PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Crónica| A RAZÃO DO BARRIGA NO SAGRADA FAMÍLIA

Vou eu em manhã de intermitente sol pelas cercanias do Sagrada Família, no simples gozo de caminhar. Luanda, para turistas, ganha-se a pé. Tudo sobre rodas é lento, quase preso ao lugar. Até das árvores, as copas perderam a ginga, não se dá o vento a colher, vento que se converteu em sólido em obediência à malha gigantesca de edifícios. Não chove.

E caminho no sentido oeste, digo caminhava. Não posso seguir, há sobre a calçada um destacamento da UGP - não que eu temesse armas, tão evidente que é o dom meu de anti-balas congénito, não é? Eh pá, é assim: os carabineiros estão bem no seu posto de trabalho, e não é de bom tom os importunar com "dá licenças" em meu dia de ócio, não é verdade? - Tenho de voltar ao quarto.

Os quartos de hotel são iguais. Eu deles não gosto. Já nasceram impessoais. Escondo-me no aconchego cosmopolita de um livro, mas é por pouco tempo, felizmente. O companheiro de jornada convida para a caminhada, ao que anuo.

Pelo caminho, uma agradavel supresa, a primeira: chega ao fim a lacuna deixada há dias pelo par de calçado convencional para os dias de ofício. Sapato com o mínimo de estética e ao mínimo preço. Ufa!, para alguma coisa vale a insubordinação dos vendedores ambulantes aos fiscais da Câmara e respectivo código de postura.

E seguimos desbravando avenidas, até o colega achar a embaixada de um país que ansiava, a segunda surpresa. Há que retornar ao hotel, mas não sem antes parar no pátio do católico templo e engraxar os sapatinhos. Banco há um só e é para o cliente, no que me contento com um imediato improviso.

Como não reluz o sapato do amigo, tomo de assalto a caixa e as escovas, pondo em prática a experiência acumulada na transição entre as décadas de oitenta e a de noventa. Isso já num vai brilhar, desengana-nos o mestre Maninho, que se insurge ao ser pelo seu amigo tratado por Mindo. Têm ambos aspecto andrajoso, arriscaria em dizer moradores de rua.

Então, mas, entre Maninho e Mindo, tu preferes Maninho? Meu kota, a minha mãe que me meteu na face da terra me deu nome de Maninho, num é apelido. Isso é ele, que nome dele é Zé, mas aceita nome de Barriga. Quarquer dia, fataliza ele, um Barriga de num sei onde vai fazer um mambo malaike e vão pensar que é ele.

E és Barriga porquê? Indago eu, no conceito de que há sempre uma história por de trás do nome. É apelido, responde ele, lacónico, seu olhar omitindo algo. Eu não sossego, a barriga, entre os ovimbundu, reflecte a bíblica metáfora do suor. Não é para encher a barriga que nos matamos de trabalhar? És o Barriga porquê? Era barrigudo, diz, jocoso, o Maninho, o que visivelmente não é verdade.

Qual é a razão de seres o Barriga? Eu cresci aqui, meu kota, a lavar carro. E? Esse nome quem me deu é um mutilado que me recebeu criança, me criou, e me ensinou muita coisa. Ele já morreu. Ele já me deixou Barriga, é por isso que não se tiro o nome.

Gociante Patissa, Aeroporto 4 de Fevereiro, terminal doméstico, Luanda, 07.11.14

Sem comentários: