No curso de Coligação e Advocacia em Direitos Humanos que frequentei durante 12 dias enquanto líder da ONG AJS em Junho de 2001 em Luanda, organizado pela World Learning/USAID, convidando para o efeito perito americano de uma coligação de Chicago com actividade de advocacia social e promoção da democracia, ficou em todos nós uma lição que dizia muito da forma como em Angola se percebia e ainda se percebe o “estatuto de activista”. Num exercício simulado, desenvolvemos advocacia social a favor de uma comunidade que enfrentava um hipotético interesse empresarial em contenda de direito à terra. Ao cabo de duas horas o exercício continuava sem solução. Porquê do impasse? Porque nós jovens activistas, em tese mais lúcidos que a comunidade cujos interesses defendíamos, estávamos tão certos da nossa razão e da força dela que a única via que consideramos era a da ACÇÃO DIRECTA, quando a circunstância recomendava fazer concessões, cooperar. Foi tudo menos o que fizemos, porque nos identificamos de tal maneira com o lado desfavorecido que tomamos por nosso inimigo o outro lado. Cidadania é como no desporto lidar com adversários, não necessariamente inimigos. O activismo é também manifestações, claro, é também emoção e paixão, é afronta mas é acima de tudo questão de estratégia, pelo que nenhuma dessas técnicas deve ser a marca isolada só porque sim. Com aquele impasse no curso, não só perdemos tempo como também se agravaram os ânimos e desgastaríamos a cordialidade. Os activistas têm de saber ouvir, observar as leis (justas ou injustas, enquanto se combate para as alterar), ter consciência de não serem superiores a ninguém e que quem pensa diferente não é inimigo, recuar quando for o caso e acima de tudo estarem prontos para negociar (o risco maior é a tentação de flutuar sobre as núvens do status, o ser-se figura pública, o mártir contundente). Foi este o segredo do sucesso da coligação “Ensino Gratuito, Já”, liderada entre 2001 e 2006 pelo Eng.º José Patrocínio (Omunga, AJS, ADAMA, CICA, CRB), que pode ser um estudo de caso de activismo idóneo, sem deixar de ser incómodo, em Angola e particularmente em Benguela onde a maioria das ONGs integrantes residia. Exigíamos às escolas públicas o fim da cobrança das comparticipações (eufemismo de propinas), cobrança de folhas de provas, bem como a alocação de material escolar gratuito aos alunos e merenda escolar, como estabelecia a Lei de Bases do Sistema de Educação, enquanto parte da gratuitidade do ensino até à sexta-classe. O alvo era o Ministério da Educação que se via a braços com a incapacidade de dotar as escolas de orçamentos, sobrecarregando as comissões de pais e encarregados de educação, muitas delas desprovidas de literacia jurídica elementar para distinguir onde terminava o ónus do Estado e começava o das famílias no processo de ensino-aprendizagem. Organizamos capacitações das comunidades, influenciamos a pauta jornalística com fundamentos legais e consistência, mobilizamos parcerias entre as diversas forças vivas da sociedade para a causa, conduzimos protestos evitando sempre a pessoalização e a radicalização das posições como marca registada. É o meu assobio de hoje ao vento por uma Angola melhor. Pandupandu
quarta-feira, 14 de outubro de 2020
OVILWA YANGE VOFELA (O MEU ASSOBIO AO VENTO) - 6
sexta-feira, 9 de outubro de 2020
Fundação Pedro Calmon lança Prêmio de R$ 7 milhões para Cultura
Os projetos e iniciativas dos segmentos do livro, leitura, memória, bibliotecas comunitárias e arquivo já podem participar do Programa Aldir Blanc, gerido pelo Governo do Estado da Bahia, através da Secretaria de Cultura (SecultBa). O Prêmio Fundação Pedro Calmon foi publicado hoje (08) no Diário Oficial do Estado e visa premiar cerca de 350 propostas, com cerca de 7 milhões reais em todo Estado.
