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terça-feira, 20 de agosto de 2013

Crónica: O tempo, preso a si, se mutila

J. Patrocínio
Nota: Este é o texto vencedor da primeira edição do Concurso “NÃO TEM PERNAS O TEMPO”

O meu kamba Patissa atirou para o tempo que não tem pernas, o espicaçar de se estar. Não li o Não tem Pernas o Tempo, nem acompanhei as dikas do meu manão. Acompanhei, isso sim, o comentário da Cristina, divulgado pelo próprio Patissão. Tal como o “Tempo”, também a “Liberdade”, enquanto um é a outra e a outra sendo o um, sem pernas nem existência, me atirei livre para aqui, asas soltas embriagadas:

Assim começo!

O tempo, preso a si, se mutila, curtindo-se, no infinitamente pequeno do permanentemente imutável. O tempo não passa, nem se recorda, não vive saudades nem sonhos futuros. Não se há passados nem se constroem amanhãs, nas florestas que se brotam nos desertos à beira-mar. Se desgasta tão-somente, na sua ditada essência.

Faz-se inventá-lo e deixa-se usar, que nem inocente, como dogma de medida, de percurso, de processo. Sorri tonto para nós, que nem poema de Fernando Pessoa na boca de Maria Bethânia. “Vivemos juntos os dois como a cor do íntimo”.

E ele se desliza nas histórias e embala o ser criança. Dá corpo a bichos e a rainhas, dá força a guerras e a revoluções. Se tinge de cansaços e se camufla de ilusões. Se aberra de importância, se enche de números, letras, frases e constelações. Se faz pai de si próprio e se transforma em espaço, em distância, e em sua própria medida.

Enquanto ele se faz, se é, efemeramente presente, se debota de murcho, nas pétalas que se coloram castanho, enchendo o redor duma jarra qualquer, num canto, por cima dum naperão bordado por mãos que ansiavam tocar na imagem sempre sonhada, de seu príncipe encantado.

Transforma o aveludado da delicadeza das mãos em rugas profundas dum rosto que se esquiva do espelho, imaginando-se abstrair dos sonhos apunhalados, espezinhados, mas mal enterrados em alguma parte do eu.

Domina, que nem sombra, do cimo da sua inexistência, sociedades, reinos, economias e mercados, aprisionando as almas aos anseios e à peça que sempre se mantém em cena, onde todos são actores, figurantes e cenários, acreditando que dirigem seus indomináveis roteiros. No vazio da sua presença se engrandece no controlo da rotina do embriagado da noite numa ruela qualquer. Monta artimanhas, no egoísmo de um banqueiro que se engole pelo cheiro do dinheiro, fazendo-se estratagemas, iludindo-o em prazeres. Cria confrontos à beleza que nem limbo que se cola e descola na actriz que passeia sua peruca loira dentro de saias e vestidos, flashes e entrevistas, sorrisos tão bem treinados, escândalos e noivados, entre ser grande e o seu próprio desaparecer. Dilui-se como maldade nas leituras dos curiosos, das vidas do alheio.

Sem pernas, o “Tempo”, enfeita-se dum sorriso, duma lágrima, dum palrear de criança, dum chilrear longínquo, dum sentimento profundo, dum corpo no corpo perfeito, no corpo duma mulher. E assim, sem pernas, o “Tempo”, se enterra no próprio tempo em que ele mesmo se existiu, onde ele mesmo se nasceu!

Por José Patrocínio, Lobito 16 Agosto 2013

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