Adianta alguma coisa fazer planos, investir em sonhos, apostar na formação e no autoconhecimento, fazer
poupanças para o nosso conforto junto dos mais chegados, crer em causas, sonhar com um mundo melhor? Por acaso adianta isso se, assim num piscar de olhos, o sopro da vida nos prega partidas, tudo se esfarela, nada os médicos podem, tampouco as preces ao alto, e de nós já só resta aquilo que um dia fomos em vida?!
Psicólogos há muitos; Nvunda há só um. Herdeiros de projectos jornalísticos com generosidade e sentido desinteressado de promover a arte, a cultura e a substância há muitos, talvez aos montes; Nvunda há só um. A literatura teve em ti um padrinho nas páginas do Folha 8, vibraste com cada conquista dos outros, cada livro lançado.
Obrigado, companheiro Nvunda Tonet, por todo o contributo que dedicaste ao universo das ideias, ao pensamento crítico, ao desenvolvimento da ciência e da prática da Psicologia no teu País, no meu País, no País de todos nós. O País que, como várias vezes convergimos, não está ainda no nível que desejamos, aos olhos de utópicos como nós os da geração intermédia. Geração dos 40 e tais, hoje, aquela que aprendeu a honrar o sacrifício dos libertadores e herdou na corrente sanguínea o dever de não se conformar com a pobreza social dos nossos concidadãos nos seus mais variados sentidos.
Eis-me neste exercício ingrato de sangrar pelos dedos o golpe da notícia, das piores que se podem receber ao cair da tarde, distante da nossa terra. Mano Nvunda Tonet faleceu esta tarde, foi coisa de poucas horas, em Luanda. Quisera eu ter um telemóvel capaz de adivinhar o conteúdo que motivou a ligação e assim, por instantes, alimentar a ilusão de não atender a chamada. Porque quem não conhece não entristece. Mas a verdade, ácida verdade da tua partida perpassa, porque tal era a altura da tua dimensão, do teu sorriso genuíno, do teu ar cordato que não teria como não abalar meio País.
Foste mau, mano Nvunda, como são todas as boas pessoas que partem e nos deixam a fazer contas à vida, impotentes e esvaziados no espírito, nesse universo incerto, tão insensível e carente de gente como tu a fazer pontes. Psicólogos porquê e para quê? Agora perguntamos nós! Perguntamos nós rendidos à inútil esperança de acalentar os teus descendentes, as pessoas que te amam e amaste, a sociedade intelectual que deixas órfã. Ascende em paz, companheiro Nvunda Tonet.
Gociante Patissa | Lisboa 20 Janeiro 2026 | www.angodebates.blogspot.com
Imagem: Livraria Lello







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