quinta-feira, 14 de março de 2019

Crónica de Germano Almeida | RACISTAS OU NEM POR ISSO?


Foi nos inícios dos anos 60 do século passado, certamente por pressão dos movimentos independentistas e urgente necessidade de provar ao Mundo que éramos todos, brancos, pretos, amarelos, mulatos e companhia, todos iguais perante a Nação, que Portugal começou a integrar os naturais das ex-colónias nas tropas da Marinha. E lembro-me de um navio de guerra português que fundeou no porto da vila de Sal-Rei donde desembarcaram uma quantidade de jovens negros, bem tratados e fardados de um branco impecável e imaculado, e que saíram a passear e conhecer as ruas da vila. Quando passaram pela nossa casa a minha mãe viu-os e chamou-nos, Venham ver uns pretinhos de guerra a passar! Fomos ver. Eram muitos e rigorosamente fardados e bonitos, passeando em fila quase militar, sorrindo para nós, cumprimentando alegres. Depois que ficámos só nós, disse para a minha mãe, Mas espera, tu também és preta! Não, respondeu sem hesitar, nós somos cabo-verdianos.

Os cabo-verdianos em geral sempre tiveram alguma dificuldade em aceitar a sua condição de negro. Há muitos exemplos históricos a comprovar essa asserção, alguns bem caricatos como o caso de um administrador da ilha do Maio no século 18, negro como um carvãozinho, mas que se apresentou como branco a estrangeiros que visitaram a ilha. Pode ter sido o conhecimento dessa fraqueza nacional que levou Baltazar Lopes, no prefácio a Aventura Crioula de Manuel Ferreira, a afastar a nossa eventual condição quer de africanos quer de europeus, para sem mais nos afirmar orgulhosamente cabo-verdianos. E dentro dessa linha de pensamento, costumo defender, sem qualquer fundamento científico, é verdade, a existência de mais uma raça, a juntar-se às já existentes, e que é a raça cabo-verdiana.

Penso que se alguém com capacidade e conhecimento e vontade, pegasse a sério nesse postulado, bem perfeitamente que sem grande esforço poderia reencher o novo conceito de mais uma raça no mundo, a cabo-verdiana, caracterizando-a como tendo sido historicamente composta por todas as raças e culturas que aqui aportaram e se juntaram e se misturaram e se multiplicaram e acabaram criando raízes e se espalharam pelas ilhas todas, todos moldados por uma terra onde tiveram que quebrar pedras para inventar comida e que manenti manenti não se acanhava de os matar à fome.

Ora aconteceu que na sua intervenção parlamentar durante a reunião da Assembleia Nacional a deputada por África, eleita nas listas do PAICV, discutindo a mobilidade e integração na CEDEAO, insurgiu-se contra o tratamento que considera discriminatório a que viu serem sujeitos os africanos que pretendem vir para Cabo Verde, com exigências que considera vexatórias, e concluiu que até se poderia classificar isso tudo como discriminação racial.

Foi um deus-nos-acuda! Imediatamente os deputados apoiantes da situação e que estavam sentindo o Governo acossado, logo agarraram o mote e não mais largaram o osso. Racismo não! É grave acusar as pessoas de racismo, porque o cabo-verdiano, o povo cabo-verdiano, não é racista. Mas o mais grave é o PAICV, os deputados do PAICV, ouvirem essa afirmação atentatória da dignidade nacional sem reagir, aceitando de facto uma situação que deixa de rastros o povo cabo-verdiano…

De modo que a dúvida está lançada, e como não há não que não contenha um sim, vamos aguardar pelos próximos capítulos a ver se sim ou não somos racistas ou simplesmente cabo-verdianos.

In revista África21, Nº 137, pág. 58, Luanda, Angola - Março 2019 
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