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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

[Oficina literária 30] ESSA GUERRA DE LIBERDADES! – poema de Madureira Kanambi


Se essa guerra não matasse tanto
Se o sangue e o sacrifício valessem a pena
Se o capacete na cabeça com sol ardente
A mochila nas costas e arma na mão
Tivessem algum resultado talvez
Valesse a pena lutar!

A cada passo dado, houve uma razão de luta
A cada tiro disparado, a necessidade de parar
Se as reuniões não resolvem nada, chamem o soldado
Ele está mais interessado em parar de morrer e de matar
O velho no sofá não entende de Aká! Não quer paz!
Que parem as guerras, queremos abraços
Que nosso inimigo nos ajude a desenvolver
Cultivamos a paz e nada de rancores

Foi sim pela Independência, mas guerra?
Foi pela liberdade, mas, independência?
Foi a guerra, mas que independência?
Guerra, independência, LIBERDADE

Que as liberdades não precisassem de guerra
Que as guerras não matassem
Que as independências trouxessem independências
Que nossos irmãos nunca fossem nossos inimigos;
Que a independência, trouxesse LIBERDADE,
Que a paz reinasse e matar não fosse necessário!

Se lutamos para termos paz, p’ra quê lutar?


SOBRE O AUTOR

Madureira Kanambi, natural do Ukuma-Huambo, nascido em Janeiro de 1989, residente em Benguela; descobre o fantástico mundo da literatura em 2008 e por influência de amigos desenvolve o hábito e amor pela leitura. É Membro dos grémios juvenis "Leitores Compulsivos" e "Mais em Comum", onde tem desenvolvido actividades voluntárias no âmbito de educação Literária, Literacia com jovens e infantes e ainda em trabalhos sociais. 
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sexta-feira, 30 de novembro de 2018

[Oficina literária 28] QUE COMECEM AS CALIFÓRNIAS – crónica de Kelson Kaputo

Vocês já sabem como é a cidade de Benguela. Uma amiga minha costumava dizer que Benguela era uma província burra. Ela não sabia explicar a razão dos insultos, mas sei que acusava a cidade de não saber dar valor aos seus produtos internos brutos, e sei com toda a certeza que a acusava também de ter dificuldades de gestão em época chuvosa.

“Benguela nos castiga muito!”, dizia a mulher. Se calhar a pobrezinha tem razão, mas não era preciso ofender de tal maneira a nossa mãe. Até porque ela se esforça em tentar gerir bem as coisas, eu sei que aquelas chuvas do mês de Março não são por mal, aquele sol de Fevereiro, Março e Abril que deixa pobres estudantes peões da recta da paciência confundidos ao tentar saber se era pelo sol das doze e quarenta (que fazia doer a cabeça), ou era por causa dos conteúdos de lá da escola (que para começar não são bem facilitados, facilitando aquele desgosto e desconsideração pelos estudos). Mas enfim.

Eu ponho-me a pensar em torno disso porque é dura a realidade de viver em bairros esburacados sem saneamento. Quando chove não se deseja nada mais senão saber voar. Mas é na terra das acácias que se encontram todas as cordas que (cada uma delas e em conjunto) libertam sons em melodias de cantar e encantar até aos confins do corpo de viola da nossa mboa Angola. E houve já quem dissesse uma vez que se Benguela não repousasse dentro do território angolano, este com certeza seria um deficiente cultural. Aqui vivem pessoas de todo tipo; belas donzelas, vozes de rouxinóis e saem até presidentes. Pelo menos é o que eu tenho visto.

Uma vez eu sentado, passava por mim um homem. Percebi ter o nome de Joaquim Sanga, na sua actividade laboral, com um semblante que trazia todo o tipo  de mensagem não verbal que comunicavam pobreza, luta e morte da alma. Sentindo-se derrotado pelo cansaço, decidiu calmamente render-se ao suposto conforto dos bancos assentados no jardim sintéticos do tal aclamado Largo d’África.

