domingo, 2 de maio de 2021

O MAL DO POEMA (poema inédito)

 O MAL DO POEMA (poema inédito)

 

Ciclos

Do alto de cá, meu camarada

Onde me quedo

Furto as impressões digitais

Ao lençol freático

Na gélida esperança de te apalpar

A mão de semear

A enxada de arar povo

Melhor já

Que em Julho o frio 

Por ventura greta laços

 

Ciclos

O relógio marca

Sete e cinco

De um lado

No condicional

Digo individual

Do outro também 

Sete e cinco

Na aspiração

Telúrica 

Utópica gangrena

Digo 

A ardósia sem giz

Ou tu, camarada

E o colo que não mais há

 

Ciclos

O mal do poema

Meu pai 

É roubar a última sílaba

À lágrima

Depois ainda há Julho

Há o não lugar

Do irmão alfaiate à parte 

 

Ciclos

És sete e cinco

Que dobra

Que te dobra

Bem aventurados 

os que contar

não sabem 

 

Gociante Patissa | Luanda, 01 Maio 2021 | www.angodebates.blogspot.com

 

 

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segunda-feira, 26 de abril de 2021

Henrique Ferreira. Tão cedo, tão duro

Acabo de me aperceber da morte (por suicídio) do senhor Henrique Ferreira (ango-luso), formador profissional que muito nos foi útil ao tempo em que realizei e conduzia o programa semanal de mesa redonda e opinião “viver para vencer”, entre 2006-2011, em modalidade de aluguer de espaço de antena na Rádio Morena Comercial, ao serviço da AJS (Associação Juvenil para a Solidariedade), ONG à qual demos vida ainda na casa dos 21 anos. Uma das dificuldades que a equipa de produção que coordenei enfrentava, como de resto é apanágio em Angola, é convencer as fontes, quer pela cultura do medo (do micro e não só), quer pelo argumento de interrupção da produtividade durante a hora e 45 minutos que se “perdia” em ambiente de estúdio. Henrique Ferreira esteve sempre positivo e de um raciocínio bastante fluído em temas ligados à cidadania, à saúde pública e ao empreendedorismo/vocação profissional. A partida do mentor do centro de formação profissional CFG enluta o Lobito, cidade onde viveu, e a classe empresarial da província de Benguela. Não é assim que se morre, ilustre, tão cedo, tão duro. Eterno abraço

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domingo, 25 de abril de 2021

EMPRESTE MAIS UM COXE DO SEU MEDO (poema inédito)

 EMPRESTE MAIS UM COXE DO SEU MEDO (poema inédito)

 

Elevo-te outra vez 

Não sei se elevo ou rebaixo

Tão ambígua é aura de leitora

Outra SMS interesseira

Não é que me queixe, mãe

minha tão enorme mãe

É só que entre mim e a vida 

Grassa uma noite

Espessa, densa, uma noite, noite 

Não é que algo eu peça, mãe

Minha tão graciosa mãe

Nem te critico as ramelas

O ranho que secou pelo buço da irmã

 

É esta noite que me inquieta

noite caiada de números

Centenas e centenas ao dia

Sei soldar, mãe

Não sei é contar, confesso

Hoje, embrulhado o comer

Sol insinuando Miami Florida

Calcei as chinelas e saí

Levantei-me, corrijo

Em pleno dia caiu a noite

Curto ficou o roteiro

Cinco passos, se tanto

Que passear hoje em dia 

É conforme a luz Sílvia incide

Não vá o breu pegar-nos

A gente veste e se perfuma para caminhar

Da mesa para a cama

 

E a noite não saciada

Infla-se na voragem

De segunda vaga

Dois médicos na eterna viagem

Custa-me admitir, mãe

Por esta capital da máscara ao queixo

Sou o frágil andante

Prendo-me à única armadura 

A bênção, minha mãe

E nada mais lhe peço senão

Que me empreste um pouco 

Um só coxito mais

Daquele seu medo, aquele da kitota

Pode ser que sirva

Pode ser que viva

 

Gociante Patissa | Luanda 25 Abril 2021 | www.angodebates.blogspot.com

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domingo, 18 de abril de 2021

DEVEM OU NÃO OS PORTA-VOZES FALAR PARA A IMPRENSA QUE NÃO LHES SEJA AMISTOSA?

