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segunda-feira, 17 de julho de 2017

Crónica | Da memória familiar: Onde José Samuel e Gociante cruzam

Gociante Patissa (sobrinho) e Isaac Samuel (tio)
Passei a tarde de hoje em ambiente de óbito no bairro Pomba, zona Alta da cidade do Lobito, pelo duplo tio Eurico Ângelo, primo da minha mãe, falecido na quarta-feira-feira. Duplo, porque a viúva, a tia Suzana, é prima do meu pai. Este estatuto marcou a nossa infância e adolescência com o à vontade redobrado de visitante que não receia desagradar a parte oposta. Havia dois destinos na família assim, outro sendo o do tio Higino (pai do Jacob Higino), primo da minha mãe, esposo da tia Inácia Cândido, prima-irmã do pai.

Não havendo nada que se possa gostar em circunstâncias do género, o óbito tem a virtude de reencontrar membros da família dispersos um pouco por todo o país. As apresentações ganham vez. No caso concreto de hoje, regressei com um sem número de informações valiosas da história da parte materna da família, o que me expôs (por culpa das minhas perguntas) à travessia de memórias emocionalmente fortes e desgastantes, sobretudo porque os algozes estão vivos, bem localizados, numa sociedade cujo fim do conflito armado não ensaiou uma espécie de Comissão de Reconciliação e Verdade.

Há um assunto geralmente evitado, o das circunstâncias do assassinato do político José Samuel, no fervor da rivalidade entre Unita e Mpla no ano de 1975, o patriota que dá nome a três instituições no município do Lobito, nomeadamente, a praça José Samuel, adjacente ao BFA da Zona Comercial (também conhecida por Terreiro do Pó), e na mesma zona o Comité de Acção do partido Mpla, bem como a Escoa José Samuel, sita na Lixeira Kandimba.

Soube da existência do herói da família em meados de 1985, quando chegamos ao Lobito, fugidos da guerra do Monte Belo, do Município do Bocoio, interior da província de Benguela. Sabíamos que fora filho do avô Samuel Manuel Ferramenta, primo-irmão de Gociante Kapiñala, meu avô materno (falecido em finais da década de 1970). O avô Samuel, de um português rebuscado, fruto do convívio com a comunidade colonial, deu o máximo que pôde para suprir a ausência do primo. Íamos passear à sua casa do bairro da Kambembwa, também na Zona alta. Recebemo-lo várias vezes em casa (tanto na Bela Vista, como no Bar Africano).
Gociante Kapiñalã

Fosse por sermos menores, fosse pela dor de revisitar memórias do ente querido, não me lembro de a minha mãe alguma vez ter entrado em pormenores das circunstâncias das ausências de Gociante ou de José. Em 1992, adolescente, fomos ao Monte Belo para dar vida ao projecto agrícola do meu pai. Nessa altura o avô Samuel decidira fixar lá residência (onde por ironia veio a ser abatido alguns anos mais tarde). Era nosso vizinho. Velho simpático, trabalhador, afectuoso, mas também reticente e de certa forma enlutado.

Os filhos do avô, o Benjamim, o Enoc, o Isaac e o Fernando, que viviam na Restinga, foram sempre desgarrados do resto da família. A referência que retenho era a de um camião Isuzu cinzento de transporte e revenda de lenha e carvão, que morava ali pelos edifícios circundantes ao Centro de Formação Comandante Nzaji, à subida da Bela Vista.

Hoje fiquei a saber é que o avô Gociante, acossado por uma doença indomável no município da Ganda, veio ao Lobito para junto do seu primo Samuel Ferramenta, que vivia em casa do seu filho Isaac Samuel (na foto), professor de profissão, onde acabou por perder a vida. Soube também que José Samuel teve um filho de nome Apolo, que faleceu por doença na província da Lunda-Norte, onde desenrascava como motorista.
Gociante Patissa | Lobito, 17 Julho 2017 | www.angodebates.blospot.com

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