Voltado para os trabalhadores da cultura e para a criação de subsídios para a manutenção de espaços culturais, a Fundação Pedro Calmon (FPC/SecultBa) recebe projetos culturais nessas áreas até o próximo dia 27 de outubro. Sem prorrogação de inscrição, o Prêmio Fundação Pedro Calmon tem objetivo de reconhecer e fomentar as iniciativas culturais da sociedade civil que tenham por finalidade preservar e divulgar o acervo documental; estimular e promover as atividades relacionadas com bibliotecas, assim como, promover ações de fomento e difusão do livro e da leitura nos diversos territórios de identidade do Estado da Bahia
O Prêmio é voltado para o reconhecimento às iniciativas culturais da sociedade civil nos processos de criação, produção, difusão, formação, pesquisa, entre outras expressões artísticas e culturais. De acordo com o diretor geral da FPC, Zulu Araújo, o Prêmio “contemplará todos os trabalhadores e trabalhadoras da cultura. Teremos ações afirmativas em todas as categorias, proporcionando a inclusão plena de nossos artistas, técnicos e trabalhadores”.
Os proponentes poderão apresentar apenas uma iniciativa cultural em uma das categorias contempladas pela FPC. Na categoria Livro e Leitura serão 50 iniciativas premiadas no valor individual de R$25 mil, além de R$2 milhões para apoio a eventos literários. Também serão 50 projetos para Bibliotecas Comunitárias, no valor individual de R$ 25 mil.
Já no campo da Memória serão premiados 200 iniciativas de pesquisadores no valor unitário de R$ 4.250 mil, totalizando um valor de premiação de R$ 850 mil. E na categoria Arquivo, 40 iniciativas de instituições custodiadoras de acervos arquivísticos serão premiados no valor de R$ 41.250 mil, totalizando R$ 1.650 milhão.
Festas Literárias - Estreante entre as modalidades da Premiação, a seleção dos eventos literários que se espalharam por todo Estado, terão uma premiação específica na categoria livro e leitura, no valor de R$2 milhões. Serão dez iniciativas selecionadas e que devem ocorrer entre os meses de novembro de 2020 a junho de 2021 nos Territórios de Identidade da Bahia.
Quem pode se inscrever? – Em atendimento aos critérios dispostos pelo Decreto estadual Nº 20.005, de 21 de setembro de 2020, podem participar das chamadas públicas abertas pelo Programa Aldir Blanc Bahia pessoas físicas ou jurídicas com atuação cultural, e estabelecidas ou domiciliadas na Bahia há pelo menos 24 meses. Grupos e coletivos culturais que não se constituam como pessoa jurídica de direito privado deverão comprovar sua atuação no estado há pelo menos 24 meses.
Programa Aldir Blanc Bahia – Criado para a efetivação das ações emergenciais de apoio ao setor cultural, o Programa Aldir Blanc Bahia (PABB) visa cumprir os incisos I e III da Lei Aldir Blanc (Lei Federal nº 14.017, de 29 de junho de 2020) e suas regulamentações federal e estadual. As ações são a transferência da renda emergencial para os trabalhadores e trabalhadoras da cultura, e a realização de chamadas públicas e concessão de prêmios. O PABB tem execução pelo Governo do Estado, através da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, geridas por meio da Superintendência de Desenvolvimento Territorial da Cultura e do Centro de Culturas Populares e Identitárias; e as suas unidades vinculadas: Fundação Cultural do Estado da Bahia, Fundação Pedro Calmon, Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural.
Acesse para saber mais sobre o Prêmio Fundação Pedro Calmon.
Sobres os Anexos.
Para saber mais sobre a Lei Emergencial Aldir Blanc clique aqui.