Como formando de comunicação institucional foi interessante observar na prática, hoje, a partir dos bastidores, o media/public speaking em situação de ambiente hostil, tendo como laboratório a Rádio Despertar Comercial FM (pertencente ao partido Unita), com o debate acalorado de hora e meia no programa “Angola e o Mundo em 7 Dias”, onde o painel de quatro elementos esteve integrado por um representante do partido Mpla. Os temas giraram em torno da crise do lixo em Luanda, da situação da Covid, da razoabililidade do termo “doação” do Presidente da República para socorrer os sinistrados pela praga de gafanhotos no Kunene, entre outros. Em termos gerais, fez diferença a postura ideologicamente “não engajada” do moderador, que acolheu as chamadas de atenção do participante “isolado” para assegurar que os contendores se cingissem aos tópicos e que fosse concedida equidade no tempo de intervenção. A experiência confirmou na prática a teoria de comunicação institucional segundo a qual os porta-vozes não devem excluir órgãos de informação que não sejam amistosos à sua instituição.

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sábado, 17 de abril de 2021

TRÊS VIDAS PRESSA MULATA QUE AÍ VAI (poema inédito. Para Karina)

 TRÊS VIDAS PRESSA MULATA QUE AÍ VAI (poema inédito. Para Karina)

 

Ia a mulata a passar 

Como gente como nós

Pessoas, só pessoas

Banais existências

Sem notícias

 

Na cabeça da gente

Punhado ocioso

movidos à puberdade

A mulata que passava

Desfilava as culpas com que se cosia

Do cabelo ao pé

 

Aquela mulata que passava

E nos preenchia os olhos

Merecia castigo

Imediato

Sabia-se lá porquê

 

Aquela mulata que passava

Despertando sintomas de Freud

Encarnava carcaça

Do oco sensual TV

Desempatiado militante

Num ano que não era ano

Mundo feito dominó

Guerra biológica não declarada

Microfone pro médico 

Oligarcas no açaime

Coveiros sem folga

E ela a passar assim

Peito erguido

Coxas torneadas

 

Olhem-me pressa mulata que aí vai

Xé! Moça! Doutora!

Aqui vendem vidas sobressalentes!

Quero três

Uma pra mim

Duas prusmôspais.

 

Gociante Patissa | Luanda 17 Abril 2021 | www.angodebates.blogspot.com

 

 

 

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sexta-feira, 16 de abril de 2021

O AMOR É ROUPA DE DOMINGO (poema inédito)

 O AMOR É ROUPA DE DOMINGO (poema inédito)

Da caverna que me cabe espreito

As medidas do mundo

Dois e dois lá vão

Para quem sabe contar

São anos

E dormem e acordam na mesma sombra

Do amanhã nem luz

falseando sábios

Me pus

Taciturno desespontâneo

Derrubam-me as nuvens deste céu

Faltam ombros

Quem dera ao menos caber num palavrão

Foda-se, todavia!

Conheço o amor

Como conheço o fundo da noite

O amor é roupa de domingo

Se adquire

Lava

Engoma

E pendura

Contando para o dia

O próprio dia

O amor é

A camisa

As calças

A blusa

A saia

Botão que desprega

À porta da festa

A nódoa na lapela

O rubro na veia

Temerário

O amor comparece 

O amor falta

O amor é que sabe

Salva selva

Ouve tudo menos conselhos

Fosse o amor tecido

Como se tecem os sentidos

Um pouco mais seria

Que roupa de saída

Investimento privado

Dívida pública

O amor é só mesmo isso

Isso tudo

 

Gociante Patissa | Luanda, 16 Abril 2021 | www.angodebates.blogspot.com

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segunda-feira, 12 de abril de 2021

