PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Valentim Amós "não pode morrer", faz falta à Nação

Sábado, 19 de Janeiro. O relógio marcava vinte minutos depois da uma da tarde. Tinha acabado de voltar de viagem. O Boeing 727 Luanda-Benguela tinha sido pontual e rápido, ou seja, eficiente! Não tinha nem desfeito as malas ainda, quando o telemovel vibrou enquanto uma tonalidade curta completava o sinal de mensagem recebida. Quem será e que conteúdo? (Aqui há que confessar que a expectativa é sempre de se tratar de uma admiradora secreta, para um daqueles textos sem juízo e sem prejuízos).

"Um avião com 12 passageiros, Valentim Amões é um deles, está desaparecido", dizia a mensagem de Amós Patissa, meu kota.
"Ouviste aonde?", perguntei imediatamente.
"Na TPA, noticiário das 13H30".

Ligar o rádio e ouvir o Jornal de Sábado foi só ouvir "está confirmado o despenhamento da aeronave da companhia Gira-Globo. 13 ocupantes são vítimas mortais, entre elas o empresário Valentim Amões".

Nunca privei com o empresário (as poucas referências fortes durante a minha passagem pela província do Huambo em 2005 eram três: 1º que foi ele quem comprou os semáforos que devolveram a estética da cidade que apenas pecava por ter buracos ainda no asfalto (utilidade pública); 2º Andava e vi com um Hammer com as luzes sempre acesas noite e dia (não sendo o único, reforçava o circulo de arrogantes; 3º Não tinha em mente o número que compunha a frota de viaturas da sua empresa (empresário bem sucedido). Nunca estive em altura para com ele me encontrar e depositar o meu desespero em ver um pouco mais de atenção para os habitantes de Ombala de Tchiaia no Huambo, que morriam um pouco todos os dias, de fome e seca.

Não me vou alongar mais quanto à filosofia da morte (já que morre-se todos os dias, em todas as idades, por todos os motivos, de todas as partes). O que não se pode ignorar é, contudo, a geografia do impacto da morte.

Valentim Amões foi o "dono" da conquista da Taça de Angola em Futebol pelo clube 1º de Maio de Benguela, de que foi Presidente de Direcção e patrocinador. E se o desporto-rei é o fetebol, para a maioria dos adeptos do Maio Valentim Amós é (porque não morrerá jamais) um membro real. Um homem, empresário de "peito" (não conta a fonte do dinheiro) que soube abrir a mão à bolsa para fins sociais, não só no Huambo como em diversas partes desta imensa Angola. Este mesmo grupo de admiradores exigem a continuidade de sucesso à obras de Amões.

Por isso, e do fundo da minha consciência, dizemos bem alto que Valentim Amões não pode morrer, que faz cá falta à Nação.

Gociante Patissa

sábado, 19 de janeiro de 2008

Tuyoli po kamwe (Tala tala kilu)

Kuakala ukuenje umue okuti, omo kasolele upange wokulima, wavanja upange vocakati kolupale waye. Vokuenda kuoloneke yu wainda lokulilongisa elimi lio'putu. Lo ame layo vo yafetika okuvokiya.

Eteke limwe vokuenda okuñualañuala wasokolola okulia osanji lovakamba vaye ko'nanya. Okuiya wosika ndona yaye hati:

- Ó mulher, vou trazer meus migos. Tráta lá aquilo (eye kalongisa oputu yaco ku'ndona)

Vokutiuka weya apa lesanju lesolo kumosi. Puãi hati ndivanjiliya pevindi, osanji alopo yeyi ivanja, kayapondelwe, kayatelekelwe.

- Mas, ó mulher, osanji kwayitelekele?
- Sio! - Ukai watambulula
- Mas eu não disse trata lá aquilo?
- Oco mwele ndapanga. Omo okuti walinga heti tala tala kilu, ndasima siti ukuetu mbi wasakalala lombela. Oko mwele ndalaña loku tala tala kilu... ndamuna wacinuma.

(Wasapuila ko kota lyange Rosa Ngueve Gociante Patissa)

Aprenda Umbundu sem mestre

Umbundu Sem Mestre.

Por: Dr.Marcos Usengue ( http://www.mujimbo.com/ovimbundo/orididacticas.htm)

Orientações Didácticas

O presente curso (sem mestre) dirige-se a todos interessados em aprender a Língua Umbumdu.

