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terça-feira, 26 de junho de 2007

Uma mulher fala aos chefes da África



A carta de Elisa
(In: Boletim "A Voz do Olho", Projecto informativo, educativo e Cultural da AJS www.ajslobito.blogspot.com)

Elisa Kidané é uma mulher etiópica. O amor pelo seu continente levou-a a escrever esta carta aos chefes de África.
Caríssimos governantes dos 54 Estados de África e Chefes de Vários grupos de Oposição,
Queria nomear-vos um por um, mas devido à vossa instabilidade, poderia acontecer que, ao chegar esta minha carta, alguns de vocês se encontrassem já presos, destituídos, ou até mortos e… enterrados.
Limito-me, portanto, a generalizar, visto que a linguagem militar é o vosso forte.
Sou uma mulher africana. Não tenho habilitações literárias nem segurança económica. Sou uma mulher do povo. Chega. Escrevo-vos só porque amo a África.
Amo a África de hoje, aquela que vós sois chamados a guiar.
Amo esta África oprimida e martirizada.
Amo esta África nobre e orgulhosa.
Amo esta África à qual fecharam a boca para se não ouvir o seu grito de dor e assim, sem escrúpulo, explorar as suas riquezas naturais… ordenhá-la até à última gota como se fosse vaca, enquanto que desde sempre foi e será uma leoa, apesar de estar ferida de morte. Amo esta África, à qual se dão ordens de Moscovo, Washington, Roma… como se fosse incapaz de pensar por si própria, ao passo que a sua sabedoria é antiga e proverbial.
Amo esta África, à qual se arrancam as suas matérias-primas para depois descarregar-lhe em cima contentores de alimentos… como sinal de solidariedade.
Amo e choro por esta minha África. Por isso, vos escrevo.
Governantes, irmãos mais velhos, hoje cabe a vós a tarefa de romper com o jugo da miséria, da violência institucionalizada que esmaga milhões de africanos. Cabe a vós os promotores de uma economia e indústrias africanas. Sois vós que quereis apoiar e favorecer a expansão de uma cultura e identidade sempre mais sofisticada e descarada dum novo colonialismo.
Que tristeza quando vejo alguns de vós macaquear modelos de governo em contradição com a nossa personalidade e dignidade africanas!
Que tristeza quando vejo que esqueceis a regra da nossa convivência africana: o diálogo com o Ser Supremo, o diálogo com as pessoas, o diálogo com a natureza!
Ficará para sempre um sonho a figura do ancião do clã que reunia o povo debaixo da grande árvore e dava a palavra a todos e respeitava o pensamento de cada um? Agora a lei está do lado do mais forte. O pobre, o fraco, cai debaixo do peso da injustiça.
Governantes desta minha África, à qual estou orgulhosa de pertencer;
Não deixeis que o poder vos torne cegos até esmagar o elementar do direito do homem viver.
Não deixeis que se perca a voz dos melhores poetas e artistas que lutam pela valorização de uma cultura africana.
Divorciai-vos de toda a forma de sistema político que rasga o equilíbrio do nosso ser africano.
Devolvei àqueles que fazem planos de morte as suas armas pagas, aliás trocadas, pelos nossos géneros de primeira necessidade.
Devolvei tudo e dizei-lhes que tendes optado por um projecto tipicamente africano: Vida-paz.Em seguida, falai com o povo. Escutai-o e, juntos reconstruí uma sociedade com sistema económico e político que olhe para a formação e o respeito do homem, da mulher, do Jovem, da criança, na autonomia de cada nação.

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(*) Texto publicado em Abril de 1989, pela “Nova Vida” – Revista Mensal de Informação e Formação Cristã; Ano 29 – Nº 4 –, caixa postal 564, Nampula (Moçambique)