Aquele estava a ser um dia bastante violento e não era só do sol mas da cidade em si. Um pobre vendedor ambulante que não via em sol nenhum a esperança de um novo dia, quanto mais a lua e as estrelinhas? E como se não bastasse um polícia decide forçá-lo a abandonar um dos assentos públicos, que de facto era público, por ser um vendedor ambulante. “Desculpa senhor, o senhor deve-se levantar porque este lugar é público.” Pareceu até uma guerra de esfomeados. Todos ouviram a pergunta dirigida ao agente: “Desculpa ainda, chefe, público não quer dizer para todos?” “Sim, senhor, é sim”. Vês? Nem se percebe quem tem razão ou quem não sabe do que fala ou do que faz.

Mesmo depois de ter sido a sua pergunta confirmada pelo mesmo polícia de fiscalização pública que um bem público é um bem de toda gente, levantou-se. Era um homem educado, não tinha o objectivo de lá comercializar os seus acessórios de telemóveis, mas isso não o livrou de ser jogado novamente para aquele sol que por sinal estava sob tutela do diabo. Sentiu-se assassinado, considerando o facto de que ser assassinado no final das contas não é nada mais se não tirar de alguém o poder de ter vida na terra, não obstante o pai mandar não haver privilegiados entre os irmãos em casa.

Durante a guerra dos lobos famintos para liderança de Angola, em 2017, João Lourenço encheu de água as nossas bocas ao prometer a transformação da terra das acácias em Califórnia. Promessa muito é dívida.

Então que venham as autarquias! Vamos cozinhar a nossa própria comida, mbora lá fazer a nossa própria cama e pôr lá a dormir aquele grupo social que diz “o país já tem dono” e abre as pernas para aqueles jogos de lançamento dados que diz NÃO TE IRRITES, mesmo que matem as tuas peças. Verdades que me trazem lágrimas aos óculos. E já agora, se a Califórnia que nos prometeram for apenas física, então não adianta. Vamos fazer primeiro uma Califórnia psicológica, pois a alma do homem não pode estar onde ainda lhe possam matar.

Kelson Kaputo

SOBRE O AUTOR


António Quelson Kaputo, residente em Benguela desde 17 de Agosto de 1997, de 21 anos de idade, tem como profissão as actividades ligadas à área da comunicação social (propriamente comunicação e imagem). É Formando na Universidade Katyavala Bwila no curso de Licenciatura em Linguística/Inglês, ama a literatura e alimenta um sonho veemente de ser professor, escritor, interprete e empreendedor. É um homem determinado que acredita no amor e no poder pessoal, e conhece de perto o que é ser um jovem da periferia. 
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[Oficina literária 27] MISTERIOSA FEMINIDADE – poema de Armando Dias de Sousa


Misteriosa feminidade

"Nos teus seios o mistério dos desejos"
Onde se cruzam os caminhos
Com que se fazem os prazeres.

"Nos teus lábios o prazer boémio"
"Onde se alimentam loucuras e esteses"
"Endossada no coração dos poetas"
"E na majestosa arte de pintar quadros"

Oh! Misteriosa feminidade

"Os abraços por detrás dos lençóis"
(Os chouriços por dentro dos rissóis)
"A nudez com que te entregas aos varões"
Vai tudo além disso

É o seu corpo arquitetado
Que resplandece o retrato 
De uma alma vivente
E o seu olhar íntegro 
Que congestiona a insinceridade dos homens
E a razão avessa dos sexos.

Armando Dias de Sousa


SOBRE O AUTOR

Armando Dias de Sousa nasceu em 1991 na província (e município) de Benguela, bairro da Lixeira, actualmente residente no bairro 71. Desde 2010 que se interessa pelo mundo da literatura, apaixonado pela poesia. Um dos primeiros livros lidos o “Consulado do Vazio”, livro que lhe foi ofertado pelo mano Silivondela.
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[Oficina literária 26] – poema de Pedro Kamorroto

mar de loucos afluentes que se me atravessam
adentro o centro nevrálgico do po(fo)der e grito bem alto:

ré nuncio este presente-futuro-futuro-presente embebido
na baunilha de pali ativos actos

o país (político) é risível
não há bisturi que opere as chagas da transparência ou resgate
enquanto que o tecido social é condecorado por fazer travessia no deserto da miséria 


