PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

domingo, 30 de novembro de 2014

Prémio Luso-Espanhol de Arte Cultura 2014 para Lídia Jorge

Frederico Ningi (esq.), Lídia Jorge e Gociante Patissa
A escritora portuguesa Lídia Jorge, com quem tive o gosto de partilhar a banca durante a 26ª edição da Feira do Livro de Jerusalém, Israel (onde integrei delegação da União Dos Escritores Angolanos ao certame de iniciativa do presidente Shimon Peres, em Fevereiro de 2013), acaba de ser laureada com o Prémio Luso-Espanhol de Arte Cultura 2014, de carácter bi-anual, atribuído pelo Ministério da Cultura de Espanha e pela Secretaria de Estado da Cultura de Portugal, devido “ao valor da sua obra literária, que aborda algumas das questões fundamentais do nosso tempo”.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Literatura e contabilidade, um diálogo inconclusivo

"Você escreve?"
"Sim."
"Que escreve?"
"Poesia, contos, tenho também uma novela publicada e um livro de crónicas no prelo."
"Que ganha?"
"Quase nada assim em termos de dinheiro, o reconhecimento vem aos poucos. Na verdade, não sei parar de escrever."
"Você dedica tempo e energia e não tem benefício?"
"Não escrevo para isso, mas por acaso já recebi um prémio com quase seis mil dólares. E tenho tido oportunidades de viajar, conhecer outros lugares, para além de ser traduzido para outras línguas, como hebráico, inglês, italiano."
"Como sabe você que o que está escrevendo as pessoas vão gostar?"
"Diga?"
"Quando escreve poesia, como sabe que essa vai ser gostada?"
"Não sei. Quer dizer, escrevo o que me vem à cabeça, entre o que vejo e o que sinto. Por acaso, não tenho razões de queixa. Também sou um bom leitor."
... Veio depois outro tema.

Pronto, o homem do autocarro inovou, talvez já como solução para o engarrafamento (que por acaso não existe na zona da Damba-Maria, Katombela, hoje)

Como quem diz, que privilégio é esse de ser reservada para o comboio uma linha férrea inteira?

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Literatura angolana em Portugal| A editora NósSomos tem para venda e entrega imediata os seguintes títulos, ao preço de 3 euros:

- FOGO & RITMO - Agostinho Neto, 
- MEU AMOR DA RUA ONZE - Aires de Almeida Santos,
- DESEJOS DE AMINATA - Lopito Feijoo,
- A CIGARRA DESCONTENTE - António Cardoso,
- 8:2= 23 - David Capelenguela,
- GUARDANAPO DE PAPEL - Gociante Patissa,
- CONTRAFÉ - Carlos Ferreira.

Pedidos para os emails etutanu@gmail.com ou monteiroferreira@hotmail.com
Também podem ser feitos para Rua Queiroz Ribeiro nºs 11/15 - 4920-289 Vila Nova de Cerveira ou pelo telefone 251795115.
Divulguem, por favor.

Porque não existe "EMBALA" em Umbundu

É frequente vermos, quer em textos literários, quer em informativos, quer ainda no discurso oral variado a palavra EMBALA, quando se refere à sede da autoridade tradicional do grupo etnolinguístico Ovimbundu. Ora, Ombala é equivalente ao Kikongo Mbanza, que significa sede ou capital. Neste caso, a raiz é MBALA, que tem o prefixo "O" no papel de artigo, uma vez que na morfologia Umbundu, todo o substantivo vem já acoplado ao artigo. OMBALA quer dizer a capital, a sede. A confusão pode ter partido da semelhança com a palavra portuguesa do verbo embalar. Por favor, na próxima vez que se referir ao poder tradicional, evite "embalar" no velho e confortável erro: EMBALA NÃO EXISTE. O PODER RESIDE NA OMBALA.

OMBANGULO YAYEVIWA VALI ENENE (o mais escutado dos meus áudios no soundcloud)

No meu canal do soundcloud, há um fenómeno curioso quanto aos registos mais ouvidos. Tenho lá gravação do efémero programa sobre literatura que realizei e apresentei na Rádio Benguela, músicas do meu primo Kupeletela e algumas crónicas. Mas o mais ouvido é o registo de um ensaio na linha de oratura, ainda por cima na língua Umbundu, que em um ano tem 413 plays (visualizações) e 21 downloads (descargas)
Texto em Umbundu e respectiva tradução aqui
Versão editada em Português e publicada via Jornal Cultura aqui

Anedota

Ao tomar contacto com o neto recém-nascido, a sogra torce o nariz:
- Desculpa, minha nora, mas esta criança não tem nada do meu filho!
- Diga?
- Nem a cara nem a mão nem os pés, nada! Não se parece mesmo nada com o pai.
- Minha querida sogra, querias o quê? O teu filho dorme ao lado de uma mulher, não de uma máquina fotocopiadora!

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Partilhando leituras

Como tenho já dito, o meu exercício de leitura é baseado numa pura questão de gosto/sensibilidade, excepto quando me vejo obrigado a estudar um determinado livro para fins académicos ou ensaístas. No campo da poesia, gosto muito mais da escrita que se aproxima ao provérbio, ao espírito da tradição oral. Hoje trago este poema de Carlos Bengui, que nos chega da província do Uíge:

REFLEXÃO E PERCURSO

Uma causa sã é a multidão
enquanto o indivíduo apenas o signo
associar-se ao vento
e aderir às correntes dos rios
é preciso ser um anfíbio

Carlos Bengui, in "Proficuidade", pág. 21. GRECIMA, Luanda, 2014. Programa LER ANGOLA

