PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Contos da nossa Terra │O preço de um milagre (*)

Depois de receber uma convocatória mais ou menos furiosa para comparecer no dia seguinte à residência do Rei, o aldeão, meio-jovem, meio-homem, era um turbilhão de ideias. Da boca do emissário, de tão telegráfico, podia-se muito bem inventariar a mensagem em quatro palavras: “Henlã kekumbi konjo yaSoma” (amanhã à tarde em casa do Rei). Nada mais acrescentou, nem era preciso. O assunto era grave. 

O convocado nada disse às pessoas com quem vivia. Tentou dormir. Foi assim que se lembrou da mais sábia das soluções, acreditava ele. Fez-se à residência do mestre sobrenatural. No escuro, manteve-se quieto, sem deixar de garantir estar fora do alcance dos cães, ao mesmo tempo guardas e caçadores, muito amantes de ossos (ele era muito magro).
“Tu por aqui?”, indagou o dono de casa que deu pelo intruso no momento em que ia atrás da árvore para aliviar a bexiga dos líquidos do dia anterior.
“Sim, mestre, nem deixei os galos cantarem. Fui chamado pelo Rei…”
“Queres que eu vá no teu lugar?”
“Não é isso, mestre, quero que me tires as culpas…A fama de bom curandeiro é grande. E se fama tem, solução também… Até porque o mestre também é feiticeiro, ou não é?
“Ó rapaz, cuidado, hã? Pelas tuas palavras tortas, você estragou coisa grande, não é?”
“Engravidei a filha do Rei, papá. Sem apresentação, sem alembamento, ainda por cima, sem profissão, sem herança, sem beleza…”
“Mas força de homem tens. Que mal te podem fazer?”
“O mestre esqueceu que Rei é sempre a Lei?”

A dado momento, a mulher do Rei interrompia para servir chá com batata-doce fervida.

 “Pago duas galinhas, um porco e um cabrito, mestre. Me tira só a chave. Faz Milagre”
“Que chave, rapaz?!”
“A cuspideira. Se quando eu for lá, eu alegar que não engravidei a menina, uma vez que a natureza não me deu o equipamento cuspidor de gravidezes, escapo…”
“E depois, quando a criança nascer e ficar parecida contigo?”

Rubrica Crónicas do Metro │ Não sobravam lugares (*)

Texto de Alexandra Sobral, Lisboa,
Portugal, 20 Fevereiro 2016
Vi-nos no Metro, com 19 e 18 anos, respectivamente. Tu sério e circunspecto, com o ar imberbe a sublinhar o adolescente que sempre irá contigo, vestido a condizer com o que ao mesmo tempo não te assenta e te molda, a tentar negar o tal ar. Eu com o ar travesso que teimo em afastar e com as roupagens e caracterizações que penso me conferem a maturidade que parece nunca mais chegar. Íamos de pé, que não sobravam lugares sentados aos pares e as tentativas que fomos fazendo para ocupar um desses, foram, de estação em estação, sendo frustradas, pois havia quem, por certo por insensibilidade, distração ou puro e duro egoísmo, sempre se nos antecipasse, deixando sem vaga o lugar par que tanto queríamos e tanto nos escapava. Não conseguia conter o riso, que em cada nova dessas tentativas me saía nervoso e a soar a idiota, deixando-te, eu bem presentia, deveras incomodado, diria mais, envergonhado. A verdade é que não queria que só a minha mão ficasse junto à tua, na pega que quem prevê essas coisas deixa disponível para esse e outros efeitos. Finalmente, à medida que os empecilhos foram saindo, ficou ali disponível o lugar que nos permitiu sentarmo-nos lado a lado e, passados uns breves instantes, que me pareceram várias eternidades, encontrar coragem para deixar que a minha cara procurasse o teu ombro e a minha mão enlaçasse a tua. Tu desarmaste por momentos, e o teu ombro e a tua mão acolheram-me … Só fiquei intrigada com o ar nostálgico que tinha uma mulher, com idade para ser minha mãe, que nos vinha observando desde há umas estações atrás...
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(*) No Blog Angodebates, uma rubrica com textos da nossa amiga Alexandra Sobral, advogada de profissão, que, utilizando um transporte colectivo em Portugal, põe o seu sentido de observação em acção. Resulta disso um trabalho individual que passa a valer (se não muito mais, pelo menos) o dobro, uma vez submetido ao exercício de tradução de emoções pela via da escrita e partilhado no espírito cosmopolita da comunicação e socialização. Originalmente publicadas no mural Facebook da autora, saem com o genérico Crónicas do Metro, sendo da responsabilidade do Angodebates o complemento dado ao título para facilitar a distinção entre uma e outra. Dá imenso gosto passear por Portugal à boleia destes breves apontamentos

domingo, 28 de fevereiro de 2016

[Oficina] Conto | “Eu não fazi nada mamã, só tirí”