Pedro Kamorroto ou talvez Pedrospectivo

SOBRE O AUTOR

Pedro Kamorroto ou Talvez Pedrospectivo é um dos alter-egos de Pedro Nascimento Francisco, eterno viajante, cidadão do mundo, de nacionalidade angolana. Nasceu no vigésimo segundo dia do décimo mês do ano civil 1988. É licenciado em Engenharia de Telecomunicações pela Universidade de Ciência e Tecnologia de Lanzhou, China, teve também uma passagem curta pela ISCED de Luanda ex unidade orgânica da Universidade Agostinho Neto.
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terça-feira, 27 de novembro de 2018

[Oficina literária 24] BIBLIOFILIA… – crónica de Amândio Jamba Favor

Num ambiente sem gosto os meus ranhos ausentaram-se, as fossas nasais ficaram desertas, os meus pés já não queriam andar, mas as ideias choviam incessantemente sem parar no “entre ambos os dois” dum vizinho que afinadamente lançou o seu pretuguês vindo de Portugal dos portugueses sem colono. Os meus pensamentos lembraram-se dos “livros” que já li… Quantos “livros” já li? – Já não me lembro. Enquanto os meus conhecimentos faziam perguntas, a minha cavidade bocal as respondia. Os meus ouvidos ficaram distraidamente atentos ao ouvir a pronúncia ávida de um andante sem destino, ao dizer que já tinha lido tantos “livros” e que ele era o rei da zona quanto às “leituras” e “aberturas” dos próprios “livros”.

Acalmou-me a alma, pois levou-me a lembrar que actualmente todos “abrem os livros”. Uns para os ler e outros para os emprestar a outrem. E quem não tem livro não precisa de se preocupar porque havia quem o emprestasse caridosamente. – Quem diria!!! Mas até aqui nada mal. Porém frustram-se-me os ossos quando vejo os jovens e os velhos a “abrirem livros” infantis. Há gente com cara de pau. “Abrir um livro” infantil e “avançar” para outras paginas?!– Que vergonha hein!!! Mas é mesmo necessário que se leia um livro de jovem, de adulto para que se perceba que os “livros” infantis não servem para jovens nem para adultos e nem para ninguém. Por isso não se deve “abrir um livro” que não atinja as nossas perspectivas e nem sacie o nosso prazer “intelectual”.

Quem “abre” um “livro” infantil rasga todas as suas páginas… Enquanto os meus pensamentos organizavam as ideias para maldizer os falsos leitores, recebi um baptismo repentino vindo do céu que em poucos segundos enlameou o chão e este com raiva queria empurrar-me contra o chão. Dei um oi à vizinha e fui para cama a fim de ter boa noite. Abracei os meus lençóis sem testemunhas…

Amândio Jamba Favor

SOBRE O AUTOR

Amândio Jamba Favor nasceu em 1992. Fez o ensino médio no Seminário Médio do Bom Pastor no curso de Ciências Humanas. É licenciado em Ciência de Educação, opção Ensino de Língua Portuguesa no Instituto Superior de Ciência de Educação (ISCED)-Benguela.  Além do português, domina o inglês e o umbundu. Dedica-se à escrita de contos, fábulas e crónicas. É professor colaborador dos colégios Pitruca e Pim Pam Pum em Benguela.
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sexta-feira, 23 de novembro de 2018

[Oficina literária 19] Adão e Eva e o MUNDO – poema de Madureira Kanambi


Adão e  Eva e o MUNDO

Ouviu-se um estrondo! não como o do Big Bang
Um barulho estranho mas muito alto mesmo
Pela TV vimos que tinha desaparecido um
Continente. Mas afinal não era o primeiro
Minutos antes um outro tinha-se afundado,
as rochas de água que o cercavam descongelaram

Sempre quis que o meu fim do mundo fosse ao lado dela
Com a rapidez com que se vai desmoronando o mundo
É provável que nem chegue a tempo de a encontrar
Corro que nem antílope para o seu endereço e vejo-a
A fazer churrasco no quintal, está sem energia em casa
Há dois dias, ainda bem que ela não vive o mesmo terror que
O resto do mundo. As vezes o melhor mesmo é não saber!