(do arquivo) KUNENE... MORFOLOGICAMENTE ESPECULANDO

Se fosse na língua Umbundu, o topónimo Kunene (de origem Bantu) seria a aglutinação do prefixo "Ku", que tem o papel de locativo (no, na), com o adjectivo "unene", que significa grande. Assim, arriscaria em dizer que a palavra Kunene (ku+unene) tem o significado de "na parte grande; na grandeza", o que não sabemos ao certo se homenageia o território ou a bravura da sua gente. De qualquer modo, os falantes de Oshikwanyama têm a palavra. Até lá, uma coisa é certa: Cunene, com C de cu, não significa mesmo nada! Um abraço do vosso Gociante Patissa, Benguela 03.10.14

O K está a voltar (artigo de opinião de José Kaliengue)


Há pouco mais de um ano as redacções dos órgãos de comunicação social receberam um documento do Ministério da Administração do Território (MAT) a orientar a forma como se deveria grafar a toponímia angolana, ou seja, como escrever os nomes das localidades. O documento eliminava a letra k dos nomes de muitas localidades, entre as quais o Kuando Kubango, que o Ministério entendeu que se deveria escrever Cuando Cubango. O mesmo se passou com o ‘Cuanza Sul’ e ´Cuanza Norte’, apesar do Kwanza da moeda naconal, sabendo que o nosso Kwanza deve o seu nome ao maior rio de Angola e aquelas duas províncias também. Uma está a Norte do rio a e outra a Sul do rio. Havia outras alterações.

As alterações do MAT, em alguns casos ou nos levavam ao Acordo Ortográfico dos outros, ou nos colocavam numa situação que nos remetia à época colonial, ao transformar o Kunje (no Bié) outra vez em Stº António Gare e o Waku Kungu em Cela, apenas.

Os recentes dias de FENACULT um encontro de técnicos do Instituto de Línguas Nacionais veio recomendar que os nomes de origem bantu sejam escritos segundo o alfabeto bantu internacional, ou seja, o regresso ao k, por exemplo e às palavras nasaladas como Ndongo ou Ndalatando. Parece- me ter ficado claro que a orientação do MAT, que não era decreto nem resultava de alguma concertação do Conselho de Ministros, tinha sido dada sem prévia consulta ao Instituto de Línguas Nacionais. Suponho que nem ao Ministério da Cultura. Resultado: uma grande confusão, com documentos oficiais ora com K, ora com C. e os manuais escolares também com o k.

É hora de o MAT (des)orientar o Jornal de Angola e a TPA para que voltem a escrever Kuito, Kuando Kubango, porque nos jornais do fimde- semana passado, por exemplo, toda a gente escreveu com o K. ou então, o MAT que publique uma nota mais oficial, resultante de um decreto, para o qual, obviamente terão sido escutados os especialistas e instituições oficiais.

José Kaliengue, director do Jornal o País, Luanda, 29/09/14

Nota do editor do BlogNão houve ontem - (refiro-me à era do jugo colonial e respectiva visão etnocentrista) -, como não há hoje - (que somos um país soberano, o que pressupunha não só de território mas sobretudo de fomento de estudos para recompor o tecido identitário) - , diálogo intercultural. É a nossa sina!

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Um prejuízo legal à memória colectiva

Ao ler notícia sobre um esclarecimento do exmo senhor Ministro da Administração do Território, o compatriota Bornito de Sousa, que na verdade só cuidou de reforçar a nova descoberta do seu pelouro que consiste em castrar as consoantes K, W e Y nos nomes das localidades (mesmo que de matriz africana não ocidental), desautorizando tudo o que de cultural é substracto na origem do topónimo, só podia eu estar ainda mais desmoralizado com a gestão institucional deste dossier. E já agora, nesta falta de diálogo intersectorial que se assiste, onde o Ministério da Cultura e respectivo Instituto de Línguas Nacionais vêem as suas competências ultrapassadas pela direita, que tal ser o Ministério do Comércio a decidir sobre os critérios para se legalizar uma clínica por exemplo? E para não perder a boleia, julgo "Coartem" um nome difícil para medicamento, pelo que, exmo senhor Ministro do Interior, veja lá se manda os nossos anti-motins obrigarem os médicos a mudar a escrita, se faz favor. Adaptando o pensar de um amigo por cá, vale lembrar que um país que tanto trabalho tem pela frente em termos de pesquisa, classificação e normatização do mosaico étno-linguístico dos povos que o constituem, para a consequente consistência no currículo de ensino (no que nos bastaria imitar a Namíbia), não se pode prestar a esses “adiantamentos” de se vestir de corruptelas e impô-las (num claro critério de facilitismo) como regras, nem que seja em nome da união. O recuo é possível.

Estrofe do poema «Nova Ilusão»

"Às vezes, em sonho triste
Nos meus desejos existe
Longinquamente um país
Onde ser feliz consiste
Apenas em ser feliz".

(Fernando Pessoa, do poema Nova Ilusão, datado de 21-11-1909. In Novas Poesias Inéditas, 2006, p. 15. Editorial Nova Ática, Lisboa. Portugal)

O Eterno e o Efémero| Crónica de Rui Assis e Santos, in «Páginas de Comunidade», pág. 171. Seara Nova Editores, 1994. São Paulo, Brasil.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Restinga do Lobito (arquivo)

Diário: Punida, nunca promovida

Cada vez me convenço mais de que a Educação Moral e Cívica, que tão bem faz ao promover no currículo escolar reflexões sobre anatomia e prevenção de gravidez indesejada e doenças do "banquete" da libido, esqueceu-se da sua missão, que seria promover a perspectiva do exercício da cidadania, levar para a sala de aulas a discussão em torno dos actos humanos (do particular ao colectivo), ressuscitar o casamento entre a moral e a lei (a costumeira e a positiva), caminhando para esse lugar onírico chamado pátria... e a impunidade seria desde o ensino de base punida, não promovida, que isto é cá um investimento para um futuro sem gozo. 
Gociante Patissa, 24.11.2014

sábado, 22 de novembro de 2014

De Claudino Chipuco Kuenhe | Mercado livreiro universitário ganha «Metodologia de Ensino de Educação Moral e Cívica – Uma Colectânea Didáctica»

Claudino Kuenhe, natural da comuna da Praia de Bebé, município da Catumbela, pretende levar o livro à comunidade universitária das diferentes instituições de ensino que funcionam na província de Benguela, à semelhança do que teve lugar, na semana que hoje finda, no Instituto Superior Católico de Benguela, com sede no Lobito, onde o autor se licenciou em Ética Social. A obra académica «Metodologia de Ensino de Educação Moral e Cívica – uma colectânea didáctica» foi editada pela Regrapapiro, em Odivelas, Portugal, 2014.

