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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

ORATURA: ruídos que se perpetuam no tema "sakatindi" do cancioneiro ovimbundu, grupo etnolinguístico angolano de origem bantu

Enquanto vinha para o serviço esta manhã, servia-me de companhia a emissão matinal da Rádio Mais. Entre um tema e outro, surge a voz de Diabick, o nosso lobitanga que se encontra adoentado em Luanda. A música "Ene a manu" adopta também a animação "Sakatindi", do cancioneiro Ovimbundu, grupo etnolinguístico angolano de origem Bantu.

Sakatindi é uma dança tradicional com toques sensuais, umbigada, mais ou menos como na dança rebita, onde os integrantes da roda a dado momento se encontram aos pares (homem/mulher). A palavra Sakatindi, não me ocorrendo por enquanto sinónimo, diria que funciona um pouco como interjeição. Mas por que carga d'água venho agora com esta ladainha?

Ora, há uma passagem da canção que sempre me soou a ruído. E todos os artistas que adoptam a canção, e olha que não são poucos, caem no "erro" de pronunciar "ukãyi wanjepele, ukãyi wanjepele, ulume ocitende". Traduzindo, "a mulher da Isabel, a mulher da Isabel, o marido é parvo". Não faz muito sentido, já que Njepele é Isabel em Umbundu. Foi daí que certo dia interpelei meu avô paterno e xará, que disse tratar-se de uma degeneração de uma máxima Umbundu. O certo seria "ukãyi ka endi epenle, ukãyi ka endi epenle, ulume ocitende", que em português corresponde a "se a mulher sofre nudez, se a mulher carece de roupa, é porque o marido é parvo".

Eis então a letra e tradução livre para o português:

Onguya yange ndasile posamwã (Deixei fora a minha agulha)
yokutunga olonanga (de coser panos/tecidos)
Onguya yange ndasile posamwã (Deixei fora a minha agulha)
yokutunga olonanga (de coser panos/tecidos)

ukãyi ka endi epenle (se a mulher não tem roupa)
ukãyi ka endi epenle (se a mulher não tem roupa)
ulume ocitende (é porque o homem é parvo)
ulume ocitende ongandu yuñwatele (já que é parvo, que o jacaré o ataque)
Sakatindi! Sakatindi! Sakatindi!

Esta é a versão de meu avô Manuel Patissa, que me parece muito mais perto de fazer sentido. Se você tiver outra, não hesite em partilhar.

Gociante Patissa, aeroporto da Catumbela, 11de Maio de 2011

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