Do outro lado do mundo há choros e ranger de dentes,
Deus prometeu que nos não destruiria com água, mas
Também não disse que seria assim, uma morte sofrida
E dolorida, uma morte com terror e medo e sofrimento
Mas ao meu lado estava ela, alegre e inocente e feliz
Abracei-a e lhe disse Te Amo
A primeira vez que não menti e como mentir é pecado
Eu disse outra verdade, o mundo está a acabar, me abrace!

Esse barulho assusta-me e o silêncio me incomoda
Todo o mundo desmoronou menos nossa casa
Achamos graça ante a natureza e isso aumenta nossa aflição
Este silêncio amedronta-nos e a responsabilidade de voltar
A encher o mundo nos apavora
E precisaremos de ser iguais a Adão e Eva, irresponsáveis e desobedientes
Para conhecermos o bem o mal e a CIÊNCIA, senão não desenvolvemos
Mas com Ela do meu lado Está Tudo Bem...
Este Mundo com Você continua completo e eu Feliz...

M Kanambi

SOBRE O AUTOR

Madureira Kanambi, natural do Ukuma-Huambo, nascido em Janeiro de 1989, residente em Benguela; descobre o fantástico mundo da literatura em 2008 e por influência de amigos desenvolve o hábito e amor pela leitura. É Membro dos grémios juvenis "Leitores Compulsivos" e "Mais em Comum", onde tem desenvolvido actividades voluntárias no âmbito de educação Literária, Literacia com jovens e infantes e ainda em trabalhos sociais. 
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quinta-feira, 22 de novembro de 2018

[Oficina literária 18] UMA MORTE REVELADORA – conto de Kelson Kaputo


Era um dia quente, eu vi, eu estava lá. Estava a ser um óbito normal com rituais normais, familiares e amigos dos familiares, todos presentes naquele lugar para sentir a grande perda causada pelo pequeno Deonácio, ou Déo, como era tratado em casa como diminutivo. Eu até pensava que era diminuto de Tadeu ou Amadeu mas não, era de facto diminutivo desse nome tão lindo dado pelo pai, pai pelo menos no bilhete, porque para a ciência pai já não é só aquele que põe lá a semente mas também aquele que cumpre todo papel. De contrário eles dizem progenitores. Mas não vou cá me explicar muito para não perder o foco, até porque  não estou a  responder em tribunal.

A verdade é que o pequenino, que Deus o tenha, tinha uma paternidade duvidosa, o mano Ricardo, coitado, tinha a fama de não bumbar, era mbaco. Ficou muito arrasado quando o tratador lhe disse as mais duras verdades, mas o bom homem não viu o fim do seu mundo naquelas palavras. Por sorte ou azar, depois de se ter casado com Magda (que certamente é a mãe do menino), eles mudaram-se para um outro bairro numa casa alugada na expectativa de escapar das maledicências dos familiares intrometidos. Com muita tranquilidade fugiram para um bairro calmo e muito amigável, onde Magda viria a encontrar o ex-namorado numa casa vizinha.

Eu não sei dizer se era nas caladas das noites em que Ricardo ia exercer as suas actividades laborais prestando os serviços nocturnos, os tais chamados piquetes, lá na esquadra de polícia, que Magda abria as portas de casa para o Marcos, o ex-namorado, mas não demorou muito para a pobre mulher dar aquela notícia.
– Ricardo, estou grávida.
– Gravida! – Exclamou o homem quase se engasgando com a colherada de chocapique que ele tinha a descer pela garganta. Coitado.

Não havia dúvidas de que Ricardo era chifrado. Ele não podia direccionar nenhum discurso de descontentamento porque já pressentia a resposta, “pelo menos vamos mostrar um filho”. Ambos concordaram em assumir todo o esquema na maior discrição, até reuniram-se com Marcos e assinaram todos os acordos de paz.  É a partir desse conflito que Deonácio apareceu, a sua passagem pelo mundo foi muito curta, mas foi uma maravilha tê-lo a abrilhantar a vida do casal lá dentro de casa. Mas agora o rapazolas ja desfruta da companhia do Criador e isto era tranquilizante. O que era perturbante, eram as cenas que aconteciam naquele óbito. Ricardo e Mágda e seus familiares até que podiam chorar, mas o aparecimento de Marcos e sua irmã e seus familiares no local é que dava ao óbito o clima de suspense.   

