Entrevistas com as académicas Inocência Mata (São Tomé e Príncipe) e Inês Machungo (Moçambique) no âmbito do Simpósio Mundial de Estudos da Língua Portuguesa.
sexta-feira, 29 de abril de 2016
Um recado para o nosso Ministério da Cultura e os estrategas de conteúdos na comunicação social, esperando sempre que sobre algum tempo na agenda da promoção do ku-duro, kizomba, misses, igrejas e carnaval
Entrevistas com as académicas Inocência Mata (São Tomé e Príncipe) e Inês Machungo (Moçambique) no âmbito do Simpósio Mundial de Estudos da Língua Portuguesa.
Citação
“Eu tenho uma tese e uma conduta como escritor. Eu defendo que o
escritor deve ter a liberdade de escrever sobre tudo o que quiser e
da maneira que entender. Não sou fundamentalista, nem num sentido nem noutro. Portanto
eu não entendo porque é que muitas pessoas têem preconceitos, porque são preconceitos
mesmo, em relação à poesia social e à poesia política. Do mesmo modo que não
entendo porque é que outras pessoas têem preconceito em relação à poesia mais
experimental, mais formalista, às correntes mais ou menos herméticas. A QUESTÃO
QUE SE PÕE É SE OS ESTILOS SÃO LITERARIAMENTE BEM CONSEGUIDOS OU NÃO. De resto,
o autor, consoante a sua maneira de ver as coisas, o seu estilo de vida, a sua
opção, a sua sensibilidade, o seu estado de espírito, de acordo com a
conjuntura em que vive, pode num dado momento escrever textos de um tipo e
textos de outro tipo.”
(João Melo, escritor, jornalista, docente e político angolano. In "Pessoas Com Quem Falar", 2006, p. 149. União dos Escritores Angolanos)
Citação
“Qual é a rapariga que não escreveu poesia sobre as suas paixões? Ou quando
está muito triste por qualquer motivo? Claro que já escrevi poesia, mas deitei
fora. Tenho noção da mediocridade – o
que muita gente não tem, acho… Poesia não é expressão de sentimentos: para além
do génio, há o trabalho artístico, que a teoria literária não ensina. Se assim
fosse, todos os professores de literatura seriam óptimos escritores.”
(Inocência Mata, académica e ensaísta santomense. In "Pessoas Com Quem Falar", 2006, p. 137. União dos Escritores Angolanos)
Crónica | Milionários também, modéstia à parte
Certa vez, no uso da palavra, determinado líder
partidário na oposição discorria a sua prelecção sobre as falhas da governação
no seu país. Do amontoado que é a prolixidade congénita em um discurso
político-partidário, destaco por ora o parecer negativo do orador no que
concerne à equidade e por aí vai.
Tomada a palavra, um eminente opositor à oposição nestas
andanças chamou a atenção para a necessidade de um diagnóstico razoável e quê e
tal. E não se achando suficientemente esgrimista, mas sem dispensar a elevação
a si também costumeira, teria acrescentado à guisa de réplica o que reproduzo a
seguir, exercício para o qual convoco a margem de erro de quem cita de memória
e a soberana subjectividade de um cronista:
"Excelência, a própria
vida é injusta; repare como está montado o cenário desta nossa conferência:
Vossa excelência está protegido pela sombra e em assento confortável, enquanto
nós estamos ao sol. Vossa excelência não pediu isso, pelo que eu saiba, é o
tratamento que a organização julga merecerem os convidados do vosso ilustre
nível."
quinta-feira, 28 de abril de 2016
Divulgando | Livro «Meu Irmão, Meu Amigo», da autoria do brasileiro Francisco Paiva Carvalho está disponível para download no formado e-book
Dois irmãos.
Dois grandes amigos. José Maria e Joaquim têm uma ligação muito forte de amor,
admiração e cuidado um com o outro. Dois irmãos inseparáveis, que não deixariam
de estar lado a lado nem mesmo se o acaso ou o destino tentassem impor o seu
afastamento. Uma semana antes das férias escolares de julho, devido a um
trágico acidente, eles são obrigados a se separar para sempre. Mas José Maria
acaba criando uma estratégia e, assim, consegue preservar o irmão do sofrimento
incontido que parecia inevitável. Clicar aqui para aceder ao formato e-book
Humor | "u-b-U", a fórmula da victória de um capitão recém-promovido
Foi
contado por Alberto Mukanda, da Associação dos Técnicos Médios de Saúde,
durante um workshop há mais de dez anos, quando andávamos na sociedade civil,
qual pilares de ONG nacionais que tínhamos fundado e em vias de consolidação.
Pois cá vai:
Promovido
certo capitão a comandante do seu quartel, vinha com isso o dever de proferir
umas palavras lá da tribuna para os soldados. A expectativa era grande, sobretudo para ouvir o anúncio das linhas de força, iletrado
que era o novo chefe:
- Compatriotas, quero aqui saudar a parada e
anunciar que as coisas têm que mudar. A regra é "u-b-U".
A
parada foi apanhada desprevenida, a sigla era de todo desconhecida. De facto,
sempre se pode aprender com iletrados. Mas "u-b-U"? Será algo que se
coma?, você eventualmente se questionaria.
-
Pois - diria ele - "u-b-U"... Quer dizer, "us piquenu bedece Us
grandi".
quarta-feira, 27 de abril de 2016
terça-feira, 26 de abril de 2016
Trecho | África na literatura - romantismo?
