PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

domingo, 31 de março de 2013

Captando vivências pelo Dombe Grande

Inspirado nas brincadeiras do luar na comuna em que nasci, o que a história do país depois interrompeu. Ainda bem que se entenderam, e depois de amanhã celebramos a paz

Em 1997, nos tempos de fotógrafo ambulante pelo subúrbio do Lobito, ouvi um cliente meu dizer a outro com quem bebia no buteco: "Eu é que não quis ser rico". Desenrascado como sempre fui, fiquei a me questionar durante anos como é que alguém decide não ser rico. Esta manhã, outra vez em ambiente de copos, um desconhecido da mesa ao lado dizia à pessoa que lhe fazia companhia que hoje estaria bem, se um primo seu soubesse tirar proveito da "vaga" (termo meu), enquanto namorado de uma jovem senhora que é a própria lâmpada de génio.

Executivo levanta suspensão a IURD sob condições (título da Angop)

Eu até já imagino como ela, a multinacional IURD, sai mais forte disso, charlatanisticamente falando.

Cresceu

Cresceu

A sua voz
Já não é aquele rebento inocente
o brilho do seu rosto
já não é daquele sorriso de menina hilariante
perdeu a inocência

Aquela nascente 
que no seu olhar plácido resplandecia
hoje com muita dor
deu lugar a doses de maquilhagem
à teia da latente alienação

Gociante Patissa, in «Consulado do Vazio», pág. 18. KAT-editora. Benguela, Angola 2008.

quinta-feira, 28 de março de 2013

“Está-se a confundir poligamia das sociedades tradicionais, que até tinha regras, com a promiscuidade social dos dias de hoje”. (antropóloga Ana Maria de Oliveira, Rádio nacional de Angola, 28.03.2013)

Salvas as devidas excepções

Ler devia ser proibido (crónica de Guiomar de Grammont)

A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido. Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social.

Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madamme Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram, meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.

Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.

terça-feira, 26 de março de 2013

"Mais do que cantor, sou músico, toco voz". (Palavras atribuídas a Paulo de Carvalho, artista português, pela RTP Internacional, 26.03.2013)

Não é esse o meu trabalho?

Depois de me ter confrontado com uma pergunta nada fácil, no ano passado, meu sobrinho de 10 anos engasgou-me outra vez, anteontem. Se no primeiro caso queria ouvir de mim a confirmação quanto à existência, ou não, do pai natal, desta vez vinha o pequeno inquiridor ouvir de minha justiça sobre a existência de sereias. Seria coerente da minha parte "assassinar" essas lendas, digo em nome da verdade que devo à sociedade? Não é esse o meu trabalho, levar a humanidade a renovar-se e perpetuar-se pela via da imaginação? Acabei inventando uma evasiva, do tipo, é bem capaz de existirem o pai natal e a sereia, não tenho a certeza.

Cantar para vender

Diz uma senhora ao vendedor ambulante de discos: Esse CD de Cuba quais são as músicas? O vendedor, apanhado desprevenido, não tem resposta. Canta pelo menos uma para a pessoa saber se vale a pena. Estático continua o vendedor. Você, que vende, tem que conhecer as músicas. (E eu de lado para os meus botões: não deixa de ter razão a cliente, mas compraria por acaso se os discos lhe chegassem "depenados?)

Conversa de bar (há alguns segundos)

“As pessoas que me cornearam foram enganadas. Viram cem dólares, mas afinal não havia mais. Pelo menos meus cinco mil kwanzas, dez mil kwanzas eram constantes. Agora, os cem dólares vêm uma vez a outra”.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Falsa popularidade

Que conhecedor de homens! Faz-se infantil com as crianças,
     Mas a árvore e a criança buscam o que lhes é mais alto.

Hölderlin, in colectânea «Di Versos - Poesia e Tradução, nº 18», pág. 31. Fevereiro 2013. Edições Sempre-em-pé. Maia, Portugal

Momento

Acende-se uma luz da árvore
Cintila a folhagem
há pequenos sóis na erva

Tão breve vai como veio

a tarde cai
lembramos apenas a noite

É da nossa natureza repudiar
o paraíso
viajar os genes feridos!