Fragmentos do conto A ALMA GÉMEA DO MAR (2)

É escusado dizer que a Titina e eu falávamos mais do que os restantes convivas, o que mantinha praticamente intacta a porção de churrasco que nos cabia. Não era só isso, a cerveja, coitada, aquecia na mão. Mas, isso pouco importava no momento. Era evidente o cuidado da minha parte para não incorrer em indiscrição danosa. É como digo, a partir de certa altura, procuramos viver as coisas em sua plenitude: um sorriso disperso, um suspiro cúmplice, uma promessa de carinho, uma ponta de cigarro. Aí a gente se dá conta de estar a caminhar apressadamente para a velhice.

— Desculpa se estiver a ir longe demais, mas gostava de entender uma coisa. Como é que esses cinco anos se transformam em passado?
— Porque teve de ser, meu caro… Lembras-te do que te falei sobre alma gémea?
— Claro.
— Não era só minha, era também alma gémea do mar. Sabes, em dias de sol ardente no litoral, parece ser de meia hora a distância entre nove da manhã e a hora doze. Sim, chovia suor, de tão quente que isso estava. É nesse hiato que me chegou o aviso.
— Caramba! — exclamei, algo desprevenido, ante a tragédia. — Sabia nadar?
— O quê que tem a ver? É o mar que quis ser feliz. Quando chega a hora, parece que não custa largar o chão. Aliás, não sei quanto aos outros, mas este mar daqui é travesti, tem artigo de homem, mas é corrimento de sangue camuflado no azul que se vê…

Gociante Patissa, in «Fátussengóla, O Homem do Rádio que Espalhava Dúvidas» (pág. 101-102). GRECIMA. Programa Ler Angola. Luanda, 2014

PROCURA-SE: EDITORA interessada nos direitos para ANGOLA do meu livro de poesia «GUARDANAPO DE PAPEL»


Lançado em Maio de 2014 na localidade de Foz Côa, em Portugal, pela editora "NósSomos", propriedade dos veteranos escritores Luandino Vieira e Arnaldo Santos, e havendo da parte do autor interesse numa 2.ª edição do «Guardanapo de Papel», que seria para Angola, será bem-vinda a editora que se interessar em ficar com os direitos para edição/comercialização do livro em Angola, o que pressupõe suportar os custos de produção. Obrigado. "O nosso trabalho é trabalhar!"

Ler notícias sobre o livro...
aqui
e
aqui

Citação

"Há pessoas nesta vida que parece que nasceram para mentir. Mente às 6h da manhã, mente às 9h, e ainda no período da tarde está outra vez a mentir" (do pregador da Igreja Metodista, culto via TPA, 22.11.2014)

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Overtime in the office (horas extras no escritório)

Conto| A ESTRELA QUE NÃO VOLTEI A TER

Nunca mais quis ou pude ter cães. Aos que amei ao longo destes anos, foi por afinidade. A única cadelinha que verdadeiramente me pertenceu chamou-se Estrela. O brilho dos olhos dela evidenciava suficientemente a beleza das quatro patas, parecendo-se mesmo, vista de frente, com estrelas que as crianças guardam no céu para servirem de brinquedo em noites de calor. Era fêmea, criança, baixinha, acastanhada, brincalhona, obediente.
Ganhara-a de um primo que dela se queria livrar, no que se pode considerar um dos mais memoráveis passeios da adolescência, com a diferença de o destino ter sido apenas o bairro da Kanata, duas horas a pé de casa. Tinha catorze anos, que pareciam menos, dada a pouca altura que me era característica até aos dezanove anos e o curso de pedreiro no IED[1].
O que disse é uma verdade passível de desiludir o Stick, cão lá da casa de minha mãe, que não faz outra coisa quando me vê, a não ser pular e sujar-me a roupa toda. Só mesmo o Stick, com aquele carinho (sobejo mas sincero) de saudades. Por sorte, os cães não sabem ler ou ao menos, como ironizaria certa poetisa, não todos.
Como já confessei numa crónica parida algures em 2010, tive infortúnio com cães, um pouco por culpa da noite. O sangue sob a roda confirmava. Era o cão da vizinha, que eventualmente procurava aconchego nos restos do calor do motor.
— Matou, assacou em baixo da roda!!! — acusavam as crianças, como se não se tivessem distraído, elas também, pelo brotar do luar e as brincadeiras de quem chama o apetite para jantar.

Nada mais havia a fazer, além de seguir  para a escola,

De volta ao Kero do Lobito para adquirir, por encomenda do mano Lauriano Tchoia, 6 (seis) exemplares de títulos da colecção designada novos autores, publicada no âmbito do programa LER ANGOLA, o que ficou por 3 mil kwanzas, na razão de 500 kwanzas cada exemplar

Just a question

Uma notícia agora há pouco na TPA dava conta da gala (organizada por entidade privada) para os festejos da independência nacional na província do Huambo, onde, curiosamente, (só) actuaram uma banda cubana e um músico cabo-verdiano, no caso Jorge Neto. E coube aos angolanos dançar, comer e aplaudir. Excelências, se o tema é «independência», não era suposto sermos nós mesmos no papel principal?

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Acaba de chegar, mais uma oferta do maior mecenas que conheço, o compatriota Lauriano Tchoia. Assim digo mais obrigado?

Diário: E no caixa...