"Falar de África nos termos do pessimismo de romancistas africanos, ou
da literatura de viagem, é algo que poucos escritores angolanos tenham feito. O
que é compreensível se concordarmos que um dos mais preocupantes traços da
literatura angolana é o seu total desfasamento da realidade social. Há muito
poucos escritores que conseguem compreender esta sociedade com a acuidade e a
profundidade dos nossos letristas de kuduro e rap, por exemplo. A única excepção,
que eu saiba, é Albino Carlos, no seu romance de estreia, Olhar de Lua Cheia.
Raramente li descrições tão cruas e reais sobre a vida dos musseques. Luandino
Vieira criou o seu estilo de falar dos musseques, muito romantizado, como se o
seu grande desafio fosse apenas escrever poeticamente sobre estes espaços.
Existe muito pouco espaço para romantismo nos musseques de Albino Carlos, no
pós-independência, durante os piores anos do país – culpa também da longa
guerra civil. No musseque, escuro e lúgubre, as pessoas matam-se por muito
pouco, prostituem-se para alimentar os filhos, e sempre a gravidez precoce a
mostrar às adolescentes a ilusão que é a luta por uma vida diferente da que
tiveram os seus pais. Tudo cheira a álcool, vidas destruídas e lares
desfeitos."
(António Tomás, in portal «Buala», 26 Novembro 2012. Disponível na
Internet)
Um elogio ao Jornal Cultura pelo título
Longe
de querer qualquer polémica, também entendo que o valioso contributo que o
ilustre José Carlos de Almeida presta à sociedade com normas de língua portuguesa
e etiqueta é, no espírito e na forma, uma extensão do seu ofício de professor.
Não tendo por base de trabalho a matéria literária nem a imaginação, impor-lhe
como escritor (e as suas obras como literárias), conforme faz o resto da
imprensa (sobretudo as televisões), não parece honesto.
segunda-feira, 25 de abril de 2016
Celestina Fernandes com livro infantil no Brasil | Kalimba é o título e sai pela editora Kapulana
De acordo com a nota de imprensa
que o Blog Angodebates recebeu da Editora Kapulana, com sede em São Paulo, República Federativa do Brasil, Kalimba,
o novo livro da escritora Angolana Maria Celestina Fernandes, tem 32 páginas e está a ser comercializado
ao preço de 30 Reais (proximamente mil e 500 kwanzas). Conta com ilustrações de Brunna Mancuso, de
nacionalidade brasileira.
Através de contos, outras crianças
podem conhecer a cultura angolana e a sua tradição oral, tendo como personagens
centrais o menino Kababo e o seu pássaro
Kalimba. A cena decorre no Moxico, leste de Angola, num tempo remoto e de seca.
“Esvaziados os celeiros, pouco ou nada mais restava para enganar os estómagos. Em
todas as cubatas ouvia-se o choro das crianças famintas, os adultos
lamentavam-se e não viam forma de sair daquela situação aflitiva.O que ninguém esperava é que Kalimba, um pássaro com
poderes mágicos, e seu dono, Kababo, poderiam ajudar a comunidade a superar os
momentos de dificuldade”, lê-se
Membro da União dos Escritores Angolanos, Maria Celestina
Fernandes nasceu no Lubango, província da Huíla. Cresceu e vive em Luanda até hoje.
É assistente social e jurista. Começou a escrever no início da década de 1980
com publicações em jornais. O primeiro livro infantil saiu em 1990. Também
escreve para adultos.
Gociante Patissa, Benguela, 25.04.2016
Eu diria o mesmo
P: No teu caso, o que preferes, declamar ou
dizer poesia?
R: Dizer!
Declamar tem um ar demasiado teatral. Dizer poesia toca-me mais.
(Citando
de memória um artista português em entrevista televisiva durante um exercício
de construção de poemas a partir de palvras soltas)
malária
Por cá, já não sei se a malária ainda depende do mosquito; cada vez acho mais que tem iniciativa própria
domingo, 24 de abril de 2016
[Oficina] Crónica | Kizombas da minha alma!
As minhas Kizombas
brilham no sapato fino do passista, na pista que facilita o toque que conduz a
dama na ginga rítmica do meu semba e fazer sair sorrisos coniventes entre elas,
sob o olhar atento do garino que não risca nada e se esborracha em ciúmes.
“Vai pra academia
rapaz, e sais daí Mateus Pelé”!
As Kizombas minhas confundem-se
com as do Proletário cuja saia matou bwé de malandrecos, quanto ao número
consultem o censo, por favor. “Suplico que não me trates assim, não aguento
estas remexidas de me fazer ver magias e dunas em pleno mar do Malembo, eu não
mereço isso!”
Diário | Por falta de prato?
“Vens daonde?”
“Fui ali numa sentada…”
“Então, amiga, domingo sem fazer nada, você bate um bom copo e não
convida?!”
“Não tinha a ver com copos, amiga…”
“Então estou curiosa.”
“Estás a ver o mano coiso?”
“Ya. Aquele, tipo coiso, assim um pouco… né? Estou a ver.”
“Ele está com boa ideia. Se você quer também pode entrar. Estou já a te
convidar.”
“É ideia de como então?”
“De formar uma colectividade de trabalho generoso.”
“Isso assim é como?”
“De fins não-lucrativos… para socorrer os necessitados…”
“Ó coisa, uma gaja está aqui desempregada, ainda vou trabalhar sem
lucros? E quem vai pagar os meus vícios, as minhas vaidades, hã, quem?!”