Texto de Felisberto
Ndunduma Sakutchatcha

Depois do chamamento iroso e arrogante dela, todos ficaram sentados (numa única cadeira que havia no jango lá em Kalweyo), a madrasta perguntou com toda energia:
Quem tirô o cem que tava na banca?
Não sabo, mamã! respondia assim o tímido enteado Cornelinho, um novinho irmão vindo do Etaholwa!
Eu também nô vi quem tirô, tia replicou o orelhudo Kahiva, primo por excelência.
Vou perguntar di novo: quem tirô o cem que deixi na banca?
Mãe, na banca? Dentro ou fora? respondi com ironia por ser filho legítimo e também por coincidir com uma aula de localizações das coisas que tive naquele dia.
Ó cabrão, vô ti matar com purrada! Estava na banca eu também não mi lembro bem se tinha ficar na cima ou na baixo. Só quero o cem que estava na banca!
hahahahahahahahahahahahah As meninas (Rosália e Laurinda) morriam de gargalhadas, porque ainda tinham a energia voraz da gramática que a professora Júlia da Escola 10 lhes transmitira, embora com seus dentes podres que às vezes confundem a fonética.
Pufa! Pufa!  Pufa! Os dois enteados mais um sobrinho levaram logo de primeira umas palmatórias do cassetete do mano Ernesto Kamwele, coitado!, que sua alma descanse em paz e Deus o tenha…!
Lá no meu cantinho eu tremia de susto (ao mesmo tempo mijando nos calções como era de hábito para esvaziar o medo) e dali continuou a sova aos três azarados da nossa casa, por sinal os mais crescidos, em fase própria de furtoszinhos domésticos.
Pufa! Puh!Puh!Puh! Páh!Páh!
Aiué! Aiué! Vô na minha mãe! Vô na minha mãe! Eu sô órfão! Aqui me odeiam! gemiam assim as vítimas dos açoites do dia.
Eu não vi o cem, mas era só cinquenta! Gritou o Tchipepe.
Então, era mesmo este dinheiro cem de cinquenta-cinquenta! disse ela.
Mas não sou eu que tiri, fali que só vi. Estava na mão do Cornelinho.
Eu também não vi, mamã. Só o Cornelinho me mostrou um cinquenta roto que colamos com tchimbungú para comprar califi doce! Assim clamou o Kahiva.
Então foi você que tirô nem? Só estás a deixá batê os otros! Não, pensei bem, todos vocês são culpados porqui cumeram o dinhero juntos.
Eu só comi califi e assistimos filme do Jerry e Avô Nombo no Dinis que mi pagarom lá!
E você Cornelinho onde tiraste o dinheiro?
Então se a mamã já sabe onde estava o dinheiro, porque pergunta onde tiraram? questionei.
Pufa! Pufa! Me deram umas bofetadas mais dolorosa e cai chorando.
Mamã, encontri dois cinquentas no chão e não na banca, só tiri dinheiro do chão, mas  mesmo eu não fazi nada, mamã, só tirí.  concluiu o Cornelinho, quando já havia acabado a sova. 
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Nota do Blog Angodebates: No ano em que completa o 10.º aniversário, o nosso Blog lançou um desafio de crescer junto com os seus leitores, abrindo para o efeito uma oficina para a divulgação de contos, crónicas e poesia de autores com ou sem livros. Como é natural, teremos colaboradores principiantes, pelo que lá onde for necessário, a gestão editorial do Blog fará ou sugerirá arranjo. O que esperamos é no futuro olhar para o primeiro texto de cada colaborador e festejarmos o progresso que for alcançando. Caso queira participar, pode mandar textos (crónica, poesia, conto) para patissagociante@yahoo.com

Nota solta | Livres para desaprender

Houve tempos em que a gramática e o dicionário também eram para se lerem; tempos em que a vírgula entre o sujeito e predicado era um erro de palmatória; houve tempos em que ler várias vezes o que escrevemos era um dever. Havia excessos de zelo, é verdade, como o facto de os enunciados dos exames finais serem levados à sala de aulas por militares armados da Segurança do Estado. Depois, felizmente, desarmou-se a educação, ficamos livres de tudo, até do sentido de correcção (antes um sinal de respeito pelo receptor, na cadeia da comunicação). Viva a era do primado do desaprender.
Gociante Patissa, Benguela, 28.02.2016

sábado, 27 de fevereiro de 2016

A música a preto-e-branco

(O modelo é Lucas Manuel, talento bem encaminhado que animou hoje palestra enquadrada no primeiro aniversário da ALCA. Alguém completa o nome?)

Crónica | Uma década de ambivalências

Estava tenso, um misto de incompetente com impotente. Tinha a manifestar 14 passageiros, mas pareciam 14 mil, até para mim, que escrevo rápido à mão. O meu primeiro dia foi um trauma. Imagine você o que é ser lançado para um cenário de atendimento público sem treinamento ao menos sobre as ferramentas em uso.
 
Para além do colete reflector, do lugar ao balcão e dos 60 minutos planificados para a tarefa, nada mais dominava. Tive de ser ajudado a preencher a papelada, à frente de todo o mundo, por um dos candidatos que derrotei nos exames de admissão (escritos e orais). Há como esquecer a nobreza de tal gesto? Sem que lho pedisse, estava ele a tutorar precisamente quem ficou com o emprego com que há muito vinha sonhando.

Eu desde pequeno que sonho com muita coisa nesta vida. Com aeroportos é que não me lembro. De sorte que a minha relação com o sector, que no próximo dia três de Março assinala o nono aniversário, dá-se mais no espírito piloto-automático. Tenho, sempre tive, dos aeroportos a mesma percepção sombria que me ocorre dos cemitérios. Talvez pelas emoções de rotura entre quem parte e quem fica; talvez pela natureza “pronto a explodir” dos aviões; talvez pela vocação autoritária dos sistemas de segurança, enfim, há qualquer coisa de potencialmente lúgubre na aura dos aeroportos.

Em 2006, ao cabo de sete anos exercendo um pouco de tudo no ramo das ONG’s, acolhi com certo entusiasmo a ideia de trabalhar para um ente para-estatal. Aspirava, finalmente, curtir uma praia ao domingo e, ainda mais excitante, usufruir fins-de-semanas prolongados. Engano. Começava a odisseia de oficial de tráfego aéreo. “Como vai a vida? Continuas naquele emprego? Espero bem que não!”, escreveu-me uma ex-chefe um ano depois.  E eu continuava. Ironia.

Não há nada de comparável entre o sector da sociedade civil e o serviço de terra em aviação, desde logo porque no primeiro imperam a criação, a fertilidade dos debates e a natureza horizontal das estruturas hierárquicas, ao passo que no segundo, tudo gira em torno da lei da rotina. Para as mesmas coisas, nas mesmas circunstâncias, as mesmas reacções. Hoje, sou testemunha de grandes progressos na história da aviação cá, com realce ao rigor do Instituto Nacional da Aviação Civil na certificação de operadoras, o que levou à extinção de várias, mas também à redução de casos de acidentes. Louvo ainda a transição dos sistemas de check in, do manual para o electrónico.

Certa vez, tivemos um passageiro a mais na classe executiva. Tinha talão de embarque, mas não o manifestei. Escapou-me. Nestes casos, infelizmente, a reacção do pessoal de bordo, colegas por sinal, é a enxovalhar, sem ter em conta a tensão natural do balcão. O passageiro era o deputado Akwá. Tive de o mobilizar para ir na económica. Garanti que restituiria do meu salário a diferença. O deputado relevou sem o estrebuchar previsível de gente poderosa. Só aumentou a minha admiração por aquela estrela do futebol.