"O senhor prefere fazer o pagamento em multicaixa ou cash?"
"Hã?"
"Se o pagamento é em cash ou  multicaixa..."
"Não entendi."
"Vai usar cartão ou vai pagar em dinheiro à mão?"
"Dinheiro à mão. Ai, cash, assim, é inglês?"
"Sim."
"Mas, então, porque é que estás a falar comigo inglês, se somos todos angolanos?"
"É o termo próprio."
"É o termo que vocês usam aqui?"
"Não só aqui, mas em todo o lado. Cash mesmo é dinheiro à mão."
"Mas, espera aí, isso tens que usar com quem estudou contabilidade, porque é linguagem técnica. Eu não estudei isso."
"Ai, é? (risos)"
"Não ri".

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Benguela vestida de poesia

Chegou-nos a informação de já se terem esgotado, no KERO da Centralidade do Cacuaco, em Luanda, alguns dos títulos/livros da colecção designada de "Novos Autores", no quadro do LER ANGOLA. Entre os esgotados está o meu livro de contos "Fátussengola, O Homem do Rádio que Espalhava Dúvidas"

Por um lado, há a tristeza, quando imagino a frustração d@ leitor@ que para lá se desloca e não encontra o livro, mas, por outro lado, a alegria, pois é sinal de despertar algum interesse em sermos lidos. Se calhar, o melhor mesmo é ir ao encontro da loja mais próxima de sua residência e adquirir o seu, que é quinhentos kwanzas cada. É o que se pode chamar de sinal agridoce.

Namibe: Lançado livro "África até quando"

Imagem do site VerAngola
Texto da Angop, 19/11/14 - O professor universitário Rui Filipe Gungu lançou nesta terça-feira, no Namibe, o livro África até quando, em acto realizado no Instituto Superior Gregório Semedo.

O livro, de 152 páginas, aborda os principais aspectos da história, com principal realce da colonização do continente africano, e aponta novos caminhos para uma África que se pretende moderna e capaz de resolver os seus problemas, apelando a uma profunda mudança de mentalidade dos seus habitantes.
  
Rui Filipe Gungu é professor de carreira, licenciado em ciências d educação, opção historia, no Instituto Superior de Ciências de Educação, e é mestre em finanças pela Universidade Portuense Infante Dom Henrique de Portugal.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Quando de uns falam outros

Uma das coisas de que gosto no meu país é o elevado nível de solidariedade, tanto do ponto de vista de facilitar quem maior esforço não quer dedicar na pesquisa, como no que respeita a preencher o lugar de quem está eventualmente fora do foco. E por acaso até tem muita piada a boa-fé com que intelectuais emprestam, com o devido charme ao microfone, opiniões técnicas sobre assuntos que não dominem e/ou que nunca tenham experimentado. É realmente de louvar a oportunidade que é dada, por exemplo, a um macho para se pronunciar sobre as dores menstruais ou de parto, porque até cansa consultar as mulheres que estiverem bem ao lado.

Conto em construção

Duas semanas já. Tinha dado todas as voltas possíveis a visitar perfis mas, não, dela nada achava. Para lá do nome de registo, ao que tudo indica sem paradeiro, nada mais o ligava à rapariga como antecedente senão a vaga sensação de lhe soar familiar o rosto. Talvez a tivesse visto antes, a julgar pelo doce à vontade com que a rapariga o abordou em pleno horário de serviço. E ela? Diria o mesmo? De que servem as perguntas, quando não encurtam os extremos? Há encontros, por casuais que sejam, que se negam a embarcar para o passado. É como se, inquietos no tempo, se revestissem de promessa de retoma. Ficou-lhe o contacto, as palavras, o sentido de humor, o sóbrio vestir, o olhar-lhe nos olhos a poucos palmos de distância. De nada vale agora o esforço, nem o rosto dela mais ele consegue imaginar. E quando acontece, e disso sabe-o bem o rapaz, é porque houve ali uma nascente de afectos. Sim, ele conhece-se a si próprio pela faculdade de não memorizar rostos de mulheres que lhe tenham com alguma profundidade marcado.

Gociante Patissa, Aeroporto Internacional da Catumbela 18.11.14 (Conto em construção)

domingo, 16 de novembro de 2014

Fragmentos do conto A ALMA GÉMEA DO MAR

Titina distancia-se das de sua geração. Doseia com equilíbrio o romântico e o pragmático. Vê-se em suas feições um remoto cruzamento do europeu com o Bantu. As idas ao ginásio são responsáveis pela definição muscular das pernas, o que bem serviria de moeda, se fosse pela sensualidade que ela se quisesse identificar. Nem alta nem baixa, apenas com a altura suficiente para gerar disciplina no serviço e escapar aos estereótipos.
(…)
Mulheres dinâmicas assim só têm um problema, a monotonia. Doente, saía-se terrível. Queixava-se de tudo, até do que ia aos olhos de todo o mundo impecavelmente. O corpo médico andava perto de se fartar de tanto queixume, sim, porque a situação dela até não era nada, se comparada com outros casos. «Boa tarde, senhora, como está a nossa disposição, hoje?». Silêncio. Suspiro dorido. Um olhar à volta da sala em jeito de denúncia. «Como estou, doutor? Como vou estar?», retruca. «É o que espero ouvir da nossa amiga», responde-lhe, sorridente, o profissional. «Está mal, doutor. É uma eternidade presa nesta cama, a pessoa até já sonha com o pior», dramatiza. «Não seja por isso, minha cara, é apenas uma perna engessada, quer dizer, seis dias de cama», minimiza o médico. «Seis dias de cama? Como assim? Ai, e as noites não contam?», rabuja. «Pronto, são seis dias e noites», daria o médico o braço a torcer.

sábado, 15 de novembro de 2014

Tarde de ensaio fotográfico na Praia Morena (a modelo é a minha amiga e ex-colega do curso de fotografia Milagre Cruz. Espero que me perdoe heheh)

À ESPERA DE SI na rede de mercados KERO, principalmente em Luanda, custa QUINHENTOS KWANZAS

SINOPSE DO EDITOR: Um conjunto de contos que têm como palco do seu desenovelar a província de Benguela. Escritos na perspectiva do registo, mas também da preservação da sua memória recente, como merecida homenagem a personagens singulares que são, através da sua comum existência, uma referência para as gentes daquela urbe.