“O mano coiso já pensou nisso. Ele já falou mesmo que assim que os apoios
começarem, os primeiros necessitados somos nós. Já viste se você desmaia na
hora de entregar um prato por falta de prato?…”
"até porque as tias não vão aceitar a nossa doação de roupas se formos lá de tangas, não é?..."
"até porque as tias não vão aceitar a nossa doação de roupas se formos lá de tangas, não é?..."
GP, Katombela, 24.04.2016
sábado, 23 de abril de 2016
KAMBA LYANGE BUNGO WAKWELA (o meu amigo Bungo casou-se)
Não podendo ficar para mais tarde e acompanhar
o copo d'água, aproveitei a circunstância da porta de igreja ontem à noite no
Lobito para fazer uns clics. Felicidades, amigo e conterra Cornélio Bungo Dumbo
Casseque
Praticando fotografia | primeira experiência em HDR e/ou Bracketing
sequência de três fotografias com Nikon D7000,
mais tarde mescladas no photoshop: a) f/10; 1/250; ISO 100 * b) f/14; 1/500;
ISO 100 * c) f/9; 1/100; ISO 100 * Lente Nikkor 18-140mm, distância focal 85mm,
às 15h37 minutos, usando monopé apenas
sexta-feira, 22 de abril de 2016
Já disponível no mercado brasileiro | ALMAS DE PORCELANA | Poesia de Gociante Patissa reunida em livro impresso sob iniciativa da editora brasileira Penalux.
Adquira
na loja
virtual da editora
NOTA DA EDITORA
"Ao mergulharmos no universo de Almas de Porcelana, temos
que nos desamarrar daquilo que guardamos do significado de “fragilidade”.
Agarrado à imagem da porcelana, Patissa sabe construir a beleza daquilo que um dia
foi apenas mero barro, mas graças ao calor da poesia e ao talento do poeta
transfigura-se em algo de inestimável valor. Sua fragilidade reside na
apreciação pacífica que emana de seus poemas sensíveis, preciosos; há neles
belas filigranas de esperança, como num delicado conjunto de fina porcelana, em
cujas peças brilha um arremate de debruns nostálgicos. No vigor destes poemas,
evidencia-se a demonstração de como se processa a força nos indivíduos,
herdeiros de passados árduos, roubados e massacrados (ou, no mínimo,
ignorados). Indivíduos que, através da própria resiliência, transformam sua
vida em arte. De alto nível. As terras verde-amarelas, tão fatigadas com
histórias estereotipadas sobre nossos irmãos africanos, não poderiam mais
esperar para apreciar as importantes – e inevitáveis – palavras de Patissa,
poeta com quem comungamos os Cantos da África e a Língua de Camões."
(orelha do livro)
quinta-feira, 21 de abril de 2016
Citação
“Às vezes basta um segundo para arruinar uma vida, às vezes toda uma vida é
insuficiente para esquecer um único segundo.”
(Do filme italiano "Que mais quero eu", de Silvio Soldini, 2013)
Opinião | Ainda os quatro chineses assassinados e a desproporção no tratamento
É louvável o trabalho que a TPA faz em
denunciar, chamar especialistas para comentar, no seu papel pedagógico de
promoção da cidadania e harmonia social. Tão louvável que deve continuar, mesmo
quando a roçar o excesso. Só esta semana, já vi pelo menos mais de cinco vezes
a reportagem do "Segurança Pública" sobre o assassinato de quatro
cidadãos chineses, ocorrido em Janeiro deste ano em Luanda, perpetrado por um grupo de oito
angolanos que se fizeram passar por vendedores de terreno, liderado
alegadamente por um cidadão de nome Nataniel. Nesta matéria em particular,
ressalta-se a eficiência da polícia que despoletou a investigação depois de
reportado o desaparecimento pela esposa de um dos malogrados orientais e
culminou com a localização dos corpos dois meses mais tarde. É esta sinergia
que o cidadão espera, não apenas no esclarecimento dos crimes, senão também na
responsabilização dos autores/culpados, independentemente do status da vítima,
partindo do princípio do valor absoluto da vida. E os mais honestos concordarão
comigo em como igual visibilidade não tem sido dada aos casos em que são bandidos cidadãos
chineses. A história recente de Benguela mantém indelével o infeliz desfecho do
caso do kínguila (cambista informal) que foi raptado, roubado em mais de 30
mil dólares e assassinado por uma quadrilha de chineses, cujo cabecilha, muito
misteriosamente, para dizê-lo de forma generosa, não chegou a ser julgado
porque, à data, simplesmente evaporou da cadeia por ordem de alguma entidade
angolana não identificada. Nem se sabe a quantas anda o caso daquele chinês que
assassinou em Luanda o seu enteado angolano de oito anos de idade. Bem sei que
nesta sociedade das conotações é um risco dizer isto e assumi-lo, mas faço-o
por imperativos de consciência, já que o kínguila podia ser um familiar meu,
para além de concidadão, assim como o menino que provavelmente tinha muito a
dar ao país. O que defendo é uma sociedade onde a justiça funcione
independentemente do sobrenome, da ocupação social e da cor do passaporte. É
para isto que os nossos pais lutaram. Os meus pêsames às famílias, sejam
angolanas, sejam chinesas. E para não se pensar que estou contra a TPA, pois é
a ela que geralmente dirijo reparos, esclareço que por opção não tenho
instalada parabólica em casa, não havendo por conseguinte acesso a qualquer outra
estação televisiva a quem "monitorar".
