sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

[Oficina literária 37] UMA FAMÍLIA DESVIADA – conto de Júlio Teixeira


A sexta-feira estava com bom aspecto. Ao raiar do sol matinal, a família Sequeira encontrava-se acordada para mais um dia de vida. A mãe, Ivone Sequeira – uma quarentona gestora caprichosa de um corpo requintado colorido feito maboque –, pronunciou as primeiras palavras do seu dia:
– Bom dia, amor! Hoje passarei a noite na igreja, temos vigília.                                                     
– Ok, amor! Ore por mim. – dizia ironicamente o marido.  
– Tá bem, farei isso, querido!                                                                                                  
– Eu também chegarei tarde. Esses dias há muito trabalho lá no serviço...

A mãe era uma senhora bastante religiosa, maviosa e conselheira. Já o pai – de 48 anos de idade, mussolovela, big, bumbo, e calvo –, era descrente, mafioso e mulherengo. Desde jovem achava que a honra e o valor do homem está em conseguir mulher. Para ele, quanto mais, melhor.

Quando eram 7:20 minutos, a linda e preenchida sala de estar daquele apartamento era o espaço do espaço caseiro onde os três membros estavam. A mãe, toda apressada, deixava o espaço em direcção ao serviço, sem mesmo ter matado o bicho. Ao mesmo tempo, a filha despedia-se do pai, dizendo:
– Pai, hoje chegarei tarde. Terei grupo de estudo com as colegas.                                               
– Ok, filha! Juízo, porta-te bem!                                                                                    
– Sim, pai. Tchau!

Sozinha em casa, o pai fez uma ligação a alguém, cujo contacto em seu telefone estava gravado com o nome de Electricista”.

Depois das aulas – no IMIB –, a filha, Cristina – moça de 19 anos, morena arqueada, altura de modelo, dona dumas bundas típicas dos últimos tempos –, foi vista a entrar no carro de um senhor barrigudo, inundado de cabelos brancos.

Incrivelmente, quando a lua substituía o sol, o famoso Morena Beach tornou-se num espaço multifacético: lugar de estudo da filha, local de serviço do pai e de culto da mãe. Sebastião foi o primeiro a chegar, bem ou mal acompanhado de uma novinha, uma dessas aí profissionais em roubar marido. Ivone e Cristina entraram quase ao mesmo tempo, sem, portanto, se darem conta. Depois de aproximadamente 18 minutos, os dois pares de “casais” cruzam-se: mãe e filha avistam-se. Sebastião, na tentativa de sair com sua nova amante – a novinha Neide, tal suposta Electricista –, sem querer, junta-se ao espetáculo familiar.

Deu-se assim um grande escândalo: A mãe divertia-se prazerosa e anti-pedagogicamente com o professor da filha – esta nunca teve negativa em disciplina alguma, facto que espantava os demais colegas; a filha andava com o chefe do pai, motivo que fez o pai ter constantemente aumento de salário; e o pai andava com a melhor amiga da filha, razão pela qual estava sempre ‘‘distante’’ do lar, pois estas Electricistas’’ trabalham com pré-pago; sem dinheiro deixam seus consumidores às escuras.

Glossário:
Mussolovela: termo umbundu que quer dizer alto, comprido;
Big: expressão inglesa que significa grande, volumoso;
IMIB: acrónimo de Instituto Médio Industrial de Benguela.

SOBRE O AUTOR

Júlio Novady Dimas Teixeira é um jovem benguelense que adora e sempre adorou escrever, pois desde cedo já brincava com as palavras. É filho de um médico contador de histórias e de uma professora de Língua Portuguesa. Seu maior sonho é ser escritor, razão pela qual fez Língua Portuguesa/EMC na EFP-Benguela, e actualmente frequenta o ISCED, especialidade de Linguística/Português.
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