Helena Afonso, in colectânea «Di Versos - Poesia e Tradução, nº 18», pág. 24. Fevereiro 2013. Edições Sempre-em-pé. Maia, Portugal

Não pode este ar…

Não pode este ar 
Ser mais leve:
Tão claro corre.
E é porém chumbo:
Vai queimar-me os olhos
Se os abro.
Não te vejo:
É esse o mal.

Luciano Moreira, in colectânea «Di Versos - Poesia e Tradução, nº 18», pág. 43. Fevereiro 2013. Edições Sempre-em-pé. Maia, Portugal

domingo, 24 de março de 2013

São ou não são?

"São mesmo Palancas negras esses? A jogar de camisola vermelha? Não estou a ver bem"

Preferências interpretativas

"Preferem viver bem a ter uma casa boa" (minha pergunta de retórica: não era suposto incluir "casa boa" no conceito de "viver bem"?)

Entre ser revoltado e ser rebelde

"Quando era mais novo, eu era revoltado, agora sou rebelde. E hoje vejo que há diferença. Era revoltado, porque reclamava sem sugerir soluções. Agora sou rebelde, porque reclamo e apresento propostas. E quero continuar a sê-lo para o resto da vida" (Miguel Sermão, actor angolano radicado em Portugal. In «Cooltura». Tv Zimbo, Luanda. Março 2013)

Ditos aleatórios, representativos ou não, a propósito das conquistas no Março-Mulher...

"Homem namora para sexo, mulher namora para dinheiro".
"Dinheiro do homem é sagrado, é o que deve sustentar o lar; o meu salário é só meu, eu é que sei como o gasto". 
"A minha mãe me disse: até você, que é mulata, não se dá valor"?
"Uma pessoa, que já tem namorado, não pode mais pedir aos pais quando precisa de roupa, sapatos, beleza, essas coisas".

sábado, 23 de março de 2013

Na União dos Escritores Angolanos, ASSEMBLEIA GERAL APROVA CALENDÁRIO ELEITORAL


Membros da União dos Escritores Angolanos (UEA) reuniram-se no sábado (23/03) em assembleia-geral ordinária para apreciar o relatório de contas dos últimos três anos, referentes ao mandato da direcção cessante, com Adriano Botelho de Vasconcelos, enquanto Presidente da Mesa da Assembleia, e Carmo Neto, o secretário-geral.

Em três horas, o certame juntou meia centena de confrades da mais alta tribuna dos escribas angolanos, com destaque para a nata fundadora, nomeadamente, Jofre Rocha (cognome de Roberto de Almeida), Maria Eugénia Neto e Dario de Melo.

Entre apoios e críticas ao exercício do secretário-geral, o relatório de contas foi aprovado com emendas. Para presidir a comissão eleitoral, a escritora Amélia Dalomba venceu por larga maioria de votos o seu concorrente, António Panguila, a quem imediatamente convidou para a coadjuvar. O compromisso ficou selado com um abraço, gesto de fairplay que arrancou vivas palmas. Assim, o pleito está aprazado para 20 de Abril, sendo que a campanha vai do primeiro de Abril ao dia 18. Os corpos sociais eleitos serão conhecidos oito dias depois.

Em pré campanha, duas listas desdobram-se em contactos para votos, sendo os rostos contendores o escritor Carmo Neto pela lista A, que concorre para a sua sucessão, e o escritor António Gonçalves pela lista B.

Gociante Patissa, Luanda 23 Março 2013

NOTICIÁRIO AMBULANTE

Quente e húmido, o vento que entra pelas janelas do todo-o-terreno desmente os 27º C que o software androide do telemóvel indica. Os poros estão a ponto de chover amoníaco, enquanto o ar condicionado há meses que tira um defeso sabático. A propósito, é sábado, e não há quarto vago pela centena de pensões e hotéis, não antes das duas da tarde. O tráfego é lento, às vezes pelo semáforo, outras vezes pelo engarrafamento em si. Está aí o posto de trabalho de quem até já fede à combustão do tubo de escape, de tanto serpentear de jornal à mão. São diversos os títulos do fim-de-semana, mas esse meio adolescente e meio chefe de família tem a lição bem estudada. “Tá aqui jornal”. À reacção inócua ele logo contorna: “DUAS IRREVAIS SE MATAM NO MUNICÍPIO DO CAZENGA” anuncia, telegráfico, sem esclarecer se morreram ambas, ou não. Tempo é dinheiro para o ardina também, de tal ordem que não insiste, e some serpenteando pelo Largo 1º de Maio em sua panaceia. Surge outro na esquina mais próxima, e como tal mais um título chamativo no pregão. Luanda confunde-se com a sociologia. 
Gociante Patissa, 23.03.13

