PONTOS DE VENDA

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PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

domingo, 31 de agosto de 2014

Diário| Nota positiva ao kudurista Karliteira

Sou dos que se não revêm no formato do programa "Ouvi Dizer", da rádio Luanda e retransmitido pelo canal 2 da televisão estatal. Mas, como não uso o serviço de TV por parabólicas, só tenho os dois canais da TPA. E calhou hoje ver uma parte do programa conduzido por Patrícia Faria. Em agenda para "profanação" esteve a vida do kudurista Karliteira (nunca tinha ouvido falar dele nem do tema "botão" que o coloca no centro de mais uma polémica, uma vez existirem, conforme fiquei a saber, pessoas que atribuem autoria do "sucesso" ao filho de outro kudurista, no caso o Tony Amado. Nem vale a pena ir muito por ali, porquanto a autenticidade incerta dos temas e tons e o elemento polémica, muitas vezes até boçal, costumam ser a essência da visibilidade no estilo em causa). A nota positiva da prestação de Karliteira, quando comparada com a de outros que passaram por aquela tribuna do apedrejamento verbal pela exposição da vida privada do convidado via facebook e SMS, recai para a forma de se exprimir, o que revela alguma competência académica, bem como o ar cordato com que minimizou qualquer tentação de enxovalhar colegas, com elogios que sugeriam ter sido ele, que só agora conquista algum público, o factor decisivo para o êxito de nomes muito populares do ku-duro, como Madruga Yoyo, por exemplo. "Eu apresentava um programa lá no bairro, e o Madruga aparecia para cantar. Aquilo deu um boom grande, o público recebeu bem, não posso dizer que fui eu", teria dito. Karliteira, pelo menos nos últimos dez minutos que vi, não cedeu a tal tentação, cuidando de reconhecer o valor aos outros. Nem sei se quero ouvir a sua música, mas para já não custa dar-lhe a nota positiva pela maturidade e humanidade com que se saiu. Houvesse mais como ele, o ku-duro elevar-se-ia cada vez mais!

Gociante Patissa, Benguela, 31 Agosto 2014

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Arquivo| O PORTUGUÊS TEM DE DIALOGAR! - A convite do Semanário Angolense, na pessoa do seu director, contribuí com um artigo na edição que assinala os 800 anos da língua portuguesa

O PORTUGUÊS TEM DE DIALOGAR

Falar do futuro do português, o considerado quinto idioma mais popular no mundo, é evidentemente um assunto vasto. Enquanto recolector de tradição oral, interessa-me olhar para a realidade angolana e abraçar a vertente sociolinguística, visto o valor da língua como património cultural imaterial. A propósito, há quem defenda a existência de um tal português angolano. Temos? Sobre isso continuaremos mais adiante.

Não havendo grandes estudos oficiais no que se refere a políticas linguísticas na Angola independente, a partir dos quais teríamos indicadores para avaliar eventuais êxitos ou desvios na sua aplicação, resta assumir que qualquer exercício de previsibilidade do uso do português é ainda mais complexo. E já sabemos que nem valem a pena incursões ao passado, conhecendo como conhecemos a história da chegada da língua, que era até há bem pouco menos de 40 anos instrumento de aniquilação identitária dos povos das então colónias portuguesas, a coberto de uma tal expansão da civilização europeia.

Adoptado o português como idioma oficial, que é inquestionavelmente a língua materna de milhares de angolanos, a questão passa a ser a forma como esta dialoga com os demais idiomas de matriz africana, entre Bantu e não Bantu, nomeadamente o cokwe, fiote, helelo, khoisan, kikongo, kimbundu, ngangela, nhaneka-nkumbi, umbundu, oxindonga, oxiwambo, e o vátwa. E se o leitor nos permite problematizar um pouco sob o axioma de que cada língua veicula uma cultura, a questão seria: que cultura veicula a língua portuguesa numa sociedade multi-étnica e linguística? Bem, é em nome da cultura, que é por vocação um fruto da partilha, que teremos de evitar radicalismos e complexos, sejam eles de inferioridade ou de superioridade, pois as sociedades são dinâmicas e o fenómeno linguístico é inerente à interação dos povos.

