domingo, 17 de fevereiro de 2019

(arquivo) Diário | E você me diz que não pode atender porque está na reforma ou aposentado ou sei lá o quê?!


“Desculpa, só doutor. Mas o doutor assim vai aonde com a sala cheia de doentes?!”
“Oh, dona Penina! Que bons olhos a vejam. Como vai a saúde?”
“Bem, bem, não vai. O marido está combalido desde a madrugada. Mas ainda responda só, faz favor, doutor. Então já passam duas horas desde que as pessoas tiraram os sinais vitais, e o doutor ainda tem a coragem de passar pelo corredor, sem bata, tipo vai sair? É assim mesmo que vamos melhorar este país?!”
“Ah, olha só… Vejo que não sabia. Chegou a época do descanso do guerreiro. Foram quarenta anos a dar o litro desde aqueles difíceis tempos de guerra e de carência. Olha, finalmente chegou a minha reforma, já estou há quase uma semana em casa… Vocês ficam em boas mãos…”
“Não pode!!!”
“Não percebi. É exclamação de apoio ou é mesmo uma espécie de proibição, ó dona Penina?”
“Mas o doutor não é médico?”
“Sim. E trabalhador como outros…”
“Você vai-me desculpar, mas assim também não vai dar!!! O meu marido está quase a morrer, por vossa negligência, e você me diz que não pode atender porque está na reforma ou aposentado ou sei lá o quê?!”
“Não posso fazer nada, minha senhora, estou reformado…”
“Reformado como, se você é nosso médico, e nós ainda não morremos, amanhã ou depois estamos sujeitos a precisar dos teus préstimos?! Qual é a pressa, hã?! Não há reforma nenhuma, pá!”
“Tem que entender. Já há um novo médico para me substituir…”
“E ele por acaso conhece o nosso passado, os problemas da nossa família? Doutor, estou a avisar! Daqui o senhor só sai por cima do meu cadáver! Esse homem tem que me sair daqui atendido e muito bem medicado, não quero só confusão!!! Quer dizer, essa tal sua reforma assim é mais importante do que a saúde do meu marido, que também deu toda a sua vida por esse país?!”
“Não pode colocar as coisas nestes termos, dona Penina. Eu não posso interferir no poder do novo médico. Só vim assinar os últimos papéis.”
"Doutor, última palavra, juro mesmo! Se o meu marido morrer nessas frescuras sindicais, ah porque estou reformado, fionkofionko, esta cidade vai ter duas viúvas, com tua, OK?!”

www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa | Catumbela, 07.05.2018
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