, por assim dizer. E sempre que ela saísse, um deles fazia de Oficial-dia. Geralmente, o Cão tinha o papel de protector físico, enquanto o Gato era electricista. E num belo dia, enquanto a ama aguardava pelo noivo para um almoço romântico, descobriu ela que algo faltava para os temperos. E:
– Meus amigos, tenho de sair.
– Está bem, nossa ama!
– Vocês sabem que nesta casa somos pela responsabilidade.
– Claro, senhora! – confirmavam.
– Hoje, de quem é avez ?
– Do mano Cão, senhora. – disse o Gato.
– Pois! Meu cãozinho, toma conta da casa e ajuda o Gato.
– Pronto! A senhora sabe que sempre fui seu amigo e fiel protector físico.

E dizendo isso, o Cão estendia os braços para mostrar sua mascote de ouro e fingia sacudir poeira no seu casaco novo, mais novo até que a gravata.
– Não quero encontrar problemas.
– Relaxe, senhora. Desde que fizemos o pacto com o Cão, reina a tranquilidade – garantia o Gato.

Meia hora depois, com fome e gula, o Cão dirigiu-se ao Gato:
– Confrade Gato, tira então um naco desse peixe na grelha.
– Caro Cão, não digas isso nem mesmo a brincar.
– Gato, então você acha justo aqui suportarmos o cheiro do grelhado, com fome?
– Não! Roubar é feio e crime.

E nesse puxa e não puxa, a boca do Cão ficava cada vez mais cheia de água, até não aguentar mais. Foi então que pegou na pata do gato, levou-a à grelha, beliscando assim boa parte do peixe, o qual comeu num piscar de olhos, enquanto o Gato sofria com a dor da mão queimada.

Ao chegar à casa, a ama reparou a desgraça com o peixe na grelha e chamou ambos para uma conversa dura e rija. O Cão limitou-se a fazer gestos de fino, dizendo que, se ao longo dos anos nunca roubou nada, não seria naquele dia que sujaria a sua reputação por um simples peixe. O Gato, que ainda chorava por causa da queimadura na mão provocada pelo falso amigo, não teve tempo para se defender, e foi expulso do lar.

Moral da estória: “muitas vezes o mal vem de quem menos se espera, mas geralmente paga o pobre”.

Adaptado por Gociante Patissa, Julho/07 (publicado no Boletim informativo, educativo e Cultural “A Voz do olho”, propriedade da AJS-Associação Juvenil para a Solidariedade, Lobito, Edição de Setembro/2007. Baseado numa fábula contada pelo professor de ética social no curso de sociologia de uma universidade de Benguela que acabei  por não concluir)

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Quando os jornalistas acertam em todas as línguas, menos nas de seu próprio país

Gosto do perfeccionismo do enviado especial da TPA à África do Sul, o grande Ernesto Bartolomeu (do telejornal), a ponto de pronunciar estalidos semelhantes a /k/, quando em português diz a palavra em "Xhosa", fonemas da língua sul-africana que, ao que tudo indica, não têm razão de ser. A parte mais triste é apenas termos a certeza de que mal saberia pronunciar o nome do ministro das relações exteriores do seu país, se /tchikóti/, /xikóti/ ou /chicote/. Ou seja, a nossa comunicação social, sobre tudo a falada, faz de tudo e mais alguma coisa para entortar acrobaticamente a língua, quando se trata de nome estrangeiro... Só não conseguem é obter resultado similar quando se tratar de nomes étnicos angolanos. Somos realmente especiais.

Opinião: DE PICANTE EM PICANTE, ESCLARECIMENTO ESPERA-SE DO ILUSTRE DIAS RODRIGUES

Tony do Fumo Jr, em Salvador da Bahia, Brasil
Numa altura em que o mercado musical angolano se prepara para receber o quinto volume do projecto PIKANTE, iniciativa do DJ DIAS RODRIGUES que reúne em cada série uma colectânea a várias vozes, teima em não calar uma dúvida que tem a ver com a legitimidade autoral, quando se trata de temas de autores já falecidos.