quinta-feira, 21 de março de 2013

GUARDANAPO DE PAPEL

"GUARDANAPO DE PAPEL" é título do segundo livro de poesia de Gociante Patissa, com edição em Portugal e que chega ao público quando bem lhe apetecer ainda este ano, espero. Como metáfora, o conceito é um ângulo de representação de uma sociedade se degenerando, onde quase tudo é descartável, incluindo valores e ideais. Já como realidade objectiva, boa parte dos textos foi escrita em guardanapos de papel, passatempo de quem aguarda pelo mata-bicho no bar, ou pelo almoço no restaurante, minutos antes do horário do patrão.

quarta-feira, 20 de março de 2013

"Love is not what you get, is what you give" (O amor não é receber, é dar)

- slogan de campanha contra violência sexual na África do Sul.

"Quando é que polícia trabalha(rá) bem?" - artigo de opinião de Martinho Bangula

Por: Martinho Bangula (mbkatumua@hotmail.com) - Quando prende muitos cidadãos ou quando poucos cidadãos cometem crimes? As respostas a estas questões podem variar, conforme o olhar que lançarmos sobre a polícia. Em Angola, infelizmente, alguns cidadãos nutrem um ódio coletivo pela nossa querida polícia - Escusado é aqui falar da sofrível relação entre os reguladores de trânsito, taxistas e camionistas.

Prender para investigar ou não investigar simplesmente são certamente nuances presentes nas representações sociais que fazemos da ação da nossa polícia. Uma polícia incapaz de agir com prontidão diante de situações comuns não obtém dos cidadãos senão uma vaga ideia de obstáculo à sua vida (a polícia em certa medida atrapalha).Este é um olhar.

Há, contudo, outro olhar que nos permite ver uma polícia aguerrida, sacrificada e quase mágica. Uma polícia que combate criminosos do século XXI socorrendo-se de técnicas e equipamentos do século XVIII. Esta mesma policia que serviu-nos na guerra civil de 1992 em Benguela e demais cidades de Angola e conduziu de modo exemplar o desarmamento da população em 2008. Não consigo deixar de ver assim, também, a nossa polícia.

terça-feira, 19 de março de 2013

Diário ao meu pai

Diário ao meu pai

Apetece tomar banho de 
Kafala 
Brothers 
em Samantha. 
Cair 
de trova 
na verticalidade da manta.
Talvez levede a utopia 
da inversão
ainda

até que surja o triste
humor
do sol
tépido
Nada restou
para admirar.
nem se caçam
mais quimeras

Era isso, pai
a chegada?

Gociante Patissa, Benguela 6 Julho 2012
à memória de Victor Manuel Patissa (Julho 1946-Julho 2001)

músico Nelo de Carvalho e Gociante Patissa na Rádio Morena em Benguela (entrevistados por Machado de Macedo) no dia 16.03.2013

segunda-feira, 18 de março de 2013

Campanha eleitoral na UEA aberta com discursos conciliadores

Nota: O que espero é que a instituição saia mais fortalecida deste exercício democrático. No cartaz em apreço, a ordem alfabética dos candidatos foi o critério da posição, sendo os rostos contendores António Gonçalves (lista B) e Carmo Neto (lista A).