- Graças a um método progressivo e a uma linguagem simples,o presente curso pretende tornar viva e estimulante a aprendizagem da língua Umbundu.

- As regras de gramática serão aprendidas de um modo espontâneo e natural, tal como uma criança aprende a falar,dando-se, como tal, grande ênfase à linguagem oral.

- No fim do curso serão facultados,apenas para consulta, alguns rudimentos sobre o vocabulário e gramática umbundu, cujos aspectos farão parte dos conteúdos das próprias lições .

O curso progressivo da língua umbundu, é um curso de aprendizagem por etapas da língua umbundu. Daí que se recomendam as seguintes acções:

1. familiarização com a fonética da língua umbundu;

2. leitura em voz alta de cada trecho; recorrendo-se,sempre que necessário, as breves noções sobre fonética que se apresentam no início.

3. na fase final,recapitular as fases anteriores e em função das gravuras passar para a escrita e, se possível utilizar um gravador.

Embora se trate de um curso sem mestre estará sempre disponível um tutor, a contactar por e-mail que poderá dar os esclarecimentos convenientes.

Noções elementares de Fonética da Língua Umbundu.

Vogais orais

A língua umbundu conta com as seguintes vogais orais:

[a] - É a vogal presente na palavra verá (port.).No umbundu, é sempre uma vogal tónica no fim da palavra. Exº.: mbulumba, instrumento musical de uma só corda.

[?] - É a vogal presente na palavra em mama (port.). É quase sempre átona e aparece, geralmente, no princípio da palavra. Exº: alume; homens.

[ ] - É a vogal presente na palavra café (port.). É sempre tónica quando aparece no fim da palavra. Exº.: ekende, broa.

[e] - É a vogal da palavra portuguesa emenda (port.). pode ser:

tónica. exº.:esanju, alegria.

ou àtona: exº.: etu, nós.

[i] - É a vogal da palavra rico (port.). Pode ser:

tónica, exº:. cilema, pesa.

ou átona, exº.: imo, barriga.

[O] - É a vogal presente na palavra porca (port.). É sempre tónica no fim da palavra; escreve-se o. Exº.: cimboto ,sapo.

[o] - É a vogal da palavra ouro (port.). Pode ser:

tónica (no princípio da palavra). Exº: otulo, sono.

[u] - É a vogal da palavra nu (port.). Pode ser:

tónica, exº: omunda,montanha

ou átona, exº.: usambe, batata.

Vogais nasais

As vogais nasais do umbundu são acentuadamente nasalizadas, comparativamente às da língua portuguesa. Recorremos, assim, as palavras portuguesas apenas por uma questão de aproximação.

[ã] - É semelhante ao som da palavra canto em português. Exº.: omãla, crianças.

[~e] - É semelhante ao som da palavra pensa em português. Exº.: nye, o quê?

[õ] - Assemelha-se ao som da palavra ponte em português. Exº.: omõla, criança.

[~u] - Aproxima-se ao som da palavra um em português. Exº.: Muli, há, existe.

Nota: As nasais /~e/ e /õ/ u/ são semi-fechadas. Para quase todos os casos a vogal nasal /ã/ e /~e/ são abertas.

Consoantes simples

Em umbundu é possível diferenciar as seguintes consoantes simples:

[~b], [d], [f], [~g], [h], [~j], [k], [l],, [m], [n], [ ], [p], [s], [t], [v], [w].

[~b] - Como símbolo não tem correspondente em português, pois é anasalado. Exº.: mbambi, cabra-do-mato; frio.

[~d] - Como símbolo também não tem correspondente em português. Exº.: nditanga, leio.

[~g] - Como símbolo não tem correspondente em português. Exº.: ngandi, alguém.

[~J] - Não tem igualmente corresponde em português e é, de igual modo, anasalado. Exº.: jamba, elefante.

[ ] - É a consoante n, principalmente nas combinações ang (hang) ing (sing) em inglês. É de difícil pronunciação para um português se bem que certos autores o aproximem ao in,on ou un português,mas não nasais. Escreve-se sempre ñ. Exº: ñala; senhor.