Já vai quase uma década de ambivalências. Empregador generoso, emprego nem tanto. Possibilidades de alicerçar o capital de prestígio, dando aulas ou integrando redacções jornalísticas não faltam, pelo que não me queixo da sorte. Prevalece a esperança de vir algo melhor dentro da casa, nem que seja até um dia antes da aposentadoria. 
Gociante Patissa, Aeroporto Internacional da Catumbela, 27 Fevereiro.2016

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Utilidade pública | Convocadas eleições na União dos Escritores Angolanos

Citação

"Nós falamos assim: 'você vais bater uma mulher grávida, lhe empurras nas escadas, ferir a filha alheia?! Não sabes que isso é matar a tua esposa e o filho que lhe deste?! Se não lhe gostas, você não lhe devolve na mãe dela?! Já porque, se te queixarmos na polícia, só vais ir preso, nós mesmo é que vamos te dar a lição'. Olha, pegamos no jovem, lhe demos uma boa surra, esses batem ali, aqueles batem lá, ficou todo inflamado. E lhe falamos: 'torna mais!' Aquilo parece foi remédio, já passam anos, a mulher até hoje... nunca mais se queixou".
GP. Benguela, 25.02.2016 www.angodebates.blogspot.com

Ndopo tuyenguluka | A ponto de derreter | Just about to melt

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Rubrica Crónicas do Metro | Diferentes (*)

Texto de Alexandra Sobral, Lisboa,
Portugal, 20 Fevereiro 2016 

As viagens de Metro são sempre um manancial para a observação e permitem pensamentos desgarrados sobre a natureza humana, que, até para quem os tem, esse tipo de pensamentos, no caso eu, não podem deixar de se qualificar como extravagantes. Hoje, para além da já habitual profusão de cidadãos que se adivinham de paragens tão diferentes, distantes e muitas delas de difícil determinação e denominação, havia uma rapariga com um cabelo comprido, imensamente comprido, tão comprido que sugeria tratar-se de Lady Godiva, estivéssemos nós no campo e a mesma cavalgasse o cavalo branco que a identifica. Mas o que era mais surpreendente, para além do tamanho do cabelo, era a cor do mesmo que oscilava entre o verde esmeralda e o azul lazuli, numa cor de difícil qualificação. A tez tão branca, que se diria transparente, fazia ressaltar ainda mais aquelas tonalidade e cor que lhe emolduravam a face. Uma pequena argola metálica, dourada, colocada na narina esquerda, quebrava, ainda que só aparentemente, a harmonia criada por aquele contraste. Apanhei-me a divagar se teria sido transportada para o reino dos Elfos pela mão de Gandalf, tal o fascínio que aquela visão me provocava. Mas a voz maviosa a lembrar-me Baixa-Chiado, fez-me perceber que não passava de mais uma manifestação destes tempos, que, tal como em todos os outros, todos queremos, de uma forma ou de outra, ser diferentes... na imensa e confrangedora mediania que se nos agarra à pele e não nos deixa distinguirmo-nos.
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(*) O Blog Angodebates lança hoje a rubrica «Crónicas do Metro», com textos da nossa amiga Alexandra Sobral, advogada de profissão, que, utilizando um transporte colectivo em Portugal, põe o seu sentido de observação em acção. Resulta disso um trabalho individual que passa a valer (se não muito mais, pelo menos) o dobro, uma vez submetido ao exercício de tradução de emoções pela via da escrita e partilhado no espírito cosmopolita da comunicação e socialização. Originalmente publicadas no mural Facebook da autora, saem com o genérico Crónicas do Metro, sendo da responsabilidade do Angodebates o complemento dado ao título para facilitar a distinção entre uma e outra. Dá imenso gosto passear por Portugal à boleia destes breves apontamentos

«Filhos de estrangeiros nascidos no tempo colonial já não terão direito a nacionalidade», noticia o REDE ANGOLA

O parlamento aprovou ontem, depois de vários adiamentos, a Lei da Nacionalidade, diploma que impede agora cidadãos estrangeiros e seus descendentes, nascidos em Angola no tempo colonial português, de serem angolanos.

A Lei da Nacionalidade foi aprovada com 142 votos a favor do MPLA, 34 contra dos partidos UNITA e CASA-CE e quatro abstenções do PRS e da FNLA.

“Cidadãos filhos de estrangeiros, nascidos em Angola antes da independência que não tenham regularizado a sua situação já não podem adquirir a nacionalidade, perdem o direito, a partir da data da publicação da lei”, reforçou Isabel Tormenta. Ler artigo inteiro aqui

Nota do blog Angodebates:
Falar disso era convite para receber o rótulo de "preconceituoso". Mas em boa verdade, essa lei chega tarde, talvez demasiado tarde, já depois de tantas irregularidades e tanta nacionalidade atribuída. Tivessem os parlamentares um ouvido mais próximo do povo, isso estaria arrumado logo que se conquistou a independência. 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Diário | O trabalho dignifica o cão, não?

"Esse cão comeu mesmo?"
"Comeu, tio!"
"Não parece... Olha a barriga dele..."
"Mas comeu."
"Lhe deste o quê?"
"Arroz guisado com guelras de peixe."
"Verifica outra vez a tigela dele então."
"Já. Ó tio, comeu uma metade. Assim, a outra metade ele vai comer mais tarde. Esse cão é mesmo assim quando vê pessoas; gosta de boa vida, comer bem..."
"Neste caso, é melhor o cão arranjar emprego. O trabalho dignifica o cão, não?"
GP. Benguela, 23.02.2016

Mediateca de Benguela acolhe sábado (27/02) conferência sobre | NECESSIDADE LITERÁRIA NUMA ANGOLA EM CRISE | O evento enquadra-se nos festejos do primeiro aniversário da ALCA

Segundo a nota de imprensa da Associação Literária e Cultural de Angola (Alca Benguela), a conferência, que tem como prelector o linguista e docente David Calivala, está aberta ao público e visa promover uma reflexão em torno de duas questões cruciais, nomeadamente, "que desafios a Literatura deve enfrentar nesta época que se vive actualmente?" e "que contributos práticos a Literatura pode dar para a superação da Crise que se Vive no País?" A par da conferência, agendada para sábado às 14 horas, várias outras actividades estão programadas na jornada do primeiro aniversário da agremiação, em curso de 18 de Fevereiro e que encerra no próximo dia 7 de Março.

