Edição angolana do livro de contos

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PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Crónica | Até pensei que fosse ter gosto

MOÇO! Garçom! Não vês que o vosso copo está furado por baixo?! Foste já de vez, é assim?! Ah, desculpa, senhora. Mais um? Sim, uma lambreta, por favor. Branca ou preta? Da minha cor, ó moço. Aliás, duas! A do meu amigo também já está no meio. Até voltares, já era. Está bem, senhora. Duas lambretas pretas então, a sair já, já. Mas, olha, esqueci: não é querer ferir sensibilidades, minha senhora, mas afinal já não temos cerveja preta. Vocês também!… Já agora, e a comida, senhora? Esteve boa, uma delícia, né? Ah, por acaso gostei mesmo muito, muito, muito mesmo da consistência do molho. Até pensei que fosse ter gosto. Ah, quer dizer que não lhe caiu bem a comida? É como falei, moço. Está com muito boa consistência, uma aparência fora de série, que até dá água na boca. Gosto só já é que não tem. Se calhar é por ser a primeira vez que a senhora vem comer aqui. Mas garanto, depois dessa, a senhora será nossa cliente regular. Hum, está bem já… Viste como esses garçons xaxeiros, ó amigo Tomé? Hahaha, o rapaz já ganhou… Sabes, eu até não era de beber, essas coisa de cerveja, vinho e quê. Aprendi mesmo aqui em Benguela. Ai, é? Ya. O meu marido também bebe, mas é assim socialmente, tipo eu. Muito bem. Você então é meu amigo, contigo converso mesmo abertamente. Obrigado! Olha, é assim, desculpa se te incomoda eu estar a manejar o telefone toda hora, é que a maior parte das pessoas que falam comigo é via internet. Não há makas, amiga. Voltando ao assunto, falavas que tenho um sorriso bonito? Sim, tens um sorrir, um falar e uma postura maravilhosa. Eh, amigo, até fico com vergonha… Muita gente fala bem do meu sorrir. O meu marido sabe que você é meu amigo. Sim? Será boa ideia? Quer dizer, não lhe falo bem, bem que você é meu amigo. Sabes que os homens africanos têem essa coisa do machismo, né? Só lhe falo que o Tomé é uma pessoa super, híper, mega fixe, que de vez em quando dá boas ideias. Ah, Ok. Mas você tem que conhecer lá em casa, ser amigo da rua só, me sinto mal. Hum… Não sei… Mas não é por mal que estou a te convidar, mas pelo menos só conhecer a parede, se é que entrar te complica… Ok, amiga, um dia… Ele não é assim de muitos ciúmes. Ok, amiga… O meu ex é que era um pouco diferente. Ah, então este é o segundo casamento, certo? Não, amigo! A minha Ex-relação. Mas sabes como é… a vida. Eu não posso dizer que o actual superou, né?, mas, pronto, cada relação é uma relação. Aí concordo! O meu ex e eu nos conhecemos mesmo assim numa brincadeira. Onde eu estagiava era no caminho dele, onde eu estudava coincidia que era no caminho dele. Ali foi-me dando boleia e aquilo foi fatal. Já era mais velho. Sempre foi mais velho. Eu era uma miúda, sabes? Me sentia muito, muito, muito, mas muito mesmo amada. Praticamente uma princesa. Ele me amava mesmo de verdade. O tio me tratava como uma filha. Não me deixava faltar nada. Assumia as propinas, a renda de casa, o salão, rent-a-car, está a ver, amigo? Se comprasse algo para a esposa e para a filha dele, também automaticamente tinha que haver para mim. Eu nem pedia, sabes? Às vezes eu até dizia que ainda chega, mas ele? Sempre a me dar carinho. Quando viajou para o Dubai trouxe três computadores da Apple, um para a esposa, um para a filha e um para mim. Eu até já tinha computador, mas o carinho dele era impressionante. Aí depois conheci este homem que estou a viver, fiquei maluca e fui dando cortes ao kota. A faltar dois meses para o meu casamento, ele me ligou e falou: porquê que já não estás a te comportar bem, mor? Porquê que não continuas a ser aquela miúda que amo? Vamos voltar só, ya? Garanto que daqui a dois meses tens a chave do teu carro na mão. Oh, Tomé… Você se sente como? Já sabes, nós mulheres, né? Vou-lhe falar que tenho casamento marcado? O tempo passou, ele depois ficou a saber que casei. Ficou triste, mas ainda até hoje falamos, ele liga para saber se está tudo bem ou se tenho alguma necessidade. É, amiga, na verdade, é uma história linda… Olha, a essa hora o marido está a voltar do trabalho, se calhar temos de ir andando, né? Pois. E onde é que te deixo, já que não queres conhecer o meu lar? Aí pelo caminho, amiga, depois apanho kupapata. Ok. Pagas a conta? Sim, amiga, claro!

www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa, Luanda, 23 Julho 2018

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