Nota: No princípio de palavra, o símbolo fonético [~] refere que existe uma nasalização precedente de um som consonântico. Esta consoante nasal pode ser labial, dental, palatal ou velar, em função consoante que a precede.


Consoantes africadas

Em Umbundu existe uma consoante africada:

[ ]- Escreve-se, de acordo com o nosso alfabeto, sempre c e pronuncia-se como a palavra inglesa catch. Exº: Eci- isto.

Nota: as vogais,ditongos e consoantes não referidas pronuncia-se do mesmo modo que em Português à excepção do nhe que em umbundu se escreve nye. (Ex. Nye?O quê?)

Jogar como selecção, triunfar como Nação (No andebol mandamos nós)

Luanda, 18/01: A selecção nacional angolana, orientada por Jerónimo Neto e auxiliares, conquistou, pela nona vez, mais umaa Taça Africana das Nações em Andebol Sénior Feminino, ao vencer a sua similar da Costa do Marfim por uma margem de 12 golos de diferença, numa final escaldante que teve lugar no pavilhão da Cidadela. 39-27 foi o resultado final da edição 2008.

Antes mesmo da partida, o Presidente da República, José Eduardo dos Santos, foi o primeiro angolano a ser distinguido pela Confederação Africana de Andebol, no caso particular pelo seu contributo à modalidade.

Numa partida considerada por vários analistas como sendo equilibrada, as ivoirienses que entraram a marcar e que viriam empatar no princípio ainda, a sete golos, dignificaram a festa. Sobe assim para quatro o número de vezes que as costamarfinenes cruzam e perdem numa final com as nossas "ganha-tudo". Reza a história que a primeira vez foi na Argélia (1989) e a mais recente em Casablanca (2002). É caso para dizer, deste trono a gente não se mexe!


Já a mesma proeza não teve a selecção Masculina da modalidade que não foi além do quarto lugar. No mesmo dia e local, na categoria masculina, a selecção do Egipto bateu na final a sua similar da Tunísia por 27-25.

Como selecção, as meninas douradas que, pela estética do seu andebol e tradição de vitórias, são o sétimo combinado mais potente do mundo em andebol, confirmam assim a sua hegemonia na modalidade. Estamos a falar de uma selecção que "impõe" quatro atletas, das sete necessárias, para constituir "a equipa inicial dos sonhos" do continente (ao lado de duas congolesas-democráticas e uma tunisina), a mesma selecção que detém a melhor guarda-redes do continente (Maria Odeth Tavares) bem como a melhor jogadora (no caso, Nair Almeida, que se iniciou nas escolas de massificação do Lobito).

Talvez seja a única selecção no continente (por que não do mundo?) que se pode gabar de alinhar três irmãs, com foi com as Kiala.


Não abrindo mão aos pormenores, Ilda Bengui, uma das mais antigas vedetas da Selecção angolana, anunciou já o fim da sua carreira, decisão imediatamente considerada "prematura" pelo narrador da TPA em serviço que, "ironizando", exigiu uma solicitação formal para tal autorização. A dança da família, sempre presente em cada triunfo, desta vez não contou com as presenças das atletas Larissa e Bombo Calandula, que se lesionaram longo da Competição.

Este Blog, cujo editor se encontrava em Luanda por ocasião da final, esteve (por via da telepatia e da energia patriótica positiva) com as selecções, jogando como Nação, para triunfar como Continente. No andebol, em África mandamos nós!

Gociante Patissa

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Língua materna ou oficial? (Arquivo)

(Publicado em Setembro de 2005 através dos Blogs "Desabafos Angolanos" e "Ondaka Usongo")
Sei que há quem esteja à espera da hora 19, para se sentar diante do canal 2 da TPA, porque “…é dia de mudar de vida!”, como nos tortura em jeito de publicidade a turma do “Angola dá sorte”. Uns realmente ganham, eu porém faço parte dos que só perdem. Aliás, o primeiro sinal, hoje, foi ter perdido o sono antes das duas da manhã.

Deixo a cama, pego nos meus livros, ligo o diskman e uns kizombas dão-me banho. Tento ler, mas me vem à cabeça a pressão social (aquilo que queremos, não nos quer; aquilo que não desejamos, persegue-nos). Insisto, mas não consigo mesmo concentrar-me à leitura. Então recorro ao meu habitual consolo (um bloco e uma bic azul) e ponho-me a escrever. De princípio a letra é feia, mas vai ficar bonita logo no computador.