Infelizmente

Da página do Facebook Conselhos da vovó Maria

domingo, 17 de março de 2013

ora pois

"Amor, não pares". E ele obedeceu. "Amor vai devagar, faz as coisas com amor". E ele, no calor dos afectos, diluiu-se em obediência. Aí, ela perguntou: "amor, já?". Ele disse, satisfeito, que sim. Ela, com o corpo ainda traçando rotundas e colinas, completou: "Então estou grávida, é rapaz". E a violência aconteceu.

sábado, 16 de março de 2013

Di Versos - Poesia e Tradução, nº 18, Fevereiro 2013


É uma colectânea/antologia de poesia, editada em Portugal pela Edições Sempre-em-pé (www.sempreempe.pt) desde 1996, com José Carlos Marques à cabeça, divulgando poetas de língua portuguesa e traduzindo outros para português. Na edição nº 18, com 100 págs., cinco poemas de Gociante Patissa são publicados (pág. 14-18), sendo dois do "Consulado do Vazio", livro de estreia, um inédito e dois que sairão no "Guardanapo de papel", no prelo e com divulgação prevista para o mercado português ainda este ano. 

É uma prestigiante participação para mim, muito mais por não me ver obrigado, como nas antologias de costume, a dar qualquer quantia financeira. À semelhança do que ocorre com a União Dos Escritores Angolanos e com a editora que cuida do próximo livro de poesia, meu trabalho limitou-se a escrever e caçar erros.

ACTUALIZAÇÃO: Depois de ter tomado contacto com meu livro de estreia, a Sra. Maria Gomes, que até então não conhecia, enviou alguns textos ao editor, isso por volta de 2008. Falamos ao telefone nessa altura, recebendo dela relevante encorajamento. Fui na sequência contactado pelo editor da colectânea e continuamos trocando correspondência, embora com longos intervalos, digamos assim. No mais recente contacto, pedi ao editor que "esquecesse" os textos do primeiro livro, porquanto sentia que venho fazendo algum progresso. Entretanto, na soberania que lhe cabe, o editor afiançou aqueles e optamos por um meio termo. E aqui chegamos.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Até há bem pouco tempo existiam escolas como a Alliance Française e o Cefojor que facultavam o ensino de línguas nacionais, mas a escola francesa viu-se obrigada a encerrar o curso, devido à pouca ou mesmo nenhuma procura. “Na verdade, a proposta continua, mas baixou a procura, infelizmente. Há um bom tempo que não temos interessados no curso de kimbundo, por isso, fechou”, justificou Alain Sarragosse, director da Alliance Française em Luanda. Por norma, o curso era maioritariamente frequentado por adultos ou estudantes da Faculdade de Letras com turmas de cinco ou seis alunos, o mínimo exigido, mas mesmo assim foi difícil, segundo o responsável da instituição, por falta de solicitações. A Alliance Française teve de elaborar métodos próprios para as aulas de kimbundo por falta de material didáctico (...)

quinta-feira, 14 de março de 2013

Repensando com Sara Tavares

[A música, ou cada álbum novo] “Na realidade, é dizer a mesma coisa sempre, mas com tonalidades e temperaturas diferentes, para ouvidos diferentes” (…) “Somos todos um pouco pesquisadores  porque, como “afro-tugas”, como afro-portugueses, fazemos parte de uma geração que tem autoridade de começar a fazer música de identidade própria. Está-se a viver essa transição, de sermos só fãs daquilo que se faz lá fora a começarmos a explorar sonoridades próprias agora. É claro que isso já foi feito, mas eu acho que nunca foi feito massivamente, como um movimento colectivo, mesmo em Portugal”.

Para usar parábola da própria artista em contexto de casa um pouco mais alargada, "há alturas em que a pessoa sente falta do seu ninho... para voltar a nascer".

Um sensacionalismo em Ascenção na Voz da América?

TÍTULO: Deputado são-tomense aconselha Primeiro-ministro a prender jornalistas

REGISTO SONORO: "Aquilo que têm feito é inadmissível. Não se pode utilizar os meios de comunicação, não se pode utilizar a Internet e os blogues para poder fazer política de baixo nível, tempos de antena para denegrir as altas figuras de uma forma inusitada em democracia. E é crime, mesmo em Portugal, é crime! Vamos ter que resolver este problema, isto não pode continuar assim. Não está em causa a liberdade de imprensa, está em causa o abuso de liberdade de imprensa e o desrespeito pelas autoridades, o que deve ser efectivamente punido".

terça-feira, 12 de março de 2013

NOTA SOLTA: QUEM TIVER AÍ UMA PROFISSÃO A MAIS FAZ FAVOR DE EMPRESTAR

 Figueiredo F. Casimiro, à época repórter da TPA Benguela, 
entrevista-me enquanto editor do Boletim Informativo, 
Educativo e Cultural “A Voz do Olho”,  veículo comunitário
alternativo de informação para a cidadania e saúde
preventiva, publicação mensal (2006-2011) de uma
ONG angolana com sede no Lobito.