[Oficina] Crónica | Girabola weza mu Saurimo (*)

Texto de Guilson Silvano Saxingo
Saurimo, 23.02.2016
Muitos foram os esforços das autoridades locais e agentes desportivos que lutaram e labutaram dia após dia para acontecer o tão esperado e cobiçado Girabola, que há 23 anos por cá não acontecia! Na última jornada da "segundona", o centro do Leste vibrou, festejou e viu o sonho feito realidade.

Barracas aqui e acolá, quase todos automobilistas, motociclistas, velocípedes e aqueles a quem os pés eram únicos escravos que os possibilitavam ver o céu! Abastecimento grátis, Cuca à metade do preço habitual, barris de garrafas ensanguentadas ao dispor dos jovens cegos e corrompidos… pelo álcool. Começou a festa… 

96 dias e noites, o sol bravo e bonito raiou. Logo nas primeiras horas do dia, começou a desordem organizada. Todavia, às sete da manhã saía eu de rosto envergonhado a caminho da capela que dista uns poucos quilómetros da minha cabana. Logo à porta, as crianças correram para abraçar o indigno servo, pois foi o primeiro dia de catequese naquele ano. Quebramos e matamos saudades com um bom sorriso. Quando ministrava a catequese apareceu-me uma menina neófita, rabugenta e atrevida, disse: “Catequista tens que me aguentar e se dar bem comigo!” Inquieto e pávido diante do carácter da menina, retorqui: “Filha fique calma, vou trabalhar convosco e terei de suportar e ter boa relação com todos, sem excepção”.

Peguei nas minhas "imbambas" de regresso a casa. Nisto, deparo-me com grupo de manifestantes políticos com cores e rostos dos seus líderes estampados nas T-sshirts, bonés e panfletos! Mas algo mais chamou-me a atenção. Reparei que havia arroz e massa mistos, a manifestarem. Ou seja, dois partidos "políticos" com ideologias diferentes. Dum lado um sekulu, e doutro, um novato, juntos e unidos numa autêntica passeata. Impressionante!...

A partir de uma hora da tarde muitas cabeças, troncos e membros dirigiam-se ao estádio das mangueiras (que um dia antes da partida esteve em reabilitação). E como não gosto que me contem, consegui "trezentos pica" para comprar o ingresso, que já não havia. Fui salvo por um kandengue que revendeu o seu a quatrocentos pica. Fui suportar a insuportável "bicha" que já nem no tempo de PAM (**) era assim. Sujeitei-me aos empurrões até estar na bancada barata do estádio. De facto, aquilo ficou repleto de pessoas ávidas de ver a primeira partida da maior festa do futebol angolano! Aposto que os os jovens da ponta da língua do sec. XX jamais viram!

Começou a partida, os cantos ressoaram os quatro cantos do campo, que 28 minutos depois do apito inicial, a formação da casa inaugurou o placard! Golo festejado de todas as maneiras, que até o meu vizinho pedia a reposição do golo, acreditando que fosse uma transmissão televisiva. Coitado! Não está habituado!, exclamei baixinho!...

O jogo prosseguiu, com outras tantas cenas que ocorriam, desde a invasão dos adeptos habituados a favores, as dignas mamãs zungueiras deambulando com os seus negócios, ou as moças aparecedoras desfilando irritantemente por todo o lado, exibindo as mabubas. E no final, o resultado ditou: Progresso do Nagrelha 1-2 Progresso do Bikuku.

Guilson Silvano Saxingo (angolano, nasceu na Província da Lunda Norte (1994). Actualmente a residir na cidade de Saurimo, é estudante de Direito no Instituto Superior Politécnico Lusíada da Lunda Sul e membro do movimento Lev´Arte)
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(*) Na língua Cokwe, do leste de Angola, quer dizer O Girabola chegou ao Saurimo
(**) Programa Alimentar Mundial (organismo humanitário das Nações Unidas)
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Guilson Silvano Saxingo (angolano, nasceu na Província da Lunda Norte (1994). Actualmente a residir na cidade de Saurimo, é estudante de Direito no Instituto Superior Politécnico Lusíada da Lunda Sul e membro do movimento Lev´Arte)
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Nota do Blog Angodebates: No ano em que completa o 10.º aniversário, o nosso Blog lançou um desafio de crescer junto com os seus leitores, abrindo para o efeito uma oficina para a divulgação de contos, crónicas e poesia de autores com ou sem livros. Como é natural, teremos colaboradores principiantes, pelo que lá onde for necessário, a gestão editorial do Blog fará ou sugerirá arranjo. O que esperamos é no futuro olhar para o primeiro texto de cada colaborador e festejarmos o progresso que for alcançando.

Crónica | Preços com prepúcio

Com a empregada doméstica em defeso, ainda que justamente justificado, já só sobra pouco menos de uma camisa para vestir a rua de banga. No canto do dormitório, uma pilha no cesto cheirando a amoníaco.

Houvesse cá concurso de suores, a selecção angolana estaria nos lugares cimeiros, só a contar com Benguela, tal é a quentura ambiente e o húmido clima.

Mas como lavar e comprar até concorrem para o mesmo, sai o cidadão, quem sabe, atrás de umas camisolas interiores. Vou à loja do árabe, lhe encontro não está. O libanês alheio "crisou". A vitrine, envergonhada de vazio, agasalhou-se de velhos jornais, estendidos quais cortinas. Segue-se um salto à imponente loja mais a sul. Tudo no lugar, beleza, luxo e montras... Mas também a "crisar", só que de outra forma. Moça, vocês não facilitariam a vida aos clientes se pusessem o preço? Mas tem lá preço. Tem? Não vi. Vem comigo.

E a jovem (muito bem apresentada, calças maleáveis a descrever cada detalhe do itinerário entre os glúteos e o tornozelo) inclina-se sobre a montra, põe a mão e volta de dentro de uma pólo com a etiqueta de preço em cordel. Não tivesse tido um mata-bicho reforçado, estaria caído o cliente, dada a violência do preço.

