PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

sábado, 31 de janeiro de 2009

Fevereiro há-de ser diferente?

Bem-vindos à estaçaõ de Fevereiro. Que balanços de Janeiro? Há-de ser diferente este mês?
Claro, que SIM (dirá você)... Mas há sempre um ou outro vivendo preso a um compromisso, sem prazer nem vocação, apenas pela necessidade de sobreviver e aumentar o poder de compra, simplesmente arrastando (e deixando-se arrastar com) o tempo...
"A liberdade é o direito que cada um tem de escolher a sua própria opressão" (anónimo)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Que acha de kisaka importada (enlatada)?

Nota: O relato que se segue ocorreu por volta das 21 horas de 6ª feira, 30/01/09, na cidade de Benguela. Angodebates

"Dizem que já veio kisaka importada", diz a balconista do mini-mercado, enquanto factura as compras de mais um cliente.

"Kisaka importada? Assim é como?", questiona a colega de lado.

"Em lata mesmo", diz ela, que não fica indiferente ao sorriso repentino do cliente (será de reprovação?). "O moço até está a rir".

Não deixando a conversa morrer por aí, prossegue:

"Dizem que já vem mesmo preparada, você só tem que fazer o refogado".
"Kisaka importada? Daqui a pouco vamos importar vizinhos", interfere, um tanto conservador, o cliente. No seu imáginário, se calhar, a kisaka é, tal como a bandeira nacional, um símbolo que deveria ser made in Angola.

"Eu é que não compro kisaka de lata. A pessoa já come tanta coisa importada!...", sentencia a assistente de balcão.

Para quem não conseguiu ainda perceber, estamos a falar de uma iguaria cá da banda, feita de folhas de mandioqueira, um prato "especialmente" mwangolê acompanhado com um bom funge, peixe frito, ou carne assada, para se ter uma ideia, mais ao fim-de-semana.

Já agora, o que é que você acha de saborear uma kisaka enlatada? Se já importamos tanto, que diferença faria?

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Benguela prepara-se para acolher CAN de futebol 2010

Aceleram-se as movimentações em torno da preparação do Campeonato Africano das Nações em Futebol (CAN2010), que Angola alberga já em Janeiro do próximo ano. A entidade organizadora, que atende pela sigla COCAN (Comité Organizador do CAN), em terras de Ombaka, merece os nossos parabéns por ter já "casa própria" e, melhor ainda, muito bem localizada. Exactamente no chamado prédio da Cruz Vermelha, na rotunda do Coringe que dá para o aeroporto 17 de Setembro, na rua da Catedral, a mais principal e vistosa das ruas de Benguela.

Que venham as nações concorrentes, os turistas e as receitas para a economia do país. É que temos sorrisos suficientes - se não for nas acácias, será decerto no rosto do povo, no sopro do mar ou na virgindade das montanhas. Gociante Patissa

domingo, 25 de janeiro de 2009

Contos da nossa Terra: "Uma vida sem vizinhos"

Quem tem experiência de vida na periferia (e por aí fora), juro mesmo!, entenderia as razões do Ferramenta, que decidiu levar uma vida sem vizinhos. É que é muita confusão, uns querem saber de tudo o que se passa na casa dum gajo. Mas o que chateia mesmo é quando o vizinho decide o fim-de-semana todo curtir música com o volume acima do máximo, como se o barulho do gerador já fosse pouco. Bom, se calhar até não têm culpa, quem fabricou o aparelho é o chinês, e músicas como Kú-duro não têm açúcar nem sal quando o volume está baixo (isso até um surdo saberia!).

Vizinha, como a minha, que aconselha os filhos em tom de comício, faria qualquer um usar protectores auriculares, mas (todos os dias?) seria maçada. Por isso mesmo é que dou razão ao Ferramenta, na ideia de ir viver o mais longe possível, que se lixe lá se no final deste relato ele vai ter um problema maior (epá, isso é lá mais p’ra frente). Aliás, sobre o factor vizinho já se falou muito: ora vizinho é melhor que família, ora vizinho só é bom quando não atravessa o muro.