Gociante
Patissa, Benguela, 21 Abril 2016
quarta-feira, 20 de abril de 2016
Novidade para amigos no Brasil | Acaba de sair pela editora PENALUX o livro "ALMAS DE PORCELANA", colectânea de poemaa do escritor angolano GOCIANTE PATISSA
Para os meus amigos, conhecidos e leitores em geral no solo brasileiro,
finalmente está nas bancas o livro "Almas de Porcelana", que reúne
poesia do escritor angolano Gociante Patissa através dos livros Consulado do
Vazio (KAT, Benguela 2008), Guardanapo de Papel (NosSomos; Vila Nova de
Cerveira, Portugal 2014), alguns inéditos, bem como textos dispersos em
Antologias e revistas publicadas em Portugal, Brasil e Moçambique. Para mais
informações, queiram contactar directamente a loja virtual da editora Penalux Grato pela aposta, caros Tonho França e Wilson Gorj
Diário | Tens pressa?
"Aqui
afinal tem quê?"
"Mas
está cheio, yeah!..."
"Só
estou a gostar do som. Adoro esta música, amiga, adoooooro!"
"Eu também. Uma gaja até imagina numas bandas, umas cenas,
numas horas..."
"Vamos ainda entrar, amigona. Tens pressa?"
"Nada! Já lavei loiça. Também a minha mãe não está em casa,
que é chata."
"Não acredito! Toda essa gente afinal é para feira do
livro?!"
"Isso é brincadeira! Euzinha, perder o meu tempo no livro?!
Só se for kamasutra!"
Crónica | As ruas da cidade têem uma dimensão de jornal
Precisava
de dar uma volta pela cidade, volta mesmo como quem dialoga com as avenidas e
os acontecimentos dos últimos dias. Há muito por onde pegar. Dito de outra
forma, as ruas cá da cidade, no que já se fez tradição, têem uma dimensão de
jornal, não já o mural, mas o ambulante. Na berma, na calçada, na esplanada de
bar, à beira-mar, no banco de trás do kupapata. O parlamento é qualquer lugar
que respire.
A
mortalidade em níveis preocupantes no Hospital de Benguela já vai gasta
enquanto tema, sobretudo depois de ter saltado para a mesa do governador e com
isso a criação de uma comissão para acompanhar o caso. Se já chegou ao chefe,
então o parlamento ambulante aplaca o assunto e logo destaca outro tema. Mas há
um tema que parece ultrapassar esta lógica tácita dos ciclos do lamento social.
A
boca que não sai de moda é mesmo ainda da malfadada crise, a económica e de
ramificações incalculáveis. É ver como cada vez mais desfilam senhoras
transportando à cabeça recados afrodisíacos em forma de negócio. Sim,
aquela coisa de zungar rodelas de mandioca crua com ginguba (amendoim)… hum!
Assim já é para dizer o quê, que os maridos estão a tirar negativas na hora de
dar vez à libido? Parece haver ali um toque de subtileza, porque é sintomático
ser um comércio só lembrado por mulheres. Ou não?
Também,
né?, se a pessoa chega à casa e não sabe se o emprego amanhã deixa de existir, ora,
a verticalidade debaixo dos lençóis acaba ficando um pouco chocha, não é
verdade? Pronto, mas há sinais de esperança. Um deles pode ser a vinda do Avô
Kitoko nos próximos dias, um curandeiro de primeira linha. Sendo do tipo cura
tudo, quem sabe… E não sei se por medo já ou quê, mas o locutor anunciou-o
“doutor”, um termo que nos écrans pertence aos engravatados comentadores, juristas,
licenciados que dão aulas e aos dirigentes.
Até
parece que vários estabelecimentos privados resolveram competir de quem encerra
primeiro. Cresce o número de vitrinas vestidas de opaco por jornais velhos. A
falência agora é lei. Hoje mesmo constatei a falta de bom senso que foi a
falência da Bom senso, a clínica de fisioterapia (padrão europeu) do Kali, da
selecção. Tive de ir aos chineses para me passarem a mão numa lesão por
distensão muscular nas costelas. Já me tinham dito que os orientais confundem
pessoas com tapetes, pelo que me deitei já desconfiado. E não é que a meio da
sessão senti a gaja pronta a marchar-me sobre o tronco... “Amiga! Pisar, não,
caramba!”
Voltando
ao principal. O mais profundo sinal de esperança vi esta tarde, talvez o mais
profético e poético do que qualquer discurso tecnocrata, demagogo, ou coisa que
o valha. Quando eu vi em uma loja um relógio a custar acima de três milhões de
kwanzas (USD 10 mil ao câmbio da rua), algo surreal numa cidade em que grandes
lojas esgotaram o stock de ovos, a metalinguagem traduziu logo o simbolismo da
intenção: não estava à venda o relógio mas sim o sonho. Três milhões eram o
preço do sonho de tudo voltar ao normal. Aliás, como escreveu o poeta Abreu
Paxe, “o tempo é a medida de precariedade de todas as coisas”.
Gociante
Patissa, Benguela, 19 Abril 2016
terça-feira, 19 de abril de 2016
[Oficina] Crónica | Onde andará o velho Resedá?
Texto de Elisabete Calmon, Brasil
Árvore da minha e da infância do meu pai. Plantada pela
minha avó. Naquele tempo as árvores faziam parte das famílias e a gente ia
nomeando as casas da lembrança por suas flores e frutos.
Havia na vizinhança a casa da Caramboleira, que generosa
oferecia frutas logo ali, no muro do meu quintal. Do lado, a casa da Goiabeira
e logo depois a casa das Avencas e do Carnaval. A da Acácia amarela ficava do
outro lado da calçada e era nela que as cigarras orquestravam a sonata do entardecer.