Quando falamos do diálogo que deve existir entre as línguas, é tendo precisamente em conta o cuidado necessário para que o status dado a uma língua, que geralmente corresponde a determinado grupo social, não represente a subjugação de outros. Em tempos, um notável intelectual desabafava pelo que interpretava como sendo um sinal da subalternização institucional das nossas línguas nacionais. Não lhe pareceria, pois, razoável a prática de haver sempre um tradutor para estrangeiros que falem à imprensa ou ao parlamento e, entretanto, quando chega a vez de anciãos e autoridades tradicionais, terem de o fazer num português em que por vezes mal se expressam e compreendem, com todo o desconforto que isso implica.

Como defendeu em 2003 a brasileira Eveli Sengafredo, na tese de pós-graduação em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, “a língua constitui-se das mesmas forças políticas, sociais e culturais que produziram as diversas civilizações e culturas do mundo. Ela ocupa uma crucial posição na interacção social, sendo um agente importantíssimo de transmissão de valores sociais e culturais”.

Já existe o português angolano? Há quem defenda que sim, mesmo até com base na linguagem literária que incorpora cada vez mais termos e expressões tipicamente do nosso linguajar, como por exemplo, “é maka grossa me apanhar a pata”. Mas isto basta para legitimar a existência de uma variante angolana? Como caracterizar a pronúncia padrão dos locutores noticiosos, o sotaque europeu? O certo é que o português angolano não existe, tão-só porque não se estabeleceu uma norma própria, oficial.

O futuro do português, quanto a mim, passa por assumir de maneira integradora o seu papel de língua oficial relativamente às outras de matriz africana. Impõe-se um rigoroso trabalho de estudos linguísticos e antropológicos, de modo a valorizar a correcta grafia da toponímia e a essência proverbial dos nomes africanos. Insistir-se na substituição forçosa do “K” pelo “C”, mesmo quando se trata de algo tão representativo como o rio Kwanza ou a província do Kwando-Kubango, pelo magro argumento das confusões por a língua oficial ser avessa às consoantes “K, W, Y”, tão comuns nas línguas Bantu, só vai atrair ainda mais recalcamentos. O português tem de dialogar!

Gociante Patissa, Luanda 25 Junho 2014 (licenciado em linguística, especialidade de inglês)

Assim não dá, professor

Soube agora da morte do meu professor de Ética Social, o padre João Kasanji Santos, do tempo em que andei no curso de Sociologia na Universidade Jean Piaget (que acabei desistindo). Consta que foi mais uma destas doenças quase súbitas mas letais. Foi com ele que aprendi coisas como a bioética entre outras. Assim não dá, professor! Morrer tão cedo, também, não!

E...

Agora o simples domínio da língua portuguesa passa a ser condição para se adquirir a nacionalidade angolana? Ainda não li a lei, nem estudei Direito, mas parece que assim fica cada vez mais difícil sermos "nós mesmos".

O Plágio (crónica de Charles Kiefer)

Ninguém nasce escritor, torna-se escritor. E, às vezes, plagiando outros escritores. Como eu mesmo faço, neste instante, com a frase aí acima, surrupiada de Simone de Beauvoir, que afirmava que ninguém nascia mulher, tornava-se mulher. Bem, mas a frase inicial de meu texto não é um plágio, ou é apenas um plágio parcial. A esses, chamamos de pastichos, releituras, paráfrases. E eles são muito bem-vindos na área da literatura. São até um índice de pós-modernidade.

E o plágio-plágio, o que seria? Aquilo que fez Paulo Coelho, denunciado por Moacy r Scliar? O mago publicou um conto de Franz Kafka como sendo dele, Coelho. Scliar não teve dúvida: publicou em fac-símile os dois textos, revelando a fraude. Ou o que fez Shakespeare, que escreveu apenas 1.899 versos dos 6.043 que são tidos como seus? Shakespeare não teve nenhum pudor em plagiar Robert Greene, Marlowe, Lodge, Peele, entre outros. E nem por isso o achincalhamos.

Certo, temos uma confortável explicação sociológica: ao tempo do Bardo, o plágio não era crime, pois não havia ainda a noção de propriedade intelectual, surgida com as leis de copyright. Plagiar, então, era uma homenagem, um gesto de gratidão. Significava: gostei tanto do que escreveste que o tomei para mim. Mas os tempos mudaram. Hoje, Shakespeare seria processado e certamente pagaria pesadas indenizações. Às vezes, apanho meus alunos de Escrita Criativa com a mão na massa. Aliás, com a mão no texto (alheio)! São jovens, estão açodados pelo excesso de atividades acadêmicas, vivem num mundo que lhes facilita o copy and paste. E supõem, ingenuamente, que eu não vá perceber. Aí, aproveito para lhes dar noções básicas sobre a Convenção de Genebra, a de Paris, a Lei Brasileira de Direito Autoral. Mostro-lhes o Código Penal, que tipifica o crime.

