quarta-feira, 25 de julho de 2018

"O TIRAR DE DENTRO PARA FORA" DA EDUCAÇÃO: uma análise crítica da prática pedagógica de alguns professores com base no conto "AS DEFINIÇÕES DO PROFESSOR KAMBUTA COMUNAL", do escritor Gociante Patissa

Por Octaviano Lucas Francisco (sociólogo)

Já vejo, logo de início, a necessidade de pedir desculpa ao meu querido leitor pela extensão do título do presente texto, porém, paradoxalmente, não o farei - tenho as minhas razões!

A educação (formal) é algo com que o professor lida todos os dias. E seja qual for a disciplina ou área do saber, o professor encontra o grande desafio de ensinar os estudantes a aprenderem definições. "Definições", eis a palavra que é o núcleo do conto "As definições do professor Kambuta Comunal", do escritor Gociante Patissa, autor do ilustre livro "Fátussengóla, O Homem Do Rádio Que Espalhava Dúvidas". É precisamente nesta obra literária em que encontramos o conto referenciado anteriormente. O conto, "As definições do professor “Kambuta Comunal", é um texto literário, cujo narrador é homodiegético. Escrito numa linguagem livre em discurso indirecto livre, em parte. 

A narração evidência a história desse protagonista, o "professor Kambuta Comunal (…) É neste movimento de lá para cá que as lições da narração são evidenciadas.

Análise sociológica ao enredo do conto 

Em uma das partes do enredo do conto, o narrador faz referência a um dos aspectos singulares de "Kambuta Comunal" que, do ponto de vista sociológico, entendo ser um aspecto critico em dois sentidos para a prática docente da maior parte ainda dos nossos professores em Angola:

1.° Kambuta Comunal, enquanto professor, tinha o hábito de definir os conceitos com maior liberdade e dando nova roupagem conceptual aos termos e expressões. Na verdade, é essa dinâmica que falta ao nosso ensino, quiçá, principalmente, no ensino superior, onde poderia haver maior liberdade, tanto em professores quanto em estudantes, de criar novos conceitos... sair da teoria à prática, da prática à teoria. Essa deve ser uma missão do próprio professor. Estimular a seus estudantes a criação do novo a partir do já existente. Não se pode ficar estático a "engravidar" de teorias os estudantes quando eles, em tempo integral, não conseguem "parir" novas teorias ou dar nova roupagem conceptual a termos e conceitos.


2.° Levando em conta o hábito do professor Kambuta Comunal, o narrador tece uma crítica que, do ponto de vista sociológico, se consubstancia numa crítica social à prática docente de muitos professores: "os mais comuns dos professores não vão com definições além do livro." - diz o narrador. 

Essa é a realidade da prática docente de muitos professores: um ensino livresco, à base da reprodução directa do que os outros já escreveram (o que não é, de todo, um mal, mal é por ser reprodutiva e directa). E, ao assim procederem, "privam" não só a si mesmos, mas também aos seus estudantes da liberdade de "alcançar lentes menos estáticas, de ouvir a voz da alma" - como diz o narrador de Patissa.

Considerações finais

Em tudo isso, e com tudo isso, uma realidade é evidente da nossa educação: i) é uma educação tendentemente "programadora", onde o professor é o "programador" e o estudante, o "programado" e o conteúdo (conceitos, termos e teorias) o "objecto de programação". Com efeito, torna-se mais uma educação de fora para dentro (educare).

Precisa-se é valorizar-se, inclusive, aquilo que o estudante traz dentro de si. O estudante não é um "dispositivo" sem "memória". Precisa-se de estimular o estudante a tirar de dentro o que tem e trabalhar sobre ele (educere). O estudante não é um robot - tenho defendido.

Referências

Patissa, G. 2014. " Fátussengóla, O Homem Do Rádio Que Espalhava Dúvidas " Luanda: GRECIMA. pp. 61-65.
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1 Deixe o seu comentário:

Angola Debates e Ideias- G. Patissa disse...

CONTRAPONTO DE Mário Ribeirinho Quanta pena tenho de não ter lido o conto...

Como exercício de retórica parece um enunciado válido.
E se a respeito do que sobre o texto literário é dito não me pronuncio, o mesmo não faço relativamente às «considerações finais».
A respeito delas, creio perceber a intenção do autor, mas não fica claro o alcance do que sugestiona.
No primeiro parágrafo dessas considerações, percebo a metáfora da informatização do ensino, mas «educare» não é, como diz o autor, um processo que se promova, pela etimologia do termo, de fora para dentro... é o seu contrário (ex- duco -> conduzir de dentro para fora).
Quanto ao segundo parágrafo: na verdade os estudantes (mas apenas alguns, não muitos, infelizmente) não são entidade anódinas, carregam consigo (e aqui talvez haja divergência) competências e, não tanto, saberes que os professores devem ou deveriam explorar, Porém, não se pode exigir que o estudante «tire de dentro de si» o saber que nunca adquiriu.
De facto o conhecimento não é uma realidade estática e muito menos dogmática; e a escola é apenas um dos muitos lugares onde ele se pode CONSTRUIR.... e, admito, a partilha de saberes é a fórmula mais interessante para tal construção... o problema que se coloca é o de quem tem saberes para partilhar... e se quem o tem é suficientemente humilde para o "oferecer" e não um avaro que receia perder o seu status se o seu discípulo o ultrapassar.

Vídeo | Gociante Patissa, escritor na 2ª FLIPELÔ 2018, Bahia. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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