ABERTAS INSCRIÇÕES NO PRÉMIO IMPRENSA NACIONAL DE LITERATURA

O Prémio Imprensa Nacional de Literatura foi instituído pela Imprensa Nacional – E.P com o objectivo de valorizar o talento nacional e promover a divulgação de obras de autores desconhecidos no mercado literário angolano.
Mediante este Prémio, augura-se proceder à selecção de obras inéditas e com elevada qualidade em termos literários nos *domínios do romance, da poesia e do drama (teatro),* *escritas em língua portuguesa, cujos autores devem ser cidadãos angolanos ou estrangeiros residentes em Angola há mais de 3 anos.*
*Artigo 1.º*
A Imprensa Nacional – E.P. organiza um concurso para a atribuição do *Prémio Imprensa Nacional de Literatura*, o qual é realizado anualmente.
*Artigo 2.º*
Podem participar neste concurso todos os cidadãos angolanos ou estrangeiros residentes em Angola há mais de 3 anos.
*Artigo 3.º*
O Prémio Imprensa Nacional de Literatura *vai contemplar a publicação da obra laureada e a atribuição de Kz: 500 000,00 (quinhentos mil kwanzas) ao vencedor por cada uma das três categorias.*
*Artigo 4.º*
1. As obras concorrentes devem ser inéditas e redigidas em língua portuguesa. Devem ser apresentadas em duas cópias em papel, no formato A4, e acompanhadas de uma gravação em formato digital, com a dimensão mínima de 80 páginas A4, em Times New Roman tamanho 12 e entrelinha 1.4.
2. As obras concorrentes devem ser assinadas com um pseudónimo do autor.
3. Cada concorrente deve única e exclusivamente remeter para o concurso uma obra.
4. As obras concorrentes devem ser acompanhadas de um envelope fechado, identicado com o título da obra e o pseudónimo utilizado pelo autor para assinar a obra, contendo:
a) Identicação do concorrente: nome completo, identificação fiscal (NIF); endereço completo, endereço eletrónico e telefone para contacto;
b) Declaração assinada pelo concorrente com a menção de que a obra apresentada a concurso é original e inédita, e não foi apresentada a nenhum outro concurso com decisão pendente.
5. Os originais devem ser apresentados na sede da Imprensa Nacional – E.P., Rua Henrique de Carvalho n.º 2 – Cidade Alta, Luanda.
6. Aos originais submetidos em mão, na morada supramencionada, é entregue recibo.
7. Os concorrentes podem também optar pelo envio das obras através da internet, em formato PDF, para o seguinte endereço electrónico: premio.literario@imprensanacional.gov.ao
*Artigo 5.º*
1. A Imprensa Nacional – E.P. designa como elementos do júri entidades ligadas às artes literárias, à docência universitária e à edição de livros.
2. A deliberação do Júri é tomada por unanimidade ou por maioria simples
3. O Júri do concurso tem o direito de não escolher nenhuma das propostas apresentadas e das suas decisões não cabe recurso.
*Artigo 6.º*
1. O período para entrega das obras originais para o concurso decorre de 3 de Maio a 9 de Julho. A decisão do júri é divulgada a 13 de Setembro, nos órgãos de comunicação social, e contempla a designação do trabalho premiado.
2. Caso o dia 13 de Setembro seja um sábado ou domingo, a decisão do júri é anunciada no dia útil imediatamente a seguir à data supramencionada.
3. A abertura dos envelopes das obras submetidas ao Prémio Literário é efectuada a 14 de Julho, em hasta pública, na sede da Imprensa Nacional, pelas 10h00.
*Artigo 7.º*
Os originais são avaliados de acordo com os seguintes critérios:
a) Originalidade (50%);
b) Contributo para a cultura nacional (30%);
c) Respeito pelas características canónicas do género literário (20%).
*Artigo 8.º*
1. Exceptuando as obras que venham a ser consideradas pelo júri para eventual publicação, os originais enviados são destruídos.
2. A candidatura ao Prémio Imprensa Nacional de Literatura implica a aceitação do presente Regulamento
*Artigo 9.º*
1. A partir do momento da entrega da obra para o concurso, a Imprensa Nacional – E.P. torna-se detentora do trabalho premiado, cujo autor cede gratuitamente os respectivos direitos de utilização e autoriza, em regime de exclusividade, a Imprensa Nacional – E.P. a publicar em língua portuguesa, divulgar, utilizar, explorar e editar, por conta própria, a referida OBRA, em primeira edição, que terá uma tiragem máxima de 1.000 exemplares, bem como a proceder à sua comercialização em todo o mundo.
2. Em caso de reedição da obra referida no número anterior, a Imprensa Nacional – E.P. paga ao respectivo autor, a título de direitos autorais, uma remuneração correspondente a 10% (dez por cento) sobre o preço de venda ao público dos exemplares efectivamente comercializados.
*Artigo 10.º*
1. O autor premiado deve aceitar que a Imprensa Nacional –E.P. proceda a uma revisão literária dos originais, na qual sejam eliminadas todas as incorrecções ortográficas ou gramaticais, e resolvidas as inconsistências com as normas de estilo adoptadas para a publicação do Prémio Imprensa Nacional de Literatura.
2. O autor premiado disponibiliza-se a examinar eventuais sugestões, que contribuam para a melhoria e claricação do texto, que lhe sejam submetidas para apreciação e aprovação.
3. Os casos omissos são resolvidos pelos membros do Júri em colaboração com a Coordenação do Prémio e o Conselho de Administração da Imprensa Nacional – E.P.
Inagem: O País
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segunda-feira, 22 de março de 2021