Estive recentemente numa repartição. Depois de suportar uns 15 minutos na fila para que chegasse a minha vez, a senhora recebe a papelada, para o meu alívio, alívio este que mais não durou do que uns poucos segundos. 

A atendedora, com cara que lembrava roupa não engomada, embora tolerável por ser do desgaste natural de quem levava já três horas a lidar com papéis e requerimentos, disse: “Vais ter que passar mais tarde para levantar o recibo. Se for para te atender, vai-se acumular a bicha. Aqui vai encher, porque o teu nome não está no sistema e inserir demora”. Por um instante fiquei a me perguntar se era o sistema que demorava, ou se era pelo pouco domínio do teclado. Por outro lado, refilei cá comigo, sendo inútil iniciar discussão com a senhora que me tratava por tu no primeiro contacto: então se eu esperei para que chegasse a minha vez, os que vêm atrás não podem esperar? 

Na sequência, ela me dá uma folha para eu anotar meus dados, o que a instituição obviamente já tinha. Qual é a tua profissão? É das mais complexas perguntas que alguma vez me colocaram. E qual é mesmo? Bem, tenho certificado do curso de pedreiro de construção civil padrão europeu, mas nunca exerci; meu passaporte diz que sou operador de computador, mas isso valia antes do ano 2000, quando as maquinetas eram novidade; sou formado em ciências da educação, com licenciatura para dar aulas de inglês, mas não tenho vocação para o efeito. A senhora aguardava, quase se impacientando, mas eu não via a resposta. Aí ocorreu-me advertir com certa subtileza a senhora quanto ao atendimento longe do bom que me estava a dispensar, escrevi jornalista. Olhou para as letras e senti uma ligeira mudança de postura. 

Saí daí convicto de que ela não abandalharia o meu processo, por um lado. E resultou. Já por outro, foi inevitável uma sensação de ter incorrido em falsa qualidade. Mas será? Bloguista não é profissão. O que os jornais e revistas publicam não é de modo regular, ao passo que viver da literatura nem vem à conversa. Por acaso já realizei e conduzi programas radiofónicos, mas vínculo como tal (ganha-pão) nunca cheguei a ter. 

A Rádio Mais chegou inclusive a “rotular-me” como jornalista sénior para cabeça de série da sua abertura no Lobito, mas a relação acabou por não acontecer porque eu exigi que me fossem requisitar aonde tenho vínculo mais antigo (fracasso que entretanto agradou alguns familiares meus “pelos riscos da profissão, conhecendo-me como conhecem”). E lá se foi a oportunidade de ter profissão formal. 

Então já sabem, quem tiver aí uma profissão a mais faz favor de emprestar.

O que ficou por dizer no documentário sobre os Homens que Marcaram a História dos EUA

O canal História acaba de exibir um documentário sobre os Homens que Marcaram a História dos Estados Unidos da América, com inspiradoras "vidas e obras" de nomes como Rockefeller, Carnegie, Morgan, Harley Davidson e Ford. Da banca, sector automóvel, metalurgia à exploração de petróleo no século 20. São histórias de sucesso baseadas na tenacidade, empreendedorismo, competição e sobrevivência à lei, para casos vistos como monopólios. As palavras finais do narrador realçam, triunfais, o orgulho americano: "Eles não descobriram a América moderna, eles construíram-na!" O ponto negativo, quanto a mim, é que não é feita uma única referência ao papel da população nativa, no caso os índios que, como também reza a história, existem, não poucas vezes enquanto vítimas do progresso. Documentário assim faz confundir ciência com propaganda.

