quinta-feira, 14 de junho de 2018

Crónica | Euforias de ciclo novo?

“A história repete-se, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa” 
(Karl Marx (1818-1883), filósofo e revolucionário socialista alemão.

A agenda política desta semana está a ser animada pela entrevista que o empresário Bartolomeu Dias (BD) concedeu ao jornal Valor Económico, na qual dirige duras críticas ao presidente João Lourenço (JLo), empossado há oito meses. Em causa, o pronunciamento em termos bruscos do PR ao anunciar em entrevista à Euronews que o consórcio Air-Connection, que apelidou de fictício, não irá avançar.

O controverso consórcio, alvo de críticas nas redes sociais e na imprensa independente, entre ela o Correio Angolense e o portal Maka Angola, seria constituído pela companhia de Bandeira, Taag, pela  Empresa Nacional de Exploração de Aeroportos e Navegação Aérea de Angola (Enana) e por operadoras privadas angolanas, algumas delas com a licença cassada pelo Instituto Nacional de Aviação Civil (Inavic) em virtude de não terem conseguido superar as não-conformidades detectadas em auditorias. As acções estavam distribuídas assim:  Taag 30%, Enana 10%, Bestfly 8.57%, Air Jet 8.57%, Air 26 8.57%, Air Guicango 8.57%, Diexim 8.57%, Sjl 8.57% e Mavewa 8.57%.

Com o chamativo título “Governar um país não é como gerir a nossa casa”, BD vê-se aplaudido por ser o primeiro empresário “sem papas na língua” a opor-se às medidas de corte que marcam a estratégia inicial de JLo. Reprova os modos com que o veto foi a anunciado e lamenta o recuo naquilo que seria a criação de mais postos de emprego, precisamente num capítulo em que o país não anda nada bem.

Para os mais atentos, não é de todo a primeira vez que o empresário se posiciona na imprensa em termos algo musculosos, sempre legítimos, para refutar uma posição oficial. Diremos que é uma característica saudável de estar na mídia. Aquando do veto da sua Diexim Express de operar nos céus angolanos por conta das não-conformidades, BD chegou a ameaçar levar o Inavic às barras do tribunal, o que não se sabe se emperrou na lentidão processual ou conheceu recuo. Mas é desta vez, ainda voltando à entrevista ao jornal Valor Económico, que o empresário atingiria o fundo da baixaria, ao empobrecer o seu argumento de razão usando uma narrativa digna de ambientes de bar:

“Não estou a ver o ministro Augusto Tomás, um indivíduo experimentado nas lides de governação, a cometer este erro. O surgimento desta companhia já existe desde o anterior Governo, foi aprovado em Conselho de Ministros e a TAAG não seria sócia maioritária, teria um volume de acções inferior ao conjunto dos privados. Agora, além da especulação, há aquele negativismo do negro porque nós, raça negra, enfatizamos tudo o que é negativo, não somos indivíduos positivistas para desenvolver o nosso continente e país. Queremos sempre destacar o erro dos outros por mais pequenos que sejam, esquecendo os aspectos positivos”, disse BD.

Para bem da nossa democracia (vertentes de participação e liberdade de expressão), seria realmente bom manter-se esta tendência (esperemos que vire cultura) de a classe empresarial tomar posições contra medidas do executivo. Mas muito melhor ainda para a utopia da moralização de uma sociedade com um passivo considerável de promiscuidade, será se houver a mesma coragem de contestar mesmo em dossiês em que não se tenham interesses ou dividendos.

Como alertou Marx, “a história repete-se, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. E a história parece repetir-se. Consta que quando o presidente José Eduardo dos Santos assumiu o poder, viveu-se uma euforia de críticas e "afrontas" por parte de entidades e sectores bem posicionados do aparelho e lobby do presidente Neto (falecido prematuramente), herdeiros em termos políticos de algum capital de poder e legitimidade para impôr pressão, aquela de quem acredita ter uma visão mais assertiva do que a do presidente da república, talvez mesmo mais autoridade do que este. Consta também que aos poucos muitos destes "corajosos" foram ficando fora de foco, criando-se com isso depois uma elite de descontentes e excluídos. Um dos grandes desafios do presidente Lourenço será seguramente o de resistir à tentação humana de repetir o que já sabemos. Ainda era só isso. Obrigado.

www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa | Benguela, 14 Junho 2018
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