Crónica | UMA NOVA GUERRA QUE O INTERIOR NÃO INTERIORIZA

Abracei no prolongado o convite do mano Lauriano Tchoia para conhecer Nambuangongo, Bengo


província, primeira região militar dos anos de Angola guerrilheira. Ia ser outra aventura sem compromisso. É como prefiro conceber as deslocações ao interior onde não se pode esperar muito em termos de alojamento e serviços. O turismo vale mesmo só como colírio para os olhos intoxicados da city.

 

Conforme a baixa cinzenta fica para trás, ganha lugar o verde incitado por uma chuva que procura desmentir os efeitos da estiagem, na ordem dos três meses, que já tanto empobreceu famílias e mercados. Cacuaco dilui as fronteiras de Luanda pela vívida clorofila, o verde da diversidade vegetal que se estende e é de encher os olhos.

 

Não tarda, é Caxito (podia bem ser Coxito). A capital da província abre as portas mas não se deixa atravessar em linha recta, tapumes e contornos vibram em nome de um programa de investimentos públicos que soa PIIM. Salta à vista a disposição de agentes da polícia num só local. Está explicado. Há manifestação e megafone. Jovens empunham cartazes por um Bengo mais desenvolvido, menos desvios de verbas e por um adeus à Mara, governadora.

 

Deve faltar pouco para chegar, diz-nos o faro, libertos de pesquisa prévia e do GPS. A estrada parece alongar-se de propósito, o serpentear por entre as serras é agravado pelas lombas no asfalto. De quando em vez preenchem o quadrante aldeões que inundam o mercado luandense de mandioca, kizaka e banana, também chineses e serviçais locais da exploração de inertes (alivia notar que ultimamente já não vão os orientais ao volante dos seus pesados camiões). 

 

Volvidas quatro horas chegamos a Onzo, paragem-mercado informal que faz cotovelo para Muxaluandu, comuna sede do município. Aguardam-nos mais 14 quilómetros, diz-nos, solícito, o agente regulador de trânsito (que não existe). A escassos metros, em lareira a céu aberto um comerciante tem dois macacos a assar, seus dentes cerrados. Um terceiro, rosto ensanguentado do procedimento que o neutralizou, beira o lume. Não faltam é clientes para degustarem nacos do nosso “ancestral” darwiniano. Mas logo me reprimo pela instintiva repulsa ao “canibalismo”. Ora, o que difere o macaco do boi e da galinha que degusto e bem?

 

Passamos por Kixiku e na memória a satisfação de trilhar a banda da banda musical Vozes do Nambua. Às 15h fazemo-nos a um quintal com ares de hospedaria, mais de 300 km. Está em obra, especulamos. Ao fundo um senhor, estômago avantajado e outras saliências mais, desmente. Quarto ainda temos. As condições são, digamos, enfim... A fome ronca, não há ali socorro. Somos orientados a ir à praça. E lá vamos nós. Funji de carne de gazela e kizaka. Fiquei-me pela kizaka.

 

Pela manhã, deixamos Muxaluandu onde nos foi vetada a foto de cliché com a Administração Municipal ao fundo. Tirem só na escola, também sai bem, instruiu o guarda em serviço, que à nossa chegada abandonara por uns instantes o posto para ir buscar a sua máscara, por sinal a única que constatamos em quase 12 horas que andamos pelo interior do Bengo. A pandemia da Covid é uma nova guerra que o interior ainda não interioriza, se é que já o fez.