- Charles Kiefer.- Para ser Escritor, conforme publicado na página Facbook de O Cronista

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Crónica| JORNADA DE UM TURISTA À BAIXA DE LUANDA

O encontro com a solução está para 14 horas. Se em algo os dias de Luanda são iguais, é certamente no domínio dos transportes. De sorte que, à partida, convenhamos, nada há de potencialmente relevante a reter num percurso de táxi, os famosos quadradinhos.

É Maianga-Mutamba de cem a sair, mô papoite, três lugares! Uma vez dentro e desfeita a mentira dos vidros esfumados… Mô velho, você mesmo sabe que a gente depende de vocês, os nossos pax. Pois é, quem é que aceitaria ser o primeiro, com todo o tempo morto de espera que isso implica até lotar?!

E lá arranca da paragem aeroporto o carro lotado. Ao passar pelo Katambor, no banco de trás… Alô, kota! Já está na paragem? É nas bombas? Estou mesmo já a chegar, faz favor. Obrigado! Era quem? O kota que achou meu telefone, esqueci ontem no táxi. Ah, ele aceitou te devolver? Sim, é pastor, disse que a condição para me dar o fone é eu lhe pôr três mili kwanza. Ah, e pastor, para te devolver o que é teu, te cobra três paus? Ya, qual é a tua? Quer dizer, já como é pastor, ele não precisa dinheiro, não come?

Ainda a faltar uma hora e um quarto d’hora, fico aqui! É o meu desembarque. Propositadamente a meio quilómetro do destino por um par de razões, por um lado como forma de queimar tempo, por outro como bom pretexto para caminhar e, quem sabe, queimar algumas calorias, pronto. Toca a vaguear pela baixa da cidade.

Salta à vista uma concentração de espectadores em meia-lua. Executivos, farruscos e os nem uns nem outros, todos cativados. Esse banco é da fulana de tal, o fulano é que disse vamos meter mais dinheiro para não morrer, são tantos milhões de tal, e tal, e tal. Assuntos e apelidos descritos sem margem para deferências e adornos. Entre a plateia e o locutor, está um lençol de jornais, todos os semanários possíveis – como diria o outro – explicitados pelo ardina, qual tradutor a simplificar a distância entre a necessidade de o cidadão estar informado (quanto aos meandros da política, no seu prisma de gestão da coisa pública) e a preguiça de leitura que entre nós é, ainda, lamentavelmente, colossal.

E no semáforo da marginal, vejo passar sob custódia da Fiscalização, já sobre prontos-socorros e rumo ao parque das multas, duas viaturas que vi mal-estacionadas pelos lados do Prenda. Pronto, é prenda. Contemplo a baía, todavia sem apetite fotográfico. Céu por demais cinzento, e o cinzento contagia; nem as águas mais sabem ser azúis.

Falta um quarto de hora. Ponho-me a caminhar. Ao lado, um entusiasta de pouco menos de 30 anos, angolano, e outro, direi, ponderado, pouco menos de 50, português. E porque depois das sirenes, a cidade se veste de painéis publicitários e promessas de farra… O homem é um músico admirável, 20 anos de sucesso! Muito conhecido ele? Ya! Porque, tipo, há músicos com bwé d’anos de carreira, mas 20 anos a fazer sucesso?… Mas isso quer dizer que há uma máquina grande a injectar dinheiro! Será? Olha que o mundo do espectáculo tem muito trabalho que não se vê; sem uma estrutura, não se chega longe. Possas, mas eu até fico burro, 20 anos a fazer sucesso anualmente!!!

O censor da máquina fotográfica voltou mais novo. São agora 17h30, estou eu refastelado no hotel. Foi só mais um dia de Luanda, nada de extraordinário. Kandandus!