domingo, 20 de setembro de 2020
OVILWA YANGE VOFELA (O MEU ASSOBIO AO VENTO) - 5
Meu irmão, minha irmã locutor/a e/ou jornalista de rádio, TV ou canal, hoje o assobio é consigo. Grassa cada vez mais nos produtos do género entrevista uma tendência de, já no ar, quem entrevista pronunciar mal o nome (só acontece quando é de matriz africana) e dizer ‘espero que tenha pronunciado bem o teu nome’, ao que depois completa com risada que julga ser simpática. No sentido inverso, esse/a entrevistador/a já não patina quando pronuncia nomes de estrelas de Hollywood ou do desporto. Ora, mesmo que não haja intenção ofensiva, e acredito que não há, isto passa uma mensagem a todos os títulos negativa a respeito do entrevistador: (1) falta de profissionalismo, pois os manuais recomendam fazer este tipo de acertos no tempo de bastidores, aquele que para um noticiarista é/era considerado espaço de criar vivência com o texto; (2) revela também algum vazio interior mais vaidade da parte de quem entrevista, culturalmente falando, um complexo de pouco se importar com o que a pessoa tem de cartão postal, neste caso o nome do entrevistado. Era suposto ter já acabado o preconceito colonial português de haver nomes bonitos (os bíblicos ou ocidentais) e nomes feios ou esquisitos; (3) por último mas não menos importante, convenhamos que convidar alguém para falar implica já dominar o motivo que o torna objecto de notícia. Alguns dirão, ah, o outro ou a outra não é obrigado/a a levar a coisa sério/a, afinal é apenas animador/a de rádio/TV/canal, não jornalista, destrinça que não faz diferença neste assunto. Esforcemo-nos, amadureçamos, mostremos consideração pela diversidade cultural. É o meu assobio de hoje ao vento por uma Angola melhor. Pandupandu
domingo, 13 de setembro de 2020
DOS DIAS SEM MANHÃS (poema inédito)
DOS DIAS SEM MANHÃS (poema inédito)
Da sanzala
Adianto esta noite meu bom dia
minha mãe
em caso de amanhecer sem manhã
Que há dias sem manhãs
mães sem ninhada
corpos sem vela
quando não velas demais
Amanhã pode ser um assim igual
Ainda do sonho sobressaltado
Calar é dos signos o pior em mim
Findo o berro, fim do laço
e tu sabes
Sempre o soubeste, minha mãe
“Ofeka yatungila cikale”, dizias
As costas incomodam o mundo
Um corcunda incomoda muito mais
Da panorâmica do quintal
Cá vamos, mãe, ainda estamos, obrigado
tem idade pré-escolar
o quase-abismo
desenhado no horizonte da incúria
maquete da curva apertada
No sangue e nos sonhos
Bem contabilizas, minha mãe
Cada perda que ganhei
Também já fomos ingénuos e felizes
Lá fora o fumo ainda é negro
Tanta Amazónia para pouco bombeiro
Ceifa estrídula diária
irrigada com os olhos
os enganos
as gentes
“Kombonge”
o meliante
o acidente
Tudo muito à flor da pele
Bom dia, alegria, na mesma, minha mãe
Não garanto é que haja manhã
A seguir a esta noite
Perdoa qualquer coisa, minha mãe.
Gociante Patissa | Benguela, 12 Setembro 2020 | www.angodebates.blogspot.com 🇦🇴
sábado, 5 de setembro de 2020
ACORDES GRISALHOS (poema inédito)
ACORDES GRISALHOS (poema inédito)
OVILWA YANGE VOFELA (O MEU ASSOBIO AO VENTO) - 4
Os aficionados do desporto têm motivos para celebrar com o anúncio oficial da conversão da Palanca Tv em canal desportivo da TPA no princípio do ano que vem. A projecção avançada é que o mesmo sirva de montra para a descoberta de talentos, principalmente. Respeitando todas as ideias e estratégias, não posso deixar de puxar a brasa para o parente pobre chamado cultura, considerando que povoar as 24 horas de emissão não será pouca tripa. Por que não o canal ser repartido entre o desporto e a cultura em termos de conteúdos de especialidade? O que sabe o aluno de Luanda sobre a vida dos khoisan? É que do ponto de vista da igualdade de circunstâncias, do mesmo jeito que Angola não tem uma indústria desportiva, também não tem o seu equivalente cultural (aqui entendido como abordagem mais substantiva do que o ku-duro e uma gama de futilidades costumeiras aos holofotes). Um país que seja unido pelo desporto (quase sempre o futebol) literalmente e que continua a desconhecer o mosaico etnolinguístico que o compõe... está longe de