PONTOS DE VENDA

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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Diário | Foi apanhada a bruxar?

(I)
"Excelência Camarada Comissária! Quero expressar elevada gratidão pela vossa calorosa saudação, independente de já saber que não venho por bons motivos…”
“Nada a gradecer, camarada. Saudações patrióticas e revolucionárias sempre!”
“Muito bem. Vamos cortar mato. Eu me chamo Romão Pedradura Óscar. Camarada Pedradura, para mim, é suficiente! Estamos em guerra, e a camarada já sabe…”
“Sim, sim. Tácticas de baixa visibilidade…”
“Exacto, camuflagem em tudo. Como já disse, sou o camarada Pedradura, enviado do Adjunto Instrutor do Contencioso Administrativo. Venho da província. Continuando, chegou-nos o incidente que envolve a Camarada Comissária Comunal. Muito grave! Já falamos com os nossos camaradas da informação para não sair público o assunto. Assim venho compulsar a gravidade da infracção cometida e os efeitos colaterais da mesma.”
“Mas…”
“Se não se importa, chefe, gostaria que não me interrompesse…”
“As minhas desculpas, camarada.”
“A camarada sabe, do ponto de vista da palavra de ordem e programa director nacional,  portanto domina que 1987 é o ano do Saneamento Económico e Financeiro (SEF), certo?”
“Sim, sim, camarada Pedradura.”
“A camarada sabe que isto significa valorizar os quadros a quem a Nação confiou a máquina da produção e distribuição junto do nosso povo, certo?”
“Sim, camarada Pedradura…”
“Mas então, onde é que esteve a disciplina quando praticou a gravosa infracção? Posso colocar na sindicância que a camarada está arrependida?”
“Não! Arrependida, não.”
“Não?! Será que ouvi bem? A camarada quer mesmo que eu transmita à instância superior que não se arrepende de agredir o homem da Empa, a loja do povo?”
“Camarada, ponha no relatório que o homem do comércio levou duas bofetadas minhas mais um soco do nariz, por bater uma viúva. E em mulher, reafirmo, não se bate.Violência, na minha comuna, não!”
“Mas ele nunca foi desta conduta. Fez mesmo isso? Posso-lhe chamar?”

(II)
“Camarada Delfim, como vai?”
“Mais ou menos, chefe. A vista ainda está vermelha e o nariz dói com soco da chefe.”
“Olha, por acaso a agressora diz…”
“Desculpa, camarada Pedradura, com todo o respeito, ‘agressora’, não!"
“Pronto. Disse a camarada Comissária que teve essa atitude de te dar surra, ainda por cima aos olhos de todo o povo, porque o amigo Delfim agrediu uma mulher.”
“Bem, chefe, vai-me desculpar, mas é verdade.”
“A mulher que o camarada Delfim agrediu tentou roubar víveres?”
“Não, chefe… Não, chefe…”
“Desrespeitou a bicha? Disse alguma palavra reacionária contra o governo, os heróis ou as causas da nossa luta? Era infiltrada e/ou colaboradora do nosso inimigo?”
“Não, chefe… Não, chefe…”
“Foi apanhada a bruxar?”
“Não, chefe… Não, chefe…”
“Mas, ó caramba!, afinal que mal fez a mulher para lhe partires a bacia com surra?”
“Me falou ‘quero ser tua mulher; me namora’. Ó chefe, uma mulher é que vai me conquistar?!”
Gociante Patissa (adaptação) Benguela, 21 Setembro 2016
www.angodebates.blogspot.com

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