Foi assim com a edição em que o clássico “NA GAJAJEIRA”, de URBANO DE CASTRO, foi interpretado pelo músico LEGALIZE. Não me interessando por ora entrar para o mérito do intérprete, não posso deixar de referir que houve vozes, bastante idóneas até, que na altura se levantaram pela possível inobservância de procedimentos legais para o usufruto do património em causa. Longe de mim fazer juízo de valor, uma vez não conhecer, nem o mentor do projecto, nem os herdeiros.

O que entretanto parece inusitado é notar que já se voltam a ouvir vozes de revolta pela interpretação de um dos temas de ANTÓNIO DO FUMO, desta feita pelo jovem EDY TUSSA. Terá havido autorização expressa, ou será mais uma daquelas coisas de, como dizemos em Umbundu, apanhar o cágado na subida? Bem, parece que é mais do que chegada a hora de o “nosso” DIAS vir a público dissipar de uma vez por todas tais dúvidas, sob pena de o descrédito ensombrar a virtude intencional do projecto e o desempenho dos intérpretes convidados.

Do alto da minha ingenuidade, e porque acredito que, mais do que comércio, o PIKANTE persegue a promoção cultural entre gerações, sou a sugerir algo que certamente terá já passado pela cabeça do seu mentor. Por que não juntar ao projecto uma dimensão de imortalidade, permitindo que as músicas reeditadas sejam interpretadas pelos próprios filhos dos autores já falecidos, por exemplo?

Penso que temos um URBANITO JÚNIOR que até não canta assim tão mal, para já não falar do TONY DO FUMO JÚNIOR, que por acaso deixou ao rubro o palco da Biblioteca de Barris, como a foto ilustra, durante a VI Bienal de Jovens Criadores da CPLP, em que Angola se fez representar por uma delegação multidisciplinar na cidade de Salvador, Bahia, no Brazil, de 3 a 7 de Dezembro de 2013. Se por um lado ficaria elevada a ética, já por outro, em nada ficaria beliscada a estética do produto mercantil.

É pincelada de um observador que não tem pretensão alguma de assumir o papel de porta-voz dos presumíveis lesados. Só que, sem descurar do benefício da dúvida, é de uma das músicas do próprio PIKANTE que ouvimos que “onde há fumo, houve fogo”.

Gociante Patissa, Benguela, 13 de Dezembro de 2013

Cartoon Novo Jornal, Edição N.º 308 - 13 de Dezembro 2013, Luanda, Angola

Do arquivo, fábulas da Terra: PORQUE É QUE A CAUDA DE LAGARTIXA CAI?

Foto de autor desconhecido
Conta-se que Dona Lebre e Dona Lagartixa eram boas comadres! Cuidavam do cabelo uma da outra. Estavam tão habituadas a manter as fofocas actualizadas que, na ausência da Dona Lebre, Dona Lagartixa ficava doente, e vice-versa. Mas… não há nada melhor do que o tempo e a fome para medir a força das relações.

Certo dia, um dos vários de um longo tempo de penúria, vinha Dona Lebre de uma aldeia vizinha, ressacada ainda pela festa da noite anterior. Trazia numa mão a felicidade e na outra a carne de vaca para a família. Mal se aproximou da aldeia, viu uma goiabeira de frutos bem maduros. Para Dona Lebre, toda emancipada, trepar uma goiabeira era coisa mínima. E trepou, deixando a carne ao pé da árvore sobre uma pedra. Ainda não tinha comido um único fruto, quando ouviu gritos de lá debaixo da árvore:

– Achei, não roubei! É minha sortiiiéééé!!!!! – gritou Dona Lagartixa.
– Deve haver confusão. A carne é minha, deram-ma na festa. – argumentou Dona Lebre.
– Nunca, comadre! Isso é que a carne não é!!! Como assim, tua? É que nem penses!
– Por tudo o que é mais sagrado. Só parei para provar goiabas. E como não dava jeito trepar com a carne, deixei-a ao pé da árvore. Vou partilhar um pouco, cara comadre…
– Dividir o que achei? Assim perco a sorte. Ou levamos o caso ao Rei, ou não sei… Hum!

E foram, trombudas, à ombala do Rei, cada convencida de ter o monopólio da razão.
– Ó Rei, – disse Dona Lagartixa, soltando palavras a jacto – se a carne fosse da comadre Lebre, não teria trepado com ela?

Engasgado, o Rei não teve outra saída senão atribuir a carne à Dona Lagartixa. Esta, feliz por ganhar a causa, saiu disparada com a gula de devorar a carne com os filhotes. Mas, por distracção, deixou a cauda do lado de fora da toca. Nisto, Dona Lebre deu conta da cauda da Lagartixa. Agarrou-a e gritou:
– Obá! Achado não é roubado! Achei uma cauda de lagartixa, é minha sorte!
– Pára, pára, pára aí, ó comadre Lebre! – resmungava Dona Lagartixa a pedalar de cabeça para baixo. – Já não reconheces a minha cauda, comadre Lebre? Isso já é ofensa!
– Não... eu achei a cauda, comadre Lagartixa…
– Mas como é que vais achar uma coisa que está presa ao meu corpo? Ou será que a comadre tem algo contra mim? Exijo justiça, vamos ter com o Rei.

Uma vez lá, e ouvidas as duas versões, o Rei já não teve problemas em decidir. E disse:
– Se entrou para a toca, Dona Lagartixa, e deixou a cauda de fora é porque não é sua. Não foi o mesmo com a carne da outra?

Dona Lagartixa ainda tentou ludibriar outra vez, mas o Rei tinha um exemplo claro, e ordenou:
– Dona Lebre, segure o machado e corte a cauda à tua comadre, senão você vai perder a sorte.

Dona Lebre cortou a cauda e, como não precisava de caudas de lagartixa, jogou ao chão, aí mesmo na ombala do Rei. A proprietária recolheu a sua cauda e saiu desesperada à procura de um bom médico-cirurgião plástico. Infelizmente, a tecnologia não andava lá muito avançada. É por isso que, quando se dá um golpe, a cauda da lagartixa cai.

Moral da estória: uma amizade de verdade resite à fome, a distância e outras tentações.

Fábula popular Umbundu adaptada por Gociante Patissa (naquela época para o programa “Aiué Sábado” da Rádio Morena), Benguela 14/08/08

Quando a poesia é canção feita fotografia, na arte as modalidades são siamesas

Foto de Bruno Miguel

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Minha terra tem

Minha terra tem
a cor
que lhe devolvemos do chão

Minha terra tem
o odor
dos que lhe separam os grãos

Minha terra tem
a força
do clandestino encontro das mãos

Arnaldo Santos, in Momentos (1958-2011), apud Revista Austral Nov/Dez 2013, pag 98. Taag. Luanda

A quem possa interessar, sua excelência eu já está em Benguela. Traz uns quatro exemplares do livro "A Última Ouvinte" ao preço da editora, mil kwanzas. Cumpra-se! hahahahah

Duo Violim - Viola Caipira e Voz, Brasil em Sons e Versos


Formada por Domingos Salvi e Sara Melo, a dupla destaca-se pela execução da viola caipira, um instrumento peculiar da cultura brasileira, composta por cinco cordas duplicadas. Paralelamente, levam a cabo um trabalho de recolha e formação através do projecto Voamundo. "O Instituto Voamundo tem como objetivo a educação cultural e artística. Seu ponto de partida é a fonte inesgotável da cultura e dos saberes populares. O elemento principal de condução é a arte, pois através dela é possível brincar, cantar, se relacionar e se fortalecer como comunidade, sociedade e humanidade", lê-se no site http://www.voamundo.art.br/.
Palco da VI Bienal da Jovens Criadores da CPLP, que teve lugar na cidade de Salvador, Bahia, Brasil, de 3 a 7 de Dezembro de 2013. Fotos do meu telemóvel