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quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Sobre o livro Não Tem Pernas o Tempo, "apenas breves considerações"

Por Cristina Galhardo Amado, Benguela 14 Agosto 2013


Penso que o teu Não Tem Pernas o Tempo, que devorei com agrado em pouco tempo (repartido por duas noites antes de dormir), tem mais características de novela que de romance, não só ou sobretudo pela extensão, mas mais pelo ritmo narrativo, pouca descrição, pouco aprofundamento psicológico das personagens. O narrador facilita, pela sua necessidade (que revejo como influência das narrativas orais), o trabalho ao leitor, como se dispusesse de um tempo algo limitado para contar a sua estória.

Na tua passagem para um género narrativo mais extenso e complexo, de certo modo, pelo número de personagens, situações, linha temporal e espacial, creio que foste muito bem sucedido, conseguiste dar consistência à narrativa, tecendo bem as tramas, indo buscar os fios soltos, para os colocar no sítio justo, no tempo justo. O ritmo é fluído, acelerado, mas constante, o que nesta dimensão mais curta, achei importante, funcionou bem.

Penso que estás em busca da tua voz narrativa na prosa, mais do que na lírica. E contudo, a tua melhor prosa é a lírica. Não, não significa de modo algum que escrevas tão somente poesia. A tua melhor prosa é liricamente cantada. É muito notório no final do livro. O último capítulo distingue-se, naturalmente, de todos os anteriores. É ali que te movimentas, que comunicas com mais beleza.

A escrita é fortemente influenciada pela tradição da literatura oral, como julgo ser tua intenção (consciente?).  Acredito que neste ponto, te exercitas ainda, e que terias a ganhar com um uso da pontuação e estruturação frásica que possa moldar de forma mais consistente o teu estilo, que só a ti pertencerá. Penso que mesmo com esse fio precioso que leva à raiz da oralidade, a leitura que teimas em adiar iria ajudar muito. Muita leitura. Mas como fazer se não te apetece e se ainda assim realizas – e bem - teus intentos? J Talvez então o teu trilho seja outro, um trilho estranho para um escritor, que geralmente lê muito.


O protagonista é um amálgama complexo. É o jovem escritor, és tu em momentos, até nos detalhes da passagem pela profissão de fotógrafo. É o angolano sonhador e honesto. É o angolano imaturo, também, o que não resiste em abusar da posição que obtém. Ao contrário do que sucede na realidade, porém, não resististe tu em castigá-lo. É a própria Angola, um emaranhado tremendo, tão denso e profundo, com o bom, o mau, o maravilhoso, o horrendo, que ora se apresentam distintos ora, como parte do emaranhado que são, se confundem e nos confundem, continuamente…É o angolano que se reinventa à força.  É, também…a Angola minada, que perde membros, e ainda assim caminha.

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