«Cacimbos e remoinhos dissolvem lágrimas, todas elas, e amainam corações. Cada colheita traz um novo ano, enquanto nos contos e nas canções ganha a cultura. Conversa é a chuva nos trilhos da enxada para bagres de rios e lagos, a semente, o trabalho, a esperança, enfim, a vida que continua.»

fragmentos do conto VELHO BATALHA E A BICICLETA QUE NÃO SABIA CORRER


Santa Cruz ajusta-se à coreografia da máquina. Muito do que era do bairro, hoje é de alguém. Sorte a nossa que a poeira seja impossível de privatizar. Graças a ela, agora menos umbilical e com mais salitre, dá para colher o tempo, polido pelos sentires e dizeres daqui. Um destes caminhos era o do «avô» Batalha, que andava literalmente com a bicicleta na bíblica rotina «casa-trabalho-casa».

Batalha, promovido pela força dos brancos cabelos a avô (da comunidade inteira), foi, até finais da década de noventa do século vinte, o segundo bakongo mais famoso (há quem o ache cokwe), somente suplantado pelo professor Carlos. Este último deleitava a criançada com a sua pronúncia algo franco-abrasileirada (ass bananass… ass crriancasss). Já volto a falar do velho Batalha e sua misteriosa bicicleta, mas desconfio que você se estará a indagar se não há protagonismo feminino na história do meu bairro.

"Arqueologia" curricular: Abril de 2001 (para uma boa interacção no domínio psico-social da criança)

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Lição do sobrinho de 5 anos

"Não ligam porquê o gerador, se está escuro?"
"Porque o papá não está."
"E o tio não consegue ligar?"
"O tio já esqueceu, Ataíde. O gerador já não é meu."
"Ó tio, pensa!"
"Hã?"
"Na minha vez, eu penso."
"Ah, é?..."
"Sim, tio. Eu quando faço uma coisa, primeiro penso."

À guisa de alter ego

«O balcão do check in funciona um pouco na lógica do estúdio de rádio, tudo a despachar, salva a devida diferença no facto de o aeroporto ser mais pluralista, porquanto num mesmo dia, ou voo até, tanto podem embarcar presos algemados, como também celebridades. Com o tempo, o atendedor (vale para o entrevistador) desenvolve aquele sorriso da boca para fora. De nada adianta o carinho além disso. Não é por ele que surgem, mas para estarem no ar.»

parágrafo que abre o conto GESTÃO DE VAZIOS, pág. 47, 2014. Gociante Patissa, in FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS, 1ª edição

Conto| O MESTRE QUE DISSO NÃO PASSAVA

«Os mestres mentem, todos eles. O pedreiro não entrega no prazo acordado; o mecânico tem sempre uma desculpa; o canalizador, tirando proveito da semelhança nas duas primeiras sílabas, faz-se canalha perfeito; o electricista é outro a quem é arriscado confiar, tão arriscado como seria pôr a mão no fogo pelo ladrilhador ou pelo pintor, enfim... Será que devo mesmo voltar à escola para o mestrado?», lia-se.

Lágrimas molhavam o sorriso do velho Jornal (que por acaso caminhava para a terceira idade). Acabava de abrir o envelope, mas mantinha escancarada a caixa postal 208. Tinha o estranho hábito de só trancar a portinhola depois de lida a carta, como se, por eventual desgosto, conseguisse devolver a correspondência com o gesto mecânico de enfiar o papel e girar a chave em tácito trejeito de «assunto encerrado!»

Do discreto guichet, a funcionária dos CTT (que o falecido velho Cimuku decifrava, com saudável malandrice, como sendo Continua Tudo Torto) via tudo, no silêncio que exigia o amontoado de emoções, quiçá, contraditórias. Abrir ansiosamente o apartado ao tilintar do porta-chaves, levar o correio ao peito, lacrimejar, gestos vagarosos. Era sempre um pequeno evento cada visita do velho Jornal aos Correios. Era semanal. Mudavam-se os selos, as datas dos carimbos de entrada e saída, mas dois elementos eram inalteráveis: o remetente e o receptor.

Velho Jornal proibira, terminantemente, sublinhe-se, o filho de usar outra via, que não fosse o correio postal e a respectiva escrita à caneta, durante os cinco anos que o levaram a viver em Coimbra. A própria ida à Europa, pelas poupanças de alfaiate suportada, era faísca para intermináveis introspecções. Teria valido a pena a independência se, pouco menos de meio-século depois, temos que mandar os filhos aos paradigmas que um dia combatemos? Enquanto as respostas tardavam, já no mercado do trabalho, a concorrência era (e hoje, ainda mais do que ontem) rija.

Como não é de um mestre traçar caminhos, mas tão-só tricotar o reverso das escolhas, velho Jornal não se opusera a partida. O que fez foi traçar o que ele chamava de Mapa do Luar. Era, se me permitem a simplificação, uma circunferência irregular a preto e branco, com intersecções e convergências, qual labirinto, acrescida de palavras dispersas, mas não desconexas de todo, que bem se podem dispor assim:

Era nosso o luar
Fértil e certo
Como as cores possuem o pincel
Depois
À ordem do fogo
Corremos
O asfalto engoliu a parábola
Nós com ela
Desnudos
O que resta de nós
Salvos da guerra
São ocas essências de carne
De tão iguais, perdemo-nos

As correspondências com o filho visavam manter os debates de aquecer o lar no cacimbo de Menongue, a capital da província do Kuando-Kubango. Na intemporal concepção de Jornal, a língua é que não se deixa ser estática. Uma combinação de símbolos, vendo bem, tem cores demais, para se deixar apanhar em uma só tonalidade. As palavras são cores em movimento, em certa medida. Todavia, estas mesmas palavras seriam sem alma, se lavadas do barro com que fossem colhidas.

