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quarta-feira, 21 de novembro de 2018

[Oficina literária 16] MARCAS – poema Anjo N'silu


Marcas

Em cada verso dos meus retratos
Uma lágrima sangrada
Uma alma ensanguentada
De vários servos sem contratos

O menino ao colo, a voz do choro
Dizendo basta
Mas a saga não pára
A chaga à procura da cura
Clama só assim, pedindo socorro

Olha aí meu pai
Carregando sua cruz
Chibatado, mas não cai
Sofrendo tanto quanto Jesus

Minha mãe latindo às correntes
Seu espírito fugiu-se do corpo
O coração quase já não bate
Expirando o último fôlego
Encarcerada até aos dentes

O peão é sacrificado pelo rei
A rainha levando xeque-mate
Chora só assim até à morte
Isso não é um jogo de xadrez
Sobreviveu, teve sorte

Ó miséria que nos pariu
Vários séculos se passaram
Os cadeados se romperam
Mas a porta não se abriu

A liberdade jaz no seu cativeiro
Os quinhentos euros de escravatura
A merda do espelho nos traiu
Do livro a escritura sagrada
O cão que o Diogo alimentou
Os meus calcanhares feriu

É difícil ultrapassar
(Os karmas)
É difícil superar
(Os traumas)
É difícil esquecer
(Os problemas)
Se ainda existem marcas na alma


Anjo N'silu | Retratos

SOBRE O AUTOR

Filho de pai mukongo e mãe kamundongo, Anjo N’silu nasceu no município de Rangel, província de Luanda, se bem que o registo oficial mencione, como local de nascimento, o distrito de Ingombota. É um novo talento da literatura angolana, versado em poesia, prosa, crónica, conto, dramaturgia, abordando temas que traduzem a realidade sociocultural angolana e africana.
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quinta-feira, 15 de novembro de 2018

[Oficina literária 10] TRADICIONANDO – poema de Anjo N’silu


Sublime cabaça na cabeça

E a kapuka pinga na cacimba
Nem caldeirada, só tem fúmbwa
Tem jola miongo e pau de cabinda
Também missanji, jipepe, e jinguenga
Quimbombo, maruvu, e quissângua
Timba timba e ngadiadia na tigela
Gengibre e dicaxi na mulemba
Brututu e ngadiola tira jiba

Do fogo saindo a massambala
Perfume aqui não, só tem catinga
Se tem kizaka põe também muamba
Esfrega só assim o corpo todo a xandala
E se tem farinha musseque tem ngonguenha
Espera-cunhado bem cozinhado na lenha
Caldo quente para tirar a pelenguenha
Fuxita traz nas costas sua moringa
Kandengue rebola bem na jinga

Várias almas, uma única força
A multidão envolvida na kabetula
As máscaras não escondem a sungura
Se tem kizomba, vem também ngana soba
Aqueçam os batuques no meio da madrugada
Preparem moringa que hoje tem massemba
O corpo se expressa e a dança comunica
Dancemos a rebita ao som do ng’oma
Ao ritmo lento do tambor a ússua
É o alembamento de Lemba


Anjo N’silu | Retratos


SOBRE O AUTOR

Filho de pai mukongo e mãe kamundongo, Anjo N’silu nasceu no município de Rangel, província de Luanda, se bem que o registo oficial mencione, como local de nascimento, o distrito de Ingombota. É um novo talento da literatura angolana, versado em poesia, prosa, crónica, conto, dramaturgia, abordando temas que traduzem a realidade sociocultural angolana e africana.
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segunda-feira, 12 de novembro de 2018

[Oficina literária 6] A TURMA DO ZÉ – crónica literária de Anjo N’silu


Há não muito tempo, num lugar não muito distante daqui, houve uma turma cheia de crianças insurrectas, obesas, de costas largas e gordas talvez; um professor muito sorridente, alto,manso magro, escuro, vagaroso, carismático, cara de pau, cabeça d'água, coração de pedra (que tanto bate até que educa), qual tripulante cego conduzindo seu barco ao iceberg: Zé Do Caraio!

– É malandro esse Zé Do Caraio. Tem mania de Hiena!

Segunda-feira, sala cheia e muita desordem nessa turma. Soava sempre muito barulho no norte, confusão no leste e muita desorganização no sul. No primeiro dia da semana, não sendo domingo, dois meninos vão ao quadro: um Paulo que soma, o mais gordo da turma, outro Paulo que explica, na aula de matemática financeira.

Como quem já entrou no reino dos céus e não mais precisa da comunhão com as outras ovelhas a caminho de lá, Augusto não se prende ao imperativo de estudar para ser alguém. Todo o mundo conhece o Augusto Sekele, o mimado. Gosta de fugar à escola e quando aparece mata as aulas, à sombra da mangueira, mas também é muito bom em matemática financeira.