Disse um angolano na Tuga, certo dia, que a vida se resumia em duas grandes desvantagens: uma era ser jovem e a outra ser mulher. Fiquemos hoje com a primeira. Ora não se tem a idade nem a qualificação ideal para certas oportunidades, ora já se passou dos 30 anos e não dá, mesmo depois de estabelecido o parâmetro 15-35 anos como padrão de juventude. Reclamamos, insultamos as instituições, praguejamos e tudo o mais. Mas também nos lembramos de certas conquistas colectivas e vemos que vale a pena lutar, basta estarmos atentos ao que vai pela imprensa e lubrificar sempre os mecanismos da amizade. Afinal, o autor de “renúncia impossível”, que a dado passo reconhecia “atingi o zero”, foi presidente desse país.

Encontrava-me ainda em Luanda, em seminário, quando um telefonema amigo me incentivou a concorrer à uma vaga de uma companhia petrolífera. Confesso, não acredito em nenhum concurso no meu próprio país, muito mais quando dirigido por irmãos angolanos. Mas tento, às vezes, não ser carrasco de mim mesmo e retribuo a consideração dos amigos que gastam do seu saldo e da sua saliva em conselhos.

Assim, anteontem, juntei o monte de documentos e fui ao centro de emprego, do Ministério do Trabalho, na minha cidade (é curioso como a nossa vida é em tamanho A4: certidões de nascimento, contratos, títulos de salário, cartas de despedimentos, certidões de casamento, facturas de luz, telefone, etc., tudo em A4).

Uma vez lá, encontro um senhor cuja testa parecia estar há anos sem saber o que é sorrir. Pronto, saúdo e avanço, a final não estava ali para semear amizades. Na secção a seguir, uma senhora dá-me o formulário e algumas instruções. Escrevo tão rápido que, volta e meia, tinha tudo preenchido… e a discussão inicia com a atendedora: tudo porque preenchi o Umbundu como sendo a minha língua materna. “A nossa língua materna é aquela que falamos”, dizia ela. Pois claro, mas é essa mesma a minha língua de berço; tanto o português como o inglês, eu aprendi-os foi na escola. Que azar me arranjei?! A senhora submeteu-me então a uma cátedra: “língua materna é aquela que herdamos do colonizador, porque é a língua que nos une; olha, um zairense, por exemplo, na escola fala lingala? Claro que não, moço!” Impotente e em desvantagem, disse-lhe apenas que era complicado. “Pois, mas estou-te a fazer entender agora que, no espaço língua materna, escreva português, porque o Umbundu é dialecto apenas!”, ditava ela. Os meus suspiros e reticências não a impediram de pegar no corrector e, a mando dela, eu declarar o português como “minha língua materna”, relegando o meu doce Umbundu ao segundo plano.

Deixei o Centro de Emprego bastante contrariado, quase irritado. Já não basta o que basta, agora também me roubam a minha história, a minha dignidade? Será que por necessitar de uma carreira, perco o direito de ter nascido no Quimbo, ter o Umbundu como primeira língua da minha vida, ligada às primeiras memorias que guardo com honra?!

Agora são três e um quarto, e tento voltar à cama, mendigar algumas horas de sono. Se penso em pessoas como tu, por isso não tenho sono, ou se não tenho sono e por isso penso em pessoas como você, isso importa. A verdade é que, às vezes apetece desistir de tudo e morrer por algumas semanas. Mas depois a nossa consciência diz-nos não ser justo, já que ainda resta algo de que nos orgulharmos: os amigos que temos, o espírito lutador e as conquistas acumuladas diante de tanta impossibilidade. Força, há que erguer a cabeça, ainda que nos pisem sobre ela!.

Por: Gociante Patissa, Lobito, 23 de Setembro de 05

PS: Por falar em Luanda Dá Sorte, alguém me sabe dizer o porquê do silêncio? Onde andará o passivo do dinheiro arrecadado? Os nossos irmãos jornalistas ainda assim "emprestarão o rosto" numa próxima oferta?