Seu filho, agora homem com o nome gravado em diploma conimbricense, sabia alegrar as expectativas do pai, que lhe vivia lembrando que a universalidade não era algo insipido mas, antes, um encontro de identidades; que nós não chegaríamos lá nunca, enquanto a nossa missão fosse partilhar o nosso vazio interior.

E ao tomar contacto com tal medular correspondência, velho Jornal usava do faro para garimpar o filho, auto-revelado como ente que se conhecia semente de uma África que respira, antes de se colher na lavoura da cosmovisão. Divisado isso, acreditava justificarem-se as lágrimas que embaciavam os óculos graduados.

«Os mestres mentem, todos eles. O pedreiro não entrega no prazo acordado; o mecânico tem sempre uma desculpa; o canalizador, tirando proveito da semelhança nas duas primeiras sílabas, faz-se canalha perfeito; o electricista é outro a quem é arriscado confiar, tão arriscado como seria pôr a mão no fogo pelo ladrilhador ou pelo pintor, enfim... Será que devo mesmo voltar à escola para o mestrado?»

Ora, nesse parágrafo, que abre o conto em suas mãos, Jornal interpretava que o filho tinha tido êxito no curso de licenciatura e que pedia, por merecer, autorização para permanecer na Europa pelo mestrado; que, passasse o tempo que passasse, continuava identificado com as virtudes e defeitos da sua sociedade. Um patriota!

Velho Jornal tinha a mania de acreditar que o belo, antes de se perder pelo mundo, brotara do seu quintal aonde, ainda segundo suas absolutas sugestões, acabará por regressar para respeitar a lei da vida, que é incompleta sem a morte. E por assim ser, dedicava a cada dia alguns minutos ao mais florido cantinho do quintal. Cruzava as pernas com um livro na mão. Não era um canto qualquer, tratava-se de um com vista privilegiada. Pela janela, via-se do lado de dentro uma estante. O orvalho a escorrer pela vidraça dava a impressão que os livros andavam muito bem conservados num frigobar. É nessa altura em que lhe vinha à cabeça a alegria de camponês que completa o ciclo com um escoamento eficaz. Nesse instante, dava um gole, entornava um pouco para regar o chão e acreditava que, na manha seguinte, estaria a nova poesia a germinar. Talvez no chão, talvez num qualquer pregão. Apenas algo menos bom: era como se fosse inorgânica a poesia que do seu canteiro não nascesse.

Certa vez, criticado por investir horas no isolamento, escreveria para o filho: «Pelos livros, é uma viagem sempre boa... ainda por cima, sem risco de acidentes. Aliás, só pode ser doentia a sociedade que estranha o isolamento, a ausência. A colmeia é, afinal, a soma do que cada abelha leva ao colectivo. Portanto, não pode ser saudável a regularidade enquanto ser social, descurando da auto-descoberta no espaço singular. Ou passamos a ser iguais e, de tão iguais, perdemo-nos.»

Pronto, Jornal acreditava ser um mestre dos seus, só que… disso não passava.

Gociante Patissa, in «Fátussengóla, O Homem do Rádio que Espalhava Dúvidas» (pág. 77). GRECIMA. Programa Ler Angola. Luanda, 2014

trecho do conto FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS

Se dependesse da mãe, ele teria outro nome de registo, qualquer um que não fosse Virgulino Kaendangongo. A mulher sabia minimamente a função gramatical de uma vírgula, aquele pontinho arqueado para trás, que a tudo torna inconclusivo.Entrava também nos debates do casal o presságio em Kaendangongo, que na língua Umbundu significa eterno sofredor. Que mãe auguraria isso para o próprio filho? Seu marido, porém, tinha outra tese proverbial, a qual defendia com efusiva contumácia: «ka mwinle ongongo ka kolele» (quem não sofreu não amadureceu). Assim sendo, filho seu, porque talhado a singrar, faria do sofrimento parte de sua identidade. 

Gociante Patissa, in FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS, 1ª edição, 2014

trecho do conto A ÁRVORE QUE DAVA LEITE

É a mulher que não presta, vaca sem leite nem costas», acusava a parte do marido. «Esse homem é um atraso. Ainda vai-nos causar dores de bexiga à coitada», especulava o outro lado. Um pouco mais tarde ou mais cedo, o boato chegava tanto aos ouvidos do marido, como aos da esposa, não lhes aquecendo nem lhes arrefecendo, contudo. Muito dados a forçar situações, parentes do marido sugeriam secretamente que ele tentasse a todo custo fora, bastando apanhar uma prima com provas dadas em matérias de conceber. O que não imaginavam era que o outro lado não sossegava, e aconselhava a mulher a fazer precisamente o mesmo, afinal há sempre um primo no período fértil. Mas o casal não se deixava demover e permanecia cada vez mais unido.

Gociante Patissa, in FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS, 1ª edição, 2014

Trecho do conto O ENGENHEIRO

"Eu sei o que isso é. A mulher vai aparecer outra vez nesta rua. Aí, então, ele atira-a para o quintal e fecha as portas. E dessa vez é a morte quem perde. Só que ele se engana um pouco num ponto: não é no muro alto a victória, é na vontade dele. Oh, minha linda, o amor é sempre inclonclusivo. Tudo o que transcende. É."
Gociante Patissa, in FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS, 1ª edição, 2014

terça-feira, 11 de novembro de 2014

NO AR NESTE MOMENTO, TPA,CANAL 1, PROGRAMA ESPECIAL SOBRE O LANÇAMENTO DA EDIÇÃO 2014 DO PROGRAMA LER ANGOLA,

que traz 11 obras dos chamados clássicos e mais 11 obras inéditas. A decorrer como testemunhei nos bastidores, o músico Nelo de Carvalho vai interpretar "Talama handi", o clássico que compôs de um poema meu em Umbundu, pelo qual uma vez mais agradeço