Quase no final da rua a majestosa casa das Jaqueiras. Sim, Jaqueiras porque eram três, as fruteiras e os moradores. Velhinhos, de cabelos brancos, sempre nas janelas, um em cada uma, quase imóveis, vendo a vida passar.
Eu imaginava que ali era a Casa do Tempo, um lugar tão
distante, inalcançável para o olhar de uma criança. Um tempo que só hoje pude
encontrar. Sim, eu agora também fico nas janelas, dezenas delas, tantas quanto
eu quiser abrir. São janelas virtuais, telas de um celular, de um laptop, de um
computador...
Janelas onde vejo e sou vista, no silêncio da escrita que
brota de cada um de nós. Janelas sem flores nem frutos, sem perfumes e sem
sabores. Das antigas janelas, só restou o vidro. Onde andará o velho Resedá?
[Oficina] Crónica | Fui vê-la à cozinha
Texto de Lauriano Tchoia Luanda, 19.04.2016 |
Ficha
tripla e conexões, cama, beata de cigarro e uma chávena de café fazendo a
tralha pelo quarto comum. Estava chamada por dentro uma autêntica reserva
natural ao desarrume, era a bagunça em desfile enquanto eu não me desfizesse daí.
Nove
horas, manhã de um dia chuvoso e o sol que não quer chamejar assiste desde a
órbita o empenho da dona de casa.
Cama
quase vazia, apenas eu teimando abraçar o meu direito ao descanso, merecido ou
não, ninguém para confirmar! Candeeiro ainda aceso sobre a banca e o laptop no
seu corpo distraído sobre a cama, ia fazendo de mim o utilizador emérito na
execução gráfica do desfile de contos que me vêm do cérebro.
“Filho
vá ao banho que o pequeno almoço já está servido”. Ela interrompe, deixa o perfume,
um sorriso no ar e sai, depois de selar em mim, um beijo nos lábios e na testa.
Adorei!
Dado
o sim a concordar em voz viva, um abanar afirmativo da cabeça, antes, porém,
uma revisão à frase do meu texto:
...emprestará o calor para uma viagem
calma e sólida para as terras Lundas, passando por Xamuteba, com o pensamento
firme ao propósito que nos levava as terras de Muantianvua. Denuncia de
tragédias liam-se na estrada, pelo amontoar de malogradas viaturas inertes
sobre o solo... (fiz uma pausa a mando do mouse, tinha de
sair dai).
Para
desfazer-me da preguiça o banho foi o santo remédio, valeram os copos de ontem
no Jango Veleiro para abrir o apetite de hoje e o caldo sobre a mesa ser
devorado num ápice, deixando no final o sabor meio amargo do gindungo sobre o
céu da boca.
Não
resisti, fui vê-la à cozinha. Empenhada sobre o fogão, cheiro gostoso do molho
atirado para o ar. No forno desfilavam doces que faziam a delícia da família, enquanto
o suor caía-lhe levezinho do rosto.
Parei
e olhei firme para ela, um “zum-zum” alhei me dizia que era entre estas mãos de
fada que a vida da família se fazia.
Aproximei-me,
pedi que fechasse os olhos (via-a mais bela), era uma visita de cortesia que eu
fazia ao seu canto, fluí meus dedinhos da testa aos lábios, o meu beijo colou
no seu ombro entre a alça da blusa e o pescoço, de seguida a minha voz no seu
ouvido disse-lhe:
“És
a mulher que Deus me deu”!
segunda-feira, 18 de abril de 2016
Just a question | O coelho e a raposa?
A chuva cai sobre Benguela agora, depois de não
ter feito outra coisa em Luanda na tarde de hoje, a ponto de obrigar aviões a
divergirem ou para a Catumbela, ou para o Congo. Estive a pensar, se em Luanda
a grande dor de cabeça das cheias no asfalto residem num "coelho" em
forma de lagoa - e tendo em conta a vizinhança nas fábulas - o que teremos
amanhã, uma "raposa"?
Citação
“Gosto dele. Ele até é um jogador brioso e lutador, mas
isso só não chega; é preciso ter talento.” (António Alegre, comentador desportivo, a propósito de alguém
do girabola. Programa Domingo Desportivo, TPA, 17.04.2016)
Teatro da vida real
ACTO # 1
Alguém sabe que passo tomar quando por duas vezes o aparelho multicaixa/multibanco nos diz que não é possível completar a operação mas ainda assim taxou/descontou o valor na conta bancária? Perdi 18 mil kwanzas esta noite na tentativa de levantar recarga Unitel de 9 mil kwanzas para o meu dispositivo de internet. Quando penso no sacrifício por que passo para conseguir tal valor...
ACTO # 2
Como pela manhã a rede de multicaixas esteve sem sistema, fui ao BCI ali do jardim. Daquele aparelho de ordem de chegada tirei a senha correspondente ao atendimento geral, mas como passados dez minutos nunca mais chamavam, sendo por ironia a minha a senha número um, fui espreitar à porta de uma secção ao lado dos balcões. Atendeu-me um jovem muito talentoso em despachar, também ralhava muito bem, por acaso. Orientou que saísse logo e solicitasse segunda via dos recibos, e eu a julgar que verificaria o extracto. Bom, aí luta mais luta com a maquineta. Resultado: o dinheiro não voltou para a conta mas acabei sacando dois recibos de recarga Unitel de 9 mil kwanzas, de sorte que até já estou a pensar em pedir uma dispensa de uns dias ao patrão para ver se monto uma tenda para revender o saldo. Porque 18 mil também é muito! Haka! Mba ainda é aonde chegamos. Grato pelo apoio de ontem.
domingo, 17 de abril de 2016
Nota solta | Uma curta lágrima
Quando você decide pousar a caneta para
uns meses indeterminados de defeso, talvez para ficar-se só por coisinhas
ligeiras, um dia destes você recebe "cartinhas" de
"gigantes" como António Fonseca a dizerem que voltaram a narrar um
conto popular enviado há uns quatro anos ao Antologia, o mais antigo espaço
cultural da Rádio Nacional (quase 40 anos no ar), que esperam por mais... Até a
pessoa por acaso deita uma curta lágrima se calhar de gratidão pelo amparo.