 

Já em Cana-Cassala, 35 km mais para cá, o giro levou-nos à área residencial dos governantes. A um deles, que deduzo administrador-adjunto, perguntamos o significado do nome da comuna, no que foi humilde em dizer que desconhecia e recomendou-nos abordar a comunidade. Fiquei a pensar no que mais o governante não desconhecerá da localidade. 

 

Gociante Patissa | Nambuangongo, 21 Março 2021 | www.angodebates.blogspot.com

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terça-feira, 2 de março de 2021

LIVRA-ME DOS HERÓIS (poema inédito)

LIVRA-ME DOS HERÓIS (poema inédito)

 

Com a tua suprema licença, senhor,

Que te encontre de óptima disposição

Pois só boa, sou a recear, não bastará

Ao fim de tanto estertor

Pais mães indefectíveis servos rogando

Rogando, rangendo os dentes

Impotentes, humilhando-se pela tua glória

até ao último pingo do seu viver

E tu sempre sereno, senhor

Bem-aventurados os que temem por igual

a tua graça e a tua ira

 

Não te combato, senhor

Aliás, quem seria eu

Para além da culpa por herança

Rancorosa do Eden?

Prostrei-me, senhor

Os anos mais inocentes do meu existir

Havias de proteger os meus

Havia rumores de seres justo

Havias de compensar os teus servos

Muito mais não se te podia pedir 

 

Não sei se calejado pela sorte que me deste

Este alvará de tantos ver partir 

Já podemos indagar

Os teus embaixadores em terra não deixam

Quando foi mesmo que perdi a fé?

Porquê?

Na tua omnisciência lá saberás

És grande, talvez grande demais

Demais, demasiado

Excessivamente grande

 

Estás confortável na tua posição, senhor

Fico feliz por ti

O que contar é que não te falta

Como quem contemplou a escravatura

As guerras que perduram

Como perdura o diabo sobre o qual podes

Enfim, o bicho homem à tua semelhança

Em todo o caso, podendo, livra-me dos heróis

Dos corajosos, dos teimosos, dos super optimistas

Do surdo ocasional aos conselhos

Ainda quero viver

ainda que atrás de um açaime cirúrgico 

Que mal sabe dizer se é tecido de facto 

Amém 

 

Gociante Patissa | 2 Março 2021 | www.angodebates.blogspot.com

 

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

O JULGAMENTO DE 1983 (Fragmentos do conto publicado no livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES)


(…) Mbali e Citumba conversavam de tudo e de nada, para não variar, seus músculos celebrando o poder refrescante de uma involuntária quebra da suada rotina de ir ao rio de bacia à cabeça para acarretar água ou de enxada em punho transformando o chão virgem em promessa alimentar ou isso ou aquilo.