Quando é que começou a existir vizinhança, ainda está por se saber. Mas a relação entre vizinhos é um daqueles temas de debate eterno, do tipo, a galinha e o ovo quem surgiu primeiro? Isso já alimentou romances, canções, produções de TV e, infelizmente, também tribunais, e por aí fora. É regra estarem em causa o conflito, o boato, o corno, etc. «Eu namoro com qualquer homem que me pedir, porque não fui chamar ninguém», desafiava uma vizinha aos ataques de ciúmes da outra. Não teríamos mais paz vivendo sem vizinhos? Você já pensou nisso algum dia?

Voltemos, que já é tempo!, ao caso específico do compatriota Ferramenta, que certo dia resolveu realizar um sonho antigo: o de livrar-se dos vizinhos. Mas como? Foi na procura desta resposta que se dedicou a trabalhar duro, como burro mesmo digamos, economizando milagrosamente o pouco que conseguiu ganhar durante mais de quinze anos. Assim, a esposa só tinha que ir ao salão para tratar da beleza – evitando os dedos da vizinha, que ganhava mais um mexerico pela trança; os filhos tinham computadores, telemóveis, Internet, e todo o aparato possível para fazerem amigos sem precisarem o entra e sai da vizinhança; reuniu todo o equipamento de limpeza e higiene possível, deixando para sempre de precisar mobilizar os vizinhos para a campanha de limpeza. Tudo para se considerar uma ilha que se bastasse a si própria.

Que não seja possível escolher os pais, avós, irmãos, tios, etc., que gostaríamos de ter, isso é algo com que temos de nos conformar. Cada um nasce e assume os restantes graus de parentesco, como o manda a lei da árvore da genealógica… e não há como escapar. Mas nada mais o irritava do que as refeições atrasadas porque a esposa foi bater papo, os filhos da casa ao lado entrando e saindo, isso, sem esquecer os olhos da rua por cada artigo de valor que o vissem trazer para a casa.

Uma vez reunidas as condições, foi ao deserto viver numa casa projectada no isolamento, como sempre quis – sem vizinhos! A distância era por aí quinze quilómetros do seu antigo bairro. Tudo o que se ouvia à volta da casa era o assobiar dos pássaros, o soar do vento e até o jardim crescer, deleitavam-se observando a variedade de bichos. A vida tinha melhorado (e de que maneira!). Afinal, quem é que não gosta de sossego?! Viviam uma paz quase perfeita.

Quase perfeita, atenção!, a paz até ocorrer um fenómeno que virou a vida deles ao avesso. Assim do nada viram o seu lar invadido por antigos vizinhos, numa onda terrível de violência. Nem mesmo os quinze quilómetros de deserto foram suficientes para amainá-los.

Tudo porque uma águia, que sobrevoava o antigo bairro, resolveu roubar um bebé, que era fino como boneca de natal, enquanto descansava ao pé da árvore. Informados de tão raro fenómeno, os mais robustos moradores da aldeia decidiram seguir a ave, que os benfiquistas por acaso veneram. Um tempo depois, e já cansada, a águia decide largar a presa. Só que, coisas do destino, diria eu se nele acreditasse, o bebé foi pousar exactamente na nova casa do senhor Ferramenta.

Pois então!… (indignaram-se os antigos vizinhos ao chegarem) mudaste de bairro, mais é, para roubares os bebés dos outros, usando águias? Seu feiticeiro do raio!
Pouco tempo teve para se defender, ele que não podia contar com a ajuda de vizinhos, obviamente porque não os tinha. Já foi dito que a comitiva de perseguição à águia era constituída pelos mais robustos homens da aldeia, a mesma que se situava há quinze quilómetros do local da confusão, portanto por muito que quisessem gritar era em vão. Foi uma surra de quebrar ossos. Sobre ele pesava – e ao que parece para sempre pesará – a acusação, melhor dizer condenação, de o isolamento ser só um projecto para o roubo de recém-nascidos. O grande desafio é convencer a sociedade do contrário, já que, quem é que em sã consciência acredita numa vida sem vizinhos?
Moral da estória: existem normas que servem de padrão para evitar medidas extremas no relacionamento entre as pessoas. Até porque cada um de nós é vizinho de alguém.
Adaptação: Gociante Patissa

"Mamã Coragem", um título merecido ou mero jogo de palavras da política Anália Pereira?