Rota Luanda-Benguela conta com mais um operador aéreo

Dentro de meia hora, estará a aterrar no aeroporto 17 de Setembro, na cidade de Benguela, o voo inaugural da Air26. Trata-se, na verdade, de um ressurgimento deste operador privado que se viu, segundo fontes distintas, forçado a suspender actividade há quase três anos por conta de uma falência (ou algo muito perto disso). A operar com Embraer de cerca de 30 lugares, a Air26, propriedade do grupo Ducard, vem desafogar o segmento regular de passageiros, numa rota até então bipolarizada pela TAAG, companhia de bandeira, e uma outra aviadora também tutelada pelo Estado, ambas a operarem com Boeing 737. Quanto ao custo do bilhete, o recém-chegado não andará muito longe da média, fixa-se em 15 mil kwanzas um percurso. Ressalte-se que na mesma rota, operaram, pelo menos nos últimos 15 anos, várias companhias também acometidas por colapsos, nomeadamente a Air Gemini, a Fly 540, SAL e a Diexim, o que leva determinados analistas a qualificarem o sector da aviação como algo que vai deixando de ser propriamente um negócio para se tornar num exemplo acabado de risco.

Não deixe de ler no Jornal Cultura (10 a 23/11/2014, pág. 31) o meu conto NÃO É COM AS PERNAS QUE CORREMOS (*)

Numa aldeia muito distante do nosso tempo, no contar do meu avô, havia espaço para tudo, menos para a felicidade de pessoas com deficiência. Acreditava-se que a limitação motora seria praga dos deuses por eventual erro dos ancestrais.

Lumbombo, cujo nome na língua Umbundu quer dizer raiz, na típica essência proverbial dos nomes africanos, era visto como um ser frágil. O próprio nome advinha do facto de nascer doentio, ficando a sua sobrevivência a dever-se a medicações à base de raízes e preces. Em meios rurais, onde são pelo trabalho as pessoas notadas, não era bem do tipo que povoava fantasias. Não se lhe via beleza nem valentia para sustentar uma mulher.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Num deserto chamado literatura

Uns vão apostar na auto-superação e com isso, por via da escrita, o abrir de portas e publicar livros através de editoras diversas em Angola e no estrangeiro. Outros, ao mesmo tempo, dedicam-se a venerar as suas próprias mágoas, uma mágoa nova a cada dia, estagnar no entusiasmo e na intenção, optando às vezes por atalhos inconsistentes e acreditando que os outros, a quem não lêem, não deviam avançar. Os segundos são mais originais que os primeiros, ao menos trouxeram algo de novo: a corrente do "COITADISMO".

Entrelinhas

"Eu gosto de ku-duro, mas não consumo" (Kizua Gourgel, músico angolano, entrevista ao programa Panorama, TV Zimbo, 09.11.14)

Rastos na linha do farol

Reincidente olhar inquieta-se
à volta do pingo de luz
aquele tímido ponto veludo
quando o céu todo é negra nuvem.

Aquela luz
para lá do mar
útero da mesma aragem
que outras velas vai apagar
ainda há-de ser minha
antes que caia do céu a manhã e o fim do cenário
ou façam-me tudo então
menos perdoar.

Gociante Patissa, in «Guardanapo de Papel», 2014, pág. 12. NósSomos, Lda. Luanda, Angola / Vila Nova de Cerveira, Portugal

Congestionamento

in «Guardanapo de Papel», 2014, pág. 40. NósSomos, Lda. Luanda, Angola / Vila Nova de Cerveira, Portugal.

sábado, 8 de novembro de 2014

Citação

"Eu dou sempre um desconto às coisas que X conta. 50 por cento são verdade, outros 50 por cento são coisas que ele "vive" na realidade dele." (De um comentador televisivo português sobre uma certa celebridade que anda de polémica em polémica)

Arquivos do tempo de free lance na rádio como realizador e moderador de mesa-redona/debates (2003-2010)

Esta brincadeira no paint acabou ajudando a fazer retrato de personagem do velho Jornal, no conto "O mestre que disso não passava", neste meu recente livro de contos "FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS"

REQUERIMENTO

Requerimento 


Se
não
posso
pedir
que
não
cortejem 

holofotes
que
encandeiam
borrachos

Peço ao menos que não me incluam.

Gociante Patissa, in colectânea «Di Versos - Poesia e Tradução, nº 18». Fevereiro 2013. Edições Sempre-em-pé. Maia, Portugal

NOTA:  (é um dos vários textos até então inéditos em cuja força literária pouco acredito. Acabou sendo escolhido pelo editor da "Revista Di Versos", em Portugal, que o publicou juntamente com mais quatro poemas meus, uns do livro de estreia "Consulado do Vazio", outros de antologias, outros ainda do segundo livro de poesia que tenho no prelo "Guardanapo de Papel")

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Umbilical pára-quedas

Se voar é de asas abertas
Em replay põem-se a nu as cicatrizes.

Tudo é nada mais senão o vento
que faz assobiar e sublima cantos
tocar o céu pelo penteado da montanha
até ceder à lei de gravidade

Houve sempre uma mão
houve sempre uma mãe.

Gociante Patissa, in «III Antologia de Poetas Lusófonos», 2010. Folheto Edições e Design, Leiria - Portugal

Grecima lança mais onze clássicos da literatura nacional


Texto e foto do portal Rede Angola - O Gabinete de Revitalização e Execução da Comunicação Institucional e Marketing da Administração (Grecima), estrutura ligada à presidência da República, apresentou ontem, quinta-feira, em Luanda, uma segunda selecção com mais onze clássicos da literatura angolana em novas edições. A ocasião serviu também para lançar uma nova colecção, desta vez dedicada aos “Novos Autores”.

