sexta-feira, 18 de março de 2016

[Oficina] Crónica | Sando (Xará ) II

Texto de Lauriano Tchoia
Benguela, 06.03.2016
“Donana trás mais comida para o Sando!” Era assim o meu Xará que a todo o custo queria me ver feliz.

Cérebro de elefante na grandeza de ver as coisas, os bois faziam dele um homem satisfeito e honrado.


Reciclava a memória afogando-se num trago de quissangua com o corpo descansando sobre um banco de mukumbi. O tempo, que o separou do seu Humbi da saudade, contava-se pelos bois paridos e Natais já vividos fora da terra de nascença.

“Já vi muita coisa na minha vida, desde a guerra de 1915, a batalha do Oihole. Ainda jovem,” (prosseguiu) “matei um boi a soco” (gabava-se da força). “Não fosse impedido pelo meu, pai casava-me com uma branca”. Enquanto se olhava de baixo a cima, apalpava os lábios, esboçando um dócil sorriso: “Eu já fui bonito, ó sandó”.

Cada sábado representava uma victória. Era o dia em que o leite fresco ganhava forma de dinheiro. A distribuição era feita por consignação ao longo da semana por lojas e residências. Feita a recolha, regressava feliz à casa, garrafão de vinho na mão, dois kilos de açúcar e uns trocos para poupança.

“Escreve Xará, escreve, um dia morro e vais perder: no Kimbo Kawela tem o pastor Eipifeni, duas nemas e um garrote são pra ti quando cresceres. Guarda bem esse bilhete e não deixa perder. Quando um dia eu morrer, os teus bois já estão separados”.

Eu escrevia apenas para o não magoar.  No meu sonho de menino do ensino preparatório, boi só cabia num prato sobre a mesa.

E  a conversa entre sandó(s) crescia com a tarde a ser impiedosamente engolida. Veio o jantar e o apelo à Donana, sua esposa, para trazer mais comida, porque, segundo ele, criança repleta já não lambe os dedos.

Os contos sucediam-se, muitas vezes repetidos a meu pedido, como faziam rir todos os dias na mesma intensidade! Voltar a contar, sobre o coelho e o Leopardo, o caçador e as três jiboias, era o delírio em plena fantasia. “Conta mais, conta mais avô”.

E eu fui crescendo, o xará morrendo. Tombava na peste um vitelo, tombava aos pedaços o coração do velho Piriquito Ya Tchimbundu, que se calou com os bois que não mais mugiam. E eu que não guardei a carta do meu choro…

Xará, os meus bois se perderam?!
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