quinta-feira, 18 de abril de 2019

Crónica | Como se já tivesse lido Garcia Márquez


Cada alma é um caminho ao serviço do universo. E quando conhecemos outras localidades, pelos próprios pés ou pelos livros, passamos a ser estradas com mais de um sentido. Nunca mais somos os mesmos a cada ciclo de viagem que se completa. Viajar é, por isso mesmo, elevar-se à altura do tempo — escrevi eu mesmo no livro Não Tem Pernas o Tempo (*).

O fenómeno linguístico representa um manancial de surpresas, onde as margens entre culturas são cada vez mais e somente imaginárias. Por coincidência, sobre isso mesmo escrevi hoje, em resposta ao questionário de um importante jornal a respeito da morte do escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez (1927-2014), nas linhas que se seguem.

Sabe que a grandeza de um escritor é sempre algo de relativo, tendo em conta o poder do lobby editoras-imprensa-academia e a tendência das elites em impor modelos. Ou seguimos a onda dos «cânones», ou nos arriscamos ao politicamente incorrecto, ainda mais em alturas melindrosas, como é o pós-morte. Felizmente, há algo de tangível a apontar na primeira pessoa.

Num dos convívios na UEA, certo confrade (julgo ter sido João Tala) que tinha lido o meu livro de contos, A Última Ouvinte (**), disse-me em saudável tom de mais-velho ter achado alguma influência latina naquela obra minha. Daí ter questionado quais os autores latino-americanos que eu tinha lido ou em cuja obra me revisse.

Não sei descrever a minha emoção na altura, mas adianto que positiva não foi, pois eu me identifico como recolector de tradição oral africana, um Bantu com vivência rural na infância, portanto mais inclinado para um José Samwila Kakweji, Roderick Nehone, Uanhênga Xitu, José Luandino Vieira (que muito li, já com o fim de pesquisar para o apuramento estético do manuscrito antes de o submeter ao confrade Adriano Botelho de Vasconcelos, meu primeiro editor de prosa).

De Portugal, tinha gostado de crónicas de Lobo Antunes. Mais conversa, menos conversa, repeti-lhe a convicção de ser um ecléctico, que lê tudo de todos, não tendo como tal ídolos. Veio dali a sugestão de ler Memória de Minhas Putas Tristes, o qual consumi com imenso agrado na versão electrónica PDF. A isso, seguiu-se a leitura de umas tantas recensões e resumos.

Devo dizer que, como linguista e poliglota, é sempre com certa apreensão que embarco na leitura de obras traduzidas, já que «alguma poesia é perdida na tradução». Acabou sendo uma experiência memorável, conviver com o velho em conflito entre o apetite sexual e a moral, pois a rapariga tinha idade para ser sua neta, pelo que vai adiando a oportunidade do tal envolvimento até que, por fim, tenta... mas ela deixara de ser virgem neste intervalo. Gabriel Garcia Marquez, pelo menos neste único livro que li dele, consegue usar a trilogia do jornalismo: claro, correcto e conciso. É das coisas que mais aprecio, a capacidade de ser profundo sem se exceder no floreado ou em quilométricos fios narrativos. Gostei da trama, da frontalidade, do sentido de observação, da estética.

Lido o livro, e quando rebusco a interpretação do confrade que julgava haver nos meus textos (de auto-didacta) uma influência latina, prevalece um... ora, ainda bem! 

Benguela, 20 Abril 2014

Gociante Patissa, in O apito que não se ouviu. Pág. 52. UEA - União dos Escritores Angolanos. Luanda, 2013
________
(*) Pág. 32, UEA - União dos Escritores Angolanos, 2013. Luanda, Angola
(**) UEA, 2010. Luanda, Angola
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