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

A chatice dos aeroportos

Nunca me sugeriu, sinceramente falando, o ambiente do aeroporto como atractivo para escrever. Mas hoje foi um dia especial, um daqueles dias em que se reforçam as fraquezas e as frustrações ganham músculos. A conversa, breve até, que se seguiu ao (re)aperto de mãos com o Pinto (nome fictício,) lembrou-me da máxima “se não consegues ter um castelo, podes ao menos construir uma cabana, mas não serás feliz com a cabana enquanto continuares a sonhar com o castelo”.

Assim como as imagens e as músicas, determinados locais detêm uma certa carga sobre as pessoas, independentemente das causas e razões, algo assim quase metafísico em certas circunstâncias. Por acaso, faço parte deste “batalhão” de pessoas para quem o aeroporto representa uma constante energia negativa.

Não sendo para aqui chamada a razão objectiva, o aeroporto é de um efeito forte, trazendo sempre que dele se está perto aquela fragilidade íntima. Às vezes acaba sendo mais forte a “maresia” do que o contacto com o cemitério. Pelo facto, procurei sempre distanciar-me dos aeroportos da minha localidade… bom, pelo menos até chegar o dia em que frequentar um deles passou a ser sinónimo de ganha-pão.

A “tortura psicológica” tornou-se uma constante, e há que conviver com o espírito triste que assombra o aeroporto. Talvez seja negativismo a mais, mas a verdade é que a alegria que se testemunha em cada abraço de reencontro, a correspondência de euforias entre quem chega e quem recebe, nunca chega a ser mais forte do que o impacto da tristeza na lágrima, no olhar, no adeus, de quem parte ou vê os seus partirem (uns até para não mais ver). E há também aqueles casos de pessoas que não conseguem viajar no mesmo dia…! E quis o destino (nome fácil para a falta de oportunidades em coisas melhores) que se fosse minha rotina tal dialéctica.

Em cerca de dez meses (que parecem anos), é muito o que há por contar, desde o que se viu ao que se ouviu, ou não fosse o aeroporto a porta de saída oficial de gente dos mais diversos extractos sociais. E quando “anónimo” é muito mais fácil testemunhar a fofoca, a inveja, o despeito até dos intelectuais da primeira água na praça nacional, ouvir desabafos de vária ordem relativamente à presença massiva de chineses e o receio de que “superpopulem” esta terra (já ouvi mais de dois portugueses e aborrecidos como se fossem os mais legítimos estrangeiros). Bom, é digno também de avançar que as mais frescas informações desde a política, o desporto, a cultura à economia passam por aqui.

Já não sendo fácil o fenómeno “relações humanas”, menos fácil ainda se torna lidar com pessoas “sempre apressadas”. É o natural ambiente de trabalho. Os voos atrasados, lugares esgotados... e os cancelamentos, então, esses são “condimentos” determinantes para ver gente virar “bicho” – o pior é que com justa razão, ou não fosse o mundo industrializado uma vida cronometrada!

Dominar o Inglês, umas catorze palavras de francês, para além do português e do meu doce Umbundu, é outra vantagem. E lembro-me sempre da cena de uma senhora namibiana de origem ocidental, no meu primeiro trimestre de serviço ainda. Fervia de nervos porque na lista reserva constava o nome do seu filho de oito anos, menos o dela. “Na vossa companhia as crianças viajam sem as mães?”, desabafava, com razão, por um erro de comunicação. Final feliz teve caso, e quando dei por mim estava a senhora a apertar-me a mão em jeito de agradecimento e desculpas pelos gritos de há pouco.

Parece um paradoxo considerar um dia de "especial" por acontecer algo que nos fez lembrar as frustrações, como me referi no início a respeito da conversa com o amigo Pinto. Mas são frustrações típicas de jovens que não se conformam com o jargão de que “nunca á tarde”; de pessoas que se rejeitam ao zénite medíocre segundo o qual enquadrar-se na função pública (como enfermeiro ou professor de base) “é tudo na vida”.

O(a) leitor(a) pode até considerar que andamos a exagerar no peso da nossa cruz, já que há pessoas vivendo em extrema miséria e para quem um “empregozinho” seria um milagre. Mas a questão não é essa. E mesmo que isso desagrade a “muitos”, existe também uma franja da sociedade com suficiente patriotismo (o que inclui realismo) para perceber a pluma de baixa qualidade da maioria dos certificados do nosso país, não sendo excepção o ensino superior. O melhor sempre atrai. E o Pinto faz parte do grupo de jovens ávidos de formação, como eu e tantos outros, que integraram, na década de noventa, o terceiro ano da então virgem escola do terceiro nível dos Bambús na vila da Catumbela.