A lista de onze clássicos, que apresenta diversos estilos literários (conto, poesia, prosa), inclui nomes como Óscar Ribas (com o livro “Uanga), Viriato da Cruz (“Poemas”), Raul David (“Colonizados e Colonizadores”), Jofre Rocha (“Estórias do musseque”), Jorge Macedo (“Gentes do meu bairro”), Henrique Abranches (“A Konkhava de Feti”), Alda Lara (“Poemas Completos”), Aires de Almeida Santos (“Meu amor da Rua 11”), Boaventura Cardoso (“A morte do velho Kipacaça”), Mário António (“Obra Poética”) e Arnaldo Santos (“A casa velha das margens”).

A primeira selecção incluía nomes como Pepetela, Manuel Rui Monteiro, Agostinho Neto ou João Maiomona e foi apresentada em Novembro de 2013. Na altura, Divaldo Martins, coordenador do projecto Ler Angola (que está inserido nas actividades do Grecima), explicava que cada obra teria uma edição de 5 mil exemplares. “Mas para este ano, e devido ao sucesso da iniciativa, decidimos fazer uma edição de 10 mil exemplares para cada obra seleccionada”, frisou o antigo oficial da Polícia, durante o evento que decorreu na Mediateca de Luanda.

Em relação aos “Novos Autores” (que, na maioria dos casos, já tinha obra editada), a grande novidade é a criação de uma bolsa literária anual – que deverá ser entregue, pelo menos, até 2017. Os autores das propostas, seleccionadas mediante concurso, recebem 250 mil kwanzas e o valor total das vendas (a tiragem é de 2500 exemplares, por obra).

A primeira lista de 11 – o número faz alusão ao 11 de Novembro, dia da independência – destaca Paula Russa, escritora de Benguela, que publica o romance histórico “Na pele de Zito Maimba”. Também de Benguela, veio o poeta e contista Gociante Patissa, com “Fatussengóla, o Homem do Rádio que Espalhava Dúvidas. A selecção contempla ainda “Proficuidade”, de Carlos Bengui, “Sonhos Bordados”, de Yola Castro, “E lá fora os cães”, de Nguimba Ngola, “O coleccionador de Pirilampos”, de Soberano Canhanga, “Verso Vegetal”, de David Capelenguela, “Mukandas Angolanas sobre a Barriga de Zinha”, de Jorge Salvador, “O homem da casa amarela e outras histórias”, de Gaspar Lourenço, “Incertezas”, de Katya Santos e “Humanus”, de Martinho Katúmua.

No total, o Programa de Fomento do Livro e da Leitura, editou até ao momento 137.500 livros. O programa nasceu no âmbito do projecto Ler Angola.

Crónica| A RAZÃO DO BARRIGA NO SAGRADA FAMÍLIA

Vou eu em manhã de intermitente sol pelas cercanias do Sagrada Família, no simples gozo de caminhar. Luanda, para turistas, ganha-se a pé. Tudo sobre rodas é lento, quase preso ao lugar. Até das árvores, as copas perderam a ginga, não se dá o vento a colher, vento que se converteu em sólido em obediência à malha gigantesca de edifícios. Não chove.

E caminho no sentido oeste, digo caminhava. Não posso seguir, há sobre a calçada um destacamento da UGP - não que eu temesse armas, tão evidente que é o dom meu de anti-balas congénito, não é? Eh pá, é assim: os carabineiros estão bem no seu posto de trabalho, e não é de bom tom os importunar com "dá licenças" em meu dia de ócio, não é verdade? - Tenho de voltar ao quarto.

Os quartos de hotel são iguais. Eu deles não gosto. Já nasceram impessoais. Escondo-me no aconchego cosmopolita de um livro, mas é por pouco tempo, felizmente. O companheiro de jornada convida para a caminhada, ao que anuo.

Pelo caminho, uma agradavel supresa, a primeira: chega ao fim a lacuna deixada há dias pelo par de calçado convencional para os dias de ofício. Sapato com o mínimo de estética e ao mínimo preço. Ufa!, para alguma coisa vale a insubordinação dos vendedores ambulantes aos fiscais da Câmara e respectivo código de postura.

E seguimos desbravando avenidas, até o colega achar a embaixada de um país que ansiava, a segunda surpresa. Há que retornar ao hotel, mas não sem antes parar no pátio do católico templo e engraxar os sapatinhos. Banco há um só e é para o cliente, no que me contento com um imediato improviso.

Como não reluz o sapato do amigo, tomo de assalto a caixa e as escovas, pondo em prática a experiência acumulada na transição entre as décadas de oitenta e a de noventa. Isso já num vai brilhar, desengana-nos o mestre Maninho, que se insurge ao ser pelo seu amigo tratado por Mindo. Têm ambos aspecto andrajoso, arriscaria em dizer moradores de rua.

Então, mas, entre Maninho e Mindo, tu preferes Maninho? Meu kota, a minha mãe que me meteu na face da terra me deu nome de Maninho, num é apelido. Isso é ele, que nome dele é Zé, mas aceita nome de Barriga. Quarquer dia, fataliza ele, um Barriga de num sei onde vai fazer um mambo malaike e vão pensar que é ele.

E és Barriga porquê? Indago eu, no conceito de que há sempre uma história por de trás do nome. É apelido, responde ele, lacónico, seu olhar omitindo algo. Eu não sossego, a barriga, entre os ovimbundu, reflecte a bíblica metáfora do suor. Não é para encher a barriga que nos matamos de trabalhar? És o Barriga porquê? Era barrigudo, diz, jocoso, o Maninho, o que visivelmente não é verdade.

Qual é a razão de seres o Barriga? Eu cresci aqui, meu kota, a lavar carro. E? Esse nome quem me deu é um mutilado que me recebeu criança, me criou, e me ensinou muita coisa. Ele já morreu. Ele já me deixou Barriga, é por isso que não se tiro o nome.

Gociante Patissa, Aeroporto 4 de Fevereiro, terminal doméstico, Luanda, 07.11.14