PONTOS DE VENDA

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PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

terça-feira, 4 de julho de 2017

MUITOS DOS PRODUTORES NÃO ACONSELHAM OS MÚSICOS A SAIR DOS ESTÚDIOS PARA AS RÁDIOS – Dinho Carlos | Grande entrevista (parte1)

A história da rádio em Benguela é rica em exemplos de técnicos de som que resultaram em locutores de carreira. É também este o desafio assumido recentemente por Dinho Carlos ao décimo sexto ano de casa na Rádio Morena Comercial, que emite nas frequências de 97.5 e 96.0 FM. O que reserva o futuro é ainda uma incógnita, mas uma certeza por enquanto lhe basta: era preciso ousar. Dinho vem de uma família com tradição em rádio e sucesso na arte de representar em televisão. Como principais referências, é filho do discotequeiro e actor João Carlos Kavitutula (já falecido) e irmão do actor e DJ Celso Roberto, que deram corpo a personagens diversos da teledramaturgia pela Televisão Pública de Angola (TPA) nas últimas três décadas.

Blog Angola, Debates & Ideias (Angodebates): O Dinho Carlos é o mentor, vamos lá dizer, do programa. É um operador de som da rádio com uma história vasta e portanto este ano está a exercitar também a parte da locução. Como é que está a ser esta experiência?

Dinho Carlos (DC): É uma experiência boa, uma experiência boa, embora muitas vezes também já esperada. Então estamos a tentar galgar uma aventura diferente do habitual, que é a aventura da locução, embora também um pouco difícil para quem está há muito tempo atrás das máquinas.

Angodebates: Quantos anos de casa?

DC: Dezasseis.

Angodebates: Dezasseis anos. Quase todos os locutores passaram por si. (risos)

DC: (risos) Sim. Dezasseis anos. Comecei muito jovem, hoje tenho metade daquilo que é minha vivência na rádio. Então toda esta experiência fez com que viesse essa idealização de um programa um pouco diferenciado dos outros, não fugindo, claro, às normas radiofónicas. Então criamos o «Karaoke na Rádio».

Angodebates: Em que consiste, vamos lá dizer em termos concretos, o vosso programa? O que é que acham que trazem de diferente?

DC: A divulgação dos músicos anónimos, não é? Mas anónimos, músicos que também podem fazer interpretação de músicas alheias, conforme se diz, e cantar as próprias músicas. Vimos que é um mercado tendencioso, ultimamente a febre do karaoke tem estado a tomar conta do mercado. Então sentimos a necessidade de criar este espaço para os músicos venderem a sua voz.

Angodebates: Há quanto tempo é que o programa está no ar?

DC: Estamos no ar há três meses.

Angodebates: Como é que tem sido a receptividade por parte do público? Ou como é que vocês avaliam se estão a ser bem, ou não, recebidos pelos ouvintes?

DC: Está média. Está média porque somos miúdos ainda, não é? As críticas estão a ser bem-vindas, estamos a procurar melhorar com isso. A aceitação tem sido aceitável. Temos agora um número de músicos elevado [comparado] ao que começamos. Então temos vindo a ter feedback, conselhos, propostas, para implementarmos no programa e talvez, quem sabe, lá para frente também fazermos valer essas ideias.
 
Angodebates: Dinho, eu pessoalmente, embora não sendo ouvinte assíduo do vosso espaço, já ouvi vocês mais ou menos no ar a lamentarem dificuldades técnicas. Quando vocês falam em dificuldades técnicas que contribuem negativamente, ou seja, para um programa airoso vosso, estão-se a referir a quê? Internet ou o quê?

DC: Também. A internet é um problema, não é? Porque nós temos um limite de transmissão que com a internet ajudar-nos-ia a irmos mais longe, passaríamos do nosso limite mas, claro, de forma legal. A outra questão é a questão técnica interna, não é? Porque a gente quer ir um pouco além do habitual, conforme a gente fala ‘nos bairros’, ir aos municípios, há muitos músicos nos municípios que não conseguem chegar até aqui. Então queríamos ser nós a chegar até lá. É um pouco isso.

Angodebates: Há uma queixa generalizada, embora depois oficialmente ninguém a assuma, que as rádios locais não têem feito o suficiente para a divulgação das músicas locais. Concorda com essa apreciação?

DC: Não concordo. Não concordo porque eu tenho estado, ou antes do karaoke, fiz também durante muito tempo o programa “Aiué, Sábado”, com a pessoa do Ekumby David e do Rui Fernandes. Fizemos esse trio durante muito tempo e nisso fez-me ter muitas vezes contacto com músicos e produtores. A questão é que muitos dos produtores não aconselham os músicos a saírem dos estúdios para as rádios. Logo, outros são os próprios produtores – não estou a culpá-los, não é? – que não fazem um pacote de promoção para dar espaço ao músico. Na verdade, as rádios existem, os espaços estão postos. Um deles é este do Karaoke. Nós todos os domingos fazemos o chamativo, todos os domingos pedimos que os músicos venham…

Angodebates: E é grátis ou há uma cobrança?

DC: Não, não! Tudo grátis. Não se paga nada. A nossa preocupação é com a arte, é com a divulgação da cultura, é com o músico, é com a divulgação da música. Mas nos temos [a limitação com] o espaço físico. Por exemplo, a Rádio Morena é só Lobito, Catumbela e outros municípios [do litoral]. Mas quem vai fazer ouvir as músicas do músico em Luanda, no Lubango, no Huambo? Isso não é a Rádio Morena. Nós temos um Blog na internet mas o músico tem que pôr lá o seu trabalho e pedir que as pessoas partilhem. Isso já não é o nosso trabalho. Nós fizemos a nossa parte, mas os músicos, os promotores, os produtores, têem que fazer muito mais. Então não concordo muito com a ideia de que há uma tendência de fechar os músicos.

Angodebates: Vamos voltar a falar, uma vez mais, da sua trajectória profissional. Já se imaginou noutra profissão que não a da rádio, que não a de lidar com botões e sons e engenharia de som?

DC: (risos) Já. Por acaso já me imaginei muitas vezes, também já me aventurei noutras profissões, mas…

Angodebates: (risos) Sempre volta à rádio?

DC: (risos) Sim. Eu dou muitas voltas, até porque nem saio. Já me aventurei por outras profissões, já fiz outras coisas mas nestes dezasseis anos, nunca me desliguei da rádio.

Angodebates: Sei que pratica também desporto. Qual é a sua modalidade? Ou já deixou de praticar?

DC: Não, não. Não deixei de praticar. Minha modalidade é artes marciais. (risos)

Angodebates: Quer dizer, falar consigo é sempre melhor a dois metros de distância? (risos)

DC: (risos) Não, nããão. (risos) É defesa pessoal só. Sabes que é para exercitar a mente e o físico. Só para manter a forma, não é para atacar.

Angodebates: Obrigado.
Reportagem: Gociante Patissa | Benguela, 02 Julho 2017

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