Nota: Trazemos para debate uma perspectiva "inédita" da autoria de Edson Macedo (http://edsonmacedo.zip.net/) sobre o cognome "Mamã Coragem". Angodebates

«Anália era uma mulher de garra e era ao mesmo tempo de difícil interpretação pelo menos para mim, porque movia demais os olhos quando se pronunciava mas tinha uma coisa que eu adorava nela: Falava sempre com a cabeça levantada. Verdade se diga que nunca me inspirou tanta confiança nem a achava assim tão Mãe Coragem. Fazia-me confusão como poderia ela ser a Mamã Coragem depois de ter vivido anos a fio pelas "europas da vida" e vindo depois com o culminar da guerra (92) quando tivemos cá muitas mães que contra tudo e todos lutaram muito mais e com muito menos».
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Faleceu hoje a Mamã Coragem, a senhora que teve peito de enfrentar as feras nas eleições de 92 e seguir em frente, mesmo sabendo que não era fácil. Faleceu e a notícia veio assim de repente. Mas quem a viu nos últimos dias deve ter questionado sobre a saúda da Mãe Coragem.

Anália de Vitória Pereira, lutou pelo seu partido, pelo seu povo e conquistou por mérito acento no Parlamento angolano e por lá esteve ao longo de 16 anos até as eleições de 2008 que ditaram o afastamento de muitos partidos que desta vez nem um banquinho se quer conseguiram.

Anália era uma mulher de garra e era ao mesmo tempo de difícil interpretação pelo menos para mim, porque movia demais os olhos quando se pronunciava mas tinha uma coisa que eu adorava nela: Falava sempre com a cabeça levantada. Verdade se diga que nunca me inspirou tanta confiança nem a achava assim tão Mãe Coragem. Fazia-me confusão como poderia ela ser a Mamã Coragem depois de ter vivido anos a fio pelas "europas da vida" e vindo depois com o culminar da guerra (92) quando tivemos cá muitas mães que contra tudo e todos lutaram muito mais e com muito menos.

Mas enfim... Os títulos hoje ganham-se (lembro-me agora assim quase de repente do prémio Internacional de Qualidade ganho pela EPAL e mais recentemente pela ENE) mas lá se foi então a Sra Dona Anália de Vitória Pereira.

Ainda assim, reconhecia-lhe a garra que tinha para a política numa arena de gladiadores como a nossa. Tenho sempre respeito por mulheres com esse tipo de garra e muito menos respeito por elogios vergonhosos e graxistas que vamos ouvir nos próximos dias.

A ida da Sra Dna Anália, nesta data, início do ano, faz-me lembrar das idas também no início do ano de Lourdes VanDúnem e de Beto Gourgel. A ida dela faz-me sentir que ela será bem recebida onde for porque tem alguém que a acolherá tal como, segundo ouvi, ela acolheu vários jovens.

Que ela descanse em paz e que nos ilumine lá de cima para que por cá, as mamãs que aparecerem (e não como a que quer aparecer) sejam dignas do posto de combate e de garra que ela mesmo por direito e verticalidade (a seu geito) conquistou.

