PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Diário de um turista incompreendido

Miradouro da Lua
Viana, via expressa. Uma pausa. Recepção de hotel (o nome e a categoria metaforizam o gato que se remira ao espelho e se acha leão). É o primeiro que aparece, pronto. Toda a saída é um milagre, quando se está na aflição! Desidratação e fraqueza confundem-se, o sol se pondo. Urge ocupar um quarto (uma sanita, para ser franco), não vá a disenteria impor-se, como das três vezes que ousou nos quase 600 Km entre Lobito e Luanda.

“Vocês têm quarto?”
“Sim, temos.”
“O mais barato que tiverem.”
“Quatro mil.”
“Pode ser este mesmo."
“Para quantas horas?”
“Para sair amanhã.”
“Ah, não é esse preço.”
“Então quanto é?”
“Pensei que é só para horas.”
“Não, vou sair amanhã, como disse.”
“São 14 mil kwanzas, incluindo o pequeno-almoço."
“Pronto, seja como for.”
“Pode pôr o carro na esplanada, é onde estão os quartos.”
“Vou pagar para ir de uma vez.”
“Ah, o senhor está acompanhado e não quer que a gente veja a dama, né?”
“Não, por acaso não estou.”
“E vem mesmo dormir sozinho no Hotel?”
“Sim.”
“Está a trabalhar?”
“Não, sou turista. Vou dormir e penso seguir amanhã para o Bengo e depois Uíge.”
“Fulana, ouve essa. O senhor está a mentir. Quem vai dormir num hotel, hoje mesmo, DIA 14, dos namorados, sozinho?”
“Estou a dizer.”
“Mas vai fazer o quê no Uíge, terra dos meus pais?”
“Vou conhecer. Minha missão é visitar lugares, fotografar e divulgar.”
“Então, é trabalho, não?”
“Quer dizer, eu tenho um emprego onde recebo salário, mas gosto e posso fazer outras coisas, sem ser por dinheiro”.
“Então, é um trabalho espiritual, tipo da igreja, né?”
“Pronto, agora posso ver o quarto?”
“Sim, mas aqui é raro. Esses quartos todos mesmo, é gente que vem curtir. Há clientes que nem vêm no refeitório, escondem, deve ser mulher alheia. O senhor é o primeiro que ocupa quarto, sozinho, não vem curtir nem trabalhar, é só mesmo tirar fotografias.”

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