Temos essas de 12 mil Kwanzas, mas também aquelas de seis, diz, solícita, a beldade, ante a reacção facial de choque do outro. Infere-se dali uma estratégia, que até não é má, da gerência em ocultar os preços... para não afugentar já à primeira vista. O resto é ter uma atendedora sobriamente sensual para convencer.

Na hora de deixar a loja, o cliente pensa: xé! Crise é mesmo crise, ya?! Que até os preços agora têem prepúcio?...

Gociante Patissa, Benguela, 23 Fevereiro 2016

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Nota solta | Dever de casa mal feito ou excesso de maquilhagem ao microfone?

Gongo ou Ngongo? Alguém consegue explicar por que razão o locutor do espaço da própria Administração Municipal do Lobito, emitido na manhã de hoje pela Rádio Mais, dizia "Gongo" /gon-gu/? Seria uma espécie de maquilhagem para poupar a entidade da classe dos "nomes feios"?

Parece que o trabalho de arrumar a casa no mandato de Alberto Ngongo Beto deverá incluir a área de comunicação e imagem. De contrário, seria pois complicado partir dali a própria confusão na cabeça do cidadão comum, que até sabe que Ngongo (com as vogais todas abertas), na língua Umbundu, significa sofrimento e também terra. Uma barreira escusada.

Que os nossos locutores padecem algumas vezes de um certo complexo de "cultura superior" quando se trata de pronunciar nomes tradicionais africanos, isso é já um facto inquestionável. No outro dia, uma competente apresentadora da TPA teve a "pertinência" de impôr ao interlocutor que encurtasse o nome, pois era (se não estranho) muito comprido. E fê-lo com aberta risada de sarcasmo, ainda que breve. Mas desconfio que a profissional tenha levado um puxão de orelhas pelo intercomunicador, pois a seguir ao intervalo já passou a empreender algum esforço em "tolerar" o nome do outro.

40 anos depois da independência e com tantos progressos registados enquanto país soberano, ainda continua uma boa parte da elite intelectual da comunicação com o preconceito, a tal ponto que se pronunciam com perfeição nomes como /drrogbá/ ou /maiquel jaecson. Entretanto não se padroniza o nome do ministro das relações exteriores, que quando não é chicote, é chicot ou então tchikoti.

É estranho que cadeias de informação como a BBC (inglesa) tenham uma espécie de caderno de estilo, precisamente para padronizar palavras e expressões que não sejam do domínio da maioria.

O nosso problema é dever de casa mal feito, ou questão de excesso de maquilhagem ao microfone só mesmo?
 Gociante Patissa, Lobito, 22.02.2016

Partilhando leituras | Esquemas de argumentos que funcionam

Existem muitas maneiras clássicas de se construir um argumento: o caçador caçado, o triângulo amoroso, o mundo do avesso, a astúcia diante da força... Se nos aproximarmos um pouco, vamos observar que esses modelos podem reduzir-se a alguns esquemas conflituantes básicos. Sem pretendermos esgotar o assunto, propomos estes quatro que, bem trabalhados, sempre atraem o interesse do ouvinte.

- Existe uma CULPA e vários suspeitos: Trata-se de descobrir quem é o culpado e por que age assim.100 É o esquema típico do gênero policial e de tantos filmes de suspense. Com freqüência esses argumentos são finalizados com um julgamento ou com uma acareação final entre todos os implicados

- Existe um DESEJO e outros candidatos: Trata-se de averiguar quem consegue o objeto ou a pessoa desejada e a maneira como consegue. No final das intrigas e dos desenganos, quem ficará com quem? O gênero romântico não pode prescindir desse esquema. Tampouco a infinita gama de dramas passionais que giram em torno do amor, do dinheiro e do poder.

- Existe um PERIGO e poucas escapatórias: Trata-se de conhecer como o protagonista vai encarar os obstáculos que se apresentam, as 100 Umberto Eco. “No fundo, a pergunta fundamental da filosofia, assim como a da psicanálise, coincide com a do romance policial: quem é o culpado? (Apostillas al nombe de la rosa, Barcelona, Lumen, 1984, p.59).

O cinema norte-americano, refletindo a sociedade leguléia desse país, tem abusado desse esquema. Experimente contar os filmes que terminam na sala de um tribunal e perceberá o novo deux ex machina com que trabalham. ameaças cada vez maiores que o acossam. O gênero de aventura, os chamados filmes de ação, são o melhor exemplo desse esquema.

- Existe um MISTÉRIO e nenhuma pista: Trata-se de resolver a intriga. Quanto mais obscura se apresente, mais excitante será. Os bons argumentos de terror se apóiam nesse esquema. Os ruins, lançam mão de truculências, saturação de gritos e efeitos especiais.

Como os minerais, esses esquemas — e outros do gênero — não costumam ocorrer em estado puro. Amalgamam-se uns aos outros. Um argumento de ficção científica pode basear-se nas peripécias e perigos da viagem espacial. Mas não vai faltar a traição de um dos tripulantes. Nem um enigma indecifrável. Nem um romance dentro da nave.

José Ignacio López Vigil, in «Manual Urgente Para Radialistas Apaixonados», Pág. 117. Edição Paulinas, 2004. São Paulo, Brasil.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

A dupla surpresa do Lenguito

Ligou-me ontem o homem a dizer que tinha algo para me entregar. Como me tratou pelo nome de Daniel, ainda fui a tempo de perguntar se não se tinha enganado no número, pois não esperava receber nada dele. Combinamos que iria ter com ele logo que terminasse o meu horário laboral. Noutra ocasião, nada me seguraria de vontade de saber do que se tratava, mas com a idade, a gente aprende a gerir a ansiedade e a curiosidade. Não é que o "malandro" do Arnaldo Samulingua Mussolovela Sandambi resolveu pregar-me uma dupla surpresa? Primeiro, porque o conhecia artista do ramo da música (RAP) só. A segunda, porque entendeu fazer-me homenagem reproduzindo a lápis e carvão aquela que é talvez a mais pessoal das fotos do meu passado, que reporta o período em que fui pedir emprego a uma Foto precária do meu bairro, em 1993, aos 15 anos, como aprendiz, para poder custear os estudos da 7.ª Classe, numa escola que distava pelo menos 5 km a pé de casa. O Lenguito, como também é conhecido o desenhador, para além de ter sido colega do Curso de Linguística/Inglês na Universidade e de nos ter emprestado a vestimenta para defesa da tese de licenciatura, é também meu familiar pela parte materna, pelo parentesco com Gociante Kapiñalã, meu avô, da Ganda. Wayaka, a manji!, ou seja, bravo, irmão!