alcançar o sonho de nação. Portanto, a acreditar que a mediatização ajuda a criar, tanto vale para o desporto como para a cultura. Temos que o desporto volta a ser levado mais uma vez ao colo com a dedicação de um canal, depois da Rádio Cinco, do grupo Rádio Nacional de Angola. Será pelas receitas que se espera arrecadar com a publicidade ou porque, eventualmente, a experiência piloto que foi a Rádio Cinco produziu efectivamente algum fruto palpável? Acredito ser oportuno incentivar a interdisciplinaridade, evitando o modelo que transitou, que faz com que o espaço de opinião sobre o país seja reservado "apenas" a juristas, economistas, deputados e desportistas. É o meu assobio de hoje ao vento por uma Angola melhor. Pandupandu
OVILWA YANGE VOFELA (O MEU ASSOBIO AO VENTO) - 3
Falo para ti jovem, sobretudo o/a de família de baixa renda, com o/a qual mais me identifico em termos de percurso para afirmação social. Entendo a indignação por que passas dada a desesperança, a frustração pelo rumo do País e pelas oportunidades que demoram a chegar no que respeita à realização académica e profissional. Pensar o País urge, sempre urgiu, agora com a vantagem de haver um espaço de maior abertura para nos exprimirmos. Sem prejuízo disso, faço um convite: alarguemos o horizonte, invistamos o tempo na formação alternativa, na auto-superação, na visão além do corriqueiro, usemos o tempo dos memes para estudar línguas estrangeiras. Tens uma vantagem sobre o quarentão que te fala, a idade e margem de tomar decisões e roturas com determinados compromissos. Não tenho pretensão de coach nem de auto-motivador, julgo esse tipo de especialidade uma falácia e mania das grandezas, não havendo uma fórmula para mudar o que seja e que funcione do mesmo jeito para tudo e todos. O que trago para a tua reflexão é o alerta, a informação como comunicador inato que acredito ser. É que no meio desse futuro nebuloso, tem havido anúncios de bolsas de estudos periódicas, na sua maioria patrocinadas por representações diplomáticas, pelas petrolíferas e também pelo Estado angolano, pelo que devemos estar atentos e apanhar a oportunidade de candidatura no momento oportuno. Desta vez, segundo o jornal de Angola de hoje, o mecenas é a Embaixada Inglesa. Estou confortável em dizer que a pobreza e o inconformismo me levaram a dominar vários ofícios mas de uma coisa tenho a certeza: as melhores portas me foram abertas pelo domínio da língua inglesa que adoptei em auto-aprendizagem quando tinha ainda 14 anos, sem um kwanza para frequentar cursos. A pobreza é reversível, estudando, persistindo, pensando além do comum. É o meu assobio de hoje ao vento por uma Angola melhor. Pandupandu
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OVILWA YANGE VOFELA (O MEU ASSOBIO AO VENTO) - 2
O cinema angolano acaba de dar mais um passo valioso na internacionalização com a adesão do filme SANTANA à Netflix, uma realização de Maradona dos Santos. A plataforma representa uma incontornável montra na era do streaming que vivemos. Longe vão os tempos em que fazíamos filas para alugar uma cassete no vídeoclube ou nos dávamos ao trabalho de adquirir DVD, quem nunca comprou mambos piratas que levante a mão. Podemos discordar da temática, da estética, enfim, da identidade do produto (que a meu ver deixa a desejar) mas é preciso que a classe e o sector se unam e aproveitem a oportunidade para dominar os meandros do canal com vista a inserir outros produtos e sensibilidades artísticas na Netflix e outros festivais menos “comerciais” e menos Pop. Em todo o caso, é importante não nos envaidecermos com o feito agora alcançado, deixando-nos embandeirar em arco pelas métricas da visualização por país, como no outro dia ouvi, até porque poderá ser efeito da curiosidade em busca do novo, do estranho, do exótico ou do diferente, simplesmente. E já agora é esperar que quem visualizou não se tenha decepcionado com a tendência da mesmice holywoodiana . Se julgarmos que a Netflix é o apogeu, então sonhamos muito pouco. Como diz o meu chefe, há sempre espaço para melhorias. É o meu assobio de hoje ao vento por uma Angola melhor. Pandupandu![]()