Ele estava de passagem para Luanda, e após os tradicionais kandandus, naquele canto do aeroporto, pusemos a conversa em dia. Era evidente no rosto do companheiro o sabor gostoso do meio-caminho andado da sua formação de seis anos em medicina em uma das conceituadas universidades brasileiras. “Bolsa de Estudo”, disse ele. “Parabéns, mano!”, respondi. E a conversa seguiu, cada um procurando saber mais sobre os projectos e perspectivas do companheiro. E, acto contínuo, o parceiro acrescentava: “uma bolsa do próprio ministério da Saúde!” (Alguns detalhes ficam omissos por imperativos de consciência), mas não foi nada difícil saber que foi, a bolsa, adquirida nos corredores de Luanda e não distante do mais alto gabinete, o que, aliás, não foi surpresa.

As bolsas de estudo, que durante anos foram o paliativo para suprir a gritante falta de formação de quadros no país, servem, nos dias que correm, como “pingo-doce” restrito a pessoas próximas da governação para a sua formação grátis em prestigiadas universidades pelo mundo fora. oficialmente não existem e para muitos intelectuais que constituem o “povo em geral”, angolanos do tempo de guerra e do tempo de paz, uma bolsa de estudo é um luxo com que não se aconselha nem mesmo sonhar.

Bom Ano a todos (GP)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Atletismo: Kabuscorp do Palanca domina São Silvestre de Luanda

Atletas quenianos em representação do clube angolano Kabuscorp do Palanca dominaram segunda-feira (31/12/07), em Luanda, a tradicional corrida pedestre do fim-de-ano disputada em várias ruas da cidade capital, num total de 15 mil e oitocentos e cinquenta metros.

Quando os ponteiros do relógio marcavam 17:01 horas, o coordenador da prova para as inscrições, Adriano Nunes, deu o tiro de largada no largo da Mutamba (Baixa de Luanda), os cerca de 800 concorrentes, entre populares e outros em representação de distintos países, iniciaram a disputa na busca de lugares cimeiros.O representante de Cabo Verde, Nelson Cruz, teve o privilégio de comandar a corrida do Largo Serpa Pinto, na Avenida Amílcar Cabral até ao Largo da Maianga, onde não resistiu e foi de imediato ultrapassado por Elijah Nyabuti, do Kabuscorp do Palanca, e por Tony Wamulwa, da Zâmbia, que comandaram a partir do "Rio Seco" a corrida.Na subida do Prenda, que constitui neste tipo de prova o primeiro teste de fogo para os concorrentes, viu-se ainda dois angolanos, Joaquim Chamane e José Lourenço, mas depois desapareceram por completo, aparecendo em seguida o fundista João Ntyamba, que colou ao terceiro lugar.

Da Avenida Ho-chi-min, passando pelos quartéis, o bairro da Calemba, à avenida Deolinda Rodrigues, largo de Independência, Alameda Manuel Van-Dúnem, Quinaxixi, Porto de Luanda e Marginal, notou-se a troca de posições entre Elijah Nyabuti (queniano do Kabuscorp do Palanca) e o zambiano Tony Wamulwa.À entrada do Largo do Baleizão, quando faltava quase 500 metros da meta, viu-se ainda uma ligeira vantagem do corredor zambiano, que teve o privilégio de entrar primeiro para o interior do estádio dos Coqueiros, mas inteligentemente, o queniano conseguiu ultrapassá-lo já nos 200 metros finais, cortando a meta em “sprint” .

João Ntyamba salva a honra angolana ao chegar em terceiro lugar, a mesma posição conquistada pela compatriota Teresa Tchicolili, do Clube Desportivo 1º de Agosto, no sector feminino. A queniana Grace Monany, tambérm do Kabuscorp do Palanca, foi a vencedora, secundada pela zimbabweana Charon Tavegowa, ao passo que nos paralimpicos triunfaram José Sayendo (masculino) e Maria Mutango (feminino).
Texto: Angop