Gociante Patissa, 27 Agosto 2014

Conversa a alguns metros

"Lhe agarraram nas camisas a lhe sacudir! Você gosta muito de conquistar damas dos outros, né?! E o gajo, ah, não, não lhe conquistei; só lhe pedi um beijo."

domingo, 24 de agosto de 2014

Diário: "POKUPITINLÃ OCO OCILEMO CILEMA PO VALI"

"POKUPITINLÃ OCO OCILEMO CILEMA PO VALI" - (é quando estamos a chegar ao destino que o peso que transportamos parece mais pesado ainda)

Palavras de um proverbial Umbundu do meu pai, num distante dia em que carregávamos lado a lado (já não recordo bem com quem) uma grade de bebidas a pé, idos da praça da Kalumba. É a sensação que me atravessa, quando parece estar cada vez mais perto o salto a que me propus e conquistei (pela única forma que sei, juntando forças e ideias) no sentido de juntar prazer ao ganha-pão. Está-se próximo da meta, que parece cada vez mais distante.

antiga escola do 3º nível dos Bambus, Catumbela

Contemplação

Contemplei a equação da calema
um tanto brava
e ao mesmo tempo de toques ternos
afaguei as águas que no vai-e-vem
talvez química biologia – não sei
conservavam o eterno frio sob azul

Li em cada movimento um verso
descontraído ajoelhado
como se a rezar o terço
mas a vida não é como o mar
tem escala relógio e bumbar 
o dever não quis esperar
e tive de zarpar

Gociante Patissa, in «Consulado do Vazio», pág. 41, KAT Consultoria e Empreendimento, Benguela, Angola 2008

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Diário: SEGREDO DESFEITO (actualizado)

O conto MINHA MÃE É HORTELÃ, pág. 15, que abre o meu livro FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS, que vem a público no final deste ano, é uma ficção baseada numa trama real por mim testemunhada na adolescência. Só estes dois parágrafos são reais:

«O Sô Padre ainda não tinha percebido o que se passava na fazenda dele. Queria livrar depressa a cabeça do susto pelo boi que por pouco não morreu. O boi, também ainda ninguém sabia porquê, caíra para dentro da cacimba. A sorte é que esta estava seca. E o Sô Padre, que até era homem de muitas letras e de grossa inteligência, não conhecia a arte de socorrer um boi assustado. Então aprendeu o quê nas escolas, se na fazenda não rende nada, só dá ordens? Graças aos analfabetos que se safou. Nós, os piós, disparatávamos por dentro esses homens que não percebiam que criança gosta de carne. Que custava deixar o boi morrer?!

Mas isso tinha sido de manhã e o problema já estava resolvido. Até o tal boi já só coxeava bocadinho. O problema agora era o Kanjaya. Esse Kanjaya, eu até não sei quem lhe manda refilar muito quando não tem forças, acabou por levar uma boa tareia (…) Só que o Kanjaya também não se deixou ficar assim. Apanhado ali mesmo com as mangas na mão, Ndulu foi desafiado a comer cocó de boi. Acho que ia ser o primeiro na família, porque cocó de boi nunca foi coisa de ir à boca. Se era salgado, se era amargo, ou se mesmo cuiava, primo Ndulu ainda não sabia. Comer ele não queria, negar também não podia. Era só vexação mesmo o que o mafiador alugado pelo Kanjaya queria para se vingar. Dizia-se que ele podia matar e não saía nada. Que tinha breve. Que só um soco dele podia arrancar alguns dentes e deixar a boca como baliza de futebol.»

Como não podia tratar o personagem pelo nome real do primo, inventei “Ndulu”. O segredo agora já não faz sentido, pois o primo Raul Kafundanga, do bairro Nossa Senhora da Graça, em Benguela, partiu hoje, por doença. Vai amanhã a enterrar. Lala po ciwa, a upalume wange! (Dorme bem, ó primo meu!)

Gociante Patissa, Luanda 22 Agosto 2014

ORATURA: "Olohombo kepya/ kepya/ olomalanga vimbo/ Aci fu/ Aci mbê/ Avoyo/ twendainda ndeti"

"Olohombo kepya/ kepya/ olomalanga vimbo/ Aci fu/ Aci mbê/ Avoyo/ twendainda ndeti"

Este trecho do cancioneiro popular Umbundu é de uma dança folclórica em roda de mãos dadas, girando aos pulos num sentido, que logo é invertido mediante o sentido da canção, quando se disser "twendainda ndeti" (que significa: o normal é procedermos assim). Conforme explicado pelo Duo Canhoto, compilador da rapsódia intitulada "Omboyo", que ganhou maior visibilidade depois de a cantora Pérola lhe dar uma roupagem mais comercial, a essência da parábola resume-se no seguinte: 

Numa comunidade em guerra, os paradigmas funcionam de maneira inversa, ou seja, literalmente, os cabritos (animais domésticos) na lavra, as palancas (animais da selva) na aldeia. Trata-se, portanto, de mais uma manifestação dos nossos antepassados contra a desordem que é inerente a lutas e conflitos. 