A infância é sempre um convite para levitar (modelo anónimo. Baía Farta, ontem)

Partilhando leituras | A arte de escrever como se fala

Faça um teste: deixe um microfone aberto em uma reunião de amigos. Quando eles forem embora, pegue a fita e transcreva-a. Você vai se surpreender. Ao passar a linguagem falada para o papel, vai descobrir as infinitas repetições, a sintaxe quebrada, as frases curtas e diretas, as expressões inacabadas, as hesitações, os exageros, as palavras provocadoras, o desembaraço e o frescor de nossa maneira de falar quando não estamos cuidando da gramática nem nos colocamos em pose profissional.

É disso que se trata no momento de abordar um roteiro dramático: de reproduzir a linguagem falada, de escrever como se fala. Cada personagem deve expressar-se de acordo com seu perfil, com o estilo próprio da pessoa real que representa. Como se treina para essa arte?

Antes de tudo, prestando atenção no próximo. Ouvindo como as vendedoras argumentam, como um caipira narra, como um advogado filosofa, como as vizinhas cochicham e como os jovens inventam outro idioma... Quem não sabe escutar, também não poderá escrever diálogos dramáticos. Quem não se deixar surpreender por uma frase criativa, por um grafite da rua, por um ditado pitoresco... também não poderá incorporá-los em seu roteiro. Porque a fonte da eterna juventude da linguagem é a boca do povo.

Estamos com o papel em branco. O que fazer? Não escreva nada. Primeiro, escute. Feche os olhos, mentalize os personagens que você mesmo gerou, batizou, repare em seus rostos, em seus movimentos, ouça-os falar, deixe que discutam, que desabafem. Deixe que eles próprios ditem os diálogos. Isso não tem nada de feitiçaria nem exige um esforço exaustivo. Pelo contrário, é divertido. Só é preciso dar passagem à criatividade e brincar de espião de nossa própria imaginação. A primeira pessoa a sentir empatia com os personagens é o próprio autor.

Há quem prefira começar rabiscando em um papel, outros vão para a frente da máquina de escrever ou do computador. Questão de hábito. Seja qual for a maneira de redigir, o importante é não se conformar com o primeiro rascunho. Nem com o segundo ou terceiro. Uma coisa que ajuda muito a dar leveza ao texto é lê-lo em voz alta. Vá modificando o diálogo escrito ao ritmo de sua interpretação falada. Você deve ser o primeiro ator do seu drama.

Escrever escutando os personagens. Essa norma facilita a redação do roteiro e a posterior interpretação. Nenhum ator salva um texto rígido, um diálogo empertigado e livresco.

José Ignacio López Vigil, in «Manual Urgente Para Radialistas Apaixonados», Pág. 124. Edição Paulinas, 2004. São Paulo, Brasil. 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Partilhando leituras | Locutoras e Locutores

Faltavam dez dias para ir ao ar e ainda não tínhamos locutores. Impaciente, coloquei um anúncio na própria emissora que já havia iniciado as transmissões experimentais. Como Tamayo é uma cidadezinha do interior, será preciso repeti-lo várias vezes, pensei ingenuamente. Uma menção foi suficiente. No dia seguinte, quando cheguei à rádio, vi a fila de jovens, todos ansiosos em se tornar locutores da Radio Enriquillo.

A verdade é que ainda não havia pensado em como faria a seleção. Então decidi colocar uma mesa sob o mogno do pátio e fui fazendo passar os candidatos um a um, uma a uma, para avaliar suas qualidades locutorais. Ao primeiro, entreguei um jornal para que o lesse em voz alta. Levou a mão ao ouvido, pigarreou e começou a atropelar as palavras como se estivesse sendo perseguido pela polícia. A segunda era uma moça muito simpática e muito decotada. Aproximou-se com olhar malicioso, inclinou-se mais do necessário para pegar o jornal... e em vez de lê-lo, abanou-se com ele por causa do calor. O terceiro da fila pegou o jornal de ponta-cabeça.

Não sabia ler, embora declarasse ter estudado locução por correspondência. (Jamais consegui entender como é possível aprender a falar pelo correio!) Enfim, depois de duas intermináveis horas dispensando os aspirantes, chegou um rapaz risonho, suado, de aparência humilde. Manuel leu bem, sem afetação, com surpreendente desenvoltura. Contratei-o imediatamente para fazer o jornal matutino que começava às cinco, antes do sol.

Manuel vinha montado em um burro até a emissora. Amarrava o animal ao poste de luz, entrava na cabine, tirava a camisa e começava a locutar com toda a disposição. Discos, piadas, atendimento aos ouvintes. Seu entusiasmo era tal que rapidamente despertou a admiração no bairro e nos campos. Ser locutor em Tamayo, no marginalizado sudoeste da República Dominicana, equivale a ser Jack Nicholson em Hollywood. Choviam convites, aproximavam-se os amigos. As amigas, principalmente.

Passados alguns meses, Manuel havia mudado sua forma de falar pelo rádio e de se relacionar com os colegas. Mudara até o jeito de andar. Agora ia pela rua todo vaidoso, de peito erguido, cumprimentando para um lado e para outro, com um sorriso plastificado. Quando o salário foi suficiente para trocar o burro por uma moto, então a metamorfose foi completa. Não queria mais visitar as comunidades para fazer entrevistas, não colocava mais o galo madrugador de fundo nem lia as cartas dos agricultores, e não havia quem pudesse corrigi-lo. Ele sabia mais do que todos. Era o locutor!

Tive de despedi-lo, tão insuportável se tornara. E, sobretudo, porque não fazia mais o programa com a graça do começo. Tinha asas de barata na cabeça, como costumam dizer por lá. Tenho certeza que casos semelhantes foram vividos por muitos chefes de programação de muitas emissoras.