Você já agradece e promete recolher mais oratura e dar tratamento. Mas por
outro lado, não será uma conspiração do destino juntamente com esses kotas
contra o direito de um gajo à preguiça criativa?
Nota solta | No limite da paciência
Com o respeito devido, passo para
lembrar aos bem-intencionados que me irrita bastante ser adicionado a grupos
sem me consultar, muitos dos quais nada têem a ver comigo, com as minhas
convicções ou actividades. Para este tipo de esforço, a forma de retribuir é uma:
MERDA, PÁ! Era só isso, obrigado
sábado, 16 de abril de 2016
[Oficina] Crónica | Entre o “leite moça”, o carro e a dúvida em continuar a jogar à bola!
Texto de Lauriano Tchoia Luanda, 16.04.2016 |
Ainda o ano que
nos orgulhava por nobre estágio. Estávamos a passos curtos da independência de
setenta e cinco em Novembro.
Um estrondo! Era
o anunciar de uma trovoada. Mais tarde soube-se que não era nada disso. A lógica
trazia novamente tanques de guerra, o ilustre “monacaxito” e canhões de longo
alcance auto-propulsionados, seguindo o curso da serpente negra, sentido
norte-sul.
Citação
"Existe a nova geração partidária:
estão convosco, militam, podem contar com os seus votos, mas não por ideologia
nem por gosto; eles só fazem porque carregam o partido no bolso"
(Kid Mc, rapper angolano. Trecho da música "O
apagar da esperança". Mad Tapes, Luanda. 2015)
sexta-feira, 15 de abril de 2016
Diário | E não almoça o seu conceito porquê?!
“Ó meu caro amigo, você me desculpe, mas isso está
a me fazer um bocado de confusão! É já a terceira vez só essa semana que o
senhor vem cá almoçar prato do dia.”
“E daí, com o devido respeito, mas qual é o
problema?”
“O problema é mesmo tu vires aqui comer
constantemente…”
“Mas isto aqui não é um restaurante? Não é lugar
livre para quem consome e paga? Diz-me lá, mas o quê que me proíbe?!”
“Como assim, ‘o quê que me proíbe?’ Ainda perguntas?
Vou ser directo. O senhor também não é dono de um restaurante? Lá também não
servem almoços?”
“Sim, mas eu gosto dos pratos do dia daqui. Anteontem
foi feijoada. Ontem foi carapau grelhado com banana cozida e molho de cebola
picada. Hoje é joaquinzinho, o nosso ‘kasombosombo’,
fresco frito com molho de tomate, amanhã é pirão…”
“E no teu restaurante servem pedras no prato? Não dá
para comer?”
“Lá esta semana é tudo chique: lasanha, sushi, tornedó,
bacalhaus e pratos franceses… É um negócio para grandes famílias, um segmento
de clientes que se prezem…”
“Viva! Muito bom. É um nível altamente! Só uma
curiosidade: quem elabora o conceito gastronómico do teu negócio?”
“O amigo deve saber que sou muito viajado, modéstia
à parte. O conceito é meu.”
“E não almoça o seu conceito porquê?!”
“Mas esta pergunta não faz sentido. Eu mereço ser
tratado como cliente normal, só isso. Não peço mais nada, por amor de Deus…”
“Você não sabe que estamos em crise económica, que as
importações encravaram, que os armazéns andam caquéticos? Quer dizer, vens cá comer todos os dias para dar cabo
da minha despensa a ver se o meu negócio vai à falência e passo a comer as
gordurosidades do teu restaurante, não é isso?
GP, Benguela, 16.04.2016
Excertos | A crítica das literaturas africanas
A recepção das literaturas africanas na Europa recua ao século XIX, altura em que cientistas e exploradores europeus começaram a ibteressar-se pelas respectivas literaturas orais com o intuito de, através delas, desvendarem o pensamento (tradicional) africano (...)
Não obstante o seu esforço para dignificarem a cultura africana, apresentada por vezes de forma idealizada, como acontece com Frobenius, o certo é que pouca atenção prestaram aos aspectos meramente estéticos, lado pelo qual essas literaturas, em ambientes ocidentais, poderão abandonar o estigma etnográfico e, num plano de maior igualdade, granjear públicos mais alargados (...)
Só que o que torna, na verdade, um texto africano mais dramático pode não interessar propriamente ao leitor europeu ou ocidental. Várias são as razões deste possível desinteresse. Para além do "mistério" e/ou do "exotismo' que África possa suscitar junto dos ocidentais, a má consciência, experimentada sobretudo nas antigas metrópoles, em relação aos efeitos nefastos do colonialismo e do neo-colonialismo é, certamente, outra razão importante. São fenómenos que respondem, em última instância, quer pela miséria que grassa por esses quotidianos, quer pela inépcia ou falta de vontade dos líderes africanos em combatê-la.
