domingo, 21 de fevereiro de 2016

Partilhando leituras | A arte de escrever como se fala

Faça um teste: deixe um microfone aberto em uma reunião de amigos. Quando eles forem embora, pegue a fita e transcreva-a. Você vai se surpreender. Ao passar a linguagem falada para o papel, vai descobrir as infinitas repetições, a sintaxe quebrada, as frases curtas e diretas, as expressões inacabadas, as hesitações, os exageros, as palavras provocadoras, o desembaraço e o frescor de nossa maneira de falar quando não estamos cuidando da gramática nem nos colocamos em pose profissional.

É disso que se trata no momento de abordar um roteiro dramático: de reproduzir a linguagem falada, de escrever como se fala. Cada personagem deve expressar-se de acordo com seu perfil, com o estilo próprio da pessoa real que representa. Como se treina para essa arte?

Antes de tudo, prestando atenção no próximo. Ouvindo como as vendedoras argumentam, como um caipira narra, como um advogado filosofa, como as vizinhas cochicham e como os jovens inventam outro idioma... Quem não sabe escutar, também não poderá escrever diálogos dramáticos. Quem não se deixar surpreender por uma frase criativa, por um grafite da rua, por um ditado pitoresco... também não poderá incorporá-los em seu roteiro. Porque a fonte da eterna juventude da linguagem é a boca do povo.

Estamos com o papel em branco. O que fazer? Não escreva nada. Primeiro, escute. Feche os olhos, mentalize os personagens que você mesmo gerou, batizou, repare em seus rostos, em seus movimentos, ouça-os falar, deixe que discutam, que desabafem. Deixe que eles próprios ditem os diálogos. Isso não tem nada de feitiçaria nem exige um esforço exaustivo. Pelo contrário, é divertido. Só é preciso dar passagem à criatividade e brincar de espião de nossa própria imaginação. A primeira pessoa a sentir empatia com os personagens é o próprio autor.

Há quem prefira começar rabiscando em um papel, outros vão para a frente da máquina de escrever ou do computador. Questão de hábito. Seja qual for a maneira de redigir, o importante é não se conformar com o primeiro rascunho. Nem com o segundo ou terceiro. Uma coisa que ajuda muito a dar leveza ao texto é lê-lo em voz alta. Vá modificando o diálogo escrito ao ritmo de sua interpretação falada. Você deve ser o primeiro ator do seu drama.

Escrever escutando os personagens. Essa norma facilita a redação do roteiro e a posterior interpretação. Nenhum ator salva um texto rígido, um diálogo empertigado e livresco.

José Ignacio López Vigil, in «Manual Urgente Para Radialistas Apaixonados», Pág. 124. Edição Paulinas, 2004. São Paulo, Brasil. 
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