Mas o clímax do conflito foi na hora do enterro. Lá no cemitério Marcos não se continha e chorava amargamente, o que levou o Pai de Ricardo intervir logo depois do elogio fúnebre, e isso levou a tia de Marcos levantar-se e explicar os sentimentos de causa. Uma plenária fora convocada para apuramentos de factos, e foi daí que todos souberam da triste cena protagonizada em volta de um menino inocente.

Kelson Kaputo

SOBRE O AUTOR

António Quelson Kaputo, residente em Benguela desde 17 de Agosto de 1997, de 21 anos de idade, tem como profissão as actividades ligadas à área da comunicação social (propriamente comunicação e imagem). É Formando na Universidade Katyavala Bwila. no curso de Licenciatura em Linguística/Inglês, ama a literatura e alimenta um sonho veemente de ser professor, escritor, interprete e empreendedor. É um homem determinado que acredita no amor e no poder pessoal, e conhece de perto o que é ser um jovem da periferia.
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quarta-feira, 21 de novembro de 2018

[Oficina literária 16] MARCAS – poema Anjo N'silu


Marcas

Em cada verso dos meus retratos
Uma lágrima sangrada
Uma alma ensanguentada
De vários servos sem contratos

O menino ao colo, a voz do choro
Dizendo basta
Mas a saga não pára
A chaga à procura da cura
Clama só assim, pedindo socorro

Olha aí meu pai
Carregando sua cruz
Chibatado, mas não cai
Sofrendo tanto quanto Jesus

Minha mãe latindo às correntes
Seu espírito fugiu-se do corpo
O coração quase já não bate
Expirando o último fôlego
Encarcerada até aos dentes

O peão é sacrificado pelo rei
A rainha levando xeque-mate
Chora só assim até à morte
Isso não é um jogo de xadrez
Sobreviveu, teve sorte

Ó miséria que nos pariu
Vários séculos se passaram
Os cadeados se romperam
Mas a porta não se abriu

A liberdade jaz no seu cativeiro
Os quinhentos euros de escravatura
A merda do espelho nos traiu
Do livro a escritura sagrada
O cão que o Diogo alimentou
Os meus calcanhares feriu

É difícil ultrapassar
(Os karmas)
É difícil superar
(Os traumas)
É difícil esquecer
(Os problemas)
Se ainda existem marcas na alma


Anjo N'silu | Retratos

SOBRE O AUTOR

Filho de pai mukongo e mãe kamundongo, Anjo N’silu nasceu no município de Rangel, província de Luanda, se bem que o registo oficial mencione, como local de nascimento, o distrito de Ingombota. É um novo talento da literatura angolana, versado em poesia, prosa, crónica, conto, dramaturgia, abordando temas que traduzem a realidade sociocultural angolana e africana.
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quinta-feira, 15 de novembro de 2018

[Oficina literária 10] TRADICIONANDO – poema de Anjo N’silu


Sublime cabaça na cabeça

E a kapuka pinga na cacimba
Nem caldeirada, só tem fúmbwa
Tem jola miongo e pau de cabinda
Também missanji, jipepe, e jinguenga
Quimbombo, maruvu, e quissângua
Timba timba e ngadiadia na tigela
Gengibre e dicaxi na mulemba
Brututu e ngadiola tira jiba

Do fogo saindo a massambala
Perfume aqui não, só tem catinga
Se tem kizaka põe também muamba
Esfrega só assim o corpo todo a xandala
E se tem farinha musseque tem ngonguenha
Espera-cunhado bem cozinhado na lenha
Caldo quente para tirar a pelenguenha
Fuxita traz nas costas sua moringa
Kandengue rebola bem na jinga