Não sei o quanto

segunda-feira, 11 de março de 2013

Ao centro, o escritor ELIEZER TSAFRIR, que romanceia e narra memórias do seu papel enquanto líder da Mossad (serviços secretos israelitas no Iraque nas décadas de 1970-80, alto oficial na reserva e conselheiro Ministro das Relações Exteriores para o mundo árabe)

À esquerda, a tradutora brasileira-israelita Miriam, Frederico Ningi, E. Bonavena e Gociante Patissa. Foto acabada de chegar do adido de imprensa em Tel Aviv, Pedro Manuel, reportando a presença da delegação daUnião Dos Escritores Angolanos à 26ª edição da Feira do Livro em Jerusalém

Ecos da Feira do Livro em Jerusalém, foto acabada de chegar do Adido de Imprensa em Tel Aviv, Pedro Manuel

E. Bonavena à esquerda, a Sra. Miriam - quem traduziu para hebraico a antologia Balada dos Homens que Sonham- Gociante Patissa e Frederico Ningi, na banca da editora israelita que cuida da tradução e introdução de letras angolanas por aquelas paragens.

Qualquer um pode treinar o bi-campeão Recreativo do Libolo em futebol. É só chegar, anunciar contrato, ser afastado poucos dias depois, e deixar a equipa perder normalmente, digo eu.

O cartoon fui buscar ao Jornal de Angola

NOTA SOLTA (*)


Os primeiros tempos das nossas gerações, o Povo Angolano dentro de cada Etnia conservou como identificaram como tal assim que, entre muitos usos e costumes destacaram-se os Adágios ou Provérbios os quais eles usavam durante o tempo em que resolviam algumas questões ou mesmo sentenças, onde aplicavam como analise e fecho das mesmas para educa-la. Usavam outros para divertimento durante os serões dentro da própria Comunidade, portanto, três espécies de Provérbios:

1. Provérbios de remate, esclarecimento e analise na solução de alguns assuntos.
2. Provérbios, máximas ou adivinhas que se aplicavam como divertimento durante os seroes.
3. Provérbios ou contos cantados em que colocavam os animais e aves a falarem como pessoas mas que no fim encerravam uma moralidade ou mesmo um conselho.

domingo, 10 de março de 2013

E era ainda jovem, pelo menos o suficiente para deixar marcas da sua natural inconveniência. Olhei para ele naquela condição e disse para mim mesmo: devia ser muito grande a mágoa para optar pelo suicídio, afogando-se no cifão da minha sanita. De qualquer modo, devo-me dar por satisfeito, já que me livrou de gastar com raticida.

Em português faz sentido

sábado, 9 de março de 2013

Abertas inscrições para Prémio Literário António Jacinto/2013


Texto e foto: Angop Luanda- O período de recepção de obras para o Prémio Literário António Jacinto/2013 estão abertas e vão até dia 15 de Maio deste ano, pelo que estão convidados todos autores angolanos com obras inéditas.

Numa nota de imprensa da entidade organizadora do prémio, o Instituto Nacional das Industrias Culturais (INIC), chegada hoje à Angop, informa que os concorrentes deverão enviar as suas obras dentro de um envelope grande fechado e assinado com o seu pseudónimo, devendo ainda ter a identidade completa do concorrente estar em envelope fechado e de menor tamanho.

“ As obras devem ser remetidas em três exemplares, digitados a dois espaços, em folhas A4, devidamente encadernadas, assinadas com o respectivo pseudónimo. O INIC convida assim todos os autores angolanos que não tenham obra publicada a participar desta edição do prémio”, assevera-se no documento.

Ao vencedor de cada edição deste prémio anual, que tem o patrocínio exclusivo do Banco de Poupança e Crédito (BPC), é atribuído um valor de quinhentos mil kwanzas, um diploma e publicação da obra pelo INIC.

O Prémio Literário António Jacinto, instituído em 1993, em homenagem ao poeta António Jacinto, tem como finalidade incentivar a criação literária e promover o surgimento de novos autores no domínio da literatura.

sexta-feira, 8 de março de 2013

USO DAS PALAVRAS

Há os que comem palavras
Os que as interiorizam
Os que as saboreiam
As idealizam, as idolatram
As namoram, as sonham…
Não suporto os que as cospem!