(...) Viviam um dia de paz e sossego se tais palavras aplicáveis fossem àqueles tempos, malditos tempos. Até que um homem que ao longe vinha, coxo, de casaco e panos e olondindi nos pés, de quem se esperava saudar, e saudou de facto, deixou as duas cunhadas com os nervos em ebulição. «Mbwatale, nãwã yange! Etali ndasanjuka!» Exclamou ele na língua Umbundu e numa voz projectada com volume e clareza su cientes, para deixar nenhuma sombra de dúvidas. E como traduzir não ofende, o homem disse «Boa tarde, minhas cunhadas! Hoje estou contente!» E continuou seguindo o seu caminho. Via-se-lhe ainda o sorriso rasgado. Parecia feliz mesmo. Que azar!
— A cunhada ouviu o mesmo que eu ouvi?
— Até estou a tremer de medo!
— Isso não pode ficar em branco, cunhada, só se eu não me chamo eu!
— A mim já não faltavam desconfianças. Mas hoje, finalmente, o malandro confessou...
— Mas ele não tinha mais outro caminho para passar?!
— Eu só me questiono: cumprimentou só porquê?!
— Aquilo lá um dia foi cumprimentar?!
— Isso não fica assim, cunhada! Esse homem tem de ser julgado no soba! Se estar contente já era grave, Kawenya tinha conseguido a proeza de pintar com rastilho de pólvora o caminho, desde logo pela estranha maneira com que saudou, com tamanho alheamento aos costumes mais elementares.
(…) O julgamento até já tinha data. O local dispensava indicações. A mais frondosa das mulembas junto da residência do soba é por vocação a sala de audiências, para alguns expediente desconfortável, por serem abertas ao público. Quer dizer, todos sabem de todos.
O soba, ciente do ingrato papel de deliberar sobre causas e temas que muitas vezes não teve a oportunidade de dominar, tinha a seu favor uma técnica infalível: deixar que todos exponham os seus argumentos, pedir a opinião da assistência e só então divulgar a sentença. A principal acusação tinha mesmo que ver com aquilo de andar contente, justo em 1983.
Quando se tem a opinião pública em mobilização crescente contra nós, todos os esclarecimentos só podem ser poucos. Como a estação chuvosa tinha sido fraca, a aldeia vestia-se de carência. Pirão de milho ou de bombó à mesa? Quanto luxo! O povo comia mesmo era pirão de batata-doce, sarcasticamente apodado de alcatrão, dado o tom castanho torrado. Para piorar os males, o frio tem o inóspito hábito de tornar a rama de batateira amarga, de sorte que pouco sabia para conduto. De mal a mal, o caudal do rio andava perto de seco, tornando impossível a pesca continental. O talho do velho Mango no começo até tinha alguma carne, mas só para os abastados, nada tendo de valor os demais (…)
Mbali foi a primeira a tomar a palavra:
— Este ano de tanto acontecimento, o pai Bernardo partiu a perna, a minha filha com pássaro, eu com tala, os kwatchas prometem novo ataque, agora que o pai Bernardo está aleijado, o único carpinteiro confiado em fazer caixões aqui na terra. E vem logo este homem dizer boa tarde, cunhadas, hoje estou contente?!
A assistência desatou aos apupos contra o acusado:
— Wôôô! Que vergonha! Um mais-velho, que devia educar, faz isso?!
— Esse homem é feiticeiro! — condenou Citumba.
— Antes que aconteça outro azar, o soba tem que julgar. Uma pessoa de bem, com tudo o que estamos a ver na comuna, com a lua inclusive a surgir envolta em nuvens de sangue, o frio a queimar as plantas, o homem vai dizer que tem tempo de estar contente?!
O soba viu-se forçado a endurecer a voz de mando para domar a assistência, já embalada numa onda de vaias que só vista. E dirigiu-se ao acusado:
— Ao saudar as suas cunhadas, você sentou-se, procurou saber como estavam a passar, saudou as crianças, como usualmente faz um tio do nosso seio?
— Não, papá. Escapou-me.
— Você sabe que as crianças foram proibidas de brincar zera (seja na escola, em casa ou mesmo no fundo da água), porque zera é saltar batendo palmas, e as palmas foram feitas para celebrar?
— Ouvi, papá.
— Você sabe que este ano não houve casamentos, porque não houve carne?
— Sim, sim, papá.
— Você esqueceu que a Mbali trabalha duas vezes na lavra para ajudar a cunhada, uma vez que o irmão foi cumprir uma missão na frente de combate?
— Não, não, papá.
— Ainda assim, o filho anunciou que foi a tempo de encontrar um ou outro motivo para estar contente?
— Sim, papá. Quer dizer…
Gociante Patissa, in O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, 2018. Editora Acácias, Luanda. Edição brasileira da Editora Penalux, Guaratinguetá, São Paulo, 2017
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Crónica | UM REI DO BAILUNDO À PORTA DA CADEIA E O DESTOAR DA ORQUESTRA

Há qualquer coisa de artificial na “torcida” contra a responsabilização criminal do cidadão investido há


uns anos no poleiro de Rei do Bailundo, de sua graça Armindo Kalupeteka ou Ekwikwi V. Segundo se ficou a saber, o Rei-juiz foi condenado por co-autoria na morte de um outro compatriota, alegadamente condenado no tribunal costumeiro sob acusação de ter enfeitiçado uma neta, sendo que a pena aplicada pela “corte”, cuja letra não foi publicada, fomentou o desfecho trágico numa república que aboliu a pena de morte. Seria ou não o Rei-juiz imputável pelas sentenças? 

 

Aí é que a meu ver está o artificial da coisa. Teríamos de partir do perfil das autoridades tradicionais na sociedade moderna, sua legitimidade, coerência e o âmbito do seu poder. É evidente que o poder real/tradicional não andará muito longe do decorativo, residual e vinculativo em comunidades rurais pouco escolarizadas, fruto do curso de uma ex-colónia antropologicamente corrompida, da guerra civil e dos interesses políticos dos movimentos de libertação. Paixões à parte, se quisermos considerar alguma coerência republicana estaremos de acordo a esse respeito. 