Várias almas, uma única força
A multidão envolvida na kabetula
As máscaras não escondem a sungura
Se tem kizomba, vem também ngana soba
Aqueçam os batuques no meio da madrugada
Preparem moringa que hoje tem massemba
O corpo se expressa e a dança comunica
Dancemos a rebita ao som do ng’oma
Ao ritmo lento do tambor a ússua
É o alembamento de Lemba


Anjo N’silu | Retratos


SOBRE O AUTOR

Filho de pai mukongo e mãe kamundongo, Anjo N’silu nasceu no município de Rangel, província de Luanda, se bem que o registo oficial mencione, como local de nascimento, o distrito de Ingombota. É um novo talento da literatura angolana, versado em poesia, prosa, crónica, conto, dramaturgia, abordando temas que traduzem a realidade sociocultural angolana e africana.
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[Oficina literária 9] PÉS DESCALÇOS – crónica de Madureira Kanambi


Com os pés descalços, bacia na cabeça e um nascituro ás costas vai correndo pelas vastas ruas desta cidade e atrás dela um capataz de azul que com chicote quer resgatar os valores perdidos... a quer resgatar dos maus caminhos em que a senhora anda; resgatar a senhora da péssima decisão que teve de alimentar seus filhinhos com sacrifícios de uma venda ambulatória que mancha a beleza dessa cidade feia que não lhe dá outras oportunidades

De pés descalços vai o menino à escola, que mesmo com o futuro incerto e escuro, dedica suas manhãs ao ABC para que não seja sua a culpa de não ter emprego mais tarde; vai-se munindo de conhecimentos insuficientes para exercer uma profissão, pena que só dará conta disto muito tarde;

Com os pés descalços corre o jovem atrás da bola porque, para o sofrimento, alguma escapatória; não há homem que aguente tanto!

Com os pés descalços vai o homem para as lavras, que a este momento da vida precisam de ser cultivadas para diversificar a ementa diária e porque lhe pesa sobre os ombros a responsabilidade de uma mãe viúva, oito filhos, uma esposa kunanga, sonhos quebrados, direitos violados, país lixado... passa pelas ruelas esburacadas desta cidade que por sinal também precisa de ser resgatada de seus defeitos, e alguns até crónicos, trânsito infernal, poluição mental, gente sem moral, crianças de rua, mendigos a nu, antigos combatentes sem paradeiro, choros sem resposta, lamentações agudas, estrilhos gudas... que o Deus dos brancos nos acuda, porque o nosso SUKU já não houve nossas preces em umbundu e não entende português.

Com a mente descalça, passa o chefão que também precisa de ser resgatado do seu mau feitio, da sua mania de grandezas, das suas doenças especiais, dos seus hábitos de sobrepor-se aos demais mortais, do peculato e da impunidade e do nepotismo, hábitos próprios dos de barriga acentuada; que precisa de ser resgatado da cegueira de não sentir pelo outro, de não devolver a cada um o que lhe é devido... de pensar que é eterno;

Precisamos também de resgatar o agente desorientado, o cristão perdido, o professor incapaz, o dirigente incompetente, a profecia falsa, o funcionário ocioso, o saneamento básico, a saúde pública, a escolaridade obrigatória, a educação jurídica, a água, a luz, a fé dos homens, o salário baixo, os dólares americanos, a credibilidade das instituições e calçá-los com os melhores sapatos, para que andem e façam uma boa viagem.

M Kanambi

SOBRE O AUTOR

Madureira Kanambi, natural do Ukuma-Huambo, nascido em Janeiro de 1989, residente em Benguela; descobre o fantástico mundo da literatura em 2008 e por influência de amigos desenvolve o hábito e amor pela leitura. É Membro dos grémios juvenis "Leitores Compulsivos" e "Mais em Comum", onde tem desenvolvido actividades voluntárias no âmbito de educação Literária, Literacia com jovens e infantes e ainda em trabalhos sociais. 
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segunda-feira, 12 de novembro de 2018

[Oficina literária 6] A TURMA DO ZÉ – crónica literária de Anjo N’silu


Há não muito tempo, num lugar não muito distante daqui, houve uma turma cheia de crianças insurrectas, obesas, de costas largas e gordas talvez; um professor muito sorridente, alto,manso magro, escuro, vagaroso, carismático, cara de pau, cabeça d'água, coração de pedra (que tanto bate até que educa), qual tripulante cego conduzindo seu barco ao iceberg: Zé Do Caraio!