Ovilamo! (Saudações!)
Gociante Patissa, Luanda 22 Agosto 2014

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Ocisungo - cântico

Ongeva onjivaluko (saudade é recordação)
omunu lokimbo lyaye (a cada um a sua terra)
nda likasi ocipãla (se está longe)
ojongole yokutyukila (o desejo é regressar)
eh mama we (oh mãe)

Zé Katchiungo, trecho do tema em Umbundu intitulado "Ngeve". Tradução nossa

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Vizinhança milimétrica

A baixa é na baixa (da cidade)

Contemporâneo

Potencialidades da Chicala

Citação

"Meu irmão, nesse mundo, cada um é importante, é se respeitar. O cabola também tem o seu valor. Você acha que o camarada presidente, quando chega a hora de cortar o cabelo, chama um ministro?!"

escritor Frederico Ningi e a apresentadora do programa Fairplay da TV Zimbo, Kénia Sandão

Foto: programa Fairplay da TV Zimbo, in Facebook

X-Ray (Radiografia)

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Diário: A ETIMOLOGIA DO COELHO

Somos três no Toyota quadradinho azul-e-branco mais alguns. Explico: Num transporte público, só contam aqueles que conhecemos. Os demais são passageiros, e ponto final. Final, nada!, que a história nem começou. Pronto, é mais um dia, igual aos outros, ou menos igual até, pela positiva, tendo em conta a dispensa no período da tarde. Festival de buzinas num lado, ultrapassagens nada aconselháveis noutro, autoritarismo do cobrador para a ensanduichada lotação, mais o polícia - umas vezes temido, já outras… Num liga só, isso mais é fome, pá; nem mi-li kwanza n’um conseguiu fazer ainda. Os que descem, sóbrios, outros que nem deviam subir, tão ébrios e tagarelas mais o hálito de chaminé de alambique. Multiperfil-Futungo-Benfica!!!, umas vezes de cem, outras de duzentos. O mesmo sonante pregão, o mesmo preçário, de quando em vez divergindo: Multiperfil-Kikagil-Benfica!!! Mais uma paragem no Rocha. Já agora, quem foi esse Rocha Pinto? N'um sei. E Kikagil? É um atrapalhado que vendia cabrité e bebida com ambiente de sentadas no fim-de-semana tão bem, agora entendeu retocar aquilo como restaurante, foi só perder 'mbora os "qui-li-ientes". P’ra quê só?! Depois entra uma senhora com bebé ao colo e menina que aparenta oito anos, trazidos à porta deslizante de Hiace pela avó dos menores. Fecha 'mbora o vidro por causa do vento na criança. Aqui atrás é um inferno, mãe, tem mais vento?! Menina tem que sentar na bochecha do guarda-lamas, saliente em meio-arco no interior, sim, porque n'um vai pagar. Mãe da menina vai à janela. Às tantas, um eufórico acenar pela janela para um carrito raquítico que faz ultrapassagem, dessas apressadas, para não sair do lugar, trânsito a passo de cágado com cólicas. Não cabe em si de contente a mãe, que procura partilhar imediatamente a emoção com a filha de oito anos, ocupante do guarda-lama. Viste o tio Beto? Se vi quem, mamã? O tio Beto. Não; está onde? No carro do tio Coelho. Ó mamã, mas por que é que o nome dele é Coelho? Será que salta? E a risada toma conta do carro, geral mesmo, vivendo a piada, menos eu, sempre distraído a comer Internet pelo telemóvel para minimizar o stress. Ah, vai a tempo de o colega me alertar e, porque também mereço, gozo, rebuscando a criançada da banda que costuma cantar coelho salta, coelho salta. Tem razão a menina. Por que é que o nome dele é Coelho? Será que salta?