José Ignacio López Vigil, in «Manual Urgente Para Radialistas Apaixonados», Pág. 74. Edição Paulinas, 2004. São Paulo, Brasil. 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

[Oficina] Poesia | Perdoa-me, mulher

Texto de Danny Catumbela
Porto, Portugal 18.02.2016
Depositaste uma fé inabalável
na ingenuidade que brota
Sorriste à possibilidade
Clamaste esperando vento e fumo.
Agora mesmo recolho os pedaços
Desiludi
a filosofia que acreditavas possuir.
Só digo que não fui representação
Isso ao menos garanto.
Tenho pena,
Perdoa-me, mulher!
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Nota do Blog Angodebates: No ano em que completa o 10.º aniversário, o nosso Blog lançou um desafio de crescer junto com os seus leitores, abrindo para o efeito uma oficina para a divulgação de contos, crónicas e poesia de autores com ou sem livros. Como é natural, teremos colaboradores principiantes, pelo que lá onde for necessário, a gestão editorial do Blog fará ou sugerirá arranjo. O que esperamos é no futuro olhar para o primeiro texto de cada colaborador e festejarmos o progresso que for alcançando. Os textos devem ser preferencialmente curtos (uma página A4) e enviados para patissagociante@yahoo.com

Uma outra antologia de contos angolanos, intitulada PÁSSAROS DE ASAS ABERTAS, será lançada no dia 1 de Março em Lisboa, Portugal, na qual Gociante Patissa participa a convite dos organizadores com os contos «O calendário da Viúva» e «O Mestre Que Disso não Passava» (ou pelo menos um dos dois), numa edição da União dos Escritores Angolanos. A selecção de textos foi feita por Margarida Gil dos Reis e António Quino. O livro vai custar naquele mercado 15 Euros e o lançamento ocorre no âmbito do Festival Literário Correntes d'Escritas, na Póvoa de Varzim, 24 de Fevereiro e 03 de Março 2016

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

[Oficina] Crónica | Praia Morena

Texto de
Julio Novadi Dimas Teixeira
Benguela, 17.02.2016
Na costa benguelense encontramos uma grande praia, repleta de encantos: a praia morena, linda e serena com um espírito cada vez mais jovem, altruísta e de reflexão.

É um espetáculo da natureza, um mistério da criação que deixa pasmado quem segue a sua direcção. É idosa como o tempo e seus cabelos são areias lindas que servem de leito e, para alguns, brinquedo. Possui ondulações excepcionais, está repleta de peixes e milhares de marítimos temperados com sal. A sua maresia é uma autêntica fantasia; o seu semblante e a sua luta constante vale um diamante.

Está sempre em companhia das gigantescas árvores que a rodeiam e ouve suaves vozes de seu estômago. Já foi canal de passagem de inúmeras rotas anteriormente.

Uma das praias que não dorme, popular a nível local e mundial, pois várias vezes recebe turistas que vêm cumprimentá-la. O astro-rei a ilumina e a deixa clara.

Praia Morena já engoliu muita gente por vários motivos e também já ajudou muitos vivos. É vizinha do palácio e do museu e do Augusto Chipenda nunca se esqueceu!!!
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Nota do Blog Angodebates: No ano em que completa o 10.º aniversário, o nosso Blog lançou um desafio de crescer junto com os seus leitores, abrindo para o efeito uma oficina para a divulgação de contos, crónicas e poesia de autores com ou sem livros. Como é natural, teremos colaboradores principiantes, pelo que lá onde for necessário, a gestão editorial do Blog fará ou sugerirá arranjo. O que esperamos é no futuro olhar para o primeiro texto de cada colaborador e festejarmos o progresso que for alcançando.

Nota de Imprensa e Convite

A Mayamba Editora tem a honra e o grato prazer de convidá-lo(a) a participar no acto de lançamento do livro ANGOLA 40 ANOS – 40 CONTOS – 40 AUTORES, a ter lugar no dia 18 de Fevereiro de 2016 (Quinta-feira), às 16:00, na União dos Escritores Angolanos, em Luanda. 

Com esta antologia de contos de 40 autores angolanos, a Sonangol e a Mayamba Editora, promotoras desta iniciativa, rendem preito ao 40º aniversário da Independência Nacional.

Sobre o livro (Preço: 2.500,00 Kz, ISBN: 978-989-761-070-7, 380 páginas).

A independência é também filha da Literatura enquanto forma de expressão de ideias e de divulgação do ideário da luta pelo resgate da soberania nacional usurpada pelo poder colonial, ora denunciando as práticas repressivas e a tentativa de inferiorização da nossa cultura, por um lado, ora, por outro, desenvolvendo todo um esforço no sentido da exaltação da angolanidade, consubstanciada nos usos e costumes endógenos e no direito natural de pertencer à cultura universal. 

Autores dos 40 contos:
Adriano Mixinge, Albino Carlos, Aníbal Simões, António Fonseca, António Gonçalves, António Quino, António Setas, Arnaldo Santos, Augusto Alfredo, Carmo Neto, Chicoadão, Conceição Luís Cristóvão, Dário de Melo, David Capelenguela, Domingos de Barros Neto, Fragata de Morais, Gociante Patissa, Hendrik Vaal Neto, João Melo, Jonuel Gonçalves, José Luís Mendonça, José Mena Abrantes, Laurindo Vieira, Luciano Canhanga, Luís Fernando, Luís Rosa Lopes, Manuel Rui, Maria Celestina Fernandes, Maria Eugénia Neto, Maria Helena Miguel, Marta Santos, Ondjaki, Onofre dos Santos, Paula Russa, Pepetela, Ras Nguimba Ngola, Roderick Nehone, Silvino Mazunga, Vlady Russo e Zetho Cunha Gonçalves.

Quase palco

o modelo é o músico e compositor Agostinho Sanjo Sanjambela, antigo colega do tempo das ONG's

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Citação

"Ontem já, estão a me dar piada, uma dessas meninas. Eu ía passar, e ela: 'Ah, amanhã, dia 14, é que vamos ver a vaidade das tias, se vão conseguir ficar mais com os homens das outras. Cada homem com a dona dele, as tias com o dinheiro delas é quê? Sozinhas!' Eu lhe olhei mesmo... Coitada! Eu sou viúva há muitos anos. Vou precisar mesmo de homem para quê?! Homem preciso é o da oficina quando o meu carro avaria, porque o carro são os meus pés"

Aqui temos a capa e o verso da antologia 40 ANOS | 40 CONTOS | 40 AUTORES, edição da Mayamba, na qual Gociante Patissa participa com o conto «O Homem que Plantava Aves», a convite do coordenador da mesma, Arlindo Isabel. Ao que se sabe, o lançamento está para breve.

