PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Diário: A ETIMOLOGIA DO COELHO

Somos três no Toyota quadradinho azul-e-branco mais alguns. Explico: Num transporte público, só contam aqueles que conhecemos. Os demais são passageiros, e ponto final. Final, nada!, que a história nem começou. Pronto, é mais um dia, igual aos outros, ou menos igual até, pela positiva, tendo em conta a dispensa no período da tarde. Festival de buzinas num lado, ultrapassagens nada aconselháveis noutro, autoritarismo do cobrador para a ensanduichada lotação, mais o polícia - umas vezes temido, já outras… Num liga só, isso mais é fome, pá; nem mi-li kwanza n’um conseguiu fazer ainda. Os que descem, sóbrios, outros que nem deviam subir, tão ébrios e tagarelas mais o hálito de chaminé de alambique. Multiperfil-Futungo-Benfica!!!, umas vezes de cem, outras de duzentos. O mesmo sonante pregão, o mesmo preçário, de quando em vez divergindo: Multiperfil-Kikagil-Benfica!!! Mais uma paragem no Rocha. Já agora, quem foi esse Rocha Pinto? N'um sei. E Kikagil? É um atrapalhado que vendia cabrité e bebida com ambiente de sentadas no fim-de-semana tão bem, agora entendeu retocar aquilo como restaurante, foi só perder 'mbora os "qui-li-ientes". P’ra quê só?! Depois entra uma senhora com bebé ao colo e menina que aparenta oito anos, trazidos à porta deslizante de Hiace pela avó dos menores. Fecha 'mbora o vidro por causa do vento na criança. Aqui atrás é um inferno, mãe, tem mais vento?! Menina tem que sentar na bochecha do guarda-lamas, saliente em meio-arco no interior, sim, porque n'um vai pagar. Mãe da menina vai à janela. Às tantas, um eufórico acenar pela janela para um carrito raquítico que faz ultrapassagem, dessas apressadas, para não sair do lugar, trânsito a passo de cágado com cólicas. Não cabe em si de contente a mãe, que procura partilhar imediatamente a emoção com a filha de oito anos, ocupante do guarda-lama. Viste o tio Beto? Se vi quem, mamã? O tio Beto. Não; está onde? No carro do tio Coelho. Ó mamã, mas por que é que o nome dele é Coelho? Será que salta? E a risada toma conta do carro, geral mesmo, vivendo a piada, menos eu, sempre distraído a comer Internet pelo telemóvel para minimizar o stress. Ah, vai a tempo de o colega me alertar e, porque também mereço, gozo, rebuscando a criançada da banda que costuma cantar coelho salta, coelho salta. Tem razão a menina. Por que é que o nome dele é Coelho? Será que salta?

Gociante Patissa, Luanda 4 Agosto 2014 (imagem de autor desconhecido)

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