Adeus Anália que foi durante vários anos, verdadeira Vitória.
Escrito por Edson Macedo às 22h37, Blog Meu Claro Pensamento
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O Comentário é de outro parceiro bloguista: [Luciano Canhanga] [mesumajikuka]: Apesar da idade, 68 anos, atrevo-me a dizer que morreu a malograda. Num país pobre de mulheres "atrevidas" morrer uma, ainda que velha, sem deixar substituta na ousadia de fazer política num circo masculino é uma perda realmente irreparável. Não será assim tão cedo que venha surgir uma nova "Amália" da política angolana. Que deus a tenha... quero fazer fé que o PLD tenha força para se reerguer de dois duros golpes que sofre num mesmo ano. A ilegalização forçada por via do fracasso no último escrutínio e a morte da líder.09/01/2009 10:16

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Contos da nossa Terra: "A raposa e o bebé"

Para lá do asfalto, onde o vento se cansa de trepar montanhas, os homens amadurecem à volta da fogueira do onjango, os animais falam, as plantas assobiam e os rios cantam, há uma aldeia chamada Tchindumbu. Pertence à comuna do Monte-Belo, município do Bocoio. E é de lá que vem o conto de hoje.

Havia, pois, em Tchindumbu um lenhador viúvo que acordava às seis da manhã e trabalhava o dia inteiro no mato. Só parava ao cair da noite.

O lenhador tinha um bebé lindo de poucos meses. Tinha também uma raposa, que encontrara muito pequena abandonada na mata. A raposa era sua amiga, tratada como um bicho de estimação, ou seja, de total confiança (sem precisar de vacinas contra a raiva nem nada!).

Saía sempre cedo em busca de lenha e deixava a raposa, crescidinha, tomar conta do bebé. E quando voltasse do trabalho, no cair da noite, a raposa ficava feliz com a chegada do lenhador, seu amo.

Mas os vizinhos do lenhador alertavam:
Ó homem, não vale a pena confiar na raposa! Isso é um bicho, um animal selvagem. Quando sentir fome há-de comer o teu bebé.

O lenhador não ligava o conselho dos vizinhos, implicância que até considerava exagerada. A raposa era sua amiga e jamais faria aquilo. Mas eles continuavam a chatear:
– Lenhador, abre os olhos! Quando sentir fome, a raposa vai comer o teu bebé!

Um dia, o lenhador, muito fatigado do trabalho e farto desses comentários, ao chegar a casa viu a raposa sorrindo, como sempre, mas com a sua boca totalmente cheia de sangue fresco… O lenhador entrou em choque, apanhou arrepios. E sem pensar duas vezes, acertou o machado na cabeça da raposa…

Possuído pelo desespero, entrou a correr para o quarto, onde encontrou seu bebé no berço dormindo tranquilamente e a ressonar magistralmente. Já ao lado do berço estava estendida uma grande cobra, já morta... Foi ali que percebeu que a raposa salvara o bebé. Tarde demais! O lenhador enterrou o machado e a raposa juntos.

Moral da estória: Respeite os conselhos que recebe, mas reflicta sempre antes de agir. E, principalmente, não tome decisões precipitadas.

(Ideia original de autor desconhecido)
Adaptado para o programa “Aiué Sábado”, Rádio Morena, por Gociante Patissa, Benguela, Agosto/2008

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

A última viagem do PLD

A notícia caiu como caem as indesejadas. Anália de Victória Pereira, 67 anos, faleceu em Portugal, na madrugada de 07/01, vítima de cancro (em que parte do corpo nada se disse). Os observadores menos preguiçosos, simpáticos ou não ao Partido Liberal Democrático (PLD), consternam-se. Ou não partilhassem com ela uma causa: a da democracia e, dentro desta, a ascenção feminina pelo mérito. A primeira mulher do protagonismo democrático deixa de fazer parte activa da história de Angola, que deste modo conta apenas com a candidata às presidenciais, Luisete Araújo.

Ouvido pela Angop, o secretario para Informação do Partido Liberal Democrático, Artur Sapalo, disse que este facto dá-se num momento em que a líder do PLD já se encontrava em fase de recuperação, tendo se deslocado a Lisboa apenas em consulta de rotina.