 

Qual é o papel dos sobas, sobetas, sekulus, reis e regedores do ponto de vista de voz junto do poder político nesta república que se assume democrática de direito? É facto que o poder real implica território, identidade etnolinguística, linhagem e discernimento. Hoje por hoje, praticamente a obediência a tais autoridades é facultativa, nalguns casos só sobrevivendo por conta do medo que as sociedades tradicionais têm do feitiço. Diz-se que poder é feitiço. Consoante se teme ou não, podemos ter um pai que obedece e um filho que manda lixar. 

 

Não entrarei nos elementos técnicos da coabitação entre a lei positiva e a lei costumeira, porque em meu entender é injusta a dupla subordinação jurídica só para alguns, se tivermos em conta que todos somos iguais e merecemos igual tratamento. Serão a filosofia oral, a idiossincrasia e o dogma da autoridade critérios bastantes para se fazer justiça? No Monte Belo, a título de exemplo, interior da província de Benguela, abundam casos de pessoas que morreriam sem nunca saldar a dívida que contraíram para pagar as multas pesadas que lhes foram na Ombala aplicadas pelo crime, imaginem!, de terem aparecido no sonho de alguém, o que serve de confissão de bruxos ou feiticeiros. 

 

O que me indigna é o activismo selectivo pela “soberania da cultura ovimbundu”, na tese de que o direito positivo se equipara ao costumeiro, carecendo de peso de hierarquia para responsabilizar uma autoridade tradicional. Como alguém alertou, o cidadão angolano morto, suposto bruxo denunciado pela própria família, não tem nome e direito à protecção pelo Estado angolano? Se foi condenado por crime de feitiçaria, não haveria de ser punido pela mesma via sobrenatural?

 

Enfim, as nossas rádios quase não tocam a música cantada em umbundu, mas isso não incomoda. O direito positivo ou civil não reconhece o casamento costumeiro, mas OK. O cidadão chega à licenciatura estudando a língua portuguesa desde a iniciação mas nunca as línguas nacionais bantu e pré-bantu, e isso não incomoda. Em visita diplomática aos órgãos de soberania, o soba ou rei ou sekulu, defendeu o Ismael certa vez, não tem direito a tradutor como têm as autoridades estrangeiras. 

 

O Estado desenterra decretos da era colonial e impõe a castração das consoantes e semi-vogais W, Y, K da toponímia e perpetua deturpação secular neste campo, mas isso não incomoda. A grafia das línguas bantu anda obsoleta, situação agravada pela existência de dois códigos, o convencional versus o católico, o que compromete a familiarização com as línguas e fomento da produção literária. Isso também não incomoda. A língua portuguesa, factor de unidade nacional, ainda não dialoga e o preconceito faz com que nas instituições oficiais tacitamente se proíba o uso das línguas (em rigor) locais e regionais, mas OK. Ora, se anuímos docemente que as línguas tenham estatuto secundário e se cada língua veicula uma cultura, custa aceitar que as práticas e costumes do mosaico que enriquece o território chamado Angola sejam secundários? Temos modelos que só recorrem às línguas africanas em contexto eleitoral, mas o que incomoda mesmo é que o Rei do Bailundo seja condenado caso apadrinhe sentenças que levem à morte de alguém. A soberania cultural mora só ali. E é fácil juntar-se a esse coro até que o “feiticeiro” da vez linchado seja alguém que amamos. KWENDA CIKAPALAMA!

 

Gociante Patissa | Benguela, 11 Fevereiro 2021 | www.ombembwa.blogspot.com 

Foto: DocPlayer 

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A Voz do Olho Podcast, EP1, Temp 2

Gociante Patissa recita poema "Alugam-se velhos" na RTP África

A Voz do Olho Podcast

[áudio]: Académicos Gociante Patissa e Lubuatu discutem Literatura Oral na Rádio Cultura Angola 2022

Puxa Palavra com João Carrascoza e Gociante Patissa (escritores) Brasil e Angola

MAAN - Textualidades com o escritor angolano Gociante Patissa

Gociante Patissa improvisando "Tchiungue", de Joaquim Viola, clássico da língua umbundu

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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TV-ANGODEBATES (novidades 2022)

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