Ana Casanova, in http://anavision.blogspot.com/

Chegou-me via SMS: "alusivo ao mês da mulher, o Colectivo de Artes Ngola estreia hoje no Cine Monumental a obra teatral "A COMANDANTE". ingressos 500 kz. Não perca"

Confesso que a impressão que tenho do teatro, sobretudo o de grupos emergentes não é positiva. Penso que chega um momento em que o auto-didactismo em si não basta, isso, para não dizer que de modo geral a pesquisa dos temas, quando a há, é bastante superficial. A colagem às telenovelas é outra pobreza que enferma o nosso teatro, onde toda e qualquer peça tem forçosamente que ter um personagem gay (homossexual), explorar exagerada e surrealmente um português/linguagem "do mato", como ocorre na música (semba comercial, do tipo, "pai, é cumué antão") - porque estão na moda o tema e a forma, há que pensar "dentro da caixa". Um outro elemento tem a ver com o humor forçado, e como tal nada inteligente, com uso excessivo de discurso e gestos que se acreditem arrancarem aplausos, andando muito perto do vulgar e do obsceno. Com tudo isto, toda a vez que vou assistir ao teatro é com a noção de que o meu dinheirinho ajudará o grupo a se manter, mais do que criar grandes expectativas. Hoje vou ter o primeiro contacto com esse grupo. Se não me agradar, é algo já previsível.

O que guardo da M.


Seguia eu com zeloso olhar os passos de M. Era última semana do nosso encontro em Miami. Nunca nos aproximamos um pouco mais ou menos relativamente aos demais. Vinte almas no grupo, cada representando os irrequietos do seu país, que é por ora a palavra que me ocorre para caracterizar activistas cívicos. Era mais de sorrir, dando a ver seus dentes um pouco desencontrados, do que de falar. Outra utilidade que dava à boca fazia-lhe descer as escadas para ter com o bafo de inverno que a rua cuspia, fumar no hotel não podia. Nessa noite ela estava de saia e uma blusa com a sobriedade que eu muito aprecio. Cantavam-se parabéns de improviso pelos anos de um colega de grupo. Não era eu. A música era colombiana. M. dançava, seus pés descalços, brancos e delicados, realçando-se sobre o veludo roxo da alcatifa. Até hoje não sei porque me envolveu tão estranho deleite, como se de uma descoberta nova se tratasse, um acontecimento. Só pode ser tolice, já que ela não podia ter nascido com sapato nos pés.

Gociante Patissa, Janeiro 2010-Março 2013

ÁFRICA MÃE ZUNGUEIRA

ÁFRICA MÃE ZUNGUEIRA

Esta que se aproxima
carrega uma criança às costas
e outra no ventre
uma nuvem húmida rasga-lhe a blusa
lembrando que é hora de parar e amamentar
e lá vai ela seguindo o itinerário que a barriga traçar
gestora de um ovário condenado a não parar
porque é património social
penhora o útero na luta contra a taxa de mortalidade

Conhece bem demais a cidade
não tanto pelos monumentos
mas pela necessidade
viandante como a borboleta
fez-se fiel e histérica amante
da lei da compra e venda de porta à porta
uma lei entretanto não prevista por lei
“depender só do marido? Nunca”
mal acordou a urbe já peleja aliciando clientes
no estômago só o funji do jantar de ontem
sem tempo sequer para escovar os dentes

Lá vai mais uma dobrando a esquina
de pregão firme como a voz do tambor
humilhada aos poucos pelo sol
nos mapas de salitre da poeira que adormeceu no suor

Forte por fora muitas vezes vulnerável no íntimo
veja esta nos olhos encarnados grita despercebida
uma mulher mal amada
nunca descoberta
rainha de etapas queimadas
ele que devia ser companheiro
é de se esconder no copo
quando os ventos são ásperos
autêntico chá em taças de champanhe
não estar disposta para mais um suor sagrado
é para ele frontal apelo à violência
habituada a levar da cara
odeia a sinceridade do espelho

Por aqui passou mais uma profissional da zunga
protagonista anónima com mil mestrados da vida
contudo não contada na segurança social
para o turista uma espécie de paisagem
rosto de uma noite que lançou a mulher
às avenidas dialécticas dos centros urbanos
no seu dever de sustentar a sociedade
a mesma que a condenará antes de amanhecer
por não participar da vida política
ou por não saber ler
nem escrever

Gociante Patissa, in «Consulado do Vazio», 2008, pág. 28. KAT-Benguela, Angola

quinta-feira, 7 de março de 2013

Durante um tempo na vida, chateámo-nos por faltar idade - para autonomia e deixar de sofrer certos limites. E chega o tempo em que é a idade, que tanto queríamos, que se torna o próprio limite. GP

quarta-feira, 6 de março de 2013

MAPA


MAPA
(fragmento)


Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando sou um fluído,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregaram numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado.