(José Carlos Venâncio, in "Maka- revista de literatura e artes", vol 1, n.°1, págs. 67-68. União dos Escritores Angolanos, Luanda, 2010.)
Diário | E o senhor é jurista?
"Bem,
caros convidados, daqui ao pouco o nosso debate vai ao ar. Poderemos ter
intervenção de ouvintes via telefone."
"Estamos prontos, caro senhor jornalista."
"Ora, a si já conheço e... a si também. Desculpe-me senhor que vem pela instituição X: no seu caso, como quer lhe apresente?"
"Ora, a si já conheço e... a si também. Desculpe-me senhor que vem pela instituição X: no seu caso, como quer lhe apresente?"
"Vou falar na qualidade de jurista... sem
problema nenhum!!!"
"E o senhor é jurista?"
"Bem, eu trabalho na Associação como relações
públicas, às vezes estafeta, e auxilio na secretaria com arquivos
documentais..."
"E qual é a sua formação?"
"Estou a concluir o Médio, mas ainda dei uma
pausa."
"Então o senhor não é jurista mas pode falar
na qualidade de jurista?"
"A minha esposa é bacharel em Direito..."
"Pronto, não tem problema, vou-lhe tratar pelo
nome."
"Você é que sabe."
GP, Benguela, 15.04.2016 (Adaptação)
GP, Benguela, 15.04.2016 (Adaptação)
[Oficina] Crónica | Se sorriam ou não, que nos deixassem apenas jogar à bola
Texto de Lauriano Tchoia Luanda, 14.04.2016 |
Eram
nervosos e vinham para ajudar, ...dizia-se.
Decorria
o ano que nos orgulhava por nobre estágio, pois estávamos a passos curtos da independência
de setenta e cinco em Novembro.
A
caravana passava por nós, numa Kahála qualquer do meu mapa de miúdo. Homens
brancos de tom vermelha na pele camuflada em farda sobre tanques, sinais de
guerra. Era o filme que se despregara da tela e vinha até mim.
Entre
o medo e a curiosidade, eu queria ver o que era uma guerra de verdade. Expectativas
mais de mil!
quinta-feira, 14 de abril de 2016
[Oficina] Crónica | O Largo d’África
Texto de
Benguela, 17.02.2016Júlio Novadi Dimas Teixeira |
O Largo d’África é um recinto maravilhoso, o
estômago da cidade de Benguela alimentando a vida cultural da cidade.
Localiza-se num organismo bastante agitado e faz fronteira com algumas regiões
importantes.
É um velho que tem na memória a geração passada e os romances dos
apaixonados que frequentavam o Cine Monumental. Ao mesmo tempo, é um moço cada
vez mais novo e actualizado, pois frequentemente tem a sua casa visitada por
actividades empreendedoras, festivais e culturais quer de entidades nacionais
quer internacionais: shows, feiras, carnaval, etc…
Os seus pêlos são verdes, os seus pés esticados, um no Restaurante
Fininho, o outro na Boutique Masmorra onde se avista o semáforo. As suas mãos
tocam o tribunal e a administração; os seus olhos vêem a agitação do BPC e da
Identificação.
O Largo d’África em Benguela é famoso como o Pepetela e alberga
jovens namorados e grupos de pares que o visitam em qualquer período. Está bem
situado e sempre bem vestido com as lindas donzelas, que percorrem a sua pele,
deixando o seu perfume no ar.
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Nota do Blog Angodebates: No ano em que completa o 10.º aniversário, o nosso Blog lançou um desafio de crescer junto com os seus leitores, abrindo para o efeito uma oficina para a divulgação de contos, crónicas e poesia de autores com ou sem livros. Como é natural, teremos colaboradores principiantes, pelo que lá onde for necessário, a gestão editorial do Blog fará ou sugerirá arranjo. O que esperamos é no futuro olhar para o primeiro texto de cada colaborador e festejarmos o progresso que for alcançando.
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Nota do Blog Angodebates: No ano em que completa o 10.º aniversário, o nosso Blog lançou um desafio de crescer junto com os seus leitores, abrindo para o efeito uma oficina para a divulgação de contos, crónicas e poesia de autores com ou sem livros. Como é natural, teremos colaboradores principiantes, pelo que lá onde for necessário, a gestão editorial do Blog fará ou sugerirá arranjo. O que esperamos é no futuro olhar para o primeiro texto de cada colaborador e festejarmos o progresso que for alcançando.
quarta-feira, 13 de abril de 2016
Crónica | DIA DO BEIJO?
Milhares de publicações pelo facebook lembram-nos que hoje é o dia do beijo. Nas fotos que aparecem, vemos casais "comendo" lábios uns dos outros. Chama a atenção uma foto em particular que tem como cenário um estádio desportivo engalanado a vermelho, repleto de pares aos beijos, não se sabendo para já se foi algo do tipo beijar compulsivamente, não importa quem, ou se foi somente mais uma daquelas operações de multiplicar figurantes pelo poder digital do photoshop. Seja como for, a mensagem passou. Não custa daí inferir-se mais uma estratégia de vender produtos, uma mensagem claramente dirigida aos bolsos dos namorados. Aos irmãos, aos amigos, aos conhecidos, nada. Tanto mais que nem o beijo mais conhecido, o de judas, é referenciado no pacote festivo. Assim sendo, se o objectivo é vender, podiam bem simbolizar este dia do beijo, o tão celebrado linguado, com os seus assessórios inseparaveis, no caso a escova, a pasta de dentes, o elixir, o fio dentífrico (porque o dental passa por outro tipo de "gengivas" mais proximas da cintura). Sim, porque não se pode fazer apologia de beijos sem falar da higiene bucal, pelas razões mais fedorentas que a biologia permite. Então, vai um beijo?