Gociante Patissa, Luanda 4 Agosto 2014 (imagem de autor desconhecido)

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

PARTILHANDO LEITURAS: um bom exemplo de crónica com José António Barreiros

E, enfim, vou à praia! Sei que, tendo uma saúde de ferro, há o risco de, com a água, enferrujar! E há a areia que se mete entre os dedos dos pés e todos os interstícios, as sinistras criancinhas e seus pais jogadores de bola e outros objectos voadores não identificados, o dardejante Sol que me frita os miolos, a possibilidade de haver vento e com ele frio, ou calmaria e com isso suor.

E as bolas de Berlim mais os gelados açucarados que não posso comer, os livros que, ao ler, ficam com as folhas encarquilhadas e amarelecidas, se não untados com o escorrente creme solar, os jornais que esvoacejam como aves tontas quando abertos e trazem notícias do horror. Além disso, a minha alvura que dá em timidez

Há, eu sei, tudo isso. Mas, para além de tudo quanto é isto, há a infinita alegria de viver, de enfrentar a Natureza e suas criaturas, o mar de sereias e cetáceos, Mobby Dick em viagem, Pinóquio devorado mais o grilo da sua consciência, a dos deveres, agora em suspensão. Vou à praia!
José António Barreiros (de Portugal, in Facebook, 04/08/14)

Leia a crónica no JORNAL CULTURA, pág. 15, edição de 4 a 17 de Agosto: Imortal como um pincel... UM ANO SEM DÉLIO BATISTA

Quando já não tivermos o fulgor do pintor, nada estará perdido enquanto restar a plasticidade… do pincel. O contrário é chorar por algo que nunca foi nosso - a vida - não celebrando, por involuntária justiça que seja, o que de tangível possuímos - a obra.

No mês em que se assinala um ano desde que o pintor Délio Batista faleceu, volto a partilhar a relevância que ele teve na minha trajectória. Quando em 2008 precisei, por recomendação da editora, de um quadro para capa do «Consulado do Vazio», o livro de poemas com que me estreei, e após fracasso com outros artistas, Cláudio Silva “Pepino” apresentou-me a Délio Batista, um artista plástico de curriculum vastíssimo. Eram nove e tal da manhã. E por volta das 11h00, o kota Délio já me havia cedido «De Pernas Cruzadas», com que me enamorei dentre o seu acervo. Tudo a custo zero.

Passei a tratá-lo por tio Délio a partir dali, de tal sorte que o tive como um padrinho, carinho que de resto era retribuído. Tive o privilégio de ser a pessoa que mais o fotografou nos últimos anos de sua passagem pelo mundo, quase sempre com a finalidade de elaborar folhetos para exposições em perspectiva.

Junto ao meu o testemunho do veterano jornalista da RNA, Lilas Orlov. «O Primo Délio Batista é uma acácia de ouro que não tombou. Não tombou porque a sua mestria na arte das cores continua viva nas telas, nas pinceladas de amor e de protesto. Em casas e escritórios desta Angola ainda observamos com carinho, retratos das crianças carentes, dos deslocados de guerra, da mulher privada do verdadeiro amor, das lágrimas choradas que fizeram dele o “nosso Picasso”. Tinha uma devoção pela solidariedade e a defesa dos mais fracos para quem sempre irradiava aquele simpático sorriso de “primo”. Eternizou o seu pincel ao documentar com a sua arte livros de escritores como Raúl David, Nuno de Menezes, Carlos Gouveia “Goia”, José Guerreiro, entre outros».

Não deixando de ser actuais, vêm a propósito os dizeres do Coordenador e co-fundador do Núcleo de Jovens Pintores de Benguela e membro da União Nacional dos Artistas Plásticos (UNAP) José António Júnior “Ducho”, para quem a morte de Délio representa uma grande perda, porque «além de ser um grande mestre, era também um grande conselheiro, estava sempre disponível a dar o seu contributo para o desenvolvimento das artes. Délio foi isso! Não podemos esquecer que ele foi o primeiro representante da UNAP em Benguela».

Sem pretensões biográficas como é o género crónica, vale realçar apenas que Délio Baptista, que Luanda viu nascer em Setembro de 1947, teve em Benguela seu berço adoptivo, onde viria a falecer por prolongada doença a 19 de Julho de 2013. Teve mão numa interminável lista de exposições, muitas das quais associadas aos apelos ao fim da guerra e conquista da paz e estabilidade, exerceu jornalismo na Angop, rádio e no Jornal de Angola, além de proeminente figura da UNAP.

