O sonho da casa própria atingia proporções de febre por Benguela a partir de 2010, antes de
ser freado com a abundância do projecto social das centralidades. A sociedade superava o complexo em relação à periferia, fazendo com que famílias preferissem morar literalmente em garagens, na parte urbana herdada do colono, a ter de o fazer num T3 mais espaçoso, porém para lá do asfalto. No calor da onda adquiri um terreno no 11 de Novembro, bairro árido equivalente a uma embaixada do Sumbe (de até há dois anos, se é que me faço entender). Bloco atrás de bloco, lá a obra foi ganhando forma e personalidade. Sentido e beleza. Casa própria, design moderno, material de qualidade, só a zona destoava. No fundo a velha sensação. Não é bem o que sonhamos, é o que se conseguia arranjar. As paredes, a muda que aos poucos dava voz à arborização, os acabamentos, cada detalhe a contar uma história de vida. Ao fim de três anos no projecto que passou de obra a residência comigo já lá a morar, a vida, dinâmica como é, ditava outro rumo. Havia que ceder a um inquilino. Uma nova etapa, uma nova forma de ver e viver a casa. Até que certo dia, passados largos meses sem visitar o espaço, mesmo já para permitir o à vontade ao inquilino, os meus olhos não acreditavam no que viam! O inquilino tomara a liberdade de matar a árvore, ceifando o ninho de amores apócrifos da comunidade junto ao portão. Depois de lhe serrar os galhos barrou as feridas com calda de cimento, mais outros químicos mesmo na raíz da minha frondosa, agora reduzida a um tronco seco. Porque as folhas faziam lixo, dizia-se. Nem uma palavra com quem tão carinhosamente a plantara e cuidara, o meu cunhado. Ainda hoje sangra em mim aquela árvore. Do mesmo jeito que sangram as casuarinas que não mais poesia inspiram na tão cantada e versejada Praia Morena. Não sobra uma para contar história. Tomou-lhes o lugar um punhado de palmeiras sem passado. A velhota Morena foi um dia deitar-se e despertou estrondosamente linda, rejuvenescida, escaldante, porém sem as marcas da idade. Já não é poltrona, é só lugar de se ver, olhar e seguir. O sol ralha, paixões não poisam. O que me darão as esbeltas das palmeiras quando bater sede daquele beijo adolescente e travesso que só o atrás da árvore conhece, sob o silêncio sábio do Sombreiro? O progresso nega vez às casuarinas porque sujavam, porque albergavam garças da caca branca, não tolera natureza sendo natureza? E lavar a loiça, não é porque porque houve vida?
ser freado com a abundância do projecto social das centralidades. A sociedade superava o complexo em relação à periferia, fazendo com que famílias preferissem morar literalmente em garagens, na parte urbana herdada do colono, a ter de o fazer num T3 mais espaçoso, porém para lá do asfalto. No calor da onda adquiri um terreno no 11 de Novembro, bairro árido equivalente a uma embaixada do Sumbe (de até há dois anos, se é que me faço entender). Bloco atrás de bloco, lá a obra foi ganhando forma e personalidade. Sentido e beleza. Casa própria, design moderno, material de qualidade, só a zona destoava. No fundo a velha sensação. Não é bem o que sonhamos, é o que se conseguia arranjar. As paredes, a muda que aos poucos dava voz à arborização, os acabamentos, cada detalhe a contar uma história de vida. Ao fim de três anos no projecto que passou de obra a residência comigo já lá a morar, a vida, dinâmica como é, ditava outro rumo. Havia que ceder a um inquilino. Uma nova etapa, uma nova forma de ver e viver a casa. Até que certo dia, passados largos meses sem visitar o espaço, mesmo já para permitir o à vontade ao inquilino, os meus olhos não acreditavam no que viam! O inquilino tomara a liberdade de matar a árvore, ceifando o ninho de amores apócrifos da comunidade junto ao portão. Depois de lhe serrar os galhos barrou as feridas com calda de cimento, mais outros químicos mesmo na raíz da minha frondosa, agora reduzida a um tronco seco. Porque as folhas faziam lixo, dizia-se. Nem uma palavra com quem tão carinhosamente a plantara e cuidara, o meu cunhado. Ainda hoje sangra em mim aquela árvore. Do mesmo jeito que sangram as casuarinas que não mais poesia inspiram na tão cantada e versejada Praia Morena. Não sobra uma para contar história. Tomou-lhes o lugar um punhado de palmeiras sem passado. A velhota Morena foi um dia deitar-se e despertou estrondosamente linda, rejuvenescida, escaldante, porém sem as marcas da idade. Já não é poltrona, é só lugar de se ver, olhar e seguir. O sol ralha, paixões não poisam. O que me darão as esbeltas das palmeiras quando bater sede daquele beijo adolescente e travesso que só o atrás da árvore conhece, sob o silêncio sábio do Sombreiro? O progresso nega vez às casuarinas porque sujavam, porque albergavam garças da caca branca, não tolera natureza sendo natureza? E lavar a loiça, não é porque porque houve vida?






0 Deixe o seu comentário:
Enviar um comentário