Gociante Patissa, Benguela, 13 Abril 2016
www.angodebates.blogspot.com
Trecho | Literaturas africanas, instâncias de legitimação e crítica literária
(...) A esta capacidade para perpecionar e muitas vezes vivenciar as dinâmicas a que as sociedades ocidentais estão sujeitas corresponde ou pode corresponder um desapego em relação às sociedades a que pertencem, o que, ao acontecer, acaba por contribuir para a desestruturação e para o enfraquecimento dos correspondentes "mundos da arte" ou da "literatura". Uma das consequências mais usuais de tal fragilidade tem sido a dependência, material e estético-simbólica, em relação aos " mundos da arte e da literatura" dos países mais desenvolvidos. Estes são, em muitas das circunstâncias -- até porque de permeio se coloca um factor que é paradoxalmente de aproximação, a da língua da colonização -- as antigas metrópoles. Assiste-se, desta forma, à transferência das instâncias de legitimação estética do que é localmente produzido para as antigas metrópoles coloniais. Em consequência, prolonga-se a relação colonial com uma agravante: a própria criatividade, na expectativa deste reconhecimento, acaba, também ela, por se submeter aos requisitos das instâncias de legitimação com óbvias perdas em termos de autenticidade cultural e estética, para o que é produzido. Os referentes dessa produção são outros que não as fronteiras dos respectivos países, relevadas como o principal enquadramento estético durante a vigência do paradigma nacionalista, isto é, entre os 1930 e os anos 1990 do século passado.
(José Carlos Venâncio, in "Maka- revista de literatura e artes", vol 1, n.°1, págs. 65-66. União dos Escritores Angolanos, Luanda, 2010.)
(arquivo) Nota solta | Os mandatos e o descrédito
A polémica recente sobre a expiração do mandato da direcção do Conselho Nacional de Comunicação Social (CNCS), que já soma para aí seis anos, vem engrossar apenas a tendência (que parece inata em nós, angolanos) de aversão às sucessões. Como é previsível, não faltam justificações para se manter a situação, recaindo quase sempre "a culpa" a factores externos (ausência de leis, ausência de quadros capazes, etc.). O CNCS, que pela sua natureza não se encaixa bem no pacote da sociedade civil, pois inclui representantes de partidos políticos também, não tem um quadro tão longe, entretanto, do que ocorre em grupos organizacionais mais cooperativistas. Nada tendo contra pessoas, faz-me um pouco de confusão que determinadas individualidades se queiram confundir com as instituições e que, ainda assim, se julguem incólumes em criticar a falta de transparência, de rotatividade e de democracia... de suas portas para fora. A lista de exemplos é ilimitada, as motivações são difíceis de perceber. Conheço um respeitável pedagogo desde 2001 e até hoje continua líder da sua ONG. Conheço outro super sindicalista que é praticamente especialista em "listas únicas" eleitorais e manutenção de mandatos. Muitas ONG's faliram precisamente por esta visão "empresarial privada" que degenera do espírito de voluntariado, pelo que se tem de elogiar aquelas que conseguem sobreviver nesta fórmula "estanque". Mas todo o descrédito só pode ficar à vista, principalmente quando o altruísmo atinge o efeito "placebo", tendo em conta as vantagens materiais a que se tem acesso, onde os estatutos e os ideais de partida repousam quais múmias.
Gociante Patissa, Benguela 13.04.15
www.angodebates.blogspot.com
terça-feira, 12 de abril de 2016
Diário | Qual futuro, homem, futuro de quê?
“Mas, ó mano Vano, eu já não te falei para você não andar vir me
procurar mais?!”
“Isso mais que estás a falar é como é que é?”
“Será que na vossa casa não tem televisão? Eu não posso todos os dias
deixar de fazer jantar, não lavar a louça, para vir te atender, ouviste? Não vamos
só se complicar, ya?”
“Ehh…, vejamos…”
“A essa hora, os outros estão a ver telejornal, depois é novela, depois
é sessão da meia-noite; você se põe no caminho para vir conquistar uma mulher
com quatro meses e metade?”
“Você não entende quase nada da vida, e é isso que gosto em ti, cada vez
adoro mais…”
“Apaga ainda esse cigarro, faz favor.”
“Te incomoda?”
“Assim vou falar quê, hã?! Ainda me fala só… Esse dinheiro que gastas
no tabaco ainda podias só comprar um par de chinelos em condições. Olha só o
calcanhar como está empoeirado, ó mano Vano.”
“Ouve o fundo da questão, ó minha benquista, e isso é difícil porque
você mesmo sabe que os homens… ora… não são lá bons sentimentais, né? Mas é
assim, esse ponto que reclamas, para mim não influi… O filho que vai nascer ou
o titular da gravidez que fugiu, para mim é pacífico.”
“Ainda não dá só muitas voltas, homem, me ouve. Haka!, ó coiso, você
acha mesmo juízo conquistar uma mulher com cinco meses de uma gravidez que não
te pertence?”
“Mas você não é a gravidez, ó amável. Você é uma constante, uma
constelação de sorrisos, afectos, enfim, um paiol de aconchegos que o futuro me
reserva…”
“Qual futuro, homem, futuro de quê?”
“Mas eu te amo!”
“Mas você não tem o direito de me amar!”
GP. 12.04.2016, Aeroporto Internacional da Catumbela