Vai-se ouvir a voz do professor em voz não muito clara, suave, lenta e afinada, como o noivo que canta para a sua esposa na noite de núpcias. Um casamento desajustado entre um professor desregrado e seus alunos desmotivados. Sem abrir o livro de ponto vão-se ouvindo os nomes. É a hora da chamada.

– Fernando Elias Kimbiji?

– Presente!

– Fecha a boca e abre o coração! Vai para conta da tua mãe, levanta a massa e traz para mim uma cuca bem gelada! – Além de bêbado, é corrupto esse Zé Do Caraio. Mas que tipo de professor é esse que chama um aluno por dia?!

– Ana Kimbiambia, sempre atrasada! Não é por seres filha do director que não levas kandambala.

– Acalme-se, stor! Beba a sua cuca gelada e relaxe. E a turma sorria dando gargalhadas, e começava a barulhada, como sempre.

Isa Kimbokota tem mania de furtar os lápis alheios. Mas também, com um sobrenome desse não se espera algo não diferente disso. Na verdade, são todos salteadores, inclusive o próprio professor que deveria dar exemplo. Pudera! Kimbokota vendia petróleo na praça da Palanka, mas o seu negócio foi todo por água abaixo. Deveras!

Na terça-feira, duas horas antes da chegada do professor à sala, a aula fica por conta do delegado. João Do Lenço, um pouco mais sério que o próprio professor, mas não menos barulhento que seus colegas, consegue disciplinar um pouco essa gente tirando da turma fora quem muito fala e pouco acerta. Poucos na turma gostam do João. Nem mesmo seu colega irmão. Mas Do Lenço se assentava sobre o espírito da disciplina e da plena tranquilidade.

Se o véu se rasgar e Jerusalém abrir os portões, nenhum desses camelos passará pelo buraco da agulha; nem ajoelhados.

– Hoje é Sexta-feira, vamos todos cantar! – Fala só assim o Zé.

Escola, Escola!
Escola linda.
Até manhã, camarada professor!
Se o Zé quiser, amanhã viremos mais!

Anjo N’silu | Retratos

SOBRE O AUTOR

Filho de pai mukongo e mãe kamundongo, Anjo N’silu nasceu no município de Rangel, província de Luanda, se bem que o registo oficial mencione, como local de nascimento, o distrito de Ingombota. É um novo talento da literatura angolana, versado em poesia, prosa, crónica, conto, dramaturgia, abordando temas que traduzem a realidade sociocultural angolana e africana.
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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

[Oficina literária 3] O TEMPO ME DORMIU – poema de Anjo N’silu

O tempo me dormiu

O funji duro
A fúmbwa da tia Honorine
O bendito makayabu
Elengi eleki na munoko

Aquela antiga escola do bairro
A explicação que me deu a tabuada
As palmatórias de Sexta-feira
As mobílias e carros de barro

Os companheiros já falecidos
Os alembamentos de Nganji e Ngaxi
Aqueles kandengues já crescidos
O cozido deleitoso da tia Kituxi

O kalulú de rama e mutombo
Cozido com mwamba de dendê
E temperado com alho de kimbundu
O rio que nos deu de comer o cakusso
Saudades daquele Rio Dande

Dima, difubu, dihonjo
Os frutos da Funda Kilunda
Que a avó vendia no Roque Santeiro

As gajajas que tambulávamos de kaxexe
Na kinda da avó Kuambêsa Malundu
Os gafanhotos que caçávamos no Ngola Mbande
As lixeiras que vasculhamos no Mabululu
Monandenge, pange ia dilage

Hoje não temos mãos a medir
Mas nem sempre foi assim
O imperativo de crescer é ruim
Cresci, mas o tempo me dormiu


Anjo N’silu | Retratos

SOBRE O AUTOR

Filho de pai mukongo e mãe kamundongo, Anjo N’silu nasceu no município de Rangel, província de Luanda, se bem que o registo oficial mencione, como local de nascimento, o distrito de Ingombota. É um novo talento da literatura angolana, versado em poesia, prosa, crónica, conto, dramaturgia, abordando temas que traduzem a realidade sociocultural angolana e africana.
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A Voz do Olho Podcast, EP1, Temp 2

Gociante Patissa recita poema "Alugam-se velhos" na RTP África

A Voz do Olho Podcast

[áudio]: Académicos Gociante Patissa e Lubuatu discutem Literatura Oral na Rádio Cultura Angola 2022

Puxa Palavra com João Carrascoza e Gociante Patissa (escritores) Brasil e Angola

MAAN - Textualidades com o escritor angolano Gociante Patissa

Gociante Patissa improvisando "Tchiungue", de Joaquim Viola, clássico da língua umbundu

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

Com tecnologia do Blogger.

TV-ANGODEBATES (novidades 2022)

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