Conhecida como "Mamã Coragem”, Anália Pereira nasceu na província de Luanda, a três de Outubro de 1941. Iniciou a vida política em 1975, ano em que emigrou para Portugal. Em 1983 fundou, em Lisboa, o PLD com o seu (já falecido) marido, Carlos Simeão, também político e primeiro líder da força política. Após 16 anos no exílio, Anália regressa a Angola em 1991, legalizando o PLD e concorre nas primeiras eleições gerais, em Setembro de 1992.

Membro do Conselho da República, órgão de consulta do Presidente da República, a líder do PLD foi a primeira mulher a concorrer à Presidência da República nas primeiras eleições de 1992. O PLD obteve três assentos na Assembleia Nacional nas primeiras eleições gerais de 1992. No segundo pleito, realizado em 2008, o partido não obteve o mínimo de votos estabelecido por lei, constando do grupo de formações em risco de extinção.

Foi a última viagem de Anália. Talvez tenha sido definitivamente esta a última viagem do PLD também.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Conto: “Uma visita que melhorou o natal”

Velha-Mbali encontrava-se a repousar no cadeirão da varanda desde a sua chegada. Confundiam-se no bocejar os solavancos da viagem e os restos do sono de quem madrugou para apanhar o primeiro autocarro intermunicipal da SGO. As pausas prolongadas e a economia de palavras eram parte da recuperação do efeito dos vómitos. A anciã teve o incómodo já previsível de usar saco plástico para lançar, foram três vezes nesta viagem de 70Km para ser mais preciso, uma fatalidade que decerto não será digerida nesta encarnação.

Qual sino de boas-vindas, o efeito acústico resultante do atrito entre a loiça e os talheres, enquanto punham a mesa, lisonjeava os ouvidos da hóspede. Chegava também com agrado a fumaça do peixe na grelha, que era a segunda paixão que Velha-Mbali guardava da cidade depois da família.

Velha-Mbali herdara da mãe uma beleza que compensava a estatura baixa do lado paterno. O rosto era a única vitrina para se lhe ver a pele semi-flácida, obra da idade. Usava panos compridos de arrastar o chão, como manda a tradição. Os cabelos maioritariamente brancos salientavam a ligação entre o lenço e o quimone, ambos de tecido azul-escuro de pintas brancas. A sorte de nascer imune à cárie era responsável pela capacidade de competir com os netos em matérias de mastigar, fosse o que fosse. Como é claro, empatava também na hora de palitar.

E enquanto a deixavam descansar sob a sombra da trepadeira, aguardava pelo almoço, calada, mas sempre atenta ao mínimo movimento no quintal. Era esta última a característica que os netos mais gostavam nela: ser fértil em análises dramáticas das makas da sua gente.

A fadiga da viagem não duraria muito, cedo seria suplantada pela emoção de rever os netos, agora bem crescidinhos. Bálsamo mais milagroso que isso seria impossível. Sentia-se inclusive rejuvenescida ao ver a neta caçula, sua chará por sinal, com mais de dez anos. E isso era suficiente para se dar conta da longa ausência na vida dos seus entes, pelo menos fisicamente. Mas para além do desconforto com as viagens por estrada, infelizmente a única via, Velha-Mbali considerava improcedente o convite de viver a beira-mar. E exigia que se respeitasse a sua posição, vontade que resultara com os adultos, mas não com os netos, que eternizavam o debate.
– Ó avó
rompeu o silêncio Waldemar, o primogénito –, a avó veio para ficar já, não?
– Não, kanekulu… Avó vem comer só natal!

Todas as vezes que veio à cidade, Velha-Mbali se deparou com deselegantes surpresas, mas a desta vez batia seguramente todos os recordes. A anciã chegou mesmo a tossir de choque ao cruzar com miúdo de doze anos apenas, não mais que isso, girando a cidade para cima e para baixo com cuecas e sutiãs de mulher adulta no ombro a gritar: «arreou, arreou no negócio, é a última zunga do ano!!!».