OVILWA YANGE VOFELA (O MEU ASSOBIO AO VENTO) - 1
Continuo a sonhar o sonho platónico de evoluirmos para uma sociedade onde ao reconhecer o erro, as pessoas, individuais ou colectivas, façam isso mesmo, reconhecer, desculpar-se pelos efeitos e apontar a acção correctiva a levar a cabo, claro está, alinhando palavras e atitudes. É que o habitual, do institucional ao individual, provou até agora não ajudar no crónico resgate dos valores e uma sociedade melhor em termos de ética, isto é, a velha tautologia resumida em dizer-se que... “o outro até errou mais que eu”, “só não erra quem nada faz” ou então “como humano sou imperfeito”. É o meu assobio ao vento por uma Angola melhor. Pandupandu![]()
segunda-feira, 10 de agosto de 2020
Cultura angolana de luto, partiu WALDEMAR BASTOS
PERDEMOS. A figura que aparece em primeiro plano faleceu em Lisboa, Portugal, vítima de doença. Já não temos Waldemar Bastos,
prémio nacional de cultura e artes 2018 e dono de uma folha de serviço na criação e divulgação da nossa riqueza musical angolana.terça-feira, 14 de julho de 2020
Opinião. Meu repúdio por mais um óbito pelas mãos das forças da ordem
1. Porque me obriga a consciência de cidadão e agente de mudança social no campo das letras, venho expressar mais uma vez o vivo repúdio face aos actos que redundam em excessos das forças da ordem, policiais ou militares, na sua abordagem com populares. Situo no meu entendimento ao falar em uso excessivo de força um quadro de meios e perícia injustificado ou desproporcional a uma determinada circunstância.
2. A sociedade angolana segue chocada o ascendente trágico de mortes causadas pelas forças da ordem. A vítima mais recente é o jovem José Kilamba Rangel, baleado por um agente da Polícia Nacional que patrulhava o Bairro do Prenda, em Luanda, no quadro do Decreto Presidencial que reforça as medidas de prevenção da Covid-19. Um outro jovem, que ia em companhia do falecido, sobreviveu ao tiro no ombro.
3. Segundo o porta-voz do Comando provincial de Luanda, Nestor Goubel, citado pela Lusa, o incidente ocorreu por volta das 02h00, quando os jovens "se insurgiram contra a Polícia e na tentativa de os afastar, um agente acidentalmente disparou".
4. Cada cidadão contribui para o bem-estar e segurança da nossa Angola, mas tenho consciência do respeito acrescido que nos merecem as forças da ordem, que enfrentam por inerência das suas actividade situações de perigo e dormem longe do conforto dos seus lares. Também não fui militar nem alguma vez adquiri a perícia de manejar armas.
5. Seja como for, recuso-me a acolher a recorrência de tiros acidentais ou então que não haja outras formas de dissuadir o "desacato às autoridades" senão pela neutralização letal do "alvo". A própria Polícia já nos habituou a ver louváveis exemplos de contenção, pedagogia e humanismo. O papel do polícia não pode ser o de matar (fácil), do mesmo jeito que o papel do juiz não se pode limitar a condenar.
6. Os números de vidas perdidas à bala da Polícia, só nestes quatro meses, andam acima de 65% dos óbitos causados pela Covid-19, que temos todos o compromisso de prevenir e combater. Não deixo de lamentar as mortes e de me solidarizar com as famílias de agentes e militares mortos por meliantes e cidadãos de conduta errónea.
7. Exmo. Senhor Ministro do Interior, ensina-nos a ciência a prestar atenção aos fenómenos sociais e aferir as causas determinantes e condicionantes, sob pena de continuarmos a perder tempo, neste caso vidas, com a superfície. Porque será que os tiros de efeito psicológico, admitindo o seu uso como recurso extremo necessário, tendem a ser apontados ao corpo e não para o ar? Sabendo que, matando, o autor é punido com penas pesadas, os agentes não deviam estar sensibilizados do contrário?
8. Termino reforçando o apelo para se investir no acompanhamento psicossocial e aquisição de coletes anti-bala para os nossos agentes. Seria grave ouvirmos algum dia que afinal se andou a matar por... pânico.
Gociante Patissa (escritor). www.angodebates.blogspot.com
|Benguela, 14 Julho 2020
Imagem: site do minint