– É malandro esse Zé Do Caraio. Tem mania de Hiena!

Segunda-feira, sala cheia e muita desordem nessa turma. Soava sempre muito barulho no norte, confusão no leste e muita desorganização no sul. No primeiro dia da semana, não sendo domingo, dois meninos vão ao quadro: um Paulo que soma, o mais gordo da turma, outro Paulo que explica, na aula de matemática financeira.

Como quem já entrou no reino dos céus e não mais precisa da comunhão com as outras ovelhas a caminho de lá, Augusto não se prende ao imperativo de estudar para ser alguém. Todo o mundo conhece o Augusto Sekele, o mimado. Gosta de fugar à escola e quando aparece mata as aulas, à sombra da mangueira, mas também é muito bom em matemática financeira.

Vai-se ouvir a voz do professor em voz não muito clara, suave, lenta e afinada, como o noivo que canta para a sua esposa na noite de núpcias. Um casamento desajustado entre um professor desregrado e seus alunos desmotivados. Sem abrir o livro de ponto vão-se ouvindo os nomes. É a hora da chamada.

– Fernando Elias Kimbiji?

– Presente!

– Fecha a boca e abre o coração! Vai para conta da tua mãe, levanta a massa e traz para mim uma cuca bem gelada! – Além de bêbado, é corrupto esse Zé Do Caraio. Mas que tipo de professor é esse que chama um aluno por dia?!

– Ana Kimbiambia, sempre atrasada! Não é por seres filha do director que não levas kandambala.

– Acalme-se, stor! Beba a sua cuca gelada e relaxe. E a turma sorria dando gargalhadas, e começava a barulhada, como sempre.

Isa Kimbokota tem mania de furtar os lápis alheios. Mas também, com um sobrenome desse não se espera algo não diferente disso. Na verdade, são todos salteadores, inclusive o próprio professor que deveria dar exemplo. Pudera! Kimbokota vendia petróleo na praça da Palanka, mas o seu negócio foi todo por água abaixo. Deveras!

Na terça-feira, duas horas antes da chegada do professor à sala, a aula fica por conta do delegado. João Do Lenço, um pouco mais sério que o próprio professor, mas não menos barulhento que seus colegas, consegue disciplinar um pouco essa gente tirando da turma fora quem muito fala e pouco acerta. Poucos na turma gostam do João. Nem mesmo seu colega irmão. Mas Do Lenço se assentava sobre o espírito da disciplina e da plena tranquilidade.

Se o véu se rasgar e Jerusalém abrir os portões, nenhum desses camelos passará pelo buraco da agulha; nem ajoelhados.

– Hoje é Sexta-feira, vamos todos cantar! – Fala só assim o Zé.

Escola, Escola!
Escola linda.
Até manhã, camarada professor!
Se o Zé quiser, amanhã viremos mais!

Anjo N’silu | Retratos

SOBRE O AUTOR

Filho de pai mukongo e mãe kamundongo, Anjo N’silu nasceu no município de Rangel, província de Luanda, se bem que o registo oficial mencione, como local de nascimento, o distrito de Ingombota. É um novo talento da literatura angolana, versado em poesia, prosa, crónica, conto, dramaturgia, abordando temas que traduzem a realidade sociocultural angolana e africana.
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domingo, 11 de novembro de 2018

[Oficina literária 5] QUEM SOMOS? – crónica de Madureira Kanambi


De onde viemos e para onde vamos? São questões antigas e ao longo da eternidade cada geração, cada grupo de homens, cada tribo ou nação, cada grémio religioso, cada corrente científica, filosófica e/ou sociológica tentou dar aos seus semelhantes uma explicação a estes questionamentos.  Mas será que viemos do macaco ou da água? Voltaremos a reencarnar um dia? Vamos para o paraíso? Viemos de insectos? Evoluímos ao longo dos tempos?  A morte é o fim de tudo? Deus realmente nos criou?  Não existe paraíso?