Murilo Mendes (1901-1975), in «Guia conciso de Autores Brasileiros», 2002. Imprensa Oficial. Rio de Janeiro, Brasil.

UM BOM POEMA


um bom poema
leva anos
   cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
   seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
   sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
   três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
   uma eternidade, eu e você,
caminhando junto.

Paulo Leminski (1944-1989), In «Guia conciso de Autores Brasileiros», 2002. Imprensa Oficial. Rio de Janeiro, Brasil.

Esse punhado de ossos

Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino, como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro e de mais fino.
Foram damas tais ossos, foram reis,
e príncipes e bispos e donzelas,
mas de todos a morte apenas fez
a tábua rasa do asco e das mazelas.
E ai, na areia anônima, eles moram.
Ninguém os escuta. Os ossos não choram.

Ivan Junqueira (1934), in «Guia conciso de Autores Brasileiros», 2002, pág. 191. Imprensa Oficial. Rio de Janeiro, Brasil.

Entre as lembranças da participação de Angola na 26ª edição da Feira Internacional do Livro em Jerusalém, onde partilhamos o espaço com Brasil e Portugal, trouxe este...


MOTIVO

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Cecília Meireles (1901- 1964) , in «Guia conciso de Autores Brasileiros», 2002. Imprensa Oficial. Rio de Janeiro, Brasil.

terça-feira, 5 de março de 2013

Um processo mudo

Primeiro a gente cria, cria, cria, até o barro de verdades e sonhos virar texto. Depois a gente caça erros, caça, caça até submeter à editora. Aí, a gente espera, espera, espera até receber aprovação. Depois relê, relê, relê, relê até ao último dia do miolo ir à tipografia. E sai o livro, quando a gente criou tanto, caçou tanto erro, esperou tanto, releu tanto, conhece tanto o livro que na condição de convidado não iria à sessão de lançamento, pois se perdeu o efeito novidade. Só que tal não parece porque, como me disse certa vez o professor Francisco Soares, "o processo do livro é um processo mudo". Gociante Patissa

Nelo De Carvalho lança neste fim de semana CD "encontros"

Recebi há pouco duas notificações de parabéns pelo agradecimento feito, através do programa 10-12 da TPA, pelo músico Nelo De Carvalho, por lhe ter cedido um poema em língua Umbundu, "Talama Handi" do meu livro de estreia "Consulado do Vazio", que consta no mais recente álbum a ser lançado no dia 9 de Março. Na verdade, já na semana passada recebi parabéns de um amigo que, de passagem em Luanda, ouviu entrevista de Nelo ao programa de Afonso Quintas, Rádio Luanda, na qual também referiu de bom grado a minha colaboração. Eu é que agradeço pelo interesse do músico, contacto iniciado há por aí dois anos pelo também músico (já falecido), Mindo Monteiro. Que venha o disco e viva a solidariedade artística.

O duplo sentido de um título

Admiro sempre altruístas, mesmo aqueles que se colocam no centro da causa, brilhando mais do que ela, ou encham o cofre. É tudo uma questão de coragem e metas.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Paulo Tomás e o seu momento infeliz

Estou a ver o programa "Treinador de Bancada" do canal 2 da Televisão Pública de Angola. Com alguma dificuldade na garganta, tive de engolir uma passagem do meu conterrâneo Paulo Tomás, convidado residente. "Acho repugnante os adeptos irem ao campo e o jogo terminar zero a zero". Repugnante um empate? Que desportivismo é esse, ó Tomás, ó Tomas?!

domingo, 3 de março de 2013

Analogias de Março

"Uma mulher bonita e fiel é tão rara como a tradução perfeita de um poema. Geralmente, a tradução não é bonita se é fiel e não é fiel se é bonita." - Ladislau Fortunato Ladislau