Imagem furtada ao mural do escritor Fragata de Morais

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

[Oficina] Conto | A mandioca que não comi

Texto de David Calivala,
Lobito, 15.02.2016

Quando eu era miúdo, ia quase sempre ao campo com a minha avó. Primeiro, por gostar de estar na companhia dela, como gostavam todos os miúdos da minha época, de ficar com seus avós. Segundo, porque gostava do campo: do cheiro da terra molhada da rega, de ouvir o chilrear dos pássaros, e acima de tudo da acalmia que o verde das plantas me proporcionava, e com ele aprofundava mais a minha certeza de que quando crescesse queria ser engenheiro agrónomo.

Certo dia, fomos ao campo e ela trazia na sua quinda, entre outras coisas, três paus. Quando chegamos, ela pediu-me para ajuntar e queimar o capim seco que estava ao redor dos canteiros de batata. – Mas eu não valho pra mais nada, além de queimar capim?  – pensei eu.

Óvê, queima já o capim! Quero que vais fazer outra coisa antes de assares as batata que estou a cavar. – disse a vovó.

Queimei rápido o capim. Não sei se o fiz com tanta pressa porque minha avó me dissera que faria outra coisa, e com isso me sentindo afinal valioso, ou se pela promessa de assar as batatas para o repasto. Só sei que num abrir e fechar de olhos eu tinha o capim todo ajuntado e a arder.

– Pega naqueles três pau que estão na bacia e lhes põe de pé nos buraco que cavei. Mas não lhes põe só muito perto, lhes separa. – disse a vovó.

Não entendi o porquê daquela ordem, mas também não questionei. Aos mais velhos não se questiona, cumpre-se. Pois eles sabem o que nos mandam. Assim é o ensinamento que recebemos dos nossos ancestrais, que aos poucos vai caindo em descrédito.

Após espetar os paus nos buracos que avó tinha cavado, anuncio o cumprimento das ordens há pouco recebidas. – avó, já está.

Agora assa as batata, porque daqui a pouco o sol já vai começá entrar. – disse a vovó.

Assei as batatas, comemos e repousamos. A vovó pegou novamente  no balde e voltou a regar a pouca plantação que ficara sem rega antes do comer. Entardeceu e voltamos para casa.

Passado algum tempo, a vovó leva-me novamente à lavra e o que eu vi parecia milagre: os paus que eu tinha espetado no chão estavam ramificados e as folhas eram algumas que usávamos como acompanhante para o funje. Eram folhas de mandioqueira. Fiquei tão maravilhado que não tirava os olhos daquela plantação. Parece que eu tinha gerado ou mais do que isso, devolvido vida a alguém, que lindo!

Voltamos para casa e não pensava mais em outra coisa se não naquelas folhas verdes e tenrinhas.

Pensei tanto nelas até que um dia a avó chega e diz:
– Hoje vamos arrancar a mandioca que semeaste.

Como assim? Eu não me lembrava ter semeado mandioca alguma, a avó não deve estar a bater bem da cabeça. Mas pronto, como eu gostava mesmo era de ficar com a avó e quanto mais não fosse acompanha-la a lavra, lá fomos nós. E postos no local, vovó regou as mandioqueiras, aguardou alguns minutos e arrancou uma delas. O tubérculo que compunha as características da raiz não me era alheio. Fiquei atónito. Acabavam de desmoronar o mundo que eu havia construído. Pela primeira vez fiquei furioso com a minha avó e desta vez questionei-lhe:
– Porquê que fez isso vovó? Então arrancas o que eu semeei assim, sem mais nem menos?
– É meu, é meu… antão não sou eu que te dei os pau para semear? Não sou eu que regava sempre? Os bicho que comem as folha não sou eu que andei matá com os pisticida, aka! Você assim me faz lembrar aqueles pai que só nasci e depois num cria o filho. Quando o filho cresce e vira homem grande, ele aparece a porque o teu pai sou eu mesmo. Isso assim é bom?
– Pronto já, avó… ­­
– Ham, mas pronto mesmo. Agora arranca este outro para você comeres.

Com o coração aos solavancos arranquei o segundo pé de mandioqueira e guardei as mandiocas. Quando a minha avó descobriu que eu as tinha guardado, reagiu como se a minha vida futura dependesse daquelas mandiocas.
Óvê, você não sabes que tens que comer mandioca crua para as mulheres não te fugirem? A mandioca faz bem nos homens e você tens que te habituar já. Se não as mulheres toda hora vão te fugir. Se estás a ver os mais velho ainda ficam com as miúda afinal pensas que andam comer quê, frango?
­ – Afinal é assim!? Eu só não queria comer para guardar e me lembrar sempre da mandioqueira que plantei. Estive a sentir pena da mandioca.

– Aprende já mesmo assim: na vida, muitas vezes vais ter que estragar o que já construíste para crescer noutras parte. Se você andar guardar tudo que trabalhaste, porque tens pena de gastar, são os teus filho e a tua mulher que vão sofrer. Na vida tem que ser mesmo assim: aquilo que saiu lá no teu suor, você come já e amanha trabalha outro. Se não vais ficar só como aqueles que se matam a trabalhar e depois morrem pro causa do talo trabalho e depois só deixa confusão nos que ficam, pra saber como vão se dividir. Eu mesmo se cheguei até aqui, é porque não guardo muitas coisas que quando eu morrer já não vou levar, ouviste?
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Nota do Blog Angodebates: No ano em que completa o 10.º aniversário, o nosso Blog lançou um desafio de crescer junto com os seus leitores, abrindo para o efeito uma oficina para a divulgação de contos, crónicas e poesia de autores com ou sem livros. Como é natural, teremos colaboradores principiantes, pelo que lá onde for necessário, a gestão editorial do Blog fará ou sugerirá arranjo. O que esperamos é no futuro olhar para o primeiro texto de cada colaborador e festejarmos o progresso que for alcançando.