Edição angolana do livro de contos

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PONTOS DE VENDA

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sábado, 2 de junho de 2018

Crónica | Vida de marginal hoje em dia não está fácil, quanto mais a do polícia…

Cartoon de autor não identificado
Prece solidificar-se a entrada para um ciclo, quando muito quinzenal, de termos de fazer uma tomada pública de posição, por imperativos de consciência, face aos excessos na relação entre o cidadão e o polícia, com alternâncias no papel de carrasco.

Ainda nem faz um mês que condenarmos a morte do compatriota Zacarias Falso, guarda da União dos escritores Angolanos (UEA), detido em serviço por um comandante policial na sequência do furto da placa electrónica da viatura Toyota Fortuner (da cidadã Lúcia Silveira, durante um evento da AJPD-Associação Justiça Paz e Democracia, que ela preside, albergado no espaço da UEA). Zacarias faleceu depois de dar entrada no hospital, vítima de tortura numa das esquadras policiais na capital, supostamente perpetrada (apenas) por três detidos na mesma cela como consequência de ter negado uma tarefa “doméstica” (uma tese longe de ser convincente). Neste caso, ficou mal na foto a polícia.

Mas é na mesma Luanda que pouquíssimos dias depois se deu um caso também digno de repúdio, só que desta vez estando o polícia na condição de vítima. Em pleno serviço, um agente regulador de trânsito aborda uma viatura e a atitude do motorista é insana. Atropela-o. Encontra-se em situação de saúde crítica. Levantamos logo a voz para condenar tal cobardia, tão lesiva quanto é a violência castrense, tantas vezes denunciada.

No dia dedicado à criança, agitam as redes sociais os três minutos de vídeo amador com uma barbárie institucional. Vêem-se um jovem a contorcer-se, aparentemente baleado, e um agente do SIC (Serviço de Investigação Criminal) empunhando uma AK-M. Este faz uns telefonemas e instantes depois entra outro à paisana, que saca da pistola e descarrega letal e à queima-roupa sobre o alegado marginal, ao que se via, desarmado. O morto aparentava ser de camada social desfavorecida, talvez por isso não se conheça a voz da família.

Isto, precisamente no dia em que o presidente da república, João Lourenço, em périplo pela Europa disse em entrevista à Euronews quanto à violação dos direitos humanos, e citamos, “Estamos a trabalhar no sentido de que isso não aconteça. Nos oito meses da minha governação, não sei se existem casos. (...) estarei atento para que isso não aconteça”, fim de citação.

A execução do alegado marginal, à luz do dia e exposta ao trânsito da zona do Benfica em Luanda, divide opiniões. Uns condenam, outros encorajam uma abordagem enérgica no combate ao crime. O certo é que a história está incompleta. A vítima era assaltante? Só hoje ou andava à monte? O vídeo começa e termina no local do abate. Sugere alguma falta de contexto, porém a crueldade do acto faz ela mesma um contexto. A polícia já emitiu comunicado a condenar a acção do agente e promete medidas disciplinares e criminais.

É útil que condenemos. É também útil que nos solidarizemos com os polícias, de modo geral, apelando para um trabalho dentro da corporação na vertente psicossocial de quem arrisca a vida todas as noites para garantir a tranquilidade da maioria, mas que nem por isso tem as condições sociais minimamente asseguradas; aquele que escapa à morte no dever de capturar um marginal e lida com a frustração de o ver logo de seguida livre por aí, em virtude de a entidade competente, o Procurador, não ver evidência que justifique manter a situação carcerária do suspeito. Caso para dizer que se a vida de marginal hoje em dia não está fácil, quanto mais a do polícia… Ainda era só isso. Obrigado.

Gociante Patissa | Benguela, 1 Junho 2018 | www.angodebates.blogspot.com

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