E quanto mais o tempo passa, mais teorias vão surgindo e outras se solidificando, enquanto umas desaparecem e/ou perdem forças. Este mistério, que ao universo pertence, continuará sendo uma incógnita dentro dos Seres pensantes.

Somos apenas metade de uma célula, deambulando pelo universo como se fôssemos deuses. A natureza prova a nossa pequenez e invalidez, quando se enfurece e torna todas as nossas forças e capacidades inúteis e destrói tudo e todos sem o menor esforço e sem oposição alguma.

Somos homens e endereços de IP, humanos robotizados, insensíveis e ambiciosos, Androids  e Ios. Somos contas bancárias e status, somos o que as pessoas pensam de nós. Somos meros reprodutores e seres impensantes, nossas vitórias e nossos medos, nossas falhas e empreendimentos.

Somos HUMANÓIDES E CIÊNCIA, nossas frustrações e títulos, somos mortais, SADC e nada. Inseminação e guerras, barrigas de aluguer e Bahamas, Férias no Hawaii e Guerras no Mumbai, Catástrofes naturais e armas nucleares.

Somos tudo o que dá dinheiro, Passamos por cima dos outros pelos nossos sonhos, consumismo desenfreado e exploração dos iguais. Somos nossos SONHOS E homens bombas, nossas lutas diárias e HONESTIDADE, SOMOS Hindus,  terrorismo e Islamismo, somos o que pensamos e o que comemos, SOMOS O QUE CREMOS. Somos KUDURU, ONU e mentiras, somos assassinatos, peculatos e Índios, somos Humanos racionais dependentes de Celulares...

Bagdad, Oslo e Viena, refugiados, milionários e mortais... Somos o que a natureza nos impõe e o que escolhemos ser... Somos nada e nada. Somos Homens e Mulheres e mistura, porém, tenho Certeza de uma só coisa: VIEMOS DO PÓ E PARA O PÓ VOLTAREMOS.

Madureira Kanambi

SOBRE O AUTOR
Madureira Kanambi, natural do Ukuma-Huambo, nascido em Janeiro de 1989, residente em Benguela; descobre o fantástico mundo da literatura em 2008 e por influência de amigos desenvolve o hábito e amor pela leitura. É Membro dos grémios juvenis "Leitores Compulsivos" e "Mais em Comum", onde tem desenvolvido actividades voluntárias no âmbito de educação Literária, Literacia com jovens e infantes e ainda em trabalhos sociais. 
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sábado, 10 de novembro de 2018

[Oficina literária 4] AS PALAVRAS NOS LÁBIOS – poema de Manuel Mulula

AS PALAVRAS NOS LÁBIOS

As palavras nos lábios
São água do rio
Ou água do mar
Meu sol, minha noite, 
às vezes, minha sorte

Quando ditas com coração
Sabem morrer
O que não souberam viver (...) 

As palavras nos lábios
Revelam a minha paz adiada
O meu sorriso roto e rasgado 
O meu mudo brado
No musseque dos esquecidos 

As palavras nos lábios
Queria eu que valessem: 
O homem, a sua história, 
a sua honra e a sua glória

Manuel Mulula

SOBRE O AUTOR

Manuel Francisco Mulula nasceu na comuna de Luremo-Cuango, província da Lunda-Norte, Abril de 1992. Vive no Lobito, província de Benguela, desde os seus sete anos de idade. É estudante do 3° ano no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED-Benguela) da Universidade Katyavala Bwila, na especialidade de Ensino da Língua Portuguesa. 
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A Voz do Olho Podcast, EP1, Temp 2

Gociante Patissa recita poema "Alugam-se velhos" na RTP África

A Voz do Olho Podcast

[áudio]: Académicos Gociante Patissa e Lubuatu discutem Literatura Oral na Rádio Cultura Angola 2022

Puxa Palavra com João Carrascoza e Gociante Patissa (escritores) Brasil e Angola

MAAN - Textualidades com o escritor angolano Gociante Patissa

Gociante Patissa improvisando "Tchiungue", de Joaquim Viola, clássico da língua umbundu

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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TV-ANGODEBATES (novidades 2022)

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