Entre milhares de dialécticas razões pelas quais nos podemos lembrar da passagem de alguém pela Terra, eu retenho o seu monumental exemplo de solidariedade artística. Délio está entre nós, presença tão certa como a imortalidade da sua pintura.

Gociante Patissa, Luanda 29 Julho 2014

domingo, 3 de agosto de 2014

Citação

"Existe uma música com qualidade e que está fora do sucesso comercial. Essa é que tem de ser defendida pelo Estado e pelo mecenato, o chamado afrojazz, porque anda num gueto, está circunscrito, preso, recluso e não consegue sair." (Jomo Fortunato, in «Rede Angola», portal. 28.07.2014

Crónica: Nota positiva para o show do mês com Robertinho (2/8/14)

São 19h45 quando a boleia chega à porta do Hotel. O destino é pertinho, cinco quilómetros talvez. O evento inicia às 21h00. A antecedência seria, em termos aritméticos, tempo excessivo, mas… isto é Luanda. A margem de erro para qualquer prognóstico de chegada atinge os 90%, tal é o engarrafamento. Mais cedo, melhor.

Embarco no Jeep do amigo Lauriano Tchoia, que fez questão de me pagar o ingresso. “Mano, a cultura merece todo o nosso apoio”, sublinha ele, ladeado pela esposa. No rádio, o som de Teta Lando. Evidente é a minha ansiedade. Seria o meu primeiro “Show do Mês”, iniciativa do projecto “Nova Energia”, que tem no polivalente Yuri Simão um peixe na água do espaço mediático, uma vez profissional de comunicação e agente Fifa.

Já são 20h20. Tudo a correr bem. Até espaço para estacionar ainda fomos a tempo de achar. Estamos numa das unidades hoteleiras de Talatona, distinta zona residencial e comercial de ocupantes com grande capital na capital. Vamos a meia hora de ver ao vivo e com suporte da Banda Maravilha o Robertinho (Fernandes Lucas da Silva, Malange, 1958), proeminente voz da música angolana nos anos 80 e 90 do século 20. Artista convidado é tão-só Jacinto Tchipa, carismática voz militar do mesmo período.

“Pode olhar no seu relógio, são 21h00.”, ouve-se uma voz incógnita, algo radiofónica, a confirmar a pontualidade que só prestigia ainda mais a organização. Isso, se tivermos em conta que eventos do género – e até outros de natureza oficial, académica e/ou cívica – costumam começar com “ligeiros atrasos”, às vezes, superiores a duas horas.

Abrem-se as cortinas. Entra o grande Robertinho em muito boa forma e sóbria interacção com o público, longe daquele humor rasca e mecânico de jovens estrelas do semba. Ao terceiro número, “uma homenagem a Zécax, meu amigo”, até porque “amanhã é fim-de-semana”. Pouco depois, embarca a plateia numa viagem a Cuba. Outra homenagem a uma voz amiga que já não está em vida. Para grandes missões, grandes comandantes. É o que demonstra a corista residente, cubana de nacionalidade.

A entrega do público é impecável, auditório quase lotado, acústica muito boa, entrosamento da banda uma “maravilha”. De repente, há um movimento misterioso. Robertinho, que ainda a meio do show teria razões para estar inebriado, abandona o palco, sem se despedir. A banda permanece. Corta-se o som. Começa o solo. A plateia rasga-se em palmas. “Cartinha de Saudades” traz Jacinto Tchipa, verdadeiro hino, um clássico indissociável da nossa história, feliz elaboração estética sobre a mobilização para a defesa da pátria. A balada chega ao fim, fim este que a plateia não aceita. Bis!


Segue-se “Maié, maié”, já mais ritmado. Antes, Tchipa, Vencedor do Top dos Mais Queridos duas vezes consecutivas (1986/87), hoje entre os excluídos da miopia da ribalta, deixa apelo por mais oportunidades: “Eu sou o músico convidado do Robertinho; também espero um dia estar com vocês.” São 22h00. Tchipa despede-se, sala ainda ao rubro, pedido entretanto indeferido pelo anfitrião, que impõe um bis. A banda acata. Agora é Tchipa e Robertinho dividindo as palmas. Às 22h30 fecham-se as cortinas que viram desfilar “Kiowa”, “Problemas”, “Joana Mu Kua Di Fuba”, “Ka Kinhento”, “Desespero”, para só citar estes temas. Foi um grande show e recomenda-se!

Gociante Patissa, Luanda 2 Agosto 2014