“Cada alma é um caminho ao serviço do universo. E
quando conhecemos outras localidades, pelos próprios pés ou pelos livros,
passamos a ser estradas com mais de um sentido. Nunca mais somos os mesmos a cada ciclo de viagem que se completa. Viajar é, por isso
mesmo, elevar-se à altura do tempo” (escrevi eu mesmo no livro Não Tem Pernas o
Tempo, pág. 32, UEA - União dos Escritores Angolanos, 2013).
O fenómeno linguístico representa um manancial de surpresas, onde as margens entre culturas são cada vez mais e somente imaginárias. Por coincidência, sobre isso mesmo escrevi hoje, em resposta ao questionário de um importante jornal a respeito da morte do escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez (1927-2014), nas linhas que se seguem.
Sabe que a grandeza de um escritor é sempre algo de relativo, tendo em conta o poder do lobby editoras-imprensa-academia e a tendência das elites em impor modelos. Ou seguimos a onda dos "cânones", ou nos arriscamos ao politicamente incorrecto, ainda mais em alturas melindrosas como o pós-morte. Felizmente, há algo de tangível a apontar na primeira pessoa.
Num dos convívios na UEA, certo confrade (julgo ter sido João Tala) que tinha lido o meu livro de contos, A Última Ouvinte (UEA, 2010), disse-me em saudável tom de mais-velho ter achado alguma influência latina naquela obra minha. Daí ter questionado quais os autores latino-americanos que eu tinha lido ou em cuja obra me revisse.
Não sei descrever a minha emoção no momento, mas adianto que positiva não foi, pois eu me identifico como recolector de tradição oral africana, um Bantu com vivência rural na infância, portanto mais inclinado para um José Samwila Kakweji, Roderick Nehone, Uanhênga Xitu, Manuel Rui Monteiro, José Luandino Vieira (que muito li já com fim de pesquisas para o apuramento estético do manuscrito antes de o submeter ao confrade Adriano Botelho de Vasconcelos, meu editor).
De Portugal, tinha gostado de crónicas de Lobo Antunes. Mais conversa, menos conversa, repeti-lhe a convicção de ser um ecléctico, que lê tudo de todos, não tendo como tal ídolos. Veio dali a sugestão de ler Memória de Minhas Putas Tristes, o qual consumi com imenso agrado na versão electrónica PDF. A isso, seguiu-se a leitura de umas tantas recensões e resumos.
Confesso que, como linguista e poliglota, é sempre com apreensão que leio obras traduzidas, já que "alguma poesia é perdida na tradução". Acabou sendo uma experiência memorável, "conviver" com o velho em conflito entre o "apetite sexual" e a moral, pois a rapariga tinha idade para ser sua neta, pelo que vai adiando a oportunidade do tal envolvimento até que, por fim, tenta... mas ela deixara de ser virgem neste intervalo. Gabriel Garcia Marquez, pelo menos neste único livro que li dele, consegue usar a trilogia do jornalismo: claro, correcto e conciso. É das coisas que mais aprecio, a capacidade de ser profundo sem se exceder no floreado ou em quilométricos fios narrativos. Gostei da trama, frontalidade, sentido de observação, da estética.
Lido o livro de Gabo, e quando rebusco a interpretação do confrade que julgava
haver nos meus textos (de auto-didacta) uma influência latina, prevalece um...
Ainda bem!
Gociante Patissa, Benguela, 20 Abril 2014 (Foto de autor desconhecido)
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