sábado, 17 de janeiro de 2026

Crónica | ANGOLA E A TOPONÍMIA DESAJUSTADA À IDADE DA SENSATEZ

O colchão é das coisas que mais duram na dura vida de um luandense, já que não sabe dormir. Tão poucas horas na cama. O resto do tempo é madrugado no transporte para o trabalho (inclui negociatas) ou buzinado, com insultos à mistura, no trânsito. No fim do dia, porque ninguém é de ferro, inventam-se motivos para empurrar uns copos e dançar.

Esta semana tive de encarnar o luandense e sair da cama às seis da manhã para conhecer o novo Aeroporto Internacional António Agostinho Neto. Também sei madrugar. Não é que goste. Como o meu guia vive no Kilamba, 35 km da Baixa, chamei o táxi por aplicativo a 13 mil Kwanzas. Luanda é tão dispersiva na sua geografia e burocracia que a gente se desdobra em verdadeiras viagens intestinais, até para carimbar um documento.

 

No canteiro relvado do quarteirão saltou à vista a sequência de placas de sinaléctica de estacionamento. Reagi com breve risada ao anedótico. Sobre a mesma figura histórica lia-se nas placas “Nimi-a-Lukeni, Nimi-a-Likene, Nini a Lukini e Nimi a Likena”. Mas logo pensei. Queres ver? Há cá fenómenos de simbolismo, justo no mês da Cultura Nacional. De resto, a Lei de Bases N.º 14/16, aprovada há 20 anos no Parlamento quando Nandó o presidia, define Toponímia como o estudo histórico e linguístico da origem e evolução dos nomes próprios dos lugares ou a designação das localidades pelos seus nomes.

 

Naquele jardim e estacionamento dá-se o embarque diário de crianças para a escola. A sua primeira leitura do dia mora naquelas placas negligenciadas. Imagine-se que o professor pergunte a cinco alunos em coro o nome do quarteirão. Babel total. Por outra, Kilamba (do Kimbundu, líder), principal urbanização social erguida no programa de reconstrução nacional iniciado em 2004, dá nome ao presidente fundador Agostinho Neto.

 

Constam entre as funções da Toponímia, conforme a Lei de Bases e o Decreto Presidencial N.º 163/19, que o regulamenta, “manter vivos e perpetuar aspectos culturais de honorabilidade; (...) perpetuar nomes de personalidades nacionais e estrangeiras”. E mais diz a lei: “Os topónimos são escritos em língua portuguesa, seguindo a grafia latina; nas demais línguas de Angola, são escritos em conformidade com as regras de grafia da língua correspondente, devendo ser certificados pelo Instituto de Línguas Nacionais”.

 

O flagrante da sinalética espelha bem a desarmonia institucional da Toponímia, num país que seguindo o ciclo de vida humana completou 50 anos, a idade da sensatez, de exercer o ouvir com ouvidos, dar valor a aspectos que em idade de sangue a ferver não puderam caber no balaio das prioridades. Tudo desemboca no investimento que tarda em relação à diversidade das línguas nacionais. Nos aspectos linguísticos reside a alma do povo.

 

Quem vem a ser Nimi-a-Lukeni ou Lukeni-Lua-Nimi? A generalidade das fontes consultadas indica que foi filho de Nimi-a-Nzima e de Lukeni-lua-Nsanse, viveu entre 1380 e 1420. O Ntotila fundou no século XV o Reino do Kongo, unificando tribos na África Central, tendo Mbanza-a-Kongo como capital de seis províncias: Mbamba, Mbata, Mpemba, Mpangu, Nsundi e Soyo. Suas ossadas repousam no monumento Kulumbimbi.

 

Resta-nos terminar esta crónica respigando um dos valores do Hino Nacional, “honramos o passado e a nossa história”. Venham a nós políticas culturais que dediquem à etnolinguística a experiência aplicada em promover a dimensão performativa das artes e resultou internacionalizando a expressão do Carnaval, Semba, Kizomba e do Cuduro.


Gociante Patissa | L. 17 Janeiro 2026 | www.angodebates.blogspot.com


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