E a conversa ainda continuou depois do almoço. Para convencer Velha-Mbali a optar por uma vida mais relaxada, os netos esgotaram todos os argumentos de vantagem da cidade sobre o campo, chegando inclusive a manipular a chará da avó com chantagem emocional. Ao fim de várias horas de debate carregado de mimos no colo e paternalismos de vária ordem, sentenciou Velha-Mbali:
– “Omwenyo Okulima, olohombo ovyo vilia opapelo” (Viver é cultivar. Comer papéis – ou seja, dinheiro – é coisa de cabritos).

Convencidos de que a sua forma de ver a vida era a mais acertada, os netos matavam-se de rir aos exageros da avó que, por sua vez, também se divertia rindo, com agradável malícia, da ingenuidade deles. Mal cabia na cabeça da anciã que alguém maior de doze anos viva dependente dos pais, quando no campo seria capaz de gerir a sua própria lavrinha.

E no dia da partida houve mais alegria que tristeza. Com a presença da avó, o natal daquele ano foi diferente. Quase ninguém sentiu as ausências dos chefes do lar, que andavam de prevenção, o pai na polícia e a mãe no controlo aéreo da aviação civil
.

Gociante Patissa, Benguela, 5 de Janeiro de 2009
P.S.: este é o primeiro conto original que me permiti expor na Internet.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Crónica: "Dormir no Reveillon para ter um ano de sonhos"

Seja bem-vind@ a bordo do novo ano, mais doze meses para contornar os obstáculos com ajuda dos que nos consideram.

Desde que a pessoa nasce que é assim, a mesma agitação todos os anos, no mato ou na cidade. O que vale mesmo é entrar com o pé direito, ou no mínimo com os dois. Até os esquerdinos. Então, mas é mesmo já o pé, que até ajuda a andar quando falta dinheiro para taxi, que vai dar azar?

Isso de buscar a relação «causa-efeito» em tudo até faz lembrar uma das primeiras estigas que ouvi por ocasião da chegada à cidade do Lobito, no defunto ano de 1985, quando fomos “aconselhados” pelo Hip-hop da guerra civil a abandonar a umbilical comuna do monte Belo: «O teu pai meteu rádio na geleira para ver se toca músicas frescas».

Com a locomotiva cronológica a transpor a estação dos 30 anos (sino que toca em cada início da segunda quinzena de Dezembro), mais uma ideia peregrinas apitou. Ora, porque não viver a passagem de ano de maneira diferente? Até dava, mas é precisamente este o problema. Diferente como, com tudo tão igual ultimamente? Senão vejamos: as meninas fazem maratonas de mostrar o feitio e cor da cueca, bem como o leito seco entre as nádegas. Os rapazes fazem diferente? Claro que não!!! Então já não falamos que anda tudo igual ultimamente? We dress like americans, what’s up?

Vejamos mais. Já há uma penúria terrenal, ou seja, andam escassíssimos os terrenos. Mas quem os tem constrói mais é um buteco… para vender o quê? O que todos vedem, ora pois!, bebidas ou produtos de origem namibiana (hoje não toco nos chineses, deixa estar).

Outra maka mais: foi à falência técnica o alfarrabista da praça do Compão. Porquê? Porque caducou o pregão dele, «vale mais andar com um livro do que com um bêbado». Gasta-se mais tempo com cervejas na mão do que com um livro (de norte a sul, do mar ao leste. Verdade ou mentira?).

Então, já cansado de tanta coisa igual, eu que até não uso de superstições (apenas as que prefiro e ajudam a levar a vida) decidi enfrentar o famoso reveillon de maneira teimosamente diferente: dormir cedo no último dia do ano, para sonhar à vontade, quem sabe isso resulte num ano novo carregado de sonhos para um gajo. Bom, se o outro colocou rádio na geleira e conseguiu músicas frescas!…
Talvez precisemos todos de sonhar um pouco mais neste 2009, mesmo que isso inclua ressonhar os sonhos atrofiados.

Gociante Patissa, Lobito, 2 de Janeiro de 2009